quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

País pagará o preço do debate eleitoral indigente

Por Folha de S. Paulo

Lula se recusa mais uma vez a participar de confronto televisivo, e Flávio foge à tarefa de ser propositivo

O país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos e o risco de agravamento do estresse financeiro

A decisão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de não participar do derradeiro debate televisivo da campanha presidencial deste ano —e, assim, de nenhum confronto aberto de ideias antes do primeiro turno— evidencia o descaso com o eleitor. Não se pode dizer, infelizmente, que essa seja a única, ou mesmo a maior, mostra da degradação da disputa política nacional.

Flávio Bolsonaro (PL), que na condição de principal postulante oposicionista teria a obrigação de ser mais propositivo, passou a campanha ora fazendo críticas demagógicas ao custo de vida, como se tivesse o poder de fazer os preços baixarem, ora inventando desculpas esfarrapadas para a revelação de suas relações de afeto com o corruptor Daniel Vorcaro.

A indigência do cotejo de programas é o efeito nefasto de uma corrida em que a estratégia mais relevante de cada um dos candidatos competitivos consiste em explorar a enorme rejeição ao adversário. É fato que, em pleitos passados, temas incômodos já foram tratados à base de platitudes e tergiversações; hoje, porém, são quase ignorados.

Isso ocorre devido à conjugação de um cenário de forte polarização ideológica afetiva com o virtual empate entre os dois favoritos nesta reta final, tanto em intenções de voto como em repulsa do eleitorado. Sem ter muito espaço para crescer, eles optam por táticas de guerrilha.

Qualquer pessoa minimamente bem informada sabe que o país está diante de uma escolha difícil entre um duro ajuste dos gastos públicos, que envolverá medidas potencialmente impopulares, e o risco de agravamento do estresse financeiro que já sufoca famílias, empresas e o próprio governo, podendo levar a uma recessão.

Lula, além de não dar sinal de que pretende fazer uma correção de rumos, esmera-se em criar novos gastos às vésperas do pleito acirrado; Flávio promete um grande ajuste que, no mundo de fantasia das campanhas, será feito sem sacrifícios.

O que pode parecer uma estratégia eleitoral sagaz torna, depois, muito mais difícil a tarefa de governar —em prejuízo dos cidadãos. Candidatos fazem compromissos públicos com a finalidade de mitigar o risco de surpresas amargas à frente, expondo-se à responsabilização política em caso de descumprimento.

Isso nada tem de abstrato. Para não ir muito longe na história, o grande estelionato eleitoral perpetrado por Dilma Rousseff (PT) depois da eleição de 2014, quando se tentaram reformas orçamentárias renegadas na campanha, foi um dos elementos que contribuíram decisivamente para o impeachment da ex-presidente.

Em poucas semanas estará esquecido todo o ridículo alarido criado em torno do estatuto de padroeira de Nossa Senhora Aparecida —uma ficção que hoje mobiliza até ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Restarão problemas graves e reais para o eleitorado, que os principais candidatos trataram de ignorar por oportunismo ou covardia.

Trump condena o mundo a guerra sem fim

Por Folha de S. Paulo

Americano rejeita proposta do Irã, mesmo minando a economia e sob risco de fracasso nas eleições legislativas

Negociar seria oportuno ao republicano, levando em conta sua popularidade, que erodiu enquanto inflação e juros avançaram com a guerra

Passados sete meses da guerra entre EUA e Irã, Donald Trump rejeitou a nova proposta de acordo de Teerã, no último sábado (26). Ambos os lados sinalizam ter fôlego para prosseguir com as hostilidades.

O poderio militar americano, mesmo com a queda nos estoques de munições, continua insuperável e à disposição de um governo pouco afeito a submeter suas operações ao Senado.

Combalido economicamente antes mesmo do início dos ataques, o Irã maneja seu poderio sobre vias marítimas essenciais ao comércio de combustíveis.

Seus aliados iemenitas, os houtis, atuam no bloqueio do estreito de Bab el-Mandeb. Este é outro gargalo das rotas energéticas da região, além do estreito de Hormuz, por onde passaram 25% do comércio mundial de petróleo e 19% do de gás natural liquefeito em 2025, segundo órgão de pesquisa do Congresso dos EUA.

Em setembro, o preço do barril de petróleo voltou a superar US$ 100 pela primeira vez desde julho; antes da guerra, em fevereiro, o valor rondava US$ 72.

