quinta-feira, 16 de outubro de 2008

'Vencerei máquinas estadual, federal e universal'


Sergio Duran
DEU EM O GLOBO

Gabeira ironiza apoio de Crivella a Paes, lembrando que os dois trocavam acusações no primeiro turno

O candidato a prefeito Fernando Gabeira (PV) ironizou ontem o apoio do senador Marcelo Crivella (PRB), terceiro colocado no primeiro turno, a Eduardo Paes (PMDB). Em discurso na Ceasa, em Irajá, Gabeira disse que a hora é de enfrentar também a "máquina universal". Classificou de curioso o fato de políticos que trocavam acusações estarem aliados. Ele almoçou ontem com o prefeito eleito de Niterói, Jorge Ribeiro Silveira, cujo partido (PDT) apóia Paes. Jorge Roberto disse que seu apoio é pessoal.

- Vencemos duas máquinas na primeira eleição: a universal e a municipal. Agora vamos vencer a máquina estadual, a federal e a universal, que se juntou de novo - discursou Gabeira, sobre o apoio do governador Sérgio Cabral e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Paes, e ao fato de Crivella ser bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

Para Gabeira, só uma parte da Universal está com Crivella

Gabeira também se referiu a Jandira Feghali (PCdoB) - que anunciou apoio a Paes -, afirmando ter percebido mudanças nas visões dos dois candidatos derrotados no primeiro turno (ela e Crivella).

- Acho perfeitamente legítimo que candidatos derrotados se aliem a outros candidatos. O que é curioso é que alguns deles passam por uma grande fase de acusação e depois alteram sua posição completamente. Acho que isso desvaloriza um pouco a seriedade do político, mas é legítimo. Acho que os dois juntos (Crivella e Paes) vão fazer uma dupla muito interessante. Gabeira disse que só uma parte da Universal está com Crivella. Por isso, afirmou não temer a migração de votos para Paes. Ele disse acreditar que a disputa não envolve o apoio de religiões, mas a diferença entre as candidaturas em disputa. Gabeira agendou para a próxima quarta-feira um encontro com pastores em Campo Grande:

- Se ele (Crivella) tivesse realmente esses votos, teria ido ao segundo turno. Ele representa uma parte dos evangélicos, que não se resumem à Igreja Universal - disse.

Gabeira confirmou ter sido procurado por Crivella, mas afirmou ter desencorajado qualquer aliança.

- Digo apenas que as negociações foram desencorajadas porque as premissas não eram passíveis de serem cumpridas - afirmou, evitando comentar a suposta intenção do senador de barganhar cargos.

De manhã, Gabeira se comprometeu a discutir a isenção de IPTU para os comerciantes da Ceasa. Em troca, eles venderiam alimentos a preço de custo em áreas carentes. Em seguida, fez corpo-a-corpo no conjunto Amarelinho e visitou o Hospital Municipal de Acari. Após conhecer a unidade, sem permitir a entrada da imprensa, propôs nova parceria a líderes comunitários: aumentar a capacidade do hospital, em troca da preservação do entorno.

À tarde, ao deixar o almoço com Jorge Roberto, Gabeira disse ter evitado construir uma visão de busca de partidos:

- Estou tentando construir uma frente na sociedade. Acho que essa frente de partidos não é o aspecto principal. Meu tecido é o tecido social, o tecido deles é o partidário. De um lado você tem uma grande coligação de partidos, de outro a sociedade querendo uma renovação.

À frente na pesquisa Ibope divulgada anteontem, com 42% dos votos contra 39% de Paes, Gabeira disse que não vai mudar a estratégia. Voltou a criticar o instituto, afirmando que o Ibope tem contratos com o PMDB.

- É a minha campanha que muda as pesquisas, não as pesquisas que mudam a campanha. A estratégia é a mesma.

Era vidro e se quebrou


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Castelos construídos sobre areia estão para a ação do vento assim como receitas de vitórias pré-fabricadas estão para o livre-arbítrio do eleitor: por frágeis, não resistem a movimentos contrários.

Aplicada ao resultado das eleições municipais, essa lógica derrubou duas teses muito bem apresentadas por seus autores ao longo deste ano, não obstante sua carência total de fundamento.

A mais festejada antes e agora a mais apedrejada discorreu longa e detalhadamente sobre os poderes do presidente da República de transformar qualquer material eleitoral em ouro apenas com a força de sua popularidade.

Expostos os fatos, o presidente Luiz Inácio da Silva foi parar no topo da lista dos derrotados porque não conseguiu influir nem contribuir para a vitória de aliados ou a derrota de adversários.

Lula ficou onde sempre esteve, cuidando do culto à sua personalidade, cuja mítica, se for abalada, não será ao custo de meia dúzia de resultados municipais os quais, no dia seguinte à proclamação oficial, dará um jeito de apresentar com uma versão conveniente e edulcorada.

Na verdade, perdeu (tempo) quem acreditou na fantasia sobre a eleição de postes, muitas vezes baseada em “provas” de acontecimentos de um passado remoto, uma época de outro Brasil, menos informado e de relações muito mais simplificadas.

A segunda tese foi a da “convergência total”, lançada pelo governador de Minas, Aécio Neves, que, segundo consta, faria da aliança entre PT e PSDB em Belo Horizonte um experimento a ser aplicado como regra-mãe da “nova política” com data marcada para entrar em vigor: o “pós-Lula”.

Conceitos de uma vaguidão ímpar e de prática inexeqüível, pois, como princípio, carimba o embate político como algo pejorativo, imaturo mesmo, e põe o consenso permanente no ápice dos ideais democráticos.

Um truque engendrado pelo governador mineiro para conquistar um lugar de destaque para seu “pedaço” no debate nacional, mas recebido com reverência de doutrina profunda.

Por essa ótica fantasiosa, realmente Aécio perdeu a chance de fundar uma nova corrente do pensamento político. Numa visão realista, entretanto, alcançou o objetivo de pôr Minas na cena principal. A feiúra da derrota deve-se ao mesmo pressuposto equivocado que sustenta a tese do poste: o menosprezo ao livre-arbítrio do eleitor.

Este ganhou porque se impôs, não por consciência repentina. Esteve e estará no mesmo lugar: pronto para pôr em seus devidos lugares invencionices concebidas e recebidas de maneira folgazã.

Fogaréu

O PT foi praticamente unânime na condenação ao tom da campanha do segundo turno em São Paulo, mas nuances separam os defensores e os detratores de Marta Suplicy nas internas.

Os contra esticam o repúdio à propaganda sobre a solteirice de Gilberto Kassab e dão a fatura da derrota como liquidada.

Os favoráveis tentam virar a cena do avesso. Dizem que ela pôs o dedo na ferida certa, foi mal interpretada, mas teve o mérito de não se render à hipocrisia.

O primeiro grupo quer vê-la excluída de todos os páreos; o segundo pretende preservá-la para disputar o governo do Estado. Um terceiro olha de longe, ainda na esperança de convencer Lula de que, na batalha pelo Planalto, mais vale Marta com um capital menor que Dilma Rousseff sem nenhum voto.

Para todos

O senador Demóstenes Torres levantou uma boa lebre ao lembrar que o presidente do Senado, Garibaldi Alves, pode ser processado por improbidade administrativa se não forem demitidos todos os parentes empregados na Casa, conforme norma do Supremo Tribunal Federal.

Nesse caso, se o Ministério Público resolver agir, podem ser processados também os chefes de outros Poderes - federais, estaduais e municipais - que ignorarem a proibição da prática do nepotismo, pois são também, em última análise, os responsáveis pelas nomeações.

E aqui, com “brecha” ou sem ela, justiça seja feita ao presidente do Senado, é a única autoridade empenhada publicamente no trato do assunto. As outras, do presidente da República ao presidente da Câmara do mais minúsculo dos municípios, levam o tema na flauta, completamente indiferentes à voz do Supremo.

Costumes

Há 20 anos, um casamento repentino uniu o deputado Álvaro Valle (falecido em 2000) e uma moça frentista de posto de gasolina escolhida para o papel de primeira-dama do então candidato à Prefeitura do Rio.


Na época, a equipe do deputado avaliou que, solteiro e sem filhos, ele estaria exposto aos ataques dos adversários.


Ocorreu o contrário. O gesto foi muito criticado, não se sabe se foi o casamento de conveniência a causa, mas a emenda saiu pior que o soneto e Álvaro Valle perdeu a eleição.

Em busca do milagre


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. Somente um milagre para livrar o republicano John McCain de uma derrota consagradora nas urnas em novembro. Com 14 pontos percentuais de vantagem, dianteira que só fez aumentar de um mês para cá, quando o primeiro sinal da crise surgiu com a quebra do Lehman Brothers, Barack Obama está em uma zona de conforto que o livra da margem de erro das pesquisas e também do "efeito Bradley", a diferença que aparece nas urnas, devido ao racismo, entre o voto declarado antes da eleição e o voto dado na cabine eleitoral.

O nome deve-se ao prefeito de Los Angeles, Tom Bradley, um negro que se candidatou ao governo da Califórnia em 1982 e perdeu surpreendentemente, depois de aparecer como líder das pesquisas durante toda a campanha. Um estudo da Universidade de Stanford mostrou que existe uma diferença de até seis pontos percentuais das pesquisas para as urnas quando um candidato negro está na disputa.

Há quem considere que hoje em dia já não existe essa marca tão forte no eleitorado médio americano, mas, antes da crise econômica ficar tão explícita, a dificuldade para Obama abrir uma dianteira sobre McCain foi atribuída por muitos analistas ao racismo, travestido de críticas à falta de experiência ou à ingenuidade de do democrata.

Para desespero dos republicanos, seus marqueteiros políticos estão constatando que as diversas táticas de ataque ao democrata não estão dando certo porque o eleitor está com sua atenção voltada para a crise econômica, não dando muita atenção à campanha política propriamente dita.

De acordo com essas análises, esta eleição presidencial, em que o assunto principal não é a disputa em si, se parece com as quatro vencidas sucessivamente pelo democrata Franklin Roosevelt, que tiveram como pano de fundo a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial.

Também hoje, com a crise econômica e a perspectiva de uma recessão internacional que trará falências e desempregos, os eleitores estão preocupados mais pragmaticamente com seu próprio futuro.

O fator ideológico, ou mesmo a desconfiança sobre a capacidade de Obama, está dando lugar a uma necessidade de mudar o comando da Casa Branca, e o candidato democrata é a alternativa visível.

Por essa razão as campanhas de "desconstrução" de Obama não têm dado certo. As esperanças de McCain estão depositadas em algum fato novo que venha a surgir no cenário internacional, a chamada "surpresa de outubro", ou então em uma estabilização da crise econômica, que permita ao eleitor focar em outros temas.

Como o dia de ontem demonstrou, é bastante remota a chance de acontecer uma estabilização no sistema financeiro nos próximos dias. E uma das razões seria justamente a falta de definição sobre o comando da economia dos Estados Unidos nos próximos anos.

A definição do próximo presidente, e sua capacidade de liderar um processo de recuperação da economia americana, é um dos fatores essenciais para a regularização dos mercados financeiros. A escolha do próximo secretário do Tesouro, por exemplo, será crucial nessa perspectiva de futuro.

Para se prevenir de surpresas, e também para tentar reverter a situação eleitoral em estados tradicionalmente republicanos, o que já está conseguindo, a campanha de Obama vem fazendo, desde que ele foi indicado oficialmente candidato a presidente, um forte trabalho de alistamento de eleitores novos.

Caravanas de jovens estão se alistando em estados onde geralmente os republicanos vencem, e muitos se mudaram para fazer um trabalho político a favor de Barack Obama.

Existem muitos voluntários que trabalham nessa campanha, e uma das organizações empenhadas em aumentar o número de eleitores no país é a Acorn, sigla em inglês para uma associação de organizações comunitárias para reformas agora, uma ONG que atua com bastante agressividade em atividades sociais para famílias de baixa renda, focando especialmente problemas de moradia, segurança e saúde.

A associação tem mais de 350 mil membros e atua em mais de cem cidades dos Estados Unidos, tendo atividades em outros países também, e é considerada um foco de política radical pelos republicanos, que a acusam desde de 2.000 de fraudar o alistamento de eleitores.

Até agora a Acorn conseguiu alistar cerca de 1,3 milhão de eleitores por todos os Estados Unidos, e a campanha de McCain a acusa de estar promovendo fraudes com o registro de eleitores fantasmas em diversos estados. Um dos casos de destaque foi a descoberta de um eleitor que se alistou com o nome de Mickey Mouse.

O que está sendo apontado como prova de fraude pelos adversários é tido pela ONG como uma demonstração de que existe uma campanha difamatória em curso. A Acorn alega que se quisesse fazer uma fraude, não colocaria em risco sua ação com um registro como esse.

Além de ser muito ligada aos democratas, a Acorn é vinculada diretamente ao candidato Barack Obama, que foi seu conselheiro em Illinois. A campanha do democrata encaminhou de seu fundo perto de US$800 mil para financiar seu trabalho de alistamento eleitoral, que agora está sendo questionado na Justiça pelos republicanos, e investigado pelo FBI em onze estados.

Essa é uma das últimas cartadas dos republicanos, criar um clima de denúncia que permita, caso a eleição venha a ser apertada, colocar um eventual resultado a favor de Obama sob suspeita de fraude. Mas nada indica até o momento que o resultado será apertado.

O desvio do compulsório


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Os bancos são as instituições que mais se esbaldam no mundo e particularmente no Brasil, onde os sucessivos recordes de lucro são um escárnio diante da miséria e do analfabetismo. O Bradesco, para ficar num exemplo, fechou 2007 com lucro líquido de R$ 8 bi, 58,5% maior do que em 2006.

Em greve há dias, os funcionários reclamam sua parte do sucesso em salários. E nós, correntistas, queremos mais funcionários para dar conta de filas imensas, apesar da internet, para ter informações confiáveis sobre contas e investimentos e, por favor, para atender o telefone.

Com a crise global, os bancos não estão passando a perna só em funcionários e clientes, mas no governo, como gritou ontem a líder do PT no Senado, Ideli Salvatti.

Preocupado com a redução de créditos, o governo relaxou as margens dos depósitos compulsórios dos bancos. Para quê? Para que tivessem mais dinheiro para financiar compras, projetos. E o que eles estão fazendo? Comprando títulos públicos do Tesouro Nacional. Ou seja: em vez de garantir o movimento da economia, eles tiram uma casquinha da crise.

Numa das suas manifestações sobre a crise, ora falando do Atlântico, ora de marolas, Lula ensinou aos países ricos que é necessária uma maior regulação sobre os bancos.

No Brasil também, presidente. Eles fazem o que querem -com os que estão lá dentro, trabalhando, e com os que estão aqui fora, produzindo, investindo, comprando ou pagando suas contas do dia-a-dia.

Os EUA já arranjaram uns US$ 250 bi, e a Europa, uns US$ 2 tri para tentar salvar o sistema. E o sistema continua fazendo água por todo lado, com as Bolsas afundando e o mundo mergulhado em incertezas, sem uma bóia a que se agarrar.

Por mais que haja uma lógica nos trilhões de dólares despejados nos bancos, os leigos se perguntam: e se essa grana toda fosse investida em gente? O mundo certamente seria muito melhor.

O gato e o arroio


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - Com 54 anos de carreira, iniciada como diretor da União de Bancos do Uruguai, Enrique Iglesias é seguramente uma das pessoas mais bem-informadas do planeta.Hoje é secretário-geral da Comunidade Iberoamericana, conglomerado de 22 país. Mas exerceu antes cargo de banqueiro central, no Uruguai, de dirigente da Cepal, que já foi uma usina de idéias na América Latina, de presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, de chanceler.

Viu de tudo na vida, especialmente crises, item em que a América Latina é uma fartura só. Mesmo assim, seu espanto com a crise atual é tamanho que usa uma expressão uruguaia para descrevê-lo: "Como estará la cañada que hasta el gato pasa trotando?". "Cañada" é um riozinho, um arroio.

Secou tanto que até os Estados Unidos mergulham a trote no intervencionismo do Estado. Mas, atenção, Iglesias tem vivência suficiente para descartar a hipótese de que os Estados Unidos passem a ser ator de segunda na nova ordem global que, supostamente, advirá da crise.Ao contrário, diz que os Estados Unidos tendem a ser, ao lado da China, um dos dois pilares da economia mundial assim que passar o susto. Quando? "Não me atrevo a prever como e quando termina", responde, prudente.

Iglesias lamenta que o mundo das finanças, "que parecia ter as chaves do Reino", ficou absolutamente sem controle. Deu no que deu. Prega, por isso mesmo, "uma economia mundial muito mais regulada". Acha até que será "uma realidade inevitável e necessária".Mas lembra um detalhe importante: foi nesse mundo desregulado que a economia cresceu espetacularmente nos últimos tempos. A questão que talvez algum estudioso se anime a responder, depois do terremoto, é se o crescimento foi por conta da alavancagem excessiva ou apesar dela.

Que preço se pode pagar pela vitória?


Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO

"Assim como na política, falar na hora certa (na psicanálise) é fundamental. Quando o paciente não está preparado para uma interpretação do analista, não pode se apropriar dela nem usá-la para seu crescimento. A interpretação pode simplesmente se perder ou ter um peso errado. Na política, falar demais pode produzir um dano maior. Eu ainda escorrego". Esta é Marta Suplicy, por ela mesma. Está no livro "Minha vida de prefeita: o que São Paulo me ensinou", lançado pouco antes do início oficial da campanha eleitoral para a prefeitura, que ela agora disputa, em segundo turno, com o atual prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab (DEM).

Marta Suplicy falou demais pela boca alheia, de locutores da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, por dois dias desta semana. E escorregou. As peças de campanha insistiram muito para que o eleitor fosse atrás de informações sobre a vida pessoal de seu adversário. "É casado? Tem filhos?", pergunta o locutor. "Será que ele esconde mais coisas?", perguntou a voz masculina em outro comercial. Marta negou, em sabatina na "Folha de S. Paulo", que sua campanha insinuava que o atual prefeito seja homossexual. "É uma pergunta como qualquer outra", disse a candidata do PT.

Não é uma "pergunta qualquer". Kassab é solteiro, não tem filhos - e se insinua que ele está escondendo alguma coisa, certamente não é sobre o seu estado civil, que, aliás, ele nunca escondeu de ninguém. A campanha de Marta também não disse qual a importância de o eleitor saber detalhes da vida pessoal do candidato - o conhecimento da vida pública já é o bastante para que se saiba se ele é honesto, ou competente, ou ambas as coisas, que é o que importa na escolha do voto. Não consta que ter uma mulher ou filhos o credencie a ser prefeito. O deputado Paulo Maluf, por exemplo, tem mulher, filhos e netos e foi fartamente processado por corrupção em todos os cargos públicos executivos que ocupou. Em nenhum momento a campanha da petista perguntou claramente se o candidato do DEM era homossexual, mas suas insinuações deixaram os jornalistas bastante à vontade para fazer essa pergunta a ele. E isso virou conversa de botequim. Uma certa fonte da campanha disse em off, para o jornal O Globo: "A idéia era a de desestabilizar o Kassab no debate [da TV Bandeirantes] e tivemos sucesso. Ele ficou perdido nos dois primeiros blocos". E, sobre a acusação de "baixaria", afirmou "um dos coordenadores" do staff de Marta: "Não tem essa de não poder bater. Em 1989 [Fernando] Collor bateu em Lula em todo o segundo turno e ganhou".

A declaração da intenção está aí. Vale ela, mesmo em off. Faltou a fonte lembrar que Lula, mesmo engolindo uma devassa em sua vida privada em 1989, e mesmo sendo acusado de coisas que ele não fez, recusou-se a usar dessa mesma arma contra Collor. Sua campanha tinha elementos fartos para isso. Essa foi a norma usada por Lula em todas as campanhas posteriores à Presidência - 1994, 1998, 2002 e 2006 - e, com toda certeza, o fato de não ter usado golpes baixos garantiu que conseguisse baixar, a cada eleição, a resistência dos eleitores ao seu nome e às suas posições pessoais e políticas.

A derrapada de Marta, aliás, foi inexplicável. Ela sempre bancou, às custas de perder muito voto, sua posição favorável à união de pessoas do mesmo sexo; assumiu-se como sexóloga numa época que não havia nenhuma tolerância a isso, nem se aceitava essa especialidade como científica - era interpretada mais como uma perversão do que como conhecimento; bancou a separação com o senador Eduardo Suplicy quando era prefeita, e fez pública a sua cerimônia de casamento com Luis Favre. Nem indo tão longe, no mês passado a candidata a prefeita foi num encontro com batistas, que queriam saber sua posição sobre uma proposta em tramitação na Câmara que pune a homofobia. Ela colocou todos os votos batistas lá presentes em risco ao responder, com todas as letras: "Minha posição é que (o homossexual) não pode ser desrespeitado. Se for para xingar, dizer que é doente, sou contra".

Entre os defeitos apontados por marqueteiros de campanha em Marta, um deles era uma qualidade: ela nunca, até então, havia aberto mão de uma convicção pessoal para ganhar um voto, mesmo quando os assuntos colocados em debate eram espinhosos, como o aborto e a união de pessoas do mesmo sexo. A candidata, assim como Lula, sempre impôs limites a concessões que poderia fazer para ganhar a eleição - um deles, a sua própria privacidade e o respeito à privacidade dos adversários; o outro, não abrir mão do que pensava. Espera-se que a candidata, ao fazer uma autocrítica, não tenha justamente eliminado de sua biografia uma qualidade: a aversão a invasões de privacidade e baixarias na campanha. Mesmo na política, existem limites - e o limite pessoal numa disputa é não pagar qualquer preço por um voto. O voto que vale é aquele dado em biografias e convicções, não o obtido à custa de biografias e convicções.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

Quem pariu a crise?

Sérgio C. Buarque
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


O mundo inteiro reclama, com razão, dos norte-americanos que deixaram o sistema financeiro se precipitar na grande crise que provoca agora um abalo profundo na economia mundial, de conseqüências ainda imprevisíveis. O presidente Lula, em particular, na sua empáfia, chama Bush à responsabilidade e "manda" ele resolver os problemas dos Estados Unidos e não exportar sua crise para os outros. No entanto, nas últimas décadas, quando a economia americana consumia vorazmente os produtos e bugigangas produzidos em todas as partes do mundo e inundava o planeta com dólares e títulos governamentais, os parceiros comemoravam e agradeciam a irresponsabilidade econômica e financeira dos Estados Unidos.

Quando os delirantes déficits externos da economia norte-americana, viabilizando o consumismo desenfreado da população americana, alimentavam o impulso exportador de todos os países, incluindo os emergentes, ninguém reclamava, ao contrário, pediam mais consumo e mais déficits, e reclamavam de eventual elevação de juros na grande potência. O mesmo vale para o déficit fiscal do governo americano, rodando a máquina na emissão de títulos para financiar a farra e satisfazer o apetite insaciável do sistema financeiro mundial, todos os países se lambuzavam no excesso de liquidez, incluindo o Brasil que se beneficiava da entrada forte de capital e de crédito para financiar o consumo e o investimento no País, e o governo brasileiro propagava os sucessos da balança de pagamentos, indiretamente financiada pela corrida descontrolada dos déficits e endividamento da economia norte-americana.

Não se trata, evidentemente, de inocentar o governo dos Estados Unidos pela crise sistêmica que enfrenta no momento nem, muito menos, de negar a irresponsabilidade do sistema financeiro norte-americano na alavancagem desproporcional de títulos e ativos financeiros. A imprudência das autoridades econômicas dos Estados Unidos e o descontrole do mercado financeiro são as causas da crise financeira mundial que deve atingir, com diferentes graus e intensidades, todos os países do mundo, pelo simples fato de que todos vinham se beneficiando do excesso de demanda e de liquidez na economia internacional, do qual advinha parte do seu sucesso.

A grande maioria dos governos e economistas defende agora uma intervenção do governo americano para salvar o sistema financeiro mundial, devendo mobilizar quase um trilhão de dólares para financiar a insolvência geral dos bancos, financeiras e seguradoras, quem pariu a crise que a assuma. Alguns economistas justificam a medida e aproveitam para registrar o que seria o fim do neoliberalismo e a volta do intervencionismo do Estado, neste caso para salvar os banqueiros, curiosamente, parte destes economistas classificava de neoliberal o Proer, programa criado pelo governo brasileiro, em 1995, para salvar o sistema bancário dos impactos desorganizadores do Plano Real, impedindo uma crise sistêmica na economia brasileira e assegurando a solvência dos bancos.

Ao contrário do Proer, o socorro trilionário do governo americano chega tarde e, feito às pressas e já no meio do furacão, aumenta o custo e reduz a eficácia da intervenção política. De fato, esta era uma crise anunciada e propalada por importantes autoridades econômicas, entre as quais o ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos (FED) Alan Greenspan, que advertia para o que chamava de "exuberância irracional" da economia e do sistema financeiro norte-americano. Em outras palavras, faltou ao governo Bush e ao Banco Central norte-americano uma ação antecipatória de evitar ou se preparar para a previsível explosão da bolha do excesso de liquidez, que estourou agora com o elevado endividamento das famílias.

Os Estados Unidos são responsáveis pela crise e, evidentemente, devem assumir os custos, mas todos os países se aproveitaram e defenderam as vantagens geradas pela exuberância irracional dos Estados Unidos, e vão pagar parte dos prejuízos. Com a mesma naturalidade que condenam agora a inoperância do governo americano, todos pedem a sua proteção contra o risco sistêmico na economia internacional, esquecendo que todos foram igualmente imprevidentes e irresponsáveis, sócios (ao menos, entusiastas defensores) na aventura do capital liquefeito (ou gasoso?).

» Sérgio C. Buarque é economista e consultor

Capitalista imita comunista, comunista imita capitalista


Milton Coelho da Graça
DEU NO DIÁRIO DA MANHÃ (GO
)

Paul Krugman receberá merecidamente o Nobel de Economia. Poucos dias antes de anunciado o prêmio, vários jornais brasileiros publicaram o artigo de Krugman em que ele criticava o primeiro pacote aprovado pela dupla Bush-Paulson para enfrentar a crise financeira. O governo não pode apenas garantir os bancos, argumentava, deveria dar dinheiro em troca de ações, participar do controle das operações. A banda mais conservadora e monetarista dos Estados Unidos bradou: “Isso é coisa de comunista”.

O Congresso recusou o pacote, começou a negociar algo mais do que um simples oferta de dinheiro, enquanto o governo britânico preferiu embarcar na crítica de Krugman e praticamente assumiu e direção do sistema bancário, dando plena garantia a depositantes e alguns credores.

Bush, Paulson e o Federal Reserve docilmente concordaram com a velha e sábia Inglaterra e adotaram diretrizes bem próximas da política econômica da China onde todos os grandes bancos (como a nossa Caixa Econômica) são estatais. Só faltaram gritar “Viva o socialismo”.

Do outro lado do planeta, reuniu-se o Comitê Central do Partido Comunista Chinês. Examinaram com paciência os números da produção agrícola, aparentemente felizes com a produção de grãos do ano passado, 510 milhões de toneladas. Mas chinês sabe comparar números, sabe que esse número foi menor do que o triplo da produção brasileira, um país com uma população sete e picos vezes menos do que a da China. Pior: eles aceitaram a triste realidade de que a produção aumentara nos dez primeiros anos da reforma, mas praticamente vinha mancando nos quase 30 depois disso..

Na reforma chinesa do final da década de 70, um dos pontos básicos foi o fim da ilusão de que solidariedade socialista e amor ao próximo seriam mais produtivos do que o empreendedorismo.


Acabaram-se as fazendas coletivas no estilo soviético e criou-se um sistema de arrendamento de
terras. Cada família teria direito a um pedaço de terra desde que entregasse anualmente uma certa parte de sua produção a armazéns do Estado como “aluguel”. O restante poderia vender livremente no mercado. Quem não pagasse religiosamente o “aluguel”, tinha de entregar a terra a outra família mais disposta a trabalhar. Sem esquecer um detalhe fundamental: ninguém tem a propriedade da terra na China, ela é de todo o povo, da mesma forma como a água e o ar.

Mas uma família isolada, mesmo se juntando aos vizinhos para usar máquinas e financiamento fácil para fertilizantes etc., não consegue nem de longe competir com a altíssima produtividade obtida pelos fazendeiros do meio oeste americano ou mesmo com o nosso agronegócio.

Agora os comunistas chineses mudaram o jogo. Quem quiser pode transferir o arrendamento de suas terras para grandes empresas rurais, que ainda poderão ampliar o prazo de arrendamento para 70 anos e com a área que desejarem, desde que cumpram metas de produção. Com algum
dinheirinho no bolso, é claro que, até 2020, uma boa parte da população rural – mais ou menos metade do número de hoje, acima de 700 milhões – vai se mandar para as cidades, em busca de empregos, estima-se que pelo menos metade desse número.

Não se assustem com esse número, basta recordar que, em uns 40 ou 50 anos, pelo menos um terço da população brasileira deixou de ser rural para ser urbana. E sem o governo fazer qualquer força para isso. Nos Estados Unidos, cuja produtividade agrícola é invejada pelos chineses, hoje apenas 2% ou 3% da população vivem da terra.

Dois detalhezinhos que não devem ser esquecidos. A produtividade é também essencial para o aumento da produção agrícola, porque a China, embora maior do que o Brasil, tem pouco mais um milhão de quilômetros quadrados cultiváveis, enquanto nós temos mais de três milhões. E outro objetivo importante dos comunistas chineses é dobrar em cinco anos a renda per capita da população rural.

Nos corações e mentes de boa parte dos dirigentes do PC, um grito alegre certamente foi contido: “Viva o capitalismo”.

Números e memória

Alguns jornais têm afirmado que Lula alcançou o recorde de popularidade de todos os presidentes em nossa História. Não é verdade.


Sem discutir se a metodologia foi a mesma em todas as pesquisas nem o fato de que não existem registros de pesquisas antigas, o recorde continua a ser de José Sarney, que, em 1986, no auge do Plano Cruzado, chegou a 82%, três pontos acima do mais recente e melhor índice de Lula. E também não se pode esquecer que, três anos depois, ele recebeu pedradas no Rio e o PMDB sofreu derrota esmagadora nas urnas.

Nem tudo que é legal é sempre justo

O governador Sérgio Cabral Filho, do Rio de Janeiro, tomou decisões que, nos meios de comunicação, apareceram meio escondidas mas com importante significado para nossas instituições.

Na primeira, revogou uma iniciativa da Procuradoria do Estado, que, agindo corretamente por “motivos técnicos”, apresentou recurso à Justiça contra decisão que concedia modesta indenização a um cidadão. O Governador determinou a retirada do recurso porque o considerou injusto, embora legal.


Essa é uma distinção que freqüentemente é deixada de lado, tanto por juízes como defensores dos interesses do Estado.

Na outra, cancelou a cobrança da taxa de incêndio pela segunda vez este ano.


A taxa referente ao ano passado foi cobrada no primeiro semestre deste ano, porque esse vinha sendo o costume. Mas os bombeiros, como todos os setores públicos, sempre têm pressa de mexer em nossos bolsos e, não é nada, não é nada, a taxa vale 100 milhões anuais. O governador mandou cancelar a cobrança, cujo objetivo oficial era “facilitar a vida dos contribuintes.” Eu e todos os cidadãos do Rio de Janeiro preferimos que a vida tenha ficado um pouco mais difícil.

Em qual pesquisa você confia mais?

Eliakim Araújo que, ao lado de Leila Cordeiro, foi um ótimo âncora de jornais da Globo e do SBT e hoje trabalha nos Estados Unidos, informa em seu jornal online http://www.diretodaredacao.com.br/ uma curiosa pesquisa sobre a eleição presidencial dos Estados Unidos. A cadeia de lancherias 7-Eleven ofereceu copinhos para café azuis ou vermelhos a seus clientes, os azuis para eleitores de Obama, azuis para os de McCain. Ganhou Obama por 59 a 40. Por enquanto os institutos de pesquisa dão em média dez pontos de vantagem para Obama.

Quanto custaram grampos e antigrampos

Segurança Pública foi um dos itens de despesa que mais cresceram no orçamento federal no ano passado (13,1% em relação a 2006) e três quartos do dinheiro (35 bi) foram gastos em grampos, maletas, detectores de grampos e maletas etc. Mas ninguém explica quanto desse dinheiro foi gasto para nos defender e quanto foi gasto para saber o que estamos fazendo.

Dona Marta, Crivella e Aécio pisam na bola

Ah, dona Marta Suplicy, por que essa compulsão de dizer coisas erradas no momento errado? Por que relaxar e gozar os outros por motivos infames? Uma mulher guerreira como a senhora também não precisa sair por aí tirando fotos ao lado de pelegos bem conhecidos em todo o Brasil.

E Crivella, que oferece apoio ao candidato da Opus Dei, braço político da Igreja Católica que só decidiu intervir na eleição do Rio para impedir a Igreja Universal de virar força política? E pior, Crivella anuncia que aderiu à candidatura Eduardo Paes porque este apoiou seu projeto Cimento Social. Um projeto que a população das favelas ainda não aprovou. Ainda está pensando, acha que lage é melhor do que telha. É da lage que morador vê o mundo, menino solta pipa. É na lage que rola churrasquinho, a conversa é mais amistosa, o ar é mais puro, a esperança se solta.

Quanto ao governador Aécio, esqueceu que mineiro entende melhor quem fala como mineiro, uai. E os jovens de Belo Horizonte estão mostrando, nas pesquisas mais recentes para o segundo turno, que querem renovação de caciques.

A crise internacional e o condicionamentode decisões do governo sobre o pré-sal

Jarbas de Holanda

As reações articuladas dos governos e bancos centrais do G-7 por meio da montagem de uma rede trilionária de sustentação dos sistemas financeiros, adotadas a partir do último fim de semana, conseguiram enfim deter a corrida para um colapso desses sistemas, motivando na segunda-feira uma vigorosa reanimação das bolsas de valores, inclusive da Bovespa, que nos pregões de ontem se manteve nas asiáticas e européias, sendo substituída pela volatilidade (realização de lucros) nas dos EUA e na brasileira. Isso foi bastante positivo, não obstante não represente garantia de que a crise tenha sido revertida ou menos ainda solucionada, pois é enorme a escala de danos à chamada economia real que ela já causou. E que vai causar à frente nos países ricos e naqueles em desenvolvimento, como o Brasil, dependente da exportação de matérias primas, com a escassez e o encarecimento do crédito. Aqui, em paralelo a tais reações, nosso Banco Central – fortalecido dentro do governo Lula – segue tomando novas medidas de contenção dos reflexos da crise, vendendo mais dólares e decidindo a liberação, por etapas, de até R$ 106 bilhões dos depósitos compulsórios dos bancos, a fim de reduzir a carência do financiamento de contratos de exportação e de liquidez de várias atividades voltadas para o mercado interno.

Entre as implicações que a crise terá no Brasil destaca-se a que decorrerá da combinação de abrupta baixa das cotações do petróleo com a conjuntura de escassez do financiamento internacional. Este mix deplorável pode retardar o desencadeamento da exploração das reservas do pré-sal e reduzir a própria viabilidade desse desafio, se essas cotações caírem a bem menos de US$ 80 por barril. Pois ambos dependem em grande medida de recursos privados externos. Mas tal implicação terá ao menos uma conseqüência política positiva: o esvaziamento da proposta de setores fisiológicos e estatizantes do governo da criação, em detrimento do papel da Petrobras, de nova estatal para controle das reservas do pré-sal. Outra conseqüência de implicações da crise no plano político-institucional é a necessidade de reavaliação do projeto do fundo soberano, de viés dirigista, em face da projeção de queda da receita fiscal em 2009 e do imperativo de manutenção do superávit primário (reforçado pela turbulência internacional). Apostando nessa reavaliação, as lideranças parlamentares oposicionistas passaram a admitir a instituição do referido fundo mas com a vinculação dele ao BC.

O favoritismo de Kassab. A “onda Gabeira” e a derrota de Aécio em BH

O questionamento da vida pessoal de Gilberto Kassab – se é casado, se tem filhos – que deu o tom da retomada agressiva da campanha de Marta Suplicy, na disputa da prefeitura de São Paulo no 2º turno, se ainda não teve seus efeitos junto à população medidos por pesquisas do Datafolha e do Ibope, suscitou de pronto tal impacto negativo no conjunto da mídia, nos segmentos sociais bem informados e também em vários grupos e lideranças do próprio PT que, certamente, representou um verdadeiro “tiro no pé” da candidatura da ex-prefeita. Agravado pela tentativa dela de justificar o recurso preconceituoso de lançar insinuações sobre a orientação sexual do adversário (embora atribuindo-o ao marqueteiro da campanha), em declarações à imprensa nas quais reagiu à bateria de manifestações críticas ao uso de tal expediente endossadas por parlamentares petistas e aliados de sua candidatura. O que sem dúvida dificultou ainda mais o empenho de Marta Suplicy de tentar reverter o favoritismo de Kassab.

A “onda Gabeira” na classe média e nos meios culturais e artísticos do Rio, com Caetano Veloso à frente, pode pôr em xeque o forte esquema político montado pelo governador Sérgio Cabral para a eleição de seu candidato Eduardo Paes. Esquema, centrado no PMDB, que ganhou no 2º turno o respaldo do presidente Lula e a adesão do PT, do PCdoB, do PDT e a dos evangélicos do bispo Marcelo Crivella (além das que já tinha antes do PP e do PTB), e que tenta barrar uma vitória de Fernando Gabeira com os votos da grande periferia carioca. Mas cuja amplitude é fragilizada pelo apoio pessoal a Gabeira de lideranças importantes desses partidos, como o deputado Miro Teixeira e o prefeito eleito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, os pedetistas mais expressivos do Grande Rio, e a ex-ministra do Meio Ambiente e senadora do PT, Marina Silva
Outra onda ainda mais forte ameaça sufocar o candidato da aliança PSB-PT-PSDB à prefeitura de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, que, segundo pesquisa do Ibope divulgada hoje, já foi largamente ultrapassado pelo peemedebista Leonardo Quintão, por 51% a 33%. O que é lido por vários analistas políticos como significativa derrota eleitoral do governador mineiro Aécio Neves, principal promotor da aliança, bem como de seu projeto “pós-Lula” de candidatura presidencial alternativa pelo PSDB, capaz de ter apoio de parte da base governista federal, inclusive dos peemedebistas.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

República Velha

DEU EM O GLOBO

A CADA pleito fica evidente o quanto ainda precisa evoluir a cultura política no país, apesar de mais de duas décadas de vigência da democracia, sem interrupções.

PROVA DISTO são os indícios de uso da máquina pública em prol de candidatos, fator de desequilíbrio eleitoral, e destemperos abomináveis no tom de campanhas que resvalam para o terreno privado.

FOI O que aconteceu em São Paulo, com as insinuações da propaganda de Marta Suplicy sobre o concorrente Gilberto Kassab, a ponto de causar defecções na própria base da candidata petista.

NO RIO, chamaram a atenção a rapidez com que o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, conseguiu o prontuário de um cabo eleitoral do candidato Fernando Gabeira, e a antecipação do feriado do Dia do Funcionalismo para a segunda-feira 27 - a fim de, supostamente, aumentar a abstenção no domingo numa categoria que tenderia a votar em Gabeira.

HÁ EM todas essas manobras no eixo Rio-São Paulo um cheiro de República Velha.

Ibope: Gabeira tem 42% e Paes, 39%


Fábio Vasconcellos
DEU EM O GLOBO


Pesquisa realizada após debates mostra empate técnico entre os candidatos do Rio

A disputa pela prefeitura do Rio continua acirrada. A primeira pesquisa Ibope encomendada pela TV Globo e pelo "Estado de S. Paulo" no segundo turno mostra o candidato Fernando Gabeira (PV-PSDB-PPS) com 42% das intenções de voto, contra 39% de Eduardo Paes (PMDB-PTB-PP-PSL). Como a margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, os dois estão tecnicamente empatados. Os votos em branco e nulos somam 10%; não decidiram 8%.

A pesquisa foi realizada na segunda-feira e ontem, já depois da polêmica declaração de Gabeira sobre a vereadora Lucinha (PSDB) e também após os debates no GLOBO, realizado na quinta-feira passada, e na TV Bandeirantes, no domingo. O levantamento está registrado no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) sob o número 489/2008. Foram ouvidos 1.204 eleitores no Rio.

Considerando apenas os votos válidos - sem nulos, em branco e indecisos -, a pesquisa Ibope mostra que a diferença entre Gabeira e Paes chega a quatro pontos percentuais. O candidato do PV aparece com 52%, contra 48% do peemedebista.

Jovens preferem Gabeira; idosos votam em Paes
Os dados do levantamento indicam que Gabeira é o preferido entre os mais jovens (16 a 24 anos). Ele tem 54% das intenções de voto contra 33% de Paes nessa faixa. Gabeira também vence entre os eleitores de 25 a 29 anos (52% a 35%), e entre aqueles de 30 a 39 anos (41% a 39%). Eduardo Paes, por outro lado, é o preferido dos eleitores com mais idade. Ele registra 40% entre os têm de 40 a 49 anos (contra 35% de Gabeira); e 43% entre os de mais de 50 anos (faixa em que o verde tem 36%).

Por nível de escolaridade, os números do instituto revelam que Paes vence Gabeira entre os eleitores com até a 4ª do Ensino Fundamental (51% a 28%) e de 5ª a 8ª série (45% a 28%). Do ensino médio ao superior, Gabeira tem a preferência do eleitorado. Na primeira, o candidato do PV teve 42% das intenções de voto contra 36%. No ensino superior, o candidato do PV apresenta 57%, e Paes, 33%.

A análise dos dados mostra que Gabeira tem 52% da preferência dos eleitores que ganham mais de cinco salários mínimos. Nessa faixa de renda, Paes teve 31%. A diferença entre os dois candidatos cai no grupo que recebe de dois a cinco salários (Paes 45%; Gabeira 42%). O peemedebista é o preferido dos eleitores que ganham até dois salários (41% para Paes a 33% para Gabeira).

O instituto de pesquisa perguntou aos eleitores também se eles ainda podem mudar o voto diante do que têm visto até o momento na campanha do segundo turno. A maioria (73%) afirmou que a escolha é definitiva, enquanto 22% disseram que ainda podem mudar.

A maior proporção de eleitores com escolha definitiva é entre os que recebem entre dois e cinco salários mínimos: 81% declaram que não pretendem mudar. O maior percentual de eleitores que afirmam ainda poder alterar o voto (25%) ocorre entre aqueles com nível de escolaridade de 5ª a 8ª série.

No levantamento do Datafolha, o primeiro realizado após o resultado primeiro turno e que foi divulgado na quinta-feira passada, Gabeira aparecia com 43% contra 41% de Paes. O instituto apresentou o candidato do PV figurando pela primeira vez à frente do candidato do PMDB. Considerando apenas os votos válidos, o Datafolha aponta Gabeira com 51% das intenções de voto naquele dia, e Paes, com 49%. Pelo Datafolha, não tinham candidato 16% dos eleitores, 7% pretendiam anular ou votar em branco, e 9% estavam indecisos.

No primeiro turno, pelo resultado oficial do TRE, Paes teve 31,98% dos votos válidos, e Gabeira, 25,61%.

Segundo o Datafolha, os eleitores de Gabeira estão concentrados entre os mais jovens (53%), os mais escolarizados (60%) e os mais ricos (62%). Os eleitores de Paes destacam-se entre os mais pobres (46%), entre os menos escolarizados (49%) e entre os mais velhos (50%).

É golpe


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

As Constituintes no Brasil sempre foram convocadas em momentos de ruptura política. Por isso mesmo, algumas vezes, não chegaram a bom termo

Não tem cabimento o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), tirar da cartola a proposta de convocação de uma Constituinte exclusiva para incluí-la no projeto de reforma política que o governo encaminhou ao Congresso. Cheira a tentativa de mudança das regras do jogo do processo sucessório de 2010. Puro golpismo.
Carta Magna

A Constituição de 1988 acabou de completar 20 anos e foi comemorada em todo o país. Houve, nessa efeméride, mais elogios do que as críticas dos de sempre, como as do presidente José Sarney, em cujo governo de transição — foi eleito vice de Tancredo Neves no colégio eleitoral e acabou assumindo o seu lugar, em circunstâncias involuntárias e trágicas — foi elaborada a atual Carta Magna. Os constituintes eleitos em 1986 restabeleceram e ampliaram a nossa democracia. Inovações importantes são responsáveis pela renovação dos nossos costumes políticos, como a autonomia do Ministério Público e dos municípios. Nosso sistema eleitoral — com voto eletrônico, direto, secreto e obrigatório — é dos melhores do mundo.

A maior crítica à atual Constituição vem daqueles que gostariam de mais liberdade aos agentes econômicos nas relações com o Estado, mas o cenário mundial aponta em direção contrária.

Alguns governantes se queixam das transferências constitucionais destinadas à Educação e à Saúde. A diversidade de partidos políticos é apontada como origem do fisiologismo. Há controvérsias sobre o voto proporcional uninominal e sobre o financiamento de campanha. Se falava muito que a Constituição era “parlamentarista” e engessava o Executivo, mas a vida está mostrando que o governo, por meio de medidas provisórias, tem usurpado o papel legislativo. Além disso, o ativismo jurídico do Supremo Tribunal Federal (STF) também invade a seara do Legislativo. Que dizer que não se mexe na Constituição? Não, apenas é preciso respeitar as regras estabelecidas para isso, o que significa preservar suas cláusulas pétreas.

Constituintes

As Constituintes no Brasil sempre foram convocadas em momentos de ruptura política. Por isso, algumas vezes, não chegaram a bom termo. A Constituinte de 1823 foi fechada por Dom Pedro I, que outorgou a Constituição de 1824. O Ato Institucional de 1834, que deu mais autonomia às províncias, e a reforma eleitoral de 1881, já sob pressão de abolicionistas e republicanos, foram mudanças aprovadas para preservar a monarquia. Republicana, federativa e presidencialista, a Constituição de 1891 foi promulgada por um congresso constituinte tutelado por militares positivistas. Teve orientação liberal, inspirada no exemplo dos Estados Unidos, mas feneceu com a Revolução de 1930.

A Constituição de 1934, que basicamente reproduziu a anterior, deu um mandato de quatro anos a Getúlio Vargas e pôs fim ao governo provisório. Porém, teve vida brevíssima. Foi substituída pela “Polaca”, como era chamada a Constituição de 1937, de inspiração fascista. A Constituição de 1946 restabeleceu a democracia no pós-guerra, mas acabou atropelada pela “guerra fria” e pela radicalização política da década de 1960. A Constituição de 1967 foi promulgada por um Congresso Nacional amordaçado pelos militares e institucionalizou o autoritarismo. Mesmo assim, foi aviltada pelo Ato Institucional nº5, de 13 de dezembro de 1968.

Basta olhar a história do Brasil para ver que convocar e levar a bom termo uma Constituinte nunca foi tarefa fácil. Portanto, a proposta de uma Constituinte exclusiva é estranha e extemporânea. Cheira ao velho golpismo latino-americano. Vejam a situação na Bolívia, Colômbia, Equador e Venezuela, cujas mudanças constitucionais são fatores de tensão e crises institucionais. A proposta de reforma política que o governo enviou ao Congresso já é meio “mandrake”, a tese da Constituinte exclusiva é pior ainda. Parece velhacaria “queremista”.


Azebundsman — Na coluna de 28 de setembro, intitulada Sístoles e Diástoles, a pressa me traiu. Errei as datas das Constituições de 1824 e 1946. Os leitores Antônio Menezes e Ceiça Cavalcante, aos quais agradeço a atenção, puxaram as minhas orelhas. Aproveitei essa oportunidade para as devidas correções.

Atração oficial


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


As brigas entre os partidos governistas pelo apoio explícito do presidente Luiz Inácio da Silva aos respectivos candidatos deixaram de fazer sentido depois da amazônica bobagem da campanha de Marta Suplicy.

Se Lula já resistia em pôr sua popularidade em xeque de novo antes mesmo de o PT entronizar Gilberto Kassab no altar das grandes vítimas da História, desde o último domingo o presidente recebeu de presente um ótimo pretexto para cuidar da vida bem distante dos palanques no segundo turno das eleições municipais.

Com ele fora da cena, as outras legendas da coalizão federal ganharam segurança no tocante ao equilíbrio das disputas. Em conseqüência, não têm mais motivos para reclamar do PT que, segundo dirigentes de partidos aliados, tentou capitalizar sozinho a condição de representante do governo federal.

Vista assim do alto, a discussão do primeiro turno por causa da presença do presidente - ou pela neutralidade da ausência - parecia relacionada à expectativa de transferência de popularidade e, claro, de votos.

Examinada no detalhe e mediante explicações de personagens envolvidos, a disputa pelo apoio de Lula revela outro motivo mais consistente: a perspectiva de tratamento privilegiado da parte da União para com o município que tiver como prefeito o candidato visto como o predileto do presidente.

Se esse dado conta nas capitais, nos pequenos municípios conta muito mais. Daí a razão da elevadíssima temperatura entre partidos da base aliada, notadamente no Nordeste, onde o peso do Estado é crucial na relação entre representantes e representados.

Isso quer dizer que o desequilíbrio nas disputas municipais é ditado pela simbologia da caneta presidencial e pela força do Diário Oficial. De acordo com dirigentes aliados, o PT foi alvo de reclamações porque tentava passar ao eleitor a mensagem de que só ele representava essa garantia.

Mas, contabilizados os votos do primeiro turno, se alguém conseguiu transmitir com competência esse recado foi o PMDB, um dos mais queixosos e também o partido que mais se beneficiou da adesão total ao governo Lula no segundo mandato.

Diante disso, é de se imaginar, então, que o PMDB continue na aliança governista e em 2010 apóie a candidatura sustentada pelo Palácio do Planalto.

Não necessariamente. Daqui a dois anos a regra válida agora para os municípios não valerá para as eleições dos governos dos Estados porque o Diário Oficial, a caneta e a cadeira presidenciais não terão um dono (ou dona) certo. Com o poder central em disputa, a menos de uma situação de absoluto favoritismo do grupo governista, a tendência é a dispersão até a definição sobre o rumo mais seguro da perspectiva segura de relações privilegiadas com o Estado.

Mal comparado

O pior nos defensores da tática de difamação da campanha de Marta Suplicy - a própria incluída - não é nem o cinismo de soltar o veneno fazendo cara de inocente e pouco caso dos neurônios alheios.

Erro grosseiro de cálculo mesmo foi acreditar piamente que a candidata poderia ficar imune aos maus efeitos do uso da malícia de caráter sexual contra o adversário, da mesma forma como Lula conseguiu ficar distante dos escândalos ocorridos no PT e no governo.

Há diferenças abissais entre os personagens e as situações que não foram consideradas: além do poder que intimida, Lula tem o perfil do oprimido e contou o tempo inteiro com a ausência do contraditório.

Este último fator, subestimado, talvez tenha sido determinante na conta do fracasso ou sucesso das estratégias e explique muito a respeito da frustração de outros candidatos favoritos que confiaram no peso do exemplo de cima, mas foram atropelados por adversários supostamente mais fracos.

Menosprezaram o fato de que Lula não é regra, é exceção. É aí onde reside a falácia do automatismo da transferência de votos.

