sábado, 14 de julho de 2012

PP sofre estigma por acusações contra Maluf, afirma Haddad

Petista defende aliança com partido comandado por ex-prefeito

Bernardo Mello Franco e Flávio Ferreira

SÃO PAULO - O candidato do PT a prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, disse ontem que o PP é "estigmatizado" pelas acusações de corrupção contra o deputado Paulo Maluf.

Ele defendeu a aliança ao ser questionado sobre nova denúncia criminal contra executivos acusados de participar de desvios na abertura da av. Jornalista Roberto Marinho, obra do ex-prefeito.

"Você se equivoca ao me perguntar isso", disse a um repórter que citou o caso. "O PP está na base do governo Lula desde 2004. Não vejo razão para se estigmatizar um partido que está colaborando como o governo federal."

Haddad disse que as acusações "não têm nada a ver com aliança entre partidos" e reclamou que aliados de José Serra (PSDB) passaram a "falar mal" do PP depois que a sigla se negou a apoiá-lo.

Denúncia

O Ministério Público Federal denunciou à Justiça oito executivos e funcionários que atuaram nas empreiteiras Mendes Júnior e OAS entre 1993 e 2000 pelo suposto envolvimento no pagamento de propinas a Maluf.

A apresentação da denúncia, informada por "O Estado de S. Paulo", resulta do desmembramento da investigação -e por isso ele não foi incluído na nova acusação.

A assessoria de Maluf disse que as obras foram feitas pela Emurb e não pela prefeitura, e que todos os gastos foram aprovados pelo tribunal de contas. As empresas não se manifestaram.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

É pouco e é muito :: Cristovam Buarque

O Brasil, sexta economia do mundo, tem renda anual de R$ 4,3 trilhões. De acordo com o Banco Central, o valor das dívidas corresponde a 43,3% da renda das famílias no ano. O governo abre mão de aproximadamente R$ 116 bilhões, quase 3% do PIB, sob a forma de incentivos fiscais todo ano. Desse montante no ano passado, R$ 20 bilhões só na indústria automobilística. Somente os Poderes Legislativo e Judiciário necessitam de quase R$ 30 bilhões por ano. Estima-se que os investimentos da Copa, Olimpíadas, Trem-Bala e Belo Monte vão exigir R$ 167 bilhões, ao longo de alguns anos. O gasto com o INSS é da ordem de 7,2% do PIB, e os serviços da dívida pública consomem 5,1% do PIB.

Há recursos para gastar 10% do PIB com educação (4,9% além dos atuais 5,12%), bastaria mudar as prioridades. A questão central é se há prioridade maior para a educação, em comparação com os demais setores. Mas o menosprezo brasileiro com a educação é cultural.

Por alguma razão na formação do espírito nacional, não consideramos educação como indicador de riqueza de uma pessoa, nem do conjunto dos brasileiros. Ser culto não é visto como um indicador de status social. Os educadores e os filósofos são pouco valorizados. Mesmo quem paga a escola privada do filho, em geral, não busca a educação em si, investe no salário adicional que ele terá no futuro graças ao estudo.

Politicamente, no Brasil, tudo que é para a maioria pobre fica abandonado, depois que os relativamente ricos resolvem seus problemas. E os filhos dos ricos podem pagar a escola privada, recebendo do governo cerca de R$ 4 bilhões de dedução do Imposto de Renda por ano. É assim com a saúde, o transporte, a segurança e também com a educação, que caracterizam a nossa maneira de ser. O desprezo para com a educação é também uma questão de imprevidência e de preferência pelo imediatismo. Educação é uma poupança fundamental para o futuro do país e de cada família, mas que não permite a satisfação do consumo no presente. Orgulha-nos termos a 6 maior renda nacional do mundo, e não nos envergonha sermos o 88 país em educação; nem percebemos a ameaça que esta classificação provoca para o futuro.

É possível encontrar recursos para investir até 10% do PIB na educação, se eliminarmos privilégios e desperdícios e mudarmos as atuais prioridades. Ainda se não quisermos mudar as prioridades, poderemos pensar em outros instrumentos fiscais ou mesmo em empréstimo provisório para investir em educação.

O problema, portanto, não é a falta de recursos, mas o risco de termos excesso de recursos para a educação. Se investirmos 10% no atual sistema de educação, correremos o risco de desperdiçar dinheiro. Se todo este recurso for aplicado nas atuais unidades de ensino, o sistema não seria capaz de absorvê-lo com eficiência. Serão comprados equipamentos que ficarão engavetados e haverá aumento dos salários sem a correspondente elevação na qualificação e na dedicação dos professores.

O problema principal não é onde conseguir os 4,9% do PIB que faltam para chegar aos 10% previstos na meta 20 do segundo PNE - Plano Nacional de Educação. O problema central é como aplicar esses recursos, depois de identificar as fontes.

Uma maneira eficiente de investir na educação seria implantar um novo sistema de educação, com paulatina federalização da educação de base; criação de uma carreira nacional do professor, com salário de R$ 9 mil por mês para os docentes desta nova carreira, que ficariam sujeitos à avaliação que poderá ocasionar demissão; e adoção da educação em horário integral, em escolas confortáveis, bonitas e bem equipadas. A implantação deste novo sistema, ao longo de 20 anos, requererá, no final, 6,4% do PIB.

O segundo PNE aprovado pela Câmara de Deputados é um conjunto de intenções sem projetos, propostas e operacionalidade. A prova é que, em vez de estimar seu custo, definiu-se arbitrariamente 10% do PIB para a educação, por coincidência o mesmo percentual que a PEC 169/1993 destinou para a saúde. O valor proposto pelo PNE II é pouco diante da riqueza da economia brasileira, mas é muito se for para aplicar no atual sistema, sem definições, sem mudanças e sem clareza.

Cristovam Buarque é senador (PDT-DF).

FONTE: O GLOBO

Dilma e O Pequeno Príncipe :: O Estado de S. Paulo - Editorial

Faria sucesso num concurso de miss o discurso da presidente Dilma Rousseff na 9.ª Conferência dos Direitos da Criança e do Adolescente, em Brasília. Sua declaração mais notável, destacada pelos jornais e reapresentada exaustivamente nas tevês e rádios, foi digna de uma devota leitora d"O Pequeno Príncipe: "Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para suas crianças e para seus adolescentes. Não é o Produto Interno Bruto (PIB). É a capacidade do país, do governo e da sociedade, de proteger o que é o seu presente e o seu futuro, que são suas crianças e seus adolescentes". Na interpretação mais benevolente, essa peroração é apenas uma banalidade. Na menos caridosa, é uma grande tolice apresentada na embalagem rosa da mais pobre filosofice.

Não há como discutir seriamente o bem-estar e o futuro das novas gerações sem levar em conta os meios necessários para educá-las, capacitá-las para viver com independência e dignidade e proporcionar-lhes oportunidades de ocupação produtiva e decente. Mas, também no sentido inverso, a relação é verdadeira: só se pode criar uma economia dinâmica, moderna e capaz de competir globalmente por meio da formação de pessoas qualificadas para tarefas cada vez mais complexas. Examinado de qualquer dos dois ângulos, o desempenho do governo brasileiro tem sido miseravelmente falho e nenhuma retórica pode obscurecer esse dado.

Ao contrário, no entanto, das graciosas candidatas a um título de miss, a presidente Dilma Rousseff recitou sua mensagem num tom furioso, como se reagisse a uma ofensa ou, talvez, a um imerecido golpe da Fortuna. Há uma explicação óbvia tanto para sua visível irritação quanto para a desqualificação do econômico. Horas antes o Banco Central (BC) havia divulgado seu indicador de nível de atividade, considerado uma prévia mensal do PIB. Esse indicador havia recuado 0,02% de abril para maio, confirmando vários outros sinais de estagnação da economia e reforçando as previsões de um crescimento, em 2012, menor que o de 2011.

Há um vínculo evidente entre os resultados pífios da política educacional e o emperramento da produção. No último exame do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o Brasil ficou em 53.º lugar em leitura e em 57.º em matemática, numa lista de 65 países. O teste é realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Quase todas as crianças estão na escola, graças a um esforço de universalização do ensino iniciado há longo tempo, mas a formação continua péssima. Cerca de 20% dos brasileiros com idade igual ou superior a 15 anos são analfabetos funcionais, incapazes de ler e entender instruções simples. Empresas têm dificuldade para contratar, por falta de mão de obra em condições até de ser treinada no trabalho. Há um evidente funil no ensino médio, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva preferiu facilitar o ingresso nas faculdades, numa escolha errada e demagógica.

