quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guerra será pesada e sem amadores, por Julia Duailibi

O Globo

Decisões de Fachin estão longe de paralisar a disputa autofágica que domina os bastidores do Supremo

Ainda há uma longa caminhada para que o Supremo recobre a normalidade. As decisões de ontem do presidente Edson Fachin estancam momentaneamente a crise e evitam, por ora, sua escalada, mas estão longe de paralisar a disputa autofágica que domina os bastidores. Desmoralizado pelos colegas, Fachin agiu com atraso e conseguiu um armistício para o público. A guerra, porém, continua, ainda que silenciosa, até a sessão do plenário que decidirá se o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado.

Na terça-feira, os ministros analisam o relatório da PF que deflagrou a crise — a peça produzida por ordem de André Mendonça que cita as mensagens de Daniel Vorcaro a Moraes. Dirão se é válido ou não e, diante disso, se o ministro deve ser alvo de investigação. Não é pouca coisa.

Na semana seguinte, outro roteiro tenso. No dia 21, termina o prazo para as partes se manifestarem sobre o contra-ataque de Moraes, que apontou crime de responsabilidade e improbidade administrativa de Mendonça, com base em seis relatórios produzidos em agosto pela Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores (Cinq), órgão da PF que investiga quem tem foro privilegiado e que tem delegados próximos a Moraes. Os documentos foram colocados no sistema interno de inteligência da polícia, o que levou o chefe do setor, Leandro Almada, a também ser alvo da decisão de afastamento Mendonça.

A decisão de Fachin não freou os ministros. Desde ontem, eles estão em plena articulação com seus grupos sobre a votação dos dois casos. Não há amadores nesse campo de batalha.

O grupo de Moraes é considerado o mais forte hoje no Supremo. O ministro é muito amigo de Davi Alcolumbre e do procurador-geral Paulo Gonet. Tem boa entrada no Executivo (o mundo dá cambalhotas, quem não se lembra de ele ser chamado pela esquerda de “fascista” na época em que era filiado ao PSDB e secretário de Segurança de Alckmin?) e em diferentes alas do Judiciário. Com Moraes, estão nomes forjados para o combate: Flávio Dino e Gilmar Mendes. Ele conta ainda com Cristiano Zanin e a simpatia, ainda que possa não significar apoio, de Cármen Lúcia, apesar de os dois terem trombado em indicações para vagas no TSEDias Toffoli já foi mais próximo, mas desde a crise do Master que também o atingiu está distante — e pode se declarar suspeito para votar no caso.

Esse grupo conseguiu, em aliança com Alcolumbre, barrar Jorge Messias no STF porque não queria alguém que engrossasse as fileiras inimigas. Aí entra André Mendonça. Na decisão de afastar Andrei Rodrigues da PF, contou com os votos de Luiz Fux e Nunes Marques. Mendonça, no entanto, tem uma posição bem mais frágil entre seus pares. O voto de Nunes Marques não significa adesão incondicional a ele na hora H.

A articulação pró-Moraes, se bem-sucedida, terá maioria logo no debate das questões preliminares, votando pela nulidade do relatório da PF por investigar o ministro. Se a articulação falhar, o caminho será investigar Moraes, mas também retirar os inquéritos de Mendonça. Uma no cravo, outra na ferradura. Um pedido de vista também pode ocorrer e deixar tudo para depois da eleição. E novas operações da PF, com potencial de colocar ainda mais gasolina no cenário eleitoral, também estão no radar. A guerra continua, e o tiroteio será pesado.

 

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