Moral da história

Do alto da lista dos derrotados do primeiro turno, o governador de Minas, Aécio Neves, teve pelo menos um ganho: levou adiante a idéia da candidatura de Fernando Gabeira no Rio, apresentada sem maiores pretensões pelo deputado mineiro Rodrigo de Castro, secretário-geral do PSDB.

O lance até agora foi mais bem-sucedido do que o inicialmente pretendido. Aécio imaginava que se Gabeira conseguisse obter 25% dos votos, a aliança já teria valido a pena para o combalido PSDB fluminense. Na primeira pesquisa do segundo turno, o candidato apareceu com 43% das preferências.

Um sucesso tão surpreendente quanto o fracasso da primeira tentativa do governador de projetar a imagem do articulador de um “modo novo” de fazer política e até hipotético candidato a presidente pelo PMDB, com o apoio de Lula.

Noves fora, Aécio errou quando ciscou para fora e acertou quando ciscou para dentro.

Tensões eleitorais

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS


É curioso, mas nossa cultura política atual tende a repudiar o acirramento dos embates eleitorais, como se quem o propusesse cometesse um pecado. Comportamentos que são considerados normais mundo afora, no calor das disputas, aqui são tratados como inaceitáveis
As eleições municipais deste ano estão transcorrendo em um ritmo peculiar. Não que seja inteiramente diferente do que tivemos em outras. Mas que há coisas inesperadas nestas, isso não se pode negar.

Eleições locais costumam ser marcadas por um nível de volatilidade maior do que é característico das estaduais e, particularmente, das nacionais. Nas escolhas de prefeito, os eleitores tendem a se comportar de maneira menos previsível, mais sujeita a oscilações repentinas. Nelas, não valem regras que se aplicam bem às outras.

Se pensarmos nas eleições de presidentes e governadores que fizemos depois da redemocratização, são raras aquelas em que houve fenômenos de “última hora”, com a arremetida de um candidato na reta final. Supondo que as pesquisas de intenção de voto estavam corretas, elas contam-se nos dedos.

Ao contrário, nas municipais isso acontece com freqüência. É como se os eleitores ficassem na espreita, aguardando a véspera da eleição para se decidir. Nessa hora, processos eleitorais que pareciam correr em trilhos conhecidos dão um tombo nos analistas e nos pesquisadores.

Este ano, algo assim aconteceu nos três maiores colégios eleitorais do país, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Mesmo o que ocorreu no quarto maior, Salvador, tem aspectos semelhantes.

Em todas essas cidades, tivemos o crescimento de candidaturas, nos dias finais, que nem os próprios candidatos e seus assessores imaginavam. Ninguém de bom senso, na campanha de Gilberto Kassab, por exemplo, diria que ele ficaria à frente de Marta Suplicy no primeiro turno. Muito menos que, nas pesquisas feitas esta semana, ele abriria a vantagem que agora tem sobre ela.

No Rio, já se podia esperar o crescimento de Gabeira, mas poucos antecipavam que ele se igualaria a Eduardo Paes tão cedo, como mostraram pesquisas feitas três ou quatro dias depois da eleição. Para quem tinha sido saudado como grande novidade lá atrás, quando se lançou candidato, e ficou sumido em modestíssimos 5% durante quase três meses, Gabeira é uma surpresa de crescimento na hora certa.

Belo Horizonte tem um fenômeno semelhante, na candidatura de Leonardo Quintão. Impulsionado por um estilo de campanha que não deu certo em nenhum outro lugar, emocionalizada e sentimental, ele teve mais votos até que os previstos pelas pesquisas de boca-de-urna. Como Kassab, teve um desempenho que nem ele esperava, a não ser em sonhos.

Surpresas como essas criaram o quadro para um reinício de campanha em um tom vários decibéis acima do que tivemos, nessas cidades, no primeiro turno. Depois de uma modorrenta discussão de propostas, quase sempre indiferenciadas, e da apresentação enfadonha de currículos, agora a briga esquentou.

É curioso, mas nossa cultura política atual tende a repudiar o acirramento dos embates eleitorais, como se quem o propusesse cometesse um pecado. Comportamentos que são considerados normais mundo afora, no calor das disputas, aqui são tratados como inaceitáveis.

Comparações críticas, cobranças agudas, denúncias e questionamentos do passado e do presente de adversários não são imorais nas disputas democráticas, até porque quem as faz se expõe ao julgamento dos eleitores. Em países de larga tradição democrática, são mais comuns que imaginamos.

Talvez venha da fragmentada e conturbada experiência que temos com a normalidade da democracia essa aversão que nossa cultura política atual tem aos conflitos nas eleições. Espera-se dos candidatos uma espécie de falsa cordialidade, o tal debate em “alto nível”.

Que discutam, que até briguem, se quiserem. As leis estão aí e quem as descumprir pagará o preço. Quem decide são os eleitores, que são perfeitamente capazes de fazer suas avaliações, em campanhas geladas, mornas ou pegando fogo.

Passagem discreta pelas municipais


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Do ponto de vista do que lhe é necessário, no momento, a dois anos da sucessão presidencial, a ministra Dilma Rousseff, por enquanto ainda a candidata in pectore do presidente Lula a assumir, pelo PT, o seu legado, usou bem as condições que lhe foram apresentadas nas campanhas municipais. Dilma não tinha condições de apoiar os candidatos petistas, transferir votos que não possui, explorar com o eleitorado, voltado para as dificuldades do dia a dia nas cidades, as ações do governo federal pelas quais é responsável.

A estratégia aplicada por Dilma foi a de usar as campanhas e a exposição que elas lhe possibilitavam para fazer a sedução da militância, mostrar-se, melhorar suas relações políticas no PT e entre os partidos historicamente a ele aliados. Com este foco, as perdas objetivas da ministra, que vêm sendo registradas, carecem de maiores significados. Em Porto Alegre, por exemplo, seu domicílio eleitoral, ela começou perdendo na escolha do candidato de seu partido. Trabalhava por Miguel Rossetto, um dos pré-candidatos do PT, enquanto a maioria partidária preferiu Maria do Rosário. Engajou-se, então, na campanha da candidata do PT, que passou ao segundo turno com uma votação muito abaixo do candidato concorrente, também da base presidencial, depois de viver uma fase de disputa voto a voto com outra candidata da aliança governista, Manuela D"Ávila, do PCdoB.

Maria do Rosário ainda não fez a virada, também não é em Porto Alegre que se joga a cartada decisiva da eleição presidencial. Outro envolvimento da ministra, a campanha de Gleisi Hoffmann, em Curitiba, não levou a candidata petista, mulher do ministro Paulo Bernardo, sequer ao segundo turno. Seu adversário venceu por 77,27% dos votos na primeira rodada. Dilma foi a São Paulo, mais de uma vez, mas a candidata Marta Suplicy não viu traduzidos em intenção de voto o seu apoio público.

Porém, não era este o objetivo de seu périplo pelas campanhas. Um especialista nas estratégias de médio e longo prazos, do PT, resume as vantagens das eleições municipais para a candidatura Dilma, no que considera determinante neste partido dado a regras de precedência: "Ela se legitimou".

Isto significa que aproveitou as campanhas para estabelecer uma anteriormente inexistente relação política com o PT, com as bases política e social do partido. Até em São Paulo havia militantes que jamais tinham ouvido a voz de Dilma Rousseff. Ela se mostrou: dialogou com a Central Única dos Trabalhadores, com a Força Sindical, os Movimentos de Juventude, os sindicatos, os movimentos de moradia, os diretórios do partido, a força social que gravita em torno do PT. Hoje, segundo esta avaliação, Dilma é seguramente mais conhecida do PT do que há dois meses.

Isto é um fato e deve ajudá-la a ser aceita como candidata à sucessão de Lula se, nos próximos dois anos, a crise econômica continuar preservando as condições hoje favoráveis ao governo para levar adiante seu projeto político. Esta, aliás, pode ter sido a razão da extrema discrição com que a ministra chefe da Casa Civil vem tratando das questões da crise. Sempre centralizadora das questões de gestão do governo, os agudos problemas da economia ficaram nas mãos dos ministros da área, não têm passado por ela, pelo menos até onde a vista alcança.

Dilma começou, nesta campanha municipal, a criar as condições para ser o poste, pois nem isto conquistou ainda. Não tem tempo, teses, posições que possibilitem o conflito e lhe atribuam os instrumentos para ser candidata de si mesma. Dilma é contra o quê e a favor do quê? Quais são seus princípios? Que idéias preliminares constam de seu projeto de país?

Sua associação com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a marca de propaganda que fixa o marketing governamental do segundo mandato de Lula - a esta altura um pouco obscurecida pela proeminência do pré-sal-, é um instrumento para permitir, a uma gestora sem contado com o eleitorado, apresentar-se Brasil afora a governadores, prefeitos, parlamentares, que traduzem, em palanques, a troca dos benefícios por votos. O programa é a soma dos investimentos em obras, em andamento, reunidos na marca PAC, assim como o Fome Zero é marca fantasia para um concreto programa Bolsa Família, que tem cartão de saque mas, este, não está ainda vinculado à ministra. O Plano Real era uma marca, o eleitorado votou, porém, no preço do pão, na popularização do consumo do frango, na estabilização que lhe deu capacidade de viver com o salário.

A marca é vistosa mas, para funcionar, precisa estar acompanhada do benefício na veia. Se a candidata não for capaz de transformar o PAC propaganda em PAC efeitos dos investimentos sobre a vida do eleitorado, nem com ele a ministra poderá contar. E, até o momento, não se vê onde o governo está perto de assombrar o eleitorado com o programa.

Portanto, sua meta, e a estratégia em curso, evidencia que pretende se tornar conhecida, principalmente no partido, continuar circulando em eventos que a mostrem ao eleitorado, ser identificada com Lula, antes de poder se apropriar de algo que é real, a popularidade do presidente. Até para ser o poste é preciso muito esforço. Dilma é candidata a protagonista e, para isto, as eleições municipais lhe permitiram avançar na sua campanha.

Aposta alta

Só resultados de pesquisa, mesmo assim as que forem feitas depois dos acontecimentos, poderão dar certeza sobre o acerto ou o erro das "denúncias" "contra" o adversário contidas na nova estratégia eleitoral da candidata do PT a prefeita de São Paulo. No momento ela parece ter conseguido, de forma arriscada, pois em momento de desespero, atingir o objetivo de colocar o assunto, até aqui inexistente, na roda da campanha. Para todos os efeitos, quem está falando disto é a mídia, enquanto a candidata "defende" seu contendor com a alegação de horror histórico ao preconceito.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Surpresa? Não. Asco? Sim


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - Não dá para dizer que me surpreende a campanha que Marta Suplicy lançou contra Gilberto Kassab.

