sábado, 19 de setembro de 2026

A estrutura não vota, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

São múltiplas as forças que influenciam o comportamento do eleitor

Não há, porém, como isentá-lo de responsabilidade pelos políticos escolhidos

Um dos problemas de nossa época é que nos enamoramos tanto de explicações estruturalistas que já quase não olhamos para ações individuais. O racismo e o machismo tornaram-se estruturais; a heteronormatividade e o capacitismo, institucionais; a pobreza é sistêmica. Não nego a importância de estruturas sociais, desenhos institucionais ou mesmo incentivos econômicos. Estudos científicos demonstram as consequências reais dessas forças.

Meu ponto é que, no final das cadeias causais, quase sempre há uma pessoa que faz uma escolha. Se é um erro desprezar as forças estruturais, também parece arriscado ignorar o peso de decisões. O debate teórico estrutura versus agência é antigo e é mais um daqueles em que precisamos marcar coluna do meio, já que tanto o determinismo absoluto como o individualismo ingênuo falham em explicar o mundo.

Tudo isso foi para dizer que não dá para isentar o eleitor de culpa pela nossa situação. Mulheres e negros estão sub-representados na Câmara dos Deputados? Sem dúvida. Oferta de candidatos e financiamento de campanhas têm algo a ver com isso? Certamente. Mas, mesmo assim, vigora no Brasil o sistema de votação proporcional com listas abertas. Ele gera vários efeitos indesejáveis, mas é de longe o sistema que dá mais liberdade de escolha ao eleitor, cujo voto define o tamanho de cada bancada partidária e a ordem dos postulantes. Por mais que o "sistema" esconda candidaturas de mulheres e negros, encontrá-las não é tão difícil. Se mulheres e negros, que são mais de 50% do eleitorado, considerassem prioritário eleger mulheres e negros, a sub-representação dessas categorias seria menor.

O Parlamento é ruim e tende a piorar na próxima legislatura? Outro consenso. Desigualdades econômicas, manipulações, propaganda enganosa e fake news explicam parte do problema. Mas, de novo, dadas as características do sistema, o Legislativo reflete em boa medida as preferências dos eleitores. Nossos governantes e congressistas não caem de Marte. Temos os políticos que escolhemos.

 

 

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