segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Fernando Gabeira - Que país é este do ‘imbrochável’?

O Globo

É preciso mais que um pênis ereto para debelar a fome de 33 milhões e a insegurança alimentar de quase 100 milhões

Sei que é uma pergunta batida, mas, na comemoração dos 200 anos da Independência, é razoável perguntar que país é este.

O que nos diz o presidente Bolsonaro subindo no palanque e gritando que é imbrochável? O que nos diz a multidão que o segue? O que nos diz o presidente comparando sua mulher com a do rival?

Estava meio perdido na melancolia de um desfile militar quando comecei a fazer essas perguntas. Como um velho delirante, concluí que estávamos quase prontos para participar da Segunda Guerra Mundial, embora até para isso os equipamentos tenham me parecido um pouco obsoletos.

No momento em que um grupo fez acrobacias com a própria arma, jogando-a para o ar, rodando-a febrilmente, pensei: isso é uma preparação para dias difíceis, um trampo diante dos sinais luminosos de trânsito?

Na verdade, enquanto Bolsonaro exorcizava aos gritos seu pavor da castração, a fumaça das queimadas na Amazônia começava a chegar a São Paulo. O cheiro de fumaça sempre teve um efeito de despertar consciências adormecidas, sobretudo quando acompanhado de calor.

Miguel de Almeida - O povo da rachadinha

O Globo

Palavras e atos de Bolsonaro, incensados por evangélicos de extrema direita, contradizem os ensinamentos cristãos

A turma da rachadinha, os bolsonaristas e agregados, embora desconheçam, intuem que toda crueldade tem origem no medo. Não devem ser leitores de Lúcio Sêneca, o tutor de Nero, mas é possível que desconfiem que o homem é tão miserável quanto ele imagina que seja.

Bolsonaro parece temer a prisão. Pastores como Silas Malafaia, a perda das celestiais isenções de impostos — na pessoa física e na jurídica. É uma boa dupla. Enquanto o primeiro libera as armas, o segundo evoca Jesus Cristo, mas escamoteia o Sexto Mandamento.

O que o pastor responderia ao axioma proposto dias atrás pelo capitão: se você (mulher) está trocando um pneu e surge um bandido, prefere ter na bolsa a (lei) Maria da Penha ou um revólver? Difícil essa?

Marcus André Melo* - Por que a atual disputa presidencial é diferente das anteriores?

Folha de S. Paulo

Há uma mescla de wedge issues, afeto e temas redistributivos na eleição atual

Há uma descontinuidade entre a atual disputa presidencial e as anteriores. Na Nova República, elas foram vertebradas pela dimensão socioeconômica; a atual tornou-se multidimensional.

Temas redistributivos e a macroeconomia (inflação/emprego) ocuparam a agenda política até 2018. PSDB e PT protagonizaram a disputa de narrativas em torno de quem redistribuía mais e/ou melhor (garantindo simultaneamente governabilidade fiscal e eficiência). E mais: o padrão de voto era cada vez mais segmentado por renda. Entretanto o país foi submetido a um duplo choque que destruiu as bases desta disputa.

O primeiro resultou da magnitude da debacle econômica após o superciclo de commodities, da euforia fiscal e da má gestão macroeconômica dos governos Lula (segundo mandato) e Dilma. A crise produziu colossal reversão de expectativas sobretudo nas novas camadas que haviam experimentado mobilidade vertical. O sentimento antissistema prosperou.

Celso Rocha de Barros - A campanha normal acabou

Folha de S. Paulo

Nela, Jair já perdeu; o que resta para as próximas semanas é a anormalidade

A revista britânica The Economist, que a elite brasileira lia antes de começar a dar mamadeira de coturno para seus filhos, trouxe em sua capa essa semana a foto do Jair com o texto "Bolsonaro prepara sua grande mentira para o Brasil".

"A Grande Mentira", nesse contexto, tem um sentido bem específico. "The Big Lie" é o nome que os americanos dão à mentira segundo a qual Donald Trump venceu a eleição presidencial de 2020, mas foi vítima de fraude.

Não há, obviamente, um único indício que comprove isso. Se houvesse, seria "a grande dúvida", ou "o grande questionamento", mas é "a grande mentira".

Ana Cristina Rosa - Notícia boa para mulher

Folha de S. Paulo

Rosa Weber se tornará a 3ª mulher a presidir o STF desde sua instalação, em 1891

Como é caprichoso o destino. Por ironia —ou será efeito da chamada lei da atração?—, num momento de polarização política, a 20 dias das eleições gerais de 2022, numa nação que infelizmente tem se notabilizado pela violência política de gênero, uma mulher assumirá nesta segunda (12) o comando da mais alta corte judicial do Brasil.

Embora não se trate de "beijinho, presente ou férias" como há quem sustente por aí, essa sim é uma notícia boa para as mulheres.

A chegada de uma magistrada de carreira —que coincidentemente presidiu o Tribunal Superior Eleitoral nas eleições gerais de 2018— à presidência do Supremo Tribunal Federal neste exato momento é um marco na história.

