No palanque da candidata à Prefeitura de S. Paulo, Marta Suplicy (PT), o presidente Lula exigiu desculpas do Governador Serra.
Ele afirmou: “O governador Serra, me conhecendo do jeito que conhece, não tinha o direito de acusar o PT nesse caso da Polícia Civil. Espero que, em algum momento, ele peça desculpa”.
Ora, presidente, desculpas e muitas o Sr. deve aos cidadãos brasileiros pelo seu voto contra a Constituição que este mês completa 20 anos.
Aos brasileiros não lhes falta memória. Lutaram muito para conquistar a democracia e seu partido, sob o seu comando, foi contra.
Estamos, até hoje, esperando suas desculpas.
Clique abaixo e ouça o discurso de Lula, na época, contra a constituição!http://img.estadao.com.br/audios/1C/4F/A1/1C4FA1C45BA94AD298B3D42BE9DC0FFF.mp3
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
domingo, 19 de outubro de 2008
A Constituição e a estabilidade democrática

Gilmar Mendes
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
O STF vem assumindo a responsabilidade política de aplicar a Carta para tornar concretos os direitos e as garantias fundamentais
PARA CIDADÃOS de países regidos por vetustas Constituições, podem até parecer estranhas tantas comemorações pelos 20 anos da nossa Carta. Mas quem conhece a história pátria há de bem dimensionar a significância dessas duas décadas de estabilidade, mormente se confrontada com o acidentado trajeto percorrido pelo país até o Estado democrático de Direito.
A Constituição de 1988, mais do que assinalar o término de um regime de exceção, simbolizou o afã da mudança em favor de mais equilíbrio em todas as vertentes -sociais, políticas, econômicas, institucionais. A Constituição Federal fez-se, assim, eivada da força simbólica do recomeço. O gigante parecia despertar com vontade de compor a galeria dos grandes -e não só em potência econômica.
Daí o extenso catálogo de direitos fundamentais -um dos mais amplos do mundo-, cuja efetividade é garantida por mecanismos judiciais consistentes, previstos no texto constitucional. As criticas quanto a certa propensão para o dirigismo econômico foram superadas com as mudanças aprovadas pelo Congresso Nacional.
De fato, a normalidade democrática assegurada pela Constituição de 1988 demonstrou ser à prova de choques tão perturbadores quanto um confisco radical da poupança, tão graves quanto o impeachment do presidente eleito pelo povo, isso sem mencionar crises agudas de hiperinflação e corrupção. Não houve turbulência interna ou externa que não tenha sido resolvida dentro dos parâmetros fixados pela Carta.
A partir dessa solidez constitucional, na qual o Supremo figura como órgão-chave moderador nos embates democráticos, o país pôde crescer de forma organizada. A segurança institucional traduziu-se em dividendos econômicos e políticos, além de elevar a auto-estima do brasileiro. É da legitimidade que advém a força dessa Constituição, doravante não mais associada a outorgas ou tutelas de qualquer ordem, não mais compatível com degolas ou golpes.
De 1988 até hoje, o país passou por transformações visíveis: o atraso institucional cedeu lugar a um aprendizado da cidadania corroborado por eleições seguras. A renovação do processo eleitoral a cada biênio funciona como força realimentadora do regime. E o melhor: todos os atores políticos comungam das regras do jogo democrático. A democracia tornou-se um valor em si mesmo. E isso é alvissareiro, pois garante que, por estas plagas, diferentemente do viés de retrocesso político que teima em reaparecer em certas nações sul-americanas, haveremos de vivenciar o privilégio de sermos uma forte e soberana democracia.
Isso não significa estar a tarefa completa. Lançando mão de usual metáfora, preparamos o terreno para a colheita -que já começou, a julgar pela melhoria nos indicadores sociais da última década. E a experiência dos últimos anos indica que as mudanças necessárias podem ser realizadas dentro dos marcos existentes, dispensada a aventura de processos constituintes especiais, parciais ou totais.
No Judiciário, a antiga estrutura processual e administrativa consubstancia desafio a ser enfrentado a partir da perspectiva do planejamento estratégico de todos os tribunais, coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça, dirimindo o renitente problema de lentidão processual, bem como aumentando a transparência e o acesso dos cidadãos -sobretudo dos mais carentes- à prestação de justiça.
Tal racionalização está em andamento com a informatização de todos os órgãos. Não se trata de mera opção técnica, mas de escolha inspirada nos direitos humanos. No caso das varas de execução criminal, a informatização permitirá o controle adequado da situação dos presos e evitará a manutenção da prisão além do tempo determinado e fora das condições impostas pela condenação judicial.
A Justiça brasileira realmente tornou-se mais forte com a autonomia administrativa e financeira obtida a partir da Carta de 1988, cujos 20 anos coincidem com os 200 anos da criação do primeiro órgão de cúpula da Justiça nacional, hoje personificado no Supremo Tribunal Federal, corte que vem a ser a própria representação da constitucionalidade, da ordem institucional.
Dia após dia, o Supremo Tribunal Federal vem assumindo a responsabilidade política de aplicar a Carta de modo a tornar concretos os inúmeros direitos e garantias fundamentais constitucionalizados em 1988. E a corte tem respondido -o fará sempre- demonstrando profundo compromisso com o desenvolvimento desses direitos e corroborando, assim, a opção do constituinte pelo renovador princípio da esperança.
GILMAR FERREIRA MENDES, 52, mestre pela UnB (Universidade de Brasília) e doutor em direito do Estado pela Universidade de Münster (Alemanha), é presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
O STF vem assumindo a responsabilidade política de aplicar a Carta para tornar concretos os direitos e as garantias fundamentais
PARA CIDADÃOS de países regidos por vetustas Constituições, podem até parecer estranhas tantas comemorações pelos 20 anos da nossa Carta. Mas quem conhece a história pátria há de bem dimensionar a significância dessas duas décadas de estabilidade, mormente se confrontada com o acidentado trajeto percorrido pelo país até o Estado democrático de Direito.
A Constituição de 1988, mais do que assinalar o término de um regime de exceção, simbolizou o afã da mudança em favor de mais equilíbrio em todas as vertentes -sociais, políticas, econômicas, institucionais. A Constituição Federal fez-se, assim, eivada da força simbólica do recomeço. O gigante parecia despertar com vontade de compor a galeria dos grandes -e não só em potência econômica.
Daí o extenso catálogo de direitos fundamentais -um dos mais amplos do mundo-, cuja efetividade é garantida por mecanismos judiciais consistentes, previstos no texto constitucional. As criticas quanto a certa propensão para o dirigismo econômico foram superadas com as mudanças aprovadas pelo Congresso Nacional.
De fato, a normalidade democrática assegurada pela Constituição de 1988 demonstrou ser à prova de choques tão perturbadores quanto um confisco radical da poupança, tão graves quanto o impeachment do presidente eleito pelo povo, isso sem mencionar crises agudas de hiperinflação e corrupção. Não houve turbulência interna ou externa que não tenha sido resolvida dentro dos parâmetros fixados pela Carta.
A partir dessa solidez constitucional, na qual o Supremo figura como órgão-chave moderador nos embates democráticos, o país pôde crescer de forma organizada. A segurança institucional traduziu-se em dividendos econômicos e políticos, além de elevar a auto-estima do brasileiro. É da legitimidade que advém a força dessa Constituição, doravante não mais associada a outorgas ou tutelas de qualquer ordem, não mais compatível com degolas ou golpes.
De 1988 até hoje, o país passou por transformações visíveis: o atraso institucional cedeu lugar a um aprendizado da cidadania corroborado por eleições seguras. A renovação do processo eleitoral a cada biênio funciona como força realimentadora do regime. E o melhor: todos os atores políticos comungam das regras do jogo democrático. A democracia tornou-se um valor em si mesmo. E isso é alvissareiro, pois garante que, por estas plagas, diferentemente do viés de retrocesso político que teima em reaparecer em certas nações sul-americanas, haveremos de vivenciar o privilégio de sermos uma forte e soberana democracia.
Isso não significa estar a tarefa completa. Lançando mão de usual metáfora, preparamos o terreno para a colheita -que já começou, a julgar pela melhoria nos indicadores sociais da última década. E a experiência dos últimos anos indica que as mudanças necessárias podem ser realizadas dentro dos marcos existentes, dispensada a aventura de processos constituintes especiais, parciais ou totais.
No Judiciário, a antiga estrutura processual e administrativa consubstancia desafio a ser enfrentado a partir da perspectiva do planejamento estratégico de todos os tribunais, coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça, dirimindo o renitente problema de lentidão processual, bem como aumentando a transparência e o acesso dos cidadãos -sobretudo dos mais carentes- à prestação de justiça.
Tal racionalização está em andamento com a informatização de todos os órgãos. Não se trata de mera opção técnica, mas de escolha inspirada nos direitos humanos. No caso das varas de execução criminal, a informatização permitirá o controle adequado da situação dos presos e evitará a manutenção da prisão além do tempo determinado e fora das condições impostas pela condenação judicial.
A Justiça brasileira realmente tornou-se mais forte com a autonomia administrativa e financeira obtida a partir da Carta de 1988, cujos 20 anos coincidem com os 200 anos da criação do primeiro órgão de cúpula da Justiça nacional, hoje personificado no Supremo Tribunal Federal, corte que vem a ser a própria representação da constitucionalidade, da ordem institucional.
Dia após dia, o Supremo Tribunal Federal vem assumindo a responsabilidade política de aplicar a Carta de modo a tornar concretos os inúmeros direitos e garantias fundamentais constitucionalizados em 1988. E a corte tem respondido -o fará sempre- demonstrando profundo compromisso com o desenvolvimento desses direitos e corroborando, assim, a opção do constituinte pelo renovador princípio da esperança.
GILMAR FERREIRA MENDES, 52, mestre pela UnB (Universidade de Brasília) e doutor em direito do Estado pela Universidade de Münster (Alemanha), é presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
Aloprados e truculentos

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Sete dias depois de veicular uma das maiores barbaridades eleitorais dos últimos tempos, o marqueteiro João Saldanha admitiu um “erro de avaliação”. O comandante da campanha de Marta Suplicy, João Santanna, em entrevista à repórter Renata Lo Prete da Folha de S.Paulo, lamentou profundamente não ter previsto a reação da opinião pública.
Aprendiz de Duda Mendonça, o novo Dr. Goebbels não lamentou o pérfido preconceito, nem a ostensiva introdução do lixo no debate eleitoral. A admissão do erro não foi um dever de consciência, esforço para mostrar alguma urbanidade e decência, na realidade foi mais uma tentativa de livrar a ex-campeã da tolerância do papel de ícone da arrogância e da presunção.
A solução "relaxa e goza" proposta pela então ministra do Turismo para enfrentar o caos aéreo foi evidentemente uma gafe, fruto da desatenção ou do despreparo, mas como sabem psicólogos, psicanalistas e inclusive a autora do despautério, gafes são lapsos que não acontecem por acaso. Armazenados em algum recanto da alma, soltam-se na primeira oportunidade.
As duas perguntinhas fatais – "Ele é casado? Ele tem filhos?" – foram estudadas, foram estratégicas, resultaram de uma bateria de "pesquisas qualitativas" onde os marqueteiros identificaram uma oportunidade para cobrar esclarecimentos a respeito da intimidade de Gilberto Kassab.
Imaginaram que o eleitor engoliria a maldade. Não contaram com a internet onde, no mesmo dia em que começaram a ser transmitidas as primeiras mensagens (domingo, passado) já se abrigava enorme onda de protestos.
Na reta final da disputa pelo governo de São Paulo, em 2006, um pelotão de milicianos ligados à candidatura de Aloísio Mercadante também inventou uma operação suicida: a divulgação através da revista IstoÉ de um falso dossiê contra o candidato José Serra, o famigerado Dossiê Vedoin. Apesar da repercussão, como se tratava de grave crime eleitoral o então-ministro da Justiça Márcio Thomas Bastos associado ao então Diretor Geral da Polícia Federal deram um jeito de livrar da merecida condenação os "aloprados" – a designação é do próprio presidente Lula.
A partir daquele episódio, aloprar e seus derivados, incorporaram-se ao nosso riquíssimo vocabulário político como sinônimos de paranóia e falta de escrúpulos. Insinuar que Gilberto Kassab pode ser homossexual porque não é casado e não tem filhos não constitui crime. É um ardiloso desvio de conduta, manifestação de preconceito, falha ética, irregularidade que o TRE de São Paulo puniu rápida e exemplarmente.
É possível que o "deslize" (como o classificaram círculos petistas que condenaram as perguntas, mas não a candidata) possa ser absorvido e superado. O saldo, porém, dificilmente será esquecido: a percepção do eleitorado avançou, a veneranda passividade e complacência começam a ser substituídas por um senso de vigilância e responsabilidade social.
A ameaça de novos surtos de alopramento é concreta. A possibilidade da derrota de candidatos próximos ao governo federal em cidades-chaves como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre pode estimular a insensatez, os desvarios e o seu ingrediente mais perigoso: o vale-tudo político.
Convém lembrar que nesta quinta-feira, uma das mais animados participantes do bafafá que resultou no confronto entre as polícias civil e militar em São Paulo, era o deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT), o Paulinho, presidente da Força Sindical que corre o perigo de perder o mandato por conta de uma sucessão de estripulias com dinheiro público.
Gente assim, ameaçada de perder as regalias, embarca sem qualquer constrangimento em aventuras e desatinos. Diferentes do Dr. Goebbels não apelam para perguntas insidiosas. Preferem a truculência.
» Alberto Dines é jornalista
Ondas e marolas eleitorais

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - De Barack Obama, nos EUA, a Leonardo Quintão, em Belo Horizonte, as eleições têm mostrado a força das "ondas". Pegam o vento de jeito e vão embora.
Obama, senador negro de 47 anos e vida interessante, faz sucesso até internacionalmente e avança por Estados solidamente republicanos, como Virgínia. John McCain não atraiu um só reduto democrata. E Quintão (PMDB), que força seus erres e esses para se moldar ao máximo ao gosto mineiro, consegue desbancar Marcio Lacerda (PSB), que tem mais idade, mais experiência e sobretudo os dois padrinhos dos sonhos de qualquer candidato: o governador e o atual prefeito, muito bem avaliados.
No primeiro turno, o grande eleitor foi a reeleição. No segundo, consolidam-se candidatos "novos" que dispararam na campanha, como Gilberto Kassab (DEM), com 16 pontos à frente de Marta Suplicy (PT), apesar da confusão em São Paulo: confronto de policiais militares e civis em torno do Palácio dos Bandeirantes e o desfecho trágico do seqüestro em Santo André.
No Rio, veio a onda Eduardo Paes (PMDB), que saiu da rabeira e disparou, e depois a de Fernando Gabeira (PV), que encostou e não saiu mais. A perspectiva é de uma contagem voto a voto até o fim. Qualquer erro pode ser fatal.
Há ainda o confronto entre a força da reeleição e a "onda" da vez. Caso de Porto Alegre, onde José Fogaça (PMDB) tem o cargo e a dianteira, e Maria do Rosário (PT) disputou a condição de "onda" com a jovem Manuela Dávila. Caso também de Salvador, onde João Henrique (PMDB) segue sete pontos na frente de Walter Pinheiro (PT).
As candidaturas que viram moda atraem o indeciso, o pouco politizado, os que vão na onda. Mas ondas têm vida curta e morrem na praia. O importante é sobreviver à posse, quando o vento deixa de ser a favor e vêm os problemas. Eles não são poucos -nem na maior potência nem no "emergente" Brasil.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - De Barack Obama, nos EUA, a Leonardo Quintão, em Belo Horizonte, as eleições têm mostrado a força das "ondas". Pegam o vento de jeito e vão embora.
Obama, senador negro de 47 anos e vida interessante, faz sucesso até internacionalmente e avança por Estados solidamente republicanos, como Virgínia. John McCain não atraiu um só reduto democrata. E Quintão (PMDB), que força seus erres e esses para se moldar ao máximo ao gosto mineiro, consegue desbancar Marcio Lacerda (PSB), que tem mais idade, mais experiência e sobretudo os dois padrinhos dos sonhos de qualquer candidato: o governador e o atual prefeito, muito bem avaliados.
No primeiro turno, o grande eleitor foi a reeleição. No segundo, consolidam-se candidatos "novos" que dispararam na campanha, como Gilberto Kassab (DEM), com 16 pontos à frente de Marta Suplicy (PT), apesar da confusão em São Paulo: confronto de policiais militares e civis em torno do Palácio dos Bandeirantes e o desfecho trágico do seqüestro em Santo André.
No Rio, veio a onda Eduardo Paes (PMDB), que saiu da rabeira e disparou, e depois a de Fernando Gabeira (PV), que encostou e não saiu mais. A perspectiva é de uma contagem voto a voto até o fim. Qualquer erro pode ser fatal.
Há ainda o confronto entre a força da reeleição e a "onda" da vez. Caso de Porto Alegre, onde José Fogaça (PMDB) tem o cargo e a dianteira, e Maria do Rosário (PT) disputou a condição de "onda" com a jovem Manuela Dávila. Caso também de Salvador, onde João Henrique (PMDB) segue sete pontos na frente de Walter Pinheiro (PT).
As candidaturas que viram moda atraem o indeciso, o pouco politizado, os que vão na onda. Mas ondas têm vida curta e morrem na praia. O importante é sobreviver à posse, quando o vento deixa de ser a favor e vêm os problemas. Eles não são poucos -nem na maior potência nem no "emergente" Brasil.
Devagar com o andor

