terça-feira, 18 de agosto de 2026

Como Trump revitaliza a democracia, por Jan-Werner Mueller*

Valor Econômico

Testemunhamos um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos EUA corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele

Na capital da Albânia, os recepcionistas dos hotéis fazem questão de ressaltar que os protestos em andamento do lado de fora são totalmente pacíficos. Aparentemente, houve um número considerável de cancelamento de reservas desde que as manifestações em massa começaram no segundo trimestre. Mas, se perguntados diretamente, eles podem insinuar discretamente que veem com bons olhos a participação de turistas nos protestos. Todas as noites, pessoas de todas as idades se reúnem diante do escritório do primeiro-ministro Edi Rama para denunciar a corrupção e exigir sua renúncia.

A chamada “Revolução dos Flamingos” foi deflagrada por um acordo que muitos consideram questionável entre o governo albanês e Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump. Assim, estamos testemunhando um efeito global inesperado do trumpismo: um governo que se alia ao governo mais corrupto da história dos Estados Unidos corre o risco de abrir espaço para que adversários internos se levantem contra ele.

Muita coisa pode mudar em um ano. Basta lembrar que, ao longo de 2025, comentaristas de todo o mundo denunciavam, com razão, a destruição da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e lamentavam o que o segundo mandato de Trump prenunciava para a democracia e os direitos humanos em escala global. A mensagem para os autocratas, em praticamente toda parte, era de que eles não enfrentariam resistência. Dado o conhecido apreço de Trump por líderes autoritários, eles poderiam até ser aplaudidos.

Foi assim que o presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, ordenou batidas policiais em várias ONGs apoiadas pela Usaid, justificando com entusiasmo esses ataques descarados à sociedade civil ao apontar para a designação da agência como uma “organização criminosa” feita por Elon Musk. Segundo algumas estimativas, o desmantelamento da Usaid levará a milhões de mortes; mas os autocratas do mundo encararam o fim da agência como algo puramente positivo.

Talvez os integrantes da chamada “Autocracia S.A.” devessem ter percebido que receber o apoio de Trump para suas atividades nefastas acabaria sendo uma faca de dois gumes. Afinal, a lógica política que tantos observadores lamentavam em 2025 poderia se inverter, e os vínculos com o regime de Trump passariam a ser vistos como prova da própria corrupção.

E assim aconteceu. Trump não é apenas profundamente impopular em boa parte do mundo, como aqueles que se opõem a governos aliados ao presidente americano podem agora explorar muito mais facilmente os argumentos sobre corrupção. Afinal, mesmo pessoas que não conhecem particularmente bem os meandros da política americana provavelmente já ouviram falar de escândalos como o presente do Catar a Trump: um “palácio voador da propina”.

A reação popular à corrupção à moda Trump parece descrever bem a situação na Albânia. Segundo a própria versão deles, Kushner e Ivanka Trump “descobriram” uma ilha maravilhosa na costa albanesa (Sazan estava longe de ser desconhecida, já que por muito tempo abrigou uma base militar albanesa). Além disso, eles encontraram essa joia e suas belas praias durante uma temporada no superiate de seu amigo bilionário Nathaniel Rothschild, na companhia de ninguém menos do que Edi Rama.

Poucos imaginariam que, apenas um ano atrás, o retorno de Trump à Casa Branca acabaria alimentando um movimento de massa em defesa da democracia e por mais transparência em todo o mundo. Os autocratas do mundo ganharam um novo inimigo: seu melhor amigo

Pouco depois, Kushner e Ivanka Trump começaram a explorar a possibilidade de transformar em resort de luxo uma reserva natural oficialmente designada para a proteção de flamingos. Quando manifestantes locais se opuseram ao projeto, foram violentamente retirados por seguranças particulares. Mas tudo isso foi registrado em vídeo e as manifestações logo se espalharam do sul do país para Tirana. Agora, grandes manifestações são realizadas todas as noites, com destaque para flamingos de todos os tipos e formatos - de recortes de papelão a grandes infláveis cor-de-rosa.

Curiosamente, em meio às muitas bandeiras albanesas empunhadas pelos manifestantes, também aparecem bandeiras americanas. Em um país tradicionalmente pró-EUA, os cidadãos claramente querem deixar claro que sua mensagem não é antiamericana, mas contra a corrupção. O que eles rejeitam é a completa falta de transparência.

Trump é o catalisador perfeito para um movimento desse tipo porque é mais descaradamente corrupto do que a maioria dos líderes autoritários de hoje. Ele aceita com orgulho presentes extravagantes - de diamantes a pagamentos em criptomoedas - e depois, ao que tudo indica, “coincidentemente” reduz tarifas ou concede indultos em consequência disso. As evidências de operações com informação privilegiada e manipulação do mercado eram esmagadoras antes mesmos da rede social de Trump passar a vender explicitamente acesso antecipado a declarações do presidente capazes de mexer com os mercados.

A mensagem oficial da Casa Branca de Trump para o resto do mundo não poderia ser mais clara. Em 2025, ela “suspendeu” a aplicação da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (Foreign Corrupt Practices Act), uma importante arma contra o suborno fora das fronteiras dos EUA. Depois, neste verão no Hemisfério Norte, esvaziou a Lei da Transparência Corporativa (Corporate Transparency Act), que já havia sido celebrada pelo secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, como “a lei mais importante contra a corrupção e a lavagem de dinheiro em décadas” - facilitado para criminosos americanos e estrangeiros se esconderem atrás de empresas de fachada.

Diante dessa mensagem, não chega a surpreender que aqueles que fazem negócios ostensivos com o nascente “Estado mafioso” de Trump acabem levantando suspeitas. Embora o discurso de Trump sobre “fake news” tenha ajudado autocratas de todas as partes do mundo a justificar ataques à imprensa, sua corrupção descarada também acabou chamando atenção para os próprios esquemas de favorecimento desses líderes.

No caso da Albânia, os manifestantes estão criticando tanto Rama quanto o líder da oposição, Sali Berisha, um ex-presidente e ex-primeiro-ministro. A condenação moral dos manifestantes recai sobre toda a classe política do país, que há muito tempo apenas finge apoiar a adesão à União Europeia, ao mesmo tempo em que torna esse desfecho menos provável ao atender os interesses de figuras como os Kushner. Parlamentares da União Europeia já alertaram Rama de que acordos que ignorem as regras do bloco podem colocar em risco a adesão do país.

Rama reclama que “se não fosse Jared Kushner... ninguém daria a mínima para os flamingos, para a Albânia, para nada. É todo esse ódio contra Trump que está provocando todo esse escrutínio”. Ele tem razão, embora não da maneira que pretendia. Poucos poderiam imaginar que, apenas um ano atrás, o retorno de Trump à Casa Branca acabaria alimentando um movimento de massa em defesa da democracia e por mais transparência em todo o mundo. Os autocratas do mundo, porém, ganharam um novo inimigo: seu melhor amigo. (Tradução de Mário Zamarian)

*Jan-Werner Mueller, professor de Ciência Política na Universidade de Princeton, é autor do livro “Street, Palace, Square: The Architecture of Democratic Spaces” (Penguin Books, 2026), a ser lançado em breve. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Interessante, bem argumentado!