O Globo
A explicação para o crescimento da dívida
pública não pode ser política ou simplista. Não dá para apenas culpar o governo
ou os altos juros
A dívida pública subiu e ronda o país. Mas para entender direito o que tem acontecido é preciso se desligar das paixões políticas. A dívida subiu 11 pontos percentuais no governo Lula e chegou a 83% do PIB. No período Bolsonaro, chegou ao recorde de 87,66% e caiu no fim do governo para 71,7%. A queda naquela época foi o resultado de um truque contábil e dois fatores conjunturais favoráveis. O mandato Lula tem ampliado os gastos nesta reta final da campanha e isso é ruim. Porém, não é a despesa que explica toda a alta da dívida pública.
A dívida subiu no governo Bolsonaro pelo
aumento forte de gastos devido à Covid e caiu no final do mandato pelo efeito
combinado de três fatores. Um é truque. O dólar naquela época subiu muito. Isso
fez com que as reservas em reais crescessem. Só que apenas contabilmente.
Subiram porque um mesmo dólar valia mais em reais. Esse aumento das reservas em
real foi usado pelo então ministro Paulo Guedes para abater a dívida pública.
Ele pegou R$ 350 bilhões, 4,5% do PIB, e reduziu a dívida. Foi um falso ajuste,
já que ele usou uma valorização da reserva absolutamente contábil.
Outro fator que ajudou a redução da dívida
foi a inflação. Ela chegou a 10%. Quando a inflação sobe, o PIB Nominal sobe
junto, o que faz a dívida cair como percentual do PIB. A pandemia elevou a inflação,
em parte pela maneira como a economia foi administrada naquela crise, e esta
alta acabou comendo uma parcela da dívida. O terceiro ponto é que os juros
despencaram no governo Bolsonaro e chegaram a 2%. Não porque a inflação
estivesse sob controle, ou o déficit estivesse caindo, e sim para evitar a
recessão na Covid.
Hoje, grande percentual do crescimento da
dívida se deve à própria dívida e aos juros altos. Vejam os números. O déficit
primário do setor público em agosto foi R$ 10 bilhões, mas quando entra a conta
financeira, ou seja, os juros da dívida, o déficit nominal vai para R$ 116
bilhões. Em 12 meses, o déficit sem contar os juros da dívida foi R$ 82 bilhões
e o resultado nominal, que conta os juros da dívida, foi de R$ 1,2 trilhão.
Significa que a solução é não pagar os juros
da dívida? Claro que não. Como qualquer pessoa sabe, seria o colapso da
economia. O Tesouro deve a todos os aplicadores, pequenos e grandes, famílias e
empresas. E se os juros caírem, vai se resolver? Só se for por decisão do Banco
Central e sem intervenção política. Do contrário, o tiro sai pela culatra. A
desconfiança na política monetária provoca turbulências muito piores.
O fato de a maior parte do crescimento da
dívida se dever ao custo financeiro da dívida não exime de culpa o aumento dos
gastos nesta última etapa. Não se consegue dimensionar direito o impacto fiscal
de tanta bondade e o governo tem de fato abusado de medidas de estímulo ao
crédito. Isso é preocupante.
No Conselho Monetário Nacional, nos últimos
meses, não houve reunião sem aprovação de medidas de oferta de crédito. Seja
para o agro, sejam linhas subsidiadas para todo o tipo de transporte. Desenrola
para todos os segmentos encrencados. Alguns são mais defensáveis, outros mais
controversos. Todos juntos provam que o governo tem estimulado o endividamento.
O desemprego está no nível mais baixo da
série histórica, houve aumento da renda e, mesmo assim, as pessoas estão
endividadas. O nível do endividamento das famílias anunciado ontem de 49,9% é o
mesmo número de meados de 2022. A crise do endividamento foi de 2020 a 2022,
por causa da Covid. Se a renda cresceu e o desemprego caiu, devia ter caído o
endividamento. E não caiu porque o crédito tem sido estimulado.
A dívida pública mudou de composição. Há dez
anos, 17% da dívida era em LFT, agora é 52%. O que significa que a Selic
impacta uma parte maior da dívida. Mas os investidores foram para lá porque
sabem que o Banco Central vai defender a moeda, mesmo que tenha que manter os
juros altos. Se o mercado apostasse em inflação fora de controle compraria mais
NTN-B, por exemplo, que é IPCA mais uma parcela de juros e o dólar estaria
disparando. Esse assunto é técnico. Simplificá-lo ou politizá-lo culpando
apenas o governo, ou só os juros altos, não ajuda nem a entender, nem a
procurar uma solução que seja boa para o país. Como tenho dito aqui, número é
igual a menor de idade. Não pode viajar desacompanhado. No caso, de uma
explicação.

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