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Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
DEU EM O GLOBO

O VÍCIO DO PETRÓLEO
Merval Pereira
Merval Pereira
NOVA YORK. A dependência dos Estados Unidos do petróleo está mexendo com o bolso e a cabeça do americano médio e tendo reflexos imediatos no resultado das pesquisas eleitorais. Depois de ver sua vantagem diante do republicano McCain sair de quase 15 pontos percentuais em junho para um empate neste início de agosto, com a tendência se invertendo ligeiramente a favor de seu adversário, o democrata Barack Obama partiu para o ataque em duas frentes: usando a mesma tática da propaganda agressiva na televisão, acusou McCain de estar "no bolso" das grandes companhias petrolíferas e, ao mesmo tempo, apresentou um plano de energia de longo prazo, recheado de medidas demagógicas imediatas.
A proposta de McCain de liberar a exploração de petróleo na costa do país e no Alasca, proibida devido aos danos ao meio ambiente, não tem, segundo os técnicos, nenhuma chance de reduzir o preço do barril do petróleo a curto prazo, mas caiu no gosto do eleitor americano, o que fez Obama abandonar a oposição ao projeto.
Mas ele foi além na venda de esperanças para o cidadão comum, que está tendo que deixar de usar seu automóvel devido ao preço da gasolina, e sugeriu que o governo utilizasse as reservas estratégicas de petróleo para aliviar o consumidor nas bombas.
Nos primeiros cinco meses do ano, o número de quilômetros percorridos pelos motoristas norte-americanos atingiu o seu nível mais baixo desde 2003. Os americanos reduziram o número de milhas dirigidas em 9,6 bilhões na comparação de maio de 2008 contra maio de 2007. Na comparação dos primeiros quatro meses de 2008 com o mesmo período do ano passado, a redução já é de 40 bilhões de milhas, em torno de 65 bilhões de quilômetros.
A proposta de usar 10% das reservas estratégicas de petróleo do país, atualmente um pouco acima de 700 milhões de barris, para aliviar o que chamou de "sofrimento" dos americanos, representa mais uma mudança na posição do democrata, que recentemente havia dito que não considerava possível usá-las "desta maneira".
A proposta de Obama seria politizar o uso dessas reservas, o que já foi feito anteriormente em algumas ocasiões e é criticado pelos especialistas. As reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos, as maiores do mundo, começaram a ser montadas a partir de 1970, no embargo do produto dos países árabes, e estão mantidas em reservatórios no subsolo ao longo da costa do Texas e da Louisiana.
O presidente Bush recebeu recentemente autorização para chegar a um bilhão de barris. As reservas têm funções estratégicas econômicas e políticas para países que, como os Estados Unidos, importam cerca de 70% do petróleo que consomem. Permitem aos governos abastecer o mercado no caso de uma interrupção inesperada de suprimento, como também reduzem a dependência de fornecedores que estejam dispostos a usar o petróleo como arma política, como pode ser o caso da Venezuela, responsável pelo fornecimento de cerca de 20% do produto consumido nos Estados Unidos.
Os especialistas alegam que o preço de petróleo no mundo hoje, no entanto, se orienta pelo mercado privado de commodities e não é mais controlado por países exportadores e um pequeno número de empresas petrolíferas, como em épocas passadas. Portanto, usar os estoques estratégicos para tentar reduzir o preço interno da gasolina seria uma medida praticamente inócua.
O certo seria usá-los estrategicamente no mercado internacional, de preferência em combinação com outros países importadores, a fim de influenciar no preço internacional do barril.
Outra demagogia anunciada por Obama é o aumento de taxação das grandes empresas petrolíferas para poder dar um desconto de US$1 mil para cada família com dificuldade de enfrentar os custos da energia.
Mas o programa de energia do democrata tem pontos importantes de longo prazo, como estimular a produção de carros mais eficientes no consumo de energia. Ele coloca, porém, sua prioridade nos automóveis híbridos com baterias recarregáveis. Nem ele nem McCain dão destaque a programas de combustíveis renováveis, especialmente de etanol, cuja importação continua sendo taxada pelo governo americano.
Brasil e Estados Unidos detêm cerca de 70% da produção mundial de álcool. Tanto os Estados Unidos quanto a França, o quinto maior produtor mundial de etanol, fazem seu combustível com outros produtos que não a cana-de-açúcar - os EUA do trigo e milho e a França, da beterraba -, e ambos têm que dar fortes subsídios para tornar economicamente viável o produto.
Na recentemente fracassada Rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio, a União Européia chegou a oferecer uma redução na taxação para permitir uma cota maior de exportação do etanol brasileiro, mas os Estados Unidos não chegaram a fazer uma proposta. A sugestão européia era de um corte de tarifas na importação anual do equivalente a 1,4 milhão de toneladas de etanol até 2020, o que geraria uma receita anual de US$1 bilhão, de acordo com autoridades da UE.
Embora John McCain já tenha criticado os subsídios ao milho para a produção de etanol e votado contra no Senado, Obama defende o subsídio, e nada indica que o forte lobby dos produtores americanos será superado para pôr fim à taxa que os Estados Unidos cobram sobre o etanol importado.
Um acordo assinado entre os presidentes Bush e Lula, que incentiva a pesquisa do etanol e sua produção em países do Caribe e América Central, é muito criticado pelos produtores americanos. O temor é que o acordo permita que o Brasil se utilize dos países do Caribe, que estão isentos das taxas de importação pelo acordo de livre comércio, para exportar etanol para os Estados Unidos.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

SHOW DE TALENTO
Dora Kramer
Não é a primeira e provavelmente não será a última vez que o ministro da Justiça, Tarso Genro, diz ou faz alguma coisa errada sem a menor necessidade. Há exemplos de sobra em sua trajetória passada e presente.
Mas agora com essa história de tornar urgentes as punições de militares que cometeram crimes na ditadura ele se superou.
Por carência de percepção ou afã de abraçar uma causa de destaque, acabou dando a oficiais da reserva sem outra ocupação senão a de vocalizar recalques da corporação uma oportunidade de ouro para se imiscuir na vida política do País.
A conversa do ministro com a Comissão de Anistia, na semana passada, tenderia a ficar restrita ao campo da equivocada inversão de prioridades, dada a aflição dos cidadãos com a incapacidade do poder público de lidar com os crimes comuns cometidos aqui e agora.
A veemência do ministro obrigou seu colega da Defesa, Nelson Jobim, a desmenti-lo como precaução. Em vão, pois o Clube Militar está sempre ávido por uma agenda.
E que agenda! Se não for uma bravata, a convocação de seminário para discutir o “passado terrorista” de autoridades do governo Lula e a hipótese de puni-las por participação em atos de violência tem potencial altamente constrangedor.
A reação militar foi desproporcional. Anônima até agora, descompromissada e, por isso mesmo, perigosa. Parte de quem não tem nada a perder. Divulgaram uma lista de todos os “terroristas” passíveis de punição e, na base do olho por olho, trataram-nos como meliantes.
E isso para quê? Para absolutamente nada, pois daqui até a prometida reunião haverá o deixa disso regulamentar. Se não houver, pior para todos. O Brasil discutirá algo não prioritário para a geração atual, terá de entrar no debate sobre a abertura dos arquivos da ditadura e daí para uma saia-justa geral é um pulo.
Ou alguém acha que todas as indenizações milionárias já pagas resistirão à luz da verdade? Gente que levou milhões de repente poderá ter revelada uma atuação de combate bem menos valiosa. Essas coisas são como aquele lugar comum sobre CPIs: nunca se sabe o que vem pela frente.
Como ministro da Justiça já se viu que o gaúcho Tarso Genro não influi nem contribui. Em algum momento falou ligeiramente a respeito de um plano nacional de segurança pública, mas não desenvolveu o tema, muito menos executou qualquer ação.
Nunca funcionou ao molde do antecessor como advogado do governo nas causas periclitantes e, como colaborador na articulação com os outros Poderes, já mostrou preferência pelo atrito.
Que não se despreze, porém, o talento de Tarso Genro porque não há na República ninguém capaz de embarcar numa canoa furada com tanta convicção.
Zarpou para Mônaco assim que Salvatore Cacciola foi preso. Na maior seriedade, mas para nada, além de proporcionar à autoridade do principado momentos de ironia.
Defendeu dossiês contra adversários políticos como algo corriqueiro e, antes, quando na oposição, capitaneava a campanha “Fora FHC” enquanto a cúpula do PT fazia o caminho inverso, ciente de que a madeira um dia bate em Chico e no outro em Francisco.
Se a motivação de Tarso Genro é, como dizem seus colegas petistas, ganhar espaço para vir a ser candidato, o caso é mais grave que a possível crise.
Maquinário
O prefeito Gilberto Kassab parece ter resolvido que vale a pena dar um pouco de sorte para o azar. Primeiro, registrou em e-mail uma tentativa de produzir boas avaliações em pesquisas usando o instrumental da prefeitura.
Depois, reuniu assessores para organizar mutirão eleitoral. Uma conduta, no mínimo, descuidada em relação aos limites do uso do cargo.
Se o prefeito se espelha no exemplo federal, que usa, abusa e não sofre conseqüência alguma, conviria notar que o salvo-conduto tácito à transgressão conferido ao presidente Lula e companhia não necessariamente se estende a todas as excelências.
Ademais, em São Paulo o PT é oposição, não brinca em serviço nem é tão gentil quanto seus oponentes no plano federal.
Piloto automático
É fato que a largada de Gilberto Kassab frustrou expectativas de tucanos aliados ao governador José Serra. Mas não é isso que mantém Serra distante das atividades da campanha.Pouco antes das convenções que oficializaram as duas candidaturas Serra havia avisado que faria uma declaração formal de simpatia a ambos e depois desapareceria dos palanques.
A intenção de Serra é ficar longe da confusão. Tenha ela caráter de derrota ou mesmo de vitória. Se Kassab estivesse bem e Geraldo Alckmin mal, ainda assim o governador não poderia circular ao lado do prefeito.
A explicitação da preferência em plena campanha só faria da conturbação na já suficientemente conturbada nação tucana o assunto da estação. Bilhete premiado para o PT.
Dora Kramer
Não é a primeira e provavelmente não será a última vez que o ministro da Justiça, Tarso Genro, diz ou faz alguma coisa errada sem a menor necessidade. Há exemplos de sobra em sua trajetória passada e presente.
Mas agora com essa história de tornar urgentes as punições de militares que cometeram crimes na ditadura ele se superou.
Por carência de percepção ou afã de abraçar uma causa de destaque, acabou dando a oficiais da reserva sem outra ocupação senão a de vocalizar recalques da corporação uma oportunidade de ouro para se imiscuir na vida política do País.
A conversa do ministro com a Comissão de Anistia, na semana passada, tenderia a ficar restrita ao campo da equivocada inversão de prioridades, dada a aflição dos cidadãos com a incapacidade do poder público de lidar com os crimes comuns cometidos aqui e agora.
A veemência do ministro obrigou seu colega da Defesa, Nelson Jobim, a desmenti-lo como precaução. Em vão, pois o Clube Militar está sempre ávido por uma agenda.
E que agenda! Se não for uma bravata, a convocação de seminário para discutir o “passado terrorista” de autoridades do governo Lula e a hipótese de puni-las por participação em atos de violência tem potencial altamente constrangedor.
A reação militar foi desproporcional. Anônima até agora, descompromissada e, por isso mesmo, perigosa. Parte de quem não tem nada a perder. Divulgaram uma lista de todos os “terroristas” passíveis de punição e, na base do olho por olho, trataram-nos como meliantes.
E isso para quê? Para absolutamente nada, pois daqui até a prometida reunião haverá o deixa disso regulamentar. Se não houver, pior para todos. O Brasil discutirá algo não prioritário para a geração atual, terá de entrar no debate sobre a abertura dos arquivos da ditadura e daí para uma saia-justa geral é um pulo.
Ou alguém acha que todas as indenizações milionárias já pagas resistirão à luz da verdade? Gente que levou milhões de repente poderá ter revelada uma atuação de combate bem menos valiosa. Essas coisas são como aquele lugar comum sobre CPIs: nunca se sabe o que vem pela frente.
Como ministro da Justiça já se viu que o gaúcho Tarso Genro não influi nem contribui. Em algum momento falou ligeiramente a respeito de um plano nacional de segurança pública, mas não desenvolveu o tema, muito menos executou qualquer ação.
Nunca funcionou ao molde do antecessor como advogado do governo nas causas periclitantes e, como colaborador na articulação com os outros Poderes, já mostrou preferência pelo atrito.
Que não se despreze, porém, o talento de Tarso Genro porque não há na República ninguém capaz de embarcar numa canoa furada com tanta convicção.
Zarpou para Mônaco assim que Salvatore Cacciola foi preso. Na maior seriedade, mas para nada, além de proporcionar à autoridade do principado momentos de ironia.
Defendeu dossiês contra adversários políticos como algo corriqueiro e, antes, quando na oposição, capitaneava a campanha “Fora FHC” enquanto a cúpula do PT fazia o caminho inverso, ciente de que a madeira um dia bate em Chico e no outro em Francisco.
Se a motivação de Tarso Genro é, como dizem seus colegas petistas, ganhar espaço para vir a ser candidato, o caso é mais grave que a possível crise.
Maquinário
O prefeito Gilberto Kassab parece ter resolvido que vale a pena dar um pouco de sorte para o azar. Primeiro, registrou em e-mail uma tentativa de produzir boas avaliações em pesquisas usando o instrumental da prefeitura.
Depois, reuniu assessores para organizar mutirão eleitoral. Uma conduta, no mínimo, descuidada em relação aos limites do uso do cargo.
Se o prefeito se espelha no exemplo federal, que usa, abusa e não sofre conseqüência alguma, conviria notar que o salvo-conduto tácito à transgressão conferido ao presidente Lula e companhia não necessariamente se estende a todas as excelências.
Ademais, em São Paulo o PT é oposição, não brinca em serviço nem é tão gentil quanto seus oponentes no plano federal.
Piloto automático
É fato que a largada de Gilberto Kassab frustrou expectativas de tucanos aliados ao governador José Serra. Mas não é isso que mantém Serra distante das atividades da campanha.Pouco antes das convenções que oficializaram as duas candidaturas Serra havia avisado que faria uma declaração formal de simpatia a ambos e depois desapareceria dos palanques.
A intenção de Serra é ficar longe da confusão. Tenha ela caráter de derrota ou mesmo de vitória. Se Kassab estivesse bem e Geraldo Alckmin mal, ainda assim o governador não poderia circular ao lado do prefeito.
A explicitação da preferência em plena campanha só faria da conturbação na já suficientemente conturbada nação tucana o assunto da estação. Bilhete premiado para o PT.
DEU NO VALOR ECONÔMICO

BAGUNÇA INSTITUCIONAL
Raymundo Costa
A autorização para grampear telefones que o juiz federal Fausto De Sanctis deu ao delegado Protógenes Queiróz é inédita. Desconcertante. De uma penada só, o magistrado paulista deu ao delegado acesso a todos os telefones do país. On line. A todos os números do banqueiro Daniel Dantas, o alvo principal da operação Satiagraha, mas também aos do presidente da República e os do vendedor de churrasquinho de gato apanhado na escuta da PF e pelo "rapa" paulista.
Uma autorização que deixou intrigados o Congresso e os chamados meios jurídicos. Há os mais desconfiados, que desde já apostam no superaquecimento da campanha eleitoral de 2010. O mercado negro dos grampos é que dirá se eles estão certos ou se tudo não passa de mera paranóia. Mas existe também quem observe apenas "uma fase de uma certa bagunça institucional", como o deputado Arnaldo Madeira, tucano paulista com experiência e conhecimento dos desvãos do governo. Bagunça que, segundo ele, começa pela Presidência.
Os exemplos estão por toda parte. Um que passou em branco: a manifestação de delegados pela autonomia da Polícia Federal. É fato que há um grau de impunidade muito alto no país e um sentimento de justiça muito alto na sociedade, mas isso não justifica a ação de justiceiros e paladinos, que só ameaçam as bases nas quais se assentam o estado de direito. É outra a delegação democrática.
A bagunça institucional seria visível quando o juiz De Sanctis, por mais bem intencionado e sintonizado com o sentimento da sociedade que esteja, revela uma visão um tanto messiânica da sua função, como alguém que deve dar satisfação diretamente ao povo. E quando a PF passa a imagem de que prende porque quer arrumar o pais. É o bem combatendo o mal.
Em uma das suas entrevistas, o delegado Protógenes adverte que ficará de olho na criação do Fundo Soberano, uma proposta do Ministério da Fazenda, atento para ir atrás de quem tentar malversar o dinheiro público. Como diz Arnaldo Madeira: "É um pouco essa questão de super-homens que vão resolver a questão, porque as instituições estão fragilizadas", diz.
As manifestações de juízes federais em relação a decisões do Supremo Tribunal Federal se colocam no mesmo nível. A primeira instância tem de ter autonomia, mas há também as instâncias superiores. É a lei. Outro exemplo: o ministro das Relações Exteriores representa o país na rodada Doha, mas o ministro da Agricultura diz que essa reunião é uma bobagem. O outro pensa o quê? "O que é que eu estou fazendo aqui, turismo"?
"Os ministros do presidente Lula se estapeiam em público e nada acontece", diz Madeira. "Estamos numa situação preocupante não porque a PF vai fazer mais isso e mais aquilo, mas porque a própria ação da PF revela a bagunça institucional que nós estamos vivendo".
A força da democracia nos dias de hoje é que o conceito de democracia se generalizou no mundo. Mas para o deputado Arnaldo Madeira, "as sociedades precisam ter instituições sólidas, porque o que dá segurança à democracia não é o homem genial, não é o homem providencial: é o funcionamento das instituições". Mas o que se vê é "que as instituições estão muito fragilizadas, a hierarquia está quebrada em todos os níveis. É isso o que ocorre quando um delegado faz uma representação ao Ministério Público porque não estaria sendo atendido por seus superior na Polícia Federal".
Democracia prescinde de justiceiros e paladinos
Madeira tem um diagnóstico para o que chama de bagunça institucional da atual conjuntura: "É a contradição entre a complexidade da sociedade e dos segmentos modernos da sociedade, que tocam a atividade econômica, e o atraso do Estado e das instituições. Esse é o centro do problema", diz.
Na opinião do tucano, o Brasil se tornou uma sociedade mais complexa, tem setores econômicos dinâmicos, que são competitivos em nível mundial (agronegócio, siderurgia, minério de ferro, fabricação de aviões, entre outros). "Estamos competindo com empresários e agentes privados que têm capacidade de atuar numa economia competitiva muito grande", argumenta. Modernidade que por outro lado convive com "instituições que ficaram para trás, que não estão conseguindo se modernizar para enfrentar essa nova circunstância da moderna sociedade brasileira".
O que ocorre então é a contradição de uma sociedade arcaica, com instituições com a cabeça da década de 1950, e segmentos da economia ultra-sofisticados. Um exemplo é o sistema financeiro. Basta ver que à abertura do mercado quem "deu show" foram os brasileiros Bradesco, o Itaú e Unibanco. O Banco do Brasil, apesar de estatal, é bem gerenciado. Os outros se deram mal".
Para Madeira o quadro se resume a isso: uma sociedade bastante complexa e a política com a cabeça na década de 50, atrasada e uma estrutura de Estado obsoleta. "Poucos economistas conhecem o funcionamento do mercado financeiro, que é sofisticado, internacional. Imagina se um juiz um ou um delegado vão entender isso. Aí o cara fica vendo minhoca".
Segundas intenções
O ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, acha que a coordenação da área social está em muito boas mãos com Miriam Belchior, assessora especial da Casa Civil, o que dispensa a designação de um ministro específico para a tarefa. A unificação foi sugerida pelo ministro Fernando Haddad (Educação) durante reunião de 17 ministros realizada no último 21 de julho.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não chegou a se comprometer com a idéia, disse que ia pensar. Mas tratou de advertir eventuais interessados que a adoção da proposta não significaria mais salário, apenas mais trabalho.
