terça-feira, 24 de julho de 2012

Voo de galinha :: Eliane Cantanhêde

Há três dados do Datafolha sobre a eleição em São Paulo que merecem um olhar bem atento, inclusive porque pesquisas, a esta altura do campeonato, têm menos conclusões e mais projeções.

Primeiro dado: sem a apresentação de nomes, 61% dos entrevistados ainda não têm candidato.

Segundo: Celso Russomanno (PRB), tecnicamente empatado com o favorito José Serra (PSDB), é o mais citado entre os simpatizantes do PT.

Terceiro: Fernando Haddad (PT) está pior entre os mais pobres e os menos escolarizados -que ainda não sabem quem são os candidatos e os seus padrinhos.

Como diz Mauro Paulino, do Datafolha, à medida que souberem quem é quem na campanha, os simpatizantes petistas tenderão a migrar de Russomanno para Haddad, candidato de Lula e Dilma. É provável que os pobres e menos escolarizados preferissem Marta Suplicy, mas, se ela não ajuda, não pode atrapalhar o petista.

O momento-chave para a definição da eleição é o horário gratuito na TV e no rádio, mas não só. Contam também debates, entrevistas, reportagens e estruturas de campanha. Serra tem Alckmin, Haddad tem Lula, e ambos dispõem de partidos consolidados, marqueteiros muito experientes e um leque maior de alianças, além de cerca de sete minutos cada um na TV.

Há, porém, uma incógnita: o desempenho do candidato. Russomanno tem condições objetivas bem mais desfavoráveis e terá só dois minutos, mas a TV é seu ponto forte.

Serra tem de reduzir seu alto índice de rejeição, Haddad precisa ser conhecido e colado à imagem de Lula e Russomanno tem o desafio de traduzir para a política o seu sucesso no programa "Aqui, Agora". Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Senão, seu segundo lugar será um "voo de galinha" -acaba rápido.

A boa aposta, até pelo precedente das três últimas eleições, ainda é um segundo turno entre PSDB e PT.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Notícias da CPI:: Dora Kramer

No balanço que fez dos primeiros três meses de trabalho da CPI que apura a rede de ilegalidades envolvendo um operador de jogatina, políticos, governantes e obras públicas, o presidente da comissão, senador Vital do Rêgo, ficou no feijão com arroz.

Negou a inegável influência do embate partidário, apresentou informações irrelevantes - como a quantidade de sessões realizadas, de pessoas ouvidas e testemunhas caladas -, mas deixou de falar sobre o papel que a comissão teve na divulgação de fatos que, sem a repercussão própria do foro político, hoje seriam de conhecimento exclusivo da política e da Justiça e provavelmente não teriam gerado consequência alguma.

Não havendo CPI seriam grandes as chances de Demóstenes Torres ser ainda senador, de Carlos Cachoeira ter saído da cadeia por meio de habeas corpus e de a construtora Delta ter sido vendida a um frigorífico com participação do BNDES.

Foi só quando se começou a falar em quebra dos sigilos da Delta que a J&F, controladora do frigorífico JBS, desistiu de comprar a empreiteira e o banco oficial recuou do negócio.

A necessidade de Cachoeira continuar preso também se impôs diante das evidências sobre a capacidade dele de obstruir as investigações.

Quem ainda estaria prestando atenção ao caso se a única matéria-prima fossem os inquéritos da Polícia Federal? Quantos senadores não poderiam ter se valido do voto secreto no plenário para absolver Demóstenes se não estivesse aberta uma tribuna permanente de reverberação política?

Por essas e várias outras, entre as quais uma venda de imóvel cuja conta não fecha envolvendo um governador de Estado, não é certo reduzir a CPI a palco de testemunhas silentes e picuinhas entre PT e PSDB embora estejam presentes na composição do cenário.

Descontadas as manobras de percurso, houve consequências importantes. Desvendaram-se algumas das razões pelas quais uma empreiteira sai do zero e em dez anos torna-se a 6.ª no ranking nacional, revelou-se como partidos se movimentam no jogo de proteções e condenações, além de se contar a maneira pela qual um ex-presidente da República tenta manipular um instrumento de fiscalização do Congresso para ações de vingança.

A primeira fase não foi, portanto, improdutiva. Agora em agosto inicia-se a segunda etapa, os três meses finais em que as coisas podem se complicar, justamente porque a CPI tende a ficar em segundo plano na vista do público – o corretor de rumos mais eficiente –, dividindo as atenções com o julgamento do mensalão e as campanhas eleitorais.

O cruzamento de dados prossegue no recesso e a troca de informações entre o Congresso, a polícia e a Justiça também.

Há fios que começam a ser puxados, mas a dúvida é se as injunções partidárias permitirão que sejam desenroladas as meadas até o fim. Dois deles ainda em fase de investigação: a associação de parlamentares com Carlos Cachoeira em negócios no exterior e os detalhes de uma casa num condomínio de luxo em Angra dos Reis (RJ).

Se confirmadas as suspeitas em torno das quais se movimenta a polícia, ao menos um candidato a prefeito de capital e um governador tomarão conta da cena, levando a CPI a caminhos ainda não navegados.

Caso não sejam consistentes, o roteiro combinado antes do recesso prossegue com a previsão da divulgação de um relatório parcial poucos dias antes da eleição de outubro, cujo conteúdo desenhará à sociedade um esboço da matriz criminosa de um sistema que, aplicado à Região Centro-Oeste, dá pistas sobre métodos adotados em todo o país.

A ideia de pôr o relatório parcial em votação pouco antes da eleição é obrigar os parlamentares a comparecerem. Pela mesma razão que a CPI na condição de foro político deu repercussão a fatos que provavelmente cairiam no vazio se mantidos na posse exclusiva da polícia e da Justiça: o saudável receio da opinião do público.

Assim ocorreu com o impeachment de Fernando Collor, votado em 29 de setembro do ano eleitoral de 1992.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Dilma e o Itamaraty:: Tereza Cruvinel

A personalidade peculiar e um tanto esfíngica da presidente Dilma Rousseff, que muito a diferencia dos políticos, tanto no trato pessoal como no processo decisório, costuma produzir leituras equivocadas de seus gestos ou falas. Escreveu-se muito, nos últimos dias, que o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, não duraria no cargo. Especulou-se com nomes de substitutos. Tais notícias, por certo, basearam-se em falas ou gestos da presidente, mas fontes que lhes são próximas garantem: ela não pretende substituir seu chanceler, com quem viaja hoje para Londres, depois de uma boa reunião a dois, na semana passada, preparando a agenda. Há uma grande insatisfação, sim, mas é com o tempo de ação e resposta do Itamaraty que, para ela, precisa de ajustar-se, técnica e processualmente, às necessidades do país e à realidade global. Não são apenas os tais punhos de renda que a incomodam.

No Itamaraty, as queixas da presidente são conhecidas e confirmadas e todos dizem compreender a pressa que ela tem por resultados. Afinal, está em curso uma crise econômica internacional que já afeta o Brasil e cabe ao governo dela consolidar a posição externa conquistada pelo Brasil. Ali se reconhece que a projeção brasileira teve início com Fernando Henrique, muito mais pelo prestígio intelectual e pelos relacionamentos que ele possuía do que pelo peso do Brasil naquela fase. Lula, com seu prestígio e carisma, somados à dinâmica adquirida pela economia brasileira em seu governo, proporcionou ao Brasil projeção e prestígio inéditos. Dilma, até aqui, não inventou nada de novo mas tem se diferenciado por agregar consistência, narrativa e objetividade às ações do Brasil. Ela demanda e exige muito mais do Itamaraty , que segundo um interlocutor bem situado, tem procurado se adaptar. Dilma reclamava, por exemplo, da escassa presença brasileira em organismos multilaterais. Nos úlltimos meses, o Brasil emplacou sete nomes em tais organizações, a começar pelo do ex-ministro José Graziano como diretor-geral da FAO. Para as muitas embaixadas criadas por Lula, especialmente no Caribe, ela cobrou um plano de cooperação efetivo, agora em curso. Os BRICs já existiam, mas com ela ganharam uma nova dinâmica na contraposição à hegemonia do clube dos ricos. E é dela o mérito pelo aprofundamento das relações com os Estados Unidos, Europa, China, afora Africa e América do Sul. No âmbito regional, foi ela que ousou bancar, juntamente com Cristina Kirchner, o ingresso da Venezuela, convencida de que o bloco ganhará muito com o ingresso da quarta maior economia sul-americana.

Nesta linha, o Itamaraty prepara uma agenda agressiva para a diplomacia presidencial de Dilma no segundo semestre. Ela deve comparecer à ASA, cúpula América do Sul-Africa, na Guiné Equatorial, deve recepcionar uma reunião entre América do Sul e União Europeia e pode abrir novamente a Assembléia Geral da ONU, em Setembro, por exemplo, ao lado de Patriota.

Em Londres, Dilma dispensou um encontro, que certamente considerou pouco objetivo, com o príncipe Charles. De trabalho, tratará com quem governa, o primeiro-ministro David Cameron. Mas não dispensou a música. Não poderá ver a montagem de Otelo, que saiu de cartaz, mas verá Operália, com o tenor Plácido Domingo, no Royal Opera House.

