terça-feira, 29 de setembro de 2026

O cálculo de risco que esvaziou o debate, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presença ou ausência do debate é um perde-perde, mas Lula avaliou que, na segunda opção, perderia mais

“Vou fazer uma pergunta e eles vão passar meia hora batendo em mim. Vou fazer mais outra pergunta e vai ser mais meia hora só apanhando”. Ao final, os adversários teriam uma coleção de cortes contra si e ele, a imagem de acuado. Foi assim que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou a seus principais assessores, no fim de semana, sua resistência em ir ao debate de quinta na TV Globo. Prefere ir apenas no 2º turno, mas ainda não deu resposta.

A campanha de Renan Santos (Missão) passou a alimentar a expectativa de que, na ausência de Lula, seria chamado. Neste caso, a dúvida é se o senador Flávio Bolsonaro (PL) manterá a decisão de ir, já anunciada. Pode vir a se tornar o principal alvo, a começar por Renan, o mais agressivo da disputa, mas perderia a oportunidade de acusar Lula de fujão.

Ausente, Lula será acusado, ainda, de desrespeitar o direito do eleitor de se informar e tomar decisão a partir do embate entre as ideias dos candidatos. Indo, sob a pressão de um cronômetro incompatível com um contador de história, pode vir a perder a discreta vantagem adquirida sobre seu principal adversário na reta final. Ou seja, é um perde-perde, em que a ida ao debate, na sua avaliação, imporia uma perda maior.

A campanha ficará privada de um fato capaz de mudar os ventos na reta final. A biruta agora ficará na dependência do imprevisível - vazamentos ou deslizes. A Quaest mostrou que a soma de votos da terceira via praticamente inviabiliza a vitória de um dos dois no 1º turno.

A rejeição de Lula e Flávio e a relativa consolidação dos votos dos demais candidatos impede esta migração maciça. Em 2022, a terceira via ficou aquém do que as pesquisas lhe atribuía, mas não se sabe se a opção envergonhada por Jair Bolsonaro veio deles ou de votos em branco e nulos, que ficaram em metade dos registrados em 2018.

Não terá sido a primeira vez que um 1º turno termina sem debate. Na campanha de 1998, o então candidato à reeleição, Fernando Henrique Cardoso, anunciou que só iria àqueles do 2º turno. Como a eleição terminou no primeiro, ficou por isso mesmo. No 1º turno de 2006, foi a vez de Lula dizer que estava fora. Hoje seu vice, Geraldo Alckmin foi o único candidato presidencial a terminar o 2º turno com menos votos do que os obtidos no primeiro.

Atribuiu-se à votação obtida por Alckmin no 1º turno daquela eleição, em parte, a uma resposta à ausência de Lula nos debates, remediada no segundo. O mesmo pode acontecer desta vez. Nem isso demoveu Lula.

A idade pesa, principalmente com o antecedente de Joe Biden naquele fatídico 27 de junho de 2024. Gripado, o ex-presidente americano demonstrou pouca energia, não obedeceu às marcações de tempo, fechou os olhos em busca das palavras, fez longas pausas e se atrapalhou a ponto de dizer que havia burlado o Medicare, programa público de saúde, orgulho democrata. Sarcástico, mas com a beligerância sob controle, Donald Trump deixou Biden se enrolar nas próprias pernas. Como o debate aconteceu precocemente, houve tempo de substituí-lo pela vice, Kamala Harris, um mês depois, o que não garantiu a vitória democrata.

Três anos mais novo que Biden, Lula tem apenas um ano a menos que o ex-presidente naquela disputa. A dificuldade de se adaptar às regras já marcou o desempenho em 2022, quando irritou-se com Padre Kelmon, candidato do PTB, e hesitou ao responder a Jair Bolsonaro que o chamou de “presidiário”.

O presidente, porém, tem seu desempenho afetado pela conjuntura desde a estreia em disputas presidenciais. Foi num debate de 1989 que carimbou Paulo Maluf: “Quando o candidato Maluf fala em competência, é importante o telespectador saber por que ele é competente. É porque compete, compete, compete e nunca ganha”. Mas também foi nesta campanha que Lula se deixou desequilibrar no último grande ato do 2º turno.

Dois dias antes, uma pesquisa Ibope trouxe Lula e Fernando Collor de Mello em empate técnico. Naquela noite, seu adversário, o intrépido caçador de marajás, exibiria Mirian, mãe da filha mais velha de Lula, Lurian, acusando-o de tê-la pressionado para que a abortasse. Ele assumiu a paternidade, pagou pensão e tinha o apoio dos avós da menina. O problema era o impacto emocional sobre o candidato, que se recusou a falar mal da mãe de sua filha e a deixar que ela saísse em sua defesa. Só permitiu que ficasse ao seu lado no depoimento que gravou sobre o tema.

Lula chegou ao debate quebrado por uma viagem às 5h da manhã da qual só retornaria à noite, como conta seu então marqueteiro, Paulo de Tarso Santos, no livro “Lula lá e outras histórias”. Não houve preparação. O petista conseguiu ir mal num debate em que seu adversário, filho da elite usineira de Alagoas, disse que ele tinha um aparelho 3 em 1 (toca-fitas, toca-discos e rádio) como ele mesmo não possuía.

Não é só a idade que pesa. Em 2016, Flávio Bolsonaro, aos 35 anos, enfrentou um debate pela Prefeitura do Rio. No segundo bloco, pediu para o apresentador repetir uma pergunta alegando pressão baixa. Não adiantou. Sua adversária, a médica e deputada federal Jandira Feghali (PCdoB) agarrou-o pelo braço, veio o intervalo e o candidato foi levado a um hospital onde informou-se que tivera intoxicação. O pai foi pra cima de Feghali: “Comunista não põe a mão no meu filho”. O rebento ficou em quarto lugar.

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