sexta-feira, 22 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Lula precisa de feitos, não de comunicação

Folha de S. Paulo

Datafolha mostra que se esvaiu saldo entre aprovação e reprovação ao petista; governo deveria cuidar do Orçamento

Pesquisa realizada pelo Datafolha detectou alguma piora da avaliação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A queda do prestígio do presidente é mais notável no saldo entre avaliações positivas e negativas.

Em dezembro, a parcela do eleitorado que considerava o governo Lula ótimo ou bom atingia 38%; no levantamento deste março, são 35%. Já aqueles que avaliam a gestão como ruim ou péssima passaram de 30% para 33%.

Trata-se, a rigor, de variações no limite da margem de erro da pesquisa. A diferença entre aprovação e reprovação, entretanto, caiu de 8 pontos para meros 2 pontos percentuais —no melhor momento de Lula 3, em junho de 2023, o saldo chegava a 10 pontos.

Fernando Abrucio* - Bolsonaro é o Brasil autoritário

Valor Econômico

O ‘mau soldado’ que começou a vida pública planejando um atentado nunca deixou de elogiar a ditadura e torturadores, e as elites políticas nunca deram um basta nesse comportamento

Todo mês de março vem a lembrança do golpe de 1964. Desta vez, sua fatídica realização completa 60 anos. Pensar sobre esse ato é recordar de um regime que por duas décadas sufocou a liberdade, torturou e matou inimigos políticos. O Brasil tem, hoje, o maior período democrático de toda sua história, mas o autoritarismo ainda não foi banido de vez de nossas práticas políticas e sociais. A trajetória política de Bolsonaro, especialmente nos últimos anos, é a melhor síntese dessa batalha inconclusa, certamente com avanços, mas enfrentando ainda grandes desafios na tentativa de banir a lógica autoritária.

Falar de autoritarismo significa lidar com três formas de manifestação desse fenômeno. A primeira é a mais evidente e diz respeito ao funcionamento das instituições. Eleições livres e competitivas, separação e controle mútuo dos Poderes, salvaguardas federativas dos estados e municípios, bem como a garantia institucional dos direitos dos cidadãos, inclusive os que representam minorias políticas ou sociais, são os principais elementos de uma democracia. Foi aqui que o Brasil avançou mais, com um sistema político que pode estar longe de ser perfeito, mas que foi fundamental para evitar um novo golpe de Estado em 2022. Mas será que nossa institucionalidade preservaria o regime democrático com um novo Bolsonaro ou a volta dele ao poder?

Se houve a possibilidade da quebra democrática com Bolsonaro, é porque algumas lideranças políticas e sociais supõem que se possa rasgar a Constituição e organizar a tomada ilegal do poder. Essa é uma segunda camada do autoritarismo, que envolve as crenças e práticas de atores e instituições estratégicas, como as Forças Armadas, a classe política, juízes, empresariado e líderes sociais de cunho secular ou religioso, para ficar nos principais grupos. Instituições não se movem sozinhas e como as elites e políticos atuam sobre elas é um aspecto-chave para a consolidação democrática.

José de Souza Martins*- O fim de ciclo político?

Valor Econômico

A coragem dos processos, dos inquéritos e das comissões parlamentares de inquérito podem restituir ao Brasil a soberania que o autoritarismo usurpador substituiu pela técnica antidemocrática das “fake news” e da boçalidade

O levantamento do sigilo de numerosos depoimentos de civis e militares ouvidos no processo da tentativa de golpe de Estado de Jair Bolsonaro e seus ajudantes aparentemente fecha um ciclo de tensões e impasses políticos que teve início na circunstância da renúncia do presidente Jânio da Silva Quadros, em 1961.

Aquele foi um período agudo da Guerra Fria e da hegemonia americana na América Latina, sobretudo como consequência da Revolução Cubana. Uma revolução que não era comunista, mas movida pelo afã moral e político de completar a independência do país e libertá-lo da condição de cassino e prostíbulo de Miami.

Os americanos cometeram o grave engano político de irritarem-se com o atrevimento dos cubanos liderados por Fidel de se libertarem da dominação do que havia de pior no capitalismo de periferia. Decretaram o boicote aos produtos da ilha e negando-lhes até mesmo fornecimento de remédios. Aos revoltosos não restou alternativa senão a de aliarem-se aos russos e ao risco da guerra nuclear.

Os países latino-americanos tiveram seu destino alterado pela polarização entre EUA e URSS. Situação descabidamente persistente na melancólica ascensão do bolsonarismo. E no mais melancólico governo que resultou de técnicas antipolíticas de criação de fantasias que convencessem a grande massa da população brasileira partidarizável, mas não politizada, de que o país estava à beira do abismo vermelho.

César Felício - PSDB e PDT, sozinhos, rumam para o abismo

Valor Econômico

Encolhem a tal ponto, que a sobrevivência de ambos à cláusula de barreira em 2026 já é posta em dúvida

Dois partidos que costumam ter o que dizer nos processos eleitorais brasileiros parecem estar rumo ao abismo, na janela das filiações partidárias para participar da disputar da eleição municipal, que se encerra em outubro. Encolhem em praça pública o PSDB e o PDT, especialmente o primeiro, a tal ponto que a sobrevivência de ambos à cláusula de barreira em 2026 já é posta em dúvida por outros caciques partidários, que pressentem o cheiro de sangue. Não por outro motivo os dois partidos começaram as negociações para uma federação a curto prazo.

Maria Cristina Fernandes - Falso sumiço de móveis desafia presidente a se fiar no real sentido da polarização

Valor Econômico

Desgaste, que já seria inevitável, é potencializado pelas pretensões eleitorais de Michelle Bolsonaro

“Descobrimos que o crucifixo é dele mesmo. Recebeu de presente. Pqp. Matérias furadas na internet”. Esta mensagem saiu às 17h44min do dia 9 de março de 2016 do celular do ex-procurador federal Deltan Dallagnol para seu colega Orlando Martello.

Chegava ao fim, dessa maneira, uma das histórias mais dramáticas da Lava-Jato, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi acusado de furtar um crucifixo, supostamente de Aleijadinho, do gabinete da Presidência no Palácio do Planalto.

Se a Lava-Jato foi atrás de uma “fake news”, o presidente Lula a produziu, na precipitação de relacionar o casal Bolsonaro ao sumiço de móveis do Palácio do Alvorada. O bolsonarismo sapateia em cima do caso. O ex-presidente diz que seu sucessor fez uma falsa comunicação de furto e a ex-primeira dama diz que a acusação foi uma cortina de fumaça para a compra de móveis sem licitação. A Presidência gastou R$ 200 mil para repor os móveis que só agora foram encontrados.

Luiz Carlos Azedo - Política externa virou eixo de disputa com oposição

Correio Braziliense

Os ventos também mudaram em Washington, porque a inação de Biden em relação a Israel começa a ter repercussão eleitoral e dividir as opiniões dos democratas

Por força de diversas contingências, que ainda estão em movimento, e da diplomacia pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que parece enrijecida, a política externa brasileira perdeu consenso nacional e se tornou um dos eixos de disputa da oposição com o novo governo, ao lado de outros temas como segurança pública, educação, saúde e costumes, para citar os mais em evidência.

No caso da política externa, o fato novo é a ida dos governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), e de Goiás, Ronaldo Caiado, a Israel para hipotecar solidariedade ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com o qual posaram sorrindo, na terça-feira, num contraponto aberto à política externa brasileira. Nesta quinta-feira, ao lado dos governadores brasileiros, o ministro das Relações Exteriores israelense, Israel Katz, aproveitou a presença de ambos para novamente classificar como “antissemita” a fala do presidente Lula comparando a morte de civis em Gaza ao Holocausto. Os dois gestores visitaram Israel a convite de uma ONG e de empresários brasileiros.

Eliane Cantanhêde - É pra rir ou pra chorar?

O Estado de S. Paulo

A economia e o governo até vão bem, o que vai mal é o presidente, que fala muito e mal

É bem possível que os ministros não entendam nada de comunicação, mas o grande problema do governo não é esse, mas, sim, que o presidente Lula se comunica excessivamente e mal, dando uma bola fora atrás da outra. As duas últimas vindo a público são a história do sumiço de 261 móveis, obras e objetos do Alvorada e a notícia de que, ora, ora, o governo Lula decreta cem anos de sigilo para 1.339 pedidos de informação, como Bolsonaro fazia, sob chuvas de protestos.

Vera Magalhães - Governo derrapa em decifrar eleitor-esfinge

O Globo

A percepção a respeito do governo parece sofrer com uma desconfiança geral a respeito de qual o projeto de Lula para o país

Lula começou a semana cobrando que seus ministros entreguem e falem mais, admitindo que o governo está perdendo a batalha da comunicação, sobretudo no ambiente digital, mas ontem resolveu se lembrar de um antigo culpado de sempre quando qualquer governante enfrenta problemas de popularidade: a imprensa.

Se alguma crítica pode ser feita ao jornalismo na gestão Lula 3 é a oposta: os arroubos golpistas de Jair Bolsonaro, os ataques sistemáticos do ex-presidente e de seus apoiadores à imprensa, à ciência, à cultura, ao meio ambiente e aos direitos humanos, entre outros, talvez tenham feito a cobrança aos novos ocupantes do poder demorar mais e adotar um tom bem mais ameno que em governos anteriores, de diversos partidos, inclusive do próprio PT.

