Correio Braziliense
As polêmicas eleitorais foram deslocadas para o
terreno institucional e ideológico: a crise do Supremo, o caso Master, as
intervenções da Justiça Eleitoral e a exploração da religião
Lula foi mal no debate do segundo turno da TV Bandeirantes nas eleições de
1989, contra Fernando Collor de Mello, na avaliação de muitos dos próprios
petistas. Fora surpreendido por uma referência cifrada a um aparelho de som
“três em um” — rádio, vitrola e toca-fitas — que teria dado de presente a uma
ex-namorada. Segundo o relato, a história chegara ao conhecimento de Marisa
Letícia às vésperas do confronto, provocando uma crise doméstica. Lula já havia
sido alvejado pela exploração eleitoral de seu relacionamento com Miriam
Cordeiro, mãe de sua filha Lurian. Chegou aos estúdios da Bandeirantes cansado
e despreparado, segundo Gilberto Carvalho, um dos coordenadores da campanha.
Na defensiva
Essa lembrança ajuda a compreender sua decisão de faltar ao debate da Globo,
marcado para a noite de 1º de outubro. Ainda mais depois do fraco desempenho na
entrevista concedida a Cesar Trali e Renata Vasconcelos em 27 de agosto, no
começo da campanha deste ano. Lula também não gostou do tom duro e
inquisitorial dos apresentadores. Isso não basta, entretanto, para justificar
sua ausênciacom. Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema
confirmaram presença, enquanto o presidente escolheu uma entrevista no mesmo
horário. A vantagem estreita de Lula torna essa decisão uma aposta de alto
risco: sua margem pode não suportar o desgaste de ser criticado pelos
concorrentes sem responder diretamente nem defender seu governo.
O cálculo é defensivo: Lula seria o alvo
principal de adversários interessados em responsabilizá-lo por tudo o que
incomoda o eleitor. Fora do palco, reduz o risco de ser surpreendido por uma denúncia,
verdadeira ou falsa, e de cometer um deslize verbal que alimente a campanha
contrária. Essa é uma explicação plausível para a decisão, embora não se possa
supor que sua equipe conheça alguma revelação iminente. O receio pode ser
simplesmente o de perder o controle de uma situação imprevisível
O precedente de 1989 mostra como uma provocação pessoal pode desorganizar um
candidato. Hoje, uma frase infeliz não depende de uma ilha de edição para
alcançar milhões de pessoas: circula imediatamente nas redes, recortada e
repetida. Entretanto, fugir desse risco cria outro. Os adversários poderão
apresentar a ausência como medo de prestar contas, e Lula terá de responder
depois, quando a interpretação do episódio já estiver disseminada.
No momento, as principais polêmicas eleitorais foram deslocadas para o terreno
institucional e ideológico: a crise do Supremo, o caso Master, as intervenções
da Justiça Eleitoral e a exploração política da religião. A campanha discute
quem representa a democracia, a soberania ou a fé, enquanto deixa em segundo
plano o que cada candidato pretende fazer no governo. Investigações e conflitos
entre poderes exigem esclarecimento, mas não substituem propostas para
enfrentar o custo de vida, o endividamento, a violência e as carências dos
serviços públicos.
Lula poderia aproveitar o confronto para
defender seus resultados, reconhecer insuficiências e explicar por que
necessita de outro mandato. Poderia também cobrar de Flávio compromissos
concretos e expor contradições. Ao faltar, entrega parte dessa iniciativa aos
concorrentes. A entrevista paralela permite organizar argumentos, porém, não
reproduz a força política de responder diante de quem o contesta.
Flávio também corre riscos ao comparecer. Será questionado pelos demais
candidatos e poderá cometer seus próprios erros. Entretanto, ganha a
oportunidade de se colocar como homem de diálogo, parecer disponível ao
escrutínio e disputar os eleitores ainda indecisos. Numa eleição apertada, não
se pode afirmar que a ausência produzirá uma ultrapassagem, mas tampouco
descartar essa hipótese.

Um comentário:
o Lula vai pra casa beber e chorar Flávio Bolsonaro vai ganhar no primeiro turno
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