Bruno Carazza* - As pistas do uso do Fundão nas eleições 2022

Valor Econômico

Distribuição de recursos indica prioridades dos partidos

As eleições de 2014 foram as mais caras da história. Num tempo em que as doações de empresas eram permitidas, grandes grupos como JBS, as construtoras Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, UTC e Odebrecht, os bancos Bradesco e BTG e mais as cervejarias Ambev e Petrópolis (para ficar apenas nos top ten) investiram pesado no financiamento de candidatos e partidos.

O custo final das eleições de 2014 foi de R$ 4,4 bilhões - ou R$ 7 bilhões em dinheiro de hoje, corrigido pelo IPCA.

Este ano ficará muito próximo daquele recorde. As doações de empresas foram proibidas, mas a classe política tratou de manter os cofres dos partidos irrigados, só que com dinheiro público. Para este ano são R$ 4,962 bilhões de fundão eleitoral e mais R$ 984 milhões de fundo partidário. Com praticamente R$ 6 bi assegurados, o que vier de doação privada será lucro.

Felipe Moura Brasil - As bolhas da estupidez

O Estado de S. Paulo

Lulistas e bolsonaristas podem aprender com a trajetória de Gilberto Freyre

“Não é nada fácil, mesmo para os mais lúcidos ou mais ousados, resistir ao canto da sereia das ideias dominantes.”

Esta foi, segundo o historiador Evaldo Cabral de Mello, a “grande lição” extraída por Maria Lúcia Pallares-Burke, “ao reconstituir” no livro Gilberto Freyre: um vitoriano nos trópicos “a trajetória tortuosa, mas corajosa (do eugenismo à valorização da mestiçagem)” que o sociólogo “teve de percorrer por sua própria conta e risco”, antes de publicar Casa-Grande & senzala, em 1933.

Pallares-Burke disse em entrevista de 2018 a Bernardo Buarque de Hollanda ter “um especial interesse por estudar o período formativo, aquilo que faz alguém se tornar ou realizar aquilo pelo qual depois ficou famoso”. Seu livro sobre Freyre apurou “o que teria feito um indivíduo que, quando jovem, compartilhava com a elite os preconceitos da época contra o mestiço, vendo-o como um elemento que impedia o progresso do Brasil, mudar drasticamente de atitude” e “se impor como um defensor da mestiçagem”.

Denis Lerrer Rosenfield* - Lula, o MST e o agro

O Estado de S. Paulo

Mal não faria o candidato do PT ao explicitar suas posições, sem tergiversar. Reconhecer os erros passados seria já um grande avanço!

Talvez Lula devesse se perguntar por que o setor agrícola se opõe tão veementemente à sua candidatura. De nada adiantam inventivas ideológicas, senão mentirosas, rotulando os produtores rurais de “fascistas e reacionários”. Se medisse um pouco as suas palavras e abandonasse essa retórica sem nenhum fundamento, não teria o risco de um efeito propriamente bumerangue. Durante anos – e até hoje –, justificou e apoiou a invasão de terras, com armas brancas e de fogo, do MST, que reinava soberano e impune no campo brasileiro. Isso para não falar de seu apoio incessante a todas as ditaduras que se dizem de esquerda – sendo a mais recente a da Nicarágua, com a prisão de vários padres católicos. Isso para não falarmos, ainda, das ditaduras vizinhas, como Venezuela e Cuba. Seriam eles “democratas e progressistas”?

Merval Pereira - Marina Silva perto de apoio a Lula

O Globo

Ex- ministra se encontrou com Lula e apresentou condições para apoia-lo

Após duas horas de reunião no escritório do PT em São Paulo, tudo indica que Lula e Marina Silva chegaram a acordos mínimos em relação a propostas sobre meio-ambiente para o programa de um futuro governo petista. Toda a cúpula petista estava presente para recepcionar Marina, e o candidato a vice Geraldo Alckmin chegou a comentar com assessores dela que nas viagens que tem feito pelo interior do estado tem constatado o grande apoio a Marina para deputada federal.

O maior indício é que o PT já publicou no seu Instagram oficial a proposta da ex-ministra, que tem com um dos principais temas a criação de uma Autoridade Climática no país acompanhar a execução do programa ambiental. Amanhã o PT deverá confirmar que aceita as propostas e, caso realmente aconteça, Marina Silva anunciará seu apoio ao ex-presidente Lula na corrida presidencial.

Petista e Marina farão pronunciamento hoje

Lula e ex-ministra estiveram juntos neste domingo

Por Raphael Di Cunto / Valor Econômico

BRASÍLIA - O ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT) encontrou neste domingo a ex-ministra e atual candidata a deputada federal Marina Silva (Rede), que por três vezes disputou a Presidência. A reunião foi divulgada pelo petista por meio de suas redes sociais e um pronunciamento conjunto foi marcado para esta segunda-feira, às 11h, em São Paulo.

