sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Assombrações eleitorais, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Estamos em face do imenso risco de que o eleitorado compareça à mesa eleitoral como rebanho, e não como assembleia de cidadãos

De certo modo, os vitoriosos das eleições de 2026 já estão escolhidos faz tempo. Resta saber se serão confirmados no voto popular.

O que assombra é o caráter completamente anômalo do processo eleitoral. É a pouca ou quase nenhuma mudança na posição dos dois primeiros colocados na disputa pela Presidência da República por causas opostas. Ambos com alto índice de recusa e com não tão alto índice de opção eleitoral. O país à beira do abismo.

Isso não é normal. É normal investigar o ilícito na política, mas não é normal seguir o caminho do dinheiro suspeito e encontrar a religião, igrejas que aprisionaram Cristo no gazofilácio da coleta e da esmola. Até mesmo reduzido a diretor de agência bancária dentro do templo.

Não é normal uma família inteira ser candidata a postos no Executivo e no Legislativo e até mesmo ser eleita com alta votação para diferentes funções. A família se tornou um país dentro do país. Ela se representa politicamente a si mesma. Usurpa direitos políticos.

O que é indicativo de que a representação política, entre nós, foi corrompida e adulterada. Para compreender esse fenômeno é necessário investigar indagações nas sombras da política brasileira, no território das mediações ocultas que se apossaram não só dos direitos, mas também da identidade e da vontade dos eleitores.

O eleitor brasileiro não vota para ser representado nas instituições do poder. Ele vota como ato de renúncia ao direito eleitoral de ter sua vontade política representada por alguém cujas ideias políticas conhece e que por essa escolha falará, decidirá e votará em seu lugar.

O eleitor brasileiro tem majoritariamente uma concepção equivocada do que é o voto. Ele sabe que é uma disputa entre possibilidades que não difere, porém, de uma disputa em partida de futebol ou na escolha de miss Brasil do ano.

Aqui, em alguns casos, o candidato escolhido o é porque não difere dos supostos valentões da festa do peão de boiadeiro. O capaz de grosserias em relação aos outros é tido como valente, o que intimida o outro na vida cotidiana, portanto fora da linguagem e da atitude própria ao âmbito político.

Aqui, os que se julgam mais esclarecidos votam em nome da luta de classes. Mas, desde a obra de Lukács, já se sabe que não é ela mero confronto entre “nós” e “eles”. Há muito chão para chegar à consciência do nós. Ela só se manifesta em circunstâncias peculiares de confrontos extremos e inevitáveis entre categorias sociais radicalmente opostas e restringidas a identidades sociais que não podem ser dissimuladas.

Nesse sentido, a redução dos nossos antagonismos sociais e políticos a uma disputa interna no STF é expressão de uma tática mais ampla de esvaziamento das instituições, da Justiça em particular, para fragilizá-las e aumentar o poder pessoal dos caciques do oligarquismo retrógrado.

Há uma diferença substancial, política e moralmente significativa, entre Flávio Dino e o pastor André Mendonça. O trato que o próprio STF e a mídia estão dando ao fato tenta tornar equivalentes os diferentes, como se o STF estivesse sucumbindo.

Na verdade, o ministro Flávio Dino reagiu ao manobrismo do pastor, que, tudo sugere, agia em nome de um costume do Tribunal, o das decisões monocráticas. Se o ministro terrivelmente evangélico pode em nome de uma concepção pessoal de justiça, o juiz profissional também pode para se contrapor ao que lhe parece obscuro e suspeito. O parecer que escreveu é uma aula magna do Direito. Como disse um jornalista, um ato litúrgico. O que no fim das contas levou o presidente da corte a avocar decisões que estavam sob controle de quem já não tinha condições de tomá-las.

O parecer de Flávio Dino tornou inevitável que o STF fosse assumido como aquilo que é, um tribunal constitucional. O ministro da corte tem que ser terrivelmente justo e não, em primeiro lugar, terrivelmente evangélico. Até porque, desde a República, nenhuma religião pode preceder e menos ainda se sobrepor à Constituição e às leis.

A crise do Supremo não é da corte. É, finalmente, a crise do republicanismo de fundo militar para dominar o povo, e não para que o povo se faça representar. No Brasil de hoje o eleitor é um eleitor vicário, de imitação, de faz de conta. Não é o indivíduo cidadão que vota em consequência dos ditames de sua consciência e não em consequência de quem em sua consciência manda.

Estamos em face do imenso risco de que o eleitorado compareça à mesa eleitoral como rebanho e não como assembleia de cidadãos de uma República que se esforça para ser cidadã e republicana, representativa e democrática. Expressão legítima da Lei Áurea. Temos que fazer a revolução de arrombar as grades das senzalas da consciência.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).


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