quinta-feira, 10 de setembro de 2026

A ameaça aos poderosos, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O que acontece fora do Supremo tem grande peso na disputa interna de poder

A evidência mais clara do apego ao poder é sempre quando se chega à disputa sobre quem controla os órgãos de segurança. É o que acontece no momento no STF. Ao julgar no próximo dia 15 se Alexandre de Moraes será investigado, o plenário da Corte define também quem vai mandar na Polícia Federal. Por consequência, quem tem o controle de investigações que chegaram ao centro de um “ferrolho” de poder. Localizado dentro do STF em articulação com o Executivo e os chefes das casas legislativas, com a anuência mais ou menos explícita também de dirigentes de agremiações políticas. Ameaçadoras também para o principal candidato da oposição, além do entorno de Lula.

O presidente do STF está tentando recuperar um mínimo de autoridade depois de ter sido, na prática, apeado do cargo, por algumas horas, por Flávio Dino. Ele “chamou o processo à ordem”, como se diz na gíria do mundo jurídico. E, se foi um antecessor (Toffoli) e não um sorteio que colocou Moraes à frente do inquérito das fake news, então um outro presidente (Fachin) pode tirar ele de lá.

Assim foi feito, mas a agonia de Fachin está longe do fim. A calamitosa situação à qual chegou o Supremo é o resultado, em primeiro lugar, da sua transformação em instância política, agravada pelo comportamento de alguns de seus integrantes, que fizeram da Corte um grêmio de defesa de seus interesses, inclusive pecuniários.

E de uma perda de legitimidade catastrófica, que está fazendo o público enxergar o STF como problema e não solução quando se trata de combate à corrupção. Para os que se acham donos até aqui do Supremo, Lava Jato e Master são sinônimos. Para grande parcela da população, sim, são sinônimos, mas ao avesso: em vez de combater as malfeitorias, integrantes poderosos parecem empenhados em apagá-las.

Fatores externos têm papel importante em dar suporte a Fachin. O comportamento ultradiscreto dos comandantes das Forças Armadas tem como pano de fundo um recado dado verbalmente há meses: os militares esperam que o STF faça com Moraes a mesma coisa que fez com Bolsonaro. Tem receio de instabilidade e um eventual cenário de desobediência civil, daí a preocupação com os ímpetos de Moraes, Dino e Gilmar.

São palavras e ações deles um importante fator para entender a notável onda contrária à permanência de Moraes no STF. É óbvio que o bolsonarismo a explora eleitoralmente, mas o que se verifica é um tipo de sentimento de grande amplitude, abrangendo vários segmentos sociais, cuja dimensão esses articuladores dentro do STF se recusam (ainda) a contemplar.

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