A crise, este fantasma

Uma notícia boa: as exportações brasileiras começaram a se recuperar. Uma péssima notícia: a crise começou a afetar o nível de empregos. Segundo o Caged/Ministério do Trabalho, os empregos com carteira assinada caíram 25,9% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado.

A crise mostra a cara e o governo, novos remédios. Até aqui, foram adotadas as mesmas medidas que Lula usou, com êxito, para enfrentar a primeira onda, logo depois da quebra do banco Lehman Brothers, em 2008: redução de impostos e incentivo ao consumo. A diferença, com Dilma, ficou por conta da queda maior nos juros. Agora, vem aí a primeira inflexão na terapia, com o pacote de agosto, abrindo ao setor privado a exploração de estradas, portos, ferrovias e aeroportos. E, é claro, haverá novamente aquele renitente debate, com os tucanos acusando os petistas de renderem-se à privatização e estes afirmando que não se trata de venda de ativos mas de concessões de serviços. Seja o que for, importante agora é dinamizar a economia, antes que venha o pior.

Melhor prestar atenção ao que vem dizendo o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que ontem fez nova advertência: "O Brasil precisa ter humildade diante da gravidade da atual crise econômica, para não cair em "simplismos". Para continuarmos crescendo, vamos depender mais das nossas próprias energias, de nossa própria poupança, do nosso esforço"

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

A transparência opaca:: Janio de Freitas

O Brasil exportador de armas está envolvido em monstruosidades que finge condenar

A presidente Dilma Rousseff está sob o risco iminente de perder o direito moral de cobrar transparência, como princípio e exigência do seu governo, a quem quer que seja. O Brasil faz uso, neste momento, de uma falácia primária para opor-se, em reunião da ONU, a um acordo que estabeleça transparência nas exportações de armas.

A política externa proclamada pelo governo, e fiel ao que se entende como índole brasileira, é contrária a confrontos armados entre nações ou como solução de dissensões internas. Logo, não pode favorecer a realidade de que a busca dos altos lucros da exportação sigilosa de armas, além de ser o sustentáculo de ditaduras sanguinárias, está na raiz das matanças de populações civis, condenadas pelo Brasil -na europeia Bósnia, no Oriente Médio, nas infindáveis guerras da África, na Ásia, agora mesmo na Síria.

O argumento do governo brasileiro na reunião da ONU, destinada a tentar um Tratado sobre Comércio de Armas, foi transcrito, no essencial, pelo repórter Rubens Valente (Folha de domingo): a transparência das exportações de armas "poderia expor os recursos e a capacidade dos países [...] de sustentar um conflito prolongado".

Mas a capacidade bélica de um país depende do seu arsenal e da relação entre qualidade e quantidade de suas tropas. Um grande exportador pode ter arsenal insignificante, dando prioridade aos lucros do comércio legal ou não, e descuidar daquela relação.

Da mesma maneira, baixa ou nenhuma exportação não significa que um país não produza armas e não tenha Forças Armadas bem equipadas e preparadas. E ainda há os que têm "capacidade de sustentar um conflito prolongado" com armamento importado às claras, o que parece ser o caso, na América do Sul, da Venezuela, por exemplo.

O argumento brasileiro é falso. Porque infundado e porque adotado para esconder o fato de que o Brasil exportador de armas está envolvido em monstruosidades que finge condenar. O trabalho excelente de Rubens Valente revela que o governo de Fernando Henrique Cardoso autorizou a produção e venda de bombas de fragmentação ao Zimbábue do ditador Robert Mugabe.

Ou seja, a uma ditadura sanguinária, conduzida por ideias psicopáticas como a da necessidade de exterminar os brancos, remanescentes da antiga Rodésia. E ainda algumas das tribos locais.

As bombas de fragmentação são proibidas por acordo internacional: não têm alvo preciso, desabrocham no ar em milhares de bolas de aço que atingem a população civil em áreas imensas. Israel foi acusado de lançar tais bombas sobre a população palestina de Gaza, e, se o fez, o acusado de produzir e exportar as bombas foi o Brasil. Cujo governo posou de contrário aos ataques à população palestina.

Os mutilados por pisar inadvertidamente em mina camuflada, resto de algum conflito estúpido, compõem uma tragédia africana que tem comovido o mundo. Crianças, em geral, esses mutilados são os que escapam da mortandade feita pelas minas deixadas no chão de vários países. Em grande parte das minas recuperadas, graças sobretudo a entidades de benemerência europeias, está preservada a inscrição: "Made in Brazil".

Podemos ostentar um orgulho internacional: nós também temos nossos criminosos de guerra. Gente que não escaparia no Tribunal Penal Internacional de Haia, por fomentar a morte de populações civis inocentes, e com isso lucrar fortunas.

É a esse Brasil opaco que a falta de transparência dá proteção. Como sua continuidade permitirá que a Rússia arme Bashar al Assad, e os Estados Unidos, a Inglaterra, a França, e o Brasil também, façam o mesmo pelo mundo todo.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Empresas desaceleram no 2º trimestre

João Sorima

SÃO PAULO. A desaceleração da economia deve se refletir nos balanços do segundo trimestre das companhias abertas, que começam a ser divulgados esta semana. As empresas de construção civil, varejo e os bancos estão entre os que devem apresentar resultados mais fracos, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO. Ventos melhores devem vir da mineração, que espera recuperar um pouco do faturamento no período, em comparação com o primeiro trimestre.

O varejo foi um dos segmentos mais atingidos pela queda do consumo, que ocorreu apesar das tentativas do governo de estimular o mercado interno.

- O governo reduziu pela oitava vez consecutiva a taxa básica de juro, que atualmente está em 8%, mas não se viu um movimento de aumento do consumo que pode ser atribuído à alta da inadimplência. Empresas desse setor devem ter números mais fracos no segundo trimestre - avalia Jason Vieira, economista da Cruzeiro do Sul corretora.

Com menos chuvas e câmbio favorável, Vale deve lucrar mais

A atividade econômica também levou a uma redução dos investimentos no setor da construção civil. O sócio-diretor da Título Corretora, Márcio Cardoso, diz que a queda das ações dessas empresas na Bovespa já antecipa o resultado negativo. Levantamento da consultoria Economática mostrou que 13 das 22 empresas do setor perderam R$ 6,2 bilhões em valor de mercado no primeiro semestre. As principais perdas na Bovespa foram a PDG Realty, com queda de 41%; Brookfield (-30,5%); Rossi Residencial (-36,6%); Gafisa (-40%) e Tecnisa (-27,3%).

- Pesam sobre as construtoras o aumento de custos com a mão de obra, atrasos na entrega de unidades e inadimplência - afirma Luiz Roberto Monteiro, analista da corretora Renascença.

Embora tenham apresentado lucros bilionários no primeiro trimestre, os bancos também devem vir com números menos robustos nesta temporada. De um lado, a inadimplência subiu, o que leva as instituições a aumentar o provisionamento e elevar os custos do setor financeiro. De outro, a redução dos juros e a entrada dos bancos estatais como indutores da redução das taxas de juros também devem afetar o resultado no período.

- Os bancos virão ainda com bons resultados, mas terão uma queda no retorno sobre investimento (ROI) por causa do aumento da inadimplência - diz Pedro Galdi, estrategista da SLW Corretora.

Para o analista da Empiricus Research/Investmania, Roberto Altenhofen, o setor de mineração, em especial a Vale, deve ter resultados melhores. No primeiro trimestre, as chuvas dificultaram os embarques de minério de ferro e a empresa foi prejudicada pela queda de preço da commodity no mercado internacional. No período, o lucro da Vale caiu 40,5% em relação ao mesmo período de 2011 e ficou em R$ 6,7 bilhões.

- No segundo trimestre, a chuva não prejudicou e o preço médio do minério de ferro foi bom. A Vale também foi beneficiada pelo câmbio mais favorável - diz Altenhofen.

Também as empresas do setor automotivo, sobretudo de autopeças, devem melhorar seus balanços na comparação trimestral, beneficiadas pela redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis.

- Mesmo assim, na comparação anual, os números ainda serão mais fracos que os do segundo trimestre de 2011 - afirma Altenhofen.

Para as siderúrgicas, especialmente a Usiminas e a CSN, o cenário tampouco foi favorável no segundo trimestre. Segundo Galdi, as empresas enfrentam pressão dos custos do minério e do carvão.

Os analistas, no entanto, não arriscam uma previsão para a Petrobras. O aumento de 6% no diesel só deve se refletir nos resultados da empresa no segundo semestre. No primeiro trimestre, o lucro da empresa foi de R$ 9,2 bilhões, uma redução de 16% em relação ao mesmo período do ano passado.

- O mercado já conhece a dinâmica de produção da Petrobras e ela está estável - acrescenta Altenhofen, da Empiricus.

FONTE: O GLOBO

Dívida pública da União chega a R$ 1,97 trilhão, numa alta de 2,53%

Aporte de R$ 10 bilhões no BNDES em junho contribuiu para crescimento

Cristiane Bonfanti

BRASÍLIA. A dívida pública federal voltou a subir e fechou junho em R$ 1,970 trilhão, alta de 2,53% frente a maio (R$ 1,922 trilhão). Nas contas do Tesouro Nacional, a diferença de R$ 48,6 bilhões resulta do aumento das emissões de papéis no período, em patamar bem acima dos pagamentos e das despesas com juros, que chegaram a R$ 14,45 bilhões.