“Hoje [domingo], a meu convite, depois de muitos anos, reencontrei com Marina Silva. Relembramos da nossa história, desde quando nos conhecemos. Conversamos por duas horas e ela me apresentou propostas para um Brasil mais sustentável, mais justo e que volte a proteger o meio ambiente”, disse Lula. Junto à publicação, foi divulgada uma foto em que Marina entrega um documento para ele. O Rede Sustentabilidade, seu partido, já apoia Lula, mas ela foi posição vencida.

O encontro vinha sendo negociado por aliados de ambos há meses, numa nova tentativa de mostrar uma “união nacional” contra a reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) e a disposição de Lula para fazer uma “conciliação” do país. Outro passo dessa estratégia foi o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), ex-adversário do PT, assumir como vice do ex-presidente nesta eleição.

Ricardo Mendonça - Lula dá guinada ao questionar Bolsonaro

Valor Econômico

Petista toma a ofensiva no debate sobre corrupção ao inquirir presidente sobre uso de dinheiro vivo na compra de imóveis

Mais que um ponto de inflexão em sua estratégia de campanha, o vídeo divulgado no feriado da Independência em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chama Jair Bolsonaro (PL) a explicar a compra de 51 imóveis por parte de familiares com dinheiro vivo pode ser considerado um marco da história do petista com o tema corrupção.

Oito anos depois da deflagração da Lava-Jato, seis anos após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e quatro anos depois de sua própria prisão - revogada com as peças de acusação derrotadas -, Lula retoma a ofensiva no tema que encurralou o PT e quase o levou a nocaute.

Até então, por razões táticas, petistas em geral evitavam o tema e nem sequer cogitavam “apontar o dedo” para levantar suspeitas contra rivais. Desde a noite do 7 de setembro, o comportamento tem sido radicalmente diferente.

Na manhã seguinte à data do Bicentenário da Independência, numa demonstração de que o tema havia sido alçado a um novo status, Lula voltou a citar a questão dos imóveis da família Bolsonaro numa carta ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

Embora o motivo da missiva fosse outro - justificar sua ausência em solenidade do Congresso sobre a Independência - ele achou relevante deixar registrado que Bolsonaro “poderia ter aproveitado o espaço generosamente cedido pela mídia para explicar como sua família conseguiu comprar 107 imóveis desde que ele entrou na política, sendo que 51 deles foram pagos em dinheiro vivo”.

Heloisa Murgel Starling* - De noviço a revolucionário

Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Frei Caneca foi o principal pensador político do processo de emancipação do Brasil que se desenhou a partir de Pernambuco, saltando do convento para as trincheiras na Revolução de 1817 e na Confederação do Equador, de 1824. Em seus escritos e atos práticos, associou a ideia de pátria à noção de virtude civil em relação à terra que se habita, defendeu uma Constituição que abarcasse uma lista de direitos e se opôs ao despotismo de dom Pedro, o que o levou à morte por fuzilamento.

A cabeleira amarelo-avermelhada era inconfundível. "Sou ruivo", disparou frei Caneca, em meio à polêmica que travou com o redator do jornal A Arara Pernambucana em junho de 1823, para confirmar, de uma vez por todas, a ascendência paterna portuguesa —aliás, a avó, Francisca Alexandrina, ganhara o apelido de Ruibaca, no Bairro Alto, em Lisboa, em consequência da ruividão.

A origem materna, ao contrário, estava entroncada desde meados do século 17, entre os indígenas e os escravizados africanos. Principiava na figura de sua trisavó, que ele reinventou com o nome Maria das Estrelas: "Pois é ponto de fé pia que essa Maria das Estrelas, minha trisavó, havia de ser alguma Tapuia, Potiguari, Tupinambá, senhora de muito mingau, tipoias, aipim e macaxeira; e também se foi alguma rainha Ginga, nenhum mal me fez; já está à porta o tempo de muito nos honrarmos do sangue africano".

O que se conhece sobre as origens de frei Caneca deve-se a ele mesmo, registrou o historiador Evaldo Cabral de Mello na introdução do volume que reúne seus principais escritos políticos. Difícil saber ao certo quando a investigação genealógica teve início, mas ela não tinha nada de inofensivo; servia bem ao debate público.

Desenrascar o enredo de sua ascendência talvez tenha lhe fornecido, ainda em 1822, algumas das respostas de que precisava para concretizar as bases de um projeto alternativo ao processo de Independência como empresado no Rio de Janeiro: federalista, voltado para a garantia do princípio do autogoverno provincial, ancorado na ideia de pátria e na figura de um personagem de inspiração republicana —o "cidadão patriota".

No dia 6 de março de 1817, antes mesmo de se processar a ruptura com Lisboa, a República foi proclamada na cidade do Recife. A Revolução de 1817 contestou o projeto de Império brasileiro encabeçado pela Corte instalada no Rio e abriu o ciclo revolucionário da Independência.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - “London Bridge is down!..”

A Rainha morreu. Vida longa ao Rei!...  Não dá quase tempo para respirar. A partir daquele momento, em cerimônia interna, todos se curvam e aclamam o sucessor. A Guarda Real assume o seu posto e, imediatamente, coloca-se a seu serviço. Desse momento em diante, quem, simbolicamente, manda, no Reino Unido, é o rei Charles III (Charles Philip Arthur George) e as maldições históricas. A primeira-ministra é comunicada em código: “London Bridge is down!”  

Parece um Golpe de Estado. Mas, não.   É assim que se faz na Inglaterra. A proclamação oficial do novo monarca, pelo chamado Conselho de Ascenção, acontece dois dias depois na presença dos membros do Parlamento, do Judiciário, do clero, representantes dos chefes de Estados dos países da Commonwealth (ex-colônias, que, independentes, ainda cultivam a monarquia inglesa como chefe de Estado) e toda a Família Real 

Muito diferente por aqui. Discute-se exaustivamente a eficiência e a neutralidade da tecnologia ou a possibilidade de fraude nas eleições. Concluído o pleito, o anúncio do resultado é provisório. As dúvidas são tantas, e é tanto recurso na Justiça que o reconhecimento dos vencedores oficialmente demora ainda uma semana. Perde-se depois um tempão escolhendo os convidados.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

É inadmissível cortar orçamento de áreas essenciais

O Globo

Para ampliar emendas parlamentares, governo propõe cortes em segurança, saúde, educação — e até na merenda

Em sua última manobra orçamentária, o presidente Jair Bolsonaro mudou por decreto a regra de autorização de despesas , para permitir a liberação de R$ 5,6 bilhões do orçamento secreto ainda antes da eleição, enquanto mantém o veto a verbas aprovadas pelo Congresso para Cultura e Ciência e Tecnologia. Cortes no Orçamento são naturais em qualquer governo diante do vaivém da arrecadação e das despesas previstas. O que não é natural é fechar a torneira em áreas essenciais, como educação, saúde ou segurança, e ao mesmo tempo deixá-la jorrar nas nebulosas emendas do relator, essenciais apenas para comprar apoio político no Parlamento.

Um exemplo cruel desse descontrole foi o veto de Bolsonaro ao reajuste, aprovado pelo Congresso, no valor que a União repassa a estados e municípios para comprar merenda escolar. São ridículos R$ 0,36 para alimentar um aluno do ensino fundamental ou médio e R$ 0,53 para crianças na pré-escola. Os valores estão congelados desde 2017, enquanto o preço dos alimentos disparou nos últimos meses. Não se deve ignorar que o refeitório das escolas é porto seguro para milhares de crianças que não têm o que comer em casa. A situação ficou evidente na pandemia, quando as escolas fecharam, e famílias pobres não tinham o que dar aos filhos.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - O lutador

 

Música | Beth Carvalho - As rosas não falam (Cartola)

 

domingo, 11 de setembro de 2022

Merval Pereira - A boca do jacaré

O Globo

Candidatos irão explorar o dilema dos eleitores para dar ou não a vitória a Lula no primeiro turno

Do jeito que as coisas vão, tudo indica que o eleitor que não é fanático por Lula nem Bolsonaro terá que enfrentar dilemas éticos e políticos na escolha de seu voto, até mesmo na decisão de anular ou votar em branco. Como o que conta para definir a vitória é ter 50% mais um dos votos válidos, o eleitor que invalidar seu voto estará permitindo que o vencedor precise de menos votos para se eleger.

Como diz o jargão das pesquisas eleitorais, a “boca do jacaré está fechando”, isto é, a diferença entre Lula e Bolsonaro está diminuindo desde o início da campanha, é possível que a reta final desencadeie nos eleitores um dilema que será explorado pelos candidatos. Dar uma vitória ao ex-presidente no primeiro turno seria uma resposta contundente contra Bolsonaro, mas também dar um cheque em branco a Lula.

Bernardo Mello Franco - Intolerância tem comando

O Globo

Clima de violência na campanha é fruto da retórica extremista que prega o ódio e exalta as armas

A intolerância política não dá em árvore. É fruto da pregação do ódio, da exaltação das armas, da retórica extremista que defende a eliminação de adversários.

No comício do 7 de Setembro, Jair Bolsonaro chamou seu principal oponente de “quadrilheiro de nove dedos”. “Esse tipo de gente tem que ser extirpado da vida pública”, vociferou.

Horas depois, a disputa presidencial produziu mais um cadáver. No interior de Mato Grosso, o lavrador Benedito Cardoso dos Santos, 42 anos, foi morto brutalmente por um colega de trabalho.

“O que levou ao crime foi a opinião política divergente. A vítima estava defendendo o Lula, e o autor, defendendo o Bolsonaro”, contou ao G1 o delegado Victor Oliveira.

Míriam Leitão - Cenário externo mais complexo

O Globo

Crescem as sombras sobre 2023 no Brasil e no mundo. A Europa está sem gás, os EUA, com juros altos, e a China, desacelerando

O Brasil vive um momento de trégua na economia que seria bom se não fossem os muitos temores em relação ao ano que vem e sobre a economia internacional. Com os anabolizantes, o PIB está subindo mais do que o esperado e com redutores artificiais a inflação caiu a um dígito pela primeira vez em 12 meses. O mundo vive uma nova onda de incertezas, apesar de momentos de alta das bolsas como a de sexta-feira. A Europa se aproxima do inverno sem poder contar com o gás da Rússia para aquecer as suas residências e movimentar a sua economia. Na China, o governo hesitou ao aplicar vacinas importadas em sua população e permanece às voltas com o lockdown que paralisa grandes centros econômicos. Nos Estados Unidos, o Fed avisa que os juros vão subir até que a inflação dê sinais claros de que está convergindo para a meta. É nesse ambiente que o Brasil se aproxima das eleições presidenciais.

Elio Gaspari - A Inglaterra de 1952 a 2022

O Globo

Elizabeth II morreu na quinta-feira. No dia 6 de fevereiro de 1952 ela era apenas princesa e estava no Quênia. Subiu no mirante de uma árvore e, ao descer, soube que o rei George VI, seu pai, morrera no Palácio de Buckingham enquanto dormia. Aos 26 anos, ela era a rainha da Inglaterra.

Muitas mudanças aconteceram durante seu longo reinado. Aqui vai uma, para quem manuseia uma nota de 50 libras.

Um mês antes da morte de George VI a casa do professor Alan Turing havia sido assaltada. Ele tinha 39 anos e era um notável matemático, inglês de vitrine. Haviam levado roupas, uma bússola e algumas facas. Coisa de 50 libras. Turing deu queixa à polícia e as impressões digitais deixadas num copo confirmaram sua suspeita. No roubo estava um jovem com quem mantinha eventuais relações homossexuais. Ele ameaçava contar tudo e tudo contou.

Enquanto os sinos tocavam pela morte de George VI, o caso mudou de aspecto. Havia um roubo, mas havia também a violação de uma lei de 1855, que previa penas de até dois anos de prisão para quem praticava “atos indecentes”. Em 1951, 174 ingleses foram condenados por violar essa lei. Em geral, pegaram menos de seis meses de cadeia. Inglês de vitrine, o próprio Turing havia contado à polícia sua relação com o jovem.

Dias depois do funeral do rei, o rapaz foi para a cadeia. Turing voltou para casa depois de pagar uma fiança. Em março de 1952 ele foi julgado e condenado a se submeter a “tratamento médico qualificado”.

Luiz Carlos Azedo - A pandemia, o passado e a polarização Lula versus Bolsonaro

Correio Braziliense

A três semanas do dia da votação, 2 de outubro, estamos no lusco-fusco entre o início da propaganda gratuita de rádio e televisão e as duas semanas decisivas da campanha eleitoral

É impossível tratar das eleições presidenciais sem se referenciar nas pesquisas, que estão sendo divulgadas quase que um dia sim e o outro também, e mostram pequenas discrepâncias entre si, que podem ser atribuídas a margens de erro ou à diferença de metodologia, mas mantém o sentido geral da disputa, polarizada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL). A três semanas do dia da votação, 2 de outubro, estamos no lusco-fusco entre o início da propaganda gratuita de rádio e televisão e as duas semanas decisivas da campanha eleitoral. O quadro pode sofrer alterações nos últimos 15 dias que antecedem o pleito, quando o debate sai do campo da chamada opinião pública, que acompanha a política, e passa a ser protagonizado pelos cidadãos comuns, no transporte coletivo, no supermercado, na fila da padaria etc.

Vinicius Torres Freire – Lula, por um punhado de votos

Folha de S. Paulo

Em cenário quase estável e apertado, nichos de eleitorado podem decidir a eleição no dia 2

Faz mês e meio, as diferenças nas pesquisas Datafolha sobre a eleição presidencial têm sido pequenas. Seria possível até dizer que, em caso extremo, improvável, a diferença entre Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) praticamente não se alterou nessas semanas. Não parece ser o caso, dado o conjunto das estatísticas, como a diminuição da vantagem petista também no segundo turno ou a melhora discreta da avaliação do governo. Mas a eleição pode se decidir em detalhes, em nichos, em punhados de votos.

Antes de continuar, três lembretes:

1. Lula tem 48% dos votos válidos no primeiro turno (já teve quase 52%, em fins de julho);

2. Eleitores não muito decididos de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) podem render dois pontos para Lula, no limite;

3. Parece ninharia, mas recorde-se: Lula passou para o segundo turno da eleição para presidente de 1989 com uma vantagem de 0,67% dos votos sobre Leonel Brizola (1922-2004), do PDT.

Janio de Freitas - Bolsonaro impotente

Folha de S. Paulo

Em práticas eleitorais legítimas, não tem muito o que fazer

Logo em seguida a dois grandes atos de campanha com transmissão nacional de TV —o de Brasília e o do Rio— e já em plena propaganda eleitoral de TV e rádio, Bolsonaro não colheu no Datafolha mais do que dois pontinhos presos na margem de erro. Duvidosos, portanto. São números positivos de um fracasso, ao contrário do que numerosas interpretações lhes atribuíram. Mais aproximam Lula do êxito no primeiro turno. Mas preservam ou aumentam as incertezas sobre as possíveis condutas dos militares em derrota de Bolsonaro.

Contradição aparente, o ganho de Bolsonaro não alterou a vantagem de Lula. Como Ciro perdeu dois pontos e os demais continuam estáticos, esses dois pontos fugidios compensaram os dois novatos de Bolsonaro. Mais dois, menos, a soma de todos os candidatos exceto Lula não aumentou. E só o aumento real dessa soma ou quedas de Lula podem distanciá-lo mais da decisão no primeiro turno.

Muniz Sodré* - O crime perfeito

Folha de S. Paulo

Frase de Trump evidenciou a diferença entre a lei e a regra

"Eu poderia ficar parado na Quinta Avenida, atirar em alguém e ainda assim não perderia um eleitor."

Essa frase recente de Donald Trump, perdida em meio à sua verborragia incivil, pode ser tomada como sinal forte da neobarbárie americana. Isso existe em larga escala e comprova-se em qualquer exame da cultura dos "rednecks" ou dos grupos de terrorismo interno. Mas a frase tem conotações que se irradiam para além dos EUA, quando se presta atenção às entranhas do neofascismo emergente em outras partes do mundo.

Bruno Boghossian - A conta de chegada de Ciro Gomes

Folha de S. Paulo

Pedetista precisaria tirar diferença de 27 pontos do presidente para desbancá-lo do 2º turno

Jair Bolsonaro foi até o púlpito em que estava Ciro Gomes pouco antes do debate entre os presidenciáveis, há duas semanas. Depois de um cumprimento, o presidente perguntou ao adversário: "Ô, Ciro, vai deixar o Lula voltar?". Aos risos, o pedetista retrucou: "Isso é problema seu. Renuncia que eu derroto ele".

O relato, feito por Ciro para explicar uma foto em que Bolsonaro cochicha em seu ouvido, mostra que o pedetista conhece o bloqueio matemático que o ameaça. Ainda que ele consiga melhorar seus números, a trajetória de recuperação de Bolsonaro torna reduzidas as chances de qualquer outro candidato enfrentar Lula num segundo turno.

Hélio Schwartsman - A ética da ciência

Folha de S. Paulo

Se há verdade inconveniente, é melhor lidar com consequências do que censurar

Cientistas são responsáveis pelo uso que se faz de suas descobertas? Colocando a coisa de forma bastante concreta, físicos deveriam ter renunciado a desvendar os segredos dos átomos porque esse conhecimento poderia levar às bombas nucleares? Puxando a brasa para as humanidades, devemos pôr na conta de Marx atrocidades que ditaduras comunistas cometeram evocando suas ideias?

Eliane Cantanhêde - Oscila, mas não sobe nem cai

O Estado de S. Paulo

O efeito das multidões do 7 de Setembro foi só isso e se esgotou ou está apenas começando?

O7 de Setembro de Jair Bolsonaro, transmitido à exaustão, fez cosquinha nos índices a favor da reeleição, deixando uma dúvida: as pesquisas captaram todo o impacto da demonstração de força bolsonarista, ou as imagens de imensas multidões na propaganda eleitoral da TV continuarão produzindo efeitos, atraindo eleitores e eleitoras? O efeito se esgotou ou está apenas começando?

A diferença entre Bolsonaro e o favorito das pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva, caiu de 26 para 11 pontos desde dezembro, mas a redução é a conta-gotas e foi só de dois pontos da última pesquisa Datafolha para cá, depois de o presidente Bolsonaro esquecer o 7 de Setembro e o bicentenário da Independência e deixar o candidato Bolsonaro livre, leve e solto em megacomícios à custa de recursos públicos e da implosão das leis.

Pedro S. Malan* - É assustador 3

O Estado de S. Paulo

Brasil precisa superar este quadriênio, sem acreditar que existe outro tipo de messianismo salvacionista

Escrevo este artigo sob vívida lembrança do 7 de setembro de 2021 e de seu importante day after, no qual Bolsonaro fez um recuo tático, sem abandonar sua estratégia. O recente 7 de setembro foi, como o anterior, cuidadosamente preparado. Com uma diferença chave: agora estávamos a 25 dias do dia da eleição. E o presidente conseguiu transformar o que deveria ser uma cerimônia cívica, data festiva para todos os brasileiros, em ato de campanha política. Um grande e inusitado comício no exercício do cargo, para captar imagens e mostrar ao Brasil e ao mundo quão popular é Bolsonaro junto de seu “povo”.

“É possível enganar algumas pessoas todo o tempo; é também possível enganar todas as pessoas por algum tempo; o que não é possível é enganar todas as pessoas todo o tempo.” A piada construída sobre a famosa frase de Abraham Lincoln não é menos relevante; um candidato à Presidência dos EUA teria dito: “Mas eu não preciso enganar a todos, bastam-me metade mais um dos votos válidos no dia das eleições. Depois, deixe comigo (leave it to me)”.

A estratégia do atual presidente parece clara. Suponha o leitor que a eleição não seja decidida no primeiro turno. Quanto menor a diferença de votos entre Lula e Bolsonaro, supondo que a favor do primeiro, maior a probabilidade de questionamentos sobre o resultado das urnas. A senha vem sendo dada há muito tempo: Bolsonaro respeitará o resultado das eleições, “desde que estas sejam limpas e transparentes”. No dia 8 foi mais explícito: “Alguém acredita que numa eleição limpa o Lula ganha?”. Assustadora polarização.

Almir Pazzianotto Pinto* - A inadiável reforma trabalhista

O Estado de S. Paulo

Acredito que nenhum dos candidatos à Presidência se deteve diante do problema da alta litigiosidade. Campanha peca pela superficialidade

Desafio fundamental para o Brasil do futuro consiste na eliminação do ambiente de temor e insegurança entre empregadores, gerado pela excessiva litigiosidade na esfera das relações individuais de trabalho. Para entendê-lo, basta consultar o relatório anual publicado no portal eletrônico do Tribunal Superior do Trabalho (TST), à disposição dos candidatos à Presidência da República, ao Senado e à Câmara dos Deputados.

Na avaliação de ministros do TST, é impossível julgar com a celeridade desejável centenas de milhares de recursos em andamento na Corte. O passivo anda em torno de 15 mil processos em cada gabinete, havendo alguns onde o número é maior. Os assuntos mais comuns, segundo o relatório de 2021, referem-se a “aviso-prévio, multa de 40% do FGTS, multa prevista no artigo 477 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), adicional de horas extras e multa prevista no art. 468 da CLT”. O tempo médio, entre o ingresso da ação e o encerramento, na fase inicial de conhecimento, é de 3 anos e 6 meses, e de 2 anos e 10 meses no processo de execução, o que nos dá o total de 6 anos e 4 meses. Há casos de sentenças transitadas em julgado que jamais foram liquidadas, ou porque o empregador desapareceu, ou a empresa faliu, ou o reclamante faleceu.

Entrevista | Steven Levitsky – A dúvida como ameaça

'Nível de descontentamento das pessoas é altíssimo', afirma Levitsky, coautor de 'Como as democracias morrem'

Escritor chama a atenção para o alto risco de estratégias políticas que desprezam instituições, como a adotada por Trump nos EUA e a exibida por Bolsonaro no 7 de Setembro

Por Janaína Figueiredo / O Globo

No segundo volume de “Como as democracias morrem”, que pretende lançar no segundo semestre de 2023, o professor da Universidade Harvard Steven Levitsky, coautor do livro junto com Daniel Ziblatt, analisa a reação ao avanço do plano de democracia multirracial nos Estados Unidos. Foi liderada pelo Partido Republicano, de Donald Trump, cujo autoritarismo, Levitsky aponta, os americanos não levaram a sério em 2016.

Para ele, os brasileiros cometeram o mesmo erro com Jair Bolsonaro (PL), que na semana passada usou o 7 de Setembro para mais uma vez ameaçar o Supremo. Em entrevista ao GLOBO, o cientista político avalia que Bolsonaro ensaia estratégia similar à do ex-presidente americano, que nunca admitiu sua derrota.

O senhor está escrevendo a segunda parte de “Como as democracias morrem”, pode antecipar algo do novo livro?

Estamos em meio ao processo, vamos terminar nos próximos meses e publicar daqui a um ano. O foco principal são os EUA, mas acho que será importante para outros países e, sobretudo, para o Brasil. Falamos sobre a transição a uma democracia multirracial, que está muito avançada nos EUA, e a reação autoritária contra. Tentamos explicar como e por que o Partido Republicano, que era um partido conservador, de direita, mas que sempre jogou dentro das regras da democracia, transforma-se num partido radical e cada vez mais antidemocrático.

Com a chegada de Trump?

Começa antes e vai continuar depois de Trump, que é sintoma, não causa. Ele surge como parte dessa transformação do Partido Republicano. Para nós, essa radicalização é reação à democracia multirracial.

Vê paralelo com o Brasil?

Sim. Para nós, o que aconteceu com o Partido Republicano chama a atenção porque muitos partidos nascem autoritários, mas são poucos os que nascem democráticos, permanecem democráticos por mais de um século e depois mudam. O livro também aponta como obstáculo à democracia multirracial o próprio sistema político americano. Nossas instituições são herdadas do século XVIII. Nascemos como a república mais democrática do mundo, mas nunca mudamos. Nosso sistema bloqueia as maiorias em todos os lugares. Não existe democracia no mundo que tenha o sistema de colégios eleitorais. Temos um dos senados menos democráticos do mundo, os juízes da Corte Suprema são vitalícios. Apresentamos argumentos para democratizar os EUA.

Cristovam Buarque* - Chile ensinou

Blog do Noblat / Metrópoles, (10/9/22)

Recusaram a utopia sonhada na nova constituição, por perceberem que ela era inviável

Ao recusar uma nova constituição, elaborada com propostas progressistas nos direitos humanos, conquistas sociais, proteção ambiental, o eleitor chileno mostrou que a utopia deve estar subordinada à responsabilidade. Fazer uma utopia de sonhos sem base na realidade política e fiscal leva à instabilidades que propiciam inflação monetária, interrupção da democracia, retrocessos civilizatórios. No domingo passado, o povo chileno passou uma lição ao mundo, especialmente aqueles que sonham com um mundo melhor e possível. Recusaram a utopia sonhada na nova constituição, por perceberem que ela era inviável; e que não têm sustentabilidade as leis e constituições desvinculadas da realidade.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

A César o que é de César

O Estado de S. Paulo

Ao condenar a manipulação religiosa para fins eleitorais, a CNBB faz importante defesa do regime democrático. O Estado é laico e, nele, deve imperar a liberdade política

Perante as inúmeras tentativas de usar a religião para angariar votos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lembrou recentemente que a manipulação religiosa “desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados em nosso Brasil”. Em nota publicada no último dia 2, os bispos católicos manifestaram preocupação com a instrumentalização da religião “protagonizada por políticos e religiosos”.

O problema não é teórico e vem causando danos muito além da própria liberdade política. A manipulação da religião para fins políticos tem sido ocasião de violência. No dia 31 de agosto, um fiel foi baleado dentro da igreja da Congregação Cristã no Brasil, em Goiânia, por discordar das falas do pastor que pregava o voto contra a esquerda. O disparo foi feito por um policial militar de folga que se envolveu na discussão política.

Poesia | Pablo Neruda - Saudade

 

Música | Chile: Golpe Militar 11/9/1973. Quilapayun - Que dira el Santo Padre, Te recuerdo Amanda

 

sábado, 10 de setembro de 2022

Pablo Ortellado - Atacar pesquisas é tática bolsonarista para contestar resultado da eleição

O Globo

'Datapovo' anda de braços dados com questionar urnas eletrônicas

Havia grande receio sobre o que poderia acontecer no 7 de Setembro. Enquanto se temia que, no discurso do presidente Jair Bolsonaro, viessem duros ataques às urnas eletrônicas, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), um dos principais alvos foram os institutos de pesquisa.

Em Brasília, Bolsonaro disse:

— Nunca vi um mar tão grande com essas cores verde e amarela. Aqui não tem a mentirosa Datafolha. Aqui é o nosso Datapovo.

No dia seguinte, na live presidencial das quintas-feiras, ele retomou:

— Alguém acha que esse cara [Lula] vai ganhar a eleição? O Datafolha, por exemplo, [diz que] pode ganhar no primeiro turno. Alguém acredita que, em eleições limpas, o Lula ganha?

Um dos objetivos da mobilização para o 7 de Setembro era produzir imagens eloquentes que questionassem o que mostram as pesquisas de intenção de voto. Afinal, como um presidente capaz de levar tanta gente às ruas pode estar atrás de Lula, ainda correndo o risco de perder no primeiro turno?

Ao gerar descrédito nos institutos, sugerindo que Bolsonaro vencerá, o bolsonarismo tenta evitar um fenômeno conhecido: a tendência de alguns eleitores de votar no favorito. Se conseguir convencer parte do público de que as pesquisas não valem e de que devem prevalecer as fotos de multidões mobilizadas, pode ser que esse empurrão rumo ao favorito vá para Bolsonaro, e não para Lula.

Eduardo Affonso - ‘Que diabos quer dizer imbrochável?’

O Globo

Coração de Dom Pedro I acabou destronado por um pinto presidencial, num evento nada republicano

Coitado do coração de Pedro I. Penou pelo amor da marquesa de Santos, bateu forte por dançarinas, atrizes, escravas, damas da corte, uma freira e sabe-se lá quantas outras mulheres. Deve ter disparado nos muitos retornos furtivos ao Palácio de São Cristóvão, onde o esperavam — cada uma a seu turno, mais ou menos resignadas — as imperatrizes Leopoldina e Amélia.

Há de ter se angustiado, o pobre coração, ao deixar para trás — e para nunca mais — quatro filhos pequenos e embarcar de volta a Portugal, a fim de garantir o trono da filha Maria da Glória. E de ter sofrido com a deslealdade do irmão Miguel, com a indiferença da mãe, Carlota Joaquina.

Durou pouco, esse coração: menos de 36 anos. Nem por isso lhe faltaram emoções: acelerou aos 9, fugindo, de madrugada, das tropas de Napoleão. Aos 23, é provável que tenha descompassado, às margens plácidas de um riacho de águas vermelhas, enquanto proclamava a Independência do Brasil. Parou definitivamente às 14h40 de um 24 de setembro de 1834, no mesmo quarto em que batera pela primeira vez fora do ventre materno.