Afinal, quando ela recomendou às vítimas do apagão aéreo no ano passado que relaxassem e gozassem, escrevi aqui mesmo que sua frase era parente muito próxima do "estupra, mas não mata", de Paulo Maluf. Uma e outra revelam uma cultura de profundo desprezo pelas vítimas, quaisquer que sejam os eventos que as causam.

Quem mostra dessa maneira asquerosa a sua pior face reincide fatalmente. Marta reincidiu agora. Ajuda-memória: quando Eduardo Suplicy suspendeu uma de suas campanhas para procurar o eixo, Paulo Maluf insinuou para quem quisesse ouvir que a culpa era do comportamento conjugal de Marta, então casada com Suplicy.

A candidata do PT repete agora o mesmo tipo de insinuação.

Surpreende, sim, que não haja a mesma veemência no repúdio, principalmente no próprio PT e na intelectualidade que se acha progressista e é ligada ao partido.

O presidente da República, por exemplo, preferiu dizer que não vira os ataques e que, portanto, não poderia comentá-los, durante entrevista coletiva em Toledo, Espanha. Duvido que não tivesse sido informado, mas sou forçado a lhe dar o benefício da dúvida.

Aqui, mais um ajuda-memória: na campanha presidencial de 1989, Fernando Collor usou o mesmo asqueroso método de Marta ao puxar o tema de Lurian, filha de seu adversário Lula. Derrubou animicamente Lula para o debate seguinte entre eles, e há gente muito próxima do hoje presidente que atribui a derrota a esse golpe vil.

Em qualquer circunstância, pessoas honestas têm a obrigação de repudiar vilezas. Lula, vítima de uma delas, não tem o direito de escudar-se na lealdade partidária para calar. Lealdade, nesse caso, é só com a ética.

Na luta política golpes baixos valem mais?


José Nêumanne
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Diziam os antigos que a política é a arte de engolir sapos. Não deve ser fácil fazê-lo, mas na certa mais habilidade se exigirá de quem cospe para cima e não quer ser atingido pela própria cusparada. O deputado Eduardo Paes, ex-favorito à prefeitura da segunda maior cidade do País, a antigamente tida como maravilhosa São Sebastião do Rio de Janeiro, é a mais recente vítima desta lei inexorável da Física, dita da gravidade, que Isaac Newton descreveu, segundo a lenda, após a queda de uma maçã sobre sua cabeça. Ele era secretário-geral do PSDB, principal partido da oposição, quando os meios de comunicação se ocupavam quase exclusivamente do escândalo do “mensalão”. E, inflamado pelo calor dos holofotes, apressou-se a convocar o amado filho de Sua Majestade, o nunca antes tão popular presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a depor.

Mas, como deviam também saber os mais jovens, pois os provectos o afirmam faz tempo, o mundo dá muitas voltas e a noite que prenuncia o dia - e vice-versa - também aconselha a prudência como única atitude para a qual há a garantia de que represálias não virão. À época da turbulência provocada pela denúncia do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), o tucanato, em cujo ninho se aninhava o rapaz, se alvoroçou com a possibilidade de sangrar o peru às vésperas da eleição, sem imaginar que para isso teria de desinfetar as próprias vísceras. Tido como derrotado antes da hora, o fenômeno de popularidade Lula da Silva deu a volta por cima e enterrou os sonhos tucanos de voltar a galgar as rampas palacianas, como nos velhos tempos. Treinado nas manhas e mumunhas da politicagem nacional e conhecedor da inabilidade tucana para ler os desígnios do destino, Paes pulou de galho e se abrigou à sombra da frondosa árvore peemedebista, sob as bênçãos do governador fluminense, Sérgio Cabral, que fora ungido pela graça de El Rey todo-poderoso. Dali partiu para disputar a prefeitura da ex-Cidade Maravilhosa e, para gozar os benefícios da fama do Supremo, mandou-lhe uma carta, extensiva à digna consorte, pedindo perdão pelo que antes dissera de seu pimpolho.

Nada houve, desde as denúncias açodadas de Sua Excelência, que o levasse a voltar atrás, da forma humilhada como o fez, nas acusações a Sua Alteza. O que o fez abjurar o que antes afirmara com tanta convicção não foi a presunção da inocência do príncipe nem o reconhecimento da própria precipitação, mas o peso a que submeteu sua coluna o projeto de se alçar a tão alto cargo, carga, pelo visto, superior à da própria palavra - e de sua biografia. Na disputa apertada que se prenuncia pelo voto carioca neste turno decisivo, importa é conseguir a bênção do Sumo Pontífice. A coerência, como dizia o velho Chatô, patrono da malandragem nacional, é a virtude dos imbecis. É de duvidar que, mesmo que ele arregaçasse as mangas da camisa e partisse para o corpo-a-corpo da campanha, o que não fará, a popularidade do Maior Magistrado, sozinha, vencesse Fernando Gabeira (PV). Mas, por mais humilhante que seja, a retratação pesa menos sobre as vértebras do candidato oficial que o risco de deixar escaparem alguns votos dos receptadores da Bolsa-Família. Seria a política um tipo de vale-tudo em que golpes baixos valem mais pontos?

Apostando nessa lei não escrita da práxis eleitoral, os marqueteiros de Marta Suplicy (PT) decidiram investir no preconceito como arma à mão para tomar do adversário na campanha paulistana, o prefeito Gilberto Kassab (DEM), a surpreendente dianteira de 17 pontos detectada pelas pesquisas na partida para o segundo turno. Os marqueteiros de Marta e a própria candidata comportam-se no caso como se os eleitores paulistanos fossem portadores da mesma miopia que os faz atuar achando estarem na posse do monopólio da virtude, certos de que a incapacidade de enxergar o próprio rabo de palha provocará cegueira generalizada na população. Na televisão, como sexóloga, e na Câmara, como deputada, ela vislumbrou na guerra ao preconceito um nicho para levá-la às alturas. E lá chegou: foi prefeita de São Paulo, como antes havia sido Luiza Erundina, e ministra do Turismo, estando seu PT no poder na República.

Cego às evidências de que não pode ser vítima de preconceito uma mulher que teve a honra de ser escolhida para administrar o mais populoso e rico município do País, seu ex-chefe e agora paraninfo das ambições dela na disputa municipal, Luiz Inácio Lula da Silva, tentou jogar a culpa da derrota da preferida no primeiro turno nas costas da cidadania: ela teria tido menos votos que o conservador, ex-malufista e ex-secretário de Pitta não pelos próprios deméritos nem pelos méritos do adversário, mas pelos preconceitos do eleitor. E, como palavra de rei não volta atrás nem pode ser banalizada, a candidata e seus marqueteiros resolveram adotar como estratégia de campanha a exploração daquele que, conforme Lula, teria sido o motivo capital da inesperada derrota em 5 de outubro: o conservadorismo preconceituoso do paulistano. Foi por acreditar nisso que a ex-prefeita resolveu lembrar ao eleitor, de maneira bem pouco sutil, que o adversário não é casado nem tem filhos. Os autores dessa proeza de torpeza sabem que estado civil e capacidade de reprodução não são exigidos de ninguém para disputar nem assumir a Prefeitura. Eles imaginam que essa insinuação pode levar o eleitor a rejeitar o adversário pelo mesmo motivo que pensam que a rejeita: seu comportamento atípico. E as tentativas posteriores de consertar o erro em nada o modificam.

Apesar de se comportar como se já houvera sido, a ex-prefeita ainda não teve derrotada sua pretensão de voltar ao posto. Mas sua desastrada entrada na reta final do pleito acrescentou um obstáculo a mais a ser superado: ela só o vencerá se o paulistano não perceber que mais insultado que Kassab foi o eleitor, tido por ela na conta de preconceituoso e intrometido.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

Surpresa de outubro


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Só se fala nisto nos últimos dias. Com a situação econômica dominando o debate político e fazendo com que a vantagem do candidato democrata, Barack Obama, aumente a cada dia - ontem, pela primeira vez, ele chegou a ter mais de 300 votos eleitorais pelas pesquisas, 30 a mais do que o necessário para ser eleito em 4 de novembro -, o que poderia fazer o republicano McCain virar o jogo a 20 dias da eleição? Hoje, na Universidade Hofstra, em Hempstead, no Estado de Nova York, nada indica que o último debate entre os candidatos marque essa virada, embora seja previsível que McCain surja mais agressivo do que o habitual, e leve para o debate as acusações que vem fazendo em suas propagandas pela televisão, especialmente a suposta ligação com o ex-terrorista Bill Ayers.

Mas o que a campanha de Obama teme é a "surpresa de outubro", um fenômeno bem americano que tem marcado as eleições, especialmente as presidenciais. Trata-se de um acontecimento, geralmente ligado à política externa ou à segurança nacional, com capacidade de influir no resultado da eleição que, no caso da escolha do presidente, acontece sempre na primeira terça-feira de novembro. Os fatos políticos acontecidos no mês de outubro são sempre importantes, portanto, na decisão do eleitorado.

A mais característica delas aconteceu em 1980, quando o então presidente Jimmy Carter tentava a reeleição. Os jornais começaram a especular que uma nova operação de resgate estaria sendo preparada para tentar libertar reféns americanos que estavam desde novembro do ano anterior prisioneiros de estudantes radicais na embaixada americana em Teerã. Uma ação militar bem-sucedida às vésperas da eleição presidencial certamente colocaria em boa situação o presidente Carter, cujo governo havia levado a efeito, no início daquele ano, uma operação militar com o mesmo objetivo, que acabou frustrada.

Os reféns foram libertados somente em janeiro de 1981, no exato dia em que Ronald Reagan tomava posse, o que gerou uma outra "teoria da conspiração". Segundo ela, temendo que desse certo uma última cartada de Jimmy Carter, o candidato republicano Ronald Reagan teria feito um acordo com o novo governo iraniano dos aiatolás, especialmente através dos contatos de seu candidato a vice, George Bush pai, que foi diretor da CIA, para que os reféns só fossem libertados depois das eleições. Essa hipótese chegou a ser investigada por comissões no Congresso, mas nada ficou provado.

Existem outros exemplos de "surpresas de outubro" nas eleições presidenciais americanas, desde o anúncio, no dia 31 de outubro de 1968, pelo então presidente Lyndon Johnson, de que os bombardeios no Vietnã seriam suspensos devido a progressos nas negociações de paz. A guerra não terminou e o candidato republicano Richard Nixon venceu as eleições.

