quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Uma aposta perdida, por Elio Gaspari

O Globo

A jogatina faz seu estrago, e só

Está saindo do forno uma Medida Provisória que limita a jogatina liberada pelo governo. Lula gostaria de acabar com ela, mas, como já explicou, não é dono do país. A favor mesmo, só o Ministério da Fazenda. Ele calcula que, se as apostas fossem proibidas, a Viúva deixaria de arrecadar R$ 12 bilhões.

A teia de interesses que gravitam em torno da jogatina fortalece-se a cada dia. Basta dizer que os clubes de futebol ameaçam com o fim do esporte no Brasil caso as apostas sejam proibidas. Como o Brasil ganhou cinco Copas do Mundo sem o patrocínio de casas de apostas, ninguém explica. Também não explicam por que no ano da Copa das Apostas, a seleção voltou para casa depois das oitavas de final.

A jogatina foi legalizada com o propósito de bombar a arrecadação e, com esse objetivo, descuidou-se dos detalhes. Como lembrou Lula, com os celulares, cada sala de jantar virou um cassino. Em 2025, as apostas drenaram R$ 62,5 bilhões dos orçamentos familiares, e o comércio perdeu R$ 143,8 bilhões em dois anos. Parte desse dinheiro vai embora do país.

(Não se acredite que com um Bolsonaro a coisa melhore, pois Jair prometeu ao rei dos cassinos de Las Vegas abrir as casas de jogo.)

É improvável, mas era possível, que o Brasil abrisse um mercado de apostas de forma ordenada. Como as tratativas deram-se no escurinho de Brasília, o resultado foi o pior possível. Disso resulta que o governo está tonto, correndo atrás do prejuízo social e sujeito aos mais diversos tipos de pressão.

A iniciativa que tentou limitar a publicidade durante a Copa do Mundo foi um tiro que saiu pela culatra e permitiu aos interessados atribuir a lambança ao Palácio do Planalto. Produzida no caos, a legislação da jogatina viceja no caos e, se ninguém se mexer, o caos servirá de justificativa para a desordem que ele mesmo provoca.

Se o crime organizado consegue se infiltrar em fundos de investimento da Faria Lima, o que ele não consegue fazer em casas de apostas? Um ex-funcionário do Banco Master lava dinheiro no jogo do tigrinho. A banda da jogatina tem alguma má consciência. Só isso explica a tentativa de impor 100 anos de sigilo às negociações para autorizar o funcionamento de casas de apostas.

O ex-ministro da Fazenda e atual candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad defende que as casas de apostas sejam proibidas. Como? A ver. Seus argumentos são fortes: “Isso não está fazendo bem para ninguém”.

— Não gera emprego, há evasão de divisas, o que vai de dinheiro para fora é uma montanha de dinheiro, e nós podemos estar falando em alguma coisa entre 0,5% e 1% do PIB. É muito dinheiro para uma coisa que está gerando o quê de bem-estar? Não está gerando bem-estar nenhum — afirmou.

Cinco capitais e dois estados já criaram regras que restringem a publicidade das apostas.

No mundo digital, é impossível acabar com as apostas com uma canetada, como fez o presidente Dutra em 1946, mas pode-se pôr alguma ordem na festa. Se as restrições impostas às apostas seguirem o modelo das que são aplicadas aos cigarros e às bebidas, já é um bom começo.

 

2 comentários:

Anônimo disse...

Bolsonaro deixou elas começarem e crescerem. Lula e Haddad hoje se dizem terrivelmente contra, mas deixaram o monstro crescer por 3 anos e meio antes de se posicionarem tão "firmemente". A velha e conhecida demagogia petista... A culpa é toda dos outros, os méritos são só nossos! As décadas passam e o PT só piora. Mas, do lado do GENOCIDA, a coisa é ainda pior.

ADEMAR AMANCIO disse...

Os cigarros e bebidas estão soltos e livres,tá certo que rendem impostos,mas é uma tragédia.