Para Fernando Garrido, coordenador-geral de Operações da Dívida, o aporte de R$ 10 bilhões realizado em junho pelo Tesouro no BNDES contribuiu para o aumento do estoque da dívida. A injeção foi a primeira dos R$ 45 bilhões previstos para o ano. A finalidade é reforçar o caixa do banco para financiar projetos do setor produtivo e minimizar os efeitos da crise sobre a indústria.

O estoque da dívida já está dentro dos limites estabelecidos pelo Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2012, que prevê que o total feche o ano entre R$ 1,950 trilhão e R$ 2,050 trilhões. Na avaliação de Garrido, em julho o total deverá recuar para valor inferior a R$ 1,950 trilhão:

- Mas até dezembro vamos voltar para a banda do PAF.

Número de investidores no Tesouro Direto sobe 23,6%

No mês passado, a dívida interna teve seu estoque ampliado em 2,65%, de R$ 1,833 trilhão para R$ 1,881 trilhão. A dívida externa subiu 0,16% e encerrou junho em R$ 89,05 bilhões.

Felipe Salto, economista da Tendências Consultoria, ressaltou que, em um ano e meio de governo, a equipe econômica tem conseguido melhorar a composição da dívida pública, que passa a ter custos menores e prazos mais longos de vencimento. Em junho, a participação dos papéis prefixados, com correção determinada no leilão, subiu de 38,13% para 39,45%.

Garrido observou que a fase dos títulos públicos com rendimento anual de dois dígitos está perto do fim. A mudança é motivada por cortes na Selic.

O programa de compra de títulos da dívida pública por pessoas físicas, o Tesouro Direto, ganhou 4.801 investidores em junho. O total de cadastrados chegou a 305.619, alta de 23,67% nos últimos 12 meses. As emissões atingiram R$ 266,54 milhões.

FONTE: O GLOBO

País tem menor criação de vagas desde 2009

Caged mostra que, por conta da desaceleração da economia, foram abertos 120,440 empregos formais em junho, descontadas as demissões

Célia Froufe

BRASÍLIA - A geração de emprego com carteira assinada no País sofreu mais um baque em junho. O saldo de contratações ficou 53% menor do que o registrado no mesmo período do ano passado. A desaceleração da economia foi apontada por analistas como a principal causa do desempenho. Ainda assim, especialistas acreditam que o mercado de trabalho vai reagir.

De acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), descontadas as demissões, foram contratados 120.440 pessoas no mês passado, o pior resultado para meses de junho desde 2009, quando o Brasil vivia o auge da crise financeira internacional. Em junho de 2011, o saldo havia sido de 255,4 mil postos abertos.

A geração líquida de empregos no primeiro semestre foi de 1,05 milhão de vagas, exatamente a metade do resultado de todo o ano de 2011.

Grande parte desse número veio da área de serviços, com a contratação de 469,7 mil postos a mais do que demissões. A construção civil foi a segunda maior empregadora no período, com saldo líquido de 205,9 mil novos postos e o setor agrícola, com 135,4 mil empregos.

Com clara perda de vigor em relação a seu histórico, a indústria da transformação apresentou um saldo de 134 mil novas vagas formais na primeira metade do ano. Já o comércio apresentou um resultado mais modesto, com geração de 56,1 mil postos com carteira assinada na primeira metade do ano.

"Os dados evidenciam o cenário de desaceleração da economia. Como esperado, a diminuição na atividade tem feito sua parte também no mercado de trabalho", afirmou o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, em relatório para clientes.

Salário. O Caged revelou ainda que os salários médios de admissão no primeiro semestre deste ano registraram aumento real- já descontada a inflação- de 5,90% na comparação com a primeira metade de 2011, passando de R$ 946,79 para 1.002,64. O crescimento foi de 44,62% quando levado em conta o salário de R$ 711,51 pago, em média, no primeiro ano do governo Lula, em 2003.

Especificamente em junho, a indústria revelou um crescimento "modesto", de 9,9 mil postos - houve expansão no setor apenas em 6 dos 12 ramos de atividade da indústria analisados. Já a agricultura foi a que mais contratou no mês passado, um total de 60,1 mil vagas, seguida por Serviços (30,1 mil postos) e comércio (11 mil).

O Estado de Minas Gerais criou 38,5 mil vagas em junho e ultrapassou São Paulo no volume de contratações (25,2 mil postos). Já Espírito Santo e Rio Grande do Sul enxugaram postos de trabalho em junho.

A retomada da atividade deve ter reflexos para o emprego a partir de setembro, segundo o economista da LCA Consultores Caio Machado. "O emprego está chegando num vale e deve voltar a acelerar", afirmou o economista.

A mesma opinião tem o professor de economia do Ibmec, Mauro Rochlin. "Os juros estão em processo de queda e sinalizam para empresários um ambiente melhor para o investimento", disse.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Aloísio Teixeira, um gestor devotado à educação

Teixeira recebeu, em 2004, o Prêmio Faz Diferença do GLOBO por seu trabalho

Filho do brigadeiro Francisco Teixeira, subchefe do Estado-Maior das Forças Armadas durante o governo João Goulart e um dos principais opositores militares ao golpe de 1964, o professor Aloísio Teixeira se formou na Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro em 1978. Cinco anos depois, obteve o título de mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, em 1993, concluiu o doutorado Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob orientação da professora Maria da Conceição Tavares. Ultimamente, Teixeira era professor titular do Instituto de Economia da UFRJ, instituição onde ingressou em 1981 e da qual foi dirigente máximo entre 2003 e 2011.

Em sua trajetória como economista e administrador público, antes de ocupar o posto de reitor, Teixeira foi diretor de planejamento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), superintendente da Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab) e esteve à frente do Conselho Interministerial de Preços e da Secretaria Especial de Abastecimento e Preços, no Ministério da Fazenda, em 1986 -1987, na época do congelamento de preços. Teixeira assumiu ainda os cargos de secretário-geral do Ministério da Previdência e Assistência Social e diretor de administração da Embratel.

Na vida acadêmica, Aloísio Teixeira foi protagonista de um dos episódios mais polêmicos da história da UFRJ. Em 1998, foi o mais votado na eleição para reitor da instituição, mas o então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, decidiu nomear o terceiro colocado no pleito para o cargo, José Henrique Vilhena. A indicação iniciou um grande conflito interno na UFRJ, com a ocupação do prédio da reitoria e conflitos constantes entre Vilhena e os estudantes.

Em 2003, um ano após tomar posse, Carlos Lessa renunciou ao cargo de reitor para assumir a presidência do BNDES, no início do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma nova eleição foi realizada, e Aloísio Teixeira saiu vitorioso. Desta vez, o ministro da Educação na época, Cristovam Buarque, optou por seguir a indicação da instituição.

A sua gestão à frente da UFRJ foi marcada pelo alinhamento junto ao Ministério da Educação (MEC) dos anos Lula. Nos seus mandatos, a universidade aderiu ao Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), instituiu a reserva de 30% das vagas para cotas sociais e aprovou substituição do vestibular próprio pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), do MEC. Entre as suas principais conquistas estão a recuperação da posse do terreno onde funcionava o Canecão e um bingo, em Botafogo, e a criação de um Plano Diretor com metas até 2020.

Pelo trabalho na reitoria da universidade, o economista recebeu, em março de 2004, o Prêmio Faz Diferença do jornal O GLOBO, na categoria Megazine. Ele foi escolhido por jornalistas, personalidades de diferentes áreas e internautas pelos projetos implementados para aproximar alunos do campus da UFRJ de comunidades vizinhas, como o Complexo da Maré. Na ocasião, Lessa elogiou o sucessor: "Tudo o que o Aloísio ganhar é merecido. É um belo economista, um belo professor, um bom dirigente universitário e um bom brasileiro".

Políticos e acadêmicos manifestaram pesar pela morte do ex-reitor. A presidente Dilma Rousseff divulgou nota lamentando a perda de um "importante pensador e colaborador da educação no país". Diz a nota: "Um brasileiro que abraçou a educação como grande instrumento de transformação da sociedade e fez do exercício de educar um compromisso de vida, como mostrou seu trabalho à frente da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lamento profundamente sua morte e associo o meu pesar ao dos seus familiares, colegas e alunos".

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, também comentou o falecimento. Em nota divulgada pela assessoria de imprensa do MEC, ele disse que "o mundo acadêmico brasileiro ficou mais pobre. Aloísio Teixeira fará falta para a UFRJ e para a pesquisa brasileira".

Em outra nota de pesar, o atual reitor, Carlos Levi, disse que "o professor Aloísio imprimiu à UFRJ a marca do diálogo, da preocupação com o acesso universal ao ensino superior e, sobretudo, da reflexão, características de sua longa trajetória na administração pública e no ensino. Para ele, as ciências humanas e sociais deveriam ter a centralidade no processo de reestruturação da universidade, instituição indispensável para a construção de um projeto nacional sólido para a nação". Levi foi pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento da universidade durante a gestão de Teixeira.

Aloísio Teixeira faleceu na manhã de ontem, vítima de um ataque cardíaco aos 67 anos. Ele passou mal em casa e chegou a ser levado para um hospital, mas não resistiu. O corpo do economista será cremado hoje, às 10h30m, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju. Teixeira deixa a esposa, a economista Beatriz Azeredo, cinco filhos e quatro netos.