Tampouco há sinais de que os ataques iranianos a bases americanas no Oriente Médio e à infraestrutura petrolífera dos aliados árabes dos EUA tenham se esgotado. Em paralelo, a decisão do Pentágono de remover as últimas tropas americanas do Iraque, na quarta (30), motiva potencial inclusão do governo xiita de Bagdá na órbita de influência de Teerã.

A recusa da teocracia em prosseguir com as negociações de paz com os EUA, em julho, e o consequente fim do cessar-fogo —descumprido por ambos os lados— já emitira um alerta ao mundo.

Mas a rejeição à nova proposta de conciliação de Teerã —definição dos termos de paz em sete dias, com subsequente início das negociações do seu programa nuclear— indica que Trump só conversará com o Irã quando o regime dos aiatolás acatar suas exigências e recuar nas demandas.

Negociar, contudo, seria oportuno ao republicano, levando em conta as eleições legislativas no país em novembro e a sua popularidade, que erodiu na medida em que a inflação e a taxa de juros avançaram com a guerra.

Ademais, pressionada a alavancar crescimento econômico pela via do consumo interno, a China precisa do petróleo aos preços pré-guerra e não pode abandonar seu aliado, o Irã. Assim, quanto mais longo for o conflito, maiores os riscos de Xi Jinping ter seus atritos com Trump agravados.

Enquanto o americano se aferra a um sonho de vitória incontestável, o mundo sofre os efeitos nefastos de uma guerra mal calculada já em sua origem.

Novo Desenrola agrava problema que quer resolver

Por O Globo

Custo do programa deteriora contas do governo, contribuindo para manter os juros altos que alimentam dívidas

Às vésperas do pleito de domingo, em desafio à legislação eleitoral, o governo voltou à carga com novas medidas para aliviar dívidas de toda sorte. Na sexta-feira, lançou o Desenrola 3.0, terceiro programa do tipo no atual mandato. Na terça, a cinco dias da eleição, fez uma bateria de novos anúncios, destinados a favorecer microempreendedores. Todas as medidas têm custo fiscal, são ineficazes e premiam os maus pagadores.

A nova versão do Desenrola — a segunda deste ano — prevê que o governo compre carteiras de créditos podres de pessoas físicas. O desconto mínimo será de 90%, com a exigência de que o abatimento seja repassado ao devedor. As carteiras deverão ser compostas por dívidas de até R$ 10 mil. No primeiro lote, a ênfase será no cartão de crédito rotativo e no crédito pessoal não consignado. O programa também contemplará débitos não bancários, com prestadores de serviços, de utilidade pública e varejo. O custo para o Tesouro é estimado em R$ 15 bilhões. Com a esperança de escapar da legislação eleitoral, que proíbe medidas assim, a equipe econômica batizou o programa de Desenrola 3.0, como se fosse continuação dos anteriores. Na verdade, a mera existência dele já revela que os outros não funcionaram, do contrário não seria necessário.

Nesta semana foi lançado o Desenrola MEI Pequeno Valor, prevendo que, até o fim de janeiro, microempreendedores individuais poderão negociar dívidas de até R$ 8.105. As condições são extremamente generosas. O devedor deverá pagar 5% do total para obter desconto de 50% do restante e o direito de parcelar em até 55 vezes. A Advocacia-Geral da União (AGU) também lançou edital para MEIs que devam a autarquias e fundações públicas federais. Quem aderir poderá obter redução pela metade e até 60 meses para quitar. No mesmo dia, a AGU criou a possibilidade de renegociação para estudantes que receberam auxílio para estudar no país ou no exterior.

Por fim, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional determinou que empregadores com até R$ 45 milhões em débitos inscritos em dívida ativa do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) ou da Contribuição Social poderão obter descontos sobre juros, multas e encargos legais. Não contente em usar recursos do Tesouro, o governo inovou, pondo a mão também no bolso do trabalhador.

Todas essas medidas são deletérias. Não só porque desequilibram a disputa nas urnas, permitindo que o partido no poder use recursos públicos para levar vantagem. Também são inócuas. A causa da inadimplência são os juros altos. Enquanto não caírem, pagamentos continuarão a atrasar. Tanto que, no último Desenrola, de dez dívidas renegociadas, três continuavam sem pagamento, como revelou O GLOBO.

Para piorar, a sucessão de renegociações cria a situação conhecida em economia como “risco moral”. Acostumados a ser acudidos quando não honram as parcelas, consumidores e empresas são incentivados a não pagar em dia. Na atual conjuntura, os anúncios têm consequências ainda mais graves. A dívida bruta do governo está em 83% do PIB, maior patamar desde que a pandemia paralisou a economia. Não é hora de abrir mão de receitas por oportunismo. O governo age como o piromaníaco que, responsável por incendiar os juros com sua irresponsabilidade fiscal, tenta se passar por bombeiro para lançar mais gasolina nas chamas.

Rio exerce protagonismo na invasão da política pelo crime organizado

Por O Globo

Além da atuação nefasta de facções e milícias locais, favelas cariocas abrigam traficantes de outros estados

Vereador em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Vagner Mateus dos Santos, o Vaguinho Neguinho, tentou se candidatar a deputado estadual pelo PRD, mas sua candidatura foi indeferida pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ). Não é para menos. Ele tentou avisar o chefão local do Comando Vermelho (CV) sobre a visita de um candidato adversário à comunidade. “Não vai entrar”, respondeu o líder do narcotráfico de sua cela no Complexo Penitenciário de Gericinó. Da mesma penitenciária, outro traficante, da facção rival Terceiro Comando Puro (TCP), já havia aparecido no telão ao vivo num comício da eleição municipal de 2024 em Campos, no Norte Fluminense, para apoiar um candidato a vereador.

Infelizmente tais histórias se tornaram mais frequentes, como revela a série de reportagens “Tiro no pleito”, publicada pelo GLOBO. É alarmante a forma como facções criminosas e milícias tentam avançar seus domínios sobre partidos e Casas legislativas. A questão é nacional, mas o Rio assumiu protagonismo. De acordo com dados da Polícia Federal (PF), os inquéritos abertos para apurar corrupção e coação de eleitores quintuplicaram em oito anos. O Rio lidera o ranking, com 1.072 investigações, mais de 200 acima do Ceará, segundo colocado.

Em Macaé, no Norte Fluminense, a PF investiga se a viúva de um chefe da facção Amigos dos Amigos (ADA) comanda a campanha do grupo político do atual prefeito. Belford Roxo se tornou uma espécie de epicentro do envolvimento de grupos criminosos na política. A cidade deu origem à nova jurisprudência do TRE-RJ, em vigor desde a eleição de 2024, segundo a qual bastam indícios robustos para impugnar uma candidatura, e não mais condenação em segunda instância. Pelo menos dez candidatos foram barrados neste ano, a maioria ligados a milícias. Ainda assim, nomes barrados em 2024 continuam a atuar na atual campanha.

Base do CV, a cidade do Rio também se tornou refúgio de chefes de facções de outros estados. A favela da Rocinha abriga vários, que não têm pudor em pressionar de longe o eleitorado em favor de seus candidatos. Um dos líderes do tráfico de Santa Quitéria, Noroeste do Ceará, vive há mais de cinco anos no Rio, mas trabalhou nas eleições de 2024 por um candidato a prefeito por lá. Outros criminosos cearenses refugiados no Rio são acusados de ser mandantes de ataques à campanha de uma candidata de Sobral. O Complexo da Penha serve de abrigo a um traficante paraense acusado de ordenar ataques a tiros à casa de um candidato a vereador de Barcarena. Na Paraíba, os três últimos prefeitos de Cabedelo foram afastados por envolvimento com a Tropa do Amigão, ramificação local do CV cujo chefe rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu para o Complexo do Alemão, de onde controla seus domínios por meio de uma rede de câmeras.

Tais histórias reforçam a necessidade de a Justiça Eleitoral agir preventivamente para barrar candidaturas suspeitas. Partidos políticos precisam ser vigilantes e, obviamente, o eleitor deve escolher bem seus candidatos.

Lula avacalha a liturgia do cargo

Por O Estado de S. Paulo

O telefonema a Flávio Dino durante um comício no Pará diz menos sobre o ministro do STF do que sobre um presidente que desmoraliza a institucionalidade que sustenta a República

Luiz Inácio Lula da Silva é presidente da República há um bocado de tempo, razão pela qual deveria conhecer, de cor e salteado, a liturgia do cargo. Mas o chefão petista, a esta altura, parece incapaz de respeitar os limites da Presidência – o que fica ainda mais explícito em época de campanha eleitoral. É em cima do palanque que Lula avacalha a institucionalidade que sustenta a República.

Na segunda-feira passada, no Pará, Lula mais uma vez transformou em comício o que seria um ato de governo – a sanção de uma lei sobre controle de qualidade do atendimento em hospitais particulares. Até aí, nenhuma surpresa: tudo o que Lula faz na condição de presidente invariavelmente é transformado em discurso eleitoral, mesmo fora de época. Mas desta vez Lula caprichou: não contente em fazer comício durante ato como presidente da República, chamou para o palanque o “companheiro” Flávio Dino, seu fiel escudeiro no Supremo Tribunal Federal (STF), a pretexto de homenageá-lo por ser o autor da tal lei quando era senador.

Foi assim: antes de assinar o papel, o presidente pediu a um assessor que telefonasse para Dino, ali mesmo, no palanque. Atendida a ligação, Lula acionou o viva-voz e começou a discursar para o aparelho. Quando o presidente pediu ao ministro do STF que se dirigisse à plateia, a ligação caiu – ou Dino desligou, o que seria um inédito surto de pudor de um ministro que só foi parar no Supremo porque é um político a serviço de Lula.

Um chefe de Estado e de governo com o mínimo senso de decoro e respeito à institucionalidade saberia que um integrante da mais alta corte de Justiça do País jamais poderia ser chamado a participar, sob qualquer pretexto, de um ato de campanha eleitoral, ainda que mal disfarçado de cerimônia oficial. Evidentemente, sendo o líder político calejado que é, Lula sabe disso, o que só agrava a situação.

A naturalidade com que Lula chamou Dino ao telefone desde o palanque diz muito sobre o que ele pensa do ministro e, por tabela, do STF. Para o petista, Dino é seu correligionário e, sendo assim, o Supremo não é um Poder independente, mas uma extensão de seu governo a ser colonizada por gente que lhe devote lealdade pessoal.

Não por acaso, a primeira indicação de Lula para o STF neste terceiro mandato presidencial recaiu sobre seu advogado particular, Cristiano Zanin, cujo “notável saber jurídico” só foi notado mesmo por seu cliente mais famoso. A segunda indicação foi a do próprio Dino, seu ex-ministro da Justiça, que só chegou ao STF por ter a “cabeça política” com a qual Lula sempre “sonhou” para a Corte. Ora, quem escolhe ministros do STF por afinidades políticas ou pessoais tende a tratá-los como aliados, quando não subalternos. Foi exatamente isso o que Lula fez no Pará, à vista de todos.

O que mais impressiona é o despudor. É óbvio que presidentes da República mantêm contatos com ministros do STF no curso de seus mandatos. Mas, tradicionalmente, preservava-se alguma aparência de distância e republicanismo, porque se sabe que a legitimidade dos órgãos do Poder Judiciário advém de sua aura de imparcialidade. Lula mandou às favas até isso. Fez questão de exibir a intimidade com um ministro do STF que trata como seu, diante não só da plateia de militantes, mas do País. Em qualquer democracia madura é impensável uma cena remotamente parecida.

O estrago provocado por Lula, ademais, vai além do desrespeito à institucionalidade do cargo. A encenação ocorreu um dia após Dino ter liberado, em decisão monocrática, postagens falsas nas mídias sociais contra o principal adversário do incumbente na corrida eleitoral, Flávio Bolsonaro. Logo, cada decisão do ministro que, eventualmente, interesse ao governo será lida com ainda mais ceticismo a partir do telefonema.

O Supremo chegou ao rés do chão nesta que já pode ser interpretada como a mais profunda crise de legitimidade de sua história. O mínimo que se esperaria de um presidente da República cioso das implicações dos fatos é que, pelo menos, não a agravasse, sobretudo a menos de uma semana de eleições gerais cujos resultados podem ser determinantes para o futuro não de um, mas de alguns ministros da Corte – e, principalmente, para o futuro do Brasil.

É preciso restabelecer o debate parlamentar

Por O Estado de S. Paulo

A discussão pública de projetos é essencial para a democracia, mas hoje, no Congresso, manobras regimentais e decisões negociadas longe do plenário tornam o processo legislativo obscuro

Quando estiver diante da urna neste domingo para escolher seu deputado e seus senadores, o eleitor deve ter em mente a razão pela qual esses políticos serão eleitos. Um parlamentar recebe o mandato para levar ao Congresso interesses e preocupações dos cidadãos que representa, confrontá-los com posições diferentes e, a partir desse embate, ajudar a construir as leis do País. Já faz algum tempo, porém, que não há debate parlamentar no Congresso, graças a manobras regimentais e acordos entre caciques. As votações se tornaram protocolares, e não raro muitos parlamentares nem sequer conhecem o projeto em que estão votando. Isso só colabora para aumentar a sensação de que os cidadãos não têm voz sobre decisões que afetarão sua vida. Espera-se que os deputados e senadores dessa nova legislatura trabalhem para mudar esse quadro, pois disso depende a recuperação da imagem do Congresso como “casa do povo”.

O fato é que quase não há mais debate público no Congresso. Comissões temáticas são atropeladas, pedidos de urgência para encurtar a tramitação de textos viraram rotina, relatórios sobre projetos de lei surgem em cima da hora e acordos entre líderes frequentemente entregam ao plenário decisões prontas, tomadas longe dos olhos e ouvidos da população. A negociação de bastidores substitui a discussão aberta, e deputados e senadores são chamados apenas para chancelar o que poucos decidiram, sob critérios que o eleitor desconhece. O cidadão fica longe da formação das leis e, por vezes, nem sequer consegue saber qual posição seu representante defendeu.

Em 2024, por exemplo, a Câmara decidiu acelerar a tramitação de um projeto que equiparava a homicídio o aborto realizado depois da 22.ª semana de gestação. Poucos assuntos dividem tanto a sociedade e exigiriam mais debates, mas não houve votação nominal nem espaço para discursos. Já em maio deste ano, a Câmara decidiu mudar uma série de regras em benefício dos próprios partidos, com um relatório apresentado no mesmo dia da votação. Seu mérito passou em votação simbólica, numa sessão híbrida e com baixa presença no plenário. Nem sequer ficou registrado perante o eleitor como cada deputado votou.

Os assuntos são completamente diferentes e os alinhamentos partidários também foram. O método, no entanto, se repetiu. Um Congresso que se acostuma a decidir assim abre mão de uma de suas funções essenciais. O debate parlamentar existe para que uma proposta seja submetida ao contraditório, suas consequências sejam examinadas e seus defensores tenham de responder às objeções. Nesse intervalo, a sociedade também descobre o que está em jogo e pode reagir e pressionar seus representantes antes da decisão. Quando esse espaço desaparece, muitas vezes o eleitor só fica sabendo quando já é tarde.

Há parlamentares que protestam contra tramitações açodadas. Deles também se deve cobrar mais. Quem percebe que está sendo convocado a votar sem conhecer adequadamente o texto não pode se limitar a reclamar nos corredores. Tem tribuna, instrumentos regimentais e, sobretudo, os canais de comunicação que cultivou com seus eleitores durante a campanha. Mesmo isolado, pode fazer barulho. Deve fazê-lo.

Ao eleitor, cabe perguntar ao candidato ao Congresso se ele aceitará votar um texto que recebeu apenas horas antes, se defenderá que assuntos relevantes passem pelas comissões, se exigirá votação nominal quando for necessário prestar contas de sua posição, se avisará seus eleitores quando uma decisão importante estiver sendo tomada às pressas e, finalmente, se terá independência para enfrentar a própria liderança quando ela tentar transformar o plenário em mera instância de homologação.

O eleitor entrega a um deputado ou senador sua voz no Congresso. Espera que ela seja ouvida, e não diluída em acordos partidários ou submetida a interesses que desconhece. O Congresso precisa voltar a ser um lugar onde as diversas opiniões sobre os temas relevantes para o País sejam manifestadas e confrontadas. O debate é o que permite ao cidadão acompanhar essa representação enquanto ela acontece, e não apenas julgá-la quatro anos depois. Que o eleitor se lembre disso no dia 4.

A epopeia do Desenrola

Por O Estado de S. Paulo

Nova fase do programa que mira dívidas de difícil recuperação é incentivo ao risco moral

Desde que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva lançou, no início de maio, uma segunda edição do Desenrola, o programa de renegociação de dívidas, já havia ficado claro que novas versões da iniciativa seriam anunciadas, pois, mesmo em plena vigência do Desenrola 2, encerrado em 31 de agosto, os indicadores de inadimplência e de endividamento no País não deixaram de registrar recordes. Em agosto, de acordo com dados do Banco Central, a inadimplência no segmento de crédito com recursos livres atingiu 6,6%.

Assim sendo, não surpreende que, nove dias antes do primeiro turno de uma acirradíssima eleição presidencial, a gestão petista tenha se apressado para colocar na rua o Desenrola 3.

Lançado no mesmo dia em que o governo decidiu acabar com as bets – medida correta, mas adotada exclusivamente por conveniência eleitoral –, a nova fase do Desenrola ainda carece de detalhes operacionais. De forma geral, no entanto, o dinheiro da União (leia-se: do pagador de impostos) será usado para abater dívidas antigas e, por isso mesmo, de difícil recuperação para os bancos.

De acordo com a Medida Provisória 1.393, que institui o Desenrola 3, o governo pode usar até R$ 15 bilhões de dinheiro público para adquirir dos bancos dívidas contraídas por pessoas físicas que estejam vencidas e não pagas há mais de 720 dias e menos de 1.645 dias. O valor da dívida em atraso não pode superar os R$ 10 mil.

A ideia do governo é comprar com deságio de no mínimo 90% dívidas pessoais que equivalem a algo como R$ 150 bilhões. Apesar do desconto significativo no valor de face dos valores contratados, os bancos avaliam que a medida pode melhorar o ambiente de crédito.

Tanto a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), que representa as grandes instituições financeiras, quanto a Associação Brasileira de Bancos (ABBC), que reúne os bancos médios, receberam o Desenrola 3 de forma positiva. Não havia como ser diferente, uma vez que o programa, que também engloba dívidas com varejistas e concessionárias de serviços públicos, oferece às empresas uma oportunidade única de limpar seus balanços de ativos altamente duvidosos.

Já para quem paga a conta, isto é, o contribuinte, vai se consolidando uma tendência extremamente nociva. Não bastasse gastar desbragadamente o que não tem, o governo incentiva o cidadão a fazer o mesmo por meio de uma série de programas de crédito direcionado e regras de adesão frouxas. Não é à toa que a inadimplência e o comprometimento de renda são tão elevados no País.

Quando a situação se mostra insustentável, tal como agora, o governo oferece gestos supostamente bondosos como o Desenrola, cuja terceira edição é um incentivo descarado ao chamado risco moral.

É como se o governo dissesse aos brasileiros, em alto e bom som, que não há problema nenhum em contrair dívidas sabidamente impagáveis, uma vez que sempre haverá uma nova possibilidade de renegociação em condições camaradas.

China e EUA buscam convívio com ‘estabilidade estratégica’

Por Valor Econômico

Não foi detalhado o que seria essa estabilidade, mas parece ser um compromisso mútuo de gerenciar a competição global entre os dois países

A recente visita do presidente chinês, Xi Jinping, aos EUA foi marcada mais pela forma do que pelo conteúdo. Jantar de gala, roupas parecidas, risadas e trocas de elogios chamaram a atenção em encontros cuidadosamente coreografados. De concreto, houve principalmente um pequeno avanço em questões comerciais. Mas, tanto em diplomacia como em relações pessoais, a forma importa, assim como a regularidade dos contatos. Isso sugere que a visita pode ter sido mais positiva do que faz pressupor a escassez de anúncios práticos. E ela colocou em evidência uma expressão que poderá moldar um futuro menos conflituoso da relação entre as duas superpotências: “estabilidade estratégica”.

O termo, cunhado pelos chineses para estabelecer uma competição a mais pacífica que for possível, pressupõe que divergências agudas que surgirem podem ser amortecidas por reuniões frequentes. Pressupõe também, sem que seja um reconhecimento tácito ou uma regra escrita, que a China negocia em pé de igualdade com os Estados Unidos.

A preocupação com a forma começou já na recepção de Xi pelo presidente Donald Trump na pista do aeroporto. Isso não é a praxe. O protocolo diplomático prevê a recepção por uma autoridade inferior. Tratou-se de um gesto raro, uma demonstração inequívoca de deferência ao líder chinês. Em seus quase seis anos de governo, Trump nunca recebeu um líder ocidental no aeroporto. O único até agora havia sido o presidente russo, Vladimir Putin, na cúpula no Alasca, em agosto de 2025. Na escala de respeito de Trump, China e Rússia estão claramente à frente dos aliados.

O estilo pompa e circunstância contrastou com o resultado magro da visita em termos práticos. Dos oito pontos de consenso oficiais alcançados, apenas um tem efeito imediato: a redução recíproca de tarifas sobre uma cesta de produtos que soma US$ 30 bilhões em vendas de cada lado. O valor total de US$ 60 bilhões representa cerca de 12% do comércio entre os dois países, pelos dados de 2025. Isso poderá ter impacto para o Brasil, pois inclui produtos agrícolas que exportamos para a China, apesar de a soja ter ficado fora. Foi decidida ainda a extensão da trégua comercial entre os dois países, o que já era esperado. Isso significa que, enquanto há uma acomodação nas relações comerciais com Pequim, Trump continua mantendo a pressão contra aliados tradicionais dos EUA, como União Europeia e Canadá.

A maioria dos demais pontos de consenso é uma repetição de posições já conhecidas, como a de que o Irã deve cumprir seus compromissos internacionais e não desenvolver armas nucleares. Foi criado um canal de diálogo sobre os riscos relacionados ao desenvolvimento da Inteligência Artificial, o que parece subterfúgio para disfarçar que não há novidades nesse tema.

Pouco se sabe sobre o que eles discutiram a respeito de temas fundamentais para o mundo, como as guerras na Ucrânia e com o Irã. A China é o principal apoiador de Moscou e de Teerã nos dois conflitos. Também não houve referência à questão de Taiwan, ilha que Pequim considera uma província sua rebelde.

Xi buscou, ao longo do seu governo, equiparar-se em estatura política e histórica a Mao Tsé-tung, o fundador da China moderna. Ele centralizou o poder e eliminou o limite de mandatos. Seu pensamento virou doutrina oficial do Partido Comunista chinês, como era o de Mao. Xi parece querer deixar como legado a unificação total do território chinês. Ele violou os termos do tratado, assinado com o Reino Unido, de devolução de Hong Kong, ao assumir controle direto do território. Falta-lhe Taiwan. É improvável que esse não seja o seu objetivo final.

Mas a falta de avanços não significa um fracasso. O próprio contato pessoal regular entre os líderes já é significativo, pois reduz o risco de mal-entendidos e de um conflito acidental. Trump esteve em Pequim em maio. Os dois se encontrarão novamente nas cúpulas da Apec (em novembro, na China) e do G20 (em Miami, em dezembro). Tudo isso aponta uma intensa atividade diplomática. Para efeito de comparação, Putin invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022, após mais de dois anos quase sem contato com líderes ocidentais.

Por fim, o ponto talvez mais importante do consenso fala de uma relação construtiva de “estabilidade estratégica”. Não foi detalhado o que seria essa estabilidade, mas parece ser um compromisso mútuo de gerenciar a competição global entre os dois países. Se isso for feito de um modo que salvaguarde a segurança global sem dividir o mundo em áreas de influência, será benéfico para todos. Os riscos da Armadilha de Tucídides, isto é, de um confronto entre uma potência emergente e uma potência dominante, persistirão por muito tempo ainda. O abandono por Trump da ordem global que vigorou desde o pós-Segunda Guerra Mundial torna o cenário mais imprevisível. O avanço tecnológico e industrial da China assusta a comunidade internacional. As relações podem se deteriorar com rapidez. Nesse contexto, qualquer sinal de relações funcionais entre Washington e Pequim é alentador.

Cidadão está por conta própria contra o crime organizado

Por Correio Braziliense

São vários municípios espalhados pelo país que tornaram-se entrepostos do crime. As organizações capturaram a política e a segurança local; manietaram a população, que em parte vira cúmplice e em parte testemunha dos desmandos

Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM), divulgado segunda-feira, mostra que o tráfico atormenta mais de 80% das cidades do país. Um dado que, certamente, não surpreende ninguém — aliás, chama a atenção é que ainda tenha aproximadamente 20% de prefeituras que não consideram o avanço da droga uma ameaça. Mas a pesquisa não termina aí. Os percentuais restantes são cruéis: 77,2% dos municípios não contam com conselhos de políticas sobre drogas e 77,3% não têm plano de políticas sobre drogas.

O significado desses números deixa claro que o tráfico avança sem contenção. Os municípios são incapazes de freá-lo e, como a pesquisa também constata, têm pouco apoio dos governos estaduais e federal nessa tarefa. Pelo levantamento da CNM, cerca de 77% das prefeituras tiram dinheiro do próprio caixa. Recursos de transferências estaduais e de emendas parlamentares são percentuais insignificantes — 11,7% e 9,5%, respectivamente. Apenas 3% das prefeituras recebem alguma verba via Fundo Nacional Antidrogas (Funad).

Juntando tais números, constata-se: está escancarado o terreno para as organizações criminosas. Questão que, diga-se, não parece quererem enfrentar seriamente. Nas atuais campanhas presidencial e para governador, o tema foi tratado (quando foi!) da pior maneira: candidatos se perderam em platitudes, em propostas nada factíveis, em números inflados de um sucesso irreal, em sugestões de ineficientes aumentos de pena e em outras bobagens que não tranquilizam o cidadão-contribuinte-eleitor. Os aspirantes a cargos públicos desconsideram as pesquisas de opinião que há meses avisam: a segurança pública é, atualmente, a maior preocupação dos brasileiros.

