terça-feira, 18 de agosto de 2026

De quem é o poder da IA? Por Pedro Doria

O Globo

Mark Zuckerberg propõe que a solução é colocar inteligências artificiais poderosas nas mãos de todo mundo

Mark Zuckerberg soltou, na semana passada, um manifesto para tratar de inteligência artificial. A esta altura, deve ser o quinto ou sexto ensaio ou manifesto que algum figurão do Vale do Silício divulga para tratar do tema. Há um aspecto nisso que passa pelo encontro do marketing e da antropologia — o Vale passou a se comunicar com o mundo por ensaios e manifestos, como costumam fazer os movimentos políticos. Mas, no caso de Zuck, há algo de diferente. É, incrivelmente, um manifesto com um tom liberal que não se ouve faz tempo vindo daquele canto da Califórnia.

Ele traz três argumentos. O primeiro é que a segurança, em IA, está na dispersão. Há um medo real de que novos modelos darão poder a hackers ou Estados hostis e porão em risco a infraestrutura de empresas e nações. Com uma ferramenta tão poderosa, do fornecimento de água e luz, passando pelo sistema bancário e incluindo até governos, tudo entra em perigo. Zuck propõe que a solução é colocar IAs poderosas nas mãos de todo mundo. A mesma tecnologia que ataca é a que combate ataques. Que cria defesas. Se todo mundo tem como se proteger, a segurança vem junto. O barão de Montesquieu já sabia disso, quando propôs a ideia da divisão em três Poderes. Quem distribui poder evita o abuso de poder.

Daí ele entra em empregos. Se todo mundo tiver as melhores IAs na mão, não faltará sustento a ninguém. Para o CEO da Meta, não está dado que a automação provocada pela tecnologia vá crescer mais rápido que a capacidade humana de lidar com a mesma tecnologia. Como com qualquer revolução passada, aprenderemos a lidar com ela. Então, talvez algumas empresas precisem de menos funcionários. Mas, ao mesmo tempo, incontáveis outros negócios surgirão. A economia se transformará. A humanidade só sofrerá se o acesso à IA for desigual.

Por fim, seu terceiro argumento. Não são os laboratórios criadores dos modelos de IA que devem determinar seus valores. Zuck defende que esses sistemas devem ser desenvolvidos de forma que cada indivíduo possa adaptar sua inteligência artificial pessoal para operar como deseja. Quem determina os limites de uma IA tem poder concentrado nas próprias mãos. Esse poder é mais perigoso que permitir a cada pessoa no planeta fazer suas próprias escolhas.

O argumento, do início ao fim, é liberal. Distribua o poder, não o concentre. Dê autonomia a cada indivíduo e respeite suas escolhas. O resultado será autonomia, crescimento econômico e ampliação das possibilidades humanas. Liberdade faz crescer. De quebra, Zuckerberg ainda propõe um fundo destinado às comunidades em cuja vizinhança houver data centers. Uma indenização e um incentivo.

Politicamente liberal, o argumento é. Zuckerberg, nem tanto. Passou os últimos anos construindo um bunker para sobreviver com a família ao fim do mundo, deliberadamente bajula Donald Trump e lamenta publicamente o fim da energia masculina. As plataformas que controla, como Facebook e Instagram, exploram o trabalho de inúmeros criadores compartilhando muito pouco da rentabilidade. Modificam sem piscar os algoritmos que muita gente investe tempo em compreender. Com isso, impõem danos a inúmeros negócios, grandes e pequenos. E-mails internos vazados mostram que os mesmos algoritmos usados em suas redes causam danos psicológicos graves em adolescentes. Incluam-se nessa lista casos de suicídio, para não falar de automutilação. Mesmo cientes disso, as plataformas não os mudaram. Zuck não é um liberal. Dispersão de poder e autonomia individual não são preocupações sinceras.

E, pois é, ele tem um problema. Inteligência artificial é o futuro do negócio digital. No Vale, tanto OpenAI quanto Anthropic estão muito à frente da Meta. Não só. O Google está à frente. Até a xAI, de Elon Musk, tem modelos melhores. Defender distribuição de poder e esvaziamento das decisões das empresas que criam IAs lhe é conveniente. Muito conveniente.

Ainda assim, faz tempo que não vem da Baía de San Francisco uma visão otimista, que defenda o uso da tecnologia para melhorar a vida. É, de alguma forma, um alento. Mesmo que não seja sincero, quem está no debate deveria prestar atenção.

 

2 comentários:

Mais um amador disse...

Perfeito.

Anônimo disse...

Gostei, acho a visão do colunista bastante razoável e crítica. Mas tenho uma desconfiança muito maior no 'Zuck'... Pra mim, há gigantesca distância entre suas palavras e suas ações (estas de todos os tipos), muito maior que a mostrada pelo colunista.