sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Reajustar Bolsa Família não passa de ardil eleitoreiro

Por O Globo

Em 2024, STF decidiu que o aumento do Auxílio Brasil durante a campanha à reeleição de Jair Bolsonaro foi ilegal

Há um paradoxo incontornável na última “bondade” eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o reajuste no valor do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691, para pagamento já entre o primeiro e o segundo turno. O próprio Lula, quando candidato à Presidência, criticou o uso da máquina pública na campanha à reeleição de Jair Bolsonaro, destacando a faceta eleitoreira do aumento de R$ 200 no então Auxílio Brasil. Quatro anos depois, preocupado com as pesquisas eleitorais, adota a mesma estratégia para tentar a vitória nas urnas.

O reajuste de 15%, publicado a 17 dias do primeiro turno no Diário Oficial, terá para os cofres públicos custo de R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027. A promessa de manter o gasto dentro dos limites do arcabouço fiscal é ardilosa. Primeiro, foge do óbvio oportunismo eleitoreiro. Segundo, passa a impressão falsa de responsabilidade. O governo diz que os recursos virão da diferença entre o que previa gastar e o que gastou de fato para zerar a fila da Previdência. Ora, faltou responder por que interrompeu o pente-fino que, eliminando fraudes, traria mais foco ao Bolsa Família. E também que iniciativas adotou para ganhar mais eficiência no gasto com programas sociais, repletos de distorções.

A incúria fiscal tem sido uma marca do terceiro mandato de Lula. Como proporção do PIB, a dívida pública cresceu inacreditáveis 10 pontos percentuais. Entre as grandes economias emergentes, o Brasil fica atrás somente da China em endividamento. O custo de rolar o papelório só faz crescer, e a conta anual passou de R$ 1 trilhão. As “bondades” foram se avolumando e acabaram com o que restava de credibilidade do arcabouço fiscal. O aumento do Bolsa Família é apenas o último e mais descarado item numa lista de irresponsabilidades bilionárias.

O candidato de oposição Flávio Bolsonaro (PL) anunciou que recorreria à Justiça Eleitoral, depois recuou. Quem fez isso foi um de seus aliados, mas a ação foi rejeitada sem análise do mérito. Embora o governo argumente que se trata da reposição da inflação desde o último reajuste, o momento da medida tem características das bondades eleitoreiras inconstitucionais. Em 2024, o plenário do Supremo declarou ilegal o aumento de benefícios sociais no ano eleitoral de 2022, em especial o reajuste no Auxílio Brasil. Para driblar a lei que veta agrados em ano de eleição, o governo Bolsonaro alegava haver estado de emergência, mas a justificativa não convenceu o Supremo. O plenário não desfez o reajuste, mas proibiu outros similares dali em diante. A decisão obteve o voto de ministros hoje próximos ao governo — Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Dias Toffoli —, além de Edson Fachin, Luiz Fux, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso. Apenas Nunes Marques e André Mendonça apoiaram o aumento (Cristiano Zanin se declarou impedido).

A proibição é salutar para a democracia. No comando do Orçamento, governantes em busca de reeleição levam vantagem sobre os demais candidatos. Por isso precisam obedecer a regras rígidas. Para evitar desequilíbrios, a lei proíbe publicidade institucional, distribuição gratuita de bens e benefícios e bloqueia transferências voluntárias a estados e municípios nos meses que antecedem a votação. Esse princípio foi violado pelo anúncio desta quinta-feira. Mas, como o próprio Lula já disse, o eleitor demonstra ser inteligente o bastante para não cair em tais ardis.

Falsificação de alvarás de soltura traz preocupação para autoridades

Por O Globo

Não há estatística precisa, mas proliferam casos em que criminosos invadem sistemas para soltar presos

Não há uma medida precisa do problema, mas persistem pelo Brasil os casos de alvarás de soltura fraudados, que permitem a bandidos escapar da prisão pela porta da frente, antes de terminar de cumprir a pena. Operações policiais em diversos estados têm trazido indícios graves sobre criminosos especializados em invasão de bancos de dados para fraudar alvarás de soltura, alterar mandados de prisão ou emitir documentos falsos liberando recursos financeiros bloqueados pela Justiça.

Em maio, o líder da facção criminosa gaúcha Bala na Cara, William Ramos Silveira, o “Will”, saiu da Penitenciária de Charqueadas (RS) depois de uma sucessão de fraudes cometidas por um policial penal, com alvará forjado e alterações em registros internos. A ausência só foi descoberta 12 dias depois da fuga.