Os números levantados pela CNM confirmam algo que o promotor do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) Lincoln Gakiya há tempos alerta — o Brasil caminha para tornar-se um narcoestado. A Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, confirmou que o Primeiro Comando da Capital (PCC) utiliza a economia formal não apenas para branquear o dinheiro das atividades criminosas, mas, sobretudo, para obter a validação da sociedade. Ao integrar-se à institucionalidade — seja financiando influenciadores digitais; seja engordando fundos de investimento geridos na Faria Lima; seja aplicando em postos de combustíveis e linhas de ônibus na cidade de São Paulo —, conquista a aprovação de setores empresariais e políticos, que preferem a aliança ao confronto. Ou seja, o pragmatismo rebaixa-se ao cinismo.

Mas, nos municípios pequenos, essa convergência de interesses é impiedosa. São vários espalhados pelo país que tornaram-se entrepostos do crime. As organizações capturaram a política e a segurança local; manietaram a população, que em parte vira cúmplice e em parte testemunha dos desmandos. Os discursos eleitoreiros sobre recuperação de território controlados pelo tráfico excluem essas cidades, algumas delas em áreas metropolitanas das capitais.

A pesquisa da CNM traz números. Estarrecemo-nos à vontade com eles. Porém, falta o componente político da equação. Segundo o promotor Lincoln Gakiya, o crime organizado avança, e muito, no vácuo deixado pelas divergências ideológicas. A visão de curto prazo e eleitoreira é uma grande aliada de facções e milícias, que, inclusive, financiam a manutenção do confronto entre visões opostas entre direita e esquerda.

Isso significa que estamos por conta própria contra o crime organizado, apesar dos esforços de alguns setores da sociedade.

O custo social das bets

Por O Povo (CE)

No debate sobre o assunto, deve prevalecer a busca de uma saída para a difícil situação de dezenas de milhares de brasileiros atingidos pela ludopatia, com reflexos dramáticos na vida de suas famílias

A realidade exposta a partir da proibição de funcionamento das bets não pode ser minimizada pelo fato de a Presidência da República ter editado a medida provisória (MP) banindo os jogos online em período eleitoral. Estudos, pesquisas e até um relatório do Banco Central mostram como essas apostas impactaram negativamente a economia. Além disso, provocaram severos transtornos nas famílias em que algum de seus membros foi atingido pelo vício em apostas.

Segundo dados do Banco Central, divulgados pela Agência Brasil, o número de transações realizadas via Pix caiu 10% nos três dias seguintes à publicação da MP que bloqueou as apostas online. De sábado (26/9) a segunda-feira (28/9), foram registradas 608,6 milhões de operações, volume inferior à média observada nos mesmos dias das quatro semanas anteriores. O levantamento revela queda de 15,5% em relação aos valores movimentados nos três mesmos dias da semana anterior.

Mesmo com a coincidência entre os dois períodos, é preciso ressalvar que os números, isoladamente, não permitem estabelecer uma relação direta entre a redução das transações e a proibição das apostas. No entanto, existem outros estudos que podem corroborar o volume de recursos desviados para as apostas em bets, muitas vezes comprometendo o orçamento e até o consumo alimentar das famílias.

Estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) afirma que, de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência do consumidor, causada pelas bets, retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. O montante, segundo o estudo, equivale ao volume de vendas nos períodos de Natal dos anos de 2024 e 2025.

Pela avaliação da CNC, os apostadores gastam mais de R$ 30 bilhões por mês com os jogos. Como consequência, muitos ficam sem recursos para manter os compromissos em dia. A situação pode ter levado 270 mil famílias à "inadimplência severa", ou seja, uma dívida com atraso superior a 90 dias. O impacto maior recai sobre as famílias de baixa renda.

Estudo do Comsefaz (conselho nacional de secretários de Fazenda), baseado em dados do BC, calculou que, em 2025, as famílias brasileiras tiveram R$ 62,5 bilhões em perdas líquidas com apostas. No período, as bets movimentaram aproximadamente R$ 351 bilhões em transferências via Pix.

A MP assinada pelo presidente Lula tem validade 120 dias, espaço de tempo em que a discussão sobre o tema deverá ser realizada. Mas o centro do debate não pode ser interesses de supostos grupos empresariais ou cálculos arrecadatórios. O que deve prevalecer é a busca de uma saída para a difícil situação de dezenas de milhares de brasileiros atingidos pela ludopatia, com reflexos dramáticos na vida de suas famílias.

Nenhum comentário: