Valor Econômico
Operação Carbono Oculto avança sobre
investigação de relação entre facções, setor de combustíveis e fintechs
A terceira
fase da operação Carbono Oculto indica
que, ao pedir dinheiro para Daniel
Vorcaro, o ex-banqueiro do Master, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ajudou o
crime organizado. Se o Master, na cabeça do eleitor, virou uma arca de Noé,
este vínculo só um candidato tem, não por acaso, o único da disputa
presidencial investigado na operação.
Foi o ministro da Fazenda, Dario Durigan, quem chegou mais perto de colocar o guizo no gato ao explicar a movimentação ilegal de R$ 11,6 bilhões apurada pela Receita Federal: “O recurso que dá liquidez para essas operações vem de uma mesma entidade, vem de um mesmo bolso, aí é muito complicado você identificar o que é cada coisa, se tem dinheiro do PCC, de usina do crime organizado, de distribuidora de combustível do crime organizado no mesmo fundo”.
As instituições envolvidas nas três fases da
Carbono Oculto (Polícia Federal, Receita Federal e o Grupo de Atuação Especial
de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo,
Secretaria de Fazenda, Polícia Militar e Polícia Civil do Estado de São Paulo )
blindam a operação de manipulação eleitoral. Estão na estrutura dos governos
federal e de São Paulo cujos titulares são adversários na política.
A comunhão com os mesmos esquemas de lavagem
de dinheiro ajuda tanto o crime organizado quanto o carimbo de terrorista para
o PCC. Ao defendê-lo, o candidato do PL apoia a transferência do seu combate
dessas organizações para as Forças Armadas. A arquitetura
financeira que caracteriza o PCC, de mescla do crime organizado com atividades
ilícitas da economia formal, agradece.
“O que a Carbono Oculto tem mostrado é que
estruturas usadas para a lavagem de dinheiro e a ocultação de ativos têm se
valido de aportes de capital cujo risco só o crime organizado se dispõe a
viabilizar”, explicou ao Valor a
Superintendente da Receita Federal em São Paulo, Márcia Meng.
Em nota divulgada no site oficial, o MP-SP
foi na mesma linha: “A investigação constata a construção e a interligação de
múltiplas estruturas de lavagem de capitais, não apenas pela organização
criminosa atuante em todo o setor de combustíveis, mas essencialmente por
operadores do mercado financeiro que prestam serviços de lavagem de capitais,
consistindo em verdadeiras convergências criminosas à disposição de múltiplos
grupos criminosos”.
As operações de busca e apreensão deflagradas
nesta quinta foram decorrentes das duas primeiras fases da Carbono Oculto.
Desde então se impôs a necessidade de as fintechs e instituições de pagamento
cumprirem as mesmas obrigações já aplicadas aos bancos na apresentação da
e-financeira, declaração que reúne informações sobre operações de alto valor.
Foi este documento que permitiu à Receita chegar onde o Conselho de Controle de
Atividades Financeiras não chega. O Coaf é acionado mediante alertas, mas essas
operações passam abaixo do radar.
Este documento permite à Receita verificar se
existe atividade econômica que justifique a existência do capital informado e,
assim, tornou-se possível identificar a movimentação ilegal dos R$ 11,6 bilhões
da operação desta quinta.
Para a montagem do eixo de movimentação
desses recursos reuniram-se três grupos. O primeiro foi do empresário Antonio Carlos Freixo Junior (Mineiro)
a Entre Investimentos, também usada por Daniel Vorcaro para enviar os US$ 12,3
milhões para o financiamento da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Freixo é delator do Master na Procuradoria Geral da República. O segundo foi o
banco Genial, por meio do ex-sócio-proprietário Humberto Tupinambá, e, finalmente, o terceiro foi a
operação da dupla alvejada desde a primeira fase da Carbono Oculto, Roberto Leme da Silva e Mohamad Hussein Mourad.
Foragida até hoje, a dupla, mais conhecida
pelos apelidos de Beto Louco e Primo, teve que buscar novas formas de ocultação
de ativos e lavagem de dinheiro desde que os fundos pelos quais operavam caíram
junto com a liquidação da Reag, outra gestora associada ao Master, cujo dono,
João Carlos Mansur, está em tratativas de uma delação premiada.
Eles precisavam disfarçar a propriedade de
uma distribuidora de combustíveis que compraram para manter em funcionamento
sua rede de postos de combustíveis, inclusive aqueles em que integrantes do PCC
lavam dinheiro do tráfico de drogas. Foi o que os uniu a Tupinambá e Freixo Jr.
A estrutura se financiava por meio de um fundo cujos ativos são de tão alto
risco que não oferecem nenhuma atratividade ao mercado, a não ser a Beto Louco
e Primo, que dele se valeram para ocultar a compra da distribuidora.
Ganhou a dupla, que ocultou a compra, e ganharam Tupinambá e Freixo Jr que precisavam de capital de giro para sua operação de lavagem de dinheiro. Dela se valeram muitos recursos ilícitos da economia, aí incluída a transferência do Master para o "Dark Horse".

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