Folha de S. Paulo
São múltiplas as forças que influenciam o
comportamento do eleitor
Não há, porém, como isentá-lo de
responsabilidade pelos políticos escolhidos
Um dos problemas de nossa época é que nos enamoramos tanto de explicações estruturalistas que já quase não olhamos para ações individuais. O racismo e o machismo tornaram-se estruturais; a heteronormatividade e o capacitismo, institucionais; a pobreza é sistêmica. Não nego a importância de estruturas sociais, desenhos institucionais ou mesmo incentivos econômicos. Estudos científicos demonstram as consequências reais dessas forças.
Meu ponto é que, no final das cadeias
causais, quase sempre há uma pessoa que faz uma escolha. Se é um erro desprezar
as forças estruturais, também parece arriscado ignorar o peso de decisões. O
debate teórico estrutura versus agência é antigo e é mais um daqueles em que
precisamos marcar coluna do meio, já que tanto o determinismo absoluto como o
individualismo ingênuo falham em explicar o mundo.
Tudo isso foi para dizer que não dá para
isentar o eleitor de culpa pela nossa situação. Mulheres e
negros estão sub-representados na Câmara dos
Deputados? Sem dúvida. Oferta de candidatos e financiamento
de campanhas têm algo a ver com isso? Certamente. Mas, mesmo assim,
vigora no Brasil o sistema de votação proporcional com listas abertas. Ele gera
vários efeitos indesejáveis, mas é de longe o sistema que dá mais liberdade de
escolha ao eleitor, cujo voto define o tamanho de cada bancada partidária e a
ordem dos postulantes. Por mais que o "sistema" esconda candidaturas
de mulheres e negros, encontrá-las não é tão difícil. Se mulheres e negros, que
são mais de 50% do eleitorado, considerassem prioritário eleger mulheres e
negros, a sub-representação dessas categorias seria menor.
O Parlamento é ruim e tende a piorar na
próxima legislatura? Outro consenso. Desigualdades econômicas, manipulações,
propaganda enganosa e fake news explicam parte do problema. Mas, de novo, dadas
as características do sistema, o Legislativo reflete em boa medida as
preferências dos eleitores. Nossos governantes e congressistas não caem de
Marte. Temos os políticos que escolhemos.
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