FONTE: O GLOBO

PPS lamenta morte de Aloisio Teixeira

O mundo acadêmico brasileiro perdeu hoje, pela manhã, um dos seus quadros mais qualificados e inovadores, com a morte inesperada, aos 67 anos, do economista Aloisio Teixeira, que deixou um legado exemplar durante o seu mandato de oito anos (2003-2011) como reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Filho do inesquecível brigadeiro Francisco Teixeira, militar democrata e de tradição comunista com relevantes serviços prestados à nação, o carioca Aloisio deu sequência à rica trajetória do pai, e além de ter sido um dos líderes da resistência ao regime autoritário de 1964-1985, sempre foi um militante das grandes causas pelas liberdades e por oportunidades iguais para todos.

Graduado em Economia pela Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro, tornou-se mestre pela UFRJ e doutor pela Unicamp. Foi professor titular de Economia da UFRJ, instituição na qual foi eleito e reeleito reitor, com os maiores índices de votos obtidos nas disputas nela ocorridas. Autor de várias e importantes pesquisas e estudos sobre a realidade brasileira, como cientista social, também deu assessoria técnica a diversos organismos federais, com destaque para os Ministérios da Fazenda, o de Ciência e Tecnologia, e o da Previdência. Em 2005, teve seu mérito reconhecido internacionalmente ao lhe ser outorgado o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Paris 13.

Seu legado ao ensino superior se reveste de transformações e protagonismo na luta pela universalização do ensino superior (implantou a cota social de 30% das vagas oferecidas para cada curso, aliando a origem na escola pública à renda familiar), introduziu o ensino interdisciplinar e criou novos cursos, além de aliar o fortalecimento da democracia interna da universidade com uma política agressiva de ampliação e reestruturação, de forma que todos os colegiados tiveram suas atividades em pleno funcionamento.

Seu corpo será velado na escadaria da capela do Palácio Universitário, no campus da Praia Vermelha. Em meu nome pessoal, e da direção nacional do PPS, transmitimos a seus familiares, amigos pessoais e colegas da UFRJ nossos mais sentidos pêsames pela irreparável perda.

Deputado Roberto Freire
Presidente nacional do PPS

FONTE: PORTAL DO PPS

Milton Nascimento - Travessia

Testamento do Brasil:: Paulo Mendes Campos

Que já se faça a partilha.
Só de quem nada possui
nada de nada terei.
Que seja aberto na praia,
não na sala do notário,
o testamento de todos.
Quero de Belo Horizonte
esse píncaro mais áspero,
onde fiquei sem consolo,
mas onde floriu por milagre
no recôncavo da brenha
a campânula azulada.
De São João del-Rei só quero
as palmeiras esculpidas
na matriz de São Francisco.
Da Zona da Mata quero
o Ford envolto em poeira
por esse Brasil precário
dos anos vinte (ou twenties),
quando o trompete de jazz
ruborizava a aurora
cor de cinza de Chicago.
Do Alto do Rio Negro
quero só a solidão
compacta como o cristal,
quero o índio rodeando
o motor do Catalina,
quero a pedra onde não pude
dormir à beira do rio,
pensando em nós-brasileiros
- entrelaçados destinos -
como contas carcomidas
de um rosário de martírios.
De Lagoa Santa quero
o roxo da Sexta-feira,
quero a treva da ladeira,
os brandões da noite acesa,
quero o grotão dos cajus,
onde surgiu uma vez
no breu da noite mineira
uma alma doutro mundo.
Da porta pobre da venda
de todos os povoados
quero o silêncio pesado
do lavrador sem trabalho,
quero a quietude das mãos
como se fossem de argila
no balcão engordurado-.
Ainda quero da vila
ira que se condensa,
dor imóvel e dura
como um coágulo no sangue.
Da Fazenda do Rosário
quero o mais árido olhar
das crianças retardadas,
quero o grito compulsivo
dos loucos, fogo-pagô
de entardecer calcinado,
a névoa seca e o não,
o não da névoa e o nada.
Da cidade da Bahia
quero os pretos pobres todos,
quero os brancos pobres todos,
quero os pasmos tardos todos.
Do meu Rio São Francisco
quero a dor do barranqueiro,
quero as feridas do corpo,
quero a verdade do rio,
quero o remorso do vale,
quero os leprosos famosos,
escrofulosos famintos,
quero roer como o rio
o barro do desespero.
Dos mocambos do Recife
quero as figuras mais tristes,
curvadas mal nasce o dia
em um inferno de lama.
Quero de Olinda as brisas,
brisas leves, brisas livres,
ou como se quer um sol
ou a moeda de ouro
quero a fome do Nordeste,
toda a fome do Nordeste.
Das tardes do Brasil quero,
quero o terror da quietude,
quero a vaca, o boi, o burro
no presépio do menino
que não chegou a nascer.
Dos domingos cor de cal
quero aquele som de flauta
tão brasileiro, tão triste.
De Ouro Preto o que eu quero
são as velhinhas beatas
e a água do chafariz
onde um homem se dobrou
para beber e sentiu
a pobreza do Brasil.
Do Sul, o homem do campo,
matéria-prima da terra,
o homem que se transforma
em cereal, vinho e carne.
Do Rio quero as favelas,
a morte que mora nelas.
De São Paulo quero apenas
a banda podre da fruta,
as chagas do Tietê,
o livro de Carolina.
Do noturno nacional
quero a valsa merencórea
com o céu estrelejado,
quero a lua cor de prata
com saudades da mulata
das grandes fomes de amor.
Do litoral feito luz
quero a rude paciência
do pescador alugado.

Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 - Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991) - Além de poeta, foi cronista, jornalista e tradutor. Publicou em poesia: 'A Palavra Escrita', 'Testamento do Brasil' e 'O Domingo Azul do Mar'. Destacou-se nas crônicas, que, ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino e outros, mudaram a maneira de fazer crônicas no Brasil. Diversos livros com reuniões de suas crônicas como 'O Cego de Ipanema', 'Os bares morrem numa quarta feira', foram republicados.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

OPINIÃO DO DIA – Luiz Werneck Vianna: vida ativa e mudanças

De toda parte surgem sinais que testemunham a existência de vida ativa na política brasileira em busca de mudanças e de novos repertórios. Os mais visíveis são os que apontam para o processo terminal de passagem, após longa e penosa maturação, da nossa vetusta tradição de principado para a República, exemplar na autonomia com que a sociedade e as suas instituições jurídico-políticas se vêm conduzindo diante do poder político no chamado processo do mensalão, que leva a julgamento altos dirigentes do partido hegemônico na coalizão governamental.

Em outro registro, mas igualmente importante, já se pode constatar, no processo em curso das eleições municipais, que a pluralidade efetiva reinante na sociedade vem encontrando seus caminhos ao largo do dirigismo com que a fórmula do presidencialismo de coalizão, com seu estilo centralizador e vertical, tem esterilizado a prática política no País.

Luiz Werneck Vianna, sociólogo, professor-pesquisador da PUC-Rio. O que há de nacional na sucessão municipal, O Estado de S. Paulo, 22/7/2012.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
PT pagou o dobro da inflação a servidores
Brasil é a 4ª fortuna em paraísos fiscais
Ibama aperta o cerco contra a biopirataria

FOLHA DE S. PAULO
Ocupação de hospitais privados chega ao limite
Marcos Valério tem dívida de R$ 83 milhões com bancos
Brasil é o quarto país com mais dinheiro em paraísos fiscais
Oposição de Assad vê sinal positivo em ação brasileira

O ESTADO DE S. PAULO
Desapropriações provocam disputa judicial e travam PAC
Estratégia de governos é jogar preço para baixo
PT e PSDB medem forças em cidades ricas
SUS terá droga cara contra câncer de mama
Para MPF, comissão de desaparecidos é omissa

VALOR ECONÔMICO
Queda de juros põe fundos de pensão em 'encruzilhada'
Ganhos reais dos salários continuam
Sob o rigor dos autos e a pressão da rua
Para Rodrik, Brasil pode crescer 5% ao ano

BRASIL ECONÔMICO
Estados reagem e reclamam que vão pagar conta da renúncia fiscal
Operadoras lutam para reverter decisão da Anatel
País só precisa de “meia dúzia de Partidos”, diz líder do PMDB

CORREIO BRAZILIENSE
ANS vai controlar aumentos dos planos coletivos
R$ 1 trilhão
Cotas de gabinete irrigam campanhas

ESTADO DE MINAS
Prefeituras mineiras na mira da PF
Uma posição nada honrosa para o Brasil
Anatel impõe maior rigor às operadoras

ZERO HORA (RS)
Cidades com mais eleitor do que habitante

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
SUS inclui droga anticâncer

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Bancários querem 10,25% de aumento

Pauta de reivindicações da categoria foi fechada ontem em reunião

Roberta Scrivano

SÃO PAULO. Os bancários concluíram ontem, em Curitiba, a pauta de reivindicações salariais para 2012. O documento, que pede reajuste de 10,25% - inflação acumulada no último ano mais aumento real de 5% -, será entregue à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) no dia 1º de agosto. As negociações estão marcadas para os dias 7, 8, 15 e 16 do mês que vem. A data-base da categoria é 1º de setembro.

Também está entre as reivindicações o aumento na participação dos lucros e resultados (PLR) dos bancos. Os empregados querem PLR equivalente a três salários mais R$ 4.961 fixos por ano. Hoje, a fórmula varia de funcionário para funcionário, mas, em media, fica em 90% da remuneração mais R$ 1,2 mil. Outro pedido é subir o piso salarial dos atuais R$ 1,4 mil para R$ 2,4 mil, igual ao do Dieese.

Carlos Cordeiro, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro da Central Única dos Trabalhadores (Contraf-CUT), que liderou a reunião dos mais de 600 bancários ontem em Curitiba, diz que a negociação não será fácil. Para ele, os banqueiros dirão que a crise mundial está afetando a economia e que os menores juros no Brasil reduzirão as margens dos bancos.

- Negociação nunca é fácil. Mas, entra crise, sai crise, os bancos sempre lucram mais e mais. Sobre o juro menor, sabemos que agora os banqueiros ganharão mais dinheiro pois venderão mais crédito. Ou seja, continuarão ganhando, mas no volume.

Os empregados também pedem fim da imposição de metas de vendas, combate ao assédio moral, ampliação da segurança nas agências e cumprimento da jornada de seis horas.

FONTE: O GLOBO

ABC paulista sente os efeitos da crise

Três cidades da região estão entre as dez que mais demitiram na indústria no Estado de São Paulo entre janeiro e maio, aponta Caged

Luiz Guilherme Gerbelli

Os pequenos e médios empresários da cadeia automobilística do Grande ABC estão desanimados. O primeiro semestre foi ruim. E, por enquanto, não há uma expectativa de melhora. Na avaliação dos executivos, dois fatores têm dificultado a retomada: o desaquecimento da economia e a concorrência com importados.

A apatia da região parece ser um retrato fiel da crise enfrentada pela indústria no País. No Estado de São Paulo, três cidades do Grande ABC estão entre as dez que mais perderam empregos na indústria, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Entre janeiro e maio, depois da líder São Paulo, com saldo negativo de 1.844, aparecem São Bernardo do Campo (-1.633) e Mauá (-1.135) como as cidades mais prejudicadas pela redução das vagas na indústria.

A encruzilhada enfrentada pela cadeia automobilística ocorre porque a baixa nos estoques ainda não causou a retomada da produção. Em julho, enquanto os estoques foram reduzidos de 43 dias para 29 dias por causa do IPI menor, a produção recuou 2,5%. "Algumas empresas estão tão descapitalizadas que não têm dinheiro nem para mandar funcionários embora", diz Hitoshi Hyodo, diretor do Centro das Indústrias de São Paulo (Ciesp) de São Bernardo do Campo.

A última pesquisa realizada pela própria Fiesp/Ciesp mostrou uma queda maior do nível de emprego no Grande ABC do que em outros locais de São Paulo. No primeiro semestre, houve um recuo de 4,44% no emprego na região. No Estado de São Paulo, a redução foi menor, de 3,19%.

"A situação está muito negativa no Grande ABC. E serve como um termômetro. O que será daqui a cinco anos? Essa virou uma grande questão", afirma Daniel Adolfo, diretor da Engap Mecânica, de Santo André. Há 17 anos no mercado, a empresa diminuiu a quantidade de funcionários de 28 para 18 por causa da baixa demanda.

Além da desaceleração da economia, as empresas do Grande ABC reclamam do elevado custo de produção e da excessiva carga tributária, o que dificulta a competição com produtos importados. O empresário Emanuel Teixeira, da Metalmech e diretor titular do Ciesp de Santo André, conta que foi procurado por uma montadora para fornecer peças para um novo automóvel. Na cotação dele, a peça sairia por R$ 0,29, mas a montadora queria R$ 0,14. "Mas só de matéria-prima meu gasto seria de R$ 0,12", afirma. "Isso deixa muito difícil."

O momento atual da indústria do Grande ABC soa como um déjà vu para boa parte do empresariado local. Na memória deles está o estrago que a crise financeira iniciada em 2008 nos Estados Unidos causou na indústria. Na época, o governo lançou medidas de estímulo para setor automotivo e, dessa forma, impulsionou a atividade.

"Em 2008, foi mais ou menos nessa proporção. Agora, eu acho que está mais forte porque as margens do preço estão baixas. Antigamente, as margens eram maiores e você conseguia administrar a queda", diz o empresário Wilson Paschoal. Ele é a segunda geração no comando da Metalúrgica Paschoal.

Demissão. A falta de perspectiva faz com que alguns empresários admitam rever o quadro de funcionários nos próximos meses."Os pagamentos estão em dia. Possivelmente, haverá uma redução de funcionários. É a primeira coisa que se faz. Não cortamos cafezinho porque isso não resolve", diz um empresário de São Bernardo do Campo que pediu para não ser identificado.

Cortes. Demanda em queda fez a Engap reduzir o número de funcionários de 28 para 18

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

PT pagou o dobro da inflação a servidores

Em nove anos de Lula e Dilma, gasto como funcionalismo subiu 120%

Desde que o PT chegou ao Palácio do Planalto, em 2003, os funcionários do governo federal passaram a custar mais que o dobro ao país. A despesa média por servidor cresceu mais de 120% entre 2003 e 2011, contra inflação de 52% no período. Apenas entre 2008 e 2010, o impacto dos reajustes acima da inflação dados pelo ex-presidente Lula para praticamente todas as categorias de servidores civis foi de R$ 35,2 bilhões. São esses números que agora sustentam a decisão da presidente Dilma Rousseff de não ceder às pressões de servidores grevistas.

Gasto com servidor dobrou em 9 anos

Entre 2003 e 2011, com Lula e Dilma no Planalto, quase todas as categorias tiveram aumentos reais

Diana Fernandes

BRASÍLIA - Os funcionários do Executivo federal passaram a custar mais que o dobro à União desde que o PT chegou ao Palácio do Planalto, em 2003. A despesa média por servidor do governo cresceu mais de 120% entre 2003 e 2011, contra uma inflação em torno de 52% no mesmo período. Com a promessa de corrigir distorções históricas na remuneração dos três Poderes, o ex-presidente Lula implementou, em seu segundo mandato, uma política de valorização do funcionalismo. Com ela, os servidores do Executivo tiveram evolução salarial maior que os do Legislativo e do Judiciário. Segundo o Ministério do Planejamento, apenas entre 2008 e 2010, o impacto dos reajustes dados somente aos servidores civis do Executivo foi de R$ 35,2 bilhões.

São esses números que sustentam a determinação da presidente Dilma Rousseff de não ceder às pressões dos servidores grevistas. Até agora, apesar de a mesa de negociação estar aberta, só foi apresentada uma contraproposta aos professores das universidades federais. Dezenas de outras categorias do serviço público estão paralisadas, mas a ordem da presidente e da equipe econômica é manter o rigor fiscal exigido pela gravidade da crise financeira internacional.

A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, em entrevista esta semana ao GLOBO, disse que é impossível atender às reivindicações dos grevistas:

- Desde 2003, houve aumentos reais em todas as categorias. Estamos refazendo todas as nossas contas diante do agravamento da crise internacional e esperamos que até o início de agosto tenhamos o cenário das propostas que possam ser atendidas. A soma das demandas é de R$ 92 bilhões, ou 50% da folha atual, 2% do PIB e o dobro do PAC deste ano. Isso indica, com clareza, que é um número que não é factível de o governo atender.

Sindicalistas pedem novos reajustes

Responsável pelas negociações com os grevistas, o secretário de Relações de Trabalho no Serviço Público, Sérgio Eduardo Arbulu Mendonça, reforça que os reajustes dados no governo Lula são inequívocos quanto à valorização das carreiras do serviço público. Somente em 2010, o governo comprometeu R$ 6,6 bilhões com o pagamento dos reajustes negociados pelo ex-presidente:

- Tivemos um conjunto de reestruturações de 2008 a 2010. Só no Poder Executivo civil o impacto foi de R$ 35,2 bilhões.

O cruzamento de dados do Boletim Estatístico de Pessoal do Ministério do Planejamento sobre a evolução da folha de pagamento, do quantitativo do funcionalismo e da despesa média por servidor comprovam a vantagem dos servidores do Executivo em relação aos demais Poderes.

Enquanto o número de servidores ativos do Executivo variou cerca de 15%, passando de 856,2 mil em 2003 para 984,3 mil em 2011, a despesa média com esse servidor evoluiu numa escala muito maior: passou de R$ 3.439 para R$ 7.678 este ano, um crescimento de mais de 120%.

Considerando a inflação medida pelo IPCA entre 2004 e 2011, que foi de 52,7%, conclui-se que desde o início do governo petista, o custo médio do servidor do Executivo teve um aumento real (acima da inflação) de 46,2%.

A folha de pagamento do Executivo com ativos também teve evolução impressionante: de R$ 64,7 milhões em 2003 para R$ 152,5 milhões em 2012, um crescimento de 135,4%, também muito superior à inflação do período.

Para o secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), Josemilton Maurício da Costa, mesmo com os aumentos dados no governo Lula é preciso nova correção. Ele afirma que o Executivo tem recursos para isso.

- Foram 12 anos de congelamento, não tivemos aumento nenhum no governo Fernando Henrique. Lula só deu aumento no segundo mandato. E o importante é ver quanto o governo gasta da receita corrente líquida com pessoal. Há dez anos, eram 52% da receita, agora são 30% - afirma o sindicalista.

