quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Lula pôs em xeque na ONU sua insurgência triunfante sobre a extrema-direita, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Presidente que subiu à tribuna das Nações Unidas nesta terça-feira parecia menos candidato do que o de 2025

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas vai gerar uma infinidade de cortes para as redes sociais e programas eleitorais de sua campanha à reeleição. Foi carimbado pelos temas de sua campanha como a defesa da soberania, da jornada 6x1, do combate à lavagem de dinheiro do crime organizado. Era o esperado para um discurso a 11 dias do primeiro turno.

A despeito disso, o Lula que subiu à tribuna da ONU nesta terça-feira (22) parecia menos candidato do que o de 2025. A indignação deste ano estava mais no discurso do que na motivação. No ano passado, o Brasil tinha acabado de emergir do julgamento da tentativa de golpe, inspirada pelo trumpismo que acabara de ser empossado nos EUA, com tarifaço no mundo inteiro e bombardeio sobre o Irã.

Os líderes mundiais, apopléticos ante uma América ameaçadora, pararam, de alguma forma, para ouvir Lula, depois de derrotar a cópia sul-americana do trumpismo, proclamar a primeira condenação de um ex-chefe de Estado por atentado ao Estado democrático de direito em 525 anos de história e a insurgência institucional contra uma extrema-direita subserviente.

O jornal The New York Times registrou a contundência da fala de Lula sobre sua resistência contra a suspensão do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, o The Guardian citou a condenação do ex-presidente como alerta para aspirantes a autocratas, o El País colocou Lula entre os poucos líderes mundiais que não se curvaram a Donald Trump e o Clarin ressaltou a defesa apaixonada feita por Lula da democracia.

Trump assistiu ao show de Lula pela TV da antessala da Assembleia Geral e não passou recibo. Cumprimentou-o amigavelmente na antessala, ao se cruzaram, e ao mencioná-lo durante seu discurso, imediatamente posterior ao do brasileiro, falou da "química" surgida entre ambos minutos antes. Foi a maneira trumpista de esfriar o ímpeto do insurgente sul-americano.

Não é à toa que o discurso de Lula passou quase despercebido este ano. De lá pra cá, o mundo se acomodou a Trump, das tarifas às guerras. Mais do que isso, aquele Lula que, em 2025, celebrou a vitória eleitoral e o êxito judicial contra o maior líder da extrema-direita brasileira, subiu à tribuna da ONU nesta terça não apenas ameaçado de derrota pelo filho do condenado como também com o tribunal que o condenou consumido pela desmesura de seu poder. A democracia triunfante em 2025 agora está em xeque, foi o que concluiu.

Nesta terça, tanto Lula quanto Trump mantiveram os principais pontos de seu discurso do ano passado. Trump continuou a bradar contra o aquecimento global, vaticinou o aniquilamento do Irã e ameaçou usar o poder militar dos EUA para assegurar os interesses da Casa Branca na América Latina. Assim como Lula, Trump está ameaçado por uma derrota eleitoral, a do seu partido na Câmara, mas já disse que não era ele quem estava disputando a eleição. Referia-se ao Irã, mas cabe na carapuça do presidente brasileiro.

Entre os dois discursos se passaram três minutos, mas não há registro de que tenham se cumprimentado. Até 4 de outubro, não haverá desfecho para a tensão que hoje impera. E, por isso, a incerteza das urnas tingiu as tintas do discurso de Lula mais de legado do que de plataforma eleitoral.

 

Nenhum comentário: