domingo, 26 de julho de 2026

Trump e Milei em campanha no Brasil, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Sem coligações internas, Flávio pede ajuda da direita, mas qual direita? A internacional

O senador Flávio Bolsonaro lançou a candidatura à Presidência no seu pior momento, com o barco fazendo água, falta de material e fuga de mão de obra para consertar as avarias. Adernando, sem rumo e sem apoio político interno, ele pediu “união” da direita nacional, mas recorre à ação da direita internacional. Ou, mais diretamente, à ingerência externa nas eleições brasileiras.

A presença de Javier Milei à convenção deste sábado é um troféu dessa estratégia, mas o que mais pesa é a presença oculta de Donald Trump, que atacou o Brasil com mais 37,5% de tarifas e tentou enviar dois funcionários do Departamento de Estado para bisbilhotar o processo eleitoral e o TSE, sem sucesso. Não por coincidência, a tentativa ocorre dias depois de Flávio repetir o erro do pai que decretou sua inelegibilidade, reunindo embaixadores estrangeiros para mentir sobre o processo eleitoral e pedir “observadores internacionais” em outubro.

Flávio falou, Trump acatou, mas o governo Lula negou o visto para os dois funcionários, conforme a jornalista Janaína Figueiredo. Trump e Flávio vão ter de se contentar com uma ingerência americana bem mais tradicional, a espionagem da CIA. Do que a CIA é capaz? Boa coisa não é.

Com PP, Republicanos e União Brasil pulando do barco, Flávio chegou à convenção sem coligações, palanques regionais, uma vice e sem Michele, que mandou vídeo. O tempo de TV na campanha será reduzido e o repertório de versões para as suas muitas encrencas se esgotou. Como explicar o inexplicável?

O presidente Lula, porém, não pode dormir tranquilo, já contando com um quarto mandato. Há muitas indefinições, os índices estão cristalizados e as dificuldades de Flávio não têm transferido votos para ele, apenas jogado esses votos ao vento, para quem puder pegar. Ronaldo Caiado tenta.

Logo, o grande obstáculo de Lula não é o primeiro turno contra Flávio, mas um segundo turno contra ele e os demais juntos, Caiado, Zema e Renan, todos de direita. Não se identificam com Flávio, mas, acima disso, são contra a esquerda, anti-PT e anti-Lula. Como eles, milhões de eleitores e eleitoras, que podem definir o jogo na reta final.

Com a derrota de Flávio, o destino do bolsonarismo vai se transferir para Michele e entrar em parafuso. A de Lula será o fim do lulismo e o maior desafio do PT será inventar um sucessor, hoje, fora do alcance de lupas, binóculos e sensores.

Em qualquer hipótese, nem o eleitorado de direita e extrema direita, nem o de esquerda e centro-esquerda vai evaporar e a polarização da sociedade vai continuar. Portanto, 2026 é rito de passagem. O futuro, a 2030 pertence.

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Espero que acabe os extremismos,o compromisso cívico de votar devia passar bem longe da idolatria.