Para além de ironizar a “gloriosa imprensa democrática”, portanto, caberia ao presidente entender o que os números das pesquisas mostram. Só a comunicação ineficaz não parece dar conta de explicar por que aqueles que aprovam e os que repelem o governo Lula são em praticamente igual número, uma vez que a economia —que costuma ser o principal vetor de humor da população — vai bem como há anos não ia.

Bernardo Mello Franco - O ministro e a sobrevivente

O Globo

Um dia depois de anunciar que a delação de Ronnie Lessa foi homologada, o ministro Ricardo Lewandowski recebeu a única sobrevivente do atentado que matou a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes.

Assessora do PSOL, Fernanda Chaves acompanhou deputados do partido em audiência com o ministro. “Ele não me conhecia. Ficou claramente impactado quando me apresentaram”, conta.

“Comecei dizendo que a homologação foi a notícia mais importante desde a prisão dos dois executores. Sobretudo para quem acompanha este processo como vítima de tentativa de homicídio e sobrevivente”, afirma.

Fernanda relatou a Lewandowski que o atentado de 2018 mudou sua vida para sempre. “Quando você não sabe de onde veio, não sabe do que se proteger”, explica. “Saber que um dos investigados tem foro no STF me causa ainda mais ansiedade, já que trabalho há anos no meio político. Isso significa que circulo entre figuras que podem estar comprometidas no crime.”

Flávia Oliveira - Salve o almirante negro

O Globo

Não é inédito no Brasil que a cultura faça por grandes figuras o que a História, a Justiça, o Estado não fizeram

Coube à escola de samba carioca Paraíso do Tuiuti no carnaval 2024 a mais recente homenagem a João Cândido Felisberto. Num ato adicional de reparação, o carnavalesco Jack Vasconcelos escalou o entregador Max Angelo dos Santos para encarnar o líder da Revolta da Chibata (1910) no segundo dia de desfiles do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí. Mais de um século depois do motim de marinheiros contra castigos físicos aplicados pela Marinha em plena República, o morador da Rocinha foi chicoteado com uma coleira de cachorro por uma madame de São Conrado, bairro limítrofe à comunidade. Resquícios de um país forjado na escravidão.

A ex-jogadora de vôlei Sandra Mathias Correia de Sá foi indiciada pela Polícia Civil por lesão corporal, injúria e perseguição em junho de 2023, dois meses depois da agressão. A justiça que falhou a Max nos tribunais brotou na folia. No desfile do Tuiuti, o entregador veio ao leme da alegoria Dragão do Mar, um navio estilizado que, ao mesmo tempo, relembrava a revolta na Baía de Guanabara e homenageava Chico da Matilde, líder jangadeiro e ícone do movimento abolicionista do Ceará, primeira província brasileira a pôr fim à escravidão, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea.

Fabio Giambiagi - Um sistema disfuncional

O Globo

Sem isso, será difícil escapar da trajetória de mediocridade que tem sido nossa sina há vários anos. No longo prazo, é uma tragédia

Um dos temas sobre os quais os aspirantes a economistas se debruçam na faculdade é a análise do papel dos incentivos. Observe-se algo que funciona mal na economia e, muito provavelmente, haverá um erro de concepção no que os economistas chamamos de “desenho de incentivos”.

Isto não é algo difícil de entender para o leigo. Pensemos na educação de um filho. Se uma criança mal comportada não tiver limites claramente colocados pelos seus pais e, na juventude, continuar fazendo estripulias cada vez piores, vendo sempre como seus pais “passam o pano” diante do seu comportamento inaceitável, esse futuro adulto será provavelmente um péssimo cidadão, mal-educado e, eventualmente, violento.

André Roncaglia* - Voracidade

Folha de S. Paulo

Mercado usa 'racionalidade técnica' superada para disfarçar compulsão extrativista

No artigo da semana passada, mostrei como a lógica de mercado disfarça suas compulsões extrativistas com uma "racionalidade técnica" já superada.

Ao igualar qualidade institucional à autonomia em relação ao governo, a cartilha financista ignora os efeitos duradouros e profundos de o mercado distorcer os objetivos das empresas.

A financeirização das três principais gestoras de recursos naturais do país (Petrobras, Eletrobras e Vale) restringe sua utilidade social à capacidade de distribuir lucros aos acionistas, ao sabor dos ciclos globais de commodities. A Petrobras (2022) e a Vale (2021) estavam entre as maiores pagadoras de dividendos do planeta.

Entre 2019 e 2022, a gestão "técnica" da Petrobras alterou a fórmula de remuneração dos acionistas e despejou mais de R$ 330 bilhões na forma de dividendos, com vultosa venda de ativos, como refinarias, fábricas de fertilizantes e sua rede de distribuição.