Segundo fontes credenciadas do Planalto, o próprio Patrus e Luiz Dulci (Secretário Geral) estariam cotados para a função. Mas no próprio PT há quem vislumbre por trás da idéia um projeto presidencial paulista para se contrapor a Dilma Rousseff e a vontade de empregar a área social nas eleições.
Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras
Raymundo Costa
A autorização para grampear telefones que o juiz federal Fausto De Sanctis deu ao delegado Protógenes Queiróz é inédita. Desconcertante. De uma penada só, o magistrado paulista deu ao delegado acesso a todos os telefones do país. On line. A todos os números do banqueiro Daniel Dantas, o alvo principal da operação Satiagraha, mas também aos do presidente da República e os do vendedor de churrasquinho de gato apanhado na escuta da PF e pelo "rapa" paulista.
Uma autorização que deixou intrigados o Congresso e os chamados meios jurídicos. Há os mais desconfiados, que desde já apostam no superaquecimento da campanha eleitoral de 2010. O mercado negro dos grampos é que dirá se eles estão certos ou se tudo não passa de mera paranóia. Mas existe também quem observe apenas "uma fase de uma certa bagunça institucional", como o deputado Arnaldo Madeira, tucano paulista com experiência e conhecimento dos desvãos do governo. Bagunça que, segundo ele, começa pela Presidência.
Os exemplos estão por toda parte. Um que passou em branco: a manifestação de delegados pela autonomia da Polícia Federal. É fato que há um grau de impunidade muito alto no país e um sentimento de justiça muito alto na sociedade, mas isso não justifica a ação de justiceiros e paladinos, que só ameaçam as bases nas quais se assentam o estado de direito. É outra a delegação democrática.
A bagunça institucional seria visível quando o juiz De Sanctis, por mais bem intencionado e sintonizado com o sentimento da sociedade que esteja, revela uma visão um tanto messiânica da sua função, como alguém que deve dar satisfação diretamente ao povo. E quando a PF passa a imagem de que prende porque quer arrumar o pais. É o bem combatendo o mal.
Em uma das suas entrevistas, o delegado Protógenes adverte que ficará de olho na criação do Fundo Soberano, uma proposta do Ministério da Fazenda, atento para ir atrás de quem tentar malversar o dinheiro público. Como diz Arnaldo Madeira: "É um pouco essa questão de super-homens que vão resolver a questão, porque as instituições estão fragilizadas", diz.
As manifestações de juízes federais em relação a decisões do Supremo Tribunal Federal se colocam no mesmo nível. A primeira instância tem de ter autonomia, mas há também as instâncias superiores. É a lei. Outro exemplo: o ministro das Relações Exteriores representa o país na rodada Doha, mas o ministro da Agricultura diz que essa reunião é uma bobagem. O outro pensa o quê? "O que é que eu estou fazendo aqui, turismo"?
"Os ministros do presidente Lula se estapeiam em público e nada acontece", diz Madeira. "Estamos numa situação preocupante não porque a PF vai fazer mais isso e mais aquilo, mas porque a própria ação da PF revela a bagunça institucional que nós estamos vivendo".
A força da democracia nos dias de hoje é que o conceito de democracia se generalizou no mundo. Mas para o deputado Arnaldo Madeira, "as sociedades precisam ter instituições sólidas, porque o que dá segurança à democracia não é o homem genial, não é o homem providencial: é o funcionamento das instituições". Mas o que se vê é "que as instituições estão muito fragilizadas, a hierarquia está quebrada em todos os níveis. É isso o que ocorre quando um delegado faz uma representação ao Ministério Público porque não estaria sendo atendido por seus superior na Polícia Federal".
Democracia prescinde de justiceiros e paladinos
Madeira tem um diagnóstico para o que chama de bagunça institucional da atual conjuntura: "É a contradição entre a complexidade da sociedade e dos segmentos modernos da sociedade, que tocam a atividade econômica, e o atraso do Estado e das instituições. Esse é o centro do problema", diz.
Na opinião do tucano, o Brasil se tornou uma sociedade mais complexa, tem setores econômicos dinâmicos, que são competitivos em nível mundial (agronegócio, siderurgia, minério de ferro, fabricação de aviões, entre outros). "Estamos competindo com empresários e agentes privados que têm capacidade de atuar numa economia competitiva muito grande", argumenta. Modernidade que por outro lado convive com "instituições que ficaram para trás, que não estão conseguindo se modernizar para enfrentar essa nova circunstância da moderna sociedade brasileira".
O que ocorre então é a contradição de uma sociedade arcaica, com instituições com a cabeça da década de 1950, e segmentos da economia ultra-sofisticados. Um exemplo é o sistema financeiro. Basta ver que à abertura do mercado quem "deu show" foram os brasileiros Bradesco, o Itaú e Unibanco. O Banco do Brasil, apesar de estatal, é bem gerenciado. Os outros se deram mal".
Para Madeira o quadro se resume a isso: uma sociedade bastante complexa e a política com a cabeça na década de 50, atrasada e uma estrutura de Estado obsoleta. "Poucos economistas conhecem o funcionamento do mercado financeiro, que é sofisticado, internacional. Imagina se um juiz um ou um delegado vão entender isso. Aí o cara fica vendo minhoca".
Segundas intenções
O ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, acha que a coordenação da área social está em muito boas mãos com Miriam Belchior, assessora especial da Casa Civil, o que dispensa a designação de um ministro específico para a tarefa. A unificação foi sugerida pelo ministro Fernando Haddad (Educação) durante reunião de 17 ministros realizada no último 21 de julho.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não chegou a se comprometer com a idéia, disse que ia pensar. Mas tratou de advertir eventuais interessados que a adoção da proposta não significaria mais salário, apenas mais trabalho.
Segundo fontes credenciadas do Planalto, o próprio Patrus e Luiz Dulci (Secretário Geral) estariam cotados para a função. Mas no próprio PT há quem vislumbre por trás da idéia um projeto presidencial paulista para se contrapor a Dilma Rousseff e a vontade de empregar a área social nas eleições.
Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras
DEU EM O GLOBO
FORA DA REALIDADE
Editorial/ O Globo
Editorial/ O Globo
Por alguma razão - oportunismo político condicionado pela luta interna no PT é uma possibilidade -, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e o secretário de Direitos Humanos, ministro Paulo Vanucchi, decidiram tentar contrabandear para a agenda de debates políticos a revisão da Lei de Anistia, com o objetivo de levar ao banco dos réus militares acusados de homicídio e/ou tortura.
É gritante a extemporaneidade da iniciativa, mais um "fogo amigo" disparado no governo Lula, este dirigido diretamente contra o gabinete presidencial. Aos menos avisados, caso a União incorresse na sandice de assumir a proposta, apenas estaria repetindo o exemplo de Argentina, Uruguai e Chile, onde houve ditaduras militares, e leis de anistia revistas para permitir a punição de algozes do regime. A diferença fundamental entre o caso brasileiro e o de outros países no continente, como bem chamou a atenção o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal, é que a anistia no país não foi decretada por quem quebrou a ordem constituída para, com isso, proteger-se na volta à democracia.
A análise do magistrado: "No caso brasileiro, os destinatários (da anistia) foram todos aqueles que se enquadrassem nos requisitos estabelecidos pela lei, e não se direcionou nesse ou naquele sentido, com a finalidade de beneficiar esse ou aquele grupo, muito menos o de privilegiar os que usurparam o poder com o golpe de Estado de 1964." Aliás, se privilegiados há, tem sido um grupo de egressos da militância de esquerda daqueles tempos que conseguiram ser beneficiados por generosas indenizações, a tal da Bolsa Ditadura, que converte o passado oposicionista de alguns em rentável investimento. A característica de legitimidade da lei de anistia brasileira, redigida ainda no regime militar, no governo Figueiredo, e aprovada pelo Congresso em 1979, fez com que ela não fosse contestada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, ao contrário do perdão concedido em outros países latino-americanos. A lei, assim como o processo de distensão política que desembocou na redemocratização em 1985, foi uma obra de que participaram representantes do regime e da oposição. Portanto, investir contra atos legais daquela época é tentar reabrir um capítulo da História que foi encerrado com sucesso, sem rupturas institucionais, como era e é desejo da sociedade.
A audiência pública que Tarso Genro e Paulo Vannuchi fizeram no Ministério da Justiça para debater a revisão da anistia causou inevitável irritação entre militares. Que, como sempre acontece nessas horas, falarão por meio de oficiais da reserva, reunidos ainda esta semana no Clube Militar. Cria-se, assim, um clima contraproducente em todos os sentidos. É o momento, portanto, de o presidente Lula intervir para que projetos pessoais de auxiliares seus não prejudiquem o próprio governo e permitam o repeteco de um vozerio, à direita e à esquerda, que nada tem a ver com a realidade brasileira.
DEU EM O GLOBO
'LEI DA ANISTIA DEU PERDÃO PARA OS DOIS LADOS'
Ex-ministro do STF, Velloso diz que assunto está superado, numa crítica indireta aos ministros Tarso e Vannuchi
BRASÍLIA. A punição de torturadores que atuaram durante o regime militar, defendida pelos ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) e criticada duramente pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, não é consenso entre juristas e cientistas políticos. No centro da polêmica, está a interpretação da Lei da Anistia, que perdoou todos os crimes políticos ou que foram cometidos com motivação política desde 1961. Aprovado em 1979, durante a negociação da abertura, o texto permitiu o retorno dos exilados e beneficiou igualmente militantes de esquerda e militares. Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o jurista Carlos Velloso é contrário a uma revisão da lei.
- É um assunto superado. A Lei de Anistia é peremptória, e estabelece um esquecimento, um perdão para os dois lados. Foi uma pedra colocada sobre o ocorrido. Também houve crimes do lado dos opositores ao regime. Mexer com uma coisa dessas pode gerar uma bola de neve - afirma.
"Sob o ponto de vista político, é desastroso"
Velloso diz temer os efeitos da reabertura da discussão:
- Isso não seria bom para a democracia brasileira. Sob o ponto de vista político, é desastroso. Sob o ponto de vista jurídico, é difícil imaginar uma mudança na lei.
O debate é acirrado no governo e no Judiciário. Ex-presidente do STF, Nelson Jobim, disse na semana passada que a Lei da Anistia já atingiu seus objetivos, sendo o principal a pacificação nacional após o fim da ditadura. Para ele, "mudar essa legislação seria o mesmo que revogar aquilo que já foi decidido anteriormente".
O entendimento é compartilhado pelo atual decano do STF, Celso de Mello. Ele já disse que a legislação nacional não permite a punição de crimes cometidos durante o regime militar e que a Lei da Anistia foi equânime, sem privilegiar qualquer um dos lados.
Para Luiz Werneck Vianna, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), os defensores da punição aos torturadores fazem sua análise apenas sob a ótica dos direitos humanos. Ele pondera que a sociedade terá mais ganho se não mexer em feridas do passado.
Ex-ministro do STF, Velloso diz que assunto está superado, numa crítica indireta aos ministros Tarso e Vannuchi
BRASÍLIA. A punição de torturadores que atuaram durante o regime militar, defendida pelos ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) e criticada duramente pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, não é consenso entre juristas e cientistas políticos. No centro da polêmica, está a interpretação da Lei da Anistia, que perdoou todos os crimes políticos ou que foram cometidos com motivação política desde 1961. Aprovado em 1979, durante a negociação da abertura, o texto permitiu o retorno dos exilados e beneficiou igualmente militantes de esquerda e militares. Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o jurista Carlos Velloso é contrário a uma revisão da lei.
- É um assunto superado. A Lei de Anistia é peremptória, e estabelece um esquecimento, um perdão para os dois lados. Foi uma pedra colocada sobre o ocorrido. Também houve crimes do lado dos opositores ao regime. Mexer com uma coisa dessas pode gerar uma bola de neve - afirma.
"Sob o ponto de vista político, é desastroso"
Velloso diz temer os efeitos da reabertura da discussão:
- Isso não seria bom para a democracia brasileira. Sob o ponto de vista político, é desastroso. Sob o ponto de vista jurídico, é difícil imaginar uma mudança na lei.
O debate é acirrado no governo e no Judiciário. Ex-presidente do STF, Nelson Jobim, disse na semana passada que a Lei da Anistia já atingiu seus objetivos, sendo o principal a pacificação nacional após o fim da ditadura. Para ele, "mudar essa legislação seria o mesmo que revogar aquilo que já foi decidido anteriormente".
O entendimento é compartilhado pelo atual decano do STF, Celso de Mello. Ele já disse que a legislação nacional não permite a punição de crimes cometidos durante o regime militar e que a Lei da Anistia foi equânime, sem privilegiar qualquer um dos lados.
Para Luiz Werneck Vianna, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), os defensores da punição aos torturadores fazem sua análise apenas sob a ótica dos direitos humanos. Ele pondera que a sociedade terá mais ganho se não mexer em feridas do passado.
- Reabrir o debate pode ser uma caixa de surpresas. Não se sabe o que vai se retirar dela, o bem ou o mal. A sociedade pode correr este risco sem saber o que tem dentro da caixa - explica o professor.
Biógrafa de Ernesto Geisel, o general que começou o processo de abertura, a cientista política Maria Celina D"Araujo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que o perdão aos torturadores foi negociado pelos militares durante a transição democrática. Ao devolver o poder a um governo civil, diz ela, as Forças Armadas queriam evitar qualquer clima de revanchismo. Por isso, teria prevalecido a interpretação de que a Lei de Anistia beneficiaria inclusive quem torturou.
- Por que aqui este assunto ficou intacto? Porque na transição brasileira isso foi um acordo feito com os políticos da época, Tancredo, Sarney e Forças Armadas, no sentido de que a anistia seria assim - afirma Maria Celina.
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE
CONTRA A REVISÃO NA LEI DA ANISTIA
Luiz Carlos Azedo
Luiz Carlos Azedo
Da equipe do Correio
Proposta de integrantes do governo de mudar regras para punir militares que torturaram presos políticos é qualificada como inoportuna por ex-guerrilheiros
Um dos poucos remanescentes da “turma da pesada” da antiga Aliança Libertadora Nacional (ALN) — a organização guerrilheira comandada pelo ex-deputado Carlos Marighella, morto pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury durante a chamada Operação Bandeirantes —, o ex-guerrilheiro Takao Amano considera inoportuna a discussão sobre a revisão da anistia para punir os militares que torturaram presos políticos. Segundo ele, “há uma polêmica jurídica sobre o assunto, porque a tortura é considerada crime hediondo pela Constituição e, para alguns autores, estaria fora do abrigo da Lei de Anistia”.
Para Amano, porém, a questão é política: “O passado sempre volta à tona, esse assunto inevitavelmente será debatido um dia, por causa da abertura dos arquivos da repressão e da questão dos desaparecidos, mas não há condições políticas para a revisão da Lei de Anistia. Essa polêmica é até um teste para a nossa democracia, precisa ser encarada sem revanchismo”, avalia.
Discreto e modesto advogado trabalhista, que aos 61 anos divide o tempo entre os departamentos jurídicos dos sindicatos dos médicos e dos padeiros de São Paulo, Amano é um ex-banido pelo regime militar. Foi trocado pelo embaixador suiço Giovanni Enrico Bucher, sequestrado em dezembro de 1970, numa operação comandada pelo ex-capitão Carlos Lamarca, juntamente com outros 69 presos políticos que foram embarcados de avião para o Chile. Exilado em Cuba, fez autocrítica da luta armada e voltou para o PCB. Durante quase 10 anos, Amano vagou pelo mundo como Francisco Mendes, o “El Chino”, um funcionário da Federação Mundial da Juventude Democrática.
Seqüestro
Exímio atirador, Amano foi um dos dois subcomandantes do Grupo Tático Armado, o GTA, da ALN, chefiado por Virgílio Gomes da Silva, o “Jonas”, que comandou o seqüestro de Elbrick. Os integrantes do GTA tinham por características resistir à prisão a tiros. Num tiroteio em Suzano, durante um assalto a banco, Amano foi baleado, mas conseguiu fugir e foi operado clandestinamente. Em outro, na Alameda Campinas, acabou baleado e preso pelos órgãos de segurança, juntamente com Luís Augusto Fogaça Balboni, que morreu no hospital, e Carlos Lichtszejn, também ferido. Durante aquele ano de 1979, o GTA e seu grupo de apoio logístico da ANL foram desbaratados. “Jonas”, Marighella e, depois, Joaquim Câmara Ferreira, o “Velho”, todos dissidentes do antigo PCB, acabaram mortos.
A opinião de Amano coincide com a do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que fez treinamento de guerrilha em Cuba, mas não participou de ações armadas. No seu blog, o ex-ministro qualificou de “erro grosseiro” de membros do governo, particularmente do ministro da Justiça, Tarso Genro, a reabertura da discussão sobre a Lei da Anistia. Para Amano, o debate sobre o assunto pode ter sido precipitado por causa da luta interna no governo, já que a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, ex-guerrilheira da Var-Palmares, é a preferida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sucedê-lo em 2010.
Proposta de integrantes do governo de mudar regras para punir militares que torturaram presos políticos é qualificada como inoportuna por ex-guerrilheiros
Um dos poucos remanescentes da “turma da pesada” da antiga Aliança Libertadora Nacional (ALN) — a organização guerrilheira comandada pelo ex-deputado Carlos Marighella, morto pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury durante a chamada Operação Bandeirantes —, o ex-guerrilheiro Takao Amano considera inoportuna a discussão sobre a revisão da anistia para punir os militares que torturaram presos políticos. Segundo ele, “há uma polêmica jurídica sobre o assunto, porque a tortura é considerada crime hediondo pela Constituição e, para alguns autores, estaria fora do abrigo da Lei de Anistia”.
Para Amano, porém, a questão é política: “O passado sempre volta à tona, esse assunto inevitavelmente será debatido um dia, por causa da abertura dos arquivos da repressão e da questão dos desaparecidos, mas não há condições políticas para a revisão da Lei de Anistia. Essa polêmica é até um teste para a nossa democracia, precisa ser encarada sem revanchismo”, avalia.
Discreto e modesto advogado trabalhista, que aos 61 anos divide o tempo entre os departamentos jurídicos dos sindicatos dos médicos e dos padeiros de São Paulo, Amano é um ex-banido pelo regime militar. Foi trocado pelo embaixador suiço Giovanni Enrico Bucher, sequestrado em dezembro de 1970, numa operação comandada pelo ex-capitão Carlos Lamarca, juntamente com outros 69 presos políticos que foram embarcados de avião para o Chile. Exilado em Cuba, fez autocrítica da luta armada e voltou para o PCB. Durante quase 10 anos, Amano vagou pelo mundo como Francisco Mendes, o “El Chino”, um funcionário da Federação Mundial da Juventude Democrática.
Seqüestro
Exímio atirador, Amano foi um dos dois subcomandantes do Grupo Tático Armado, o GTA, da ALN, chefiado por Virgílio Gomes da Silva, o “Jonas”, que comandou o seqüestro de Elbrick. Os integrantes do GTA tinham por características resistir à prisão a tiros. Num tiroteio em Suzano, durante um assalto a banco, Amano foi baleado, mas conseguiu fugir e foi operado clandestinamente. Em outro, na Alameda Campinas, acabou baleado e preso pelos órgãos de segurança, juntamente com Luís Augusto Fogaça Balboni, que morreu no hospital, e Carlos Lichtszejn, também ferido. Durante aquele ano de 1979, o GTA e seu grupo de apoio logístico da ANL foram desbaratados. “Jonas”, Marighella e, depois, Joaquim Câmara Ferreira, o “Velho”, todos dissidentes do antigo PCB, acabaram mortos.
A opinião de Amano coincide com a do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que fez treinamento de guerrilha em Cuba, mas não participou de ações armadas. No seu blog, o ex-ministro qualificou de “erro grosseiro” de membros do governo, particularmente do ministro da Justiça, Tarso Genro, a reabertura da discussão sobre a Lei da Anistia. Para Amano, o debate sobre o assunto pode ter sido precipitado por causa da luta interna no governo, já que a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, ex-guerrilheira da Var-Palmares, é a preferida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para sucedê-lo em 2010.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO /+MAIS!

O QUE PENSA A CHINA?
REVOLUÇÃO SILENCIOSA
Marcos Flamínio Peres
REVOLUÇÃO SILENCIOSA
Marcos Flamínio Peres
Editor do MAIS!
Combinando ajuda econômica e política autoritária, China se torna novo modelo para países em desenvol-vimento na Ásia e África e ameaça expansão da democracia ocidentalO "soft power" chinês prega uma escalada silenciosa do país em direção a uma maior presença global, mas sem confrontar os EUA
A China não quer assombrar o mundo apenas com seu crescimento econômico exorbitante ou com um número inédito de medalhas, que pode fazê-la derrotar os EUA nos Jogos Olímpicos que têm início nesta sexta-feira.
Ela quer mais: quer dominar as mentes e formar a opinião de boa parte das pessoas. Sua principal arma é uma intelligentsia cultivada nas melhores universidades do Ocidente e que agora desenvolve novas estratégias políticas e econômicas nas centenas de centros de pesquisa espalhados pelo leste do país, de Pequim a Xangai.
No cerne desse "projeto de dominação" reside o conceito de "mundo muralhado", que combina ajuda econômica a países em desenvolvimento -baseado em um capitalismo de Estado- com um regime de partido único.
A conseqüência mais temível disso é que a China está se impondo às populações de Burma, Zimbábue, Sudão, Argélia, Angola etc. como um modelo econômico e político a ser louvado e seguido.
Essa tese desconcertante, que bate de frente com as hipóteses de que a China adotaria a democracia liberal à medida que crescesse economicamente, é tratada no livro "What Does China Think?" ["O Que Pensa a China?", ed. Fourth Estate, 224 págs., 8,99, R$ 28], que tem sido destaque em publicações prestigiosas como as inglesas "Prospect" e "Financial Times".
Escrita por Mark Leonard, diretor-executivo do Conselho Europeu de Relações Exteriores -um "think tank" com sede em Londres e bancado pelo megainvestidor George Soros-, a obra reúne sua experiência em visitas ao país como professor convidado da Academia Chinesa de Ciências Sociais (leia texto ao lado).Localizada em Pequim, a ACCS sozinha concentra 50 centros de produção acadêmica, com 4.000 pesquisadores trabalhando em tempo integral em cerca de 260 disciplinas.
Em instituições como essas foi formulado o que Leonard chama de "soft power" [poder suave] -uma escalada silenciosa do país em direção a uma maior presença global, mas cuidando para não confrontar a única superpotência que restou da Guerra Fria.
Polarização ideológica
Assim, abdica de investir maciçamente em suas Forças Armadas -como fizeram os EUA- e constrói a imagem de país amistoso e interessado na paz mundial. E, paralelamente, usando toda a força de seu PIB, constrói relações diplomáticas e econômicas privilegiadas com regimes autoritários.
Esse imperialismo "suave" que a China pratica nas relações externas decorre diretamente do embate de duas linhas ideológicas cada vez mais presentes no debate interno do Partido Comunista -as quais Leonard chama de Nova Direita e Nova Esquerda.
Para ele, essa divisão reproduz fielmente no campo intelectual a polarização econômica entre as Províncias interiores do oeste -empobrecidas- e as Províncias costeiras do leste -consideradas as vitrinas do capitalismo chinês.
A primeira linha defende a radicalização dos experimentos neoliberais dos últimos 30 anos, como aumento da participação de capital privado nas estatais e desapropriação de vastas áreas particulares para instalação de plantas industriais.Seus principais nomes, os "neocons" Zhang Weiying ou Yan Xuetong (leia entrevista nesta pág.), temem tanto o fantasma da Revolução Cultural de Mao Tsé-tung quanto o caos que se instalou na União Soviética após a abertura realizada por Mikhail Gorbatchov nos anos 1980.
Clamam também por uma maior militarização do país, de modo a evitar um aumento da tendência separatista de Taiwan. As cidades de Xangai e, sobretudo, Shenzen -uma vila de pescadores que se tornou em poucas décadas umas das metrópoles do país (veja mapa na pág. 6)- despontam como símbolos da Nova Direita.
A segunda vertente ideológica, formada por nomes como Cui Zhiyuan e Wang Shaoguang, é mais crítica das desigualdades sociais e da devastação ambiental provocadas pelo crescimento desenfreado.
Novo modelo
Os experimentos "democráticos" propostos pelos membros da Nova Esquerda -chamados de "ditadura deliberativa"- se baseiam em consultas públicas sobre a eleição de delegados para o PC ou ainda a destinação de verbas municipais. Suas cidades laboratórios, como Pingchang e Chongqing, estão esvaziadas de capital e população devido à atraente exuberância do leste do país.
Se a primeira linha foi absolutamente hegemônica durante as gestões de Deng Xiaoping (artífice da reforma econômica a partir de 1978) e Jiang Zemin (1993-2003) -quando a China se tornou a potência que é hoje-, a Nova Esquerda obtém cada vez mais espaço dentro do governo do presidente Hu Jintao e do premiê Wen Jiabao.
Contrastes sociais gritantes, devastação ambiental e pressão da opinião pública internacional têm levado o governo, influenciado pelas estrelas da Nova Esquerda, a considerar alterações moderadas.
De qualquer modo, é essa rica e multifacetada estatura intelectual da China de hoje que lhe permite conceber a ambiciosa estratégia do "soft power". Como lembra Mark Leonard, é inevitável a expansão do grande Império do Centro em direção às fontes energéticas e alimentares de África e Ásia.
E, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra, haverá um modelo alternativo aos da Europa e dos EUA -e, provavelmente, não nos padrões daquilo que o Ocidente costuma entender por democracia.
Combinando ajuda econômica e política autoritária, China se torna novo modelo para países em desenvol-vimento na Ásia e África e ameaça expansão da democracia ocidentalO "soft power" chinês prega uma escalada silenciosa do país em direção a uma maior presença global, mas sem confrontar os EUA
A China não quer assombrar o mundo apenas com seu crescimento econômico exorbitante ou com um número inédito de medalhas, que pode fazê-la derrotar os EUA nos Jogos Olímpicos que têm início nesta sexta-feira.
Ela quer mais: quer dominar as mentes e formar a opinião de boa parte das pessoas. Sua principal arma é uma intelligentsia cultivada nas melhores universidades do Ocidente e que agora desenvolve novas estratégias políticas e econômicas nas centenas de centros de pesquisa espalhados pelo leste do país, de Pequim a Xangai.
No cerne desse "projeto de dominação" reside o conceito de "mundo muralhado", que combina ajuda econômica a países em desenvolvimento -baseado em um capitalismo de Estado- com um regime de partido único.
A conseqüência mais temível disso é que a China está se impondo às populações de Burma, Zimbábue, Sudão, Argélia, Angola etc. como um modelo econômico e político a ser louvado e seguido.
Essa tese desconcertante, que bate de frente com as hipóteses de que a China adotaria a democracia liberal à medida que crescesse economicamente, é tratada no livro "What Does China Think?" ["O Que Pensa a China?", ed. Fourth Estate, 224 págs., 8,99, R$ 28], que tem sido destaque em publicações prestigiosas como as inglesas "Prospect" e "Financial Times".
Escrita por Mark Leonard, diretor-executivo do Conselho Europeu de Relações Exteriores -um "think tank" com sede em Londres e bancado pelo megainvestidor George Soros-, a obra reúne sua experiência em visitas ao país como professor convidado da Academia Chinesa de Ciências Sociais (leia texto ao lado).Localizada em Pequim, a ACCS sozinha concentra 50 centros de produção acadêmica, com 4.000 pesquisadores trabalhando em tempo integral em cerca de 260 disciplinas.
Em instituições como essas foi formulado o que Leonard chama de "soft power" [poder suave] -uma escalada silenciosa do país em direção a uma maior presença global, mas cuidando para não confrontar a única superpotência que restou da Guerra Fria.
Polarização ideológica
Assim, abdica de investir maciçamente em suas Forças Armadas -como fizeram os EUA- e constrói a imagem de país amistoso e interessado na paz mundial. E, paralelamente, usando toda a força de seu PIB, constrói relações diplomáticas e econômicas privilegiadas com regimes autoritários.
Esse imperialismo "suave" que a China pratica nas relações externas decorre diretamente do embate de duas linhas ideológicas cada vez mais presentes no debate interno do Partido Comunista -as quais Leonard chama de Nova Direita e Nova Esquerda.
Para ele, essa divisão reproduz fielmente no campo intelectual a polarização econômica entre as Províncias interiores do oeste -empobrecidas- e as Províncias costeiras do leste -consideradas as vitrinas do capitalismo chinês.
A primeira linha defende a radicalização dos experimentos neoliberais dos últimos 30 anos, como aumento da participação de capital privado nas estatais e desapropriação de vastas áreas particulares para instalação de plantas industriais.Seus principais nomes, os "neocons" Zhang Weiying ou Yan Xuetong (leia entrevista nesta pág.), temem tanto o fantasma da Revolução Cultural de Mao Tsé-tung quanto o caos que se instalou na União Soviética após a abertura realizada por Mikhail Gorbatchov nos anos 1980.
Clamam também por uma maior militarização do país, de modo a evitar um aumento da tendência separatista de Taiwan. As cidades de Xangai e, sobretudo, Shenzen -uma vila de pescadores que se tornou em poucas décadas umas das metrópoles do país (veja mapa na pág. 6)- despontam como símbolos da Nova Direita.
A segunda vertente ideológica, formada por nomes como Cui Zhiyuan e Wang Shaoguang, é mais crítica das desigualdades sociais e da devastação ambiental provocadas pelo crescimento desenfreado.
Novo modelo
Os experimentos "democráticos" propostos pelos membros da Nova Esquerda -chamados de "ditadura deliberativa"- se baseiam em consultas públicas sobre a eleição de delegados para o PC ou ainda a destinação de verbas municipais. Suas cidades laboratórios, como Pingchang e Chongqing, estão esvaziadas de capital e população devido à atraente exuberância do leste do país.
Se a primeira linha foi absolutamente hegemônica durante as gestões de Deng Xiaoping (artífice da reforma econômica a partir de 1978) e Jiang Zemin (1993-2003) -quando a China se tornou a potência que é hoje-, a Nova Esquerda obtém cada vez mais espaço dentro do governo do presidente Hu Jintao e do premiê Wen Jiabao.
Contrastes sociais gritantes, devastação ambiental e pressão da opinião pública internacional têm levado o governo, influenciado pelas estrelas da Nova Esquerda, a considerar alterações moderadas.
De qualquer modo, é essa rica e multifacetada estatura intelectual da China de hoje que lhe permite conceber a ambiciosa estratégia do "soft power". Como lembra Mark Leonard, é inevitável a expansão do grande Império do Centro em direção às fontes energéticas e alimentares de África e Ásia.
E, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra, haverá um modelo alternativo aos da Europa e dos EUA -e, provavelmente, não nos padrões daquilo que o Ocidente costuma entender por democracia.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO /+MAIS!
"CRESCIMENTO PRECISA SER DIVIDIDO"
Raul Juste Lores
Expoente da Nova Esquerda, Wang Shaoguang diz que país aprendeu com as dores do capitalismo
Seus estudos sobre desigualdade social e políticas públicas são leitura do presidente Hu Jintao e de vários membros da atual geração que comanda o Partido Comunista.Isso demonstra o atual prestígio de Wang Shaoguang, 54, professor de ciência política na Universidade Chinesa de Hong Kong e de políticas públicas na Universidade Tsinghua -a segunda mais importante do país-, em Pequim.Ele é um dos líderes da Nova Esquerda.Como a maior parte do establishment acadêmico chinês, ele estudou nos EUA, é PhD em Cornell e lecionou na Universidade Yale entre 1990 e 2000, quando voltou à China.Ele diz que o país "mudou de rumo" nos últimos cinco anos, após "sofrer as dores do capitalismo" em 30 anos de abertura.Aos 12 anos, foi guarda vermelho, tendo participado da Revolução Cultural que expurgava dissidentes e burgueses. "Foram tempos violentos, mas excitantes", diz.Ele recebeu a Folha em seu escritório na Tsinghua.
Nova insegurança
Há 30 anos, vivíamos com menos conforto, mas com mais segurança. Todos éramos iguais, a desigualdade era mínima, você trabalhava em uma empresa estatal, com estabilidade, tinha saúde e educação garantidas por essa empresa.As necessidades básicas estavam cobertas e seu salário era o mesmo, independentemente de sua performance.Hoje você não sabe quando será demitido, quando será desnecessário. O crescimento econômico a qualquer preço criou muita insegurança. Sem saúde e educação públicas. Até 1999, o governo só tinha política econômica, não social.
Estado forte
Nos anos 1980, o bolo estava crescendo, mas ninguém queria dividi-lo. Nos últimos seis, sete anos, houve uma mudança de curso histórica. Depois de 20 anos de neoliberalismo, os chineses começaram a sentir as dores do capitalismo. Hoje o Estado chinês está mais forte.
Sociedade harmoniosa
O discurso de construir uma Sociedade Harmoniosa, do governo do presidente Hu Jintao e do premiê Wen Jiabao, é verdadeiro, e assume as perigosas desigualdades que estavam sendo construídas, principalmente entre a cidade e o campo, e entre o leste e o centro e oeste do país.Essa mensagem está se disseminando. Na escala Gini, que vai de zero para as sociedades mais igualitárias, a um, na desigualdade absoluta, a China era 0,28 em 1978, uma das mais igualitárias do mundo.Hoje ela está em 0,46. Ainda não é desigual como a América Latina, mas não vai mudar da noite para o dia.
Nova direção
A opinião pública chinesa tem marcado a agenda, há pressão na internet, melhores comunicações, as pessoas se expressam. Há poucos anos, todos falavam da crise na saúde -cara, inacessível, impossível de pagar para famílias humildes. As escolas, mesmo as mais simples, cobram mensalidade.Isso começa a mudar. Em 2002, começou a se criar um sistema de saúde rural em que o governo central contribuía mensalmente com 10 yuans [R$ 2,30], o governo local com outros 10 yuans e o cidadão com mais 30 yuans.Atualmente, Pequim coloca 40 yuans, os locais, outros 40 yuans, e o indivíduo, 20 yuans. Isso está longe de ser perfeito, mas mostra uma nova direção. A saúde e a educação nas cidades ainda recebem mais dinheiro que as rurais, mas há mudanças.Lei trabalhista
Sou a favor da nova lei trabalhista. Os salários têm aumentado de 10 a 15% ao ano, mas o trabalhador precisa de mais proteção, de horas extras, de contratos, direitos.Afinal, para quem é o crescimento da China? Ele precisa ser dividido.
Legado socialista
Cerca de 85% da população urbana chinesa mora em casa própria -um legado socialista.Mas, com o êxodo rural, certamente novas medidas precisarão ser implementadas. Acho que precisamos fazer como Cingapura ou Hong Kong e investir em imóveis para alugar que sejam razoáveis.
Mídia de direita
Se você faz uma busca na internet, certamente haverá mais histórias sobre a Nova Direita chinesa, sobre o neoliberalismo, aqui. Mas em termos de espaço acadêmico, de citações, debate, a Nova Esquerda tem um peso muito maior.Há mais restrições entre os intelectuais e as universidades que do governo. Nunca me senti censurado nos últimos anos.A Nova Esquerda agora é popular, mas, nos anos 80 e 90, ninguém queria saber dela, era irrelevante.
Desigualdades
Eu previa que seriam necessários de 30 a 50 anos para começar a diminuir as desigualdades entre a cidade e o campo, e na verdade elas já começaram a encolher. Há transferências de impostos em massa para o interior. Na prática, há uma descentralização.
Otimismo
Vivemos em um clima de grande otimismo. Li uma pesquisa do Pew Center segundo a qual 90% dos chineses aprovam o rumo do país. A educação será gratuita no ensino básico no interior a partir deste ano. A China está aprendendo a traçar seu caminho, buscando aprender com quem quer que seja.Ainda está formando sua identidade. Acho que o Estado chinês é muito mais descentralizado do que se imagina no exterior. O capitalismo também está mudando. O governo dos EUA está atuando no resgate de mercados, intervindo na economia. Nada é como era antes.
Raul Juste Lores
Expoente da Nova Esquerda, Wang Shaoguang diz que país aprendeu com as dores do capitalismo
Seus estudos sobre desigualdade social e políticas públicas são leitura do presidente Hu Jintao e de vários membros da atual geração que comanda o Partido Comunista.Isso demonstra o atual prestígio de Wang Shaoguang, 54, professor de ciência política na Universidade Chinesa de Hong Kong e de políticas públicas na Universidade Tsinghua -a segunda mais importante do país-, em Pequim.Ele é um dos líderes da Nova Esquerda.Como a maior parte do establishment acadêmico chinês, ele estudou nos EUA, é PhD em Cornell e lecionou na Universidade Yale entre 1990 e 2000, quando voltou à China.Ele diz que o país "mudou de rumo" nos últimos cinco anos, após "sofrer as dores do capitalismo" em 30 anos de abertura.Aos 12 anos, foi guarda vermelho, tendo participado da Revolução Cultural que expurgava dissidentes e burgueses. "Foram tempos violentos, mas excitantes", diz.Ele recebeu a Folha em seu escritório na Tsinghua.
Nova insegurança
Há 30 anos, vivíamos com menos conforto, mas com mais segurança. Todos éramos iguais, a desigualdade era mínima, você trabalhava em uma empresa estatal, com estabilidade, tinha saúde e educação garantidas por essa empresa.As necessidades básicas estavam cobertas e seu salário era o mesmo, independentemente de sua performance.Hoje você não sabe quando será demitido, quando será desnecessário. O crescimento econômico a qualquer preço criou muita insegurança. Sem saúde e educação públicas. Até 1999, o governo só tinha política econômica, não social.
Estado forte
Nos anos 1980, o bolo estava crescendo, mas ninguém queria dividi-lo. Nos últimos seis, sete anos, houve uma mudança de curso histórica. Depois de 20 anos de neoliberalismo, os chineses começaram a sentir as dores do capitalismo. Hoje o Estado chinês está mais forte.
Sociedade harmoniosa
O discurso de construir uma Sociedade Harmoniosa, do governo do presidente Hu Jintao e do premiê Wen Jiabao, é verdadeiro, e assume as perigosas desigualdades que estavam sendo construídas, principalmente entre a cidade e o campo, e entre o leste e o centro e oeste do país.Essa mensagem está se disseminando. Na escala Gini, que vai de zero para as sociedades mais igualitárias, a um, na desigualdade absoluta, a China era 0,28 em 1978, uma das mais igualitárias do mundo.Hoje ela está em 0,46. Ainda não é desigual como a América Latina, mas não vai mudar da noite para o dia.
Nova direção
A opinião pública chinesa tem marcado a agenda, há pressão na internet, melhores comunicações, as pessoas se expressam. Há poucos anos, todos falavam da crise na saúde -cara, inacessível, impossível de pagar para famílias humildes. As escolas, mesmo as mais simples, cobram mensalidade.Isso começa a mudar. Em 2002, começou a se criar um sistema de saúde rural em que o governo central contribuía mensalmente com 10 yuans [R$ 2,30], o governo local com outros 10 yuans e o cidadão com mais 30 yuans.Atualmente, Pequim coloca 40 yuans, os locais, outros 40 yuans, e o indivíduo, 20 yuans. Isso está longe de ser perfeito, mas mostra uma nova direção. A saúde e a educação nas cidades ainda recebem mais dinheiro que as rurais, mas há mudanças.Lei trabalhista
Sou a favor da nova lei trabalhista. Os salários têm aumentado de 10 a 15% ao ano, mas o trabalhador precisa de mais proteção, de horas extras, de contratos, direitos.Afinal, para quem é o crescimento da China? Ele precisa ser dividido.
