O Estado de S. Paulo
Perdem o presidente Lula, o senador Flávio, os eleitores e, principalmente, a Justiça brasileira
O debate da TV Globo, o mais importante e
tradicional das eleições presidenciais há décadas, foi boicotado pelos dois
candidatos favoritos, e não só por eles, neste cada vez mais chocante 2026,
onde os absurdos se acumulam, numa disputa frenética sobre a autoridade mais
audaciosa ao produzi-los.
O presidente Lula já tinha dito que não iria e, na última hora, Flávio Bolsonaro também decidiu cair fora, diante de duas decisões bastante questionáveis, uma da ministra Estela Aranha, do TSE, outra de Gilmar Mendes, do STF, supostamente, para dar “equilíbrio” de condições. Zero a zero para Lula e Flávio. E as regras democráticas, onde ficam?
A ministra proibiu a Globo de usar a cadeira
vazia e veicular perguntas dirigidas contra o ausente Lula, mas essas regras
haviam sido registradas e aceitas por todos os candidatos. Gilmar entrou na
onda do TSE e autorizou a ida de Renan Santos, que havido sido vetada pelo
presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e pela ministra Cármen Lúcia, do STF.
Na prática, o TSE e o STF, através de Gilmar,
favoreceram Lula com as duas canetadas. A retirada da cadeira vazia e das
perguntas amenizariam os ataques e os seus efeitos contra Lula, enquanto a ida
de Renan traria uma voz dissidente. Todos os três presentes se prepararam para
bater em Lula, e Renan entraria em cena para mirar também em Flávio.
Assim como Jair Bolsonaro em 2018, Lula
decidiu não ir ao debate da Globo e marcou uma entrevista exclusiva na mesma
hora. Jair Bolsonaro, para a TV Record, e Lula, para o Flow Podcast, um dos
mais assistidos do País.
Se tivesse ido ao debate, Lula estaria no
centro da arena e seria alvo fácil de todos os demais em questões como Lulinha
e INSS, herança fiscal maldita, gastos evidentemente eleitorais e endividamento
das empresas e famílias. E mais: TV não é só conteúdo, é também forma.
O contraste de Lula, mais envelhecido, com
voz rouca, sujeito a se irritar e falar o que não deveria seria muito difícil
com Flávio, mais jovem, boa estampa, voz clara, jeitão de bom moço e capaz de
mentir, sem ficar vermelho, sobre o Banco Master, o filme Dark Horse,
rachadinhas, a loja de chocolate, dezenas de imóveis e... milícia.
Debate sem um já seria manco. Sem os dois,
não se sustentou de pé. Assim, a suspensão livrou Lula e Flávio de uma
exposição muito negativa, até constrangedora, e uma série de questionamentos
espinhosos. Perdem os eleitores, perde a democracia e, nem por isso, os dois
favoritos têm o que ganhar. Logo, todos perdem, inclusive a Justiça, que já não
anda bem das pernas. •

Nenhum comentário:
Postar um comentário