Valor Econômico
Presidente que subiu à tribuna das Nações
Unidas nesta terça-feira parecia menos candidato do que o de 2025
O discurso
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral das
Nações Unidas vai gerar uma infinidade de cortes para as redes sociais e
programas eleitorais de sua campanha à reeleição. Foi carimbado pelos temas de
sua campanha como a defesa da soberania,
da jornada 6x1,
do combate à lavagem de dinheiro do crime
organizado. Era o esperado para um discurso a 11 dias do
primeiro turno.
A despeito disso, o Lula que subiu à tribuna da ONU nesta terça-feira (22) parecia menos candidato do que o de 2025. A indignação deste ano estava mais no discurso do que na motivação. No ano passado, o Brasil tinha acabado de emergir do julgamento da tentativa de golpe, inspirada pelo trumpismo que acabara de ser empossado nos EUA, com tarifaço no mundo inteiro e bombardeio sobre o Irã.
Os líderes mundiais, apopléticos ante uma
América ameaçadora, pararam, de alguma forma, para ouvir Lula, depois de
derrotar a cópia sul-americana do trumpismo, proclamar a primeira condenação de
um ex-chefe de Estado por atentado ao Estado democrático de direito em 525 anos
de história e a insurgência institucional contra uma extrema-direita
subserviente.
O jornal The New York Times registrou a contundência da fala
de Lula sobre sua resistência contra a suspensão do processo contra o
ex-presidente Jair Bolsonaro, o The
Guardian citou a condenação do ex-presidente como alerta para
aspirantes a autocratas, o El País
colocou Lula entre os poucos líderes mundiais que não se curvaram a Donald
Trump e o Clarin
ressaltou a defesa apaixonada feita por Lula da democracia.
Trump assistiu ao show de Lula pela TV da
antessala da Assembleia Geral e não passou recibo. Cumprimentou-o amigavelmente
na antessala, ao se cruzaram, e ao mencioná-lo durante seu discurso,
imediatamente posterior ao do brasileiro, falou da "química" surgida
entre ambos minutos antes. Foi a maneira trumpista de esfriar o ímpeto do
insurgente sul-americano.
Não é à toa que o
discurso de Lula passou quase despercebido este ano. De lá pra cá, o
mundo se acomodou a Trump, das tarifas às guerras. Mais do que isso, aquele Lula
que, em 2025, celebrou a vitória eleitoral e o êxito judicial contra o maior
líder da extrema-direita brasileira, subiu à tribuna da ONU nesta terça não
apenas ameaçado de derrota pelo filho do condenado como também com o tribunal
que o condenou consumido pela desmesura de seu poder. A
democracia triunfante em 2025 agora está em xeque, foi o que concluiu.
Nesta terça, tanto Lula quanto Trump
mantiveram os principais pontos de seu discurso do ano passado. Trump continuou
a bradar contra o aquecimento
global, vaticinou o aniquilamento do Irã e ameaçou usar o poder
militar dos EUA para assegurar os interesses da Casa Branca na América Latina. Assim como Lula, Trump está ameaçado por uma derrota eleitoral,
a do seu partido na Câmara, mas já disse que não era ele quem estava disputando
a eleição. Referia-se ao Irã, mas cabe na carapuça do presidente brasileiro.
Entre os dois discursos se passaram três
minutos, mas não há registro de que tenham se cumprimentado. Até 4 de outubro,
não haverá desfecho para a tensão que hoje impera. E, por isso, a incerteza das
urnas tingiu as tintas do discurso de Lula mais de legado do que de plataforma
eleitoral.

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