Legado socialista
Cerca de 85% da população urbana chinesa mora em casa própria -um legado socialista.Mas, com o êxodo rural, certamente novas medidas precisarão ser implementadas. Acho que precisamos fazer como Cingapura ou Hong Kong e investir em imóveis para alugar que sejam razoáveis.
Mídia de direita
Se você faz uma busca na internet, certamente haverá mais histórias sobre a Nova Direita chinesa, sobre o neoliberalismo, aqui. Mas em termos de espaço acadêmico, de citações, debate, a Nova Esquerda tem um peso muito maior.Há mais restrições entre os intelectuais e as universidades que do governo. Nunca me senti censurado nos últimos anos.A Nova Esquerda agora é popular, mas, nos anos 80 e 90, ninguém queria saber dela, era irrelevante.
Desigualdades
Eu previa que seriam necessários de 30 a 50 anos para começar a diminuir as desigualdades entre a cidade e o campo, e na verdade elas já começaram a encolher. Há transferências de impostos em massa para o interior. Na prática, há uma descentralização.
Otimismo
Vivemos em um clima de grande otimismo. Li uma pesquisa do Pew Center segundo a qual 90% dos chineses aprovam o rumo do país. A educação será gratuita no ensino básico no interior a partir deste ano. A China está aprendendo a traçar seu caminho, buscando aprender com quem quer que seja.Ainda está formando sua identidade. Acho que o Estado chinês é muito mais descentralizado do que se imagina no exterior. O capitalismo também está mudando. O governo dos EUA está atuando no resgate de mercados, intervindo na economia. Nada é como era antes.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO /+MAIS!
"NEM FREUD SE APLICA AQUI"
DE PEQUIM
Líder da Nova Direita, o cientista político Yan Xuetong diz que China é mais liberal que os EUA
Defensor da "moralização" do capitalismo chinês e de mais investimentos na área social, o cientista político Yan Xuetong, 55, é líder da Nova Direita chinesa, que chama de "reformista". "Até os EUA têm uma rede de proteção social maior que a da China, que é comunista", diz.
Diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Tsinghua. É PhD em ciência política pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e dirige o "Jornal Chinês de Política Internacional". Alguns de seus livros são adotados pelo Ministério da Educação.
Em sua página na internet, a principal foto é dele ao lado de Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA. Leia trechos da entrevista que concedeu à Folha. (RJL)
Direita-esquerda
Ainda que economicamente a esquerda seja conservadora e a direita, progressista, na China tudo se embaralha.Política externa multilateral, nacionalismo, defesa de democracia com vários partidos podem estar na direita ou na esquerda, sem diferenças. Mas o país cresceu graças às reformas liberais introduzidas em 1978.A economia de mercado desenvolveu a China.
Mais reformas
Muitas reformas são necessárias na China, principalmente a política, que é a que não deve acontecer tão cedo. As mais urgentes são as que moralizem nosso capitalismo e promovam mais igualdade entre pobres e ricos, que promovam uma proteção social dos mais pobres.Nos últimos 30 anos, a China priorizou o crescimento econômico e ignorou os conflitos sociais. Não podemos parar as mudanças só porque o país está crescendo.Estados Unidos
Os EUA têm um dos piores sistemas de saúde e previdência social entre os países ricos, mas já seria um sonho a China ter algo parecido. Somos piores que os EUA! Não dá para ser como a Europa, que gasta demais e cresce de menos.Os EUA são bem liberais, mas o Estado ainda é mais presente lá que aqui.Moralizar o capitalismo
Defendo uma economia de mercado com moralidade. Trapacear é errado, ser corrupto é errado, fazer dinheiro com tráfico de drogas, prostituição e contrabando é errado.Apoiar os mais pobres não é apoiar os preguiçosos, como alguns pensam.Acho que a política de Hu Jintao e Wen Jiabao é de corrigir esse modelo do enriquecimento custe o que custar.Lei trabalhista
Sou contra a nova lei trabalhista. Ela joga em cima dos patrões toda a culpa pelo descaso social da China em décadas.Ao dar estabilidade a funcionários após o segundo contrato ou para quem já tem dez anos de trabalho, faz com que vários patrões demitam funcionários mais antigos ou torna cara a manutenção destes.Transforma em fardo os empregados mais velhos para as pequenas empresas. É prejudicial para patrões e empregados, engessa as relações -na prática, não funciona.Novas prioridades
As prioridades precisam mudar. Prefeituras, Condados, governos provinciais gastam fortunas em suas sedes de luxo, enquanto as escolas são feitas com materiais baratos.Veja o que se gastou para fazer o novo teatro nacional de Pequim, as instalações olímpicas -é um gasto imenso que não é para o povo.A arrecadação de impostos na China cresceu 35% no ano passado, enquanto o PIB cresceu 11%. O governo poderia ter outras prioridades. Na época da Revolução Cultural, não havia dinheiro, mas havia um sistema de saúde.
Privatizações
Apóio as privatizações. Ainda há muitas empresas gigantescas nas mãos do Estado, quando sabemos que as particulares têm resultados melhores.Compare o socialismo chinês ao capitalismo americano. Tirando o poder do Partido Comunista, não há muitas diferenças. Mas não usamos o termo capitalismo na China porque é muito malvisto, é tão negativo como o terrorismo.
Burocracia
É imprescindível reformarmos o funcionalismo público.Professores e enfermeiras podem ser facilmente demitidos, mas não autoridades e burocratas públicos. Eles são promovidos por tempo de serviço, não por mérito. Veja os EUA: estão sempre convidando gente de fora para trabalhar e reformular sua política externa.Na China, os diplomatas são promovidos a cada dois anos, trabalhem ou não, sejam produtivos ou não. Há muita gente incapaz no governo.China modelo?
O modelo chinês só serve para a China. É um alerta, quem quiser segui-lo vai fracassar.Tirando o Vietnã, com quem compartilhamos uma história comum, não se aplica a outros países. Nem marxismo nem capitalismo são iguais aqui e no Ocidente. A China é diferente, nem Freud se aplica aqui.Nosso animal-símbolo é o dragão, que não é real. Somos ave, somos cavalo, somos peixe, pode ser o que você quiser, mas é só chinês.
Rico, mas fraco
Sou otimista. Em cinco anos, a China será a segunda economia mais importante do mundo, e a influência política do país só irá crescer. Mas levará muito tempo para ser uma superpotência. Seremos mais ricos, mas militarmente somos cada vez mais fracos.Não combatemos em nenhuma guerra desde 1984 [quando houve conflitos de fronteira com o Vietnã]. Somos como o Japão -temos um Exército com equipamentos modernos, mas ninguém sabe exatamente como usá-los.
DE PEQUIM
Líder da Nova Direita, o cientista político Yan Xuetong diz que China é mais liberal que os EUA
Defensor da "moralização" do capitalismo chinês e de mais investimentos na área social, o cientista político Yan Xuetong, 55, é líder da Nova Direita chinesa, que chama de "reformista". "Até os EUA têm uma rede de proteção social maior que a da China, que é comunista", diz.
Diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Tsinghua. É PhD em ciência política pela Universidade da Califórnia, em Berkeley, e dirige o "Jornal Chinês de Política Internacional". Alguns de seus livros são adotados pelo Ministério da Educação.
Em sua página na internet, a principal foto é dele ao lado de Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA. Leia trechos da entrevista que concedeu à Folha. (RJL)
Direita-esquerda
Ainda que economicamente a esquerda seja conservadora e a direita, progressista, na China tudo se embaralha.Política externa multilateral, nacionalismo, defesa de democracia com vários partidos podem estar na direita ou na esquerda, sem diferenças. Mas o país cresceu graças às reformas liberais introduzidas em 1978.A economia de mercado desenvolveu a China.
Mais reformas
Muitas reformas são necessárias na China, principalmente a política, que é a que não deve acontecer tão cedo. As mais urgentes são as que moralizem nosso capitalismo e promovam mais igualdade entre pobres e ricos, que promovam uma proteção social dos mais pobres.Nos últimos 30 anos, a China priorizou o crescimento econômico e ignorou os conflitos sociais. Não podemos parar as mudanças só porque o país está crescendo.Estados Unidos
Os EUA têm um dos piores sistemas de saúde e previdência social entre os países ricos, mas já seria um sonho a China ter algo parecido. Somos piores que os EUA! Não dá para ser como a Europa, que gasta demais e cresce de menos.Os EUA são bem liberais, mas o Estado ainda é mais presente lá que aqui.Moralizar o capitalismo
Defendo uma economia de mercado com moralidade. Trapacear é errado, ser corrupto é errado, fazer dinheiro com tráfico de drogas, prostituição e contrabando é errado.Apoiar os mais pobres não é apoiar os preguiçosos, como alguns pensam.Acho que a política de Hu Jintao e Wen Jiabao é de corrigir esse modelo do enriquecimento custe o que custar.Lei trabalhista
Sou contra a nova lei trabalhista. Ela joga em cima dos patrões toda a culpa pelo descaso social da China em décadas.Ao dar estabilidade a funcionários após o segundo contrato ou para quem já tem dez anos de trabalho, faz com que vários patrões demitam funcionários mais antigos ou torna cara a manutenção destes.Transforma em fardo os empregados mais velhos para as pequenas empresas. É prejudicial para patrões e empregados, engessa as relações -na prática, não funciona.Novas prioridades
As prioridades precisam mudar. Prefeituras, Condados, governos provinciais gastam fortunas em suas sedes de luxo, enquanto as escolas são feitas com materiais baratos.Veja o que se gastou para fazer o novo teatro nacional de Pequim, as instalações olímpicas -é um gasto imenso que não é para o povo.A arrecadação de impostos na China cresceu 35% no ano passado, enquanto o PIB cresceu 11%. O governo poderia ter outras prioridades. Na época da Revolução Cultural, não havia dinheiro, mas havia um sistema de saúde.
Privatizações
Apóio as privatizações. Ainda há muitas empresas gigantescas nas mãos do Estado, quando sabemos que as particulares têm resultados melhores.Compare o socialismo chinês ao capitalismo americano. Tirando o poder do Partido Comunista, não há muitas diferenças. Mas não usamos o termo capitalismo na China porque é muito malvisto, é tão negativo como o terrorismo.
Burocracia
É imprescindível reformarmos o funcionalismo público.Professores e enfermeiras podem ser facilmente demitidos, mas não autoridades e burocratas públicos. Eles são promovidos por tempo de serviço, não por mérito. Veja os EUA: estão sempre convidando gente de fora para trabalhar e reformular sua política externa.Na China, os diplomatas são promovidos a cada dois anos, trabalhem ou não, sejam produtivos ou não. Há muita gente incapaz no governo.China modelo?
O modelo chinês só serve para a China. É um alerta, quem quiser segui-lo vai fracassar.Tirando o Vietnã, com quem compartilhamos uma história comum, não se aplica a outros países. Nem marxismo nem capitalismo são iguais aqui e no Ocidente. A China é diferente, nem Freud se aplica aqui.Nosso animal-símbolo é o dragão, que não é real. Somos ave, somos cavalo, somos peixe, pode ser o que você quiser, mas é só chinês.
Rico, mas fraco
Sou otimista. Em cinco anos, a China será a segunda economia mais importante do mundo, e a influência política do país só irá crescer. Mas levará muito tempo para ser uma superpotência. Seremos mais ricos, mas militarmente somos cada vez mais fracos.Não combatemos em nenhuma guerra desde 1984 [quando houve conflitos de fronteira com o Vietnã]. Somos como o Japão -temos um Exército com equipamentos modernos, mas ninguém sabe exatamente como usá-los.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO /+MAIS!
ACCS RELÊ MARX E ORIENTA O GOVERNO
Da Redação
Criada em 1977, a partir da Academia Chinesa de Ciências, a Academia Chinesa de Ciências Sociais representa o topo da hierarquia acadêmica no pensamento social do país. A ACCS tem como metas estudar tanto a reforma econômica quanto a doutrina marxista-leninista.Os pesquisadores municiam o governo com análises, como a divulgada na semana passada, segundo a qual a economia do país deverá resistir bem caso especuladores financeiros internacionais decidam retirar seus investimentos do país.
Da Redação
Criada em 1977, a partir da Academia Chinesa de Ciências, a Academia Chinesa de Ciências Sociais representa o topo da hierarquia acadêmica no pensamento social do país. A ACCS tem como metas estudar tanto a reforma econômica quanto a doutrina marxista-leninista.Os pesquisadores municiam o governo com análises, como a divulgada na semana passada, segundo a qual a economia do país deverá resistir bem caso especuladores financeiros internacionais decidam retirar seus investimentos do país.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO /+MAIS!
REVISTA "DUSHU" É MARCO INTELECTUAL
Da Redação
A revista mensal "Dushu" (Leitura) começou a ser publicada em 1979 e se tornou um dos principais veículos da intelectualidade chinesa, especialmente da Nova Esquerda. Sediada em Pequim, tem tradição de discussão política aberta desde a primeira edição, com o lema "Não há zona proibida na leitura".Sua circulação chegou a cerca de 100 mil exemplares por mês em 2007. Ainda no ano passado, causou polêmica a demissão de seus dois editores, Wang Hui e Huang Ping, sem justificativa.
Da Redação
A revista mensal "Dushu" (Leitura) começou a ser publicada em 1979 e se tornou um dos principais veículos da intelectualidade chinesa, especialmente da Nova Esquerda. Sediada em Pequim, tem tradição de discussão política aberta desde a primeira edição, com o lema "Não há zona proibida na leitura".Sua circulação chegou a cerca de 100 mil exemplares por mês em 2007. Ainda no ano passado, causou polêmica a demissão de seus dois editores, Wang Hui e Huang Ping, sem justificativa.
segunda-feira, 4 de agosto de 2008

TRADIÇÃO
Ascenço Ferreira
(1895-1965)
Terraço da Casa-Grande de manhãzinha,
fartura espetaculosa dos Coronéis:
- Ó Zé-estribeiro! Zé-estribeiro!
- Inhôôr!
- Quantos litros de leite deu a vaca Cumbuca?
- 25, seu Curuné!
- E a vaca Malhada?
- 27, seu Curuné!
- E a vaca Pedrês?
- 35 seu Curuné!
- Sóó? Diabo! os meninos hoje não têm o qui mamar!
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1047&portal=
EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1047&portal=
DEU NO JORNAL DO BRASIL

SOBRE TRANSFERÊNCIA DE VOTOS
Wilson Figueiredo
Jornalista
O presidente Lula foi à Bahia e, antes de saber o quê que a baiana realmente tem, recomendou aos demais convidados ao almoço no Palácio de Ondina tratarem "muito bem a minha candidatada". Nem a própria Dilma Rousseff, de corpo presente, disfarçou a surpresa por trás do sorriso. O tratamento de choque aplicado por Lula revitalizou a sucessão presidencial e lhe deu a medida da volatilidade do poder, embora já resolvida pelos cálculos para 2014. Se é que pesquisas lhe dizem a verdade. O resto é lisonja.
Estava lançada a candidatura da ministra Dilma Rousseff, até então implícita e sem decolar, por ser mais pesada que o ar irrespirável, pelo menos até o próprio presidente apontar a porta da rua aos queremistas do terceiro mandato. Criou com o lançamento de Dilma o que faltava à sucessão presidencial para desencalhar. E mais tempo para o ocupar em responsabilidades superiores ao seu patrimônio de intenções de votos intransferíveis.
Na condição de magnata da produção de votos, o presidente se aventurou no caminho da sucessão, para a qual tem votos para dar, vender não. Falta-lhe apenas a eleição. Tal desperdício não deixa de ser contradição da democracia instalada no terreno histórico onde já se ergueram duas ditaduras e desabaram algumas tentativas mal conduzidas. O terceiro mandato cogitado pelo clube de falidos (em matéria de votos), sob a batuta do vice-presidente que se elegeu duas vezes sem votos, deixou os dois na mão. Entre uma pesquisa e outra, Lula viu que ia ficar sem saída, logo ele que não se sente bem na "escolha de Sofia", na qual o vencedor é também perdedor. Deixou correr o tempo e, na Bahia, onde foi desfilar o estilo de governar em trânsito, declarou seu voto e deixou o resto para trás. Contornou as tensões da escolha ao personalizar a indicação antes atribuída aos partidos. Fez bem. O PT é mais enrolado do que penteado rastafari e o PMDB não perde o jeito de penetra de classe média em festa de família rica. Já o PSDB evitou até agora as tensões, pré e pós, de decidir entre duas candidaturas plantadas há anos também em termos de opção de Sofia, que beneficiaria os adversários. A social-democracia, desta vez, ou vai ou racha no Brasil. Também de Sofia.
Depois de pouco falar e muito calar, que é a arte mineira de desconversar, Lula entrou em cena como diretor da peça republicana atualizada e resolveu a questão com, mais ou menos, dois anos de antecedência: cuidem da Dilma e não se preocupem com o vice, cuja escolha recairá mesmo sobre quem não tiver votos. À saída do almoço, Lula não fez mas podia, se a soubesse, ter repetido a frase que imortalizou o mineiro mais cosmopolita da política brasileira, Francisco Negrão de Lima, modesto de votos e rico de elegância, governador da Guanabara (era o Rio de Janeiro mesmo, com menos estatística). Numa dessas situações das quais parecia não haver saída normal, e depois de muito conversar, Negrão declarou aos repórteres que o cercaram: "A situação é grave e, sem hipérbole, terrível". Era, mas deu tudo certo. Lula perdeu a oportunidade.
A candidatura de Dilma Rousseff estava implícita, mas sem garantia de sobrevivência por conta própria. Ela se sentia constrangida de falar a respeito de hipótese. O presidente, com sua inexplicável propensão hamletiana de ser e não ser ao mesmo tempo, criou o fato na Bahia mas, se não o complementar com outros do mesmo calibre, vai conhecer dificuldades.
Dilma era apenas presidenciável como qualquer brasileiro, com mais de 35 anos. Agora passou a candidata da preferência de Lula, como Emilinha Borba era a favorita da banda dos Fuzileiros Navais. Por direito natural.
Se a política é mesmo a arte do possível, Lula atua dentro do parâmetro nacional onde, de certa forma, tudo é possível, dependendo do imponderável. Apenas convém não ser surpreendido pela confirmação de que eleger o sucessor é exceção, da Presidência da República às prefeituras municipais. Votos só se transferem mediante telegrama ou carta por via postal. Ou por e-mail, na internet.
Wilson Figueiredo
Jornalista
O presidente Lula foi à Bahia e, antes de saber o quê que a baiana realmente tem, recomendou aos demais convidados ao almoço no Palácio de Ondina tratarem "muito bem a minha candidatada". Nem a própria Dilma Rousseff, de corpo presente, disfarçou a surpresa por trás do sorriso. O tratamento de choque aplicado por Lula revitalizou a sucessão presidencial e lhe deu a medida da volatilidade do poder, embora já resolvida pelos cálculos para 2014. Se é que pesquisas lhe dizem a verdade. O resto é lisonja.
Estava lançada a candidatura da ministra Dilma Rousseff, até então implícita e sem decolar, por ser mais pesada que o ar irrespirável, pelo menos até o próprio presidente apontar a porta da rua aos queremistas do terceiro mandato. Criou com o lançamento de Dilma o que faltava à sucessão presidencial para desencalhar. E mais tempo para o ocupar em responsabilidades superiores ao seu patrimônio de intenções de votos intransferíveis.