O erro na escolha das prioridades tem permeado toda a política econômica. O consumo, apesar da queda observada recentemente, continua, segundo o IBGE, maior que o observado há um ano, mas a indústria brasileira tem tido dificuldade para suprir o mercado interno, por falta de competitividade. Fabricantes estrangeiros têm ocupado uma fatia crescente desse mercado, como já mostrou a Confederação Nacional da Indústria.

Incapaz de reconhecer os erros e de impor novos rumos à política econômica, a presidente Dilma Rousseff, como seu antecessor, prefere insistir na retórica e nas bravatas. "Vamos enfrentar os desafios para garantir à população emprego de qualidade", disse a presidente no batismo de uma plataforma da Petrobrás, na sexta-feira. A plataforma foi construída, recordou, pela "teimosia de um brasileiro chamado Lula".

Seria mais justo e mais realista lembrar a enorme e custosa lista de erros cometidos na Petrobrás a partir de 2003 e apontados pela nova presidente da empresa, Graça Foster, no dia de sua posse. Foram erros de uma gestão guiada por objetivos político-eleitorais e centralizada no Palácio do Planalto - erros essencialmente idênticos àqueles cometidos na política educacional.

A resiliência de Russomanno:: Fernando Rodrigues

Há um fator até agora imponderável na disputa para prefeito na capital paulista. O candidato Celso Russomanno (PRB), que enfrenta uma pendência com a Justiça Eleitoral, tem sido dado como carta fora do baralho há meses, mas sua pontuação nas pesquisas de opinião não evanesce. Ao contrário.

No final do mês passado, Russomanno chegou a 24%. É o segundo colocado isolado. Tem três vezes mais do que qualquer um dos terceiros colocados, entre eles Fernando Haddad (PT) e Gabriel Chalita (PMDB). E está a sete pontos de distância do líder da disputa no momento, José Serra (PSDB), cuja marca é de 31%.

O senso comum é dizer que Russomanno é um candidato sem sustentação partidária sólida. Pertence ao PRB, uma legenda ligada a religiosos. Seu desempenho seria só por causa de sua presença em programa televisivos. Nada mais.

Tudo considerado, Russomanno estaria condenado a desidratar por completo em breve.

Ocorre que há dois anos o mesmo Russomanno não caiu ao chão quando foi candidato a governador de São Paulo. Em julho de 2010, ele chegou a 11% num levantamento do Datafolha. Depois, de fato caiu. Mas cravou nas urnas respeitáveis 5,4%. Na capital, teve 6,7% dos votos válidos.

A queda de Russomanno em 2010 foi grande. De julho até o dia da eleição, ele perdeu perto da metade dos seus pontos acumulados em pesquisas de opinião -ficou, porém, longe do zero. A se repetir esse cenário agora, ele cairá para algo próximo a 12% ou 13%. É um desempenho robusto e que pode impedir o progresso de alguns candidatos.

O maior prejudicado pode ser Fernando Haddad. Há uma profecia petista segundo a qual o candidato do partido sempre tem 25% dos votos em disputas paulistanas, no mínimo. Com tantos candidatos médios e com Russomanno teimando em não evaporar, sobra menos espaço de onde o PT possa arrancar apoios.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Régua e compasso:: Merval Pereira

Diante da expectativa de mais um pibinho pela frente, a presidente Dilma Rousseff mudou da água para o vinho seu discurso econômico, passando a valorizar mais outras medidas que não a do Produto Interno Bruto, que até outro dia era festejado pelo governo como comprovação de que o país passara a ser a sexta economia do mundo, superando a Inglaterra e ameaçando a França, que está em quinto lugar.

Com o crescimento pífio previsto para este ano - por volta de 2% ou até menos, segundo algumas previsões - e o dólar valorizando, o país corre o risco de fechar o ano caindo novamente de patamar entre as maiores economias do mundo.

Pelo terceiro ano consecutivo, o país crescerá menos que os emergentes, a ponto de o economista Jim O"Neill, criador da sigla Brics para um estudo da Goldman Sachs sobre as principais economias emergentes do mundo, dizer que o Brasil corre o risco de perder sua posição no grupo.

A presidente se referiu à capacidade de um país tratar bem seu futuro, isto é, as crianças e os adolescentes, como mais importante do que o mero crescimento econômico medido pela acumulação de bens, e, se pode ter razão em teoria, na prática está lidando com medidas complementares e não dissociadas.

A não ser que esteja pensando em um tipo de modelo à la Cuba, onde o governo teoricamente dá mais valor ao desenvolvimento social do que ao econômico, isto é, mais ao IDH do que ao PIB, o que na prática se mostra um desastre.

Estamos em 84 lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e perdemos para países da região como Chile, Uruguai, Argentina. Cuba, que voltou a ter seu desenvolvimento humano medido depois de anos ausente do relatório do programa das Nações Unidas, aparece em 51 lugar.

Já tratei desse assunto diversas vezes aqui, mas é sempre bom repetir. Em uma coluna de março lembrei que a Noruega, por exemplo, não está entre as maiores economias do mundo, mas é a número um em IDH, método criado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq e pelo Prêmio Nobel Amartya Sen para avaliar outras dimensões na medição da qualidade de vida de um povo.

Além do PIB per capita corrigido pela paridade do poder de compra de cada país, o IDH leva em conta a longevidade e a educação.

Para aferir a longevidade, o indicador usado é a expectativa de vida ao nascer. O item "educação" é avaliado pelo analfabetismo e pela taxa de matrícula em todos os níveis de ensino.

O ideal é unir os dois indicadores, e por enquanto são os países desenvolvidos que conseguem isso. A maior economia do mundo continua sendo a dos Estados Unidos, que também são o 4 colocado em IDH.

A China já é o segundo PIB do mundo e, tudo indica, alcançará os Estados Unidos em alguns anos, mas, quando se trata de qualidade de vida, está na rabeira da lista do IDH, em 101 lugar.

O Japão, que caiu para o terceiro lugar no ranking do PIB, está em 12 lugar no IDH. A Alemanha é a mais bem colocada entre os grandes da Zona do Euro, em 9 lugar.

A França está em 20 lugar. O Reino Unido, que ultrapassamos pelo PIB, está em 28 lugar na relação do IDH, enquanto a Itália está em 24.

Os dois últimos do ranking das dez maiores economias do mundo, Rússia e Índia, estão também na rabeira da lista do IDH: Rússia em 66 (melhor que o Brasil) e Índia em 124 (pior que a China).

A presidente Dilma Rousseff tem toda a razão. Como já escrevi aqui quando saiu a notícia de que passáramos a ser a sexta economia do mundo, mais importante que isso é sabermos que estamos em 84 lugar no IDH; em 88 no Índice de Desenvolvimento Educacional; ainda somos um dos mais desiguais na distribuição de renda do mundo, apesar dos avanços recentes.

E entender que, para deixarmos de ser o 73 país no ranking de renda per capita , temos que encarar as reformas estruturais de que o país necessita para crescer sustentavelmente, principalmente na educação .

Temos tido sinais permanentes de que o ensino de Matemática entre nós está abaixo das necessidades do país. O professor Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras, fez uma relação de indícios de nosso atraso nesse setor: aprovação de apenas 42,8% dos alunos do 3 ano do ensino fundamental com os conhecimentos básicos de matemática; em apenas 35 cidades do país, mais da metade dos alunos do 9 ano do ensino fundamental sabe Matemática, teriam nota superior a 5; apenas 11% dos jovens que alcançam a 3 série do ensino médio têm aprendizado suficiente na matéria.

De 2000 a 2009, o Brasil aparece entre as três nações que mais evoluíram no Pisa - exame internacional de avaliação - segundo boletim da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado em 2010.

E, no entanto, ainda ocupa a 53 posição entre 65 países. Os países que fazem parte da OCDE, os mais avançados do mundo, aplicam cerca de 7% do PIB em pesquisa e desenvolvimento.

