O Estado de S. Paulo
Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil
Na raiz de nossos problemas de pobreza e de
desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a
desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas
públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais
nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por
especialistas em educação no Brasil e no mundo.
Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.
Entre 1981 e 2020, cerca de 6 milhões de
chineses estudaram no exterior, dos quais 20 a 30% cursaram pós-graduação.
Estima-se que entre 300 mil e 500 mil tenham obtido o título de doutor em
universidades dos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália, Alemanha, Japão e
Singapura, nas áreas de engenharia, matemática, ciência da computação, física,
química e ciências biomédicas. Antes de 2000, menos da metade retornava à
China; naquele ano foram criados programas de incentivo ao retorno, e após
2010, mais de 80% passavam a retornar ao país em algum momento da carreira.
A política foi um extraordinário sucesso. Em
2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property
Organization (Wipo), das 100 principais clusters de inovação no mundo, a China
tinha 24 e os EUA 22. O Brasil, 1. O ex-presidente Barack Obama, que tinha
profundo interesse nesse processo, afirmou repetidas vezes ao longo dos anos
que educação de qualidade mundial era prérequisito para o sucesso de qualquer
país. “Countries that outeducate us today will out-compete us tomorrow” (“os
países que hoje investem mais e melhor em educação amanhã serão mais
competitivos do que nós”, em tradução livre), explicava.
A rivalidade EUA/China continuará
impulsionando a competição geopolítica global. Os EUA lideram na inovação de
ponta, especialmente em semicondutores e (ainda) na fronteira de inteligência
artificial (IA), enquanto a China se destaca na implementação de IA em larga
escala, na manufatura e no controle de cadeias de suprimentos, de minerais
críticos e de outros insumos industriais. Mas não é menos certo que aos dois
rivais interessa aquilo que os chineses chamam de “estabilidade estratégica
construtiva”, expressão que é manifestação de ambiguidade construtiva da China
enquanto segue na disputa por esferas de influência no mundo. Em entrevista recente,
Xi Jinping ofereceu sua própria definição da armadilha de Tucídides: “We all
need to work together to avoid the Thucydides Trap – destructive tensions
between an emerging power and established powers” (“Todos precisamos trabalhar
juntos para evitar a Armadilha de Tucídides – tensões destrutivas entre uma
potência emergente e as potências estabelecidas”, em tradução livre).
É possível fazer um paralelo entre aquele
amplo programa de financiamento à ciência e educação, do qual a China foi
beneficiária, com a ambiciosa iniciativa que agora põem em marcha os chineses.
Em meados de julho, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu outros 29
países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation
Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura oficial do encontro
como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência
artificial no mundo. Companhias chinesas deverão tornar a IA amplamente
disponível por meio de open source models, e o governo chinês propõe-se a
treinar países a capacitar milhares de pessoas na aplicação de IA. Foram
anunciados a oferta de “5 mil oportunidades” de treinamento, programas e
seminários nos próximos cinco anos, e o desenvolvimento de International AI
Applications Centres (IAICC). Xi apresentou a organização como instrumento para
ampliar a participação dos países do Sul Global na definição das normas
internacionais de IA – por meio da adoção de código aberto, cooperação
tecnológica e acesso amplo às capacidades de IA.
Respondendo em 1995 a uma pergunta sobre
desenvolvimento tecnológico, Celso Furtado afirmou: “O que interessa no
progresso tecnológico é a qualidade do fator humano, o que não se improvisa.
Não basta investir, botar mais dinheiro. Toma tempo formar de verdade gente
qualificada. (...) O progresso tecnológico depende da qualidade de material
humano”.
Pena que educação e saúde não pareçam
constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte
das lideranças políticas do País. Talvez o debate público em 2026 ainda possa
levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas
áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico claro para a
sociedade sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar
como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro nesta
área.
Pais, feliz dia! •

Nenhum comentário:
Postar um comentário