A maioria das fraudes é cometida por criminosos que invadem os sistemas penais. Alvarás de liberação ou suspensão de mandados de prisão são negociados em grupos de WhatsApp por preços que variam de R$ 1,5 mil a R$ 3,5 mil, como revelou reportagem do GLOBO. Nem o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pode ser considerado seguro. Ficou célebre o caso de Walter Delgatti Neto, contratado pela ainda deputada Carla Zambelli para invadir o BNMP e registrar mandado de prisão contra autoridades. Felizmente, a manobra foi descoberta, e os responsáveis foram condenados. Ainda assim, a vulnerabilidade do BNMP ficou patente. O próprio Delgatti gerou um alvará de soltura como se fosse um juiz de Mato Grosso em favor de um líder do Comando Vermelho preso no estado, condenado a mais de dois séculos de prisão. Novamente a fuga não deu certo, mas outros criminosos têm obtido mais sucesso.

Na Paraíba, as autoridades identificaram no início do ano pelo menos 18 casos de tentativas de deixar presídios com alvarás falsos. Em abril, a Polícia Civil do Rio prendeu um suspeito de vender alvarás de soltura a traficantes depois de invadir bancos de dados no setor público, entre eles o do Tribunal de Justiça fluminense.

O caso mais impressionante foi protagonizado por Ricardo Lopes de Araújo, acusado de fazer parte de uma quadrilha de estelionatários que vendia alvarás de soltura. Dez dias depois de detido, no ano passado, ele saiu do presídio em Belo Horizonte graças a um alvará forjado pelos próprios comparsas. Era um documento verossímil, cuja origem aparente estava no próprio sistema do CNJ. Ao menos, Araújo voltou a ser preso no início deste ano.

A organização criminosa que ele liderava também é acusada de acessar os bancos de dados do Judiciário para alterar mandados de prisão e desbloquear valores retidos pela Justiça, usando credenciais legítimas de juízes.

É inconcebível ainda haver brechas que permitam a criminosos alterar informações nos bancos de dados do Estado. É urgente um reforço na atenção da Justiça e do sistema penitenciário para a segurança no acesso a seus computadores e sistemas digitais.

Medida de Lula une pânico eleitoral e populismo gastador

Por Folha de S. Paulo

Ausência de previsão no Orçamento mostra propósito descaradamente eleitoreiro da alta do Bolsa Família

Ajuste é correto, necessário e tardio num país tão desigual como o Brasil; o criticável é o momento escolhido, a apenas 17 dias do pleito

A 17 dias do primeiro turno da corrida presidencial, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reajusta o Bolsa Família em 15% —a primeira correção do benefício em três anos e meio. A medida custará R$ 22,7 bilhões em 2027, que não constam do projeto de Orçamento enviado pelo Executivo ao Congresso há menos de três semanas.

Os dados não deixam dúvida quanto ao propósito descaradamente eleitoreiro da medida, que une o pânico de Lula diante de uma disputa cada vez mais acirrada à sua convicção populista de que todo problema se resolve com mais gasto público —poucos dias atrás, ele qualificou de "babaquice" o controle orçamentário.

Para emprestar legalidade à benesse, o governo argumenta que se trata de mera reposição do INPC. A manutenção do poder de compra do benefício é sem dúvida correta e desejável; o problema está em postergá-la até às vésperas de uma votação, sem previsibilidade nem planejamento.

As regras existem para impedir que os ocupantes de cargos executivos usem a máquina pública para desequilibrar a eleição. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucionais trechos da emenda constitucional que, no pleito anterior, permitiu a Jair Bolsonaro (PL) reajustar o mesmo Bolsa Família, à época chamado de Auxílio Brasil.

O precedente pode não se aplicar automaticamente a um reajuste, mas serve de todo modo para expor a anormalidade do que se faz agora. O casuísmo é provado pela falta de previsão nos Orçamentos deste ano e do próximo. Se a medida constituísse etapa normal e previsível de uma política pública, o dinheiro estaria reservado desde antes.

Agrava-se, com isso, a já calamitosa situação das contas. A peça orçamentária de 2027 —de responsabilidade de um presidente que considera equilíbrio fiscal "babaquice"— projeta oficialmente um superávit de R$ 18,6 bilhões, sem contar juros. Já a Instituição Fiscal Independente (IFI, ligada ao Senado), partindo de cenários mais realistas, calcula déficit de R$ 86 bilhões.

Sobre esse balanço depauperado recairá uma conta adicional vultosa, sem compensação clara. O país deve completar 14 anos de desequilíbrio fiscal iniciado sob Dilma Rousseff (PT) e de novo agravado sob Lula 3.

A dívida pública chegou a históricos 82,5% do PIB; os juros se mantêm entre os maiores do mundo há décadas, o que ajuda a explicar o pífio desempenho econômico do Brasil no período.

O populismo tem preço crescente. Famílias e empresas amargam endividamento recorde, e a atividade perde fôlego. Há risco concreto de uma recessão.

Não se discute a importância do Bolsa Família em um país tão desigual. Justamente por isso, seus beneficiários não podem ser tratados à base de clientelismo oportunista. O quanto governantes podem manipular a assistência aos pobres conforme o calendário eleitoral é uma questão a ser respondida pela Justiça.

Crime organizado na política exige ação de mão dupla

Por Folha de S. Paulo

Ex-vereador Milton Leite é alvo de mandado de prisão por suspeita de conexão com o PCC e o transporte público

A contenção da economia criminosa exige inteligência investigativa para rastrear movimentações financeiras e cooptações de agentes públicos

Um dos políticos mais influentes das últimas décadas na cidade de São Paulo, exercendo notório poder em variadas gestões municipais, o ex-vereador Milton Leite (União) é alvo de um mandado de prisão temporária em operação que investiga a infiltração do crime organizado no transporte público.

Deflagrada por ordem judicial nesta quinta-feira (17), a Operação Vectura Corrupta apura se empresas de ônibus que prestam serviço a municípios paulistas passaram a ser geridas por integrantes do Primeiro Comando da Capital após ganharem licitações.

Tais suspeitas existem desde os anos 2000, quando cooperativas clandestinas de perueiros se tornaram viações formais na capital.

Em junho, por exemplo, o vereador Senival Moura (PT) foi detido sob suspeita de ligação com esquema de lavagem de dinheiro para o PCC também por meio de uma viação, a Transunião.

Além de Leite, outras 15 pessoas estavam sob ordem de captura. Um dos presos é Levi dos Santos Oliveira, que até fevereiro de 2025 presidia a SPTrans, empresa que administra o sistema de ônibus, na gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) —um antigo aliado do ex-vereador. A Justiça também investiga eventual corrupção de servidores.

Legislador por sete mandatos consecutivos (1997-2024) e o mais longevo chefe da Câmara Municipal (2017-18 e 2021-24), Milton Leite mantém suas bases na periferia da zona sul. Mesmo sem cargo, segue firme no cenário político: ajudou diretamente a eleger dois vereadores em 2024 e tem dois filhos deputados, um estadual e outro federal.

Até ontem considerado foragido, o ex-edil negou qualquer relação com a facção e prometeu se entregar nas próximas horas. Disse ainda não ser, como classificou o desembargador Sérgio Ribas na sua decisão, o "dono de fato" da viação Transwolff, acusada de lavar dinheiro para o PCC.

Para além dos limites paulistanos, abundam evidências de que, nos últimos anos, as facções espalham com vigor seus tentáculos sobre os setores público e privado do país, numa espécie de economia criminosa híbrida.

A longa e árdua tarefa de contenção impõe uso de tecnologia e inteligência para rastrear movimentações financeiras e cooptação de agentes públicos, em forças-tarefas que incluam todo o sistema de Justiça e órgãos fiscalizadores, como a Receita Federal e o Coaf.

A curto prazo, mas não menos relevante, cabe ao eleitor redobrar a atenção sobre suas opções em outubro —parte dos candidatos, como se sabe, tem campanhas financiadas por quadrilhas.

Lula despeja dinheiro de helicóptero

Por O Estado de S. Paulo

O petista aumenta o Bolsa Família a poucos dias do primeiro turno, numa atitude escandalosamente eleitoreira. Considerando-se que se trata de Lula, certamente é só o começo

A pouco mais de duas semanas da eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, descobriu que o Bolsa Família precisava de reajuste. O benefício mínimo, congelado em R$ 600 desde o relançamento do programa, em março de 2023, passará a R$ 691. A medida é escandalosamente eleitoreira e mostra que Lula, acossado nas pesquisas pelo seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), resolveu despejar dinheiro de helicóptero para se recuperar na disputa. Seguramente, é só o começo.

Recorde-se que, há pouco mais de duas semanas, o mesmo governo dizia que não haveria reajuste. Naquele momento, ainda eram poucas as pesquisas que mostravam o avanço de Flávio Bolsonaro, e quase nenhuma o colocava à frente de Lula no segundo turno. Hoje a situação já é bem mais preocupante para a campanha petista.

