sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sem liberdade não há debate

Por O Globo

Diante da interferência política da Justiça e das violações à Constituição e à liberdade de imprensa, a TV Globo tomou a única decisão cabível: cancelou o debate entre candidatos à Presidência da República previsto para hoje. Atendendo a uma demanda do PT, a ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou horas antes do debate que a Globo retirasse do palco o púlpito reservado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que havia desistido de participar, e que impedisse os demais candidatos de dirigir perguntas ao púlpito vazio, como determinavam as regras. De acordo com a ata da reunião que estabeleceu tais regras, assinada por representantes de todas as campanhas – inclusive a de Lula –, caso algum candidato decidisse não comparecer, o púlpito ficaria vazio, e os demais teriam direito a dirigir uma pergunta por bloco ao ausente.

Oito temas para o novo presidente, por Fernando Luiz Abrucio*

Valor Econômico

Agenda inclui ajuste fiscal, reforma administrativa, adaptação às demandas econômicas do século XXI, educação, combate à desigualdade e ao crime organizado, política externa e reorganização das instituições

Uma eleição marcada por denúncias e controvérsias que passou ao largo dos desafios do próximo governo. Esse poderia ser um resumo fidedigno do primeiro turno da disputa presidencial de 2026. Claro que houve algumas discussões sobre temas importantes ao país, como segurança pública e o fim das bets, mas diagnósticos mais profundos sobre as maiores dificuldades foram deixados em segundo plano. Só que quem assumir em 2027 terá uma lista grande de tarefas bem difíceis pela frente, e o eleitorado por enquanto não sabe o que o vencedor fará para enfrentar tais problemas.

Num país tão complexo como o Brasil, não faltam questões relevantes que o presidente tem de tratar. Seria impossível fazer uma lista que abarcasse todas elas em um artigo de jornal. Porém, é possível escolher temas estratégicos essenciais para o próximo mandato, cuja resolução será fundamental não somente para o país melhorar, como também para evitar que entre numa crise no final desta década.

Entre biografias e folhas corridas, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar

Em alguns dias o eleitorado se defrontará, com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.

O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.

Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.

Eleição terá Lula contra Lula neste domingo, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Expectativa é de que a apuração dos votos revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida

A coluna quis saber de um consultor experiente, que acompanha a política desde a “CPI do Collor” e que já viu de tudo em Brasília, o que esperar do segundo turno da eleição presidencial, caso a disputa não termine no domingo. Ele respondeu com outra pergunta: “Você se lembra quem nocauteou Mike Tyson?”

Depois, prosseguiu: “A única certeza sobre domingo é que o Brasil que sairá das urnas não será o mesmo”. A expectativa é de que a apuração dos votos do primeiro turno, que indicarão as novas composições do Senado e da Câmara dos Deputados, revele um Congresso com a direita ainda mais fortalecida, mais dissonante do que convergente em relação ao atual governo e mais combativa em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Isso porque a principal pauta dos candidatos de direita ao Senado foi o compromisso com o impeachment de ministros do STF, começando por Alexandre de Moraes. Dessa forma, se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reeleger, no primeiro ou no segundo turno, terá de lidar com uma governabilidade ainda mais precária do que a atual.

Fator externo complica vida de Lula; para oposição, pode ser a vantagem, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O saldo da campanha eleitoral em ternos de propostas de governo é muito negativo; pode ser que, no segundo turno, as duas visões de Brasil sirvam para discutir os problemas reais

A eleição brasileira chega à reta final sob pressão internacional, um cenário muito diferente daquele de 2022. Há quatro anos, Joe Biden ocupava a Casa Branca. Embora não fosse aliado ideológico de Lula, seu governo trabalhou para desencorajar uma ruptura institucional e reconheceu rapidamente a vitória do petista. O diretor da CIA chegou a ser enviado ao Brasil, antes da eleição, para advertir Jair Bolsonaro contra a manipulação do processo eleitoral. Agora, o sinal emitido por Washington mudou: o governo americano mantém afinidades políticas com o bolsonarismo, e Lula enfrenta um ambiente regional cada vez mais hostil.

O futuro do Brasil na boca na da urna, por Vera Magalhães

O Globo

O Brasil chega à eleição depois de uma campanha que discutiu muito pouco o país que o próximo presidente receberá. Há uma situação fiscal que exige corte de gastos, problemas graves de segurança pública e desafios impostos pela inteligência artificial e pela nova ordem mundial ignorados pelos programas dos candidatos.

