Correio Braziliense
Essa narrativa, embalada por jargões técnicos
para impressionar o leigo, tenta convencer a opinião pública de que o remédio
amargo dos juros reais mais altos do mundo é a única alternativa para conter os
preços
Tornou-se um dogma quase religioso entre
analistas e economistas ligados ao sistema financeiro a tese de que a
desaceleração da atividade econômica é um "efeito desejado" do aperto
monetário e que o Banco Central precisa manter a taxa de juros nas alturas para
"reconstruir sua credibilidade". Essa narrativa, embalada por jargões
técnicos para impressionar o leigo, tenta convencer a opinião pública de que o
remédio amargo dos juros reais mais altos do mundo é a única alternativa para
conter os preços. Trata-se, contudo, de um diagnóstico profundamente
equivocado, que confunde a doença com o remédio e sacrifica o desenvolvimento
nacional no altar do rentismo.
O vício de origem desse arranjo reside na fixação de uma meta de inflação em 3% ao ano. Nos últimos 27 anos de vigência do sistema de metas no Brasil, a média histórica do IPCA acumulado em 12 meses situou-se acima de 5,5%. Essa diferença não é mero detalhe estatístico: reflete a realidade de uma economia dotada de forte memória inflacionária e mecanismos arraigados de indexação formal e informal.
Contratos de aluguel, tarifas públicas,
mensalidades escolares e reajustes salariais são recompostos olhando para o
retrovisor — isto é, pela inflação passada, e não pela meta futura fixada no
papel. Tentar impor uma meta de 3% a uma economia estruturada para remarcar
preços com base em 5% ou 6% equivalem a exigir que um veículo popular alcance a
velocidade de um carro de FórmuIa 1 apenas pisando no acelerador do
estrangulamento monetário. A meta não guia as decisões do dia a dia; serve
apenas para assegurar o seu descumprimento.
É exatamente nesse ponto que desmorona a
falácia da "construção de credibilidade". No sentido coloquial e na
boa prática das instituições, ter credibilidade significa demonstrar a
capacidade de cumprir aquilo que se comprometeu a realizar. Quando o Conselho
Monetário Nacional (CMN) estabelece um objetivo descolado das possibilidades
concretas da estrutura produtiva, o Banco Central é condenado a falhar. A perda
de reputação da autoridade monetária não decorre de uma suposta falta de
firmeza em elevar a Selic, mas sim da própria irrealidade da meta estipulada.
Prometer o impossível e fracassar sistematicamente não gera confiança; gera
descrédito. Insistir nessa fórmula na esperança de que a realidade se dobre
magicamente ao modelo abstrato é a clássica "indução reversa"
denunciada pelo saudoso Mário Henrique Simonsen: o erro metodológico de querer
forçar o mundo real a se encaixar na teoria, em vez de ajustar a teoria aos
fatos.
O aspecto mais perverso — e tragicamente
menos compreendido — dessa política é que manter a taxa Selic em patamares
extorsivos por tempo prolongado acaba sendo contraproducente para o próprio
controle da inflação no médio e longo prazo. Na teoria macroeconômica, chamamos
esse fenômeno de histerese do lado da oferta. Quando o crédito se torna
proibitivo e a taxa de juros real supera em muito o retorno da atividade
produtiva, o empresariado paralisa investimentos, cancela a modernização de
fábricas e adia projetos de inovação. Paralelamente, o desemprego e o
subemprego prolongados depreciam as qualificações dos trabalhadores.
O resultado prático é a atrofia da capacidade
instalada da economia. Ao destruir o potencial de oferta da indústria e dos
serviços, qualquer ensaio de recuperação futura da demanda faz com que o país
esbarre rapidamente em gargalos de produção. Em bom português: ao estrangular o
investimento produtivo hoje sob o pretexto de conter a demanda, a taxa de juros
excessivamente alta gera escassez e contrata a inflação de amanhã. A política
monetária torna-se, assim, a geradora do próprio problema que promete combater.
Se a estratégia é tecnicamente falha e danosa
ao país, por que o mercado financeiro a defende com tamanha intransigência? A
resposta não está na ciência neutra, mas no conflito distributivo. A taxa de
juros não é uma variável puramente técnica; é um instrumento que determina quem
ganha e quem perde na sociedade. Juros reais estratosféricos garantem
rentabilidade elevada, segura e sem risco para detentores de capital financeiro
e intermediários de títulos da dívida pública. Por outro lado, cobram a conta
sobre a produção real, sobre os cofres públicos — que sangram centenas de
bilhões de reais em pagamento de juros da dívida —, e sobre os trabalhadores,
punidos com a precarização do emprego. A retórica da "dívida de credibilidade"
nada mais é do que o álibi perfeito para perpetuar a transferência maciça de
recursos da sociedade para o rentismo.
Está na hora de encarar o debate monetário
com pragmatismo e coragem. Reconstruir a verdadeira credibilidade da política
monetária exige alinhar a meta de inflação com a realidade estrutural
brasileira — ajustando-a para um patamar factível, como 4% ou 4,5% —, ao mesmo
tempo em que se enfrentam os mecanismos institucionais de indexação de preços e
tarifas. O Brasil precisa libertar seu setor produtivo da armadilha dos 3% e
parar de sacrificar seu futuro em nome de dogmas que enriquecem a especulação e
empobrecem a nação.
*Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB)

2 comentários:
Perfeito.
Realmente perfeito! A economia nunca foi uma ciência neutra. E a taxa de juros da Selic serve muito mais aos donos do sistema financeiro do que aos usuários.
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