O Globo
É fundamental lutar contra o desalento das generalizações indevidas. Há pessoas que querem sinceramente servir ao país
Todos os políticos devem estar sob o mesmo escrutínio popular, eles representarão o país inteiro e, por isso, têm contas a prestar. Porém, não se pode tratar todo mundo com a mesma desconfiança. Há uma convicção disseminada de que eles e elas estão nesse caminho para ter vantagem pessoal. Esse sentimento difuso não surgiu à toa. Veio na esteira dos inúmeros escândalos políticos, das desculpas esfarrapadas dadas por muitos, e das imagens dos dinheiros em caixas, malas, bolsas, cofres, cuecas. No país das altas taxas de juros, nenhum dinheiro guardado em casa, em grande quantidade, parecerá inocente. No banco estaria rendendo.
Na semana passada, os candidatos tiveram que
divulgar sua evolução patrimonial. Uma saudável rotina. Marina Silva,
ex-ministra do Meio Ambiente, apresentou o valor de R$ 274.503 de patrimônio
acumulado em 40 anos de vida pública. Alguns órgãos de imprensa destacaram no
título que ela teve um aumento de 87%, descontada a inflação, nos seus bens. É
justo escrever isso? Não é. Os números podem enganar, distorcer e alimentar o
perigoso estigma que cerca a imagem dos políticos.
Perguntei à deputada e candidata ao Senado
por São Paulo, como foi essa evolução. Marina Silva tem uma aposentadoria como
professora em torno R$ 5 mil. Isso é respeito ao dinheiro público. Ela optou
por se aposentar como professora. Se o fizesse como parlamentar ou ministra
teria um benefício muito maior. Durante o período sem mandato, fez palestras, o
que lhe dava renda em torno de R$ 10 mil por mês, em média.
— Quando passei a ser deputada minha renda
aumentou para R$ 40 mil. Eu usei os recursos extras para ajudar minhas irmãs e
guardei um pouco. Meu patrimônio então saiu de em torno de R$121 mil para R$
274 mil. Poderia ser destacado que eu sou a mais pobre entre os candidatos a
senador, ainda que não veja demérito em ter uma renda maior do que a minha, mas
ao pegarem apenas o acréscimo percentual sem a explicação devida iniciaram um
processo, no qual tenho recebido críticas.
A ex-ministra Simone Tebet saiu de R$ 2,3
milhões para R$ 10,6 milhões e também explicou, quando divulgou os números, o
fato de ter triplicado seu patrimônio. Foi consequência de ter recebido de sua
mãe uma herança antecipada. Isso é facilmente verificável.
É natural que o país se debruce sobre esses
números em busca de alguma estranheza. Mas é bom lembrar que os que estão na
vida pública com más intenções costumam esconder com fórmulas espúrias, contas
em paraísos fiscais e outros estratagemas o que realmente amealharam. No tempo
da informação rápida, o que ficou foi o número do aumento dos bens, em títulos
que davam a falsa impressão.
A falha ao dar a notícia, desinforma. O
perigo maior não é atingir uma pessoa com a desconfiança injusta. A questão que
trato aqui não é individual, mas coletiva. Se prevalece a interpretação de que
todos os políticos estão na política para enriquecer, a democracia vai sendo
minada.
A democracia no Brasil atravessa mil riscos.
Há os que a desmoralizam em transações ilegais, há os que a ameaçam porque não
acreditam nela e preferem o modelo autocrata ou ditatorial que levam a caminhos
nos quais a gente já se perdeu muitas vezes na História da República. Foram
tantos os descaminhos que se pode dizer que há um veio de autoritarismo
estrutural na política brasileira. A luta contra esse desvio tem que ser
constante na nossa vida cívica.
Este autoritarismo de fundamentos é reativado
a cada momento em que se espalha a ideia de que todos os políticos são iguais e
corruptos. Assim nascem os salvadores autocratas. A antipolítica levou milhares
às ruas em 2013 no Brasil. A raiva foi galvanizada pela extrema direita. Dez
anos depois, o país viu a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. O
movimento foi estimulado pelo governo que tentou um golpe de Estado.
Faltam 47 dias para as eleições e a última
pesquisa Quaest mostrou que na espontânea da disputa presidencial, 51% ainda
estão indecisos. Na estimulada do primeiro turno 30% dizem que podem mudar o
voto atual.
Nas eleições para o Legislativo, a
indefinição ainda é maior. Estamos, portanto, em plena estação das escolhas
democráticas. A nossa sabedoria será testada. É agora que eleitoras e eleitores
tomarão suas decisões. É fundamental lutar contra o desalento que nasce das
generalizações indevidas. Há candidatos e candidatas que querem sinceramente
servir ao país.

Um comentário:
Excelente coluna! Há candidatos e candidatas que querem servir ao país, e há candidatos bolsonaristas que querem apenas servir à família e livrar o patriarca de todos os crimes que cometeu! E que o canalha paga apenas em PRISÃO DOMICILIAR... Isto é nada para um GENOCIDA!
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