Mais recentemente, na reeleição de George Bush, a rede de TV Al Jazeera divulgou, em 29 de outubro, um vídeo em que Bin Laden acusava o governo Bush e a posição americana no conflito árabe-israelense pelos atentados de 11 de setembro de 2001. O vídeo ajudou a campanha de Bush, que se baseava principalmente na guerra contra o terrorismo, pelos atentados, e foi um episódio considerado decisivo na derrota do democrata John Kerry.

Precavido, este ano o candidato Barack Obama quer fazer a sua própria "surpresa" e comprou meia hora de horário nacional em duas cadeias de televisão para fazer um programa, no dia 29 de outubro, que marca o início da Grande Depressão em 1929. Vai certamente explorar as datas e as crises econômicas, e terá que se colocar mais como Franklin Roosevelt, que assumiu em 1932 e fez o New Deal, do que como Hoover, que presidia o país naquela "quinta-feira negra".

O que se pergunta é qual seria uma "surpresa" capaz de mudar o quadro eleitoral atual, que parece consolidado a esta altura da campanha em favor do democrata Barack Obama, especialmente depois que a crise econômica dominou o debate político. Bem que o republicano McCain tentou ficar longe da discussão econômica, e levou sua campanha para uma operação de desconstruir Obama com ataques ao seu passado, que seria tão desconhecido quanto perigoso.

As relações com políticos radicais como o ex-terrorista Bill Ayers ou o pastor Jeremiah Wright foram exploradas ao máximo, especialmente pela candidata a vice Sarah Palin, e os ânimos chegaram a ficar exaltados em alguns comícios, com partidários republicanos xingando Obama, classificando-o de "árabe" e "terrorista". A tal ponto que o próprio McCain pareceu ter-se assustado com o clima e pediu a seus correligionários que respeitassem o adversário.

O fato é que McCain teve que entrar no assunto que realmente está interessando aos eleitores americanos, e ontem apresentou um plano econômico que, como o de Obama no dia anterior, promete proteção completa aos investimentos da classe média. Mas o único ponto em que o republicano continua vencendo Obama nas pesquisas é o da segurança nacional, em que ele mantém uma dianteira de dez pontos.

No geral, é Obama quem está à frente, com dez pontos de vantagem na maioria das pesquisas, e vencendo em estados onde os republicanos geralmente venceram nas últimas eleições, como Colorado, Ohio, Flórida, Nevada. Missouri e Virgínia. Qual seria a "surpresa de outubro" que poderia reverter esse quadro?

Um ataque dos Estados Unidos ao Irã, ou um ataque ao Irã por parte de Israel, com o apoio americano, ainda é uma das melhores apostas. Mas ontem surgiu no cenário o boato de que o governo Bush está fazendo ações militares para tentar prender ou até mesmo matar Bin Laden antes das eleições, o que poderia reacender o espírito patriótico dos americanos.

"Nós lamentamos"


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

NOVA YORK - O momento mais simbólico e patético da atual crise até agora foi a aparição pública ontem, logo cedo, do presidente dos EUA, George W. Bush, e de seu secretário do Tesouro (ministro da Fazenda), Henry Paulson.

Constrangidos, envergonhados e em posição explícita de genuflexão ideológica, os dois admitiram a necessidade de usar dinheiro público para comprar ações de bancos privados. O governo norte-americano torrará US$ 250 bilhões, só para começar, na compra de participação acionária em grandes instituições financeiras do país.

Mas as falas de Bush e Paulson foram além da capitulação. Ambos fizeram questão de reafirmar a crença no capitalismo. Por mais paradoxal que possa soar, essas declarações de fidelidade ao modelo liberal têm grande relevância: impedem a conclusão epidérmica, já presente aqui e ali, sobre uma possível falência inexorável ou reforma completa do sistema monetário e financeiro internacional. Não há indicações de uma coisa nem de outra num horizonte próximo.

Duas frases são úteis para guardar na parede da memória. Bush afirmou não haver a "intenção de tomar o lugar do livre mercado, mas de preservar o livre mercado". Paulson veio depois, compungido e explícito sobre seus atos: "Nós lamentamos por tomar essas medidas. As medidas de hoje não são as que nós gostaríamos de tomar, mas as medidas de hoje são as que nós devemos adotar para restaurar a confiança no nosso sistema financeiro".

Em resumo, os governos dão agora, mas cobrarão de volta mais tarde. Os banqueiros ficarão mais ricos? Possivelmente. Haverá regras novas? Algumas, sempre preservando a liberdade para o sistema bancário descobrir brechas e aumentar seus lucros. E daqui a alguns anos enfrentaremos todos outra crise parecida. Ou pior.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Jorge Roberto Silveira e Miro ficam com Gabeira

Apesar de o PDT ter formalizado apoio a Paes, o deputado federal pedetista Miro Teixeira afirmou que votará em Gabeira. Outro pedetista contrário ao apoio a Paes, Jorge Roberto Silveira, acabou cancelando o almoço que teria nesta segunda com o político do PV, mas, em nota, disse respeitar a decisão do diretório municipal do partido e encerrou afirmando torcer pela candidatura de Gabeira.

O prefeito eleito não explica o motivo de ter desmarcado o encontro desta segunda. A jornalistas, Gabeira afirmou que o político de Niterói estaria doente. No lugar do prefeito eleito, o candidato recebeu a visita do seu braço direito, Hamilton Pitanga, que já foi anunciado como futuro secretário de Governo de Niterói.

Pela manhã, Lupi deu a entender que houve um enquadramento do pedetista de Niterói. Perguntado sobre a posição do companheiro de legenda, Lupi foi direto:

- Pergunta a ele de novo? Desafio você a conseguir ter essa posição do Jorge Roberto Silveira (de apoio a Gabeira). Ele seguirá a orientação do partido - disse o ministro, acrescentando que se o partido discutiu e decidiu, "todo mundo acata".

Na nota, Jorge Roberto afirma que louva a postura democrática de Lupi. Mas destaca que não é eleitor do Rio e que, "mesmo não havendo um apoio formal da minha parte ao candidato Fernando Gabeira, nada me impede que, como pessoa física e eleitor em outro município, manifeste minha inteira simpatia à sua candidatura pelo que ela representa de avanço na política fluminense". O prefeito eleito encerra dizendo que o PV foi fundamental para sua eleição.

Mas os esforços de Lupi também não foram suficientes para unir o diretório municipal. Segundo Miro Teixeira, a decisão de não votar em Eduardo Paes tem a ver com a sua "pregação política" de que vai tirar o Rio do isolamento. Para Miro, é absurdo um candidato dizer que vai governar melhor ou pior por causa da ligação com o presidente da República ou com o governador.

O deputado classifica o discurso de Paes como a "negação dos princípios republicanos":

- Nós pagamos impostos; a cidade tem que ser respeitada qualquer que seja o seu prefeito. Porque a cidade não é o prefeito, e sim os cidadãos. Essa pregação de alinhamento que favorece ou desfavorece a relação com o governo federal é despolitizada porque é contra o povo.

Miro nega ter conversado com Gabeira sobre o seu voto ou sobre a possibilidade de um apoio formal.

- Não imagino que o meu apoio representasse o deslocamento de quem quer se seja. Participo como cidadão, sem críticas à posição do partido, coerente com o alinhamento que tem com o governo federal - explicou.

Gabeira sela a paz com Lucinha em Bangu


Alessandra Duarte e Chico Otavio
DEU EM O GLOBO


Vereadora aceita pedido de desculpas por declarações feitas pelo candidato do PV

O candidato do PV à prefeitura, Fernando Gabeira, foi ontem a Bangu para tentar pôr fim à polêmica com a vereadora Lucinha (PSDB). No comitê do vereador reeleito Renato Moura (PTC), ele se reconciliou com a vereadora, também reeleita e com a maior votação para a Câmara. Com beijos, abraços e discursos, Gabeira e Lucinha selaram a paz, após o episódio em que o candidato criticou a vereadora, em telefonema flagrado por jornalistas. O encontro reuniu cerca de 300 pessoas, entre políticos, líderes comunitários e até uma militante com a bandeira do PT:


- Com esse impulso, acredito que vamos resolver a situação da eleição. Não vejo a Zona Oeste como um problema, e sim como uma solução - disse Gabeira.

Lucinha, que exigira uma retratação pública de Gabeira, disse que considera o episódio encerrado:

- A imprensa muitas vezes não ajuda, apimenta, mas Gabeira teve a lucidez de buscar, pela mídia, uma forma de demonstrar o carinho que tem pela Lucinha, pela Zona Oeste e pelo subúrbio - disse Lucinha, afirmando não ter visto problema no fato de o pedido de desculpas ter sido na terceira pessoa. - Gabeira entendeu a posição da Zona Oeste contra o lixão.

Gabeira prometeu, se eleito, levar a administração para a Zona Oeste:

- Nossa prefeitura terá dias de funcionamento aqui, para a população saber que estou ao alcance da mão e das críticas.

Gabeira tenta tirar Lula do programa de Paes


A campanha de Gabeira entrou com quatro representações na Justiça Eleitoral, três delas contra o adversário, Eduardo Paes (PMDB), e a quarta contra a campanha apócrifa que espalha panfletos, camisetas e outras peças de propaganda sobre as declarações de Gabeira sobre Lucinha. Um dos objetivos é tirar a imagem do presidente Lula do horário eleitoral do PMDB.


- O uso da imagem de Lula é inadmissível e lamentável - reagiu o advogado de Gabeira, Eurico Toledo. Mas o juiz Cezar Augusto Rodrigues Costa, da Representação Eleitoral, negou ontem liminar para suspender a veiculação da imagem de Lula no programa de Paes. Para o juiz, segundo turno é outra eleição e, como o PT não concorre no Rio, Lula pode oficializar apoio a qualquer candidato. O juiz pretende ouvir as partes e o MP antes de julgar o mérito da representação.


Gabeira contou ter tentado contato com o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, para informá-lo sobre o que considera ser uma ilegalidade. Para Gabeira, Lula não teria sido informado que "estaria transgredindo a lei".


- Se eu não protestar, vão dizer que estou conivente com o descumprimento da lei, que não é correto.

A assessoria jurídica de Gabeira ainda pediu a retirada de Jandira Feghali (PCdoB) do horário do PMDB, também negada pelo juiz.