sábado, 19 de setembro de 2026

E agora, para onde iremos? Por Marco Aurélio Nogueira

Revista Será?

A boa análise política e sociológica se sustenta em alguns pressupostos “clássicos”: reconhecer e valorizar a relevância das instituições mediadoras e compreender a organização das ideias e dos interesses como fator essencial em sistemas democráticos representativos. A democracia não funciona bem sem que o protagonismo individual – a liderança personalizada – seja mediada por organizações (partidos) e instituições. Também não pode se sustentar se as instituições que devem protegê-la se inviabilizarem. A democracia não pode operar no vácuo, nem se submeter ao capricho das partes, de seus agentes coletivos ou individuais.

Fora daí, estamos num terreno franqueado a aventureiros e livres-atiradores, cada qual com sua dose de egocentrismo, ferocidade e desinteresse público.

São poucos ao casos, na história mundial recente, em que um líder carismático produza algum resultado sem estar ancorado numa organização e numa rede institucionalizada. Ditadores e tiranos podem permanecer anos no poder, mas quando suas bases e as instituições por eles criadas se desfazem, o seu mundo desaba, mostrando um elenco mórbido de desgraças. Foi assim com Hitler, Mussolini e Stalin, para mencionar os mais famosos.

Esse filme passa recorrentemente no Brasil, e também no mundo. A ditadura de 1964 durou 20 anos e quando começou a ruir – por diferentes fatores internos e pela pressão popular e democrática – seus crimes e seu desserviço vieram à luz do sol com o brilho de uma estrela fulgurante como Sirius. Fernando Collor não sobreviveu a seus desatinos. Dilma Rousseff foi sacrificada em parte por sua inconsistência, em parte pelos interesses desagregados que a cercaram. Jair Bolsonaro pagou o preço de seu despreparo, de seu fanatismo e de sua falta de base política. Nenhum deles foi um tirano, mas todos meteram os pés pelas mãos.

A crise atual exibe um filme diferente, mas de consequências imprevisíveis. Seu epicentro se deslocou para o STF, justo para ele, principal vetor institucional de intermediação e de produção de justiça e respeito constitucional. A “rinha das excelências” exibida ao vivo e em cores no dia 15/9/2026 entrará para a história como a mais aguda, vil e rasteira crise de um Tribunal Superior. Dela não sobrou pedra sobre pedra, em termos de postura ética, de obediência a ritos e de compreensão do papel-chave que a instituição desempenha no país. Impossível imaginar como o colegiado terá condições de continuar julgando o que quer que seja. Sua legitimidade está posta abertamente em xeque.

A explicação mais fácil é que a polarização política em que vivemos atingiu um grau tóxico tão elevado que contaminou tudo e a todos. O que existia, ou deveria existir, à margem dela, sucumbiu. O Tribunal trouxe para dentro de si o antagonismo que vigora na política e na sociedade. Alas nele se formaram, fazendo com que o pequeno círculo de seus integrantes se transformasse numa arena insana, rude e grosseira, ao estilo de um fim de festa, ou de briga de bar.

Podemos, e devemos tentar compreender o papel que cada integrante da Corte imagina estar jogando. Alguns têm motivações cristalinas, querem se safar de suspeitas graves. Outros trabalham para desviar a atenção da opinião pública, para assim proteger apoiadores políticos. Outros, ainda, se movimentam em direção contrária, para produzir mais efervescência. Sobram Fachin e Carmem Lúcia, que tentam fazer prevalecer as razões supremas do Tribunal e honrar sua função institucional apaziguadora.

O STF, hoje, está se comportando com os olhos nas eleições de outubro. Seu núcleo ético (Carmem e Fachin) deseja afastá-lo da sangria eleitoral. Os demais brigam por seus candidatos in pectore ou por aqueles a quem devem favores. Também há quem esteja interessado em preservar seu poder futuro, dentro ou fora do Tribunal.

Seja como for, a repercussão eleitoral do desencontro exibido pela Corte acontecerá. Qual será ela não há como saber. Como reagirá o eleitor? A paralisia decisória do STF produzirá mais desencanto e desânimo? Estimulará as praças públicas a alçar suas vozes? Agravará a crise política? Fará com que a balança eleitoral penda decisivamente para um dos lados da disputa? São coisas insondáveis. Não há jeito senão esperar.

Outubro nos mostrará o tamanho do estrago. As perguntas que precisarão ser feitas, então, terão de ser outras. Que destino institucional terá o STF, com sua composição que caiu no descrédito público? Poderemos ter uma “reforma do Judiciário” que o atinja? Haverá demissões e penalizações que “purifiquem” e recomponham seu ambiente? Poderá o Estado democrático brasileiro seguir em frente com seus três Poderes em desavença ou sem força para cumprir suas atribuições? Como não há nada funcionando muito bem no país político, tudo terá de ser respondido. Não é difícil imaginar: qualquer que seja o próximo governo, ele atuará emparedado por uma institucionalidade falha, pela ingovernabilidade e pela desconfiança social. Os desafios que terá de enfrentar são complexos, vão da situação fiscal aos problemas ambientais, energéticos, do crime organizado e da segurança. Como vencê-los sem que a máquina governamental (o Executivo) esteja azeitada, qualificada e sintonizada com os demais Poderes?

A polarização que corrói o país não desaparecerá no curto e médio prazo. Poderá assumir novos formatos, a depender do que disserem as urnas, mas não se reduzirá de um dia para outro. Perdedores não aceitarão ficar com as batatas, vencedores não deixarão de pensar em aniquilar seus inimigos. Vinganças e ajustes de contas prevalecerão, mantendo ativo aquilo que nos envenena.

A questão toda, como sempre, ficará na dependência do surgimento de novas articulações entre os democratas – liberais, conservadores, de esquerda, empresários, trabalhadores, intelectuais, homens e mulheres, brancos, pretos e mestiços – e de uma reativação épica da sociedade civil. Crises sempre abrem janelas de oportunidade, por mais estreitas que sejam. A crise do momento poderá ter um encaminhamento positivo se os democratas e a sociedade civil agirem, criando uma barreira cívica que proteja o Estado democrático.

Podemos cogitar de algo assim?

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