Folha de S. Paulo
'A Vida de Galileu' parte da biografia do
físico italiano para promover reflexão sobre a defesa da verdade
Questões levantadas por Brecht fazem pensar
em temas contemporâneos como a regulação da IA
Concluí recentemente a leitura de "A
Vida de Galileu", do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht
(1898-1956).
Escrita originalmente no final da década de
1930, durante o exílio de Brecht na Dinamarca, a peça narra a trajetória do
físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Galileu foi julgado pela
Inquisição em Roma por defender, com base nas suas observações astronômicas, o
modelo heliocêntrico de Nicolau
Copérnico (1473-1543) e levado a abjurar as suas posições.
A peça de Brecht parte de elementos da biografia de Galileu não apenas para reconstruir certos eventos com alguma fidelidade, mas também para fazer o público refletir sobre questões urgentes do seu próprio tempo, como o papel social da ciência e a problemática relação entre indivíduo e autoridade.
Não por acaso, a primeira versão do drama,
concebida em meio à perseguição nazista, passou por mais duas revisões. A
primeira, entre 1944 e 1947, período em que o autor vivia nos Estados Unidos,
foi marcada pelo impacto das bombas
atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki e pela crescente preocupação
com as consequências da instrumentalização do conhecimento científico. Já a
segunda, realizada em Berlim Oriental nos seus últimos anos de vida, deu origem
à versão final da obra, que serve de base para a minha leitura.
Hoje, as questões levantadas por Brecht,
embora pertençam a outro contexto histórico, permanecem relevantes. Basta
pensarmos, por exemplo, no atual debate sobre a necessidade de uma
regulamentação mais rígida da inteligência
artificial ou na maneira como a desinformação foi explorada politicamente
no Brasil durante a pandemia de
Covid-19, dificultando a resposta a uma crise sanitária que resultou em
mais de 700 mil mortes.
A esse respeito, vale a pena recuperar
algumas das falas do Galileu de Brecht. Por exemplo, na cena em que o físico se
irrita com a visita de um ex-aluno que contesta as teorias de Copérnico e o
coloca para fora da sua casa: "Quem não sabe a verdade é estúpido, e só.
Mas quem sabe e diz que é mentira é criminoso!".
Outra fala importante ocorre quando o Pequeno
Monge teme que novas descobertas científicas abalem as crenças que aparentam
dar sentido à vida dos camponeses. Ele pergunta a Galileu se a verdade não
seria capaz de se afirmar por conta própria, sem o auxílio de terceiros, ao que
o cientista retruca: "Não, não, não. Só se afirma a verdade que nós
afirmamos; a vitória da razão só pode ser a vitória dos homens racionais [...].
Como pode alguém pensar que o interesse [dos camponeses] possa ser contrariado
pelo teorema da soma dos ângulos de um triângulo! Porém, se eles não se põem em
movimento e não aprendem a pensar, mesmo o mais engenhoso sistema de irrigação
não lhes adiantará de nada."
O Galileu de Brecht, no entanto, é um personagem
complexo e contraditório, no qual a ardente defesa da verdade convive com o
apego aos sentidos e aos prazeres da vida. Por medo do sofrimento físico, o
personagem renega publicamente as próprias ideias, mas continua trabalhando na
surdina.
Na peça, Galileu tem consciência de que a sua
postura diante da Inquisição contribuiu para dificultar a difusão do saber
científico na região ("Eu traí a minha profissão. Um homem que faz o que
eu fiz não pode ser admitido nas fileiras da ciência").
Tanto é assim que, na última cena, o seu
discípulo de uma vida inteira, Andrea Sarti, parte para a Holanda e leva
escondida debaixo do casaco uma cópia do novo manuscrito de Galileu. Antes da
despedida, o mestre se queixa: "Se eu houvesse resistido! [...]. Durante alguns
anos, a minha força era igual à da autoridade. Entretanto, entreguei o meu
saber aos poderosos, para que eles usassem, abusassem, não usassem, conforme
lhes conviesse."
Em carta enviada a Brecht em 1939, Einstein
elogiou o texto e destacou a riqueza com que o dramaturgo havia apreendido a
personalidade de Galileu e a importância da sua figura para a história do
pensamento.
A peça, portanto, não é uma hagiografia do
físico italiano —"Infeliz é a terra que precisa de heróis"— nem uma
defesa ingênua da ciência. É, sobretudo, uma celebração do espírito crítico
diante do poder e da autoridade, do exercício da razão e da reflexão sobre
nossos próprios limites. Recomendo a leitura.

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