O Estado de S. Paulo
É preciso atentar para a ameaça que a
situação traz para o equilíbrio do processo eleitoral
A situação no Supremo Tribunal Federal (STF)
não se resume à disputa de poder entre dois grupos de ministros. Para além do
estrago causado à imagem da Corte, existe um prejuízo maior. Hoje, a crise
provoca efeitos diretos nas campanhas eleitorais e representa risco ao estado
democrático de direito.
Os fatos atribuídos a Alexandre de Moraes e a André Mendonça são de naturezas distintas. Mensagens reveladas pelo Estadão mostraram que Moraes mantinha uma relação suspeita com Daniel Vorcaro. O ministro deveria ter vindo a público se explicar. O STF deveria ter aberto investigação sobre o caso. Nada disso foi feito até aqui.
Já sobre Mendonça, não há suspeita de desvio
de conduta nem de crime comum. Moraes alega que o colega agiu com objetivo
persecutório e político. Em resposta, Mendonça afastou do cargo o diretor da
PF, Andrei Rodrigues, próximo de Moraes. Flávio Dino revogou a decisão.
Em que pese a ala de Mendonça ter criticado a
entrada de Dino em campo, o ministro traz à luz pontos relevantes. O primeiro
deles: “A interrupção dos trabalhos de direção de investigações policiais
interessa, sobretudo, aos investigados”. Ou seja, afastar o diretor da PF tem o
efeito de proteger gente que tem muito a perder.
Outro trecho do despacho diz que “o estado
democrático de direito não é o regime em que um, alguns ou mesmo a maioria
podem impor seus apetites ou vontades, segundo o seu próprio tempo”. Logo, um
juiz não pode tomar decisões para satisfazer os próprios interesses sem
observar procedimentos legais.
Para concluir: “Em tempos de campanha
eleitoral, o recato do magistrado deve ser ainda maior, por exemplo evitando
vídeos, cartas ou atitudes similares que se prestem a alimentar propagandas,
passeatas, comícios e demais instrumentalizações típicas da luta político-partidária”.
O 7 de Setembro alçou Mendonça a herói da
direita em passeatas por todo o País. Foi inflado um boneco gigante com a
estampa do ministro na Paulista. Assim como em anos passados, nestas eleições,
candidatos se dividem entre contrários e favoráveis ao STF – como se fosse uma
instituição prescindível à democracia e seu fechamento pudesse figurar
impunemente como proposta de campanha.
As decisões de Mendonça viraram o jogo
político, o que pode caracterizar interferência do STF na eleição. “Golpes no
século 21 são sempre jurídicos, nunca por tanques. Eles se fazem minando as
instituições por dentro, porque são as instituições que constroem segurança na
ação”, alerta o pesquisador vinculado à Universidade de Brasília (UnB) Luiz
Felipe da Mata Machado, que estuda empoderamento do sistema jurídico.

Nenhum comentário:
Postar um comentário