Os servidores do Judiciário encontram amparo nos dados do Boletim Estatístico do Ministério do Planejamento para reclamar da "defasagem salarial" da categoria. Pela leitura fria desses números, o Judiciário aumentou em cerca de 40% seu contingente de servidores ativos - passando de 82.657 em 2003 para 121.760 em 2011 -, mas a despesa média com o servidor, embora seja maior que a do Executivo, não evoluiu no mesmo ritmo: era de R$ 7.125 em 2003 e chegou R$ 11.709 em 2012, crescimento de 64,3%.

Ou seja, o Judiciário quase dobrou o número de servidores, mas a despesa com eles cresceu muito menos do que a do Executivo, que manteve praticamente o mesmo contingente de servidores e aumentou a conta com eles em 120%.

Desde 2009, os servidores do Poder Judiciário, com apoio da cúpula, brigam pela aprovação no Congresso de um novo plano de cargos e salários com reajustes médios de 34%, chegando a 56% em alguns casos. O impacto financeiro da proposta é de cerca de R$ 7 bilhões ao ano. O governo federal não permite a aprovação.

No caso do Legislativo, o número de servidores ativos aumentou pouco em relação aos demais poderes, cerca de 10%, passando de 22,9 mil em 2003 para 25.088 em 2011. A despesa média com esses servidores também cresceu na mesma proporção verificada no Judiciário: passou de R$ 8.648 para R$ 13.887 este ano, um custo 60,5% maior.

FONTE: O GLOBO

Democracia equivocada: Wilson Figueiredo

Por falta de melhor nome para definir o jeito comprometido de operar a engrenagem pública no próprio interesse, o chamado mensalão vai finalmente ser dissecado e avaliado de acordo com a participação de cada um dos que não conseguiram isentar-se das conseqüências. Pelo visto, nenhum dos 38 nomes apresentados à opinião pública pela justiça se livrará da mancha senão com a ajuda do tempo. A marca é indelével. Entre muitos dos chamados às falas, desde a estrondosa CPI que não melhorou a reputação parlamentar incumbida de revirá-la pelo avesso, no primeiro mandato de Lula, o eleitor vai se deparar com nomes que lhe lembrarão uma democracia que se deixou ludibriar pela ilusão de que a quantidade ilimitada de partidos políticos viesse a beneficiá-la.

Ainda bem que não se evaporou a aparência negativa das vinte e tantas legendas admitidas a pretexto de harmonizar incompatibilidades pessoais e escamotear outros interesses de mais peso do que o currículo de cada um deles. Com 29 partidos, ainda falta muito ao Brasil para alcançar a marca olímpica dos 40 ladrões que Ali Babá, herói infantil até hoje, em astuciosa manobra, prendeu na caverna. As histórias infantis e juvenis de sucesso universal não se amarram a datas, ao contrário da História que se escreve com a inicial maiúscula, carimbada como farsa por Karl Marx sempre que se repete.

O mensalão legou aos políticos a desconfiança residual e um certo sentimento de culpa pela CPI no que lhes diz respeito, embora pudesse também ser um passo maior do que as pernas na direção da democracia negligente, que muitas vezes se comporta como os gatos que, uma vez escaldados por água quente, ficam com horror à água fria.

Pelo que lhe dizia respeito, a oposição teve medo de contribuir para o golpe de misericórdia, ao isentar de culpa a democracia relativamente recente, que mandara às urtigas a diferença indispensável entre interesse público e interesse pessoal. A social-democracia e avulsos oposicionistas desistiram de ir às últimas. Ficar nas penúltimas traz do anonimato histórico a frase de Clemenceau, cabelos e bigodes brancos para impor respeito, não é mais lembrada, mas continua viva graças às palavras com que fulminou aquele patriotismo do seu tempo como o último refúgio da canalhice. Nada de pessoal, apenas circunstancial.

Antes de ser cobrado, à época mais quente do mensalão, a oposição se deu por satisfeita relativamente ao que lhe pareceu apenas amostragem da arte de formar maioria politicamente heterogênea por fora e comprometedora por dentro. A perda do pudor cívico era oficialmente tolerada pela expectativa governamental, que percebia tudo que se passava e, como se viu e vê, não deixou de passar. O zelo oposicionista e o desconforto oficial não consideraram a hipótese de se entenderem enquanto era tempo. Desde então, a confiança na democracia foi limitada aos efeitos legais para os que se deixaram apanhar em flagrante por falta de espaço para voltarem atrás.

O mensalão, com o tempo consumido na troca de opiniões pessoais, esfriou como tema de debate e se distanciou da prioridade política de chegar às causas localizadas no vazio das reformas políticas enroladas como bandeiras depois das solenidades cívicas. O vazio deixado pelas reformas localizadas à margem do tempo, à espera de solução política mais alta do que a disputa de votos, move o Congresso ao estilo de feira-livre no vazio que o isolou como um plenário à espera do imponderável.

O mensalão chega ao fim como episódio que tem mais a ver com as causas que o geraram do que solução para o exercício de governo: as conseqüências batem à porta de uma democracia equivocada e sem eloqüência para reanimar as reformas e sem o cuidado de evitar as tentações desatentas à linha invisível que deveria separar interesse público de tudo que o comprometa.

Sem perder de vista o mensalão, não se faz democracia com trinta partidos: o que se vê parece não ter fim ao alcance dos olhos.

Wilson Figueiredo, jornalista

FONTE: JORNAL DO BRASIL

Falta alguém:: Ricardo Noblat

"Um homem decente envergonha-se do governo sob o qual vive." (H. L. Mencken, jornalista americano, 1880-1956)

Marcos Valério, um dos cérebros do mensalão, voltou a ameaçar Lula, segundo a “Veja” desta semana. Em pânico com a possibilidade de vir a ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal, que começará a julgar no dia 2 de agosto os 38 réus do mensalão, Valério se disse disposto a contar que esteve com Lula várias vezes, o que Lula sempre negou.

Foi Paulo Okamoto, uma espécie de diligente tesoureiro informal da família Lula, que dobrou Valério. Naturalmente, Okamoto nega que Valério tenha feito qualquer ameaça a Lula. Ou dito que antes do estouro do escândalo do mensalão estivera com ele na Granja do Torto, uma das residências oficiais do presidente da República.

"[Valério] queria me encontrar porque às vezes quer saber das coisas. Em geral, ele quer saber como está a política, preocupado com algumas coisas", justificou Okamoto. Foi claro? Adiante. Coube também ao advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, outra peça importante da engrenagem do PT, agir para sossegar o espírito atribulado de Valério.

Ponham-se no lugar do ex-publicitário mineiro. Era rico, riquíssimo antes de se meter com o PT de Delúbio Soares, Genoino e José Dirceu. Tinha duas agências de propaganda. E inventara uma forma de lavar dinheiro por meio de bancos para engordar o caixa 2 de políticos às vésperas de eleições. Eduardo Azeredo, do PSDB, foi um .

Procurado para fazer pelo PT o que fizera por Azeredo, imaginou ter tirado a sorte grande. O governo Lula estava nos seus meses iniciais. E a turma à frente do partido em busca do tempo perdido. De repente, todas as portas se abriram para Valério. E ele passou a "fartar os olhos" admirando o dinheiro que entupia as suas burras.

Teria dado certo - não fosse o tresloucado gesto de Roberto Jefferson, presidente do PTB, que por pouco não pôs o governo a pique. Em um sábado de junho de 2005, depois de tomar uns goles a mais na Granja do Torto, Lula falou em renunciar ao mandato. Ficara sabendo que Valério admitira envolvê-lo no escândalo.

José Dirceu, então chefe da Casa Civil da presidência da República, foi chamado às pressas em São Paulo. Esca-lado para dar um jeito em Valério, deu sem fazer barulho. Naquele dia postei em meu blog que Lula falara em renúncia - embora eu não soubesse por quê. Nunca recebi tantos desmentidos de porta-vozes.

Ainda no segundo semestre de 2006, Valério voltou a atacar. Procurou um político de forte prestígio junto a Lula. Queixou-se de estar quebrado. Acumulava dívidas sem poder honrá-las. Seus bens haviam sido bloqueados. Caso não fosse socorrido, daria um tiro na cabeça ou faria com a Justiça um acordo de delação premia.

O político pediu uma audiência a Lula. Recebido no gabinete presidencial do terceiro andar do Palácio do Planalto, o político reproduziu para Lula o que ouvira de Valério. Em silêncio, Lula virou-se para uma das janelas do gabinete que lhe permitia observar parte do intenso movimento nas vizinhanças do palácio.

Então perguntou ao visitan-te: "Você falou sobre isso com Okamoto?" O visitante respondeu que não. E Lula mais não disse e nem lhe foi perguntado. Seria desnecessário. O diligente Okamoto, aquele que pouco antes pa-gara do próprio bolso cerca de R$ 30 mil devidos por Lula ao PT, apascentou Valério.

Falta alguém em Nuremberg! Quero dizer: falta alguém na denúncia oferecida pela Procuradoria Geral da República sobre a "organização criminosa" que tentou se apossar do aparelho do Estado. Desviou-se dinheiro público — e não foi pouco. Pagou-se para que deputados votassem como queria o governo. Comprou-se o apoio de partidos.

Nada será capaz de reparar o mal produzido pelos que chegaram ao poder travestidos de legítimos hierarcas da decência — falsos hierarcas, como se revelariam mais tarde. Mas se a Justiça só enxergar inocentes entre eles, isso significará que também foram bem-sucedidos na tarefa de trucidar a esperança.