O Brasil não passa de 1%, sendo suplantado largamente por Coreia do Sul e China, países que estavam atrás de nós nesse setor nos anos 1980. Em 1960, a Coreia já tinha escolaridade média superior à do Brasil em 1,4 ano de estudo, e essa diferença só fez aumentar de lá para cá, estando atualmente em mais de seis anos.

Depois de aparentemente desistir da possibilidade de crescer acima de 3% ainda este ano, a presidente Dilma Rousseff tenta encarnar a personalidade de seu tutor, repetindo como Lula que "nunca antes neste país" se fez tanto pela distribuição de renda.

E repete até mesmo as gafes do antecessor, ao comemorar o desastre econômico europeu para fazer um contraponto ao modelo brasileiro. Segundo ela, o Brasil usa uma fórmula mais eficiente: fomentar o desenvolvimento "distribuindo o bônus para o povo. Hoje eles (os espanhóis) estão cortando o 13 salário, 30% do salário dos vereadores e aumentando os impostos, e (mesmo assim) o país vai de mal a pior" - disse a presidente.

Fez lembrar o ex-presidente Lula, que criou um embaraço diplomático ao dizer, para se vangloriar, que "é muito bom terminar o mandato e ver que os EUA continuam em crise", em contraste com o Brasil, que crescera naquele ano 7,5%.

Deu no que deu. Este ano, é possível que os Estados Unidos em crise cresçam mais que nós.

FONTE: O GLOBO

O ajuste do diesel:: Celso Ming

O segundo reajuste dos preços do óleo diesel em apenas 21 dias pela Petrobrás indica que o governo Dilma entendeu que o crescimento econômico não pode depender tanto do consumo, como vinha acontecendo, e que tem de ser deslocado para o investimento. Em outras palavras, o estrangulamento da atividade econômica do Brasil não está no lado da demanda, que segue crescendo entre 5% e 6% ao ano, mas da oferta, que está estancada.

São inúmeras as manifestações de que a Petrobrás não está dando conta do seu enorme programa de produção e de investimentos, de nada menos que US$ 236,5 bilhões em quatro anos.

E uma das causas desse atraso vinha sendo a decisão da administração do PT de fazer política de preços à custa do caixa da Petrobrás. Os preços ao consumidor, tanto de diesel quanto de gasolina, não vinham sendo ajustados aos preços de mercado desde 2008. As principais consequências disso foram: (1) o estímulo descabido ao consumo, que obrigou a Petrobrás a importar tanto diesel como gasolina, para revendê-los no mercado interno a preços mais baixos do que os pagos ao fornecedor externo; e (2) a redução da capacidade de investimento da Petrobrás. É uma situação que, agora sob a administração da presidente Graça Foster, começa a ser revertida.

O reajuste anunciado na quinta-feira parece inaugurar uma política mais realista de preços. Falta explicar por que não veio antes. Não é verdade, conforme está na nota oficial, que a política de preços colocada em prática até agora fosse a do alinhamento aos níveis internacionais – embora "em uma perspectiva de médio e de longo prazos". Seja qual for o critério pelo qual se analise, não se pode considerar esse achatamento de cinco anos alinhamento nem a médio nem a longo prazos.

Esse primeiro reajuste do óleo diesel ao consumidor sugere que, pelo menos logo após as eleições, o governo Dilma autorize também a correção dos preços da gasolina. O governo zerou a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico(Cide) e, assim, tirou a capacidade de redução do impacto dos novos reajustes aos preços no varejo. De todo modo, esse passo ainda está longe de restabelecer a paridade às cotações internacionais. Os preços internos se mantêm fortemente defasados – em 20% no diesel e em 16% na gasolina, conforme cálculos do Credit Suisse.

A nova política terá algum impacto sobre os preços ao varejo. Nas próximas semanas, será inevitável que a alta do óleo diesel comece a ser repassada para os fretes e daí para os preços dos alimentos, para os transportes urbanos e para a condução escolar. Provavelmente, já na próxima Ata do Copom, a ser editada dia 19, o Banco Central já não estará mais registrando que entre seus pressupostos na formação da inflação está que os preços dos combustíveis não serão reajustados.

O redesenho da política de preços da Petrobrás tem importante implicação prática. Se a regra é realinhar cotações internas e externas, será inevitável também que a Petrobrás tenha de reajustá-las para baixo, caso se confirme um mergulho dos preços do petróleo no mercado internacional, como alguns analistas vêm preconizando diante do agravamento da crise internacional.

Caso isso se confirme, os recursos para cobrir seu enorme programa de investimentos não poderão vir dos preços ao consumidor. Terão de provir do enxugamento da empresa e de uma mais eficiente administração de custos.

Confira

O gráfico mostra a evolução do consumo de óleo diesel no Brasil. Cresceu 11,2% em 2010; 6,1% em 2011; e 7,1% até o fim de maio deste ano.

China. O avanço do PIB da China no segundo trimestre não decepcionou. Foi de 7,6% em termos anuais. O ritmo de crescimento do trimestre anterior foi de 8,1%. O mercado financeiro global entendeu que a meta do ano, de 7,5%, continua de pé. É um resultado excelente, levando-se em conta a paradeira que prostra os principais compradores de produtos industrializados chineses. A inflação está nos 2,2% ao ano.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Quem é importante?:: Paul Krugman

Por que conferir benefícios aos ricos? Não devemos considerá-los mais do que os demais trabalhadores

"Onde fica a entrada VIP? Porque nós somos VIPs." A declaração, feita por um doador que estava na fila de entrada de um dos recentes eventos de arrecadação de fundos que a campanha de Mitt Romney promoveu nos Hamptons, serve como resumo à atitude da elite endinheirada dos Estados Unidos.

A base política de Mitt Romney é formada por pessoas que se acham muito importantes.

Especificamente, estamos falando de pessoas que acreditam ser, como declarou outro doador de verbas para Romney, "o motor da economia": elas deveriam ser celebradas, e os impostos que pagam, já os mais baixos em 80 anos, deveriam ser reduzidos ainda mais.

Infelizmente, disse ainda outro doador, "as pessoas comuns" -por exemplo, "as manicures"- não são capazes de entender o fato.

Está bem, é fácil zombar dessa gente, mas quem ri por último são eles. Porque a turma do "eu sou VIP" capturou completamente o moderno Partido Republicano, a ponto de líderes importantes do partido considerarem que o aparente uso de contas multimilionárias no exterior por seu candidato à Presidência é aceitável e digno de elogios.

"Evitar pagar impostos, usando métodos legais, é uma atitude muito americana", declarou o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul.

E existe uma boa chance de que os republicanos capturem tanto a Casa Branca quanto o Congresso.

Se isso acontecer, teremos uma virada radical na direção de políticas econômicas cuja proposta básica é a de que devemos ser muito solícitos para com os muito ricos.

Por isso é importante que compreendamos por que essas políticas não funcionam.

A primeira coisa que é preciso saber é que os Estados Unidos nem sempre foram assim. Quando John Kennedy foi eleito presidente, em 1960, a riqueza do 0,01% dos norte-americanos mais endinheirados era equivalente a um quarto do valor atual, na comparação com uma família média -e os muito ricos pagavam impostos muito mais elevados do que pagam hoje.

E ainda assim conseguíamos ter uma economia dinâmica e inovadora que causava inveja ao mundo. Os muito ricos podem imaginar que é sua riqueza a Terra girar, mas a história afirma o oposto.

A essa observação histórica devemos acrescentar outra nota: diversos dos muito ricos atuais, entre os quais Romney, ganharam ou ganham seu dinheiro no setor financeiro, comprando e vendendo ativos em lugar de criar empresas no sentido tradicional.

De fato, a disparada na riqueza dos mais endinheirados com relação à média nacional aconteceu no mesmo período em que Wall Street passava por crescimento explosivo.

Será que lembrei de mencionar que os banqueiros resgatados agora apoiam Romney por maioria esmagadora, já que ele promete reverter as modestas reformas financeiras introduzidas depois da crise?

É claro que muitos, provavelmente a maioria, dos ricos fazem contribuição positiva para a economia. E recebem generosas recompensas monetárias por isso. No entanto, rendas anuais de US$ 20 milhões ou mais não bastam.

Eles também querem ser reverenciados e receber tratamento especial na forma de impostos baixos. E isso é algo que não merecem. Afinal, a "pessoa comum" também contribui com a economia. Por que conferir benefícios aos ricos?

Não devemos considerá-los mais importantes que os demais trabalhadores norte-americanos.

Tradução de Paulo Migliacci

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Luciana Souza & Trio - Pra que discutir com madame

Viver não dói:: Carlos Drummond de Andrade

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana, que gerou
em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projecções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

OPINIÃO DO DIA - A ideia de hegemonia no PCB

Os comunistas devem ser um fator por excelência unitário dentro da frente única nacionalista e democrática. Por isto, não condicionam a sua permanência na frente única à total aceitação de suas opiniões.

Os participantes da frente única poderão aceitar essas opiniões somente como resultado de sua justeza, de sua força persuasiva e, acima de tudo, da sua comprovação pela experiência política concreta.

Defendendo firmemente suas opiniões, os comunistas consideram que, se forem justas, tais opiniões acabarão sendo aceitas pelas massas e pelos aliados, vindo a prevalecer através de processos democráticos, dentro da frente única.

Os comunistas não são exclusivistas e, ao mesmo tempo que encaram com espírito autocrítico a sua própria atividade, aceitam e valorizam as opiniões corretas procedentes das outras forças da frente única.

Cf. Declaração sobre a política do Partido Comunista Brasileiro (março de 1958).

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Demóstenes já é procurador de novo, 24h após cassação
BC vê recuo no PIB e Dilma minimiza
Os transgênicos alados do sertão
Petrobras aumenta diesel nas bombas
MPs de estímulo à economia correm risco de rejeição

FOLHA DE S. PAULO
Com PIB em queda, Dilma desdenha do indicador
China cresce apenas 7,6%, o menor avanço em três anos
Pelo menos 200 foram mortos por governo sírio, dizem ativistas
Wadih Mutran diz que sorte o ajudou a dobrar o patrimônio

O ESTADO DE S. PAULO
BC aponta estagnação e Dilma minimiza PIB fraco
Mantega cobra votação de medidas
Demóstenes reassume MP com direito a licença-prêmio
Denunciadas empreiteiras de obra de Maluf
Texto-base do Código Florestal é aprovado
Petrobras reajusta preço do diesel para refinarias

VALOR ECONÔMICO
Na Vale, 55 projetos esperam licença ambiental do Ibama
Corte da TJLP traz grandes economias
Investimento vai mal no 1º semestre
Sob vaias, governo anuncia pacote de ajuda à cadeia da suinocultura
Internet grátis no celular

BRASIL ECONÔMICO
Governo vai criar a InfraeroPar para investimento em aeroportos
Os 10 anos de uma carta que começou a mudar o Brasil
Aplicação em fundos supera R$ 74 bi no ano e bate recorde
Alpargatas paralisa fábricas argentinas
Grécia não cumpre acordo, acusa FMI

CORREIO BRAZILIENSE
A fatura da degradação na Amazônia
PF apura esquema na validação de diploma médico

ESTADO DE MINAS
O fim dos privilégios
Prévia do PIB recua e revela estagnação
Medo da gripe suína aumenta busca de vacina
MP de Goiás vai investigar faltas de Demóstenes

ZERO HORA (RS)
Vírus da gripe A atinge vítimas fora de grupos de risco
O perfil do candidato a prefeito
Uma cruzada contra o sinal ruim do celular

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Humberto segue na frente
Luz no fim do túnel na greve das federais

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Com PIB em queda, Dilma desdenha do indicador

A presidente Dilma Rousseff procurou ontem tirar o foco do PIB, ressaltando que ele não é o indicador mais adequado para comparar o desempenho dos países. "Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para suas crianças e para seus adolescentes. Não é o Produto Interno Bruto." A declaração veio no mesmo dia em que o BC divulgou o fraco desempenho do seu indicador de atividade econômica

Com economia em marcha lenta, Dilma diz que PIB não é tudo

Presidente afirma que país deve ser medido não pelo vaivém do indicador, mas pelo que faz por crianças e adolescentes

Fala ocorre no mesmo dia em que Banco Central aponta que atividade econômica continua estagnada

BRASÍLIA - Diante das evidências de que o crescimento econômico brasileiro neste ano não deve ficar muito acima de 2%, a presidente Dilma Rousseff procurou ontem minimizar a importância do PIB (Produto Interno Bruto), ressaltando que ele não é o indicador mais adequado para comparações internacionais.

"Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para suas crianças e para seus adolescentes. Não é o Produto Interno Bruto. É a capacidade do país, do governo e da sociedade de proteger o que é o seu presente e o seu futuro, que são suas crianças e seus adolescentes", afirmou, na 9ª Conferência dos Direitos da Criança e do Adolescente.

No mês passado, o tom era outro. Numa cerimônia com atletas que vão participar dos Jogos Olímpicos de Londres, Dilma chegou a dizer que o PIB deste ano vai merecer uma medalha: "Você vai ver se não vai merecer [medalha]. Nós estamos no esquentamento", disse.

O discurso de Dilma desdenhando o PIB veio em um momento em que economistas de dentro e de fora do governo têm revisado para baixo suas projeções de alta do indicador em 2012.

Em junho, o Banco Central reduziu de 3,5% para 2,5% sua estimativa. Nos bastidores, o próprio governo já trabalha com um crescimento de apenas 2% neste ano.

Divulgado ontem, o indicador de atividade econômica do Banco Central, considerado uma prévia do PIB, apontou uma queda de 0,02% em maio em relação a abril.

Apesar de o recuo ter sido menor que o esperado pelo mercado, ele sinaliza que a recuperação da atividade ainda não havia ganhado ritmo. Na comparação com maio de 2011, o indicador teve alta de 1,09%.

Ranking

As comparações do Brasil com outros países em assuntos que afetam diretamente crianças e adolescentes não mostram o país em posições mais vantajosas.

Segundo os dados do Banco Mundial, cerca de 21% dos brasileiros não têm acesso a saneamento básico adequado. O índice é pior que os de países como Costa Rica (5%), Equador (8%) e El Salvador (13%), por exemplo.

Um brasileiro que nasce hoje tem uma expectativa de vida de 73 anos. Um bebê cubano ou chileno viverá seis anos a mais, também de acordo com o Banco Mundial.

Indicadores na área da educação também apontam para um quadro desfavorável para o Brasil na comparação internacional.

A avaliação Pisa, divulgada em 2010, classificou o Brasil em 53º lugar em desempenho em leitura. No ranking de 65 países, o Brasil ficou atrás de Colômbia, Trinidad e Tobago e México.

No Congresso, o governo já afirmou que irá brecar o esforço para tentar dobrar os gastos públicos com educação em dez anos. Prevista em projeto do Plano Nacional de Educação já aprovado em comissão especial da Câmara, a meta de elevar os investimentos no setor para 10% do PIB será vetada por Dilma, caso seja aprovada pelo Congresso. O argumento é que a medida representaria um rombo nas contas públicas.

Desigualdade

No discurso de ontem, Dilma ainda destacou a importância da distribuição de renda: "O Brasil, durante muito tempo, conviveu com uma situação lamentável e terrível. Ser um país com tantas riquezas, formado por um povo tão solidário, mas que uma parte imensa da sua população estava afastada dos direitos e, sobretudo, dos benefícios dessas riquezas e de tudo que esse país pode produzir."

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

PIB: nova rodada de revisões:: Luiz Carlos Mendonça de Barros

Os empresários pisaram no freio de seus gastos em máquinas, equipamentos e instalações físicas

As instituições financeiras que acompanham de perto o pulsar da economia brasileira vêm revendo para baixo suas previsões para o crescimento do PIB em 2012.

Uma série de dados decepcionantes, divulgados nos últimos dias, provocou esse movimento. Até mesmo as vendas no varejo -embora ainda cresçam a uma taxa real de 6% ao ano- foram atingidas.

O consumo das famílias -que corresponde a dois terços do PIB- se junta assim à queda importante dos gastos das empresas com itens ligados ao investimento. Por isso essa nova onda de pessimismo com o crescimento econômico neste ano.

A média das previsões já está abaixo dos 2%, com os mais pessimistas apontando uma taxa de 1,5% como o número mais provável. As atenções dos analistas estão se voltando agora para 2013.

Se a fraqueza da economia permanecer por mais tempo, não será possível manter as previsões de crescimento econômico acima de 4% para o próximo ano. Mas essa ainda é a aposta majoritária entre as instituições financeiras e consultores independentes.