Na condição de magnata da produção de votos, o presidente se aventurou no caminho da sucessão, para a qual tem votos para dar, vender não. Falta-lhe apenas a eleição. Tal desperdício não deixa de ser contradição da democracia instalada no terreno histórico onde já se ergueram duas ditaduras e desabaram algumas tentativas mal conduzidas. O terceiro mandato cogitado pelo clube de falidos (em matéria de votos), sob a batuta do vice-presidente que se elegeu duas vezes sem votos, deixou os dois na mão. Entre uma pesquisa e outra, Lula viu que ia ficar sem saída, logo ele que não se sente bem na "escolha de Sofia", na qual o vencedor é também perdedor. Deixou correr o tempo e, na Bahia, onde foi desfilar o estilo de governar em trânsito, declarou seu voto e deixou o resto para trás. Contornou as tensões da escolha ao personalizar a indicação antes atribuída aos partidos. Fez bem. O PT é mais enrolado do que penteado rastafari e o PMDB não perde o jeito de penetra de classe média em festa de família rica. Já o PSDB evitou até agora as tensões, pré e pós, de decidir entre duas candidaturas plantadas há anos também em termos de opção de Sofia, que beneficiaria os adversários. A social-democracia, desta vez, ou vai ou racha no Brasil. Também de Sofia.
Depois de pouco falar e muito calar, que é a arte mineira de desconversar, Lula entrou em cena como diretor da peça republicana atualizada e resolveu a questão com, mais ou menos, dois anos de antecedência: cuidem da Dilma e não se preocupem com o vice, cuja escolha recairá mesmo sobre quem não tiver votos. À saída do almoço, Lula não fez mas podia, se a soubesse, ter repetido a frase que imortalizou o mineiro mais cosmopolita da política brasileira, Francisco Negrão de Lima, modesto de votos e rico de elegância, governador da Guanabara (era o Rio de Janeiro mesmo, com menos estatística). Numa dessas situações das quais parecia não haver saída normal, e depois de muito conversar, Negrão declarou aos repórteres que o cercaram: "A situação é grave e, sem hipérbole, terrível". Era, mas deu tudo certo. Lula perdeu a oportunidade.
A candidatura de Dilma Rousseff estava implícita, mas sem garantia de sobrevivência por conta própria. Ela se sentia constrangida de falar a respeito de hipótese. O presidente, com sua inexplicável propensão hamletiana de ser e não ser ao mesmo tempo, criou o fato na Bahia mas, se não o complementar com outros do mesmo calibre, vai conhecer dificuldades.
Dilma era apenas presidenciável como qualquer brasileiro, com mais de 35 anos. Agora passou a candidata da preferência de Lula, como Emilinha Borba era a favorita da banda dos Fuzileiros Navais. Por direito natural.
Se a política é mesmo a arte do possível, Lula atua dentro do parâmetro nacional onde, de certa forma, tudo é possível, dependendo do imponderável. Apenas convém não ser surpreendido pela confirmação de que eleger o sucessor é exceção, da Presidência da República às prefeituras municipais. Votos só se transferem mediante telegrama ou carta por via postal. Ou por e-mail, na internet.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
POSIÇÃO DE MINISTRO PREOCUPA O PLANALTO
Christiane Samarco, Brasília
Avaliação é de que Tarso constrange e cria problemas para o presidente
A defesa pública da punição dos torturadores do regime militar, feita pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, na semana passada, não desagradou apenas às Forças Armadas. Setores do Palácio do Planalto e do governo também se irritaram com as declarações e reprovaram a conduta do ministro.
A avaliação predominante na Esplanada dos Ministérios é de que o discurso da “responsabilização dos agentes públicos que praticaram violações dos direitos humanos” só está servindo para “constranger e criar problemas” para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No governo, quem mais se incomodou com a manifestação “inconveniente” de Tarso foi o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Ele comentou no fim de semana com um interlocutor que já teve “de apagar incêndio dele (de Tarso) com o Judiciário” e agora surge a “provocação aos militares, sem avisar ninguém”. Frisou que se via obrigado a contestar o colega de público, para contornar a crise.
O embate com o Judiciário se deu por causa das críticas de Tarso ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, em razão dos seguidos habeas corpus concedidos pela Justiça a presos em operações da Polícia Federal.
Depois do seminário promovido pelo ministro da Justiça, Jobim apressou-se em afirmar que “a análise dos fatos que estão sendo levantados por Tarso cabe exclusivamente ao Judiciário” e nada tem a ver com o Executivo.
Jobim também atuou nos bastidores, procurando acalmar pessoalmente os comandantes das três Forças e agradou. Oficiais do Exército estão sendo convencidos de que há um “núcleo do governo que barra o revanchismo propalado pelo ministro da Justiça”, mas nem assim está sendo fácil conter a revolta dos militares diante das declarações de Tarso.
IMAGEM
Generais em postos de comando têm defendido a tese de que o presidente Lula precisa dar um “cala-boca” no ministro. Argumentam nos bastidores que os constantes embates, seja com o Judiciário ou com as Forças Armadas, prejudicam a imagem do governo e comprometem o ambiente interno.
Um general da ativa que acompanha os desdobramentos do seminário do ministério e participa dos debates suscitados no Exército afirma que isso demonstra “desunião interna e nos prejudica a todos”.
Christiane Samarco, Brasília
Avaliação é de que Tarso constrange e cria problemas para o presidente
A defesa pública da punição dos torturadores do regime militar, feita pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, na semana passada, não desagradou apenas às Forças Armadas. Setores do Palácio do Planalto e do governo também se irritaram com as declarações e reprovaram a conduta do ministro.
A avaliação predominante na Esplanada dos Ministérios é de que o discurso da “responsabilização dos agentes públicos que praticaram violações dos direitos humanos” só está servindo para “constranger e criar problemas” para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
No governo, quem mais se incomodou com a manifestação “inconveniente” de Tarso foi o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Ele comentou no fim de semana com um interlocutor que já teve “de apagar incêndio dele (de Tarso) com o Judiciário” e agora surge a “provocação aos militares, sem avisar ninguém”. Frisou que se via obrigado a contestar o colega de público, para contornar a crise.
O embate com o Judiciário se deu por causa das críticas de Tarso ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, em razão dos seguidos habeas corpus concedidos pela Justiça a presos em operações da Polícia Federal.
Depois do seminário promovido pelo ministro da Justiça, Jobim apressou-se em afirmar que “a análise dos fatos que estão sendo levantados por Tarso cabe exclusivamente ao Judiciário” e nada tem a ver com o Executivo.
Jobim também atuou nos bastidores, procurando acalmar pessoalmente os comandantes das três Forças e agradou. Oficiais do Exército estão sendo convencidos de que há um “núcleo do governo que barra o revanchismo propalado pelo ministro da Justiça”, mas nem assim está sendo fácil conter a revolta dos militares diante das declarações de Tarso.
IMAGEM
Generais em postos de comando têm defendido a tese de que o presidente Lula precisa dar um “cala-boca” no ministro. Argumentam nos bastidores que os constantes embates, seja com o Judiciário ou com as Forças Armadas, prejudicam a imagem do governo e comprometem o ambiente interno.
Um general da ativa que acompanha os desdobramentos do seminário do ministério e participa dos debates suscitados no Exército afirma que isso demonstra “desunião interna e nos prejudica a todos”.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
MILITARES REAGEM A TARSO E CRITICAM 'PASSADO TERRORISTA' DO GOVERNO LULA
Christiane Samarco, BRASÍLIA
Oficiais vão patrocinar seminário na quinta para discutir o que consideram ‘conduta revanchista’ do ministro
Os militares decidiram dar o troco ao ministro da Justiça, Tarso Genro, por causa da audiência pública convocada por ele na semana passada para debater a punição de “agentes do Estado” que tenham praticado tortura, assassinatos e violações dos direitos humanos durante o regime militar. Revoltados com o que consideram “conduta revanchista” do ministro, oficiais da reserva, com o apoio de comandantes da ativa, patrocinarão uma espécie de anti-seminário no Clube Militar do Rio de Janeiro, na próxima quinta.
Em recente conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, disse que é preciso “pôr uma pedra sobre este assunto”, até porque o tema está saturado e o objetivo da Lei da Anistia foi encerrar um debate que “abre feridas e provoca indignação”. Um general da ativa que acompanha a movimentação dos colegas reformados disse ao Estado que os militares vão se manter calados, mas avisa que a reserva se manifestar.
Segundo este general, o objetivo do seminário de 7 de agosto é debater o que consideram “passado terrorista” de autoridades do governo Lula e de personalidades do PT, discutindo, inclusive, se não seria o caso de puni-los pelos excessos cometidos na luta armada. O que mais irrita oficiais das três Forças é o fato de a maioria deles ter recebido indenizações. A queixa geral é de que eles também mataram e seqüestraram e agora querem provocar os militares.
No seminário, uma das idéias é aproveitar a estrutura do Clube Militar, como agremiação que desde a República Velha vem funcionando como uma espécie de porta-voz do setor, para exibir uma série de slides com fotos e uma biografia resumida de ministros de Estado e petistas ilustres. A lista começa pelo ex-ministro José Dirceu e tem o próprio Tarso Genro em quinto lugar. O segundo posto é dado à ministra da Casa Civil, Dilma Roussef.
O ministro da Comunicação, Franklin Martins, aparece em quarto, logo atrás do deputado José Genoino (PT-SP). Mais atrás, estão os ministros do Meio Ambiente, Carlos Minc, e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi.
“Será que quem seqüestrou o embaixador norte-americano e o prendeu, dizendo todo dia que ia matá-lo, não cometeu ato de tortura igualmente condenável?”, questionou o presidente do Clube Militar, general da reserva Gilberto Barbosa de Figueiredo, em recente entrevista ao Estado. Ele não mencionou Franklin como um dos idealizadores do seqüestro, mas antecipou o tom do seminário.
LULA ‘CERCADO’
O general defende a tese de que, se for para julgar quem torturou, como sugeriu Tarso, o julgamento deve ser estendido a todos, incluindo os que estão na cúpula do governo. A lista já circula entre oficiais da ativa e da reserva por meio de mensagens pela internet. Nela, os militares se queixam de que o presidente Lula governa “cercado por remanescentes da luta armada”.
Um dos mais criticados é o secretário de Direitos Humanos, acusado no texto de “agir com muita liberdade e desenvoltura na defesa de posições revanchistas” no desempenho de suas funções. A mensagem conclui que a Secretaria dos Direitos Humanos “foi criada para promover o revanchismo político, afrontar as instituições militares e defender organizações de esquerda”.
Na biografia de Dilma, a mensagem diz que ela “participou da organização de assaltos a bancos e quartéis, foi condenada em três processos e ficou presa no presídio Tiradentes”. Em tom irônico, lembra o depoimento dela ao Tortura Nunca Mais, em que ela relatou ter sido torturada por 22 dias. “Um caso raro que não se sabe por que não foi incluído até hoje no Guinness, pois conseguiu sobreviver durante 528 horas aos diferentes tipos de tortura a que alega ter sido submetida.”
Christiane Samarco, BRASÍLIA
Oficiais vão patrocinar seminário na quinta para discutir o que consideram ‘conduta revanchista’ do ministro
Os militares decidiram dar o troco ao ministro da Justiça, Tarso Genro, por causa da audiência pública convocada por ele na semana passada para debater a punição de “agentes do Estado” que tenham praticado tortura, assassinatos e violações dos direitos humanos durante o regime militar. Revoltados com o que consideram “conduta revanchista” do ministro, oficiais da reserva, com o apoio de comandantes da ativa, patrocinarão uma espécie de anti-seminário no Clube Militar do Rio de Janeiro, na próxima quinta.
Em recente conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o comandante do Exército, general Enzo Martins Peri, disse que é preciso “pôr uma pedra sobre este assunto”, até porque o tema está saturado e o objetivo da Lei da Anistia foi encerrar um debate que “abre feridas e provoca indignação”. Um general da ativa que acompanha a movimentação dos colegas reformados disse ao Estado que os militares vão se manter calados, mas avisa que a reserva se manifestar.
Segundo este general, o objetivo do seminário de 7 de agosto é debater o que consideram “passado terrorista” de autoridades do governo Lula e de personalidades do PT, discutindo, inclusive, se não seria o caso de puni-los pelos excessos cometidos na luta armada. O que mais irrita oficiais das três Forças é o fato de a maioria deles ter recebido indenizações. A queixa geral é de que eles também mataram e seqüestraram e agora querem provocar os militares.
No seminário, uma das idéias é aproveitar a estrutura do Clube Militar, como agremiação que desde a República Velha vem funcionando como uma espécie de porta-voz do setor, para exibir uma série de slides com fotos e uma biografia resumida de ministros de Estado e petistas ilustres. A lista começa pelo ex-ministro José Dirceu e tem o próprio Tarso Genro em quinto lugar. O segundo posto é dado à ministra da Casa Civil, Dilma Roussef.
O ministro da Comunicação, Franklin Martins, aparece em quarto, logo atrás do deputado José Genoino (PT-SP). Mais atrás, estão os ministros do Meio Ambiente, Carlos Minc, e da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi.
“Será que quem seqüestrou o embaixador norte-americano e o prendeu, dizendo todo dia que ia matá-lo, não cometeu ato de tortura igualmente condenável?”, questionou o presidente do Clube Militar, general da reserva Gilberto Barbosa de Figueiredo, em recente entrevista ao Estado. Ele não mencionou Franklin como um dos idealizadores do seqüestro, mas antecipou o tom do seminário.
LULA ‘CERCADO’
O general defende a tese de que, se for para julgar quem torturou, como sugeriu Tarso, o julgamento deve ser estendido a todos, incluindo os que estão na cúpula do governo. A lista já circula entre oficiais da ativa e da reserva por meio de mensagens pela internet. Nela, os militares se queixam de que o presidente Lula governa “cercado por remanescentes da luta armada”.
Um dos mais criticados é o secretário de Direitos Humanos, acusado no texto de “agir com muita liberdade e desenvoltura na defesa de posições revanchistas” no desempenho de suas funções. A mensagem conclui que a Secretaria dos Direitos Humanos “foi criada para promover o revanchismo político, afrontar as instituições militares e defender organizações de esquerda”.
Na biografia de Dilma, a mensagem diz que ela “participou da organização de assaltos a bancos e quartéis, foi condenada em três processos e ficou presa no presídio Tiradentes”. Em tom irônico, lembra o depoimento dela ao Tortura Nunca Mais, em que ela relatou ter sido torturada por 22 dias. “Um caso raro que não se sabe por que não foi incluído até hoje no Guinness, pois conseguiu sobreviver durante 528 horas aos diferentes tipos de tortura a que alega ter sido submetida.”
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
O ALIENISTA
Fernando de Barros e Silva
SÃO PAULO - Em baixa na PF, Protógenes Queiroz está em alta na opinião pública. Seu afastamento do caso Daniel Dantas & Naji Nahas, cujas circunstâncias e motivações não foram bem esclarecidas, teve o efeito de redimir os erros do inquérito obtuso que produziu. Fora da investigação -não talvez pelos bons motivos-, o delegado ficou à vontade para assumir, com e sem razão, o papel de vítima dos poderosos e paladino da moralidade.
Feito celebridade, Protógenes encontrou um palanque para seu discurso cívico-messiânico, no qual o jargão de delegacia vem embolado com clichês da esquerda e rudimentos mal assimilados de sociologia. Não deixa de sugerir um personagem de Glauber Rocha, sempre entre a política e o delírio, numa luta encarniçada do bem contra o mal.
Em entrevista ao repórter Rubens Valente, nesta Folha, Protógenes se põe como "porta-voz do grande grito contra a corrupção no país", um "instrumento" do povo que se sentia "oprimido" pelos corruptos. Não é difícil imaginá-lo deputado em 2010 ou na lista dos mais vendidos do próximo Natal.
Assim como Daniel Dantas se tornou um vilão de novela, o delegado também é uma caricatura de herói. A questão de fundo vai além dos personagens da hora.
A Constituição de 88 e duas décadas de regime democrático produziram novas gerações de juízes, promotores, delegados e agentes da PF empenhados e em condições de enfrentar a impunidade dos poderosos. Isso é novo e é muito bom.
A boa nova, porém, produz monstros quando se fica sabendo que a Justiça concedeu à PF acesso a todo o cadastro telefônico do país a pretexto de investigar a turma de Dantas. Isso também é novo e não é apenas muito ruim. É assustador.
Se não se agir logo para conciliar a sede de justiça com as garantias constitucionais, corremos o risco de caminhar para uma República de Bacamarte, o famoso personagem de Machado de Assis que trancou a cidade inteira num hospício. Que tal prender toda a população e depois ir soltando os inocentes?
Fernando de Barros e Silva
SÃO PAULO - Em baixa na PF, Protógenes Queiroz está em alta na opinião pública. Seu afastamento do caso Daniel Dantas & Naji Nahas, cujas circunstâncias e motivações não foram bem esclarecidas, teve o efeito de redimir os erros do inquérito obtuso que produziu. Fora da investigação -não talvez pelos bons motivos-, o delegado ficou à vontade para assumir, com e sem razão, o papel de vítima dos poderosos e paladino da moralidade.
Feito celebridade, Protógenes encontrou um palanque para seu discurso cívico-messiânico, no qual o jargão de delegacia vem embolado com clichês da esquerda e rudimentos mal assimilados de sociologia. Não deixa de sugerir um personagem de Glauber Rocha, sempre entre a política e o delírio, numa luta encarniçada do bem contra o mal.
Em entrevista ao repórter Rubens Valente, nesta Folha, Protógenes se põe como "porta-voz do grande grito contra a corrupção no país", um "instrumento" do povo que se sentia "oprimido" pelos corruptos. Não é difícil imaginá-lo deputado em 2010 ou na lista dos mais vendidos do próximo Natal.
Assim como Daniel Dantas se tornou um vilão de novela, o delegado também é uma caricatura de herói. A questão de fundo vai além dos personagens da hora.
A Constituição de 88 e duas décadas de regime democrático produziram novas gerações de juízes, promotores, delegados e agentes da PF empenhados e em condições de enfrentar a impunidade dos poderosos. Isso é novo e é muito bom.
A boa nova, porém, produz monstros quando se fica sabendo que a Justiça concedeu à PF acesso a todo o cadastro telefônico do país a pretexto de investigar a turma de Dantas. Isso também é novo e não é apenas muito ruim. É assustador.
Se não se agir logo para conciliar a sede de justiça com as garantias constitucionais, corremos o risco de caminhar para uma República de Bacamarte, o famoso personagem de Machado de Assis que trancou a cidade inteira num hospício. Que tal prender toda a população e depois ir soltando os inocentes?
DEU NO VALOR ECONÔMICO

INSTITUIÇÕES E POLÍTICAS PÚBLICAS
Fábio Wanderley Reis
Tivemos na semana passada, em Campinas, o 6º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política. No que me diz respeito, a reunião ensejou participar em discussão relativa aos resultados alcançados e desafios suscitados por estudos recentes no campo que se costuma designar como política comparada.
Afora questões metodológicas áridas (e cercadas de bobagens eternas: não comparar alhos com bugalhos, maçãs com laranjas...), os aspectos substantivos do tema permitem destacar, especialmente na óptica dos desafios a serem enfrentados, a questão das relações entre instituições políticas e substrato social, que tenho considerado aqui com alguma frequência. Ela remete a um problema conceitual básico, para o qual os estudiosos nem sempre são atentos, com custos altos do ponto de vista do interesse real das análises: há um plano institucional a ser contraposto cortantemente ao plano da base social das interações e conflitos de todo tipo, ou a visão apropriada das instituições políticas deve salientar antes o enraizamento sociopsicológico dos mecanismos e entidades "formais" da política, de modo a permitir a articulação dos dois níveis e a consequente eficácia na "domesticação" formal (legal, "institucional") das relações e dos conflitos da base?
Objeto e contexto da ação política
A primeira perspectiva leva ao "institucionalismo" estreito e empobrecedor que às vezes tenho mencionado. A segunda é sensível ao drama social envolvido no desafio da construção de instituições democráticas, e o aspecto de uma psicologia coletiva propícia surge nela como produto, em medida importante, justamente de que se torne possível acomodar os conflitos - em particular o conflito distributivo, apesar de que este possa combinar-se com focos diversos de agregação e enfrentamento dos interesses. Tenho proposto uma distinção que se dirige sobretudo à dimensão de psicologia coletiva, mas que é sem dúvida relevante para as relações dos "formalismos" institucionais com o substrato social mesmo em seu componente estratégico ou conflituoso: por um lado, o institucional como "objeto", em que se trata da ação deliberada do legislador ou da "engenharia" político-institucional, fatalmente condicionada por um horizonte conjuntural e contendo inevitável elemento de artificialismo, em contraste com a opacidade "estrutural" da base ou substrato (donde se falar às vezes do "meramente" institucional); e, por outro lado, o institucional como "contexto", em que os dispositivos e normas institucionais, com o passar do tempo, eventualmente se "sacralizam" e se transformam em parte efetiva e relevante do contexto em que se desenvolvem as ações e interações cotidianas.
Além da recentíssima atenção, com boas razões, ao Judiciário, os estudos e discussões institucionais no país têm dado ênfase igualmente merecida ao Legislativo. Contudo, o caráter estreito do foco "institucionalista" tem levado seja a pressupostos convergentes com certo foco "realista" da literatura internacional, em que a suposição básica é a de que a ação dos parlamentares não visa senão a assegurar a reeleição e a preservação do cargo (desaguando na pura barganha clientelista), seja a destacar a operação de mecanismos (em especial os instrumentos de poder de que dispõe o Governo) capazes de assegurar a disciplina partidária nas votações no Congresso Nacional. Naturalmente, maior sensibilidade à ligação entre instituições e substrato exigiria aqui que se examinasse com cuidado a conexão eleitoral dos parlamentares e os partidos e sua consistência como instrumentos de articulação com a base social. Em volume de 2006 sobre presidencialismo, parlamentarismo e democracia, José Antônio Cheibub se interroga a certa altura sobre as relações entre "disciplina" partidária e "coesão" partidária: é claro que o desiderato é que se venha a ter a disciplina como resultado natural da coesão e, assim, da consistência real de partidos que supostamente estariam representando algo maior do que os interesses miúdos de determinadas clientelas. A concessão ao realismo envolvida no reconhecimento de que boas regras disciplinadoras (e as reformas correspondentes) podem provavelmente ajudar a que se avance rumo ao desiderato não deveria redundar em justificar que se confunda ou perca de vista o desiderato, nem permitir esquecer que a possibilidade de realizá-lo depende em grau significativo de condições do próprio substrato - e do eleitorado como parte dele.
Mas cabe ressaltar algo mais, que tem preocupado analistas atentos: a relativa escassez, entre nós, dos estudos tradicionais de "políticas públicas", em que se tende a realçar o papel do Executivo, além do dos outros poderes. Um belo trabalho de Marta Arretche, apresentado na própria reunião da ABCP, examina a política social que vem sendo executada no Brasil, especialmente o programa Bolsa-Família, com referência à estrutura federativa do Estado brasileiro e aos diferentes papéis cumpridos pelo governo central e pelos municípios. Mas um volume que mencionei há algumas semanas, publicado em 2007 nos Estados Unidos (P. Pierson e T. Skocpol, "The Transformation of American Politics"), adverte com grande força para a relevância do que aqui se pode apreender, ao mostrar a afirmação do ativismo do governo federal estadunidense a partir de meados do século XX, sua articulação com a dinâmica social e, particularmente, seu impacto sobre ela, com a "revolução dos direitos civis", bem como a profunda mudança do mapa político do país trazida pelo efeito do ativismo estatal sobre a vida partidária e a reação notavelmente bem-sucedida do Partido Republicano, incluindo, entre várias outras coisas, o êxito da mobilização por um populismo conservador que penetra e corrói as bases tradicionais dos Democratas.
Naturalmente, há agora a novidade de Barack Obama, que o diagnóstico de Pierson e Skocpol torna ainda mais interessante. A conferir.
Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras
Fábio Wanderley Reis
Tivemos na semana passada, em Campinas, o 6º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política. No que me diz respeito, a reunião ensejou participar em discussão relativa aos resultados alcançados e desafios suscitados por estudos recentes no campo que se costuma designar como política comparada.
Afora questões metodológicas áridas (e cercadas de bobagens eternas: não comparar alhos com bugalhos, maçãs com laranjas...), os aspectos substantivos do tema permitem destacar, especialmente na óptica dos desafios a serem enfrentados, a questão das relações entre instituições políticas e substrato social, que tenho considerado aqui com alguma frequência. Ela remete a um problema conceitual básico, para o qual os estudiosos nem sempre são atentos, com custos altos do ponto de vista do interesse real das análises: há um plano institucional a ser contraposto cortantemente ao plano da base social das interações e conflitos de todo tipo, ou a visão apropriada das instituições políticas deve salientar antes o enraizamento sociopsicológico dos mecanismos e entidades "formais" da política, de modo a permitir a articulação dos dois níveis e a consequente eficácia na "domesticação" formal (legal, "institucional") das relações e dos conflitos da base?
Objeto e contexto da ação política
A primeira perspectiva leva ao "institucionalismo" estreito e empobrecedor que às vezes tenho mencionado. A segunda é sensível ao drama social envolvido no desafio da construção de instituições democráticas, e o aspecto de uma psicologia coletiva propícia surge nela como produto, em medida importante, justamente de que se torne possível acomodar os conflitos - em particular o conflito distributivo, apesar de que este possa combinar-se com focos diversos de agregação e enfrentamento dos interesses. Tenho proposto uma distinção que se dirige sobretudo à dimensão de psicologia coletiva, mas que é sem dúvida relevante para as relações dos "formalismos" institucionais com o substrato social mesmo em seu componente estratégico ou conflituoso: por um lado, o institucional como "objeto", em que se trata da ação deliberada do legislador ou da "engenharia" político-institucional, fatalmente condicionada por um horizonte conjuntural e contendo inevitável elemento de artificialismo, em contraste com a opacidade "estrutural" da base ou substrato (donde se falar às vezes do "meramente" institucional); e, por outro lado, o institucional como "contexto", em que os dispositivos e normas institucionais, com o passar do tempo, eventualmente se "sacralizam" e se transformam em parte efetiva e relevante do contexto em que se desenvolvem as ações e interações cotidianas.
Além da recentíssima atenção, com boas razões, ao Judiciário, os estudos e discussões institucionais no país têm dado ênfase igualmente merecida ao Legislativo. Contudo, o caráter estreito do foco "institucionalista" tem levado seja a pressupostos convergentes com certo foco "realista" da literatura internacional, em que a suposição básica é a de que a ação dos parlamentares não visa senão a assegurar a reeleição e a preservação do cargo (desaguando na pura barganha clientelista), seja a destacar a operação de mecanismos (em especial os instrumentos de poder de que dispõe o Governo) capazes de assegurar a disciplina partidária nas votações no Congresso Nacional. Naturalmente, maior sensibilidade à ligação entre instituições e substrato exigiria aqui que se examinasse com cuidado a conexão eleitoral dos parlamentares e os partidos e sua consistência como instrumentos de articulação com a base social. Em volume de 2006 sobre presidencialismo, parlamentarismo e democracia, José Antônio Cheibub se interroga a certa altura sobre as relações entre "disciplina" partidária e "coesão" partidária: é claro que o desiderato é que se venha a ter a disciplina como resultado natural da coesão e, assim, da consistência real de partidos que supostamente estariam representando algo maior do que os interesses miúdos de determinadas clientelas. A concessão ao realismo envolvida no reconhecimento de que boas regras disciplinadoras (e as reformas correspondentes) podem provavelmente ajudar a que se avance rumo ao desiderato não deveria redundar em justificar que se confunda ou perca de vista o desiderato, nem permitir esquecer que a possibilidade de realizá-lo depende em grau significativo de condições do próprio substrato - e do eleitorado como parte dele.
Mas cabe ressaltar algo mais, que tem preocupado analistas atentos: a relativa escassez, entre nós, dos estudos tradicionais de "políticas públicas", em que se tende a realçar o papel do Executivo, além do dos outros poderes. Um belo trabalho de Marta Arretche, apresentado na própria reunião da ABCP, examina a política social que vem sendo executada no Brasil, especialmente o programa Bolsa-Família, com referência à estrutura federativa do Estado brasileiro e aos diferentes papéis cumpridos pelo governo central e pelos municípios. Mas um volume que mencionei há algumas semanas, publicado em 2007 nos Estados Unidos (P. Pierson e T. Skocpol, "The Transformation of American Politics"), adverte com grande força para a relevância do que aqui se pode apreender, ao mostrar a afirmação do ativismo do governo federal estadunidense a partir de meados do século XX, sua articulação com a dinâmica social e, particularmente, seu impacto sobre ela, com a "revolução dos direitos civis", bem como a profunda mudança do mapa político do país trazida pelo efeito do ativismo estatal sobre a vida partidária e a reação notavelmente bem-sucedida do Partido Republicano, incluindo, entre várias outras coisas, o êxito da mobilização por um populismo conservador que penetra e corrói as bases tradicionais dos Democratas.
Naturalmente, há agora a novidade de Barack Obama, que o diagnóstico de Pierson e Skocpol torna ainda mais interessante. A conferir.
Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras
DEU NO JORNAL DO BRASIL
NOVOS CURRAIS O PREÇO DOS VOTOS NAS COMUNIDADES
Paula Máiran
Paula Máiran
Candidatos podem pagar até R$ 35 mil para fazer campanha em áreas do tráfico ou milícia. Há líderes comunitários com salários de R$ 2 mil
Políticos do asfalto perdem cada vez mais espaço no Rio para candidatos nascidos em comunidades pobres e sob domínio de poderes paralelos. O presidente da Federação das Favelas do Estado do Rio de Janeiro (Faferj), Rossino Castro Diniz, estima haver mais de 120 áreas de risco na cidade com candidatos próprios. O equivalente ao dobro do que se verificou no último pleito municipal. Em 2004, favelas elegeram três parlamentares de duas regiões de milícias e outra de tráfico. O fenômeno dos candidatos de comunidade progride, no entanto, em um cenário onde predomina a política tradicional, com os chamados candidatos "de fora" ou "chapas brancas", dados à prática do clientelismo e dispostos ou obrigados a pagar pelo direito de realizar suas campanhas em currais eleitorais controlados pelo crime. A autorização para candidatos de fora fazerem suas campanhas nas favelas é negociada de várias formas. Pode ser assistência social ou obras, mas há quem cobre em dinheiro, entre R$ 350 e R$ 35 mil afirma Rossino Diniz. No mercado eleitoral clandestino, segundo denúncias investigadas pela Polícia Federal, pagam-se valores de até R$ 100 mil. Há o salário-campanha, que faz de líderes comunitários cabos eleitorais por valores de mais de R$ 2 mil mensais, mais a promessa de cargos públicos em caso de vitória. E houve até o caso em que um fuzil serviu como moeda em troca de autorização de traficantes para a campanha de um candidato da Zona Norte.
Plebliscitos em comunidades
A PF já tem 29 denúncias re- passadas pelo Tribunal Regional Eleitoral. O presidente do TRE, desembargador Roberto Wider, disse que deverão perder os registros aquele que forem ligados ao tráfico ou a milícias. Para Rossino, nem tudo parece escuso no panorama eleitoral: As comunidades estão cansadas de candidatos Copa do Mundo, que só aparecem de quatro em quatro anos. Em Acari, por exemplo, participei da organização de um plebiscito em que foram escolhidos os candidatos da área. Vejo isso como um ponto positivo diz ele, ao observar que comunidades tentam conquistar autonomia nos limites de sua submissão ao poder paralelo. O mais interessante é que candidatos de milícias costumam ser de partidos da direita, enquanto nas áreas onde há tráfico, há uma identificação maior com os de esquerda. O representante das favelas refere-se ao resultado de plebiscito realizado pela Aliança Fortalecedora, conselho formado por 37 líderes comunitários de Acari e adjacências área de tráfico na Zona Norte, para defesa de Paulinho do Social (PTB), para vereador, e de Marcelo Crivella (PRB), para prefeito. Líderes comunitários cada vez mais deixam de ser cabos eleitorais para tentar se eleger, fato que já incomoda bastante os políticos tradicionais porque estão perdendo seus antigos currais avalia Rossino.
Sem deputados
Segundo ele, não há ainda ao menos um deputado estadual representante direto dos interesses de favelas. Na Câmara, ele cita a existência de Jorginho da SOS, do Complexo do Alemão, na Zona Norte, Nadinho de Rio das Pedras, na Zona Oeste, e Deco, dono de votos das favelas Chacrinha e Mato Alto, em Jacarepaguá. Este ano, também realizaram plebiscitos para escolher candidatos próprios comunidades dos Complexos do Alemão e da Penha, de Manguinhos, do Jacarezinho, na Zona Norte, de Turiassú e da Vila Kennedy, na Zona Oeste, da Rocinha e do Morro Santa Marta, ambas na Zona Sul.
DEU NO JORNAL DO BRASIL
`DIPLOMATA' ENTRE O PODER PARALELO E O ESTADO
A nova legislação eleitoral tem favorecido a candidatura dos mais pobres. É o que acredita o candidato a vereador Luís Cláudio dos Santos, o Claudinho da Merindiba (PSDC), do Complexo da Penha, na Zona Norte. A gente pensava: como ser candidato sem dinheiro? Com a nova lei e a proibição de brindes, isso se tornou possível acredita Claudinho, que chegou a ser posto sob suspeita de ter a ficha suja e teve de obter certidões negativas para provar que as anotações penais na sua ficha de inscrição no TRE pertenciam a homônimos. Para o candidato, o líder comunitário tem sido um diplomata da comunidade, entre o poder paralelo e o oficial. Não sou candidato do tráfico, mas ele existe e preciso transitar em todos os territórios para representar os interesses da comunidade no relacionamento com o tráfico, com a polícia, com o hospital explica Claudinho, candidato apoiado por pelo menos quatro das 12 comunidades do Complexo da Penha. Estabelecemos aqui com clareza o que é tráfico, o que é movimento comunitário. Um não se mete com o outro. Segundo Claudinho, a força do poder paralelo aumentou muito nos últimos cinco anos. A ausência do Estado é cada vez maior, a não ser pela presença violenta da polícia. O mais grave é a inexistência de um programa de capacitação dos jovens. Sem perspectivas, cada vez mais ingressam no mundo do crime. O candidato revela que a própria experiência de vida o afasta do tráfico: Sofri viciado em drogas durante dez anos. Consegui sair dessa com uma missão, quero ver as coisas mudarem afirma ele, que, aos 24, entrou para a Universal, de onde saiu quatro anos depois para outra igreja evangélica.
A nova legislação eleitoral tem favorecido a candidatura dos mais pobres. É o que acredita o candidato a vereador Luís Cláudio dos Santos, o Claudinho da Merindiba (PSDC), do Complexo da Penha, na Zona Norte. A gente pensava: como ser candidato sem dinheiro? Com a nova lei e a proibição de brindes, isso se tornou possível acredita Claudinho, que chegou a ser posto sob suspeita de ter a ficha suja e teve de obter certidões negativas para provar que as anotações penais na sua ficha de inscrição no TRE pertenciam a homônimos. Para o candidato, o líder comunitário tem sido um diplomata da comunidade, entre o poder paralelo e o oficial. Não sou candidato do tráfico, mas ele existe e preciso transitar em todos os territórios para representar os interesses da comunidade no relacionamento com o tráfico, com a polícia, com o hospital explica Claudinho, candidato apoiado por pelo menos quatro das 12 comunidades do Complexo da Penha. Estabelecemos aqui com clareza o que é tráfico, o que é movimento comunitário. Um não se mete com o outro. Segundo Claudinho, a força do poder paralelo aumentou muito nos últimos cinco anos. A ausência do Estado é cada vez maior, a não ser pela presença violenta da polícia. O mais grave é a inexistência de um programa de capacitação dos jovens. Sem perspectivas, cada vez mais ingressam no mundo do crime. O candidato revela que a própria experiência de vida o afasta do tráfico: Sofri viciado em drogas durante dez anos. Consegui sair dessa com uma missão, quero ver as coisas mudarem afirma ele, que, aos 24, entrou para a Universal, de onde saiu quatro anos depois para outra igreja evangélica.
DEU NO JORNAL DO BRASIL
CADASTRO DE MORADORES TERIA CUSTADO R$ 100 MIL
Um fuzil ou R$ 40 mil foi a moeda utilizada por traficantes para cobrar pedágio nesta campanha municipal ao candidato a vereador Alberto Salles (PSC), na favela do Mundial, em Honório Gurgel, na Zona Norte. Rejeitada a proposta, pelo menos dez homens armados de fuzis atacaram, na semana passada, quatro cabos eleitorais do candidato, quando estes tentavam espalhar cartazes na favela. Esta é uma das cerca de 30 denúncias investigadas pela Polícia Federal, repassadas pelo TRE ou pelas polícias estaduais, sobre o mercado negro eleitoral. No papel de Polícia Judiciária Eleitoral, a PF, segundo o superintendente regional, delegado Valdinho Jacinto Caetano, teve de reforçar a sua equipe no Rio para dar conta da demanda do TRE. Uma nova leva de agentes chega à cidade nesta semana para reforçar a equipe de inteligência, formada por policiais de outros Estados, que apura o favorecimento ou cerceamento de de candidatos. Boa parte das denúncias refere-se à atuação de milícias na Zona Oeste. Uma delas envolve a venda de um cadastro eleitoral de moradores da favela Carobinha, em Campo Grande, por R$ 100 mil. Alberto não foi a única vítima. Logo na segunda semana de campanha, a vereadora Ingrid Gerolimich (PT) solicitou apoio da Polícia Militar para panfletar na Rocinha, na Zona Sul. Um dia depois, em operação policial, houve a apreensão de ata de reunião na comunidade da Zona Sul, segundo a qual estava determinado apoio à candidatura do presidente da associação de moradores local, Claudinho da Academia (PSDC). Também os candidatos a prefeito Marcelo Crivella (PRB), Fernando Gabeira (PV), Chico Alencar (PSOL) e Alessandro Molon (PT) passaram por constrangimentos. No sábado, os dois últimos foram impedidos de gravar imagens na Nova Holanda. Gabeira foi intimidado na Vila Cruzeiro, mesmo lugar em que traficantes haviam ameaçado jornalistas numa caminhada de Crivella. No domingo 13 de julho, o Jornal do Brasil iniciou série sobre a existência dos currais eleitorais do tráfico e das milícias no Rio -- onde vivem cerca de 500 mil eleitores na cidade -- e anunciou a convocação da Polícia Federal pelo TRE para reforçar a segurança pública durante todo o processo eleitoral.
Um fuzil ou R$ 40 mil foi a moeda utilizada por traficantes para cobrar pedágio nesta campanha municipal ao candidato a vereador Alberto Salles (PSC), na favela do Mundial, em Honório Gurgel, na Zona Norte. Rejeitada a proposta, pelo menos dez homens armados de fuzis atacaram, na semana passada, quatro cabos eleitorais do candidato, quando estes tentavam espalhar cartazes na favela. Esta é uma das cerca de 30 denúncias investigadas pela Polícia Federal, repassadas pelo TRE ou pelas polícias estaduais, sobre o mercado negro eleitoral. No papel de Polícia Judiciária Eleitoral, a PF, segundo o superintendente regional, delegado Valdinho Jacinto Caetano, teve de reforçar a sua equipe no Rio para dar conta da demanda do TRE. Uma nova leva de agentes chega à cidade nesta semana para reforçar a equipe de inteligência, formada por policiais de outros Estados, que apura o favorecimento ou cerceamento de de candidatos. Boa parte das denúncias refere-se à atuação de milícias na Zona Oeste. Uma delas envolve a venda de um cadastro eleitoral de moradores da favela Carobinha, em Campo Grande, por R$ 100 mil. Alberto não foi a única vítima. Logo na segunda semana de campanha, a vereadora Ingrid Gerolimich (PT) solicitou apoio da Polícia Militar para panfletar na Rocinha, na Zona Sul. Um dia depois, em operação policial, houve a apreensão de ata de reunião na comunidade da Zona Sul, segundo a qual estava determinado apoio à candidatura do presidente da associação de moradores local, Claudinho da Academia (PSDC). Também os candidatos a prefeito Marcelo Crivella (PRB), Fernando Gabeira (PV), Chico Alencar (PSOL) e Alessandro Molon (PT) passaram por constrangimentos. No sábado, os dois últimos foram impedidos de gravar imagens na Nova Holanda. Gabeira foi intimidado na Vila Cruzeiro, mesmo lugar em que traficantes haviam ameaçado jornalistas numa caminhada de Crivella. No domingo 13 de julho, o Jornal do Brasil iniciou série sobre a existência dos currais eleitorais do tráfico e das milícias no Rio -- onde vivem cerca de 500 mil eleitores na cidade -- e anunciou a convocação da Polícia Federal pelo TRE para reforçar a segurança pública durante todo o processo eleitoral.
DEU NO JORNAL DO BRASIL
SOCIÓLOGO AFIRMA QUE NÃO HÁ AVANÇO POLÍTICO
A carreira solo de líderes comunitários lançados candidatos pode ter algum aspecto virtuoso, no olhar do sociólogo Marcelo Burgos, professor da PUC e estudioso há 15 anos das favelas da cidade. Mas, segundo o pesquisador, ainda não representa muito em avanço político. Pelo contrário, fomenta um mercado de competição entre favelas, especialmente em tempos de eleição. O modo como tem ocorrido o lançamento dessas candidaturas reitera a fragmentação do movimento comunitário explica. Burgos escreveu um livro sobre Rio das Pedras e levou Nadinho (DEM), hoje candidato à reeleição, a um seminário na PUC: Na época, Nadinho deixou bem claro que estava indo para o DEM porque o prefeito Cesar Maia prometeu recursos para obras na sua comunidade conta o professor, para quem Nadinho não representou de fato na Câmara um avanço do movimento comunitário, "por falta de cultura política para isso". Para o pesquisador, o clientelismo político tradicional tem sido apenas substituído por um mais qualificado, na melhor das hipóteses: O poder público entra de cabeça e faz das comunidades a sua principal forma de atuação, inclusive com um controle da Câmara, onde parlamentares votam recursos oficiais para manter seus currais eleitorais. Um exemplo dessa política é o programa Favela-Bairro. Na primeira gestão do prefeito Cesar Maia, foram estabelecidos critérios técnicos para definir que áreas seriam contempladas pelo projeto. Depois, o que passou a vigorar foram as barganhas com lideranças comunitárias diz o estudioso. O prefeito Cesar Maia afirmou ontem apenas que administra a cidade, sem controle da Câmara: Nunca tive maioria na Câmara e há três anos não ganho uma votação lá respondeu às críticas.
A carreira solo de líderes comunitários lançados candidatos pode ter algum aspecto virtuoso, no olhar do sociólogo Marcelo Burgos, professor da PUC e estudioso há 15 anos das favelas da cidade. Mas, segundo o pesquisador, ainda não representa muito em avanço político. Pelo contrário, fomenta um mercado de competição entre favelas, especialmente em tempos de eleição. O modo como tem ocorrido o lançamento dessas candidaturas reitera a fragmentação do movimento comunitário explica. Burgos escreveu um livro sobre Rio das Pedras e levou Nadinho (DEM), hoje candidato à reeleição, a um seminário na PUC: Na época, Nadinho deixou bem claro que estava indo para o DEM porque o prefeito Cesar Maia prometeu recursos para obras na sua comunidade conta o professor, para quem Nadinho não representou de fato na Câmara um avanço do movimento comunitário, "por falta de cultura política para isso". Para o pesquisador, o clientelismo político tradicional tem sido apenas substituído por um mais qualificado, na melhor das hipóteses: O poder público entra de cabeça e faz das comunidades a sua principal forma de atuação, inclusive com um controle da Câmara, onde parlamentares votam recursos oficiais para manter seus currais eleitorais. Um exemplo dessa política é o programa Favela-Bairro. Na primeira gestão do prefeito Cesar Maia, foram estabelecidos critérios técnicos para definir que áreas seriam contempladas pelo projeto. Depois, o que passou a vigorar foram as barganhas com lideranças comunitárias diz o estudioso. O prefeito Cesar Maia afirmou ontem apenas que administra a cidade, sem controle da Câmara: Nunca tive maioria na Câmara e há três anos não ganho uma votação lá respondeu às críticas.
DEU EM O GLOBO

MP TERÁ PLANO ESPECIAL CONTRA PRESSÃO DE TRAFICANTES E MILÍCIAS SOBRE ELEITORES
Fábio Vasconcellos, Flávio Tabak e Waleska Borges
Serviço de Inteligência da Promotoria Eleitoral vai mapear zonas de risco
Fábio Vasconcellos, Flávio Tabak e Waleska Borges
Serviço de Inteligência da Promotoria Eleitoral vai mapear zonas de risco
A Promotoria Eleitoral do Ministério Público estadual vai formular um plano especial de atuação para o dia das eleições municipais no Rio. A idéia surgiu depois das recentes notícias de que traficantes e grupos de milícias pressionam eleitores a votar em determinados candidatos, e também porque bandidos passaram a impedir a entrada de políticos em algumas comunidades.
No sábado, Fernando Gabeira (PV), Alessandro Molon (PT) e Chico Alencar (PSOL) foram intimidados por traficantes armados, quando faziam campanha em Vila Cruzeiro e no Complexo da Maré. As equipes de Molon e Chico foram proibidas de fazer imagens.
O plano do MP contará com a participação do Serviço de Inteligência do órgão, que vai ajudar a mapear as zonas eleitorais onde há maior risco de bandidos intimidarem eleitores.
- Os promotores estarão mobilizados para acionar o mais rapidamente possível órgãos de segurança, caso notem movimentações estranhas na sessão eleitoral. O serviço de inteligência vai atuar também - disse o coordenador das promotorias eleitorais, procurador Marcos Ramayana.
- O TRE terá todo apoio do MP. Os promotores farão plantão no dia das eleições, com a ajuda do pessoal das sessões. Os mesários poderão entrar em contato direto com os juízes.
Para o procurador, é importante que candidatos que enfrentam problemas para entrar em algumas comunidades, devido à atuação de traficantes ou milicianos, registrem o caso na polícia. Quem preferir, pode também fazer um relato para a ouvidoria do MP, ligando para o número 127. Segundo ele, mesmo os candidatos a prefeito poderiam ajudar com informações.
Molon voltou a afirmar ontem que continuará indo a favelas:
- Não podemos aceitar que quem tem a palavra final no Rio é o crime.
Para o procurador, é importante que candidatos que enfrentam problemas para entrar em algumas comunidades, devido à atuação de traficantes ou milicianos, registrem o caso na polícia. Quem preferir, pode também fazer um relato para a ouvidoria do MP, ligando para o número 127. Segundo ele, mesmo os candidatos a prefeito poderiam ajudar com informações.
Molon voltou a afirmar ontem que continuará indo a favelas:
- Não podemos aceitar que quem tem a palavra final no Rio é o crime.
"Temos que tentar abrir caminho" , diz Gabeira
Já o candidato a prefeito do PSOL, Chico Alencar, vai entregar amanhã carta ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Carlos Ayres Britto, condenando a formação de currais eleitorais na eleição carioca. Chico disse que já tinha visto traficantes armados em campanhas, mas nunca com proibições.
- Foi a primeira vez que foi feita essa solicitação imperativa para parar de filmar, mas já tinha visto traficantes armados em campanha. Vou levar o pacto para o Ayres Britto, que só foi assinado por Fernando Gabeira (PV) e Eduardo Serra (PCB).
Para o candidato do PV, a próxima agenda em favela já foi escolhida, a Carobinha, na Zona Oeste:
- Já fiz o mapa da milícia no site de campanha e agora vou fazer o do tráfico. Nós temos que tentar abrir o caminho - disse Gabeira.
O candidato do PMDB, Eduardo Paes, também comentou a intimidação sofrida por seus adversários. Ele afirmou que não deixará de fazer corpo-a-corpo nas favelas. Paes esteve três vezes, em campanha, na Maré:
- Não vamos nos intimidar em lugar nenhum da cidade. Acho inadmissível que qualquer candidato tenha problemas para entrar nas comunidades. Todo cidadão do Rio deve ter direito de ir e vir - disse Paes.
Já a candidata do DEM à prefeitura, Solange Amaral, afirmou que não costuma ter problemas quando visita favelas; no entanto, criticou a política de segurança pública do governo estadual:
- O que aconteceu com os candidatos representa o quadro de descontrole da ação de segurança pública do estado, que só se agrava.
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

FREIRE REPROVA DEBATE NACIONAL NA SUCESSÃO
Apesar de crítico ferrenho do governo federal, o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, disse, ontem, não sentir desconforto pelo fato de seu candidato à PCR, Carlos Eduardo Cadoca (PSC), estar se apresentando como um postulante da base do presidente Lula. Mas condenou a nacionalização do debate nas disputas municipais, sob os argumentos de que a discussão deve ser em cima de propostas para a cidade e de que ninguém sabe o cenário político que sairá das urnas em 2010.
“É um erro os candidatos quererem se vincular muito ao governo federal. Como ficarão se, em 2010, o governo mudar? Além disso, que personalidade têm esses candidatos que só falam em Lula? Não pode haver essa subalternidade que estamos vendo em muitos Estados”, disse.
Segundo ele, é importante que os candidatos divulguem quem são seus aliados, mas sempre “impondo a sua personalidade”. Freire avaliou que, diferente do candidato do PT, João da Costa, Cadoca tem sabido fazer isso. “O Recife não pode ficar discutindo só se o Bolsa-Família continua, se vai acabar, se é boato. Isso nem depende do prefeito, é um programa federal. E em 2010 ninguém sabe o que acontecerá”, disparou, se referindo à “peleja” entre João da Costa e Mendonça Filho (DEM) sobre o assunto, que chegou à Justiça Eleitoral.
Sobre a aproximação de Cadoca com Lula, Freire afirmou que sempre soube dessa ligação no plano nacional, mas que, no Recife, o candidato se apresenta como “a melhor alternativa”. Em sua primeira participação na campanha, ontem, ele nem sempre acompanhou os passos de Cadoca de perto. Às vezes adotava ritmo próprio, acompanhando o filho, João Freire (PPS), candidato a vereador.
Apesar de crítico ferrenho do governo federal, o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, disse, ontem, não sentir desconforto pelo fato de seu candidato à PCR, Carlos Eduardo Cadoca (PSC), estar se apresentando como um postulante da base do presidente Lula. Mas condenou a nacionalização do debate nas disputas municipais, sob os argumentos de que a discussão deve ser em cima de propostas para a cidade e de que ninguém sabe o cenário político que sairá das urnas em 2010.
“É um erro os candidatos quererem se vincular muito ao governo federal. Como ficarão se, em 2010, o governo mudar? Além disso, que personalidade têm esses candidatos que só falam em Lula? Não pode haver essa subalternidade que estamos vendo em muitos Estados”, disse.
Segundo ele, é importante que os candidatos divulguem quem são seus aliados, mas sempre “impondo a sua personalidade”. Freire avaliou que, diferente do candidato do PT, João da Costa, Cadoca tem sabido fazer isso. “O Recife não pode ficar discutindo só se o Bolsa-Família continua, se vai acabar, se é boato. Isso nem depende do prefeito, é um programa federal. E em 2010 ninguém sabe o que acontecerá”, disparou, se referindo à “peleja” entre João da Costa e Mendonça Filho (DEM) sobre o assunto, que chegou à Justiça Eleitoral.
Sobre a aproximação de Cadoca com Lula, Freire afirmou que sempre soube dessa ligação no plano nacional, mas que, no Recife, o candidato se apresenta como “a melhor alternativa”. Em sua primeira participação na campanha, ontem, ele nem sempre acompanhou os passos de Cadoca de perto. Às vezes adotava ritmo próprio, acompanhando o filho, João Freire (PPS), candidato a vereador.
domingo, 3 de agosto de 2008

O CHOPE
Carlos Pena Filho
(1929-1960)
Na avenida Guararapes,
O Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antônio,
Tanto se foi transformando
Que, agora, às cinco da tarde
Mais se assemelha a um festim,
O refrão tem sido assim:
São trinta copos de chope,
São trinta homens sentados,
Trezentos desejos presos,
Trinta mil sonhos frustrados.
Carlos Pena Filho
(1929-1960)
Na avenida Guararapes,
O Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antônio,
Tanto se foi transformando
Que, agora, às cinco da tarde
Mais se assemelha a um festim,
O refrão tem sido assim:
São trinta copos de chope,
São trinta homens sentados,
Trezentos desejos presos,
Trinta mil sonhos frustrados.
O QUE PENSA A MÍDIA
EDITORIAS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1046&portal=
EDITORIAS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1046&portal=
DEU EM O GLOBO

DEMOCRACIA EM RISCO
Chico, Molon e Gabeira são coagidos durante campanha em favelas
RIO - O sábado de campanha dos candidatos a prefeito do Rio Chico Alencar (PSOL), Fernando Gabeira (PV) e Alessandro Molon (PT) foi marcado por ameaças de traficantes das favelas de Nova Holanda, no Complexo da Maré, e da Vila Cruzeiro. Por volta das 9h, Chico Alencar panfletava com candidatos a vereador de sua legenda na Nova Holanda quando homens armados com metralhadoras Uzi, fuzis e pistolas caminhavam normalmente pelas ruas da comunidade. Mais a frente, criminosos também armados exigiram que os militantes da campanha não fizessem imagens da favela. Os bandidos não chegaram a abordar o candidato, que seguiu a caminhada, passando por três bocas de fumo em pleno funcionamento.
Equipe de Molon é proibida de filmar na Nova Holanda
Um pouco mais tarde, por volta das 11h, Molon também foi fazer campanha no Complexo da Maré. Durante percurso no Parque União, não houve problemas, mas ao chegar na Nova Holanda sua equipe de filmagem recebeu o recado de homens armados com pistolas em motos: era proibido fazer qualquer imagem na região. O pedido foi atendido, e Molon seguiu o percurso.
Poucos minutos depois, perto de uma boca de fumo onde criminosos usavam drogas, o candidato do PT decidiu cancelar a caminhada, que já estava perto do final, e voltou em direção à Avenida Brasil para sair da favela. Segundo militantes, os traficantes que pilotavam as motos ameaçaram roubar os equipamentos de filmagem caso o registro de imagens não fosse paralisado. Molon reconhece que houve intimidação por parte do tráfico.
- Vimos que a presença ostensiva e ameaçadora dos criminosos, como que querendo dizer que "quem manda aqui é o crime e não o Estado". Nós não aceitamos essa lógica, vamos continuar indo para as comunidades mesmo sabendo que isso implica correr riscos. Fui informado de que houve essa coerção. Para proteger a segurança da equipe, decidimos parar de filmar.
Chico também disse que vai continuar visitando as favelas, mesmo que passe por situações constrangedoras com criminosos andando fortemente armados ao seu lado:
- Essa realidade do tráfico armado de drogas é a realidade de muitas comunidades pobres. É o varejo, mas o atacado e o baronato não estão aqui. Claro que eu não vou dizer "sai pra lá" para um cara de AR-15 na mão porque eu quero disputar as eleições no dia 5 de outubro. Eu já vi eleitor fantasma, mas candidato, não. A gente nem pede licença, nem cai de pára-quedas nas comunidades.
Motociclistas tentam pegar câmera de equipe de Gabeira
Já Gabeira foi cercado por dois motociclistas, no fim da caminhada na Vila Cruzeiro, que tentaram impedir a entrada de seu motorista no veículo. Segundo o candidato, os homens queriam pegar a câmera de filmagem.
Quando saiu da favela, Gabeira e seus militantes foram acompanhados por um grupo de pessoas por cerca de 200 metros. Uma mulher queria saber quem tinha feito imagens dentro da Vila Cruzeiro, onde repórteres do GLOBO, de "O Dia" e do "Jornal do Brasil" foram obrigados por homens armados com fuzis a apagar as fotos feitas durante a campanha do candidato Marcelo Crivella (PRB), no sábado passado.
Depois do bate-boca promovido pela mulher, dois homens cercaram o local onde Gabeira estava para exigir a fita da câmera de filmagem. Depois de alguns minutos de discussão, os homens foram embora sem levar o equipamento.
Gabeira afirmou que recebeu recados sobre locais que não poderiam ser visitados:
- Fomos até esse ponto porque as informações são muito desencontradas. Não posso colocar em risco as pessoas que estão comigo. Achei que era mais conveniente descer.
Em nota, o governo do estado afirmou que "Não é novidade para ninguém que, há mais de duas décadas na cidade do Rio de Janeiro, há localidades dominadas por criminosos". A assessoria do governador Sérgio Cabral disse ainda que o "governo age justamente para recuperar à sociedade áreas carentes que estejam sob domínio de traficantes" e garantiu que "não recuará nem abdicará da determinação de assegurar a lei e a ordem - uma obrigação do Estado junto à população."
Chico, Molon e Gabeira são coagidos durante campanha em favelas
RIO - O sábado de campanha dos candidatos a prefeito do Rio Chico Alencar (PSOL), Fernando Gabeira (PV) e Alessandro Molon (PT) foi marcado por ameaças de traficantes das favelas de Nova Holanda, no Complexo da Maré, e da Vila Cruzeiro. Por volta das 9h, Chico Alencar panfletava com candidatos a vereador de sua legenda na Nova Holanda quando homens armados com metralhadoras Uzi, fuzis e pistolas caminhavam normalmente pelas ruas da comunidade. Mais a frente, criminosos também armados exigiram que os militantes da campanha não fizessem imagens da favela. Os bandidos não chegaram a abordar o candidato, que seguiu a caminhada, passando por três bocas de fumo em pleno funcionamento.
Equipe de Molon é proibida de filmar na Nova Holanda
Um pouco mais tarde, por volta das 11h, Molon também foi fazer campanha no Complexo da Maré. Durante percurso no Parque União, não houve problemas, mas ao chegar na Nova Holanda sua equipe de filmagem recebeu o recado de homens armados com pistolas em motos: era proibido fazer qualquer imagem na região. O pedido foi atendido, e Molon seguiu o percurso.
Poucos minutos depois, perto de uma boca de fumo onde criminosos usavam drogas, o candidato do PT decidiu cancelar a caminhada, que já estava perto do final, e voltou em direção à Avenida Brasil para sair da favela. Segundo militantes, os traficantes que pilotavam as motos ameaçaram roubar os equipamentos de filmagem caso o registro de imagens não fosse paralisado. Molon reconhece que houve intimidação por parte do tráfico.
- Vimos que a presença ostensiva e ameaçadora dos criminosos, como que querendo dizer que "quem manda aqui é o crime e não o Estado". Nós não aceitamos essa lógica, vamos continuar indo para as comunidades mesmo sabendo que isso implica correr riscos. Fui informado de que houve essa coerção. Para proteger a segurança da equipe, decidimos parar de filmar.
Chico também disse que vai continuar visitando as favelas, mesmo que passe por situações constrangedoras com criminosos andando fortemente armados ao seu lado:
- Essa realidade do tráfico armado de drogas é a realidade de muitas comunidades pobres. É o varejo, mas o atacado e o baronato não estão aqui. Claro que eu não vou dizer "sai pra lá" para um cara de AR-15 na mão porque eu quero disputar as eleições no dia 5 de outubro. Eu já vi eleitor fantasma, mas candidato, não. A gente nem pede licença, nem cai de pára-quedas nas comunidades.
Motociclistas tentam pegar câmera de equipe de Gabeira
Já Gabeira foi cercado por dois motociclistas, no fim da caminhada na Vila Cruzeiro, que tentaram impedir a entrada de seu motorista no veículo. Segundo o candidato, os homens queriam pegar a câmera de filmagem.
Quando saiu da favela, Gabeira e seus militantes foram acompanhados por um grupo de pessoas por cerca de 200 metros. Uma mulher queria saber quem tinha feito imagens dentro da Vila Cruzeiro, onde repórteres do GLOBO, de "O Dia" e do "Jornal do Brasil" foram obrigados por homens armados com fuzis a apagar as fotos feitas durante a campanha do candidato Marcelo Crivella (PRB), no sábado passado.
Depois do bate-boca promovido pela mulher, dois homens cercaram o local onde Gabeira estava para exigir a fita da câmera de filmagem. Depois de alguns minutos de discussão, os homens foram embora sem levar o equipamento.
Gabeira afirmou que recebeu recados sobre locais que não poderiam ser visitados:
- Fomos até esse ponto porque as informações são muito desencontradas. Não posso colocar em risco as pessoas que estão comigo. Achei que era mais conveniente descer.
Em nota, o governo do estado afirmou que "Não é novidade para ninguém que, há mais de duas décadas na cidade do Rio de Janeiro, há localidades dominadas por criminosos". A assessoria do governador Sérgio Cabral disse ainda que o "governo age justamente para recuperar à sociedade áreas carentes que estejam sob domínio de traficantes" e garantiu que "não recuará nem abdicará da determinação de assegurar a lei e a ordem - uma obrigação do Estado junto à população."
DEU NO ESTADO DE MINAS
O JOIO E O TRIGO
Marcos Coimbra
"Se olharmos os candidatos a prefeito na grande maioria de nossas cidades, o que vamos encontrar, como regra, é gente séria, que encara com responsabilidade o trabalho para o qual se propõe"
Quem trabalha com eleições e candidatos há muito tempo às vezes se alegra e às vezes se entristece com o tratamento que esses temas recebem da imprensa e dos meios de comunicação. Não só eles, mas a política, de maneira geral, pode tanto ser tratada de um modo justo, como injusto.
Para tomar um exemplo recente: na discussão da questão Daniel Dantas, nossa imprensa teve desempenho positivo, preservando sua capacidade crítica e mantendo visão equilibrada. Ajudou-nos a todos a entender o que estava acontecendo.
O mesmo não se pode dizer a respeito do início da cobertura das próximas eleições municipais. Predomina um tratamento adequado, mas, volta e meia, temos o oposto, uma visão preconceituosa e equivocada.
Não é nos noticiários políticos, elaborados por profissionais especializados na análise e discussão do tema, que se encontram os problemas. Onde mais costumamos tê-los é nos lugares em que tais assuntos aparecem menos em épocas normais. Nos jornais, nas seções destinadas a temas de comportamento e cultura. Nas emissoras de televisão e de rádio, em programas de entretenimento e humor.
Nesses espaços, o que mais se vê é a crítica superficial, a ironia ligeira, a piada óbvia. Com mínima preocupação para com os fatos, o tom é dado por generalizações imerecidas e enganosas.
Os políticos são sempre ladrões, os candidatos, caricatos e despreparados, as campanhas, ridículas e enfadonhas, os eleitores, quase sempre tolos e ingênuos, facilmente enganáveis por expedientes pueris. Tudo fica nivelado, pelo mais baixo e mais desagradável, como se tudo fosse igual.
É impressionante a vontade com que cronistas de costumes e artes, colunistas de assuntos sociais, âncoras de programas de bate-papo se sentem autorizados a não ter qualquer compromisso com a realidade. Para muitos desses profissionais, uma piada fácil, mesmo que velha, está sempre na ponta da língua.
A ligeireza dessa atitude contrasta com o que são e pensam os dois personagens centrais dos processos eleitorais: os candidatos e os eleitores. Quem os acompanha de perto não duvida disso.
Se olharmos os candidatos a prefeito na grande maioria de nossas cidades, o que vamos encontrar, como regra, é gente séria, que encara com responsabilidade o trabalho para o qual se propõe. Há pessoas mais e menos preparadas, como em todas as atividades humanas. Pode haver gente com más intenções, mas é a minoria.
Em várias capitais, uma nova geração de políticos está debutando, alguns em início de carreira, outros disputando cargos majoritários pela primeira vez. Gente de grande experiência concorre em outras, com todas as credenciais para voltar. Muitos prefeitos bons pleiteiam a reeleição.
Não há eleições onde nosso povo mais se revele que nas escolhas de vereadores. Temos candidatos de todos os tipos, de todas as cores e orientações, defendendo todas as bandeiras, na maior parte das vezes vindos das camadas mais humildes da população. É preciso respeitar isso.
A grande maioria dos cidadãos brasileiros leva profundamente a sério seus deveres cívicos. Pode errar, mas sempre procura acertar, mais ainda os que precisam do poder público.
Não se questiona o direito de ninguém questionar o que somos. Ao fazê-lo, porém, é preciso tomar cuidado com estereótipos e preconceitos, que para nada mais valem do que para perpetuar os elementos autoritários e antidemocráticos de nossa cultura.
Antes de propor uma piadinha fácil sobre nossos políticos, valeria a pena conhecer quem eles, quase sempre, são.
Marcos Coimbra
"Se olharmos os candidatos a prefeito na grande maioria de nossas cidades, o que vamos encontrar, como regra, é gente séria, que encara com responsabilidade o trabalho para o qual se propõe"
Quem trabalha com eleições e candidatos há muito tempo às vezes se alegra e às vezes se entristece com o tratamento que esses temas recebem da imprensa e dos meios de comunicação. Não só eles, mas a política, de maneira geral, pode tanto ser tratada de um modo justo, como injusto.
Para tomar um exemplo recente: na discussão da questão Daniel Dantas, nossa imprensa teve desempenho positivo, preservando sua capacidade crítica e mantendo visão equilibrada. Ajudou-nos a todos a entender o que estava acontecendo.
O mesmo não se pode dizer a respeito do início da cobertura das próximas eleições municipais. Predomina um tratamento adequado, mas, volta e meia, temos o oposto, uma visão preconceituosa e equivocada.
Não é nos noticiários políticos, elaborados por profissionais especializados na análise e discussão do tema, que se encontram os problemas. Onde mais costumamos tê-los é nos lugares em que tais assuntos aparecem menos em épocas normais. Nos jornais, nas seções destinadas a temas de comportamento e cultura. Nas emissoras de televisão e de rádio, em programas de entretenimento e humor.
Nesses espaços, o que mais se vê é a crítica superficial, a ironia ligeira, a piada óbvia. Com mínima preocupação para com os fatos, o tom é dado por generalizações imerecidas e enganosas.
Os políticos são sempre ladrões, os candidatos, caricatos e despreparados, as campanhas, ridículas e enfadonhas, os eleitores, quase sempre tolos e ingênuos, facilmente enganáveis por expedientes pueris. Tudo fica nivelado, pelo mais baixo e mais desagradável, como se tudo fosse igual.
É impressionante a vontade com que cronistas de costumes e artes, colunistas de assuntos sociais, âncoras de programas de bate-papo se sentem autorizados a não ter qualquer compromisso com a realidade. Para muitos desses profissionais, uma piada fácil, mesmo que velha, está sempre na ponta da língua.
A ligeireza dessa atitude contrasta com o que são e pensam os dois personagens centrais dos processos eleitorais: os candidatos e os eleitores. Quem os acompanha de perto não duvida disso.
Se olharmos os candidatos a prefeito na grande maioria de nossas cidades, o que vamos encontrar, como regra, é gente séria, que encara com responsabilidade o trabalho para o qual se propõe. Há pessoas mais e menos preparadas, como em todas as atividades humanas. Pode haver gente com más intenções, mas é a minoria.
Em várias capitais, uma nova geração de políticos está debutando, alguns em início de carreira, outros disputando cargos majoritários pela primeira vez. Gente de grande experiência concorre em outras, com todas as credenciais para voltar. Muitos prefeitos bons pleiteiam a reeleição.
Não há eleições onde nosso povo mais se revele que nas escolhas de vereadores. Temos candidatos de todos os tipos, de todas as cores e orientações, defendendo todas as bandeiras, na maior parte das vezes vindos das camadas mais humildes da população. É preciso respeitar isso.
A grande maioria dos cidadãos brasileiros leva profundamente a sério seus deveres cívicos. Pode errar, mas sempre procura acertar, mais ainda os que precisam do poder público.
Não se questiona o direito de ninguém questionar o que somos. Ao fazê-lo, porém, é preciso tomar cuidado com estereótipos e preconceitos, que para nada mais valem do que para perpetuar os elementos autoritários e antidemocráticos de nossa cultura.
Antes de propor uma piadinha fácil sobre nossos políticos, valeria a pena conhecer quem eles, quase sempre, são.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS

COMO SEMPRE FOI
José de Souza Martins*
Há meses que barbeiros e taxistas desencadearam a campanha das eleições municipais de 2008, fazendo-a objeto de ceticismo e deboche. Desde o final de 2007, o taxista a que recorro, com freqüência, vem me relatando as manobras de crônicos candidatos que se aproximam do ponto de táxi, reatam fingida amizade, juram fidelidade aos eleitores na relação cara a cara, alardeiam feitos desconhecidos ou irrelevantes, beijam e abraçam. Na perspectiva popular, eleição acaba sendo como catapora, cíclica e invasiva.
O "meu" taxista até recebeu pelo correio um chaveiro com o nome de um candidato de um lado e a chapa de seu táxi de outro, para que não se esqueça do nome e do número do dito cujo. Mostrava-o, ofendido aliás, em face da suposição do candidato de que seu voto decorre de uma consciência política de cabresto.
"Meu" barbeiro de muitos anos, mais cético, até se antecipou à movimentação partidária adivinhando como seria abordado e em que termos. Foi ficando preocupado com a proximidade da estação da campanha eleitoral. Repete chavões que ouviu em eleições anteriores e que se prepara para ouvir de novo. Bota todos os partidos e todos os políticos no mesmo saco da banalização, do desprezo pelo povo, da corrupção, do parasitismo, do oportunismo. Há meses está com o espírito preparado para enfrentar o assédio. Fecha o ouvido aos discursos repetitivos, fecha os olhos ao supostamente já visto, fecha a consciência à política propriamente dita. Porque não lhe deram a alternativa de ser positivamente crítico, tornou-se defensivamente apolítico, um eleitor pobre de horizontes, confinado no conformismo impotente dos que sabem que nada podem no cenário impolítico da nossa política.
Pesquisa qualitativa recente sobre o perfil dos candidatos na cidade de São Paulo, sobre o estereótipo de cada um, indica o peculiar modo como a massa da população constrói a imagem da política e dos políticos e a partir dela vota. Esses atributos fantasiosos, porque seletivos, funcionam como filtro de reforço ou deterioração da concepção que o eleitor comum tem de cada um dos políticos. Acusar, por isso, o eleitor de ignorante e despolitizado é injusto, num país de partidos políticos, eles sim, no geral, despolitizados e despolitizantes. No regime militar a parcela consciente do eleitorado ainda tinha a motivação de derrubar a ditadura, de transformar o país num país democrático, desenvolvido, socialmente justo. Se a alguns incomodavam a violência, os cerceamentos, a censura, as prisões arbitrárias, de motivação política, a outros incomodava o mero fato de que as ditaduras são carrancudas e anti-carnavalescas. A força dessa motivação acabou justamente em conseqüência da carnavalização da política e da alegria messiânica que a acompanha, a concepção de que no voto, em vez de delegar obrigações abrimos mão de nossos direitos políticos. O voto na nossa cultura política é uma renúncia.
A política brasileira refluiu para o rotineiro, quebrado nos surtos eleitorais, num cenário em que aparentemente o País já não tem metas de inovação política, as eleições como mera e enfadonha obrigação de manter os mesmos políticos no poder ou, quando muito, substituí-los por suas cópias. Muitos votam ansiosos pela calmaria do dia seguinte, dos intervalos entre eleições, do dever falsamente cumprido no país do voto obrigatório, em que a política acaba se reduzindo à caricatura do deputado orgulhosamente corrupto, o dinheiro caindo do bolso, num programa semanal de televisão. Antes da eleição e depois da eleição tudo parece sugerir que o papel do político é o de servir para a galhofa, a política como comédia. A verdadeira política não tem visibilidade no Brasil nem os verdadeiros políticos a tem, a não ser excepcionalmente. O deformado filtro da cultura popular seleciona fatos e ocorrências da fragmentária crônica política que lhe chega por acaso e com eles constrói a consciência política desse precário cidadão.
Partidos e governos poderiam contribuir para quebrar o círculo vicioso dessa concepção despolitizante da política e do poder se não fossem fortes as sobrevivências da complexa trama de relações da tradição da dominação patrimonial e da cultura da troca de favores em que a política tem sido a moeda corrente. Nosso atraso político se regenera mesmo na ascensão política dos que, supostamente oriundos de outras matrizes sociais e históricas, cresceram respaldados pela ilusão a todos imposta de que, finalmente, 120 anos depois da proclamação da República, torna-se efetiva a República que nos reconheceria a todos como iguais e cidadãos. No entanto, o que se vê é o poder de regeneração do atraso. Os recém-chegados são capturados pela trama desse republicanismo de fachada que se materializa na lógica de que é preciso tudo mudar para que tudo fique como estava, como no esclarecimento de Tancredi ao tio estarrecido com seu adesismo ao triunfo inevitável da Casa de Savóia na unificação da Itália, em "O Leopardo", de Lampedusa.
É verdade que o municipalismo brasileiro, berço do nosso republicanismo e, contraditoriamente, berço do que o paulista Pedro Taques, no século XVIII, denominava de "pais da pátria", tende a reduzir o País às necessidades conservadoras da ordem política arcaica, na fragmentação da vontade política do povo, na superposição de estruturas políticas desencontradas e tão diversas entre si como a do município, das províncias e do Estado nacional. Desencontro que responde por nossos intervalos ditatoriais e na paz da democracia de fachada pelo triunfo dos interesses locais e das artimanhas do localismo primário e suas metas de conveniência, como a do poder pelo poder. A farra da distribuição de verbas para azeitar as possibilidades de aliados, da liberação de recursos para obras de impacto visual, a política social de aliciamento de consciências nos 15% de domicílios que recebem doações financeiras do governo, as múltiplas políticas de pseudofavorecimento dos pobres, tudo dá razão ao barbeiro e ao taxista.
*José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, é autor de O Sujeito Oculto (Ordem e transgressão na reforma agrária), Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003; A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008
José de Souza Martins*
Há meses que barbeiros e taxistas desencadearam a campanha das eleições municipais de 2008, fazendo-a objeto de ceticismo e deboche. Desde o final de 2007, o taxista a que recorro, com freqüência, vem me relatando as manobras de crônicos candidatos que se aproximam do ponto de táxi, reatam fingida amizade, juram fidelidade aos eleitores na relação cara a cara, alardeiam feitos desconhecidos ou irrelevantes, beijam e abraçam. Na perspectiva popular, eleição acaba sendo como catapora, cíclica e invasiva.
O "meu" taxista até recebeu pelo correio um chaveiro com o nome de um candidato de um lado e a chapa de seu táxi de outro, para que não se esqueça do nome e do número do dito cujo. Mostrava-o, ofendido aliás, em face da suposição do candidato de que seu voto decorre de uma consciência política de cabresto.
"Meu" barbeiro de muitos anos, mais cético, até se antecipou à movimentação partidária adivinhando como seria abordado e em que termos. Foi ficando preocupado com a proximidade da estação da campanha eleitoral. Repete chavões que ouviu em eleições anteriores e que se prepara para ouvir de novo. Bota todos os partidos e todos os políticos no mesmo saco da banalização, do desprezo pelo povo, da corrupção, do parasitismo, do oportunismo. Há meses está com o espírito preparado para enfrentar o assédio. Fecha o ouvido aos discursos repetitivos, fecha os olhos ao supostamente já visto, fecha a consciência à política propriamente dita. Porque não lhe deram a alternativa de ser positivamente crítico, tornou-se defensivamente apolítico, um eleitor pobre de horizontes, confinado no conformismo impotente dos que sabem que nada podem no cenário impolítico da nossa política.
Pesquisa qualitativa recente sobre o perfil dos candidatos na cidade de São Paulo, sobre o estereótipo de cada um, indica o peculiar modo como a massa da população constrói a imagem da política e dos políticos e a partir dela vota. Esses atributos fantasiosos, porque seletivos, funcionam como filtro de reforço ou deterioração da concepção que o eleitor comum tem de cada um dos políticos. Acusar, por isso, o eleitor de ignorante e despolitizado é injusto, num país de partidos políticos, eles sim, no geral, despolitizados e despolitizantes. No regime militar a parcela consciente do eleitorado ainda tinha a motivação de derrubar a ditadura, de transformar o país num país democrático, desenvolvido, socialmente justo. Se a alguns incomodavam a violência, os cerceamentos, a censura, as prisões arbitrárias, de motivação política, a outros incomodava o mero fato de que as ditaduras são carrancudas e anti-carnavalescas. A força dessa motivação acabou justamente em conseqüência da carnavalização da política e da alegria messiânica que a acompanha, a concepção de que no voto, em vez de delegar obrigações abrimos mão de nossos direitos políticos. O voto na nossa cultura política é uma renúncia.
A política brasileira refluiu para o rotineiro, quebrado nos surtos eleitorais, num cenário em que aparentemente o País já não tem metas de inovação política, as eleições como mera e enfadonha obrigação de manter os mesmos políticos no poder ou, quando muito, substituí-los por suas cópias. Muitos votam ansiosos pela calmaria do dia seguinte, dos intervalos entre eleições, do dever falsamente cumprido no país do voto obrigatório, em que a política acaba se reduzindo à caricatura do deputado orgulhosamente corrupto, o dinheiro caindo do bolso, num programa semanal de televisão. Antes da eleição e depois da eleição tudo parece sugerir que o papel do político é o de servir para a galhofa, a política como comédia. A verdadeira política não tem visibilidade no Brasil nem os verdadeiros políticos a tem, a não ser excepcionalmente. O deformado filtro da cultura popular seleciona fatos e ocorrências da fragmentária crônica política que lhe chega por acaso e com eles constrói a consciência política desse precário cidadão.
Partidos e governos poderiam contribuir para quebrar o círculo vicioso dessa concepção despolitizante da política e do poder se não fossem fortes as sobrevivências da complexa trama de relações da tradição da dominação patrimonial e da cultura da troca de favores em que a política tem sido a moeda corrente. Nosso atraso político se regenera mesmo na ascensão política dos que, supostamente oriundos de outras matrizes sociais e históricas, cresceram respaldados pela ilusão a todos imposta de que, finalmente, 120 anos depois da proclamação da República, torna-se efetiva a República que nos reconheceria a todos como iguais e cidadãos. No entanto, o que se vê é o poder de regeneração do atraso. Os recém-chegados são capturados pela trama desse republicanismo de fachada que se materializa na lógica de que é preciso tudo mudar para que tudo fique como estava, como no esclarecimento de Tancredi ao tio estarrecido com seu adesismo ao triunfo inevitável da Casa de Savóia na unificação da Itália, em "O Leopardo", de Lampedusa.
É verdade que o municipalismo brasileiro, berço do nosso republicanismo e, contraditoriamente, berço do que o paulista Pedro Taques, no século XVIII, denominava de "pais da pátria", tende a reduzir o País às necessidades conservadoras da ordem política arcaica, na fragmentação da vontade política do povo, na superposição de estruturas políticas desencontradas e tão diversas entre si como a do município, das províncias e do Estado nacional. Desencontro que responde por nossos intervalos ditatoriais e na paz da democracia de fachada pelo triunfo dos interesses locais e das artimanhas do localismo primário e suas metas de conveniência, como a do poder pelo poder. A farra da distribuição de verbas para azeitar as possibilidades de aliados, da liberação de recursos para obras de impacto visual, a política social de aliciamento de consciências nos 15% de domicílios que recebem doações financeiras do governo, as múltiplas políticas de pseudofavorecimento dos pobres, tudo dá razão ao barbeiro e ao taxista.
*José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, é autor de O Sujeito Oculto (Ordem e transgressão na reforma agrária), Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003; A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008
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