Correio Braziliense
No domingo, vamos viver a nossa festa
democrática, com quase 160 milhões de eleitores chamados às urnas para celebrar
esse pacto entre o governo e o povo
Aqui em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês,
onde ainda me encontro brigando com uma indigesta pneumonia que resolveu me
perturbar nesta semana da eleição, mas já me preparando para voltar ao
Maranhão, escrevo estas apressadas linhas.
Nestes 41 anos da Nova República, exercemos a democracia pelo voto do povo. No domingo próximo, dia 4, o país irá às urnas para escolher seus representantes no Poder Executivo e nas Casas Legislativas, estaduais e federais. Em quatro dos meus cinco anos na Presidência, realizamos eleições: um dos meus primeiros atos ao assumir foi restaurar as eleições diretas em todos os níveis no Brasil (Emenda Constitucional nº 25), uma vez que o país estava saindo do regime de eleições indiretas via Colégio Eleitoral, que Tancredo dizia serem as últimas a serem realizadas no Brasil. E foram.
Hoje, o Brasil é a segunda maior democracia
do mundo ocidental, implantada pela transição que presidi, que se concretizou
com as eleições diretas e a nova Constituição Federal. Foi uma das mais
marcantes transições da América Latina, que elaborou a própria Carta Magna e
consolidou uma verdadeira sociedade democrática de massa.
Na minha vida, concorri em 12 eleições. Na
primeira, para deputado federal, em 1954, não fui eleito, mas fiquei como
suplente, tendo a oportunidade de assumir várias vezes o mandato na Câmara dos
Deputados, no Rio de Janeiro. A partir daí, fui eleito deputado federal por
duas vezes, governador do Maranhão, senador pelo Maranhão, também duas vezes;
presidente da República e senador pelo Amapá, por três mandatos.
Esses mandatos, somados, deram-me a condição
de ser o parlamentar que mais tempo passou no Senado na era republicana, 39
anos, mais 10 anos em cargos no Executivo, como governador e presidente da
República, e 12 anos como deputado federal. À exceção da minha primeira
candidatura, em todas as outras vezes em que concorri fui o mais votado.
Agradeço a Deus o destino que me proporcionou; ao povo do Maranhão, do Amapá e
ao povo brasileiro, pela confiança depositada em minha carreira política.
Em 1984, sob a liderança de Tancredo Neves,
com a minha participação e as de Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves e Marcos
Maciel, aprovamos o Manifesto da Aliança Liberal, que reuniu o MDB e a Frente
Liberal, na qual estabelecemos os princípios que seguiríamos na transição
democrática, entre eles o maior de todos: a convocação da Constituinte, o que
fiz logo nos primeiros meses do meu mandato como presidente da República. Isso,
sem dúvida, marcou a transição democrática brasileira e assegurou ao país a
estabilidade e a volta ao Estado de Direito, que sustenta a nossa democracia
até hoje, permitindo que mais uma vez possamos ir às urnas escolher os nossos
governantes.
Sempre tive na minha vida forte consciência
democrática, que nasceu quando eu era jovem e participei da Juventude
Brigadeirista, no combate à ditadura Vargas. Cheguei, inclusive, a ser preso
durante uma manifestação, que contava com a presença do interventor do
Maranhão, quando gritei: "Abaixo a ditadura!"
Fui o único governador a não aprovar o AI-5,
o que determinou uma especulação muito grande de que eu seria cassado, o que
não aconteceu: o presidente Costa e Silva disse, numa reunião de governadores a
que eu estava presente, que não desejava desmontar a Federação. Quando eu era
senador da República, em conjunto com Teotônio Vilela, Daniel Krieger, Ulysses
Guimarães, Tancredo Neves, Aureliano, Marco Maciel, Roberto Freire, Haroldo
Lima, Fernando Henrique Cardoso, criamos uma entidade secreta chamada Sacro
Colégio, cuja finalidade era não permitir que o Congresso Nacional fosse
fechado, uma vez que a nossa convicção era de que, se permanecêssemos com o
Legislativo funcionando, conseguiríamos ultrapassar o regime de exceção.
E foi isso o que conseguimos, finalmente, com
a minha eleição e de Tancredo para, respectivamente, vice-presidente e
presidente da República, cargo que assumi enfrentando a tragédia da morte do
nosso líder Tancredo. Presidi uma transição absolutamente tranquila,
consolidamos a democracia e, hoje, estamos completando 41 anos no regime
democrático, com mais uma eleição; nesta, tenho a felicidade de ver Roseana
Sarney concorrendo com forte apoio do povo maranhense a uma vaga no Senado
Federal, cumprindo o seu grande destino de líder política, tendo sido a
primeira mulher eleita governadora de um Estado brasileiro pelo voto direto.
Acredito que o Senado esteja precisando,
agora mais do que nunca, de lideranças como a de Roseana para recuperar o seu
prestígio e voltar a ser aquela Casa que conheci, onde, com o auxílio do
Conselho de Estado, o Brasil se consolidou como nação e se estruturou,
tornando-se o grande país que hoje é: a oitava economia do mundo, com voz e
voto nos grandes organismos internacionais, podendo nosso presidente afirmar
que "não seremos quintal de ninguém."
Portanto, no domingo, vamos viver a nossa
festa democrática, com quase 160 milhões de eleitores chamados às urnas para
celebrar esse pacto entre o governo e o povo, saudando o Brasil como um dos
grandes países democráticos do mundo, com uma economia livre e um regime
político sob o Estado de Direito.
*José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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