Esta primeira metade do ano tem sido um período de grande perplexidade na comunidade de economistas. Afinal, quais as causas de uma desaceleração tão rápida em um ambiente de queda vigorosa dos juros e crescimento real, acima de 10%, da massa de salários no Brasil? Como o saldo do comércio externo brasileiro - que está sofrendo com a crise internacional- tem pequena influência direta no nível de atividade econômica, temos que buscar no mercado interno as causas dessas mudanças de humor.

O primeiro e mais importante vilão está sendo certamente o investimento privado, que vem apresentando uma queda de mais de 8% nesta primeira metade de 2012.

Os empresários pisaram no freio de seus gastos em máquinas, equipamentos e instalações físicas. E não parecem dispostos a voltar às suas compras muito cedo.

Dois fatos chamam a atenção dos analistas nessa questão. De um lado o pessimismo internacional com o estado da economia mundial e a possibilidade de uma depressão econômica nos próximos meses. Do outro, as condições favoráveis para investir no Brasil, com os juros de mercado a níveis muito baixos e a existência de linhas de crédito abundantes e baratas nos bancos oficiais, principalmente no BNDES.

Mas, como ensinou Keynes, em momentos de pânico e de sumiço do chamado espírito animal das mentes dos empresários não existem estímulos que os faça mudar de atitude. E -infelizmente- essa crise de desconfiança em relação ao futuro chegou às empresas no Brasil.

Aliás, essa insegurança em relação ao futuro é a marca mais grave do momento em que vivemos.

Confesso a meu leitor que demorei mais do que devia para entender essa questão. Este meu erro de avaliação está certamente associado ao fato de que tenho uma posição otimista sobre as economias do mundo emergente e cínica em relação à crise na Europa.

Como já escrevi várias vezes, estou velho demais para acreditar no colapso do capitalismo, mesmo considerando os erros cometidos e que nos levaram à crise atual. Mas essa avaliação não é a opinião dominante hoje nos chamados mercados. Pelo contrário, a dinâmica dos preços dos principais ativos financeiros hoje é de que o colapso está iminente e dificilmente será evitado.

Dou um exemplo: os títulos de dez anos do Tesouro americano estão sendo negociados hoje a uma taxa de juros de 1,5% ao ano. Isso para um país que tem uma taxa de inflação histórica de 2% ao ano. Ou seja, quem está comprando esse papel está contratando uma perda de pelo menos 5% no período de seu investimento.

Por outro lado, se tomarmos uma média das previsões de lucro em 2013 para as ações do índice S&P da Bolsa de Nova York e os preços de hoje, o retorno esperado será de mais de 8% ao ano. Só a descrença em relação ao futuro, ou melhor, a certeza de que os resultados das empresas serão muito piores do que as previsões é que pode explicar essa situação esdrúxula de hoje.

Enquanto essa convicção prevalecer, os investimentos no Brasil vão continuar a deprimir nosso crescimento, não importando os estímulos que o governo colocar à disposição das empresas.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 69, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

BC vê recuo no PIB e Dilma minimiza

Com a crise global, a economia brasileira encolheu 0,02% em maio, segundo o BC. Nos últimos 12 meses, o país cresceu só 1,27%. Para a presidente Dilma, o PIB não deve ser usado para medir o sucesso de uma "grande nação", mas sim a proteção a crianças e adolescentes, com ensino de qualidade. O calote fez os juros ao consumidor voltar a subir em junho

Grande nação, mas o PIB...

Índice do BC registra recuo de 0,02% em maio. Presidente diz que número não pode medir um país

Gabriela Valente, Junia Gama

BRASÍLIA e RIO - A agrura da crise internacional fez com que a economia brasileira encolhesse 0,02% em maio, segundo o indicador do Banco Central (BC) que busca antecipar o comportamento do Produto Interno Bruto (PIB), chamado de Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), divulgado ontem. A presidente Dilma Rousseff, no entanto, buscou minimizar o dado, afirmando que o PIB não deve ser usado para medir o sucesso de uma "grande nação". O recado foi dado durante discurso voltado para o público jovem na 9ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente:

- Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para suas crianças e adolescentes, não é o Produto Interno Bruto, é a capacidade do país, do governo e da sociedade de proteger o que é o seu presente e o seu futuro, que são as suas crianças e os seus adolescentes - disse a presidente, aplaudida pelo público.

Dilma afirmou ainda que o Brasil será um país desenvolvido quando for capaz de oferecer educação de qualidade:

- Nós temos de ter um país com jovens, adultos e crianças com grande nível de escolaridade, porque vamos disputar, sim, o que é a economia moderna, que é a economia do conhecimento, aquela que agrega valor, a internet, as tecnologias de informação. Este país vai ser um país desenvolvido quando todas as crianças deste país e seus jovens tiverem acesso à educação de qualidade.

Embora o IBC-Br tenha registrado uma ligeira queda, que representa a estagnação econômica no Brasil, o resultado foi bem recebido pelos analistas. Isso porque a expectativa era de um recuo mais forte. Desde o início do ano, o indicador do BC registrou avanço apenas em abril. Mesmo com o dado melhor do que o esperado em maio, os economistas ainda não revisaram para cima suas previsões de crescimento para este ano. Eles cobram do governo mais medidas para incentivar os empresários. Uma delas é abrir os cofres públicos para investir e fazer girar a economia, uma vez que, em uma avaliação geral, há mais espaço para novos cortes dos juros.

"Pequena queda foi um alívio"

O pessimismo que se instalou desde o início do ano sobre as expectativas para 2012 aumentou anteontem, quando o IBGE divulgou que as vendas do comércio caíram 0,8% em abril. De acordo com o economista-chefe do banco ABC, Luiz Otávio Leal, a expectativa era de queda de 0,6% do IBC-Br em maio.

- Pode parecer paradoxal, mas essa pequena queda da economia foi um alívio - afirmou Leal.

Apesar do desempenho da economia um pouco melhor que o esperado, Leal manteve sua previsão de crescimento de 0,5% no segundo trimestre e de 2% no ano. Os dados do BC, no entanto, ainda estão distantes desses números: o crescimento foi de 1,27% no período de 12 meses findo em maio. O número mostra uma desaceleração, já que o crescimento acumulado até abril foi de 1,55%.

Resultados melhores da economia, entretanto, são esperados daqui para frente, principalmente por causa da indústria, impulsionada pelo setor automotivo. Os índices de junho devem ser mais fortes, na visão dos analistas, mas não significarão uma grande aceleração da economia, já que essa maior movimentação das vendas de automóveis é uma desova de estoques que estavam encalhados, não um aumento da produção.
- Esse foi um dos reflexos das medidas tomadas pelo governo, mas, no geral, o efeito delas tem sido muito pequeno até agora - disse o economista-chefe da corretora PlanerProsper, Eduardo Velho, que aumenta o coro dos economistas que defendem um choque de investimentos públicos para reanimar a economia. - É o momento de o governo investir pesado em várias frentes. Não é sustentável apostar apenas em um setor para reativar a economia.

Ele acredita que o crescimento abaixo do potencial referenda os cortes de juros promovidos pelo BC e ainda amplia o poder de ação da autarquia, que poderá levar a taxa básica de juros (Selic) até 7% ao ano nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). Hoje, a Selic está em 8% ao ano.

Ao comentar a frase da presidente Dilma, de que não se pode medir uma nação pelo PIB, o professor de Economia da UnB Roberto Piscitelli afirmou que, de fato, o indicador não é tudo, mas é o principal parâmetro da economia. Para o economista, a maior frustração com o índice divulgado ontem pelo Banco Central está no fato de que a recuperação esperada para o terceiro trimestre não está ocorrendo.

- O último a reconhecer isso, pelo menos oficialmente, é o governo.

Piscitelli destaca os recentes dados de atividade industrial e vendas no varejo, com resultados negativos ou abaixo do esperado.

- São resultados que mostram a falta de perspectiva de planejamento. Há muito tempo defendo que o incentivo ao consumo é incapaz de alavancar o crescimento. É uma política quase de toma-lá-da-cá, só que, no lugar dos políticos, estão alguns poucos setores que acabam se beneficiando. Chegou a hora de priorizar investimentos. Não acho que o governo deva reduzir despesas, mas estimular o aumento do investimento em projetos relevantes.

Colaborou Débora Diniz

FONTE: O GLOBO

Congresso precisa votar MPs, cobra Mantega

Ministro pressiona legislativo a aprovar medidas que estabelecem incentivos para a indústria e diz que é \"inconcebível\" retardar a votação em momento de crise

Renata Veríssimo, Adriana Fernandes, Eduardo Bresciani,

BRASÍLIA - Temendo perder as Medidas Provisórias que estabelecem incentivos para a indústria, o governo partiu para uma forte pressão sobre o Congresso. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu o tom da preocupação em entrevista à "Agência Estado": "É inconcebível que no momento de crise se retarde a aprovação de medidas tão importantes".

A oposição obstrui as votações das MPs do Plano Brasil Maior - a política industrial e de comércio exterior do governo - e da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o que pode deixar o Congresso sem recesso e fazer com que o plano de incentivo à indústria perca seu suporte legal se não for aprovado na Câmara e no Senado até 1º de agosto.

Os oposicionistas acusam o governo de usar critérios políticos e eleitorais para a liberação de emendas parlamentares. "Inconcebível é o ministro da Fazenda e o governo usarem o Orçamento como ferramenta de campanha eleitoral", rebateu o líder interino do DEM, Ronaldo Caiado (GO).

Ontem, a presidente Dilma Rousseff chamou a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, para discutir qual será a estratégia para evitar que as MPs caduquem.

A pressão do Executivo chegou ao presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), que convocou os parlamentares para sessões segunda e terça-feira. Ele ameaçou cortar o ponto dos faltantes. Se a LDO for aprovada neste prazo, o Congresso entrará em recesso e as MPs teriam validade até 15 de agosto. Para o governo, porém, o importante é salvar o Plano Brasil Maior, com ou sem recesso.

Mobilização. Mantega chegou a conclamar uma "mobilização da sociedade" e fez apelos à oposição. "Talvez eles (oposicionistas) não tenham se dado conta da importância dessas matérias. São as mais importantes para o combate à crise que nós adotamos. É importante que eles se deem conta disso."

As MPs que aguardam a aprovação do Congresso promovem a desoneração da folha de pagamento para alguns setores, instituem o novo regime automotivo, desoneram investimentos, retiram limites para a renegociação de dívida bancária e reduzem juros em linhas de financiamento do BNDES.

A oposição não parece disposta a ceder e tem contado com apoio. PR, PDT, PSC e PRB ajudaram na obstrução nesta semana. Os oposicionistas dizem que a base aliada tem 400 deputados e teria condição de vencê-los se estivesse mobilizada.

A principal reclamação é o não cumprimento de um acordo para a liberação de emendas firmado na semana passada com aval da ministra Ideli Salvatti. Os oposicionistas receberiam R$ 1,5 milhão cada, um terço do que será destinado aos governistas. Além disso, todos receberiam mais R$ 1 milhão em emendas na área da Saúde. Segundo levantamento feito por técnicos do DEM, no entanto, 13 dos 31 parlamentares não conseguiram ainda nenhum recurso. Enquanto na oposição o nível de liberação está na casa de 4% das emendas, na base governista todos os partidos têm mais de 10% e alguns estão próximos de 30%.

Os governistas dizem que os problemas são burocráticos. Argumentam que na área da saúde, por exemplo, faltam projetos para justificar os empenhos. "Mais de 80% não tem nem projetos e você precisa ainda de parecer técnico depois do projeto", diz Paulo Pimenta (PT-RS), presidente da Comissão de Orçamento. "Para a base as emendas estão saindo mais rápido. Não pode ter problema burocrático só para a oposição", rebate Felipe Maia (DEM-RN).

Colaborou Tânia Monteiro

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Medidas Provisórias: Para Freire, Congresso está criando verdadeira "desordem jurídica"

Freire critica "salada" de assuntos nas medidas provisórias

William Passos

Presidente do PPS critica texto do governo recheado de penduricalhos

O presidente nacional do PPS, deputado federal Roberto Freire (SP), disse nesta quinta-feira que o Congresso Nacional desrespeita Lei Complementar aprovada pelos próprios parlamentares que estabelece critérios para a elaboração de projetos, quando aceita votar medidas provisórias como a 563/12, que está na pauta de votações da Câmara.

O texto enviado pelo Executivo trata de vários temas, os mais diversos possíveis num mesmo texto. A MP em questão prevê isenção fiscal para compra de equipamentos portuários, passa pela criação de programas na área de saúde e envolve ainda temas previdenciários e benesses para a indústria automobilística.

Freire alerta que a “salada” de assuntos num mesma proposta vai contra o que determina a Lei Complementar 95, criada em 1998. O artigo 7º diz explicitamente que, com exceção dos Códigos, “cada lei tratará de um único objeto e que ela não conterá matéria estranha a seu objeto ou a este não vinculada por afinidade, pertinência ou conexão”.

“O desrespeito, por reiteradas vezes, principalmente com a edição de medidas provisórias, transformadas em lei de conversão, constitui verdadeiro absurdo. Criou-se no país a desordem jurídica”, criticou.

Freire disse que a MP 563, que provocou reação da oposição e até de integrantes da própria base aliada, é uma daquelas que contribuem para desorganizar o conjuto de normas jurídicas.

“É uma via crucis para cidadãos comuns ou até especialistas procurar algo na legislação brasileira. Lamento, inclusive que a OAB não proteste contra tudo isto”, acrescentou Freire.

O presidente do PPS lembrou que está há mais de 40 anos no Parlamento e que nunca viu “uma desmoralização tão grande como esta”.

“Esta votação depõe contra aqueles que fazem o Congresso neste momento. Um governo que trata o parlamento desta forma, infelizmente, não merece respeito”, encerrou.

FONTE: PORTAL DO PPS

Voo curto:: Celso Ming

A presidente Dilma garante que o governo vai virar o jogo do sistema produtivo, hoje perdedor. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, aposta em que, até o fim do ano, o PIB do Brasil voltará à velocidade de 4% a 5% ao ano apenas em consequência do impulso proporcionado pelos sucessivos pacotes de incentivo, turbinados pela redução dos juros e pela desvalorização cambial, ambas da ordem de 20%.

Será? Como os motores da indústria e do resto da economia continuam a girar em falso, conforme ficou reforçado pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de maio, divulgado nesta quinta-feira (veja o Confira); como já há sinais de superendividamento em segmentos importantes do consumo; e como a economia global seguirá por muito tempo afundada na crise; não há elementos suficientes para acompanhar a aposta do governo.

Mas não sejamos ranzinzas. Vamos acreditar em que a presidente Dilma e o ministro Mantega têm muito mais elementos para prever melhor e para apostar na melhor opção. Isso posto, aceitemos que a projeção deles está correta e que, antes do final do ano, os indicadores apontarão para cima. Aí caberia a pergunta seguinte: esse crescimento mais vigoroso será sustentável ou tudo não passará de mais um medíocre voo de galinha?

Infelizmente, ainda não há razões para sustentar a hipótese de retomada forte. Por enquanto, o risco maior é o que foi denunciado na terça-feira pelo presidente do Goldman Sachs Asset Management, Jim O"Neill, de que os Brics possam perder o B do acróstico.

É o próprio ministro Mantega que vem sustentando que a paralisia do sistema produtivo do Brasil se deve ao agravamento da crise externa – que tem tudo para perdurar por mais alguns anos. Ela estaria amarrando os investimentos do setor privado. Ora, se o panorama econômico atual persistirá – como adverte o governo –, sua ação sobre o sistema produtivo brasileiro também.

Aos poucos vai sendo formado o consenso de que o bloqueio não está propriamente no desempenho da economia global, mas nos cada vez mais insuportáveis custos estruturais: imposto demais, energia cara demais, burocracia, infraestrutura deficiente, etc.

Isso já era assim antes e, no entanto, não foi até recentemente obstáculo suficiente para estancar o setor produtivo. Verdade. Só que é aí que entra a crise global, que baixou os preços do produto concorrente. Afora isso, em todo o mundo os governos seguem distribuindo incentivos. Os cofres estão sendo franqueados para distribuir às empresas subsídios, crédito farto e barato. E o desemprego concorre para reduzir o custo da mão de obra. Ou seja, ainda que venha respondendo com políticas protecionistas, o governo Dilma não consegue fazer o suficiente para incrementar a capacidade de competição da indústria brasileira. O setor têxtil, por exemplo, bem que vem conseguindo arrancar do governo medidas que contenham em alguma coisa a entrada do produto importado. Mas não consegue exportar nem para os sócios do Mercosul, até porque o governo vem tolerando as travas comerciais da Argentina.

