quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Fachin e um Xandão da extrema direita, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Alexandre de Moraes por ora perde muito mais que André Mendonça com decisões no STF

Ministros do Supremo dizem que trabalho de colocar ordem na casa mal começou

Edson Fachin reagiu, nos acréscimos. Suspendeu a partida por causa de pancadaria generalizada, como diz o clichê do futebol. Como o jogo vai prosseguir, se com mais intervenção da polícia (de Fachin), se a partida vai para os pênaltis ou até para o tiroteio, não se sabe. Mas o presidente do Supremo reagiu ao fato de que ministros se digladiavam publicamente com decisões que ameaçam a ordem mais básica (qual lei ou decisão vale?) e o atropelavam até em casos que estavam na mão dele, de Fachin. "Delineia-se, assim, quadro de conflitos e sobreposições processuais que configuram grave lesão à ordem pública", escreveu o presidente do STF.

A ameaça de grave lesão à ordem pública continua, assim como a de mais ataques à decência básica da campanha eleitoral. Fachin por ora tirou poder de Alexandre de Moraes. Vai submeter ao plenário o pedido, vamos dizer assim, de Mendonça de investigar Moraes. Há suspeitas sobre como Mendonça conduz os inquéritos do INSS e de Master Vorcaro. Mas disso Fachin não tratou, ao menos em público.

Dois ministros do STF na ativa e um aposentado dizem que a reação de Fachin atenua o risco de descontrole total, mas acreditam que a "luta continua" entre os grupos de poder (na conjuntura de agora, o de Moraes contra o de Mendonça). Derrotas maiores de um grupo ou de outro podem suscitar novos golpes abaixo da cintura. Vazamentos adicionais e eleitoralmente enviesados dos processos conduzidos por Mendonça levariam mais gente para a luta na lama (do STF, da PF, do governo). Em suma, dizem esses doutos, Fachin não pode acreditar que basta o tranco que deu. A ação agora tem de ser "contínua e se antecipar a desdobramentos e ousadias", diz um ministro.

Note-se o tamanho do desastre. Em um dia, um cidadão deixa de ser diretor-geral da Polícia Federal e volta a sê-lo, por ordens isoladas de ministros da corte constitucional. O ministro que recolocou o diretor na cadeira (Flávio Dino) acusa o ministro que puxou a cadeira (Mendonça) de atrapalhar investigações da PF e de decidir em causa própria. Mendonça acusara outro ministro (Moraes) de mandar a PF espioná-lo e de ser cúmplice de "ilicitudes".

Em resumo, ministros na prática se acusam de crimes; supremas canetadas individuais em menos de 24 horas mudavam a chefia da polícia nacional, da PF. Parecia vale tudo e arbítrio. Haveria decisão a cada hora?

O rolo vai além.

Mendonça atiçou a crise político-judiciária. O ambiente de sordidez e de guerra eleitoral com armas dos porões do Judiciário, o tumulto, tende a prejudicar quem está no governo. Eleitores costumam olhar para bagunças e imaginar que vai sobrar para eles, talvez em forma de desarranjo econômico.

Mendonça vai parar no ataque contra Moraes, que confraternizava e negociava com um gângster? Foi ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, quando havia "monitoramento" de "servidores antifascistas" —a espionagem foi suspensa por decisão de 9 a 1 do STF, em agosto de 2020. Ainda enquanto ministro de Bolsonaro, Mendonça recorria ao Código Penal e à Lei de Segurança Nacional (LSN) da ditadura militar para ameaçar jornalistas. "Ah, Alexandre de Moraes fez coisa parecida". É. O que se vai fazer diante do risco de que se crie um Xandão da extrema direita (e Moraes nem era remotamente de esquerda)? Mendonça serviu a governo golpista, governo adepto declarado de espionagem e de manipulação da PF com o fim de proteger a família Bolsonaro. Vai renegar o passado?

 

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