Vinicius Torres Freire - Pesquisa nova, ideias velhas

Folha de S. Paulo

Avaliação reduzida de Lula sugere que prática política vive em país e cultura do passado

O eleitorado continua grosso modo dividido em terços quanto à nota que dá a Luiz Inácio Lula da Silva. A parcela daqueles que avaliam Lula 3 como "ótimo/bom" é praticamente a mesma daqueles para quem o governo é "ruim/péssimo". É o que diz o Datafolha.

O empate aparece também em outras pesquisas realizadas desde fins de fevereiro. A baixa do prestígio começou depois da metade do ano passado. Mas é muito mais pronunciada e ocorreu na maior parte em 2023 nas pesquisas Quaest e Ipec do que no Datafolha e na Atlas. E daí? Tem-se dado importância excessiva ao assunto?

Não, parece razoável dizer. Baixas de avaliação costumam diminuir a margem de manobra política do governo. A situação fica um tanto mais difícil em um tempo de contraposição extremada das preferências de voto para o Executivo ("polarização"), de volatilidade da opinião pública (também por causa de redes sociais e de guerras culturais e de propaganda), de revolta "contra o sistema" e por causa do fato óbvio de que o governo Lula é muito minoritário no Congresso, tanto em termos de número de parlamentares quanto de preferências ideológicas —as forças sociopolíticas do país mudaram muito.

Bruno Boghossian - Soluços de popularidade

Folha de S. Paulo

Pesquisa do Datafolha mostra presidente longe de momento crítico, mas variações de humor merecem atenção do governo

Lula anda impaciente com sua popularidade. Cobrou mudanças na comunicação do governo e mandou ministros divulgarem suas ações em viagens pelo país. É um remédio contra soluços. Pode funcionar, mas novos espasmos tendem a aparecer.

A mais recente pesquisa do Datafolha mostra que o presidente está longe de um momento crítico. O país continua dividido em três terços, e o quadro de polarização permite poucas mudanças drásticas. Alguns detalhes, no entanto, apontam para uma variação de humores que exige atenção do governo.

Hélio Schwartsman - Putin quântico

Folha de S. Paulo

Autocrata russo tem admiradores tanto na esquerda como na direita, incluindo Lula e Bolsonaro

Demorou um pouco, mas Lula cumprimentou Vladimir Putin por sua vitória no pleito presidencial do último domingo (17), no qual obteve mais de 87% dos votos. O PT foi além e classificou a eleição como "feito histórico". Outros países que parabenizaram o autocrata russo são Irã, Venezuela e Coreia do Norte. EUA, Reino Unido e Alemanha preferiram questionar a lisura do processo eleitoral, que não foi nem livre nem justo.

Não acho que o Brasil deva se comportar como um vingador justiceiro nas relações internacionais. Esse é um campo em que os interesses do país devem dar a tônica. O Brasil não precisa romper com todas as ditaduras do planeta porque são ditaduras, mas tampouco precisa bajular líderes com amplo histórico de violações de direitos humanos. O pleito russo teria sido uma ótima ocasião para o Brasil permanecer calado.

Thomas L. Friedman* - Netanyahu tornou Israel radioativo pelo modo como conduz guerra em Gaza

Folha de S. Paulo

Israelenses e palestinos precisam de líderes motivado pela consciência de sua interpendência, mas ambos não os têm

Atualmente, Israel está correndo um grande perigo. Com inimigos como o Hamas, o Hezbollah, os houthis e o Irã, Israel deveria contar com a simpatia de grande parte do mundo. Mas não conta.

Devido à maneira como o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e sua coalizão extremista têm conduzido a guerra na Faixa de Gaza e a ocupação da Cisjordânia, o país está se tornando radioativo, e as comunidades judaicas da diáspora em todos os lugares estão cada vez mais inseguras. Temo que a situação esteja prestes a piorar.

Nenhuma pessoa justa poderia negar a Israel o direito de autodefesa depois que o ataque do Hamas em 7 de outubro matou cerca de 1.200 israelenses em um dia.

Mulheres foram abusadas sexualmente; crianças foram mortas na frente de seus pais, e pais, na frente de seus filhos. Dezenas de homens, mulheres, crianças e idosos israelenses sequestrados ainda são mantidos como reféns em condições terríveis.

Mas nenhuma pessoa justa pode olhar para a campanha israelense para destruir o Hamas, que já matou mais de 31 mil palestinos em Gaza, cerca de um terço deles combatentes, e não concluir que algo deu terrivelmente errado lá.

Cláudio Carraly* - A Bela Arte do Procrastinar

A procrastinação, essa dança intrincada entre a intenção e a inação, é uma habilidade refinada pelos seres humanos ao longo das eras, muitas eras, logico, porém, que se não tivessem procrastinado tanto com certeza teriam realizado bem antes, mas vamos ao tema. Essa proeza que desafia a lógica e testa os limites do bom senso, imagine um mundo onde as grandes obras-primas foram procrastinadas até a irrelevância, onde os planos grandiosos foram adiados até se perderem na obscuridade, em meio a um mar de boas intenções, os procrastinadores habilidosos dançam com a arte de procrastinar com uma graça digna de uma coreografia elaborada, são mestres em adiar o inevitável, transformando prazos iminentes em meras sugestões, a procrastinação não é apenas um comportamento, é uma forma de expressão, uma verdadeira expressão artística, uma declaração audaciosa contra a tirania dos cronogramas e a ditadura dos prazos.

Poesia | Soneto do Desmantelo Azul, de Carlos Pena Filho

 

Música | Dorina e Luiz Carlos da Vila - O Sonho não se Acabou (Luiz Carlos da Vila e Adilson Victor)

 

quinta-feira, 21 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Conclusão da reforma tributária preocupa

Folha de S. Paulo

Passados 90 dias desde a promulgação da emenda, não há sinal de projeto do governo ou das principais forças políticas

A aprovação da emenda constitucional da reforma tributária foi justamente celebrada como um feito histórico no ano passado. Entretanto é necessário lembrar que, sem uma regulamentação politicamente difícil, o novo sistema de impostos não sairá do papel —e o andamento desse processo suscita preocupações agora.

O Congresso promulgou a mudança na Carta em 20 de dezembro de 2023. O texto abre caminho para que a tributação do consumo de bens e serviços, excessiva e socialmente injusta no Brasil, torne-se ao menos mais simples e eficiente economicamente.

Passados 90 dias, porém, nada andou. Inexiste projeto do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ou proposta acordada entre as principais forças políticas do país, para colocar em prática a reforma. Sem isso, tudo fica como está.

Luiz Carlos Azedo - Recordações da distensão — o estudante desaparecido

Correio Braziliense

Faculdade de Direito de Niterói concedeu o título de bacharel a Fernando Santa Cruz. E propôs ao Conselho Universitário que lhe agracie com o título de Doutor Honoris Causa

Eleito deputado federal pelo antigo estado da Guanabara, em 1970 e 1974, o jurista e político carioca Célio Borja passou a representar o novo estado do Rio de Janeiro a partir de 15 de março de 1975, após a fusão dos dois, por força de lei sancionada no governo Ernesto Geisel, cujo objetivo era reequilibrar a balança geopolítica do país com São Paulo. No projeto nacional-desenvolvimentista do então presidente Geisel, o Rio de Janeiro seria a capital do setor produtivo estatal, pois abrigava a sede das mais importantes empresas públicas do país — entre as quais a Petrobras, a então Vale do Rio Doce, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Embratel, o BNDE (não tinha o S) e o BNH (antigo Banco Nacional de Habitação).

Enquanto o ministro do Planejamento da época, João Paulo dos Reis Veloso, articulava o tripé do ambicioso II Plano Nacional Desenvolvimento de Geisel — setor estatal, empresários brasileiros e multinacionais —, caberia a Borja liderar a bancada da Arena na Câmara Federal e dar continuidade ao projeto de “distensão lenta, gradual e segura” — que havia sido abalado pela espetacular vitória do MDB, o partido de oposição, nas eleições de 1974.

Merval Pereira - Contraponto importante

O Globo

A Justiça espanhola passou a percepção de que os ricos que podem pagar uma fiança tão alta têm vantagens sobre os cidadãos comuns

O Superior Tribunal de Justiça (STJ), ao definir por maioria que o ex-jogador de futebol Robinho terá de cumprir no Brasil a pena de nove anos a que foi condenado na Itália por ter participado de um estupro coletivo, marcou um contraste positivo para a Justiça brasileira diante de outra decisão, da Justiça espanhola, que deu direito a outro ex-jogador brasileiro, Daniel Alves, de recorrer em liberdade da condenação, também por estupro, porque aceitou pagar uma fiança de € 1 milhão.

A Justiça espanhola passou a percepção de que os ricos que podem pagar uma fiança tão alta têm vantagens sobre os cidadãos comuns, ainda mais depois que outros € 150 mil já pagos ajudaram a reduzir sua pena. Robinho tentou usar a carta do racismo a seu favor, mas, ao contrário, quem teria sido beneficiado por um privilégio odioso seria ele próprio se a Justiça brasileira, na tentação de proteger um ídolo caído, tivesse aceitado a tese de que a vítima era ele.

Míriam Leitão - BC: a falta que faz um plural

O Globo

Copom avisa que outro corte de meio ponto só ocorrerá mais uma vez, mas a inflação baixa e a atividade não justificam isso

Em vez de dizer que fará cortes da mesma magnitude “nas próximas reuniões”, o Banco Central escreveu que é apenas “na próxima reunião”. O plural fez falta. Ninguém tinha dúvidas de que o Banco Central reduziria a taxa de juros em meio ponto, para 10,75%. A dúvida estava no comunicado e ele veio com essa novidade. Avisou que o ritmo de queda pode ser reduzido. Em 8 de maio, a taxa deve cair para 10,25%. Mas, em junho, a queda será menor que meio ponto. Se cumprir isso estará na seguinte situação, exatamente em junho quando se espera que o FED reduza os juros, o BC brasileiro pode estar fazendo o movimento no sentido contrário. “É um erro fazer essa mudança agora”, avalia o economista José Roberto Mendonça de Barros. “Tem muito chão para baixar a Selic mesmo que não chegue a 9%”.

Malu Gaspar – Marielle e Lucinha

O Globo

Nesta semana, o ministro da JustiçaRicardo Lewandowski, convocou a imprensa para anunciar que a delação premiada do ex-PM Ronnie Lessa, assassino de Marielle Franco e Anderson Gomes, foi homologada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STFAlexandre de Moraes.

Com uma expressão vitoriosa, Lewandowski afirmou que a delação “traz elementos importantíssimos que nos levam a crer que em breve teremos a solução do assassinato”. E mais não disse, nos parcos minutos em que ocupou o microfone.

A notícia gerou uma onda de otimismo com a perspectiva de, finalmente, sabermos quem mandou matar Marielle e por quê. É um alento para os familiares, para os amigos e também para a sociedade brasileira, especialmente considerando o que ocorreu no país depois do crime mais emblemático de nossa História política recente.

Maria Cristina Fernandes - Combustão bolsonarista deixa um vácuo

Valor Econômico

Rio se transformou no laboratório das dificuldades deste governo em ocupar os espaços abertos pela crise do bolsonarismo

O Rio se transformou no laboratório das dificuldades deste governo em ocupar os espaços abertos pela combustão do bolsonarismo. Da crise na saúde ao cerco sobre a milícia, a semana foi pródiga em exemplos. O indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela suspeita de fraude no programa nacional de imunizações deveria evidenciar o contraste com uma gestão de devotos do SUS. Só que não.

Na sexta passada, a ministra Nísia Trindade publicou uma portaria criando um comitê gestor dos hospitais federais do Rio. Estava, na prática, criando uma instância acima do departamento que passou a centralizar as compras das unidades hospitalares, fatura que chega a R$ 1 bilhão por ano. Determinada por uma portaria assinada em 23 de fevereiro e publicada cinco dias depois, a centralização retomava uma prática de governos anteriores do PT, descontinuada nas gestões Temer e Bolsonaro, quando os hospitais federais passaram para a algibeira do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Mas não apenas.

Jan-Werner Mueller* - A ‘zumbificação’ dos partidos políticos

Valor Econômico

Transformar seu partido em uma autocracia é um primeiro passo lógico para também transformar seu país em uma

Entre seus atos finais como presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC), Ronna McDaniel, pediu aos seus colegas que apoiassem as duas pessoas escolhidas por Donald Trump para substituí-la. Após aplausos efusivos, ela anunciou que nem se daria ao trabalho de perguntar se havia algum “não”. Foi um momento revelador: os procedimentos destinados a garantir um processo democrático dentro do partido foram totalmente substituídos pela aclamação.

Trump não é o único líder populista de extrema direita a ter subjugado um partido político à sua vontade. O sequestro da máquina de um partido é um padrão comum entre os populistas e aspirantes a autocratas, e a história mostra que isso pode ter consequências realmente terríveis para um sistema político democrático. Afinal, transformar seu partido em uma autocracia é um primeiro passo lógico para transformar seu país em uma autocracia.

William Waack - Bolsonaro beira o autoengano

O Estado de S. Paulo

As defesas ‘técnica’ e ‘política’ do ex-presidente enfrentam enormes obstáculos

É altíssima a probabilidade de Jair Bolsonaro ter a prisão decretada em futuro não distante. As duas linhas de defesa enfrentam barreiras formidáveis, e o principal problema é ele mesmo.

A defesa “técnica” acha que os inquéritos da Polícia Federal contêm erros de origem, como afirmar que a falsificação de cartões de vacina seria passo rumo ao golpe de Estado. Mas os investigadores apresentaram no caso específico dos cartões de vacinação um conjunto bem detalhado que vai dar trabalho para sua equipe de criminalistas.

No âmbito “técnico” da acusação de tentativa de golpe de Estado, a defesa enfrenta depoimentos contundentes de ex-comandantes das Forças Armadas que falaram como testemunhas – pesam mais do que delações. Supõe-se que a PGR montará uma peça única de denúncia, compondo com os tais cinco eixos de atuação dos investigadores um “conjunto da obra”, que vai de joias e vacinas a golpe de Estado.

