terça-feira, 22 de setembro de 2026

Chama o VAR, por Merval Pereira

O Globo

O aumento do Bolsa Família, anunciado antes da coleta dos dados pela Quaest, ainda não apresenta resultados

A eleição brasileira parece que será decidida pelo VAR, ou no fotochart, como se dizia antigamente. Empate técnico no primeiro turno com a menor distância, pela primeira vez na série, e vitória numérica de Flávio Bolsonaro no segundo mostram a tendência a favor do bolsonarista na pesquisa Quaest divulgada ontem, mas sem a confirmação, cultivada na campanha da oposição, de que ficasse clara sua supremacia na disputa presidencial. A eleição continua acirrada. O aumento do Bolsa Família, que parecia uma tacada eleitoral decisiva para Lula, anunciado antes da coleta dos dados pela Quaest, ainda não apresenta resultados.

Na simulação de segundo turno apenas entre os beneficiários do programa, Lula foi de 58% para 56%, e Flávio de 27% para 30%, mas esse efeito positivo para o presidente ainda deverá aparecer nas pesquisas subsequentes. Há ainda muitos indecisos, embora o índice tenha caído para 35%, o menor desde o início da campanha.

Piorou a avaliação do governo Lula: 43% avaliam o governo negativamente, 4 pontos percentuais a mais que na pesquisa da semana passada, pior ainda se constatarmos o resultado na Região Nordeste, a mais forte de Lula. A variação negativa foi de 23% para 28%; no Sul, de 45% para 50%. No cenário estimulado de primeiro turno, Lula confirma sua predominância no Nordeste e oscila positivamente no Sul e no Centro-Oeste. No cenário de segundo turno contra Flávio, apresenta melhora no Sudeste (de 31% na semana passada para 36%) e oscila negativamente no Nordeste. Também segue o empate de quem considera pior a permanência de Lula ou a volta dos Bolsonaros ao poder. Mas, sintomaticamente, aumentou no segmento dos que recebem o Bolsa Família o temor de uma vitória de Flávio, sugerindo desconfiança por parte desses eleitores.

Os eleitores “pragmáticos”, como a Quaest define os indecisos, declaram voto em Flávio ou noutros candidatos da direita, levando a crer que a melhoria do bolsonarista no segundo turno deve-se à migração quase automática. O cientista político Felipe Nunes diz que essa transferência não é tão automática assim, mas acredita que cerca de 70% desses votos vão para Flávio. O crescimento da candidatura bolsonarista no eleitorado evangélico foi de 41% para 45%, melhor resultado nesse segmento desde o início das pesquisas.

A aprovação de Lula sobe três pontos nos estratos de menor renda (até dois salários mínimos) e na classe média (de dois a cinco salários mínimos), mas, entre os de maior renda, acima de cinco salários mínimos, Flávio abriu nada menos que 30 pontos de vantagem. Este, porém, é o menor segmento eleitoral. Os candidatos na liderança são os mesmos desde sempre nesta corrida presidencial, sem que tenha havido nenhum outro com competitividade para fazer frente a eles.

Um fato interessante na pesquisa é que vários candidatos empatam com Lula num segundo turno, não apenas Flávio. Isso mostra que o antipetismo está ativo. É quase certo de que haja, por parte dos eleitores de direita, tentativa de voto útil para resolver a eleição no primeiro turno em favor de Flávio. Há movimentos nos partidos do Centrão, que se mantêm neutros, para aderir à candidatura bolsonarista já no primeiro turno. Também a esquerda tentará esse movimento, com menor chance, porque não tem um arco de alianças amplo como teve em 2022. Se vingarem, o que é difícil, teremos notícias nos próximos dias. Mas já parece claro que esse movimento acontecerá no segundo turno, especialmente se Flávio vencer ou perder de pouco no primeiro.

 

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