Lula tem contas a prestar. A responsabilidade fiscal nunca esteve entre suas preocupações centrais. A frente ampla que o ajudou a derrotar Jair Bolsonaro em 2022 foi tratada, depois da posse, como uma aliança eleitoral, e não como fundamento político de um prometido governo de união e reconstrução. E a promessa muito concreta — simbolizada pela picanha e pela cerveja — de que sua volta ao Planalto significaria prosperidade não se realizou, mesmo com a melhora dos indicadores de renda e emprego.

A eleição invisível, por Bernardo Mello Franco

O Globo

No Senado, possível avanço da extrema direita eleva risco de crise institucional em 2027

Mais de 120 milhões de brasileiros devem ir às urnas no domingo. A maioria está preocupada com a disputa presidencial, mas ainda não sabe em quem votar para o Congresso.

De acordo com o Datafolha, 57% dos eleitores não escolheram candidato a deputado federal. Para o Senado, a incerteza também é regra: 59% não decidiram em quem votar, e outros 14% só definiram o primeiro dos dois votos a que têm direito.

Um mundo mais cínico, por Pablo Ortellado

O Globo

O que acontece quando aprendemos sobre as injustiças e, em vez de nos opormos a elas, nos rendemos, aceitando ser assim que o mundo funciona? O filósofo Peter Sloterdijk chamou essa postura cínica de “falsa consciência esclarecida”, uma consciência que aprendeu sobre os problemas do mundo, mas se entregou ao estado de coisas denunciado.

Nesta semana, vimos críticos da desinformação empregando todos os subterfúgios e estratagemas das campanhas de desinformação. Deixarei para os juristas a discussão sobre se houve ou não violação da lei eleitoral. Os efeitos sobre nossa cultura política me parecem mais importantes.

O boato de que Flávio Bolsonaro retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil é um caso de livro-texto. A história começa com o boato plantado por um militante no Twitter:

— Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil.

Quem vai desempatar o jogo? Por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Na eleição mais acirrada de todos os tempos, quem é o eleitor ou a eleitora que vai desempatar o jogo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro?

Dados da pesquisa Meio Ideia nos ajudam a traçar um perfil daqueles que ainda estão indecisos e se tornaram o principal palco de batalha da eleição.

Boa parte dessas pessoas são mulheres da classe C, que vivem nas franjas das grandes cidades, principalmente São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Também existe um porcentual desses eleitores nos arredores de Salvador e do Recife.

Os números nos ajudam a confirmar essa hipótese. Entre os indecisos, 63,3% são mulheres, 44,1% da classe C e 51,3% estão no Sudeste.

STF e TSE boicotam debate, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Perdem o presidente Lula, o senador Flávio, os eleitores e, principalmente, a Justiça brasileira

O debate da TV Globo, o mais importante e tradicional das eleições presidenciais há décadas, foi boicotado pelos dois candidatos favoritos, e não só por eles, neste cada vez mais chocante 2026, onde os absurdos se acumulam, numa disputa frenética sobre a autoridade mais audaciosa ao produzi-los.

O presidente Lula já tinha dito que não iria e, na última hora, Flávio Bolsonaro também decidiu cair fora, diante de duas decisões bastante questionáveis, uma da ministra Estela Aranha, do TSE, outra de Gilmar Mendes, do STF, supostamente, para dar “equilíbrio” de condições. Zero a zero para Lula e Flávio. E as regras democráticas, onde ficam?

Democracia de massa, por José Sarney*

Correio Braziliense

No domingo, vamos viver a nossa festa democrática, com quase 160 milhões de eleitores chamados às urnas para celebrar esse pacto entre o governo e o povo

Aqui em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês, onde ainda me encontro brigando com uma indigesta pneumonia que resolveu me perturbar nesta semana da eleição, mas já me preparando para voltar ao Maranhão, escrevo estas apressadas linhas.

Nestes 41 anos da Nova República, exercemos a democracia pelo voto do povo. No domingo próximo, dia 4, o país irá às urnas para escolher seus representantes no Poder Executivo e nas Casas Legislativas, estaduais e federais. Em quatro dos meus cinco anos na Presidência, realizamos eleições: um dos meus primeiros atos ao assumir foi restaurar as eleições diretas em todos os níveis no Brasil (Emenda Constitucional nº 25), uma vez que o país estava saindo do regime de eleições indiretas via Colégio Eleitoral, que Tancredo dizia serem as últimas a serem realizadas no Brasil. E foram.