Eugênio Bucci* - Consumindo Cuba

O Estado de S. Paulo

Se o país hoje desliza para o malogro, desliza menos porque perdeu um embate político e mais por ter deixado de ser objeto do desejo das massas consumidoras internacionais

Frequentadores habituais de Havana reconhecem que a ilha de Fidel Castro enfrenta a sua pior crise. Quase tudo se esvai. Da revolução que tomou o poder em 1959, quando os guerrilheiros de Sierra Maestra marcharam sobre as ruas da capital sob os aplausos de um povo sorridente e esperançoso, resta pouco além de repartições burocráticas, escassez generalizada e gabinetes de vigilância política.

Os maiores entusiastas dessa longa história de arrebatamentos sabem disso. “É desesperador. Ninguém em Havana aponta saídas”, declarou Frei Betto ao jornalista Mario Sergio Conti (Folha de S.Paulo, 1.º de março). O frade dominicano, autor do best seller Fidel e a Religião (Editora Brasiliense, 1985), traduzido em mais de 30 países, inclusive em Cuba, é uma celebridade local. Basta ele sair por las calles para que venha alguém puxar assunto. O afeto ainda é o mesmo, o calor do olhar e dos abraços ainda aquece, mas os sorrisos perderam o brilho, a esperança minguou e os aplausos escassearam. Nas palavras de Conti, Cuba está “sem futuro à vista”.

Maria Hermínia Tavares - As pesquisas e seus usos

Folha de S. Paulo

Interpretação dos números requer mais do que palpites

Três institutos de pesquisa de opinião registraram queda na aprovação do governo do presidente Lula. Os resultados são inquestionáveis; já sua interpretação requer mais do que palpites, ainda quando bem-informados. Sendo as sondagens —vá lá o chavão— retrato dos humores do momento, convém apreciá-las na sequência de outros levantamentos ao longo do tempo e cotejá-los com avaliações similares de governantes de outras democracias.

É o que sustentou o sociólogo Antonio Lavareda, tarimbado analista da matéria, no podcast "O Assunto É", no ar desde a semana passada sob o comando da jornalista Natuza Neri.

Baseado em estudo do Ipespe Analítica, ele apontou que, em conjunto, os 37 levantamentos de diferentes institutos desde fins de janeiro de 2023 revelam oscilações em torno dos 50% de aprovação, indicando ser bastante estável a atitude dos brasileiros em relação ao governo. E, por retratar a opinião da população adulta, é de fato superior à margem de votos com os quais Lula venceu Bolsonaro em 2022.

Vinicius Torres Freire - Aas ideias políticas de ‘o mercado'

Folha de S. Paulo

Gente da finança tem avaliações muito equivocadas sobre o problema fiscal do país

A "opinião" mais importante de "o mercado" é aquela que aparece nos preços dos ativos financeiros, nos movimentos de compra e venda: no dinheiro.

Para simplificar, é aquele pensamento, por assim dizer, que se manifesta objetivamente nas taxas de juros dos empréstimos para o governo, na taxa de câmbio ("preço do dólar"), no preço das ações e outros menos cotados ou de impacto mais discreto.

Não tem lá muita relevância prática a opinião política dessas pessoas que administram ou assessoram a administração do dinheiro mais ou menos grosso, afora em casos específicos de lobby pesado de gente pesada.

Fernanda Torres - Vontade

Folha de S. Paulo

Flerta-se com a possibilidade do extermínio sumário das nossas Faixas de Gaza

Li "Guerra e Paz" tardiamente, intimidada tanto pelas mais de 1.500 páginas da obra-prima de Tolstói quanto pelo glossário de nomes, sobrenomes e apelidos do romance.

O príncipe Nicolai Andreiévitch Bolkónski pode aparecer como o Príncipe, ou Nicolai, ou Andreiévitch ou Bolkónski; pai de outro príncipe, Andrei, também Bolkónski, que além de atender pelas mesmas alcunhas do genitor, volta e meia é chamado de Nicolaiévich, filho de Nicolai.

Para não se perder no enredo, é aconselhável ter uma tabela periódica dos personagens à mão. Uma vez vencida a dificuldade, no entanto, "Guerra e Paz" se revela um daqueles amigos inesquecíveis, dos quais o leitor sente saudade mesmo antes de virar a última página.

O que a minha ignorância não contava era que, ao fim da saga, Tolstói arrematasse o livro com uma tese sobre a vontade inarredável dos povos. Segundo a teoria, Napoleão seria mero agente de uma ânsia coletiva da população de se mover para o leste, assim como a resistência de Kutuzov e a subsequente vitória de Wellington, em Waterloo, seria o contrafluxo desse impulso, em direção ao oeste.