FONTE: O GLOBO

Deixa quieto :: Melchiades Filho

Com a aproximação do julgamento do mensalão, um dos colaboradores mais íntimos do ex-presidente Lula passou a se reunir com o publicitário que arquitetou o esquema de desvio de dinheiro público para a compra de apoio político ao governo do PT. Paulo Okamotto geriu o caixa do sindicato dos metalúrgicos quando o amigo ali mandava, serviu-lhe como tesoureiro de campanha e hoje cuida das finanças do Instituto Lula. Homem do dinheiro, portanto.

Em entrevista à revista "Veja", ele confirmou os encontros com Marcos Valério. Disse que atendia a pedidos do réu para discutir política -e só. Por que logo ele, braço direito de Lula, foi chamado? Mistério.

A missão furtiva indica que Valério é um fio desencapado a ser monitorado de perto. Dá corda às especulações de que o PT tem sido pressionado -ou chantageado- a não abandonar o ex-parceiro.

Motivos para preocupação não faltam. O publicitário operou as contas do mensalão. Para os procuradores que investigaram o caso, R$ 74 milhões foram drenados indevidamente dos cofres públicos, sob a justificativa de contratos fictícios. Para a PF, foram R$ 92 milhões.

Por vezes, os incriminados petistas parecem mais empenhados na defesa de Valério do que nas suas próprias. São vários os expedientes para tentar aliviar a barra do publicitário no campo legal. O mais recente foi a ação casada no Congresso e no TCU para "perdoar" um dos contratos com o Banco do Brasil fraudados pelo valerioduto -manobra desencadeada pelo então deputado petista, hoje ministro da Justiça e, nessa toada, futuro ministro do STF, José Eduardo Cardozo.

Para ajudar a ligar os pontos: Valério tem todos os seus bens penhorados, suas empresas congeladas e, como revela a Folha hoje, mais de R$ 80 milhões em dívidas. Mantém, no entanto, o padrão de vida: casa, carros e hábitos luxuosos.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Quem ri por último?:: José Roberto de Toledo

Tucanos e petistas comemoram a mais recente pesquisa Datafolha. Militantes do PT fazem festa com o empate técnico de Celso Russomanno (PRB, 26% das intenções de voto) e seu arquirrival, José Serra (PSDB, 30%). Eleitores tucanos ironizam o fato de Fernando Haddad (PT, 7%) não sair do lugar. Enquanto isso, Russomanno tira onda de quem previu sua queda. Todos felizes, na aparência. Mas só um tem motivo para rir.

A bateria de pesquisas Datafolha e Ibope da semana passada confirma que a eleição de prefeito ainda não entrou nas preocupações do eleitor na maioria das capitais. A intenção de voto espontânea (quando o eleitor diz, sem ajuda, o nome de seu candidato preferido) ainda é muito baixa. Em São Paulo, dois em cada três não têm um candidato na ponta da língua. Há muito espaço para reviravoltas - o que não significa que elas vão ocorrer.

As eleições costumam girar em torno do histórico de votação a favor ou contra um partido/liderança, do desejo do eleitor pela mudança ou continuidade de quem está no poder, e das características pessoais dos candidatos. A propaganda tem o poder de inclinar esses três eixos, mas raramente subverte a tendência original. O problema é que, enquanto a propaganda não começa, o eleitorado hiberna.

É a campanha que mobiliza o interesse das pessoas, deixa claro quem está de qual lado, transforma desconhecidos em candidatos, acorda o eleitor. Como a campanha não ganhou as ruas nem a TV, a fotografia captada agora pelas pesquisas reflete um cenário potencialmente distinto do de 6 de outubro, pois o pesquisador impõe um problema sobre o qual o entrevistado ainda não pensou.

PT x Anti-PT. Enquanto o eleitor começa a abrir os olhos, vale espiar os eixos estruturais da eleição paulistana. Desde 1988, ela é um embate PT vs. anti-PT. Nas seis disputas, o PT sempre chegou em primeiro ou segundo lugar. Ganhou dois pleitos e perdeu quatro: duas vezes para o malufismo e duas para tucanos e afins. Nem o malufismo nem o tucanato têm o mesmo retrospecto. Ambos ficaram fora da reta final em mais de uma eleição. Esse histórico é o principal capital de Haddad, mas insuficiente para elegê-lo.

Em duas campanhas presidenciais, Serra personificou o antipetismo. Sua intenção de voto mistura tucanos e paulistanos que preferem qualquer outro a um petista na Prefeitura. Ele estacionou no patamar dos 30% desde que se lançou candidato, mas não deve ficar ali por muito mais tempo. Na campanha de TV, Serra tentará se firmar como o mais forte antipetista e subir. Não à toa, comparou o petismo ao nazismo na semana passada. Tenta espantar o fantasma de 2008.

O risco iminente para o tucano não é Haddad, mas Russomanno. Se o candidato do PRB pintar com força para derrotar o PT, parte do eleitorado antipetista que hoje declara voto em Serra pode migrar para ele. Foi assim em 2008. Gilberto Kassab atropelou na propaganda eleitoral, ultrapassou Geraldo Alckmin (PSDB) e derrotou Marta Suplicy (PT). Para sorte de Serra, Russomanno não tem o tempo de TV que Kassab tinha.

O atual prefeito paulistano está no centro do segundo eixo estrutural da eleição: mudança versus continuidade. Com nota média de 4,4 dada pela população (ele só se atribui nota 10), Kassab é o mais mal avaliado prefeito das capitais pesquisadas pelo Datafolha. Ele acha que a propaganda eleitoral de Serra vai transportá-lo do atoleiro da impopularidade para as graças dos paulistanos. É sua última esperança.

Enquanto Papai Noel não vem, o drive da eleição em São Paulo é pela mudança. Em Belo Horizonte e Rio de Janeiro, os prefeitos são bem avaliados e lideram as pesquisas de intenção de voto. Isso não significa que estejam reeleitos, mas será muito mais difícil para os candidatos de oposição derrotá-los do que será em Curitiba, por exemplo. Para Serra, o desejo de mudança atrapalha tanto mais quanto ele aparecer ao lado de Kassab.

Sobram as características pessoais dos candidatos. Serra é universalmente conhecido e, junto com o favoritismo, carrega a rejeição de um terço do eleitorado. A propaganda de TV tentará mudar isso, mas Serra é o que o eleitor já conhece. Não tem surpresa. A tradição é sua força.

Haddad é um candidato desconhecido de um partido forte mas dividido e desmobilizado, pelo menos até agora. Para se eleger, depende menos de si do que de seus padrinhos e aliados. A novidade é sua força e sua fraqueza.

Num cenário beligerante entre petistas e antipetistas, Russomanno é um conciliador. Não tem lado. Seu mote histórico é promover o "bem" para ambas as partes. Na maior explosão do consumo popular no Brasil, notabilizou-se por defender o consumidor na TV. Pode rir agora.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

A setenta dias da eleição:: Renato Janine Ribeiro

Faltam pouco mais de dois meses para as eleições municipais, em todo o País menos Brasília e Fernando de Noronha, e só mudará o quadro dos candidatos no caso, excepcional, de renúncia ou morte. Nas capitais dos Estados, o panorama não é positivo para o Partido dos Trabalhadores. A situação melhora se passarmos às cento e poucas cidades mais populosas, ou aos 5565 municípios brasileiros. Mas o que chama a atenção politicamente são as capitais. Em poucas delas o PT é competitivo. Renunciou a concorrer no Rio de Janeiro e em Curitiba. Está fraco em Porto Alegre. Só disputa a prefeitura de Belo Horizonte porque falhou a aliança com o PSB. No Recife e em Fortaleza, vai sem os aliados prováveis, PCdoB e o PSB. Ganhará em São Paulo apenas se seu representante saltar várias posições. Isso, para ficar nas maiores capitais.

Quem ganha, quem perde com isso?

Quem mais se arrisca com as candidaturas do PT é o ex-presidente Lula. Foram dele duas apostas de alto risco, ambas em São Paulo: a candidatura do desconhecido e não-favorito Fernando Haddad e a aliança com o velho inimigo Paulo Maluf. As duas decisões, monocráticas, impostas sem discussão, são bem diferentes entre si. Podemos divergir do nome de Haddad em nome da viabilidade política, mas não por questões morais. Na educação, mesmo pesquisadores anti-petistas respeitam e até elogiam o ex-ministro. Se os problemas do Enem fazem pairar sobre ele a suspeita de voluntarismo, não há o menor indício de que tenha sido desonesto. Já a lamentável aliança com Maluf desperta forte condenação moral. Não me impressiono quando a sentença é proferida pelos concorrentes do PT; os tucanos já se valeram de Maluf, inclusive num famoso outdoor com FHC, quando precisaram de seu tempo na televisão e de seus eleitores. Mas me preocupo com a opção nela mesma. Maluf e os petistas sempre estiveram em campos opostos da política paulista e paulistana. É verdade que ele hoje é uma sombra do que foi. Sequer pode sair do Brasil, único país em que está a salvo do mandado de prisão da Interpol. Sua importância está nos minutos de televisão. É pouco provável que seu nome, mesmo, traga votos. Ainda assim, as fotos dele com Lula e Haddad, para dizer o mínimo, constrangem.