Filha de FHC declara voto em Lula e cita defesa da democracia, por Gabriela Echenique

Folha de S. Paulo

Beatriz Cardoso afirma que valor democrático é indispensável para 'sociedade mais justa'

Declaração reforça posicionamento público adotado no segundo turno de 2022, quando Lula disputava com Jair Bolsonaro

Filha do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, Beatriz Cardoso declarou que votará em Lula (PT) nesta eleição e que escolheu defender a democracia brasileira.

O pai dela, que governou entre 1995 e 2002, foi um dos principais adversários políticos de Lula antes do surgimento do bolsonarismo, na década passada.

Datafolha: Lula tem 45% e Flávio Bolsonaro, 40% em votos válidos no 1º turno, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Cálculo exclui brancos e nulos, como faz TSE para declarar resultado; 17% dizem que ainda podem mudar de voto

Na simulação de 2ª rodada, presidente e filho de Bolsonaro empatam com 48% e 45%, respectivamente

A corrida eleitoral de 2026 chega às vésperas do primeiro turno com Lula (PT) somando 45% das intenções em votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos, ante 40% de Flávio Bolsonaro (PL).

Já no segundo turno, em votos totais, há empate técnico: 48% para o presidente e 45% para senador fluminense.

É o que aponta nova pesquisa do Datafolha, realizada de terça-feira (29) a esta quinta (1º), com margem de erro de dois pontos para mais ou para menos.

Há uma semana, o petista tinha 43% de votos válidos no primeiro turno e 47% de totais no segundo. Seu principal rival, 39% e 45%, respectivamente.

O imponderável, as omissões, as baixezas e os azares que podem definir a eleição acirrada, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Disputa não muda faz um mês, indica Datafolha; decisão de primeiro turno seria improvável

Resultado pode depender de corpo a corpo, abstenção e dificuldades do eleitor mais pobre

A distância de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para Flávio Bolsonaro (PL) ficou na mesma desde o início de setembro, praticamente desde o início da campanha em rádio e TV. Pela aritmética dos dados da pesquisa Datafolha, haveria segundo turno. Se a votação ocorresse nesta quinta, resultados diferentes desses da pesquisa dependeriam do Imponderável da Silva, primo do Sobrenatural de Almeida de Nelson Rodrigues, o responsável pelas derrotas do Fluminense (o time do escritor).

Em suma, campanha corpo a corpo, um evento digital viral ou alguma maluquice extra dos tribunais ditos superiores podem render décimos relevantes. Mais sobre isso mais adiante. O que se pode dizer com certeza é o que não será relevante, pois não vai acontecer.

O currículo de Flávio Bolsonaro, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Democracia não se presta a favorecer boas escolhas para governantes

Possibilidade real de eleição do candidato do PL é a melhor prova disso

O ponto forte da democracia é assegurar que governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer a escolha de bons líderes —o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova disso é a possibilidade muito real de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente da República.

O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.

Peça de Brecht sobre Galileu interroga o exercício do poder e os limites da ciência, por Juliana de Albuquerque

Folha de S. Paulo

'A Vida de Galileu' parte da biografia do físico italiano para promover reflexão sobre a defesa da verdade

Questões levantadas por Brecht fazem pensar em temas contemporâneos como a regulação da IA

Concluí recentemente a leitura de "A Vida de Galileu", do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).

Escrita originalmente no final da década de 1930, durante o exílio de Brecht na Dinamarca, a peça narra a trajetória do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Galileu foi julgado pela Inquisição em Roma por defender, com base nas suas observações astronômicas, o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473-1543) e levado a abjurar as suas posições.

A peça de Brecht parte de elementos da biografia de Galileu não apenas para reconstruir certos eventos com alguma fidelidade, mas também para fazer o público refletir sobre questões urgentes do seu próprio tempo, como o papel social da ciência e a problemática relação entre indivíduo e autoridade.

Lula no Flow Podcast: veja entrevista na íntegra

 

Poesia | Poética, de Manuel Bandeira

 

Música | Paulinho da Viola - Nervos de Aço