“Não tem previsão de reajuste”, disse o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, na apresentação do Orçamento de 2027, em 31 de agosto passado. De lá para cá, nada aconteceu, do ponto de vista econômico, que justificasse a mudança. O que mudou foi a percepção, dentro do governo, de que chegou a hora de fazer valer a caneta presidencial a favor da reeleição.

O novo valor do Bolsa Família começa a ser pago em 19 de outubro, seis dias antes de um eventual segundo turno, que promete ser disputadíssimo. A intenção parece óbvia: tentar recuperar um eleitor que antes era cativo do PT, por reconhecer em Lula o padrinho do Bolsa Família, mas que deixou de sê-lo porque já entendeu que não precisa votar em petistas para manter o benefício, hoje totalmente incorporado como política de Estado.

A urgência em reajustar o Bolsa Família não veio sozinha. O governo espalha ainda que vai pagar as dívidas dos endividados. Não é pouca coisa. A Fazenda prepara mais um programa para aliviar dívidas antigas dos brasileiros, por meio da recompra dos débitos com grande deságio. O desenho nem está pronto, mas sua eventual serventia política já é conhecida: segundo o ministro Dario Durigan, a medida poderá ser levada à campanha.

Quanto mais a eleição se acirra, mais o governo encontra espaço para gastar, emprestar, subsidiar ou perdoar. A esta altura, é de meter medo pensar no que ainda poderá ser feito com a máquina pública até a eleição.

O endividamento das famílias é grave. A inadimplência chegou a 5,8% em julho, maior nível desde março de 2011. Há razões legítimas, portanto, para enfrentar o problema. Mas o governo Lula já recorreu ao Desenrola e voltou ao tema neste ano. Agora, às vésperas da eleição, prepara outra fórmula para limpar o nome dos brasileiros, justamente quando o candidato à reeleição precisa convencer um eleitorado que insiste em não demonstrar a gratidão esperada.

Não é um episódio isolado. Ao longo de 2026, o governo multiplicou programas de crédito, subsídios, benefícios e renúncias. O Gastômetro, criado pelo Estadão para acompanhar essas iniciativas, já soma R$ 269 bilhões. As rubricas têm naturezas distintas e seria incorreto tratá-las todas como dinheiro simplesmente torrado pelo Tesouro. Mas a concentração de bondades no ano em que Lula pede mais quatro anos no Planalto, enquanto sua vantagem eleitoral encolhe, tampouco pode ser despachada como obra do acaso. O reajuste do Bolsa Família, a propósito, custará R$ 5,8 bilhões ainda neste ano e cerca de R$ 22 bilhões em 2027.

Em defesa de Lula, recorde-se que seu antecessor, Jair Bolsonaro, também despejou dinheiro de helicóptero a poucos meses da eleição de 2022, elevando o Auxílio Brasil (nome bolsonarista do Bolsa Família) de R$ 400 para R$ 600. Para quem chamava o Bolsa Família de “Bolsa Esmola”, como Bolsonaro, a mudança foi notável, comprovando que a necessidade do incumbente de se reeleger tem o extraordinário poder de tornar possível aquilo que até pouco antes encontrava resistências técnicas, fiscais ou políticas.

Recorde-se, contudo, que Bolsonaro nem assim foi reeleito. Pode ser que o mesmo aconteça com Lula, mas o petista resolveu pagar para ver – usando dinheiro alheio.

O STF exporta impunidade

Por O Estado de S. Paulo

Há três anos, Toffoli anulou monocraticamente as abundantes provas de corrupção da Odebrecht, e a decisão segue sem ir a plenário, com impacto em processos em diversos países

Trinta organizações anticorrupção de 21 países pediram à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que cobre do Supremo Tribunal Federal (STF) uma resposta definitiva sobre as provas obtidas a partir do acordo de leniência firmado com a Odebrecht no âmbito da Lava Jato. Faz três anos que o ministro Dias Toffoli anulou monocraticamente as provas, e o caso ainda não foi levado a plenário para validação. Como resultado, recursos contra a decisão não foram julgados, com impacto nas condenações de envolvidos no propinoduto da Odebrecht em diversos países. É o Brasil exportando impunidade, por meio da irresponsabilidade de seu principal tribunal.

Como se sabe, a empreiteira, que subornou incontáveis políticos no Brasil, infectou países mundo afora com sua engenharia de propinas. Depois, o Brasil os ajudou a rastrear o dinheiro, fornecendo provas e cooperação. Agora, decisões tomadas em Brasília percorrem a mesma rota, invalidando essas provas, abortando a cooperação e oferecendo a corruptos no exterior munição para derrubar processos que o País ajudou a construir.

A Lava Jato revelou crimes reais, mas para isso cometeu irregularidades reais, que vulneraram condenações e precisavam ser sanadas. Mas Dias Toffoli, relator no STF de pedidos envolvendo provas da Odebrecht, foi muito além: com base em provas produzidas ilegalmente, a partir da ação de um hacker, o ministro acusou o juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato de conluio, falou em “armação” contra o líder petista Luiz Inácio Lula da Silva e atribuiu à operação o uso de “tortura psicológica”, um “pau de arara do século 21”, para obter provas. O revisionismo se alastrou sobre pessoas, processos e evidências cada vez mais alheios aos supostos vícios. A lógica da contaminação fez terra arrasada de casos com confissões e colaborações homologadas pelo próprio STF, acompanhadas por advogados muito bem remunerados.

Garantias processuais valem mesmo para réus confessos, mas o vício de uma prova não envenena por mágica as demais. Para descartá-las, o tribunal precisa mostrar como o defeito chegou até elas. Pertencer ao universo da Lava Jato não basta para estabelecer essa ligação.

Os danos derivados desse entendimento são extensos. Tome-se o caso do ex-gerente da Petrobras Roberto Gonçalves, que foi condenado a mais de 17 anos por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em 2024, a Segunda Turma do STF manteve sua condenação, inclusive com voto de Toffoli. Em 2025, o mesmo Toffoli anulou os atos do processo. Gonçalves foi solto e recebeu de volta R$ 26,5 milhões que haviam sido repatriados da Suíça.

A onda atravessou fronteiras. Em 2024, Toffoli declarou inválidas provas produzidas no Brasil e usadas no processo contra o ex-presidente panamenho Ricardo Martinelli. Outros países mostraram que as chicanas brasileiras encontram limites. No Peru, a decisão afetou o processo do ex-presidente Ollanta Humala, mas ele foi posteriormente condenado. No Equador, Toffoli invalidou provas usadas contra o ex-vice-presidente Jorge Glas. A Justiça local preservou sua condenação, apoiada também em confissões, testemunhos, perícias e documentos obtidos por outras vias. Se a prova independe do Judiciário brasileiro, os criminosos podem ser alcançados pelo braço da Justiça; caso contrário, não.

Em resumo, as engrenagens políticas brasileiras ajudaram a exportar corrupção; as engrenagens judiciais estão ajudando a exportar impunidade.

As irregularidades da Lava Jato precisavam ser resolvidas, não transformadas em salvo-conduto. E o custo dessa erosão da capacidade de responsabilizar os poderosos está longe de ficar relegado ao passado ou ao exterior. O escândalo do Banco Master voltou a testar a capacidade do Estado de investigar gente graúda e expôs relações promíscuas que chegam ao seio do próprio Supremo. É justamente nele que continua sendo acalentada a anomalia de uma decisão individual de alcance geral que há três anos produz efeitos, inclusive no exterior. Outros países talvez consigam preservar seus processos das nulidades fabricadas em Brasília. O vexame é terem de fazê-lo.

Mistério sobre os juros

Por O Estado de S. Paulo

Com comunicado sucinto e quase idêntico ao anterior, BC não diz o que fará com a Selic a partir de agora

Sem surpresas, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) fez o que o mercado já esperava e reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, para 13,75% ao ano. É pouco para fazer alguma diferença na vida dos brasileiros, mas um alento para o governo Lula, que precisa desesperadamente de boas notícias para tentar reverter o humor do eleitorado a seu favor ao longo das próximas semanas.

Sabendo que, a esta altura da campanha, qualquer pingo poderia ser tomado como letra, o BC divulgou um comunicado sucinto e quase idêntico ao anterior, especialmente o trecho final, no qual não dá qualquer sinalização sobre os próximos passos a serem adotados nas reuniões de novembro e dezembro. Até lá, o País já terá escolhido o próximo presidente, o que pode mudar significativamente as projeções dos analistas sobre o cenário fiscal e os juros nos próximos anos.

Independentemente de quem vença a disputa eleitoral, pouco ou nada deve mudar em tão pouco tempo. A questão é que o mercado financeiro embute expectativas melhores ou piores a respeito do reequilíbrio das contas públicas em suas previsões e ajusta suas apostas com base nessas sinalizações.