Um cenário bom para Dilma, mas não para Lula

Lula, com suas opções paulistanas, está numa situação sem meio termo. Ou ganha, e muito, ou perde, e muito. Tudo depende da vitória ou derrota de Haddad. Se ele vencer as eleições - o que significa, em dez semanas, galgar dezenas de pontos na preferência dos votantes - Lula será o gênio eleitoral, intuitivo, do País. Terá conseguido, em dois pleitos sucessivos, levar à vitória um nome desconhecido, nunca testado em eleições e escolhido só por ele. A opção moral, mas imprudente, de lançar Haddad será saudada. A opção pouco moral, embora prudente, de unir-se a Maluf será esquecida.

Já se o candidato do PT perder o pleito paulistano, o prestígio de Lula sofrerá seu maior revés desde o sucesso presidencial. Lembro a carta que Francisco I, rei de França, escreveu à mãe em 1525, depois de aprisionado em Pávia pelos exércitos de Carlos V, imperador alemão e rei de Espanha: "Madame, tudo está perdido, menos a honra". (Por sinal, geralmente se omite que o rei acrescentou "e a vida", o que reduz a grandeza da frase). Pois é. Quando se vence, a honra passa a segundo plano. O grande exemplo foi a vitória de Collor na eleição de 1989, recorrendo na última hora a uma acusação sórdida a Lula. Venceu. Mesmo assim, sua imagem ficou maculada. A oposição jamais reconheceu a legitimidade de quem ganhara, mercê de expediente tão duvidoso. O "impeachment" de Collor, três anos depois, teve outra causa - o malogro do combate à inflação. Mas foi fortemente adjetivado pela aversão que parte significativa da sociedade brasileira sentia pela cena primitiva de seu acesso ao poder.

Uma aliança com um político hoje em desaceleração não tem o mesmo peso que o episódio de Collor em 1989. Mas resta que, se a aposta de Lula der errado, sua imagem - tão boa, depois de dois mandatos em lua de mel com o Brasil - pagará um preço.

E a presidenta Dilma Rousseff? Até o momento, ela conseguiu marcar uma distância, simpática aos olhos do eleitorado, perante os partidos políticos. Vários ministros seus foram acusados de práticas pouco éticas, no primeiro ano de mandato. Nada ou pouco foi provado que fosse criminoso. Mas ela afastou rapidamente os nomes queimados.

Poucos observam que, em função disso, pararam as acusações. Ao longo de 2011, cada vez que caía um ministro, outro era atacado. Este ano, a cena mudou. Os ataques se voltaram contra Lula e se associaram às eleições municipais. A presidenta se preserva e está preservada. Nos setenta dias que faltam para o primeiro turno, e nos três meses que nos separam do resultado final nos municípios em que houver segunda volta de votação, isso pode se modificar. Dilma pode arregaçar as mangas, pedir votos, ir para a arena política. Tem, como todo cidadão e como todo político, pleno direito de fazê-lo. Mas, por enquanto, estamos numa situação em que ela parece apta a colher os bônus das eleições sem pagar os ônus de suas preferências eleitorais. Terá, porém, que medir se as vantagens dessa posição, digamos, de magistrado, compensam algumas derrotas que serão possíveis, caso não desça à planície das urnas. Por ora, contudo, o que temos é uma possível depreciação do renome de Lula e uma valorização do nome Dilma Rousseff. Ele polariza de frente com o PSDB, ela joga discretamente em todas as frentes. O balanço depende, para ela, dos eleitores brasileiros; para Lula, dos paulistanos.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

PT e PSDB medem forças em cidades ricas

Consideradas estratégicas, as 47 prefeituras brasileiras com orçamento anual de R$ 1 bilhão ou mais serão um capítulo à parte nas eleições municipais. Partido que comanda mais cidades do "Clube do Bilhão", com 11 prefeitos, o PT lançou 36 candidatos próprios nesses municípios. O PSDB, que tem 7 prefeitos, lançou 27 candidatos.

PT e PSDB medem forças em "cidades bilionárias" já com os olhos em 2014

Eleições 2012.. Concentrando quase 40% de todos os recursos municipais do País, 47 prefeituras com orçamentos iguais ou superiores a R$ 1 bi viram alvo dos partidos; petistas são hoje os que mais controlam Executivos locais do chamado "clube do bilhão"

Wilson Tosta

RIO - Com 37 % dos recursos disponíveis para os mais de 5.500 municípios brasileiros, 47 cidades (menos de 1% do total) integram um seleto grupo no País, o de prefeituras com orçamento anual igual ou superior a R$ 1 bilhão. Não por acaso, as disputas por uma cadeira de prefeito nesse "clube do bilhão" devem ser as mais acirradas na campanha deste ano.

O partido que comanda mais prefeituras no "clube" é o PT, com 11 prefeitos. Em seguida aparece o PSDB, com sete chefes de Executivo. PMDB e PDT vêm logo em seguida, com seis cada.

Como já dispõem de mais prefeituras bilionárias, tucanos e petistas, adversários no plano nacional, devem protagonizar também os principais embates. O PT está em campo com 36 candidatos próprios nessas cidades, enquanto o PSDB reúne um time de 27. Contando todos os partidos, 300 pessoas buscam uma das 47 "prefeituras bilionárias".

Vencer nos municípios com alto orçamento terá forte influência também nas eleições presidenciais e de governadores em 2014, avaliam os partidos. Daí a importância dada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à sucessão paulistana. Ele quer emplacar seu afilhado político Fernando Haddad, que tenta polarizar com o candidato tucano, José Serra.

Se levadas em conta apenas as capitais bilionárias, tucanos e petistas terão embate direto, além de São Paulo, em Belém, São Luís, Teresina, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Vitória, Porto Alegre, Campo Grande e Cuiabá.

Estudo. Neste ano, as 47 cidades mais ricas têm receitas orçamentárias somadas de R$ 164,3 bilhões, quase 37% do total disponíveis para todas as cidades do Brasil. Os recursos estão sendo divididos por 56,6 milhões de pessoas, 29,56% dos brasileiros (não foram incluídas no cálculo Brasília e Fernando de Noronha, onde não haverá eleições).

A receita per capita nessas cidades é de R$ 2.905,64, o que significa uma diferença de 35,6% em relação aos R$ 2.141,63 de 2010. O mesmo indicador para o conjunto das cidades naquele ano foi de R$ 1.699,55.

Os dados sobre os cofres das cidades são do estudo denominado Os Municípios Bilionários em 2012, da ONG Transparência Municipal.

"O que se verifica nestes locais é a concentração do PIB, da renda, da receita e até de parte da população", afirma o economista e geógrafo François Bremaeker, autor do estudo. Os números foram obtidos a partir de dados acumulados pela Secretaria do Tesouro Nacional do Ministério da Fazenda e, em alguns casos, das próprias prefeituras. Informações do IBGE também foram utilizadas. Em alguns casos foram feitas estimativas.

De acordo com o trabalho, em apenas quatro anos 16 municípios ascenderam ao clube. Desse conjunto, só três - Florianópolis (SC), Aracaju (SE) e Cuiabá (MT) - são capitais estaduais. Em 2009, início da gestão dos atuais prefeitos, apenas 31 tinham receitas de pelo menos R$ 1 bilhão por ano. Piracicaba (SP), Porto Velho (RO), Serra (ES) e Guarujá (SP) deverão chegar ao patamar bilionário em 2013.

Copa. Além de sua influência nas eleições de 2014, em decorrência da capacidade de investimentos, alguns dos municípios mais ricos têm um atrativo extra: serão sedes da Copa do Mundo, no mesmo ano da sucessão presidencial. Isso garantirá o recebimento de mais investimentos nos próximos dois anos.

"No Rio de Janeiro, já devem estar pesando os recursos para a Copa e também para a Olimpíada", afirma o pesquisador da Transparência Municipal.

Quando é considerada só a receita de impostos, os 47 municípios com orçamentos acima de R$ 1 bilhão em 2012 concentram 62% dos recursos - R$ 75,473 bilhões. Serão R$ 802,25 por habitante em 2012, contra R$ 632,22 em 2010 - 52,48% acima da conta per capita para todas as cidades brasileiras, onde chegou a apenas R$ 300,38 naquele ano.

Nos últimos dois anos, as receitas de tributos per capita subiram 27%, sem descontar a inflação. Já na conta de receitas de transferências constitucionais (dinheiro repassado de Estados e da União), a conta muda. As 47 prefeituras bilionárias recebem apenas 27% do montante de recursos recebidos dessa forma por todas as cidades do País.

"Principalmente por causa do Fundo de Participação dos Municípios, pelo qual os municípios pequenos recebem um valor per capita bem maior", afirma Bremaeker. "Digamos que o fundo per capita das cidades pequenas seja R$ 3.500, enquanto cidades como Rio e São Paulo têm R$ 70 por habitante. O que vai pesar para os grandes é o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS)."

No ranking dos orçamentos, as oito primeiras colocações estão com capitais estaduais - São Paulo (R$ 38,7 bilhões) e Rio de Janeiro(R$ 20,5 bilhões) na liderança. Na divisão per capita, porém, a primeira colocação do País pertence a Cubatão, na Baixada Santista, com R$ 9.628,24 - curiosamente, um município pobre.

Colaborou Felipe Frazão

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO