Correio Braziliense
A 15 dias das eleições, o centro se move, porém
não caminha unido. Divide-se entre o medo da continuidade de Lula e o medo da
volta do bolsonarismo ao poder
A proximidade das eleições começa a provocar um movimento de placas tectônicas
no centro político. Liberais que rejeitam o governo Lula se aproximam do
presidente por medo de uma vitória da extrema-direita. Conservadores que
mantinham alguma distância do bolsonarismo ensaiam o voto útil em Flávio
Bolsonaro para impedir a reeleição do petista. Em ambos os casos, a decisão não
nasce da esperança, mas do medo.
Lula aposta todas as suas fichas na chamada “economia do afeto”, na feliz
expressão do historiador Alberto Aggio: programas sociais, aumento da renda,
proteção aos mais pobres e recuperação do poder de compra. O reajuste do Bolsa
Família, anunciado a poucos dias do primeiro turno, tornou-se a expressão mais
evidente dessa estratégia. O valor mínimo passará de R$ 600 para R$ 691, com
impacto estimado de R$ 5,8 bilhões neste ano.
O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, nega qualquer motivação eleitoral. A
explicação técnica, porém, não elimina o efeito político. Em campanha
eleitoral, sobretudo tão perto da votação, uma medida dessa magnitude
inevitavelmente será interpretada como jogada populista. É no terreno econômico
que o presidente se sente mais confortável.
A maioria dos eleitores continua preocupada com emprego, renda, preços dos
alimentos, saúde, segurança e condições concretas de vida. Lula procura
reconstruir sua candidatura por meio da memória dos anos de ascensão social e
da ideia de que seu governo protege os mais pobres. Ao mesmo tempo, incorpora a
defesa da soberania nacional, diante das pressões da Casa Branca, ao discurso
que fará na Assembleia-Geral das Nações Unidas.
Flávio Bolsonaro escolheu outra trincheira. Explora a crise do Supremo Tribunal
Federal, associa Lula aos ministros indicados pelo PT e procura transformar o
desgaste da Corte em combustível eleitoral. Sua frase de que “quem está votando
em Lula está votando em Alexandre de Moraes” resume a estratégia de apresentar
o presidente como fiador de um sistema judicial que, aos olhos de parte do
eleitorado, perdeu a imparcialidade e passou a agir politicamente.
A pesquisa Atlas/Bloomberg mostra que a crise do Supremo pesa mais sobre Lula.
Para 49,5% dos entrevistados, o episódio prejudica principalmente sua
candidatura; 20,9% acreditam que o maior dano recai sobre Flávio. Outros 14,4%
avaliam que os dois são atingidos igualmente. Por isso, o candidato do PL
insiste na associação entre Lula e Moraes, embora o ministro tenha sido indicado
ao STF por Michel Temer.
Lula reage tentando vincular Flávio ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao
financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. O caso Master, assim, deixou de
ser apenas um escândalo financeiro e uma crise institucional. Tornou-se munição
eleitoral utilizada pelos dois principais candidatos.
Supremos temores
A sessão na qual o Supremo tentou decidir se autorizaria uma investigação
contra Moraes agravou o problema. O julgamento terminou sem conclusão, depois
de um áspero confronto entre ministros e do pedido de vista de Flávio Dino. O
tribunal acabou expondo divisões, suspeitas recíprocas e dificuldades para
estabelecer um procedimento consensual. Quanto mais o Supremo se divide, mais
se transforma em protagonista da eleição. A crise alimenta o discurso de
Flávio, desgasta Lula e deixa o centro diante de uma escolha dramática.
Nesse espaço político, a decisão começa a ser tomada não pela adesão a um
programa, mas pela definição de qual risco deve ser evitado. Nessa
quinta-feira, o sociólogo Zeca Martins, coordenador do Derrubando Muros,
anunciou que votará em Lula, embora o propósito existencial desse grupo
heterogêneo de políticos e intelectuais seja romper a polarização. Martins não
absolve Lula nem revê sua avaliação severa do governo. Considera desastrosos os
resultados na política, na ciência, na tecnologia e na segurança pública, além
de medíocres os desempenhos na saúde e na educação.
Mesmo assim, anuncia que votará no presidente, com o argumento de que um
governo ruim pode ser criticado, enfrentado e substituído. Um governo que
ameace as instituições capazes de garantir a crítica representa um perigo de
natureza diferente. Martins quer preservar o “direito de não gostar”, isto é, a
liberdade de combater o governo sem colocar em risco a própria segurança ou a
de sua família.
Seu posicionamento revela uma movimentação mais ampla, embora ainda não seja
possível medir sua dimensão eleitoral: a centralidade da democracia. Liberais,
democratas e antigos adversários do PT começam a considerar que a rejeição a Lula
não pode colocá-los no mesmo campo de um projeto identificado com o
autoritarismo, a hostilidade à imprensa, a contestação das urnas e a
instrumentalização política das instituições. Para esse setor, votar em Lula
não significa aprovar seu governo, mas impedir o que considera uma ameaça
maior.
No campo oposto, conservadores e eleitores de centro-direita também se movem
pelo medo. Temem a continuidade do PT, a expansão do papel do Estado, o aumento
dos gastos públicos e a consolidação de uma maioria política associada a Lula e
oin crustrada no Supremo. Mesmo desconfortáveis com o sobrenome Bolsonaro,
podem concluir que Flávio é o único candidato capaz de derrotar o presidente. A
15 dias das eleições, o voto útil à direita nasce dessa rejeição. O centro se
move, porém não caminha unido. Divide-se entre dois receios: o medo da
continuidade de Lula e o medo da volta do bolsonarismo ao poder.
Nenhum comentário:
Postar um comentário