Um depois do outro, analistas pedem do governo reformas estruturais. Mas a resposta obtida é essa política de puxadinhos feita de improvisações e distribuições de cala-bocas. Sem estratégia, não há voo de longo alcance.

Confira


O Índice da Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), cuja função é antecipar o comportamento do PIB, voltou a mostrar estagnação em maio. No ano (até maio) avançou apenas 0,4% e, no período de 12 meses (terminado em maio), 1,27%.

O termômetro da China. Saem nesta sexta-feira os números do desempenho do PIB da China no segundo trimestre. As estimativas são de que cresceu 7,6% em termos anuais. E nesta quinta a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, projetou crescimento de 8,0% para todo o ano.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

De olho no dinheiro:: Míriam Leitão

Os brasileiros estão entrando em terreno novo na sua relação com o dinheiro. No ano passado, foram feitas no Brasil 56 bilhões de transações financeiras. Esse mercado gigantesco tende a ficar diferente no mundo dos juros mais baixos. A grande pergunta que os investidores se farão agora é se vale a pena manter o dinheiro aplicado com a remuneração baixa. E a resposta certa é: cada um deve aumentar o esforço de poupança.

Com os juros nominais mais baixos da história recente do país, muitos investidores tenderão a considerar que não vale a pena deixar o dinheiro aplicado, mas o mais correto será fazer o oposto e aumentar o investimento. Como a remuneração será menor, para ter o mesmo ganho no futuro, o esforço presente terá que ser maior.

O economista Eduardo Giannetti da Fonseca, autor do livro "O valor do amanhã", entre outros, explica que essas duas reações são racionais: sacar e gastar; ou fazer um esforço para poupar mais. Mas as consequências são também radicalmente opostas.

- É preciso saber como reage o poupador, quando os juros caem. Ele pode poupar menos. Por outro lado, se almeja uma determinada renda no futuro, terá que poupar mais agora para ter o mesmo resultado - diz o economista.

O Brasil teve durante toda a escalada inflacionária períodos de juros reais negativos, mas agora o que estão baixos são os juros nominais.

- A ilusão monetária era enorme no Brasil. Os juros perdiam da inflação, mas eles eram muito altos. Outro erro que se comete ainda hoje é deixar o dinheiro aplicado com uma remuneração baixa e ficar devendo em modalidades caras de crédito. Se for feita uma pesquisa, serão encontrados muitos casos assim, de correntista que deixa tudo - o dinheiro aplicado e a dívida - no mesmo banco. Se a pessoa for para a janela e rasgar dinheiro dá no mesmo - imagina Giannetti da Fonseca.

Será preciso saber se esse "terreno novo", na expressão do economista, está aí para ficar. Ou seja, se os juros permanecerão baixos. Ele teme que as taxas tenham que subir mais adiante por elevação da inflação, quando a economia retomar o crescimento.

Mas as quedas de agora podem ter consolidado um novo patamar mais baixo de taxa de juros. O poupador terá, então, que aprender a ficar sensível a pequenas diferenças de remuneração, da mesma forma que aprendeu a sentir as pequenas alterações na inflação.

Esse novo momento de juros menores demorou a chegar. Há 18 anos, o Brasil conseguiu vencer a superinflação e só agora os patamares de juros estão se aproximando de padrões internacionais. Por outro lado, o custo de determinadas modalidades de crédito, como cheque especial e crédito rotativo do cartão, é fora de propósito. Não há justificativa econômico-financeira para os valores cobrados. E os bancos admitem disso.

Os correntistas terão que aprender a administrar suas dívidas para manter a capacidade de pagamento, escolher modalidades mais baratas, rejeitar o superendividamento. No lado dos ativos, terão que trabalhar muito para conseguir pequenas diferenças na remuneração do capital e, assim, ter no futuro a renda que programou ter. O investidor terá que ser mais atuante; e o devedor, mais cauteloso. Tudo isso é trabalhoso e exige tempo, cálculos, conversas com gerente ou troca de banco.

Eduardo Giannetti da Fonseca acha que é preciso haver também mais transparência no custo de certos financiamentos. Pondera que não faz sentido que um bem, comprado à vista e a prazo, tenha o mesmo preço. Não é financeiramente possível no país de um dinheiro tão caro. Muito provavelmente o custo está embutido no preço, de tal forma que o consumidor leva para casa uma geladeira e paga o valor equivalente ao preço da geladeira e do forno micro-ondas também.

Nesse novo terreno dos juros baixos para os investimentos, mas taxas ainda altas nos financiamentos concedidos pelos bancos, o país precisa fazer um grande esforço de educação financeira. O Banco Central tem informações no seu site e gente pensando sobre isso. Bancos estão editando cartilhas até para crianças sobre como poupar ou usar o dinheiro. A Febraban tem um site "Meu bolso em dia", com milhões de acessos. Tem feito caravanas de serviços financeiros com show musical para atrair pessoas em áreas de periferia das grandes cidades.

Tudo isso somado tem sido insuficiente. A inadimplência aumentou muito, há famílias que estão empilhando parcelamentos de crédito. No lado dos ativos, é preciso aprender o valor das baixas remunerações, ao mesmo tempo em que se combatem taxas de administrações exageradas dos bancos.

A queda dos juros abre toda uma nova agenda de trabalho e aprendizado para os agentes financeiros e seus clientes no país que, durante tantas décadas, teve juros cronicamente altos.

Como na época da luta contra a hiperinflação, as ações individuais vão determinar o sucesso dessa nova etapa da relação do país com sua moeda conquistada há 18 anos, depois de tantos planos fracassados, sustos e até um calote. Agora, é a hora de aprender a poupar mais, porque a rentabilidade do dinheiro caiu fortemente nos últimos meses. E se tudo der certo, os juros continuarão baixos.

FONTE: O GLOBO

Soberania e crise financeira:: Tony Volpon

A natureza extrema da crise europeia advém do fato que ela mistura dois tipos de crise ao mesmo tempo: superendividamento com um suporte político inadequado para sustentar uma união monetária. A solução para a primeira crise é bem conhecida. A solução para a segunda crise é muito mais difícil e provavelmente terá um desfecho que não vai preservar a zona do euro na sua forma presente.

Hoje está claro que a raiz da crise foi um ciclo de superendividamento que muitas vezes acompanha momentos de inovação financeira. A constituição da moeda única possibilitou uma queda expressiva da percepção de risco na periferia europeia, gerando um forte fluxo de capital do rico norte do continente ao pobre sul periférico.

Toda a crise de superendividamento, algo que o Brasil já conheceu muito bem, se resolve por três mecanismos que transferem "renda" de devedores a credores na medida do possível, a saber: pagar, reestruturar ou inflacionar. Respostas distintas da política econômica ou da engenharia financeira trabalham sempre ao longo dessas três dimensões. Infelizmente, para os países da periferia, o único expediente que une estímulo com austeridade, uma forte desvalorização cambial, não está disponível. Uma desvalorização estimularia o setor exportador e também ofereceria uma maneira "politicamente correta" de diminuir o nível dos salários reais, trazendo austeridade.

Nenhum artifício ou engenharia financeira pode substituir a necessária perda de soberania nacional

Grande parte da dinâmica recessiva vista hoje na periferia europeia tem muito mais a ver com a incapacidade de se promover uma desvalorização dentro da zona do euro e muito menos com uma austeridade fiscal que foi ainda pouca implementada na prática.

Enquanto uma combinação de austeridade e estímulo cambial deve ser o suficiente para resolver a maioria dos casos de superendividamento (pensem na crise asiática de 1997), há níveis extremos que requerem reestruturação. Há, para cada sociedade, um limite político e social para a extração de recursos de devedores para credores, e são esses fatores mais do que qualquer "conta" de sustentabilidade que definem o que pode ser pago.

A experiência diferenciada entre a Latvia e a Grécia na crise atual demonstra como esses fatores influenciam a capacidade de pagamento de uma sociedade. Baixos níveis de coesão social e política combinado com endividamento para credores externos diminui a capacidade de haver pagamento sem alguma reestruturação.

Poderíamos então imaginar uma solução para a crise de superendividamento utilizando os elementos acima, essencialmente uma combinação de austeridade nos países devedores e estímulo nos países credores para facilitar a transferência de renda entre eles, com uma política monetária amplamente expansionista gerando uma combinação benéfica de desvalorização cambial para a zona como um todo e um diferencial de inflação entre o sul e o norte, gerando um ganho relativo de competitividade na periferia e assim incentivando suas exportações. A "receita" econômica e financeira, até levando em conta as restrições impostas pelas instituições europeias, não é difícil de desenhar teoricamente.

O problema é que nada disso resolve o pecado original da crise: a falta de suporte institucional e político adequado para uma moeda única. Aqui o debate se divide. De um lado aqueles na periferia advogando algum tipo de mutualização do endividamento entre países e do outro, aqueles advogando "mais Europa", ou controle centralizado de políticas fiscais e tributarias para garantir o pagamento pronto das dívidas.

Apesar de ser bastante criticada por muitos analistas, na verdade é a posição dos credores, liderados pela Alemanha, que atinge o cerne essencialmente político da crise: não há como sustentar politicamente as transferências fiscais necessárias dentro de uma moeda comum sem uma efetiva união política. Mas aqui está exatamente o problema: a Alemanha estaria disposta a bancar financeiramente uma união federativa até se essa união fosse montada dentro dos preceitos que ela defende? E os outros países estariam dispostos a enfrentar a perda de soberania que tal união implica?

Olhando para as divergências dentro da zona do euro temos que responder negativamente a ambas perguntas. A "experiência" europeia tem nos ensinado que uma moeda única não é somente um arranjo financeiro mas uma expressão de coesão política e social. Apesar da experiência com a moeda única ter se iniciado com as melhores intenções, a de trazer junto um continente que tinha visto poucos anos antes a mais devastadora guerra da história, ela falhou. Nenhum artifício ou engenharia financeira pode substituir a necessária perda de soberania nacional sem qual não há como sustentar uma moeda única. Dado a complexa interação entre elementos de mercado e da política, não é possível prever como chegaremos ao fim, mas aqui vale a regra de que ao longo do tempo aquilo que não é sustentável não se sustenta.

Tony Volpon é diretor do Nomura Securities International, Inc.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

"Não estou preocupada em eleger prefeitos e vereadores", diz Marina

Raphael di Cunto

SÃO PAULO - A ex-ministra de Meio Ambiente e ex-senadora Marina Silva (sem partido), candidata que obteve 20 milhões de votos na eleição para a Presidência em 2010 pelo PV, confirmou que ficará fora das campanhas majoritárias nas maiores cidades do país. "Não estou preocupada em terminar essas eleições e fazer a conta de quantos prefeitos e vereadores elegi", afirmou ontem em São Paulo.

Marina disse que fará campanha para poucos porque acha que contribuirá mais para a política assim. "Nesse momento em que muita gente vai ficar em cima do palanque, é preciso que alguém fique embaixo do palanque, do lado do eleitor", afirmou.

Para a candidata do PV, os votos conquistados em 2010 não são um "capital político" que possa ser transferido. "É um legado, que não pode ser apropriado por uma só pessoa. Os votos não eram meus, eram dos eleitores", disse a ex-senadora.

A ex-ministra reiterou que não pensa, pelo menos por enquanto, em formar um partido político e que está focada em fortalecer a plataforma Cidades Sustentáveis, da Rede Nossa São Paulo, com projetos e compromissos para os candidatos a prefeito.

Marina disse, porém, que não basta se comprometer com a agenda ambiental na época da eleição e depois não cumpri-la. "Mais do que uma adesão à plataforma, [apoiarei os candidatos que] têm um testemunho de vida, que fazem da vida a sua plataforma", afirmou.

Marina citou como possíveis candidatos que apoiará o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB), o ex-deputado Marcio Santilli (PPS), defensor dos direitos dos povos indígenas que concorre em Assis (SP), e o médico veterinário Dr Rogério Carvalho (PSOL), em Cajamar (SP).

Segundo Marina, há ainda discussões com dois candidatos à Prefeitura do Rio de Janeiro: o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) ou a deputada estadual Aspásia Camargo (PV). "Tenho muito respeito pela deputada Aspásia, mas ela faz campanha com a chancela do grupo que de certa forma expurgou o legado que fomos capazes de produzir nas eleições de 2010, então há dificuldades", disse.

Em São Paulo, Marina negou apoio a todos os candidatos que tentam atrair seus eleitores. "Meu candidato em São Paulo é o Ricardo Young", afirmou a ex-ministra, que participou na noite de ontem do lançamento da candidatura de Young à Câmara Municipal de São Paulo pelo PPS. Young concorreu ao Senado em 2010 pelo PV.

A candidata do PPS à Prefeitura de São Paulo, Soninha Francine, foi ao evento em busca de apoio, que Marina não parecia propensa a dar. "Não vou deixar de ter o apoio por falta de ter pedido", disse Soninha.

Entretanto nem Young, que tem posição de destaque na chapa de vereadores do partido, dá destaque a Soninha em seu material - a única referência é um pequeno selo, na última página do caderno que distribuiu no evento com suas propostas.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Lacerda começa a pedir voto amanhã

Alice Maciel

Com uma agenda morna na primeira semana de campanha, o candidato à reeleição, prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda (PSB), se inicia amanhã a pedir votos nas ruas, mas ainda sem material gráfico pronto. O rosto do político só deverá começa a aparecer pregado em muros da cidade no fim da semana que vem. Isso porque os socialistas tiveram de refazer a arte dos santinhos e cartazes, devido ao rompimento da aliança com os petistas. "As cores seriam azul e vermelha (do PSDB e PT respectivamente). Estão tendo que mudar tudo. Já tinham montado muitas peças com fotos da eleição passada, de Lacerda com Fernando Pimentel", contou uma fonte ligada às articulações da campanha.

Mesmo sem material para distribuir, o prefeito vai colocar o bloco na rua. A primeira caminhada será mais discreta. O local ainda não está definido. Uma das possibilidades que estão sendo consideradas pela coordenação é o Mercado Central. Um ato de campanha maior, com a participação da militância e das lideranças das legendas que compõem a aliança, está previsto para acontecer no fim da semana que vem.

O senador Aécio Neves (PSDB), principal cabo eleitoral de Lacerda, também deverá aparecer nesse dia. Em reunião na quinta-feira passada, depois do registro da candidatura, o tucano disse aos socialistas que seu objetivo inicial era rodar o Brasil durante o período das eleições municipais, mas que ele mudou de ideia e decidiu que vai ficar mais tempo em Belo Horizonte dando força à eleição de Lacerda.

O candidato do PSB começou a campanha pedindo às lideranças dos 19 partidos que formam sua aliança ajuda para organizar a campanha. Ele se reuniu com presidentes das legendas e com vereadores nesta semana. Na agenda do prefeito para segunda-feira está previsto um encontro com os deputados. Ele vai apresentar a equipe da campanha, pedir sugestões para o programa de governo e apoio na corrida ao governo municipal. O socialista não teve agenda de campanha ontem e não há previsão para hoje, quando ele deverá passar o dia na prefeitura.

REGIONAIS Lacerda passou o dia articulando os nomes que vão assumir o lugar dos petistas no Executivo. Dois já foram definidos: Sarid Carvalho, ligado ao PR, assumirá a Regional Venda Nova, e Luiz Otávio Caetano Fonseca, a Leste.

Conforme informações de bastidores, a regional em que o prefeito está com mais dificuldade de mexer é a Oeste, comandada pela ex-petista Neusa Fonseca.

Uma pessoa ligada a Lacerda contou que ele já convidou o vereador Ronaldo Gontijo (PPS) a assumir a liderança na Câmara Municipal. O vereador Tarcísio Caixeta (PT) renunciou à vaga na quarta-feira. Lacerda só deverá anunciar formalmente o novo nome em agosto, quando os vereadores voltam do recesso parlamentar. Outra possibilidade ventilada é de o prefeito nomear um dos atuais vice-líderes, Daniel Nepomuceno ou Bruno Miranda, para assumir o cargo deixado por Caixeta.

FONTE: ESTADO DE MINAS