Foi o que aconteceu na manhã de quinta-feira, quando a curva de juros a termo mostrou que a chance de haver um novo corte nos juros em novembro caiu de 68% para 59%, e a possibilidade de manutenção aumentou de 32% para 41%. Já a previsão para a Selic ao fim de 2026 subiu de 13,52% para 13,62%. Para 2027, por sua vez, a projeção aumentou de 13,90% para 14,15%.

O motivo de uma mudança tão intensa no espaço de horas foi o anúncio do reajuste de 15,04% do Bolsa Família, que sai dos atuais R$ 600 para R$ 691. A medida havia sido descartada havia apenas 17 dias, quando o Executivo enviou o Orçamento de 2027 ao Congresso, e evidenciou, mais uma vez, o que Lula realmente pensa sobre a responsabilidade fiscal.

Se há incertezas sobre quem governará o País nos próximos quatro anos, o certo é que o BC terá um complicador adicional com o qual lidar. Também anteontem, o Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês) decidiu, por unanimidade, elevar os juros norte-americanos em 0,25 ponto porcentual, para o intervalo entre 3,75% a 4% ao ano.

Foi o primeiro aumento desde 2023, e a maioria de seus dirigentes projeta ao menos mais uma alta de 0,25 ponto porcentual neste ano, para a fúria do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para quem os juros deveriam estar em 1% ao ano ou menos do que isso.

Para o Brasil, isso significa que o espaço para o carry trade – diferença entre os juros cobrados no País e no exterior – ficará ainda menor, o que pode afugentar investidores e causar impactos para o câmbio em algum momento. Por ora, a atividade econômica e a inflação arrefeceram, mas o mercado de trabalho segue apertado e a política fiscal dos próximos anos continua uma incógnita.

Há condições para fazer mais um corte mínimo ou manter os juros no patamar em que estão, mas o BC, estrategicamente, decidiu esperar. Logo, não se deve esperar mensagens mais taxativas na ata da reunião, a ser divulgada na próxima semana.

União reajusta Bolsa Família às vésperas das eleições

Por Valor Econômico

Não havia previsão de correção do valor do benefício em 2026 e nem no projeto de lei orçamentária enviado ao Congresso há apenas 17 dias

Depois de quatro anos sem reajustes, os benefícios do Bolsa Família foram corrigidos em 15,04%, a pouco mais de duas semanas de eleições em que os principais candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro, estão tecnicamente empatados. As mais recentes pesquisas mostram alguma erosão dos principais redutos de apoiadores do presidente: mulheres, católicos e eleitores de até dois salários mínimos. Não havia previsão de correção do valor do Bolsa Família em 2026 e muito menos no projeto de lei orçamentária enviado ao Congresso há apenas 17 dias. A lei permite recomposição inflacionária do programa. O governo diz que está apenas fazendo a correção monetária dos valores, mas o objetivo eleitoral é explícito, o que contraria decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2024. Acionado por um candidato a deputado federal, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deve julgar a medida.

O piso do Bolsa Família será reajustado de R$ 600 para R$ 691, e o pagamento médio subirá de R$ 675 para R$ 777. Não está claro qual será o remanejamento de despesas que o governo fará para incluir o novo gasto, estimado em R$ 5,8 bilhões no ano, nem como será modificado o Orçamento de 2027, que precisará de corte de R$ 22,7 bilhões em outras despesas.

Não são críveis as primeiras informações oficiais de que os recursos virão de economia com benefícios previdenciários. Tanto no orçamento deste ano como no de 2027, não só a arrecadação líquida do Regime Geral da Previdência Social está superestimada, como os gastos estão subestimados. Na terceira revisão bimestral de receitas e despesas, de julho, os pagamentos de benefícios caíram R$ 2,68 bilhões em relação ao previsto no bimestre anterior, mas a receita líquida do RGPS caiu mais, R$ 4,3 bilhões. Na segunda avaliação bimestral, a receita líquida estava R$ 35,5 bilhões abaixo da previsão.

No orçamento recém-enviado de 2027, que será modificado, o mesmo se repete. Segundo relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, os parâmetros fixados para sua confecção são otimistas demais, como o do crescimento da economia em 2,5% (segundo o Focus, será de apenas 1,5%), e, no que afeta diretamente as fontes de recursos previdenciários, a massa salarial nominal crescerá 10,1%, mesmo com inflação menor, de 3,6%. A IFI estima essa evolução em 7,3%. Com base nessas premissas, para a IFI a arrecadação do RGPS está superestimada em R$ 66 bilhões e os pagamentos de benefícios, subestimados em R$ 24,1 bilhões.

Além disso, a Previdência Social terá um acréscimo de gastos com a ampliação do salário paternidade para 10 dias, além do pagamento a gestantes grávidas que realizaram só uma contribuição ao INSS, que consumirão R$ 10 bilhões em 2027.

De maneira geral, a IFI estima que o governo só cumprirá o piso da meta fiscal, de 0,25% do PIB, se realizar um forte contingenciamento de despesas, de R$ 35,7 bilhões. A meta é de superávit de R$ 83,4 bilhões, ou R$ 10,1 bilhões acima do centro da meta (0,5% do PIB), mas a IFI calcula que o superávit primário mal chegará a R$ 900 milhões, ou 0,01% do PIB.

É respeitável a preocupação de manter sempre que possível o valor de compra do dinheiro de quem recebe o Bolsa Família, criado em outubro de 2003 no primeiro governo Lula, um dos programas comprovadamente eficientes, elogiado por especialistas ao redor do mundo. Os benefícios não são reajustados desde julho de 2022, isto é, o atual governo deixou-o quatro anos congelado. Seria mais racional ter feito correções anuais ou bianuais dos pagamentos, e não tudo de uma só vez, em véspera de eleições e diante de orçamentos que deveriam produzir resultados positivos e só produzem déficits.

Na pandemia, o governo Bolsonaro extinguiu o programa, criou o Auxílio Brasil e mais que dobrou os recursos para as famílias, de R$ 190 para R$ 400. Também às vésperas das eleições, em agosto de 2022, o Auxílio foi elevado para R$ 600, valor mantido pelo presidente Lula em 2023. Os benefícios triplicaram, de 0,4% do PIB para 1,3% do PIB hoje. Com a pandemia, o número de inscritos no programa saltou de 18 milhões de famílias para 21,6 milhões em 2022, após a criação do Auxílio. De lá para cá, houve ligeira diminuição, e hoje os cadastrados são 19,8 milhões de famílias. Em 2003, eram 3 milhões.

Com dotações infladas eleitoralmente, o Bolsa Família, segundo especialistas, poderia fazer mais com menos dinheiro e até hoje não resolveu o problema crucial de como emancipar os cidadãos do auxílio do Estado. O desemprego teve recordes de baixa nos últimos 4 anos (a taxa foi de 5,3% no trimestre encerrado em julho), mas os milhões de novos postos de trabalho mal reduziram o contingente de famílias do programa. Uma redução do número de cadastrados para 17 milhões de famílias (15%) asseguraria recursos para o reajuste de 15,04% agora concedido, com a vantagem da queda de dependentes do dinheiro público.

Como se não tivesse que se preocupar com dinheiro, o governo Lula estuda também uma “vacina” contra o endividamento, em novo programa para endividados que eliminará os débitos antigos dos consumidores. Uma ideia é governo adquirir diretamente com grandes deságios os débitos não pagos. Pacotes de bondades eleitorais costumam ser maléficos para os cofres públicos.

A inaceitável lista de Trump

Por Correio Braziliense

Soberania não se fatia. A governança de políticas públicas voltadas ao interesse do cidadão brasileiro não pode depender do crivo de governos estrangeiros

Documentos divulgados pelo jornal O Estado de S. Paulo mostram o que estava por trás das negociações sobre o tarifaço americano: uma lista de 21 exigências entregue pelo governo Trump ao chanceler Mauro Vieira em outubro de 2025, como condição para negociar o alívio das tarifas de 50% impostas sobre produtos brasileiros. O conteúdo do documento, classificado como inaceitável pelo governo Lula, vai muito além do comércio. Os Estados Unidos exigiram que o Brasil garantisse eleições "livres e justas" em 2026 e não impedisse a participação de "dissidentes políticos", em uma referência que, embora não nomeie Jair Bolsonaro diretamente, foi interpretada assim pelo governo brasileiro. Na mesma lista, estavam demandas sobre minerais críticos, redes sociais, serviços digitais, aviação, desmatamento e acesso ao mercado para empresas americanas. O documento revela o mapa do que Washington entende ser sua esfera de influência sobre o Brasil.

A intervenção que se propunha deixa explícita a tentativa de asfixiar setores de excelência comprovada. Querer forçar o país a preterir os jatos regionais da Embraer para favorecer modelos da Boeing extrapola qualquer lógica diplomática razoável. A fabricante brasileira conquistou fatias vitais do mercado aeroespacial mundial com base em engenharia de ponta, pontualidade e competitividade técnica, competindo de igual para igual com gigantes globais. Submeter a frota e as escolhas de compras nacionais a uma reserva de mercado estrangeira significaria punir a própria inteligência produtiva do país para remediar os tropeços industriais de uma superpotência.

A proposta dos EUA atinge dimensão ainda mais crítica quando mira o campo. Ao demandar restrições severas às políticas de apoio à produção, apontando diretamente para o desmonte do Plano Safra, a Casa Branca tenta minar a espinha dorsal das exportações brasileiras sob a falsa alegação de concorrência desleal. O agronegócio nacional compete no mercado global por escala, eficiência e investimento contínuo, operando com incentivos expressivamente menores do que os subsídios diretos pagos pelo Tesouro americano aos seus agricultores. Liquidar os instrumentos de financiamento do produtor rural por exigência externa traria impactos imediatos: menos safras, choque nos preços dos alimentos no mercado doméstico e retração de empregos no interior.

Aceitar abrir conversas formais a partir de premissas tão abusivas seria um erro estratégico. A história das relações internacionais demonstra que concessões feitas sob coerção apenas transmitem fragilidade e abrem espaço para novas cobranças ao sabor do calendário eleitoral alheio. Soberania não se fatia. A governança de políticas públicas voltadas ao interesse do cidadão brasileiro não pode depender do crivo de governos estrangeiros.

Diante de um parceiro que troca o diálogo pela imposição, a resposta brasileira exige pragmatismo e sangue-frio. O caminho não é o confronto estéril, tampouco a capitulação, mas o desvio de rota. O Brasil precisa intensificar a abertura de novos mercados na Ásia, no Oriente Médio, na África e na Europa, aprofundar a integração produtiva real dentro do Mercosul e com os países andinos. Falta, ainda, olhar com mais seriedade para o próprio mercado interno, um dos maiores do mundo e ainda subutilizado como âncora de desenvolvimento. É o único caminho para deixar de depender de um parceiro que, como a revelação dos documentos deixou claro, mistura tarifas com interferência econômica e eleitoral sem nenhum constrangimento.

Selic em queda, mas juros continuam altos

Por O Povo (CE)

A percepção de que é possível reduzir ainda mais a taxa de juros, sem causar prejuízos à política monetária, é cada vez mais evidente

Pela quinta vez consecutiva, desde março deste ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa básica de juros. A redução foi de 0,25 ponto percentual, acumulando queda de 1,25 ponto este ano. A decisão foi unânime entre os integrantes do Copom. No período, a taxa caiu de 15% para os atuais 13,75% ao ano.

Observe-se que o centro da meta de inflação anual foi estabelecido em 3% pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), com uma "banda" de 1,5 ponto percentual. Como a inflação acumulada em 12 meses é de 4,22%, pode-se considerar que a inflação está dentro da meta estabelecida pelo CMN, ainda que não em seu centro.

Há uma corrente de economistas defendendo que o centro da meta de inflação deveria ficar acima de 3%. É o caso do ex-diretor de Política Econômica do BC, Sérgio Werlang, professor da Fundação Getúlio Vargas. Ele defende uma meta de inflação "um pouco mais alta", porém precedida de um ajuste fiscal.

O comunicado divulgado pelo Copom reconhece o recuo de preços e uma atividade econômica mais moderada. Em seu modo hermético de comunicar suas decisões, o Copom anota: "Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, com assimetria altista". Isto é, a inflação pode baixar ou subir, mas prevalece a tendência é de alta. O comitê também apela para a "incerteza internacional" e o desequilíbrio das contas públicas para evitar previsões sobre a próxima reunião do Copom, em novembro.

Em agosto, quando a taxa Selic foi reduzida para 14%, os presidentes-executivos de dois dos maiores bancos brasileiros defenderam novos cortes na taxa Selic (Reuters). Eles ressaltaram que o alto nível da taxa tem efeitos nocivos para a economia. Segundo o presidente-executivo ?do Bradesco, Marcelo Noronha, "a taxa de juros real está muito alta ?no Brasil. Acho que a política monetária já fez efeito. Ela jogou a inflação para baixo. Eu não vejo por que não reduzir (a taxa básica de juros)".

Para o presidente-executivo do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, o Brasil precisa trabalhar para reduzir a taxa de juros para um dígito, criando as condições para custos de empréstimo estruturalmente menores. O Brasil é o segundo país do mundo com a maior taxa real de juros (com desconto da inflação), ficando atrás somente da Rússia.

Assim, a percepção de que é possível reduzir ainda mais a taxa de juros, sem causar prejuízos à política monetária, é cada vez mais evidente. Isso possibilitaria crédito mais barato, mais investimentos, redução do endividamento, maior consumo das famílias e redução do custo da dívida pública.

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