Poesia | O Amor, quando se revela, não se sabe... de Fernando Pessoa

 

Música | Dorina - Fidelidade Partidária, de Wilson Moreira e Nei Lopes

 

quarta-feira, 20 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Milei precisa saber lidar com limites políticos

Folha de S. Paulo

Reformas liberais são necessárias na Argentina, mas derrotas no Legislativo mostram que confronto é estratégia perigosa

Javier Milei completa cem dias à frente do governo argentino pouco depois de sofrer mais uma derrota legislativa que mostra seus limites políticos. Foi rejeitado pelo Senado o Decreto de Necessidade e Urgência (DNU), que declara emergência pública até o fim de 2025 e promove alterações profundas na regulação da economia do país.

A votação por 42 a 25 (quatro abstenções) contra o texto piora a já conflituosa relação entre o mandatário e o Legislativo. O placar revela dificuldades mesmo com parlamentares de centro-direita à princípio simpáticos ao novo governo, que tampouco são poupados pela retórica agressiva de Milei.

Mesmo com a rejeição, o decreto continua em vigor até que os deputados se pronunciem, o que ainda não tem data para ocorrer. Mantidas por ora, as novas regras —que eliminam subsídios à energia, removem congelamentos, cortam despesas públicas, abrem mercados e contêm o poder dos sindicatos— funcionam como pilar ainda frágil da nova política econômica.

Luiz Carlos Azedo - O cartão de Bolsonaro provocou o "efeito borboleta"

Correio Braziliense

O ex-presidente pode, sim, ser condenado por falsificar um documento do SUS, mas não é um Al Capone. É um líder político, que se diz perseguido e mobiliza seus apoiadores

Um dos mais famosos casos de investigação criminal é a prisão de Al Capone, o mafioso que comandou o crime organizado em Chicago no fim da década de 1920 e começo da década de 1930. O gangster ítalo-americano nasceu em Nova York e sucedeu Johnny Torrio no comando da máfia norte-americana, que controlava a venda ilegal de bebidas alcoólicas, proibidas nos Estados Unidos na época da Lei Seca.

Além da fabricação e do contrabando de bebidas, Al Capone comandava uma rede criminosa cujas atividades envolviam agiotagem, cafetinagem, extorsões e venda de drogas. Preso em 1931, faleceu em 1947. O filme Os Intocáveis (1987), de Brian de Palma, durante duas horas descreve a atuação dos policiais que investigaram e prenderam Al Capone, não em razão dos muitos crimes que cometeu, porém, por causa de uma fraude na declaração de Imposto de Renda.

Vera Magalhães - Nísia fica, mas até quando?

O Globo

Lula resiste a pressões e mantém ministra, mas desgaste evidencia dificuldades na gestão e inabilidade na política

O presidente Lula resolveu bancar a permanência no posto da ministra da Saúde, Nísia Trindade. Resiste, assim, à maior pressão já feita pela cabeça de um titular do primeiro escalão do atual mandato — e não localizada apenas no Centrão, mas disseminada por todas as siglas da base aliada, com apoiadores também na classe médica.

A avaliação do Planalto é que ceder ao clamor pela substituição da ministra em meio à crise sanitária do recorde de casos e óbitos de dengue seria não uma concessão, mas uma “rendição” ao Congresso, que pretende comandar a área que abarca a maior quantidade de recursos do Orçamento.

Descrita pelo ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, como “um luxo para o Brasil”, Nísia tem um currículo que justifica o aposto. Cientista social e professora universitária, foi à frente da Fundação Oswaldo Cruz de 2017 a 2022 que ela se tornou um símbolo em defesa da ciência durante a pandemia de Covid-19. Foi essa condição que a credenciou para assumir o ministério, numa clara determinação de Lula de marcar com nitidez a diferença na condução que daria à pasta, sobretudo ao Programa Nacional de Imunizações, em relação ao negacionismo de Jair Bolsonaro.

Bernardo Mello Franco – Crime sem castigo

O Globo

Juiz citou "legítima defesa" ao livrar policiais que balearam e arrastaram faxineira no asfalto

Numa manhã de domingo, Cláudia Silva Ferreira saiu de casa com R$ 6 para comprar pão. Era seu dia de folga com as crianças. Durante a semana, ela acordava às 4h30 e dava duro num hospital. Com o salário de faxineira, desdobrava-se para criar quatro filhos e quatro sobrinhos.

A caminho da padaria, foi atingida por tiros disparados pela PM. A pretexto de socorrê-la, os agentes a jogaram no porta-malas e partiram em disparada. O bagageiro se abriu, e o corpo da mulher negra, de 38 anos, foi arrastado pelo asfalto em alta velocidade. Apesar dos alertas desesperados de motoristas e pedestres, a viatura levou 350 metros para parar.