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
Entre 13h15 e 15h20 da última quinta-feira não se passaram 10 minutos inteiros sem que o governador Aécio Neves fizesse alguma referência ao fato de ter sido posto no topo da lista dos derrotados dessas eleições municipais, porque seu candidato a prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, não ganhou no primeiro turno.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
Entre 13h15 e 15h20 da última quinta-feira não se passaram 10 minutos inteiros sem que o governador Aécio Neves fizesse alguma referência ao fato de ter sido posto no topo da lista dos derrotados dessas eleições municipais, porque seu candidato a prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, não ganhou no primeiro turno.
Na residência oficial do bairro das Mangabeiras, que dá nome ao Palácio localizado no seu ponto mais alto, não se vê sinal de tempestade eleitoral. Nenhum entra e sai, nada de assessores, telefonemas, aflição.
Mas que houve algo de anormal, isso é inequívoco. As marcas estão lá, nítidas, no espírito do jovem governador, bem menos tolerante, mais sensível a críticas, que o habitual.
Sorridente, tenta de quando em vez fazer alguma graça com a situação, informa já ter na mente desenhado o mapa dos equívocos cometidos, só não desce a detalhes porque ainda mantém viva, senão uma certeza, uma esperança forte na vitória.
“Se não acontecer vou ser o primeiro a chamar a imprensa e assumir: fui derrotado. Minha tese sobre a possibilidade de aliança administrativa entre adversários partidários terá perdido agora, mas pode vir a ser politicamente vitoriosa amanhã.”
Uma tradução mais elaborada para o “bola para a frente” subjacente ao discurso que propositadamente exacerba as dimensões do acontecido antes que os outros o façam.
Analisando o cenário friamente, Aécio Neves não se sente derrotado coisa nenhuma. “Das três maiores capitais, Belo Horizonte foi onde o vencedor do primeiro turno ganhou com o maior percentual”, diz, referindo-se aos 43% de Márcio Lacerda contra os 31% de Eduardo Paes no Rio e os 33% de Gilberto Kassab em São Paulo.
“O adversário sobe nas pesquisas dizendo que é meu aliado e sou eu o derrotado?”, pergunta sem realmente indagar; constata de si para si.
Se vier a perder a eleição, manterá do PMDB representado pelo candidato Leonardo Quintão a devida distância política, avisa já frustrando expectativas de que possa de imediato estabelecer com ele a mesma relação construída ao longo de seis anos com o atual prefeito e parceiro de aliança, o petista Fernando Pimentel.
“Primeiro é preciso ver a equipe, examinar se não haverá um retrocesso de qualidade administrativa. Aliás, primeiro vamos esperar o resultado do próximo domingo.”
Seja qual for Aécio já está demarcando seu terreno. Não assume o ato como resultado de qualquer ensinamento, mas talvez o governador tenha revisto conceitos a respeito de unanimidades. Sobre transferência de votos, certamente reviu.
Ainda que seu candidato ganhe, não terá sido ungido no altar de sua popularidade, hoje na marca dos exatos 91,6%. Ruim para ele?
“Pior para o presidente Lula, pois quem perdeu com isso foi a construção do discurso para 2010.” A constatação de que capital eleitoral não é legado, na visão de Aécio Neves, fere o plano de sucessão do Planalto.
“Estanca o processo de beatificação dos candidatos de majestades e tira Dilma Rousseff da condição de ungida desde já pela mão de Lula.”
E, pelo visto, põe o governador de Minas em aberta oposição.
Assim é
Uma coisa é a repercussão eleitoral do conflito entre as polícias civil e militar de São Paulo, quinta-feira nas cercanias do Palácio dos Bandeirantes. Esta, se tiver de aparecer, será daqui a uma semana ou nas próximas pesquisas.
Outra é o uso político da greve que já dura um mês e virou assunto de campanha a partir do conflito. Criou-se um fato de geração obviamente não espontânea.
O governador José Serra aponta o deputado e presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, como o responsável, que repudia a acusação, mas estava lá, microfone na mão, incitando policiais armados para pressionar “quem manda” a negociar na base da força bruta.
Este é também um fato. Ao qual acrescenta-se a ausência de qualquer reparo à atitude por parte da campanha de Marta Suplicy. Ao contrário: em função do caso, ela passou a comentar a greve que até então estava fora da sua agenda.
Portanto, deu margem à conclusão de que a batalha de polícias lhe foi circunstancialmente conveniente. Mais não seja, para mudar a pauta das insinuações pessoais sobre Gilberto Kassab para os ataques a Serra como administrador da crise.
Fica até parecendo que o PT, dando por perdido o embate municipal, resolveu se voltar contra o futuro adversário federal.
O presidente Lula comentou o assunto sem fazer referência à “turbinada” que pôs o tema na pauta política, o PT rejeita a mais leve suposição de que tenha tirado proveito do conflito, mas é de se perguntar como reagiria se porventura um sindicalista ligado ao PSDB fosse para as proximidades do Planalto fazer o papel de mestre-de-cerimônias de um hipotético levante entre a Polícia Federal, os arapongas da Abin e tropas do Exército subordinadas ao ministro da Defesa, Nelson Jobim.
O novo papel da China

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO
Nova York. A relação entre os Estados Unidos e a China nos últimos dez anos foi a coisa mais importante na economia mundial, na avaliação do historiador escocês Niall Ferguson, professor de Harvard. Ele e Moritz Schularick, da Universidade Livre de Berlim, criaram uma entidade chamada "Chimerica" - trocadilho com o nome dos países e a palavra quimera em inglês - para exemplificar essa simbiose, que representaria 13% da superfície terrestre, 1/4 de sua população, 1/3 do PIB mundial e mais da metade do crescimento econômico nos últimos seis anos. Esse "relacionamento quase perfeito" se baseava, segundo Ferguson, no fato de que uma metade poupava para que a outra metade gastasse, ou mais especificamente, o "apetite por poupança" asiático tornou mais barato os financiamentos de imóveis.
Ferguson ressalta que a poupança nos Estados Unidos declinou de mais de 5% do PIB em meados de 1990 para virtualmente zero em 2005, enquanto a chinesa aumentou de menos de 30% para 45% do PIB no mesmo período.
Uma inevitável conseqüência da crise financeira será a redução do crescimento econômico dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que a China poderá continuar crescendo a 8% ao ano com base em seu mercado interno e pelos investimentos governamentais em infra-estrutura interna, ressalta Ferguson.
Com o fim da "Chimerica", a China poderá explorar outras esferas de sua influência global, especula Ferguson, "desde a Organização de Cooperação de Shangai que reúne China, Russia e quatro países da Ásia Central, até o nascente império chinês na África rica em commodities".
O economista brasileiro Paulo Vieira da Cunha, ex-diretor do Banco Central que atua no mercado financeiro em Nova York, vê também essa possibilidade de a China se voltar mais para seu mercado interno, se desligando paulatinamente do dólar:
"No momento atual a China não tem muita opção, mas pode ir mudando. Se ela assumir o papel de sustentar a economia global, vai ter maior gasto doméstico e menor receita das exportações, e uma das opções é vender reservas e aplicar na própria China, ou mesmo parar de acumular reserva e gastar no seu investimento", lembra ele.
Com isso, os Estados Unidos teriam maior dificuldade para ampliar sua dívida externa e se financiar. A China é o segundo maior comprador de bônus do Tesouro americano, só perdendo para o Japão. Ou, como diz Niall Ferguson, "os Estados Unidos poderiam perder a facilidade conveniente de ser capaz de pegar emprestado do exterior a juros baixos na sua própria moeda".
Paulo Vieira da Cunha vê o Brasil da mesma forma, parando de acumular reserva e se voltando mais para o financiamento doméstico. "Na verdade, se o Brasil se recuperar mais rápido do que os Estados Unidos, vai atrair mais o investimento estrangeiro", ressalta.
O sociólogo e historiador brasileiro Hélio Jaguaribe considera que neste contexto abre-se para um país como o Brasil "um maior espaço de permissibilidade internacional".
Mas para dele se valer satisfatoriamente "o Brasil precisa acelerar seu processo de desenvolvimento, notadamente na dimensão cultural, e empreender uma séria reforma do sistema político eliminando os importantes resíduos clientelistas que nele subsistem e fortalecendo o sistema partidário".
Para Hélio Jaguaribe, "nosso sistema partidário continua muito subdesenvolvido. Necessitamos que se configurem com clareza os programas de cada partido e que se reduza significativamente o número de partidos existentes, para se alcançar sua limitação a não mais de três".
Na sua análise do quadro partidário brasileiro, Jaguaribe diz que PSDB e o PT "constituem núcleos a partir dos quais podem emergir dois importantes partidos". Restaria um espaço a ser preenchido "por um importante partido conservador e pelos declinantes resíduos do clientelismo".
Jaguaribe vê a inclusão no Conselho de Segurança da ONU de países como África do Sul, Brasil, China, Índia e México, "uma necessidade" nesse novo quadro geopolítico internacional "que terá de ser atendida a não longo prazo".
O historiador Niall Ferguson acha que "pode estar chegando ao fim" a era em que o dólar era a única moeda de reserva internacional, e lembra a crise da libra inglesa. "A principal razão foram as grandes dívidas que a Inglaterra fez para financiar suas guerras pelo mundo. E a segunda razão foi a desaceleração do crescimento da economia nas décadas do pós-guerra".
Se a principal conseqüência fiscal da crise financeira for um aumento grande das dívidas do governo federal, diz ele, os Estados Unidos podem ficar em situação similar, e o dólar pode seguir a libra e perder a condição de moeda de reserva.
O economista Paulo Vieira da Cunha lembra que o processo da transição da hegemonia da Inglaterra para os Estados Unidos levou décadas, e houve a concorrência entre libra e o dólar como moedas de reserva por quase 60 anos. E, sobretudo, "não está nada claro se a China vai assumir uma posição de maior responsabilidade de manter o crescimento da economia global e extrair a contrapartida de estar assumindo esse papel".
Hoje em dia, ressalta Vieira da Cunha, não há nenhum mercado financeiro que chegue perto do mercado americano, e a única alternativa de moeda de reserva é o euro, "mas a Europa não está em uma situação estrutural muito melhor do que a americana, talvez esteja até pior".
DEU EM O GLOBO
Nova York. A relação entre os Estados Unidos e a China nos últimos dez anos foi a coisa mais importante na economia mundial, na avaliação do historiador escocês Niall Ferguson, professor de Harvard. Ele e Moritz Schularick, da Universidade Livre de Berlim, criaram uma entidade chamada "Chimerica" - trocadilho com o nome dos países e a palavra quimera em inglês - para exemplificar essa simbiose, que representaria 13% da superfície terrestre, 1/4 de sua população, 1/3 do PIB mundial e mais da metade do crescimento econômico nos últimos seis anos. Esse "relacionamento quase perfeito" se baseava, segundo Ferguson, no fato de que uma metade poupava para que a outra metade gastasse, ou mais especificamente, o "apetite por poupança" asiático tornou mais barato os financiamentos de imóveis.
Ferguson ressalta que a poupança nos Estados Unidos declinou de mais de 5% do PIB em meados de 1990 para virtualmente zero em 2005, enquanto a chinesa aumentou de menos de 30% para 45% do PIB no mesmo período.
Uma inevitável conseqüência da crise financeira será a redução do crescimento econômico dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que a China poderá continuar crescendo a 8% ao ano com base em seu mercado interno e pelos investimentos governamentais em infra-estrutura interna, ressalta Ferguson.
Com o fim da "Chimerica", a China poderá explorar outras esferas de sua influência global, especula Ferguson, "desde a Organização de Cooperação de Shangai que reúne China, Russia e quatro países da Ásia Central, até o nascente império chinês na África rica em commodities".
O economista brasileiro Paulo Vieira da Cunha, ex-diretor do Banco Central que atua no mercado financeiro em Nova York, vê também essa possibilidade de a China se voltar mais para seu mercado interno, se desligando paulatinamente do dólar:
"No momento atual a China não tem muita opção, mas pode ir mudando. Se ela assumir o papel de sustentar a economia global, vai ter maior gasto doméstico e menor receita das exportações, e uma das opções é vender reservas e aplicar na própria China, ou mesmo parar de acumular reserva e gastar no seu investimento", lembra ele.
Com isso, os Estados Unidos teriam maior dificuldade para ampliar sua dívida externa e se financiar. A China é o segundo maior comprador de bônus do Tesouro americano, só perdendo para o Japão. Ou, como diz Niall Ferguson, "os Estados Unidos poderiam perder a facilidade conveniente de ser capaz de pegar emprestado do exterior a juros baixos na sua própria moeda".
Paulo Vieira da Cunha vê o Brasil da mesma forma, parando de acumular reserva e se voltando mais para o financiamento doméstico. "Na verdade, se o Brasil se recuperar mais rápido do que os Estados Unidos, vai atrair mais o investimento estrangeiro", ressalta.
O sociólogo e historiador brasileiro Hélio Jaguaribe considera que neste contexto abre-se para um país como o Brasil "um maior espaço de permissibilidade internacional".
Mas para dele se valer satisfatoriamente "o Brasil precisa acelerar seu processo de desenvolvimento, notadamente na dimensão cultural, e empreender uma séria reforma do sistema político eliminando os importantes resíduos clientelistas que nele subsistem e fortalecendo o sistema partidário".
Para Hélio Jaguaribe, "nosso sistema partidário continua muito subdesenvolvido. Necessitamos que se configurem com clareza os programas de cada partido e que se reduza significativamente o número de partidos existentes, para se alcançar sua limitação a não mais de três".
Na sua análise do quadro partidário brasileiro, Jaguaribe diz que PSDB e o PT "constituem núcleos a partir dos quais podem emergir dois importantes partidos". Restaria um espaço a ser preenchido "por um importante partido conservador e pelos declinantes resíduos do clientelismo".
Jaguaribe vê a inclusão no Conselho de Segurança da ONU de países como África do Sul, Brasil, China, Índia e México, "uma necessidade" nesse novo quadro geopolítico internacional "que terá de ser atendida a não longo prazo".
O historiador Niall Ferguson acha que "pode estar chegando ao fim" a era em que o dólar era a única moeda de reserva internacional, e lembra a crise da libra inglesa. "A principal razão foram as grandes dívidas que a Inglaterra fez para financiar suas guerras pelo mundo. E a segunda razão foi a desaceleração do crescimento da economia nas décadas do pós-guerra".
Se a principal conseqüência fiscal da crise financeira for um aumento grande das dívidas do governo federal, diz ele, os Estados Unidos podem ficar em situação similar, e o dólar pode seguir a libra e perder a condição de moeda de reserva.
O economista Paulo Vieira da Cunha lembra que o processo da transição da hegemonia da Inglaterra para os Estados Unidos levou décadas, e houve a concorrência entre libra e o dólar como moedas de reserva por quase 60 anos. E, sobretudo, "não está nada claro se a China vai assumir uma posição de maior responsabilidade de manter o crescimento da economia global e extrair a contrapartida de estar assumindo esse papel".
Hoje em dia, ressalta Vieira da Cunha, não há nenhum mercado financeiro que chegue perto do mercado americano, e a única alternativa de moeda de reserva é o euro, "mas a Europa não está em uma situação estrutural muito melhor do que a americana, talvez esteja até pior".
Um pouco de futurologia

Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE
Desta vez, o que estamos vendo é outra coisa: a unidade européia. A Inglaterra se afastou de Bush e se aproximou da União Européia
Não gosto de fazer previsões categóricas. É uma adivinhação, embora dê direito a quem acerta de extravasar o próprio narcisismo com aquele famoso “eu não disse?” Prefiro analisar os fatos, imaginar cenários e esperar que um deles se realize. Mesmo assim, às vezes, erro feio. Por isso, perdoem-me a futurologia. Serei brevíssimo.
Obama
O governo Bush é um fracasso. O epicentro da crise econômica mundial está nos Estados Unidos, com o colapso de seu mercado imobiliário e o derretimento de Wall Street. Fala-se muito que o mercado financeiro é uma economia virtual, descolada da economia real. Até que ponto a outra face dessa crise não é o esgotamento do esforço de guerra norte- americano, cujo complexo militar-industrial manteve sua economia real aquecida? Se o capital financeiro é uma espécie de fusão do capital bancário com o capital industrial, não se pode separar uma coisa da outra.
Será tão irreversível o declínio norte-americano? A hegemonia dos Estados Unidos entrou em decadência por vários motivos. Dois são mais relevantes: primeiro, Bush liquidou a sua liderança moral no mundo ocidental; segundo, o poder de consumo global está se deslocando do Atlântico para o Pacífico. Mas a economia ianque ainda é a mais poderosa do mundo. E o “sonho americano” não acabou. A provável eleição do candidato democrata Barack Obama vai resgatá-lo com seu sorriso de Gagárin, o primeiro a ver a Terra azul. Quem imaginaria, há 40 anos, um afrodescedente na liderança dos EUA, quando em algumas cidades do Mississipi a mãe e o pai do novo presidente dos Estados Unidos não poderiam sequer usar o mesmo bebedouro ou viajar lado a lado no mesmo banco de ônibus? Esse sonho é isto: qualquer cidadão pode chegar no topo pelo próprio mérito. Só valia para os brancos, agora está valendo para qualquer um. É um recado dos americanos de que continuam sendo uma grande nação.
Obama está falando que o americano comum deve enfrentar a crise econômica com muito sacrifício e trabalho, acabar com a dependência ao petróleo e desenvolver um esforço de paz no mundo. Há retórica nisso, mas uma significativa mudança de rumo na política norte-americana de fato ocorrerá. E seu impacto será mundial. No plano econômico, os EUA vão enfrentar a crise com uma dura recessão, da qual sairão à frente da recuperação econômica mundial. Obama quer superar a dependência ao petróleo do Oriente Médio e construir um novo modelo energético. Isso significa um novo ciclo de expansão, em busca de outro padrão tecnológico, um modelo mais ecológico. Quais as conseqüências em termos de conversão da indústria, do aproveitamento de matérias-primas e da produção de bens de consumo duráveis e não- duráveis? Os americanos têm recursos materiais e humanos para serem bem-sucedidos. A Europa também. Mas qual será o impacto no resto do mundo?
Brown
Primeiro-ministro britânico, Gordon Brown emerge da crise econômica como um grande estadista europeu. Era um político desgatado e sem carisma, mas foi ágil e firme. Surpreendeu: ele é o autor da proposta de intervenção dos governos europeus no sistema financeiro e defende um novo acordo de Bretton Woods. Assinado em 1944 pelos países mais industrializados na época na cidade americana que lhe empresta o nome, o acordo estabeleceu as regras atuais das relações comerciais e financeiras internacionais. Os ingleses sabem das coisas, inclusive o que é decadência e perda de hegemonia.
As grandes depressões das décadas de 1890 e 1920 foram as maiores crises capitalistas da história. Resultaram em duas guerras mundiais, em plena Europa. Desta vez, o que estamos vendo é outra coisa: a unidade européia. A Inglaterra se afastou de Bush e se aproximou da União Européia. O principal mérito de Brown foi romper a blindagem de certa “oligarquia financeira” que havia se colocado — como em todos os demais países capitalistas — acima dos estados nacionais, da política e de suas instituições. A discussão sobre a política monetária e o funcionamento do mercado financeiro estava interditada à política propriamente dita, mesmo na esquerda européia. O que vem por aí é uma grande reforma financeira, para regulamentação do mercado de capitais e sua subordinação aos estados nacionais. Sem isso, a economia global não entrará nos eixos. É o que o presidente francês Nicolas Sarkozy está chamando de “refundação” capitalista.
Para encerrar, confesso minhas preocupações com a China, a Índia e a Rússia. Os chineses não têm massa salarial para absorver a produção que exportam para o mundo em caso de uma grande recessão. A Índia também depende muito do comércio exterior e da mão-de-obra barata. A Rússia terá problemas com a redução do consumo e dos preços do gás na Europa. Mas essas três grandes nações, assim como o Brasil — que está em melhor situação mas não vai tirar a crise de letra — são assunto para outra coluna.
Pane ideológica

Luiz Gonzaga Belluzzo
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
Além do bloqueio do crédito, a crise planetária também ameaça paralisar os cérebros, até mesmo os bem-dotados
DURANTE a semana, a crise financeira ganhou velocidade. Em sua pedagogia truculenta, ensinou aos desavisados e aos nefelibatas que a paralisia no sistema de crédito causa danos consideráveis ao mundo "real". Os bancos não emprestam, as empresas reduzem a produção e o emprego, a atividade econômica afunda e, finalmente, os bancos não recebem o dinheiro que emprestaram antes da tormenta.
As certezas dos analistas mais certeiros desmoronam. Um deles proclamava na televisão: "Os investidores são racionais, mas estão em pânico". Imaginei que antes da emboscada do "subprime" e de outros créditos alavancados, os investidores racionais estivessem apenas eufóricos em sua peculiar racionalidade.
Enquanto arengavam os oráculos, transtornados por incertezas e infortúnios, uma pulga intrometida desembarcou atrás de minha orelha. A Pulex irritans esmerou-se em insinuações: além do bloqueio do crédito, a crise planetária também ameaça paralisar os cérebros, até mesmo os bem-dotados -para não falar do meu, apenas mediano. O pânico dos mercados induziu à pane na razão. O ineditismo dos acontecimentos abalroa seus modelos e faz naufragar suas previsões. Desconcertados, os sábios de ontem embarcam em hipóteses exóticas e peregrinas, como as que atribuem responsabilidade aos devedores "ninja" ("no income", "no job", "no asset"), gente irresponsável que não deveria aceitar os empréstimos gentilmente oferecidos por bancos generosos. A culpa é, afinal, dos políticos que estimularam os créditos predatórios.
A pane cerebral afeta com particular virulência o pensamento imune à experiência histórica.
Percebo resmungos e muxoxos quando alguém menciona os "anos dourados", a era em que o capitalismo juntou prosperidade, avanço tecnológico, inovação institucional e redução das desigualdades. Esse período, assinala o economista Kenneth Rogoff, registrou a mais baixa freqüência de crises financeiras e de crédito, desde o século 19. Não escaparia ao crítico desconfiado que o sucesso do "modelo" do pós-Guerra possa ter nascido de um arranjo virtuoso entre a democracia e o capitalismo.
Depois de 30 anos de progresso material, redução das desigualdades nos países centrais e altas taxas de crescimento na América Latina e na Ásia emergente, o vento virou. A estagflação dos anos 1970 foi entendida como uma advertência e uma recomendação: era preciso dar adeus a tudo aquilo. O mal, como sempre, era o intervencionismo do Estado, o poder dos sindicatos, o controle dos mercados financeiros, os obstáculos ao livre movimento de capitais.
Não por acaso, há espanto e inquietação, além de alívio naturalmente, com a ousadia de Gordon Browm, o primeiro-ministro da pérfida Albion. Ele não hesitou em adquirir participação acionária nos periclitantes bancos ingleses. Foi seguido pelos colegas europeus. Convenceu Paulson e Bernanke de que essa era a melhor solução. Há fundados receios, entre os sobreviventes do naufrágio financeiro, de que o bote salva-vidas do Estado seja baixado por políticos populistas para resgatar a turma do "andar de baixo".
LUIZ GONZAGA BELLUZZO, 65, é professor titular de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
Além do bloqueio do crédito, a crise planetária também ameaça paralisar os cérebros, até mesmo os bem-dotados
DURANTE a semana, a crise financeira ganhou velocidade. Em sua pedagogia truculenta, ensinou aos desavisados e aos nefelibatas que a paralisia no sistema de crédito causa danos consideráveis ao mundo "real". Os bancos não emprestam, as empresas reduzem a produção e o emprego, a atividade econômica afunda e, finalmente, os bancos não recebem o dinheiro que emprestaram antes da tormenta.
As certezas dos analistas mais certeiros desmoronam. Um deles proclamava na televisão: "Os investidores são racionais, mas estão em pânico". Imaginei que antes da emboscada do "subprime" e de outros créditos alavancados, os investidores racionais estivessem apenas eufóricos em sua peculiar racionalidade.
Enquanto arengavam os oráculos, transtornados por incertezas e infortúnios, uma pulga intrometida desembarcou atrás de minha orelha. A Pulex irritans esmerou-se em insinuações: além do bloqueio do crédito, a crise planetária também ameaça paralisar os cérebros, até mesmo os bem-dotados -para não falar do meu, apenas mediano. O pânico dos mercados induziu à pane na razão. O ineditismo dos acontecimentos abalroa seus modelos e faz naufragar suas previsões. Desconcertados, os sábios de ontem embarcam em hipóteses exóticas e peregrinas, como as que atribuem responsabilidade aos devedores "ninja" ("no income", "no job", "no asset"), gente irresponsável que não deveria aceitar os empréstimos gentilmente oferecidos por bancos generosos. A culpa é, afinal, dos políticos que estimularam os créditos predatórios.
A pane cerebral afeta com particular virulência o pensamento imune à experiência histórica.
Percebo resmungos e muxoxos quando alguém menciona os "anos dourados", a era em que o capitalismo juntou prosperidade, avanço tecnológico, inovação institucional e redução das desigualdades. Esse período, assinala o economista Kenneth Rogoff, registrou a mais baixa freqüência de crises financeiras e de crédito, desde o século 19. Não escaparia ao crítico desconfiado que o sucesso do "modelo" do pós-Guerra possa ter nascido de um arranjo virtuoso entre a democracia e o capitalismo.
Depois de 30 anos de progresso material, redução das desigualdades nos países centrais e altas taxas de crescimento na América Latina e na Ásia emergente, o vento virou. A estagflação dos anos 1970 foi entendida como uma advertência e uma recomendação: era preciso dar adeus a tudo aquilo. O mal, como sempre, era o intervencionismo do Estado, o poder dos sindicatos, o controle dos mercados financeiros, os obstáculos ao livre movimento de capitais.
Não por acaso, há espanto e inquietação, além de alívio naturalmente, com a ousadia de Gordon Browm, o primeiro-ministro da pérfida Albion. Ele não hesitou em adquirir participação acionária nos periclitantes bancos ingleses. Foi seguido pelos colegas europeus. Convenceu Paulson e Bernanke de que essa era a melhor solução. Há fundados receios, entre os sobreviventes do naufrágio financeiro, de que o bote salva-vidas do Estado seja baixado por políticos populistas para resgatar a turma do "andar de baixo".
LUIZ GONZAGA BELLUZZO, 65, é professor titular de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).
Caixinha de surpresas

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
MADRI - O mundo está redescobrindo uma obviedade, contida, por exemplo, em escrito de James Madison. "Se os homens fossem anjos, o governo não seria necessário", escreveu Madison (1751-1836), quarto presidente dos Estados Unidos.
Agora que o mundo financeiro soltou todos os seus demônios, descobre-se que o governo é indispensável para cortar-lhes um pedaço do rabo. Mas é só um pedacinho. Não decorre daí que se esteja às portas do comunismo, ao contrário do que temem os ultraliberais.
Nem decorre que se esteja estatizando os bancos. Na prática, o que está ocorrendo é o inverso: privatizam-se os recursos públicos e estatiza-se o risco -só o risco.
O governo abre os cofres, mas não entra na administração dos bancos. Hank Paulson, o secretário norte-americano do Tesouro, pode soltar dinheiro, mas não pode determinar que os bancos, em vez de apostar em derivativos, financiem a juros camaradas o trem-bala Nova York-Los Angeles.
Nem sei se é possível de fato enjaular todos os demônios. Dá, por exemplo, para proibir que empresas apostem a favor da moeda do país em que operam, como o fizeram -e perderam- Sadia, Aracruz e Votorantim, fora as que ainda não saíram do armário?
Ajudaria um pouquinho se os economistas que adoram fazer previsões fossem obrigados, todos, a adotar como papel de parede de seus computadores a seguinte frase: "A economia, como o futebol, é uma caixinha de surpresas". Logo, previsões só sobre o passado.
Evitar-se-ia assim que a turma da Goldman Sachs, quando o petróleo chegou a US$ 147 em julho, previsse o barril a US$ 200. O petróleo só fez cair desde então. E os jornalistas ainda acreditamos na história dos Brics, potências mundiais a partir de 2020, palpite da mesma Goldman Sachs que não acertou nem 2008. Imagine 2020.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
MADRI - O mundo está redescobrindo uma obviedade, contida, por exemplo, em escrito de James Madison. "Se os homens fossem anjos, o governo não seria necessário", escreveu Madison (1751-1836), quarto presidente dos Estados Unidos.
Agora que o mundo financeiro soltou todos os seus demônios, descobre-se que o governo é indispensável para cortar-lhes um pedaço do rabo. Mas é só um pedacinho. Não decorre daí que se esteja às portas do comunismo, ao contrário do que temem os ultraliberais.
Nem decorre que se esteja estatizando os bancos. Na prática, o que está ocorrendo é o inverso: privatizam-se os recursos públicos e estatiza-se o risco -só o risco.
O governo abre os cofres, mas não entra na administração dos bancos. Hank Paulson, o secretário norte-americano do Tesouro, pode soltar dinheiro, mas não pode determinar que os bancos, em vez de apostar em derivativos, financiem a juros camaradas o trem-bala Nova York-Los Angeles.
Nem sei se é possível de fato enjaular todos os demônios. Dá, por exemplo, para proibir que empresas apostem a favor da moeda do país em que operam, como o fizeram -e perderam- Sadia, Aracruz e Votorantim, fora as que ainda não saíram do armário?
Ajudaria um pouquinho se os economistas que adoram fazer previsões fossem obrigados, todos, a adotar como papel de parede de seus computadores a seguinte frase: "A economia, como o futebol, é uma caixinha de surpresas". Logo, previsões só sobre o passado.
Evitar-se-ia assim que a turma da Goldman Sachs, quando o petróleo chegou a US$ 147 em julho, previsse o barril a US$ 200. O petróleo só fez cair desde então. E os jornalistas ainda acreditamos na história dos Brics, potências mundiais a partir de 2020, palpite da mesma Goldman Sachs que não acertou nem 2008. Imagine 2020.
O QUE PENSA A MÍDIA
Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1122&portal=
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1122&portal=
sábado, 18 de outubro de 2008
FRASE SELECIONADA
”Paes quer nacionalizar a campanha, mas não está tendo sucesso. Se o Lula não consegue transferir para a Marta Suplicy, companheira de partido em São Paulo, imagina se vai conseguir para um sujeito que ontem denunciou o filho dele? “
(Renato Lessa- Prof. da UFF e do IUPERJ)
Graciliano Ramos: a negação do mundo e a experiência da modernidade
Com a palavra, as conseqüências

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
As pesquisas ainda não mediram esse dado, mas, se vierem a medir o grau de aprovação ou rejeição popular à vulgaridade de algumas campanhas neste segundo turno, não será uma surpresa se revelarem que, para a maioria, uma grosseria a mais ou a menos tanto faz como tanto fez.
Tendo em vista a estatura do ambiente em geral, o surpreendente - e suspeito do ponto de vista da sinceridade dos pesquisados - seria a revelação de alto índice de repúdio à chamada “baixaria” dos métodos, termos e condutas adotados na aflição da reta final.
Afinal, não há nada muito fora do compasso em relação à “rotina de desfaçatez” - para usar expressão do ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello - já devidamente incorporada ao cotidiano das mais altas esferas da República.
O que há de estranho em panfletos apócrifos distribuídos pelas ruas do Rio de Janeiro ou de questões capciosas para atingir a honra de um adversário em São Paulo, diante de um dossiê com informações de propriedade do Estado produzido dentro da Casa Civil da Presidência da República para intimidar moralmente a oposição numa Comissão Parlamentar de Inquérito? E por que mentiras deslavadas passariam de repente a causar pasmo e indignação, bem como exibições de cinismo, incoerência, contorcionismos vertebrais e outros que tais, se nada de diferente se tem mostrado no cenário nacional nos últimos anos, sob o beneplácito da maioria? E dizer mesmo o que a respeito de palavras chulas? Linguajar arrevesado, sotaques inventados, perfis de populismo bem amoldado à ocasião conveniente? Ora, ora, é só do que tem vivido basicamente a política, é o comportamento de esperteza celebrado aos píncaros da genialidade, desde que se descobriu o reduzido valor dos valores na avaliação dos representantes na hora de escolher e avaliar seus representados.
Quando todos se dobram a qualquer prática desde que rendam bons resultados independentemente dos princípios adotados, tratar a “baixaria” como exceção denota a extinção do senso de realidade. Ou, então, é sinal de que a impudência está de tal maneira agregada aos espíritos que já faz zombaria da autocrítica fantasiada de vestal.
Esquisito seria se diante do aval diário a toda sorte de comportamentos infames, os candidatos no desespero da luta pelo poder optassem por se conduzir a partir da mais pura ética a combater com a elegância de esgrimistas.
Se é a brutalidade do vale-tudo o que produz sucesso, se o dom de iludir é a capacidade mais reverenciada, se as urnas - como se alega por aí - já disseram que essa coisa de moral e comportamento só comove os fariseus, natural que os arquitetos da propaganda política tomem como verdadeira a prevalência da admiração pela vitória sobre o exame da qualidade dos custos.
Quem ganha tem razão, é assim que está posta a equação das coisas brasileiras. Portanto, vale usar grevistas armados, deslocar a polícia da defesa para o ataque, conferir o mesmo tratamento a gente de bem, réus e acusados, atuar como algoz e discursar na condição de vítima, condenar num dia e absolver no outro em nome do interesse, vale qualquer coisa para vencer.
E só há um jeito de não valer: o eleitor revogar a regra e dizer chega.
Mano a mano
No oficial, a campanha de Marta Suplicy anunciava intenção de comparar a administração dela à de Gilberto Kassab. Guerra de obras.
No paralelo, porém, a decisão de partir para o pessoal já estava tomada. Primeiro, porque obra por obra, Kassab conta com a vantagem de falar no presente.
Segundo, como a rejeição à ex-prefeita é à pessoa, não à administração (tanto que em 2004 ela perdeu com ótima avaliação de governo), a única saída era lutar no mesmo campo.
Dia seguinte
Certamente são sinceras as declarações de apreço do candidato a prefeito do Rio Eduardo Paes ao novo aliado e ex-candidato Marcelo Crivella.
Bem como é pleno de franqueza o silêncio do seu padrinho político, o governador Sérgio Cabral a respeito.
Desafeto assumido de Crivella, Cabral fez questão de manter a distância registrada em cartório do Planalto: logo no início da campanha comunicou ao presidente Lula que a sua fidelidade não ultrapassaria aquele limite e, portanto, não atenderia a eventuais pedidos de apoio ao “ex-bispo” senador.
Entre outros motivos porque não tinha razão nem disposição para se indispor com as Organizações Globo, em disputa permanente com a Rede Record do “bispo” Macedo.
Pois bem. Nessa situação, se Eduardo Paes se eleger prefeito, de duas, uma: ou Crivella não leva nada na divisão da administração e isso significa que o apoio foi a leite de pato, ou negociou “parceria de governabilidade” e isso quer dizer que Cabral teve de conceder à circunstância eleitoral o que não pode ceder ao presidente da República.
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
As pesquisas ainda não mediram esse dado, mas, se vierem a medir o grau de aprovação ou rejeição popular à vulgaridade de algumas campanhas neste segundo turno, não será uma surpresa se revelarem que, para a maioria, uma grosseria a mais ou a menos tanto faz como tanto fez.
Tendo em vista a estatura do ambiente em geral, o surpreendente - e suspeito do ponto de vista da sinceridade dos pesquisados - seria a revelação de alto índice de repúdio à chamada “baixaria” dos métodos, termos e condutas adotados na aflição da reta final.
Afinal, não há nada muito fora do compasso em relação à “rotina de desfaçatez” - para usar expressão do ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello - já devidamente incorporada ao cotidiano das mais altas esferas da República.
O que há de estranho em panfletos apócrifos distribuídos pelas ruas do Rio de Janeiro ou de questões capciosas para atingir a honra de um adversário em São Paulo, diante de um dossiê com informações de propriedade do Estado produzido dentro da Casa Civil da Presidência da República para intimidar moralmente a oposição numa Comissão Parlamentar de Inquérito? E por que mentiras deslavadas passariam de repente a causar pasmo e indignação, bem como exibições de cinismo, incoerência, contorcionismos vertebrais e outros que tais, se nada de diferente se tem mostrado no cenário nacional nos últimos anos, sob o beneplácito da maioria? E dizer mesmo o que a respeito de palavras chulas? Linguajar arrevesado, sotaques inventados, perfis de populismo bem amoldado à ocasião conveniente? Ora, ora, é só do que tem vivido basicamente a política, é o comportamento de esperteza celebrado aos píncaros da genialidade, desde que se descobriu o reduzido valor dos valores na avaliação dos representantes na hora de escolher e avaliar seus representados.
Quando todos se dobram a qualquer prática desde que rendam bons resultados independentemente dos princípios adotados, tratar a “baixaria” como exceção denota a extinção do senso de realidade. Ou, então, é sinal de que a impudência está de tal maneira agregada aos espíritos que já faz zombaria da autocrítica fantasiada de vestal.
Esquisito seria se diante do aval diário a toda sorte de comportamentos infames, os candidatos no desespero da luta pelo poder optassem por se conduzir a partir da mais pura ética a combater com a elegância de esgrimistas.
Se é a brutalidade do vale-tudo o que produz sucesso, se o dom de iludir é a capacidade mais reverenciada, se as urnas - como se alega por aí - já disseram que essa coisa de moral e comportamento só comove os fariseus, natural que os arquitetos da propaganda política tomem como verdadeira a prevalência da admiração pela vitória sobre o exame da qualidade dos custos.
Quem ganha tem razão, é assim que está posta a equação das coisas brasileiras. Portanto, vale usar grevistas armados, deslocar a polícia da defesa para o ataque, conferir o mesmo tratamento a gente de bem, réus e acusados, atuar como algoz e discursar na condição de vítima, condenar num dia e absolver no outro em nome do interesse, vale qualquer coisa para vencer.
E só há um jeito de não valer: o eleitor revogar a regra e dizer chega.
Mano a mano
No oficial, a campanha de Marta Suplicy anunciava intenção de comparar a administração dela à de Gilberto Kassab. Guerra de obras.
No paralelo, porém, a decisão de partir para o pessoal já estava tomada. Primeiro, porque obra por obra, Kassab conta com a vantagem de falar no presente.
Segundo, como a rejeição à ex-prefeita é à pessoa, não à administração (tanto que em 2004 ela perdeu com ótima avaliação de governo), a única saída era lutar no mesmo campo.
Dia seguinte
Certamente são sinceras as declarações de apreço do candidato a prefeito do Rio Eduardo Paes ao novo aliado e ex-candidato Marcelo Crivella.
Bem como é pleno de franqueza o silêncio do seu padrinho político, o governador Sérgio Cabral a respeito.
Desafeto assumido de Crivella, Cabral fez questão de manter a distância registrada em cartório do Planalto: logo no início da campanha comunicou ao presidente Lula que a sua fidelidade não ultrapassaria aquele limite e, portanto, não atenderia a eventuais pedidos de apoio ao “ex-bispo” senador.
Entre outros motivos porque não tinha razão nem disposição para se indispor com as Organizações Globo, em disputa permanente com a Rede Record do “bispo” Macedo.
Pois bem. Nessa situação, se Eduardo Paes se eleger prefeito, de duas, uma: ou Crivella não leva nada na divisão da administração e isso significa que o apoio foi a leite de pato, ou negociou “parceria de governabilidade” e isso quer dizer que Cabral teve de conceder à circunstância eleitoral o que não pode ceder ao presidente da República.
A linha torta da coerência

Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL
Por uma esperta e oportuníssima coincidência, o presidente Lula estava no outro lado do mundo, em Maputo, capital de Moçambique, trocando amabilidades com o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, numa dessas meia horas que marcam a vida, enquanto o Brasil atravessa momentos que custam a sumir no buraco da memória.
Más notícias para a véspera do segundo turno, com a candidata petista Marta Suplicy despencando nas pesquisas e o Fernando Gabeira sustentando a duras penas a liderança.
O nosso palavroso presidente às vezes tropeça nos calhaus das contradições.
Aproveitei o dia chuvoso para botar ordem na bagunça dos recortes de jornais e revistas e acabei por separar algumas dezenas de registros de improvisos, entrevistas, declarações, frases e sentenças do presidente mais loquaz da história deste país. Como não há espaço para reproduzir todas as pérolas da facúndia presidencial, espremi o suco de uma seleção.
É justo que comece por algumas jóias da coroa da imprensa. Para poupar espaço, omito as datas e cenários da antologia:
1 - "Eu nunca vi tanto preconceito. Porque se a imprensa brasileira tivesse comigo apenas o tratamento republicano, nada mais do que isso... Não queiram uma imprensa chapa branca, mas não quero também uma imprensa contra".
2 - "Se eu puder um dia vou publicar um livro sobre alguns articulistas deste país para mostrar a quantidade de coisas que publicam sobre mim e a minha família". E, adiante: "Vocês não sabem o que é um fardo de governar este país com uma parte da elite preconceituosa".
3 - "Pela primeira vez na história, fizemos coisas que não estavam previstas acontecer. A imprensa brasileira poderia dar esta contribuição aos leitores, porque não é possível a gente viver a vida toda subordinada à futrica".
4 - "Se tem uma coisa que ficou provada nessa eleição é que neste país existe mais povo que formador de opinião".
O fumante desdenha a lei de combate ao fumo: "Eu defendo, na verdade, o uso do fumo em qualquer lugar... Na sua sala certamente eu não fumarei, porque eu respeito o dono da sala. Mas, na minha, sou eu que mando".
Num desabafo de modéstia: "Qualquer que seja o meu sucessor vai ter um problema sério: terá que fazer mais do que um metalúrgico".
Na surpreendente defesa da união civil dos homossexuais, em entrevista à TV Brasil: "Temos que acabar com a hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária".
Antes de ter siso poupado de assistir pela televisão o empate da Seleção de Dunga com a Venezuela, foi absolutamente preciso no seu pessimismo com a decadência do futebol brasileiro:
"Quando vejo o Messi – na minha opinião o melhor jogador do mundo, hoje – perder a bola e sair correndo atrás do adversário até tomar a bola ou fazer falta e vejo os nossos perderem a bola, cruzarem os braços e falarem ‘o cara da defesa que tire’"... Em outra ocasião, o desabafo amargo e preciso: "Lamentavelmente, o Brasil não tem mais o melhor futebol do mundo".
Severo nas críticas aos adversários políticos e tolerante com os que pulam a cerca, Lula já foi um crítico sem papas na língua no julgamento do Congresso: "O Congresso é uma instituição válida, mas precisa ser renovada por gente comprometida com a classe trabalhadora. Eu acho que lá a maioria é picareta".
E, na mesma batida: "De todos os deputados do Congresso Nacional, há pelo menos 300 picaretas".
Sobre o antecessor FHC e sua mais ácida implicância, não mede as palavras: "Quando precisou comprar votos para aprovar a reeleição, o presidente comprou". E, no embalo: "Temos que criar a medalha Joaquim Silvério dos Reis e entregá-la para o presidente, que é o grande traidor da independência do país".
Agora, o outro lado da benevolência: "Quem não votou no Jader Barbalho, no Pará, em 1978, para deputado federal?", perguntou o presidente em comício com público a favor.
E até da Índia mandou o seu receado à candidata do PT ao governo de São Paulo: "Anota aí no seu caderninho: a Marta vai ganhar. A campanha está só no começo". Na verdade, entra na última semana, com o prefeito Gilberto Kassab (DEM) liderando as pesquisas com confortável diferença.
Palavras, palavras o vento leva...
DEU NO JORNAL DO BRASIL
Por uma esperta e oportuníssima coincidência, o presidente Lula estava no outro lado do mundo, em Maputo, capital de Moçambique, trocando amabilidades com o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, numa dessas meia horas que marcam a vida, enquanto o Brasil atravessa momentos que custam a sumir no buraco da memória.
Más notícias para a véspera do segundo turno, com a candidata petista Marta Suplicy despencando nas pesquisas e o Fernando Gabeira sustentando a duras penas a liderança.
O nosso palavroso presidente às vezes tropeça nos calhaus das contradições.
Aproveitei o dia chuvoso para botar ordem na bagunça dos recortes de jornais e revistas e acabei por separar algumas dezenas de registros de improvisos, entrevistas, declarações, frases e sentenças do presidente mais loquaz da história deste país. Como não há espaço para reproduzir todas as pérolas da facúndia presidencial, espremi o suco de uma seleção.
É justo que comece por algumas jóias da coroa da imprensa. Para poupar espaço, omito as datas e cenários da antologia:
1 - "Eu nunca vi tanto preconceito. Porque se a imprensa brasileira tivesse comigo apenas o tratamento republicano, nada mais do que isso... Não queiram uma imprensa chapa branca, mas não quero também uma imprensa contra".
2 - "Se eu puder um dia vou publicar um livro sobre alguns articulistas deste país para mostrar a quantidade de coisas que publicam sobre mim e a minha família". E, adiante: "Vocês não sabem o que é um fardo de governar este país com uma parte da elite preconceituosa".
3 - "Pela primeira vez na história, fizemos coisas que não estavam previstas acontecer. A imprensa brasileira poderia dar esta contribuição aos leitores, porque não é possível a gente viver a vida toda subordinada à futrica".
4 - "Se tem uma coisa que ficou provada nessa eleição é que neste país existe mais povo que formador de opinião".
O fumante desdenha a lei de combate ao fumo: "Eu defendo, na verdade, o uso do fumo em qualquer lugar... Na sua sala certamente eu não fumarei, porque eu respeito o dono da sala. Mas, na minha, sou eu que mando".
Num desabafo de modéstia: "Qualquer que seja o meu sucessor vai ter um problema sério: terá que fazer mais do que um metalúrgico".
Na surpreendente defesa da união civil dos homossexuais, em entrevista à TV Brasil: "Temos que acabar com a hipocrisia, porque a gente sabe que existe. Tem homem morando com homem, mulher morando com mulher e muitas vezes vivem bem, de forma extraordinária".
Antes de ter siso poupado de assistir pela televisão o empate da Seleção de Dunga com a Venezuela, foi absolutamente preciso no seu pessimismo com a decadência do futebol brasileiro:
"Quando vejo o Messi – na minha opinião o melhor jogador do mundo, hoje – perder a bola e sair correndo atrás do adversário até tomar a bola ou fazer falta e vejo os nossos perderem a bola, cruzarem os braços e falarem ‘o cara da defesa que tire’"... Em outra ocasião, o desabafo amargo e preciso: "Lamentavelmente, o Brasil não tem mais o melhor futebol do mundo".
Severo nas críticas aos adversários políticos e tolerante com os que pulam a cerca, Lula já foi um crítico sem papas na língua no julgamento do Congresso: "O Congresso é uma instituição válida, mas precisa ser renovada por gente comprometida com a classe trabalhadora. Eu acho que lá a maioria é picareta".
E, na mesma batida: "De todos os deputados do Congresso Nacional, há pelo menos 300 picaretas".
Sobre o antecessor FHC e sua mais ácida implicância, não mede as palavras: "Quando precisou comprar votos para aprovar a reeleição, o presidente comprou". E, no embalo: "Temos que criar a medalha Joaquim Silvério dos Reis e entregá-la para o presidente, que é o grande traidor da independência do país".
Agora, o outro lado da benevolência: "Quem não votou no Jader Barbalho, no Pará, em 1978, para deputado federal?", perguntou o presidente em comício com público a favor.
E até da Índia mandou o seu receado à candidata do PT ao governo de São Paulo: "Anota aí no seu caderninho: a Marta vai ganhar. A campanha está só no começo". Na verdade, entra na última semana, com o prefeito Gilberto Kassab (DEM) liderando as pesquisas com confortável diferença.
Palavras, palavras o vento leva...
O jogo político não é reino do vale-tudo

Luiz Bernardo Leite Araújo
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
UMA QUESTÃO controversa da discussão política em sociedades democráticas é a da delimitação de fronteiras entre esfera privada e esfera pública.
À primeira vista, trata-se de distinção trivial, valendo para a segunda esfera apenas aquilo que é genericamente definido como pertencente ao domínio público, que diz respeito ao interesse geral dos cidadãos.
Entretanto, toda tentativa de fixar de uma só vez e para sempre a forma e o conteúdo do discurso político resultou, senão em fracasso, certamente em novas e infindáveis controvérsias.Quais argumentos são aceitáveis do ponto de vista da cidadania democrática? Há temas intratáveis que deveriam ser excluídos da agenda política?
Tais questões suscitam, desde logo, intenso debate entre os membros de uma comunidade política e trazem a lume o caráter complexo da referida diferenciação.
Os defensores de uma visão aberta, inclusiva e irrestrita de temas na esfera política costumam recordar, não sem razão, que as fronteiras entre o público e o privado são fluidas e porosas. O que ontem não contava como argumento a ser ponderado pode subitamente adquirir relevância, o que é atestado no caso recente da introdução de doutrinas religiosas por cidadãos que, sem anular a natureza laica do Estado constitucional, rejeitam o secularismo como ideologia dominante. O que antes era tido como assunto estritamente privado, como a relação entre marido e mulher -em cuja briga, rezava o dito popular, ninguém mete a colher!-, tornou-se matéria legítima de discussão pública com base no desvelamento progressivo de casos de violência doméstica.
Entretanto, a adoção de uma concepção dinâmica de esfera pública, permeável a toda sorte de argumentos e tópicos que permitam o exercício pleno da autonomia dos indivíduos e favoreçam uma saudável diversidade de crenças e opiniões, não implica ausência de critérios fundamentais de convivência democrática.
Entre tais critérios avulta a proteção da esfera íntima, que, por boas razões normativas, deve ser resguardada da invasão alheia.
Evidentemente, a cada um é dada a liberdade de manifestar-se publicamente, se assim o desejar, sobre seu modo particular de vida, mas ninguém pode ser obrigado, contra sua própria vontade, a tornar pública uma identidade cuja constituição não abale o princípio da igualdade cívica.
O tema da orientação sexual é, neste aspecto, particularmente eloqüente.Com efeito, quem ousaria dizer que se trata de matéria não-pública diante de tanto sofrimento impingido a indivíduos e grupos no seio de sociedades dominadas por padrões de conduta tidos como modelares?
Por outro lado, e sem intento polêmico, o que impediria uma objeção naturalista a determinados comportamentos, fundada em raciocínio ainda sujeito ao desacordo razoável?
Se o que deve predominar na esfera pública são razões publicamente acessíveis a todos os cidadãos, não parece haver justificativa aceitável para o silenciamento de opiniões discordantes em face de questões que dividem os espíritos. Porém, pelas mesmas razões, o respeito pela integridade moral do outro é exigível de todos à luz de um dever recíproco de civilidade, constitutivo de uma sociedade democrática pluralista.
Há uma fronteira razoavelmente delimitável entre discordância e intolerância. Não estar de acordo com o que se julga ser uma conduta errônea de vida -e ter o direito de manifestar publicamente tal desacordo- não é a mesma coisa que disseminar preconceito e semear ódio ou aversão à pessoa do outro. E pouco importa, no que tange à intimidade da vida privada, se se trata do cidadão ordinário ou da pessoa pública. A esta última impõem-se, é claro, obrigações específicas decorrentes de uma função institucional que porventura exerça, não podendo alegar intromissão indevida no âmbito privado quando se trata, por exemplo, de prestar contas sobre sua situação financeira antes e depois do efetivo exercício da função.
Mas a vida privada no seu conjunto? Todo e qualquer aspecto de seu ser no mundo? Não. O jogo político não é reino do vale-tudo e nem tudo o que é sórdido se desmancha no ar.
LUIZ BERNARDO LEITE ARAUJO, doutor em filosofia pela Universidade de Louvain (Bélgica), é professor de ética e filosofia política da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). É autor de "Religião e Modernidade em Habermas" (Loyola), entre outras obras.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
UMA QUESTÃO controversa da discussão política em sociedades democráticas é a da delimitação de fronteiras entre esfera privada e esfera pública.
À primeira vista, trata-se de distinção trivial, valendo para a segunda esfera apenas aquilo que é genericamente definido como pertencente ao domínio público, que diz respeito ao interesse geral dos cidadãos.
Entretanto, toda tentativa de fixar de uma só vez e para sempre a forma e o conteúdo do discurso político resultou, senão em fracasso, certamente em novas e infindáveis controvérsias.Quais argumentos são aceitáveis do ponto de vista da cidadania democrática? Há temas intratáveis que deveriam ser excluídos da agenda política?
Tais questões suscitam, desde logo, intenso debate entre os membros de uma comunidade política e trazem a lume o caráter complexo da referida diferenciação.
Os defensores de uma visão aberta, inclusiva e irrestrita de temas na esfera política costumam recordar, não sem razão, que as fronteiras entre o público e o privado são fluidas e porosas. O que ontem não contava como argumento a ser ponderado pode subitamente adquirir relevância, o que é atestado no caso recente da introdução de doutrinas religiosas por cidadãos que, sem anular a natureza laica do Estado constitucional, rejeitam o secularismo como ideologia dominante. O que antes era tido como assunto estritamente privado, como a relação entre marido e mulher -em cuja briga, rezava o dito popular, ninguém mete a colher!-, tornou-se matéria legítima de discussão pública com base no desvelamento progressivo de casos de violência doméstica.
Entretanto, a adoção de uma concepção dinâmica de esfera pública, permeável a toda sorte de argumentos e tópicos que permitam o exercício pleno da autonomia dos indivíduos e favoreçam uma saudável diversidade de crenças e opiniões, não implica ausência de critérios fundamentais de convivência democrática.
Entre tais critérios avulta a proteção da esfera íntima, que, por boas razões normativas, deve ser resguardada da invasão alheia.
Evidentemente, a cada um é dada a liberdade de manifestar-se publicamente, se assim o desejar, sobre seu modo particular de vida, mas ninguém pode ser obrigado, contra sua própria vontade, a tornar pública uma identidade cuja constituição não abale o princípio da igualdade cívica.
O tema da orientação sexual é, neste aspecto, particularmente eloqüente.Com efeito, quem ousaria dizer que se trata de matéria não-pública diante de tanto sofrimento impingido a indivíduos e grupos no seio de sociedades dominadas por padrões de conduta tidos como modelares?
Por outro lado, e sem intento polêmico, o que impediria uma objeção naturalista a determinados comportamentos, fundada em raciocínio ainda sujeito ao desacordo razoável?
Se o que deve predominar na esfera pública são razões publicamente acessíveis a todos os cidadãos, não parece haver justificativa aceitável para o silenciamento de opiniões discordantes em face de questões que dividem os espíritos. Porém, pelas mesmas razões, o respeito pela integridade moral do outro é exigível de todos à luz de um dever recíproco de civilidade, constitutivo de uma sociedade democrática pluralista.
Há uma fronteira razoavelmente delimitável entre discordância e intolerância. Não estar de acordo com o que se julga ser uma conduta errônea de vida -e ter o direito de manifestar publicamente tal desacordo- não é a mesma coisa que disseminar preconceito e semear ódio ou aversão à pessoa do outro. E pouco importa, no que tange à intimidade da vida privada, se se trata do cidadão ordinário ou da pessoa pública. A esta última impõem-se, é claro, obrigações específicas decorrentes de uma função institucional que porventura exerça, não podendo alegar intromissão indevida no âmbito privado quando se trata, por exemplo, de prestar contas sobre sua situação financeira antes e depois do efetivo exercício da função.
Mas a vida privada no seu conjunto? Todo e qualquer aspecto de seu ser no mundo? Não. O jogo político não é reino do vale-tudo e nem tudo o que é sórdido se desmancha no ar.
LUIZ BERNARDO LEITE ARAUJO, doutor em filosofia pela Universidade de Louvain (Bélgica), é professor de ética e filosofia política da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). É autor de "Religião e Modernidade em Habermas" (Loyola), entre outras obras.
Vamos usar o dinheiro público contra a crise

Paul Krugman
The New York Times
DEU NO JORNAL DO BRASIL
O índice Dow Jones está subindo! Está caindo! Está subindo! Não, está ... Não importa. O mercado de ações maníaco depressivo domina as manchetes, mas a notícia importante diz respeito à economia real. Está claro que socorrer os bancos é só o começo: outros setores também precisam desesperadamente de ajuda.
Para dar essa ajuda, vamos ter de deixar preconceitos de lado. Está na moda esbravejar contra os gastos governamentais. Mas agora, mais gastos governamentais são exatamente o que o médico prescreveu, e preocupações sobre o déficit orçamentário devem ser esquecidas.
Só essa semana, as vendas no varejo e a produção industrial despencaram. A taxa de desemprego está em níveis de recessão, e o índice de manufatura medido pelo Banco Central da Filadélfia cai ao ritmo mais rápido em quase 20 anos. Tudo para uma terrível e longa depressão.
Quão terrível? A taxa de desemprego está acima de 6% (as de subemprego chegam a dois dígitos). A taxa de desemprego vai além de 7%, e talvez ultrapasse 8%, fazendo desta a pior recessão em um quarto de século. E quanto tempo? Pode, na verdade, durar muito tempo.
Pense no que houve na última recessão, que se seguiu ao estouro da bolha de tecnologia nos anos 90. A resposta política parece uma história de sucesso. Apesar de ter havido temores de que os EUA vivenciassem uma década perdida, isso não aconteceu: o Federal Reserve (Fed) foi capaz de arquitetar uma recuperação baixando os juros.
O Fed demorou a se mexer. Apesar das reduções de juros, que, eventualmente, baixaram a taxa do Fed para apenas 1%, o desemprego continuou crescendo; levou mais de dois anos para o número de empregos começar a subir. E quando uma recuperação veio, foi só porque Alan Greenspan substituiu a bolha tecnológica pela imobiliária.
A bolha imobiliária estourou, e deixou o sistema em ruínas. Mesmo que as iniciativas para socorrer os bancos e descongelar os créditos funcionem – ainda é cedo, os resultados iniciais foram decepcionantes – é difícil dizer se o setor imobiliário vai se reerguer em breve. E não está claro se existe outra bolha esperando para encher. O Fed vai achar ainda mais difícil tomar uma atitude dessa vez.
Em outras palavras, Ben Bernanke não tem muito que fazer. Deve reduzir mais as taxas de juros – mas ninguém espera que isso gere mais do que um leve estímulo. Por outro lado, o governo pode fazer muito. Pode oferecer benefícios aos desempregados, e ajudar as famílias a enfrentarem os problemas e colocar dinheiro nas mãos de pessoas predispostas a gastá-lo. Pode ajudar governos locais e estaduais, para que não cortem gastos que degradam os serviços públicos e destroem empregos. Pode comprar hipotecas (mas não com valor nominal, como McCain propôs) e reestruturar contratos para ajudar famílias a ficarem nas casas.
É uma boa hora para gastar com infra-estrutura, da qual o país precisa. O argumento contra serviços públicos como estímulo econômico é que eles demoram muito: quando consertar a ponte, a recessão acabou. Mas as chances de a depressão acabar logo são nulas. Vamos pôr esses projetos para funcionar.
O próximo governo fará o que é necessário? Se McCain vencer, não. Precisamos de gastos – mas quando perguntaram a ele como ia lidar com a crise, respondeu: Bem, a primeira coisa a fazer é controlar os gastos.
Se Obama vencer, não se oporá aos gastos. Mas enfrentará um coro dizendo que são inaceitáveis os déficits que o governo terá se fizer a coisa certa. Ele deve ignorar. A coisa responsável, no momento, é ajudar a economia. Não é hora de se preocupar com o déficit.
The New York Times
DEU NO JORNAL DO BRASIL
O índice Dow Jones está subindo! Está caindo! Está subindo! Não, está ... Não importa. O mercado de ações maníaco depressivo domina as manchetes, mas a notícia importante diz respeito à economia real. Está claro que socorrer os bancos é só o começo: outros setores também precisam desesperadamente de ajuda.
Para dar essa ajuda, vamos ter de deixar preconceitos de lado. Está na moda esbravejar contra os gastos governamentais. Mas agora, mais gastos governamentais são exatamente o que o médico prescreveu, e preocupações sobre o déficit orçamentário devem ser esquecidas.
Só essa semana, as vendas no varejo e a produção industrial despencaram. A taxa de desemprego está em níveis de recessão, e o índice de manufatura medido pelo Banco Central da Filadélfia cai ao ritmo mais rápido em quase 20 anos. Tudo para uma terrível e longa depressão.
Quão terrível? A taxa de desemprego está acima de 6% (as de subemprego chegam a dois dígitos). A taxa de desemprego vai além de 7%, e talvez ultrapasse 8%, fazendo desta a pior recessão em um quarto de século. E quanto tempo? Pode, na verdade, durar muito tempo.
Pense no que houve na última recessão, que se seguiu ao estouro da bolha de tecnologia nos anos 90. A resposta política parece uma história de sucesso. Apesar de ter havido temores de que os EUA vivenciassem uma década perdida, isso não aconteceu: o Federal Reserve (Fed) foi capaz de arquitetar uma recuperação baixando os juros.
O Fed demorou a se mexer. Apesar das reduções de juros, que, eventualmente, baixaram a taxa do Fed para apenas 1%, o desemprego continuou crescendo; levou mais de dois anos para o número de empregos começar a subir. E quando uma recuperação veio, foi só porque Alan Greenspan substituiu a bolha tecnológica pela imobiliária.
A bolha imobiliária estourou, e deixou o sistema em ruínas. Mesmo que as iniciativas para socorrer os bancos e descongelar os créditos funcionem – ainda é cedo, os resultados iniciais foram decepcionantes – é difícil dizer se o setor imobiliário vai se reerguer em breve. E não está claro se existe outra bolha esperando para encher. O Fed vai achar ainda mais difícil tomar uma atitude dessa vez.
Em outras palavras, Ben Bernanke não tem muito que fazer. Deve reduzir mais as taxas de juros – mas ninguém espera que isso gere mais do que um leve estímulo. Por outro lado, o governo pode fazer muito. Pode oferecer benefícios aos desempregados, e ajudar as famílias a enfrentarem os problemas e colocar dinheiro nas mãos de pessoas predispostas a gastá-lo. Pode ajudar governos locais e estaduais, para que não cortem gastos que degradam os serviços públicos e destroem empregos. Pode comprar hipotecas (mas não com valor nominal, como McCain propôs) e reestruturar contratos para ajudar famílias a ficarem nas casas.
É uma boa hora para gastar com infra-estrutura, da qual o país precisa. O argumento contra serviços públicos como estímulo econômico é que eles demoram muito: quando consertar a ponte, a recessão acabou. Mas as chances de a depressão acabar logo são nulas. Vamos pôr esses projetos para funcionar.
O próximo governo fará o que é necessário? Se McCain vencer, não. Precisamos de gastos – mas quando perguntaram a ele como ia lidar com a crise, respondeu: Bem, a primeira coisa a fazer é controlar os gastos.
Se Obama vencer, não se oporá aos gastos. Mas enfrentará um coro dizendo que são inaceitáveis os déficits que o governo terá se fizer a coisa certa. Ele deve ignorar. A coisa responsável, no momento, é ajudar a economia. Não é hora de se preocupar com o déficit.
O fim da hegemonia

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO
NOVA YORK. A crise financeira internacional, desencadeada pela bolha hipotecária do mercado imobiliário dos Estados Unidos que revelou uma insuspeitada fraqueza do sistema bancário internacional, tem conseqüências não apenas econômicas, mas, sobretudo, políticas. O fim da hegemonia dos Estados Unidos, já previsto antes mesmo da explicitação dessa crise, começa a gerar especulações sobre a decadência do império americano e a transição de poder mundial, tanto político quanto financeiro. Embora seja cada vez mais claro que o mundo multipolar é uma realidade com a qual o futuro governo americano, a ser eleito em 4 de novembro, terá que lidar, e que a administração dessa crise financeira trará dificuldades novas para o futuro dos Estados Unidos, não há indicações suficientes de que o predomínio americano no século tenha terminado.
O historiador Niall Ferguson, da Universidade de Harvard, que prepara para o mês que vem o lançamento de seu livro "The ascent of Money: a Financial History of the World" ("A ascensão do dinheiro: uma história financeira do mundo"), fez em seu blog uma análise das conseqüências geopolíticas da crise e concluiu que se deve hesitar sempre ao decretar o declínio e queda dos Estados Unidos:
"A América já passou antes por crises financeiras desastrosas - não apenas a Grande Depressão, mas também a Grande Estagflação dos anos 1970 - e emergiu com sua posição geopolítica fortalecida. Essas crises, por piores que tenham sido em casa, sempre tiveram os piores efeitos nos rivais da América".
Ele lembra que até o momento os piores resultados de mercados de ações têm sido da China e da Rússia, "números que não são boas propagandas para os modelos de economia mais controlados pelo governo adotados por Pequim e Moscou". Mas Ferguson admite que os Estados Unidos crescerão menos a partir de agora, e provavelmente a China se tornará a maior economia do mundo antes de 2027, prazo previsto pela Goldman Sachs em seu estudo sobre as economias emergentes dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China).
O historiador prevê também que, a exemplo do que aconteceu com a libra inglesa, o dólar poderá perder a propriedade de ser a única moeda de referência mundial. Também o sociólogo e historiador brasileiro Hélio Jaguaribe acha que "a emergência, da China como grande potência já está definida e se realizará com celeridade, na segunda década deste século, já deverá transcorrer sendo a China uma segunda potência mundial. O totalitarismo chinês já se converteu num autoritarismo multidimensional, com crescente importância do papel do mercado. Na medida em que o autoritarismo chinês mantenha suas características ilustradas, o regime tenderá a persistir exitosamente por mais algum tempo".
Jaguaribe considera "discutível, entretanto, que as características ilustradas desse autoritarismo sejam preservadas por longo prazo. Ou a China retorna ao regime multidimensional ou será paralisada pelo burocratismo".
Mas, no que se refere às mudanças relativas à presente supremacia americana, ele não crê que possam ser vislumbradas a curto prazo. "Isso não obstante, o mundo caminha para uma nova bipolaridade, marcada pela crescente importância da China".
O economista brasileiro Paulo Vieira da Cunha, ex-diretor do Banco Central atuando no mercado financeiro de Nova York, acha que o grande desafio dos Estados Unidos será montar uma arquitetura financeira para manter de uma forma crível "uma política monetária muito frouxa no curto prazo, usando inclusive a vantagem de que no momento de crise o dólar e os ativos americanos ainda continuam a se valer daquele "privilégio exorbitante" de que falava De Gaulle, e a longo prazo continuar atraindo o interesse dos investimentos".
Ao contrário do que aconteceu na década de 1950, Vieira da Cunha acha que no momento em que passar a fase aguda da crise, os investidores "provavelmente vão querer cobrar uma taxa de risco do próprio Tesouro americano". No momento em que o pânico acaba, e que em outros lugares do mundo você começam a ter atrativos, "qual vai ser a vantagem de ficar recebendo uma taxa de juros baixíssima nos Estados Unidos quando você está vendo o problema da dívida crescente?", pergunta ele.
A dívida externa americana, que chegou a US$10 trilhões mês passado, correspondendo a 80% do PIB, provavelmente chegará a 100% nessa crise financeira, com as medidas já anunciadas e a necessidade de dar liquidez ao mercado financeiro. Para o economista brasileiro, embora isso não seja inconcebível para uma economia com o dinamismo da americana, "o problema é como administrar essa situação com taxa compatível com o equilíbrio fiscal".
No momento, analisa ele, "todos focados nesse problema de curto prazo, porque, se não resolver, você não sobrevive. Num segundo momento, as pessoas vão perguntar como você vai se financiar daqui para frente".
Uma conseqüência imediata é a possibilidade, impensável anos atrás, mas aventada semana passada em Washington, de os títulos do Departamento do Tesouro dos EUA sofrerem uma desvalorização devido ao crescimento do endividamento do governo, com as agências de risco começando a analisar o rebaixamento dos títulos, que hoje são triplo A.
Apenas com essa especulação, mesmo que seja difícil que isso venha a acontecer de fato, aumentarão as exigências do mercado por taxas mais altas de juros. Paulo Vieira da Cunha acha que "a política monetária frouxa do momento, para não deixar a economia desabar, não combina com o que terá que ser feito depois", quando previsivelmente os Estados Unidos terão mais dificuldades para atrair investidores. Nesse contexto, o papel da China será crucial. (Continua amanhã)
DEU EM O GLOBO
NOVA YORK. A crise financeira internacional, desencadeada pela bolha hipotecária do mercado imobiliário dos Estados Unidos que revelou uma insuspeitada fraqueza do sistema bancário internacional, tem conseqüências não apenas econômicas, mas, sobretudo, políticas. O fim da hegemonia dos Estados Unidos, já previsto antes mesmo da explicitação dessa crise, começa a gerar especulações sobre a decadência do império americano e a transição de poder mundial, tanto político quanto financeiro. Embora seja cada vez mais claro que o mundo multipolar é uma realidade com a qual o futuro governo americano, a ser eleito em 4 de novembro, terá que lidar, e que a administração dessa crise financeira trará dificuldades novas para o futuro dos Estados Unidos, não há indicações suficientes de que o predomínio americano no século tenha terminado.
O historiador Niall Ferguson, da Universidade de Harvard, que prepara para o mês que vem o lançamento de seu livro "The ascent of Money: a Financial History of the World" ("A ascensão do dinheiro: uma história financeira do mundo"), fez em seu blog uma análise das conseqüências geopolíticas da crise e concluiu que se deve hesitar sempre ao decretar o declínio e queda dos Estados Unidos:
"A América já passou antes por crises financeiras desastrosas - não apenas a Grande Depressão, mas também a Grande Estagflação dos anos 1970 - e emergiu com sua posição geopolítica fortalecida. Essas crises, por piores que tenham sido em casa, sempre tiveram os piores efeitos nos rivais da América".
Ele lembra que até o momento os piores resultados de mercados de ações têm sido da China e da Rússia, "números que não são boas propagandas para os modelos de economia mais controlados pelo governo adotados por Pequim e Moscou". Mas Ferguson admite que os Estados Unidos crescerão menos a partir de agora, e provavelmente a China se tornará a maior economia do mundo antes de 2027, prazo previsto pela Goldman Sachs em seu estudo sobre as economias emergentes dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China).
O historiador prevê também que, a exemplo do que aconteceu com a libra inglesa, o dólar poderá perder a propriedade de ser a única moeda de referência mundial. Também o sociólogo e historiador brasileiro Hélio Jaguaribe acha que "a emergência, da China como grande potência já está definida e se realizará com celeridade, na segunda década deste século, já deverá transcorrer sendo a China uma segunda potência mundial. O totalitarismo chinês já se converteu num autoritarismo multidimensional, com crescente importância do papel do mercado. Na medida em que o autoritarismo chinês mantenha suas características ilustradas, o regime tenderá a persistir exitosamente por mais algum tempo".
Jaguaribe considera "discutível, entretanto, que as características ilustradas desse autoritarismo sejam preservadas por longo prazo. Ou a China retorna ao regime multidimensional ou será paralisada pelo burocratismo".
Mas, no que se refere às mudanças relativas à presente supremacia americana, ele não crê que possam ser vislumbradas a curto prazo. "Isso não obstante, o mundo caminha para uma nova bipolaridade, marcada pela crescente importância da China".
O economista brasileiro Paulo Vieira da Cunha, ex-diretor do Banco Central atuando no mercado financeiro de Nova York, acha que o grande desafio dos Estados Unidos será montar uma arquitetura financeira para manter de uma forma crível "uma política monetária muito frouxa no curto prazo, usando inclusive a vantagem de que no momento de crise o dólar e os ativos americanos ainda continuam a se valer daquele "privilégio exorbitante" de que falava De Gaulle, e a longo prazo continuar atraindo o interesse dos investimentos".
Ao contrário do que aconteceu na década de 1950, Vieira da Cunha acha que no momento em que passar a fase aguda da crise, os investidores "provavelmente vão querer cobrar uma taxa de risco do próprio Tesouro americano". No momento em que o pânico acaba, e que em outros lugares do mundo você começam a ter atrativos, "qual vai ser a vantagem de ficar recebendo uma taxa de juros baixíssima nos Estados Unidos quando você está vendo o problema da dívida crescente?", pergunta ele.
A dívida externa americana, que chegou a US$10 trilhões mês passado, correspondendo a 80% do PIB, provavelmente chegará a 100% nessa crise financeira, com as medidas já anunciadas e a necessidade de dar liquidez ao mercado financeiro. Para o economista brasileiro, embora isso não seja inconcebível para uma economia com o dinamismo da americana, "o problema é como administrar essa situação com taxa compatível com o equilíbrio fiscal".
No momento, analisa ele, "todos focados nesse problema de curto prazo, porque, se não resolver, você não sobrevive. Num segundo momento, as pessoas vão perguntar como você vai se financiar daqui para frente".
Uma conseqüência imediata é a possibilidade, impensável anos atrás, mas aventada semana passada em Washington, de os títulos do Departamento do Tesouro dos EUA sofrerem uma desvalorização devido ao crescimento do endividamento do governo, com as agências de risco começando a analisar o rebaixamento dos títulos, que hoje são triplo A.
Apenas com essa especulação, mesmo que seja difícil que isso venha a acontecer de fato, aumentarão as exigências do mercado por taxas mais altas de juros. Paulo Vieira da Cunha acha que "a política monetária frouxa do momento, para não deixar a economia desabar, não combina com o que terá que ser feito depois", quando previsivelmente os Estados Unidos terão mais dificuldades para atrair investidores. Nesse contexto, o papel da China será crucial. (Continua amanhã)
O QUE PENSA A MÍDIA
Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1121&portal=
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1121&portal=
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
O MUNDO ESTÁ MUDANDO
Alfredo Reichlin
Outubro 2008
Tradução: A. Veiga Fialho
Fonte: L'Unità & Gramsci e o Brasil.
Michele Salvati reconhece, no Corriere della Sera, que não explodiu só uma bolha especulativa. Aconteceu algo muito grande que marca uma virada. Chegou ao fim da linha um ordenamento econômico. Mudam as relações entre os poderes mundiais. Peço desculpas por não ser economista, mas se deve falar disso. Assistimos a um acontecimento inteiramente novo na história moderna, isto é, ao fato de que uma oligarquia político-financeira quis governar o mundo submetendo a política ao seu poder, entendendo política como soberania do Estado (inclusive a moeda), direitos universais do cidadão, independentemente da sua capacidade de consumo, e entendendo sociedade como histórias, culturas, laços, projetos não redutíveis à troca econômica. Disso é que se tratou. E é bem verdade que o mundo exulta, porque os Estados europeus mostraram a intenção de restituir o comando ao “Soberano”.
Era evidente (pelo menos para as mentes livres) que não podia continuar ao infinito um sistema com base no qual somas imensas de dinheiro (muitas vezes maiores do que a riqueza real produzida) movimentam-se de um lugar para o outro do mundo em tempo real, prescindindo das necessidades reais das pessoas, das relações humanas, dos direitos sociais, dos recursos reais, dos territórios. O fenômeno foi, de fato, grandioso, e certas polêmicas anticapitalistas de “revolucionários” envelhecidos não têm efeito algum. Deste modo, também se favoreceu a abertura de novos mercados e o financiamento de coisas extraordinárias, como a inteligência artificial, os remédios (e, por que não, as armas do século XXI). E tudo isso também possibilitou um salto no desenvolvimento dos países emergentes.
Todavia, graças a este sistema é que o país mais rico do mundo pôde viver de crédito e muito acima dos seus recursos, atraindo, graças ao papel imperial do dólar, 80% da poupança mundial. Ao mesmo tempo (mas não só dentro dos Estados Unidos), desenvolvia-se um enorme jogo especulativo: crédito fácil, endividamento de massa, muito além do rendimento do próprio trabalho, criação de uma economia de consumo, a qual se traduziu num crescente aumento das desigualdades e numa pressão devastadora sobre os bens públicos e os recursos naturais. E, enquanto se oferecia aos trabalhadores e às camadas médias a eterna ilusão de que, endividando-se, podiam se enriquecer ao infinito, com a idéia de que se pode fazer dinheiro com dinheiro, ocorria na realidade uma impressionante redistribuição do poder e das riquezas em favor das oligarquias dominantes.
Um enorme jogo de espelhos, que se quebrou quando — como dizia Keynes — “o desenvolvimento do capital real de um país torna-se o subproduto das atividades de um ‘cassino’”. Salvati não usa estas palavras. Mas me pareceu significativo sua referência ao livro de Robert Reich ferozmente polêmico com este sistema. Bem. Mas, se é assim, não pode deixar de se colocar um problema muito grande — político, mas também intelectual e moral. E não só para quem escreve. Parece-me evidente que começar a pensar num modelo diverso para a gestão da economia mundial é uma tarefa (mas também um dever ético-político) não mais adiável. Além do mais, os governos europeus puseram na mesa algo como dois ou três trilhões de dólares (tirados, evidentemente, do bolso das pessoas, inclusive de aposentados e operários). Muito bem. Pode-se pelo menos começar a pensar num futuro diferente?
Salvati não evita este problema. Não nega que seria necessária uma alternativa e reconhece que os modelos capitalistas podem ser diferentes entre si, até mesmo profundamente: o modelo keynesiano, isto é, o compromisso entre o capitalismo e a democracia era inteiramente diferente da virada ultraliberista dos anos 1970. O problema que ele levanta é outro, e é o verdadeiro problema que desafia hoje a esquerda e justifica sua inércia. Faltam — diz — as condições. E as condições de que fala não são tanto as objetivas (a profundidade da crise, a insustentabilidade do modelo atual) quanto as “grandes reorientações ideológicas, culturais, teóricas e, por fim, reorientações políticas igualmente profundas”, que permitiram aquelas duas grandes transformações (o keynesianismo entre os anos 1930 e 1940) e o neoliberismo dos anos 1970.
Tenho muito respeito por Salvati, um velho amigo que sempre escuto com atenção. Mas não resisto à necessidade (até moral) de lembrar, a propósito de condições culturais, o que foi nestes anos a verdadeira destruição do pensamento político da esquerda e de qualquer visão autônoma da esquerda em relação ao pensamento único da oligarquia financeira. Uma repetição cotidiana nunca vista antes contra os salários (sempre altos demais), os sindicatos (inúteis), a privatização das aposentadorias como condição para o desenvolvimento (é o que vão perceber os aposentados americanos ligados aos títulos de Wall Street). Para não falar das empresas que valem só pelo valor das ações e não por aquilo que produzem. E a escala dos valores dominantes: a reverência até ridícula diante da riqueza e da genialidade dos banqueiros, estes novos heróis do nosso tempo.
Talvez fale em mim um velho comunista, que deveria ficar calado. Então que falem os liberais. Expliquem-nos aonde vai terminar não a “classe”, mas a liberdade da pessoa, se a sociedade for reduzida a sociedade de mercado, se os homens forem postos em relação entre si sem tomar como referência sua substância humana, mas sim suas “máscaras”, sob as quais não existem criatividade nem projeto de vida, só indivíduos que se medem com uma só medida: a capacidade de consumo, o dinheiro.
Por que Salvati chama este sistema de “liberal”? Lamento, não estou de acordo. E não porque não compreenda a necessidade de uma revolução cultural ou subestime a fraqueza da esquerda, que também paga pela ilusão de delimitar para si um espaço (uma “terceira via”?) no “cassino” destes anos. Não havia as condições: foi o que nos disseram. É muito triste ouvir isso de novo. Por certo, eu também, como Salvati, não vejo por aí um novo Keynes e não creio que Obama tenha a estatura de Roosevelt. Mas recuso a idéia da política que existe neste modo de pensar. É exatamente isso que nos levou não ao risco de perder (pode-se sempre perder e depois voltar a vencer), mas de sermos irrelevantes. Condições são criadas. É o que não se compreendeu e se continua sem compreender: mais do que a riqueza, conta a inteligência das pessoas. As condições não existirão nunca, se a política não voltar a ser, antes de mais nada, conhecimento, descoberta da realidade, liberdade de pensamento, idéias fortes e, portanto, novas energias recolocadas em movimento. A história destes anos deveria ensinar algo.
Homens como Salvati têm a inteligência e o nível para contribuir para criar estas famosas condições, pelo menos culturais. E muitos, muitos deles não o fizeram nestes anos. No entanto, não era preciso nenhuma cigana para adivinhar que este gigantesco jogo de dívidas era insustentável. Por isso, não gosto quando, agora, são os mesmos a nos dizer que a crise é grave, acrescentando, porém, que não existem as condições para mudar. Também sei que não será fácil mudar. Mas ponho uma condição: poder dizer às pessoas que existe uma grande e nobre razão pela qual construímos um novo partido. E esta consiste na convicção de que chegou o momento de lutar por um mundo mais justo, no qual uma nova esquerda européia seja protagonista.
Alfredo Reichlin foi membro da secretaria, da direção e do comitê central do PCI, além de responsável pelo Departamento Econômico e ministro do “governo sombra” daquele partido. Foi também presidente da Direção Nacional dos DS (Democratas de Esquerda). Recentemente, esteve à frente da comissão responsável pela redação da “Carta de valores” do PD (Partido Democrático). Dirige a Fondazione Cespe — Centro Studi di Politica Economica, em Roma.
Outubro 2008
Tradução: A. Veiga Fialho
Fonte: L'Unità & Gramsci e o Brasil.
Michele Salvati reconhece, no Corriere della Sera, que não explodiu só uma bolha especulativa. Aconteceu algo muito grande que marca uma virada. Chegou ao fim da linha um ordenamento econômico. Mudam as relações entre os poderes mundiais. Peço desculpas por não ser economista, mas se deve falar disso. Assistimos a um acontecimento inteiramente novo na história moderna, isto é, ao fato de que uma oligarquia político-financeira quis governar o mundo submetendo a política ao seu poder, entendendo política como soberania do Estado (inclusive a moeda), direitos universais do cidadão, independentemente da sua capacidade de consumo, e entendendo sociedade como histórias, culturas, laços, projetos não redutíveis à troca econômica. Disso é que se tratou. E é bem verdade que o mundo exulta, porque os Estados europeus mostraram a intenção de restituir o comando ao “Soberano”.
Era evidente (pelo menos para as mentes livres) que não podia continuar ao infinito um sistema com base no qual somas imensas de dinheiro (muitas vezes maiores do que a riqueza real produzida) movimentam-se de um lugar para o outro do mundo em tempo real, prescindindo das necessidades reais das pessoas, das relações humanas, dos direitos sociais, dos recursos reais, dos territórios. O fenômeno foi, de fato, grandioso, e certas polêmicas anticapitalistas de “revolucionários” envelhecidos não têm efeito algum. Deste modo, também se favoreceu a abertura de novos mercados e o financiamento de coisas extraordinárias, como a inteligência artificial, os remédios (e, por que não, as armas do século XXI). E tudo isso também possibilitou um salto no desenvolvimento dos países emergentes.
Todavia, graças a este sistema é que o país mais rico do mundo pôde viver de crédito e muito acima dos seus recursos, atraindo, graças ao papel imperial do dólar, 80% da poupança mundial. Ao mesmo tempo (mas não só dentro dos Estados Unidos), desenvolvia-se um enorme jogo especulativo: crédito fácil, endividamento de massa, muito além do rendimento do próprio trabalho, criação de uma economia de consumo, a qual se traduziu num crescente aumento das desigualdades e numa pressão devastadora sobre os bens públicos e os recursos naturais. E, enquanto se oferecia aos trabalhadores e às camadas médias a eterna ilusão de que, endividando-se, podiam se enriquecer ao infinito, com a idéia de que se pode fazer dinheiro com dinheiro, ocorria na realidade uma impressionante redistribuição do poder e das riquezas em favor das oligarquias dominantes.
Um enorme jogo de espelhos, que se quebrou quando — como dizia Keynes — “o desenvolvimento do capital real de um país torna-se o subproduto das atividades de um ‘cassino’”. Salvati não usa estas palavras. Mas me pareceu significativo sua referência ao livro de Robert Reich ferozmente polêmico com este sistema. Bem. Mas, se é assim, não pode deixar de se colocar um problema muito grande — político, mas também intelectual e moral. E não só para quem escreve. Parece-me evidente que começar a pensar num modelo diverso para a gestão da economia mundial é uma tarefa (mas também um dever ético-político) não mais adiável. Além do mais, os governos europeus puseram na mesa algo como dois ou três trilhões de dólares (tirados, evidentemente, do bolso das pessoas, inclusive de aposentados e operários). Muito bem. Pode-se pelo menos começar a pensar num futuro diferente?
Salvati não evita este problema. Não nega que seria necessária uma alternativa e reconhece que os modelos capitalistas podem ser diferentes entre si, até mesmo profundamente: o modelo keynesiano, isto é, o compromisso entre o capitalismo e a democracia era inteiramente diferente da virada ultraliberista dos anos 1970. O problema que ele levanta é outro, e é o verdadeiro problema que desafia hoje a esquerda e justifica sua inércia. Faltam — diz — as condições. E as condições de que fala não são tanto as objetivas (a profundidade da crise, a insustentabilidade do modelo atual) quanto as “grandes reorientações ideológicas, culturais, teóricas e, por fim, reorientações políticas igualmente profundas”, que permitiram aquelas duas grandes transformações (o keynesianismo entre os anos 1930 e 1940) e o neoliberismo dos anos 1970.
Tenho muito respeito por Salvati, um velho amigo que sempre escuto com atenção. Mas não resisto à necessidade (até moral) de lembrar, a propósito de condições culturais, o que foi nestes anos a verdadeira destruição do pensamento político da esquerda e de qualquer visão autônoma da esquerda em relação ao pensamento único da oligarquia financeira. Uma repetição cotidiana nunca vista antes contra os salários (sempre altos demais), os sindicatos (inúteis), a privatização das aposentadorias como condição para o desenvolvimento (é o que vão perceber os aposentados americanos ligados aos títulos de Wall Street). Para não falar das empresas que valem só pelo valor das ações e não por aquilo que produzem. E a escala dos valores dominantes: a reverência até ridícula diante da riqueza e da genialidade dos banqueiros, estes novos heróis do nosso tempo.
Talvez fale em mim um velho comunista, que deveria ficar calado. Então que falem os liberais. Expliquem-nos aonde vai terminar não a “classe”, mas a liberdade da pessoa, se a sociedade for reduzida a sociedade de mercado, se os homens forem postos em relação entre si sem tomar como referência sua substância humana, mas sim suas “máscaras”, sob as quais não existem criatividade nem projeto de vida, só indivíduos que se medem com uma só medida: a capacidade de consumo, o dinheiro.
Por que Salvati chama este sistema de “liberal”? Lamento, não estou de acordo. E não porque não compreenda a necessidade de uma revolução cultural ou subestime a fraqueza da esquerda, que também paga pela ilusão de delimitar para si um espaço (uma “terceira via”?) no “cassino” destes anos. Não havia as condições: foi o que nos disseram. É muito triste ouvir isso de novo. Por certo, eu também, como Salvati, não vejo por aí um novo Keynes e não creio que Obama tenha a estatura de Roosevelt. Mas recuso a idéia da política que existe neste modo de pensar. É exatamente isso que nos levou não ao risco de perder (pode-se sempre perder e depois voltar a vencer), mas de sermos irrelevantes. Condições são criadas. É o que não se compreendeu e se continua sem compreender: mais do que a riqueza, conta a inteligência das pessoas. As condições não existirão nunca, se a política não voltar a ser, antes de mais nada, conhecimento, descoberta da realidade, liberdade de pensamento, idéias fortes e, portanto, novas energias recolocadas em movimento. A história destes anos deveria ensinar algo.
Homens como Salvati têm a inteligência e o nível para contribuir para criar estas famosas condições, pelo menos culturais. E muitos, muitos deles não o fizeram nestes anos. No entanto, não era preciso nenhuma cigana para adivinhar que este gigantesco jogo de dívidas era insustentável. Por isso, não gosto quando, agora, são os mesmos a nos dizer que a crise é grave, acrescentando, porém, que não existem as condições para mudar. Também sei que não será fácil mudar. Mas ponho uma condição: poder dizer às pessoas que existe uma grande e nobre razão pela qual construímos um novo partido. E esta consiste na convicção de que chegou o momento de lutar por um mundo mais justo, no qual uma nova esquerda européia seja protagonista.
Alfredo Reichlin foi membro da secretaria, da direção e do comitê central do PCI, além de responsável pelo Departamento Econômico e ministro do “governo sombra” daquele partido. Foi também presidente da Direção Nacional dos DS (Democratas de Esquerda). Recentemente, esteve à frente da comissão responsável pela redação da “Carta de valores” do PD (Partido Democrático). Dirige a Fondazione Cespe — Centro Studi di Politica Economica, em Roma.
Gabeira: "Eu não escondo os meus apoios, apenas não proíbo ninguém de me apoiar", .

Da Folha Online:
“Os adversários usam tão mal seu dinheiro que acabam ajudando a fortalecer nossa campanha. Os panfletos apócrifos só servem para nos fortalecer”, apontou Gabeira.
Gabeira recebe o apoio de policiais civis
Do Globo Online:
O candidato à prefeitura do Rio Fernando Gabeira (PV/PSDB/PPS) ganhou na noite desta quinta-feira o apoio do Sindicato de Policias Civis do Rio (Sindpol), no Bar Luiz, no Centro. Na presença de pelo menos 70 pessoas, entre delegados, inspetores e outros funcionários administrativos da polícia, Gabeira prometeu trabalhar em parceria com as forças de segurança. Os policiais civis disseram, inclusive, estar ajudando a Justiça Eleitoral com informações sobre crimes eleitorais praticados contra a candidatura de Gabeira.
- Nós, como policiais, somos agentes garantidores. Na presença de uma infração penal somos obrigados a agir. Nesse caso, existe uma colaboração do pessoal que está apoiando a campanha para que consigamos identificar as gráficas clandestinas, quem está fazendo crime eleitoral e, se flagrados, serão presos - afirmou um dos diretores do Sindpol, Francisco Chao.
Passos apressados

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
O presente ainda está em aberto, mas as forças políticas que deverão disputar a Presidência da República daqui a dois anos já atuam sob a lógica do futuro.
Como se tudo estivesse perfeitamente definido e não faltasse ainda resolver o principal: as eleições nas três principais capitais dos Estados que reúnem quase a metade dos 130 milhões de eleitores brasileiros.
A oposição dá de barato que o presidente Luiz Inácio da Silva foi derrotado em São Paulo, no Rio e Minas Gerais, e se enche de repentina coragem para confrontar-lhe a popularidade com críticas diretas e ironias abertas sobre a certeza exagerada de Lula no tocante à transferência de votos.
O governo de seu lado, representado pelo PT, age como quem entrega os pontos e já abre a discussão sobre os rumos da campanha de 2010, na evidente tentativa de reduzir os efeitos do entusiasmo oposicionista.
Ato contínuo à divulgação dos resultados do primeiro turno, adversários internos da candidatura de Dilma Rousseff, como o ministro da Justiça, Tarso Genro, saíram defendendo o nome da ministra para presidente e, logo depois, o PT marcou uma reunião do Diretório Nacional para avaliar os erros cometidos em 2008 na perspectiva de corrigi-los para 2010.
Tudo isso é certeza de que a oposição está mais forte e o governo mais fraco para o embate presidencial? Pode não ser, mas parece que é.
Se for, revelam-se ambos os contendores precipitados e, sobretudo, maus alunos da recente lição do primeiro turno na forma das surpresas produzidas pelo eleitorado: em matéria de resultado de urnas, convém confiar desconfiando e nunca, jamais, em tempo algum, pôr os carros na frente dos bois.
Descontado o empate no Rio, o cenário de fato parece definido em São Paulo e Belo Horizonte. É difícil mudar o quadro da derrota do PT com Marta Suplicy e do fracasso da aliança mineira avalizada por Lula? Dificílimo, porém, não impossível.
Nas duas capitais, enquanto se reduziu a diferença entre os oponentes, aumentou o tamanho do salto dos sapatos dos que estão com a sensação da vitória assegurada. Um campo fértil, como se viu no último dia 5, para tropeços.
Faltam apenas dez dias. Não custa lembrar, contudo, que Gilberto Kassab passou Marta na hora do voto, Leonardo Quintão atropelou Márcio Lacerda em ínfimos cinco dias e Fernando Gabeira entrou na competição na última semana. Isto faz da viravolta uma questão automática? Não, mas significa que o jogo só acaba quando termina.
Aécio rebate
O governador de Minas, Aécio Neves, discorda em gênero, número e grau da análise feita aqui a respeito da derrota nessa eleição de teses políticas “fantasiosas”, entre as quais foi incluída sua proposta de aproximação entre PT e PSDB.
Aécio refuta termos do artigo considerados “injustos” - em particular a expressão “truque engendrado” usada, no entendimento dele, para definir a idéia da aliança. Aproveita para reiterar sua fé em “vitórias políticas” construídas não necessariamente a partir de “vitórias eleitorais” e solicita obséquio para reapresentar sua tese.
“Desde que assumi o governo de Minas venho defendendo a crença de que devemos trabalhar pela criação de uma convergência, mais ampla, de centro-esquerda, capaz de garantir as condições para a realização das reformas que o País aguarda há tanto tempo.
“Acredito, sim, que existem identidades entre setores do PSDB e do PT que, se explicitadas, podem contribuir para a criação de um novo ambiente político. Acredito que precisamos romper com um maniqueísmo mesquinho que domina a cena política atual, no qual um partido se opõe necessariamente ao outro pautado, muitas vezes, apenas por uma lógica de alternância de poder.
“Nunca pretendi, como você disse, a ‘convergência total’, até porque isso seria tão artificial quanto autoritário. Nunca defendi a anulação das divergências políticas do debate nem a fusão dos partidos.
“Nunca carimbei o embate político como ‘algo pejorativo’ nem propus a busca pelo ‘consenso permanente’. Defendo que as diferenças políticas e partidárias permaneçam claras. Mas defendo também que sejamos capazes, em nome do País, de identificar e aprofundar nossas semelhanças ao invés de apostar apenas em aprofundar as nossas diferenças.
“A candidatura de Márcio Lacerda em BH encarna esse sentimento que não é só meu e não se manifesta apenas em Minas.
“Independente do resultado eleitoral em questão, continuarei, nos próximos anos, como vinha fazendo nos últimos, externando a minha crença: precisamos criar uma convergência mais ampla que, mantendo as identidades e as reais diferenças entre os partidos, reúna os setores mais progressistas da sociedade e nos permita criar condições políticas para o Brasil avançar com mais agilidade nas reformas de que tanto precisa.”
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
O presente ainda está em aberto, mas as forças políticas que deverão disputar a Presidência da República daqui a dois anos já atuam sob a lógica do futuro.
Como se tudo estivesse perfeitamente definido e não faltasse ainda resolver o principal: as eleições nas três principais capitais dos Estados que reúnem quase a metade dos 130 milhões de eleitores brasileiros.
A oposição dá de barato que o presidente Luiz Inácio da Silva foi derrotado em São Paulo, no Rio e Minas Gerais, e se enche de repentina coragem para confrontar-lhe a popularidade com críticas diretas e ironias abertas sobre a certeza exagerada de Lula no tocante à transferência de votos.
O governo de seu lado, representado pelo PT, age como quem entrega os pontos e já abre a discussão sobre os rumos da campanha de 2010, na evidente tentativa de reduzir os efeitos do entusiasmo oposicionista.
Ato contínuo à divulgação dos resultados do primeiro turno, adversários internos da candidatura de Dilma Rousseff, como o ministro da Justiça, Tarso Genro, saíram defendendo o nome da ministra para presidente e, logo depois, o PT marcou uma reunião do Diretório Nacional para avaliar os erros cometidos em 2008 na perspectiva de corrigi-los para 2010.
Tudo isso é certeza de que a oposição está mais forte e o governo mais fraco para o embate presidencial? Pode não ser, mas parece que é.
Se for, revelam-se ambos os contendores precipitados e, sobretudo, maus alunos da recente lição do primeiro turno na forma das surpresas produzidas pelo eleitorado: em matéria de resultado de urnas, convém confiar desconfiando e nunca, jamais, em tempo algum, pôr os carros na frente dos bois.
Descontado o empate no Rio, o cenário de fato parece definido em São Paulo e Belo Horizonte. É difícil mudar o quadro da derrota do PT com Marta Suplicy e do fracasso da aliança mineira avalizada por Lula? Dificílimo, porém, não impossível.
Nas duas capitais, enquanto se reduziu a diferença entre os oponentes, aumentou o tamanho do salto dos sapatos dos que estão com a sensação da vitória assegurada. Um campo fértil, como se viu no último dia 5, para tropeços.
Faltam apenas dez dias. Não custa lembrar, contudo, que Gilberto Kassab passou Marta na hora do voto, Leonardo Quintão atropelou Márcio Lacerda em ínfimos cinco dias e Fernando Gabeira entrou na competição na última semana. Isto faz da viravolta uma questão automática? Não, mas significa que o jogo só acaba quando termina.
Aécio rebate
O governador de Minas, Aécio Neves, discorda em gênero, número e grau da análise feita aqui a respeito da derrota nessa eleição de teses políticas “fantasiosas”, entre as quais foi incluída sua proposta de aproximação entre PT e PSDB.
Aécio refuta termos do artigo considerados “injustos” - em particular a expressão “truque engendrado” usada, no entendimento dele, para definir a idéia da aliança. Aproveita para reiterar sua fé em “vitórias políticas” construídas não necessariamente a partir de “vitórias eleitorais” e solicita obséquio para reapresentar sua tese.
“Desde que assumi o governo de Minas venho defendendo a crença de que devemos trabalhar pela criação de uma convergência, mais ampla, de centro-esquerda, capaz de garantir as condições para a realização das reformas que o País aguarda há tanto tempo.
“Acredito, sim, que existem identidades entre setores do PSDB e do PT que, se explicitadas, podem contribuir para a criação de um novo ambiente político. Acredito que precisamos romper com um maniqueísmo mesquinho que domina a cena política atual, no qual um partido se opõe necessariamente ao outro pautado, muitas vezes, apenas por uma lógica de alternância de poder.
“Nunca pretendi, como você disse, a ‘convergência total’, até porque isso seria tão artificial quanto autoritário. Nunca defendi a anulação das divergências políticas do debate nem a fusão dos partidos.
“Nunca carimbei o embate político como ‘algo pejorativo’ nem propus a busca pelo ‘consenso permanente’. Defendo que as diferenças políticas e partidárias permaneçam claras. Mas defendo também que sejamos capazes, em nome do País, de identificar e aprofundar nossas semelhanças ao invés de apostar apenas em aprofundar as nossas diferenças.
“A candidatura de Márcio Lacerda em BH encarna esse sentimento que não é só meu e não se manifesta apenas em Minas.
“Independente do resultado eleitoral em questão, continuarei, nos próximos anos, como vinha fazendo nos últimos, externando a minha crença: precisamos criar uma convergência mais ampla que, mantendo as identidades e as reais diferenças entre os partidos, reúna os setores mais progressistas da sociedade e nos permita criar condições políticas para o Brasil avançar com mais agilidade nas reformas de que tanto precisa.”
Tempos modernos

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO
NOVA YORK. Já ficou famosa a cena de um comício recente em que um eleitor republicano pede a palavra e diz a McCain que está preocupado com o socialismo tomando conta do governo. Ele se referia à decisão do governo George Bush de estatizar bancos. No debate de quarta-feira, foi a vez de o candidato republicano dizer que seu adversário, Barack Obama, estimula a luta de classes. Ontem, governos da França e da Alemanha anunciaram que, na nova regulamentação do sistema financeiro, os chamados "paraísos fiscais" têm que desaparecer. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, defende nada menos que a "refundação" do capitalismo para que as finanças estejam a serviço dos negócios e dos cidadãos, e não como estaria acontecendo hoje. Enquanto isso, no "socialismo de mercado" da China, o capitalismo chega ao campo para garantir a produtividade agrícola.
Ao contrário de indicar o fim do capitalismo, ou pelo menos do neoliberalismo, como acreditam muitos esquerdistas, especialmente no Brasil, a intervenção governamental de vários países no sistema financeiro internacional é uma repetição do que vem acontecendo através dos anos ciclicamente. Nomes míticos do sistema financeiro dos Estados Unidos, como o Salomon Bros, simplesmente desapareceram nas crises.
De 1945 até hoje, calcula-se que cerca de 60 grandes casas bancárias foram vendidas, incorporadas ou fechadas. Cerca de 10 mil bancos, entre pequenos e grandes, quebraram na década de 30 do século passado, durante a Grande Depressão. Na época, o presidente Franklin Delano Roosevelt teve que declarar feriado bancário de 90 dias e criou uma agência, a Reconstruction Finance Corporation, para resgatar bancos, empresas e até prefeituras.
A atual onda de críticas à ganância de Wall Street, ecoada até pelo republicano McCain, tem também precedentes, e houve épocas tanto de desregulamentação excessiva, que permitiu a especulação financeira que era considerada benéfica para a produção de riqueza, como também épocas de ação direta do governo, criando distorções no mercado, algumas repercutindo agora, como a atuação das gigantes hipotecárias Fannie Mae e Fred Mac, hoje novamente estatizadas.
Essas "empresas apoiadas pelo governo" (Government Sponsored Enterprises) foram criadas por ações do governo, a Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) em 1938, por Franklin Delano Roosevelt, durante o New Deal, para fornecer liquidez ao mercado hipotecário e permitir que os cidadãos tivessem acesso a financiamentos para a casa própria depois da crise econômica provocada pela quebradeira da Bolsa, em 1929. Foi privatizada em 1968 pelo governo Lyndon Johnson, para conter o déficit orçamentário provocado pela Guerra do Vietnã, mas sob regime especial.
A Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Company) foi criada em 1970, no governo Nixon, para expandir o mercado secundário de hipotecas. Esse tipo de empresa tem apoio implícito do governo, e foi para honrar esse compromisso que o Tesouro interveio agora. Mas em 1999, no fim do governo democrata de Clinton, as duas empresas sofreram fortes pressões para dar empréstimos a famílias de baixa renda, mesmo sem condições de crédito.
Há quem veja nessa ação política populista do governo Clinton o começo da bolha imobiliária que só agora estourou. O surgimento dos chamados "junk bonds", ativos de alto risco mas elevada rentabilidade, criou o cenário para mais especulação.
Há também quem defenda a idéia de que ganância e "especulação" são parte importante do capitalismo. A década de 80 do século passado foi marcada pela desregulamentação do mercado financeiro, que, com as rédeas soltas, produziu novos produtos financeiros e espalhou pelo mercado o lema "Greed is good" ("Ganância é bom") de Michael Milken, um dos financistas mais controversos do moderno capitalismo, criador dos "junk bonds".
Considerado gênio por muitos, condenado à prisão por fraudes financeiras, Milken cumpriu apenas 22 meses de uma condenação de dez anos e está solto desde 1993, mas proibido de atuar no mercado. Ainda é um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna de cerca de US$2 bilhões, e ganhando dinheiro, investindo agora no setor de educação.
Se pode ser verdade que não existe pura e simplesmente ganância, mas necessidade natural de acumulação do capital, não é menos verdade que o sistema financeiro precisa de uma maior regulação para defender o capitalismo de crises como a que está se desenrolando.
Nos últimos quatro ou cinco anos houve, segundo o professor de Harvard Ken Rogoff, "o mais forte ciclo de expansão da economia mundial, do comércio internacional e da liquidez global da história moderna", e as instituições financeiras ficaram sob forte pressão para obter resultados diante do apetite por risco do mercado. A redução generalizada das margens de segurança não foi percebida pelas agências de risco, que agora, na nova regulamentação, não poderão mais receber dinheiro das empresas que avaliam.
O presidente da Moody"s, uma das principais agências de risco, Raymond W. McDaniel Jr., já admitira em janeiro deste ano, na reunião do World Economic Forum, em Davos, que as agências de risco têm boa parte da culpa pela crise de crédito.
Disse que "houve uma deterioração nas informações geradas pelas instituições financeiras, tanto em veracidade quanto em extensão", o que fez com que o modelo de análise com que trabalham ficasse superado.
De lá para cá, pouca coisa mudou, no entanto. A empresa japonesa New City Residence, de investimentos imobiliários, quebrou quando ainda era avaliada pela Moody"s como "triple A". O mesmo erro aconteceu com a AIG seguradora e o Lehman Brothers.
DEU EM O GLOBO
NOVA YORK. Já ficou famosa a cena de um comício recente em que um eleitor republicano pede a palavra e diz a McCain que está preocupado com o socialismo tomando conta do governo. Ele se referia à decisão do governo George Bush de estatizar bancos. No debate de quarta-feira, foi a vez de o candidato republicano dizer que seu adversário, Barack Obama, estimula a luta de classes. Ontem, governos da França e da Alemanha anunciaram que, na nova regulamentação do sistema financeiro, os chamados "paraísos fiscais" têm que desaparecer. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, defende nada menos que a "refundação" do capitalismo para que as finanças estejam a serviço dos negócios e dos cidadãos, e não como estaria acontecendo hoje. Enquanto isso, no "socialismo de mercado" da China, o capitalismo chega ao campo para garantir a produtividade agrícola.
Ao contrário de indicar o fim do capitalismo, ou pelo menos do neoliberalismo, como acreditam muitos esquerdistas, especialmente no Brasil, a intervenção governamental de vários países no sistema financeiro internacional é uma repetição do que vem acontecendo através dos anos ciclicamente. Nomes míticos do sistema financeiro dos Estados Unidos, como o Salomon Bros, simplesmente desapareceram nas crises.
De 1945 até hoje, calcula-se que cerca de 60 grandes casas bancárias foram vendidas, incorporadas ou fechadas. Cerca de 10 mil bancos, entre pequenos e grandes, quebraram na década de 30 do século passado, durante a Grande Depressão. Na época, o presidente Franklin Delano Roosevelt teve que declarar feriado bancário de 90 dias e criou uma agência, a Reconstruction Finance Corporation, para resgatar bancos, empresas e até prefeituras.
A atual onda de críticas à ganância de Wall Street, ecoada até pelo republicano McCain, tem também precedentes, e houve épocas tanto de desregulamentação excessiva, que permitiu a especulação financeira que era considerada benéfica para a produção de riqueza, como também épocas de ação direta do governo, criando distorções no mercado, algumas repercutindo agora, como a atuação das gigantes hipotecárias Fannie Mae e Fred Mac, hoje novamente estatizadas.
Essas "empresas apoiadas pelo governo" (Government Sponsored Enterprises) foram criadas por ações do governo, a Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) em 1938, por Franklin Delano Roosevelt, durante o New Deal, para fornecer liquidez ao mercado hipotecário e permitir que os cidadãos tivessem acesso a financiamentos para a casa própria depois da crise econômica provocada pela quebradeira da Bolsa, em 1929. Foi privatizada em 1968 pelo governo Lyndon Johnson, para conter o déficit orçamentário provocado pela Guerra do Vietnã, mas sob regime especial.
A Freddie Mac (Federal Home Loan Mortgage Company) foi criada em 1970, no governo Nixon, para expandir o mercado secundário de hipotecas. Esse tipo de empresa tem apoio implícito do governo, e foi para honrar esse compromisso que o Tesouro interveio agora. Mas em 1999, no fim do governo democrata de Clinton, as duas empresas sofreram fortes pressões para dar empréstimos a famílias de baixa renda, mesmo sem condições de crédito.
Há quem veja nessa ação política populista do governo Clinton o começo da bolha imobiliária que só agora estourou. O surgimento dos chamados "junk bonds", ativos de alto risco mas elevada rentabilidade, criou o cenário para mais especulação.
Há também quem defenda a idéia de que ganância e "especulação" são parte importante do capitalismo. A década de 80 do século passado foi marcada pela desregulamentação do mercado financeiro, que, com as rédeas soltas, produziu novos produtos financeiros e espalhou pelo mercado o lema "Greed is good" ("Ganância é bom") de Michael Milken, um dos financistas mais controversos do moderno capitalismo, criador dos "junk bonds".
Considerado gênio por muitos, condenado à prisão por fraudes financeiras, Milken cumpriu apenas 22 meses de uma condenação de dez anos e está solto desde 1993, mas proibido de atuar no mercado. Ainda é um dos homens mais ricos do mundo, com uma fortuna de cerca de US$2 bilhões, e ganhando dinheiro, investindo agora no setor de educação.
Se pode ser verdade que não existe pura e simplesmente ganância, mas necessidade natural de acumulação do capital, não é menos verdade que o sistema financeiro precisa de uma maior regulação para defender o capitalismo de crises como a que está se desenrolando.
Nos últimos quatro ou cinco anos houve, segundo o professor de Harvard Ken Rogoff, "o mais forte ciclo de expansão da economia mundial, do comércio internacional e da liquidez global da história moderna", e as instituições financeiras ficaram sob forte pressão para obter resultados diante do apetite por risco do mercado. A redução generalizada das margens de segurança não foi percebida pelas agências de risco, que agora, na nova regulamentação, não poderão mais receber dinheiro das empresas que avaliam.
O presidente da Moody"s, uma das principais agências de risco, Raymond W. McDaniel Jr., já admitira em janeiro deste ano, na reunião do World Economic Forum, em Davos, que as agências de risco têm boa parte da culpa pela crise de crédito.
Disse que "houve uma deterioração nas informações geradas pelas instituições financeiras, tanto em veracidade quanto em extensão", o que fez com que o modelo de análise com que trabalham ficasse superado.
De lá para cá, pouca coisa mudou, no entanto. A empresa japonesa New City Residence, de investimentos imobiliários, quebrou quando ainda era avaliada pela Moody"s como "triple A". O mesmo erro aconteceu com a AIG seguradora e o Lehman Brothers.
Tensão

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - EUA, Alemanha e todo o mundo já admitem claramente um crescimento menor em 2009.
Dificilmente o Brasil escapa dessa, apesar de o ministro Guido Mantega (Fazenda) insistir num índice de 4% a 4,5%. É alegre demais.
Num ambiente de recessão internacional, a oferta de dinheiro, os negócios em geral e a demanda por commodities minguam. Como o Brasil vai passar ileso? No setor agrícola, já se fala de uma queda na produção de 40%. Não é pouco.
O país pegou a onda positiva mundial em boas condições internas, e o governo Lula aproveitou bem o momento. Houve aumento de investimentos, de empregos e de salários de várias categorias. Agora o clima é outro, muito diferente. E, como nas Bolsas, quem ganhou ganhou, quem não ganhou vai ficar chupando o dedo.
Bancários e policiais civis paulistas, por exemplo, decidiram exigir sua fatia do bolo exatamente quando a festa está acabando. É possível que haja muitas outras categorias assim, que viram os bons índices, ouviram o estouro da champanhe e agora queiram forçar a barra e a porta. Mas tarde demais.
No caso de São Paulo, há uma mistura explosiva de economia, política e eleição, perceptível à distância. Não é nem trivial nem aceitável policiais armados tentando cercar um palácio de governo que são pagos para defender. E o que dizer de um confronto entre policiais civis e policiais militares em praça pública, envolvendo viaturas oficiais e bombas de gás lacrimogêneo? Imagens de guerra na TV.
A crise financeira chegou às Bolsas, ao real, às empresas, à confiança. A eleição municipal descamba para golpes baixos. Bancários parados. Policiais civis e militares se estranhando em praça pública. E novas greves devem vir por aí. O clima é tenso. Convém aos que tenham responsabilidade pública parar de dar versões cor-de-rosa e a todos os lados que adiem, "sine die", a disputa sangrenta de 2010.
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
BRASÍLIA - EUA, Alemanha e todo o mundo já admitem claramente um crescimento menor em 2009.
Dificilmente o Brasil escapa dessa, apesar de o ministro Guido Mantega (Fazenda) insistir num índice de 4% a 4,5%. É alegre demais.
Num ambiente de recessão internacional, a oferta de dinheiro, os negócios em geral e a demanda por commodities minguam. Como o Brasil vai passar ileso? No setor agrícola, já se fala de uma queda na produção de 40%. Não é pouco.
O país pegou a onda positiva mundial em boas condições internas, e o governo Lula aproveitou bem o momento. Houve aumento de investimentos, de empregos e de salários de várias categorias. Agora o clima é outro, muito diferente. E, como nas Bolsas, quem ganhou ganhou, quem não ganhou vai ficar chupando o dedo.
Bancários e policiais civis paulistas, por exemplo, decidiram exigir sua fatia do bolo exatamente quando a festa está acabando. É possível que haja muitas outras categorias assim, que viram os bons índices, ouviram o estouro da champanhe e agora queiram forçar a barra e a porta. Mas tarde demais.
No caso de São Paulo, há uma mistura explosiva de economia, política e eleição, perceptível à distância. Não é nem trivial nem aceitável policiais armados tentando cercar um palácio de governo que são pagos para defender. E o que dizer de um confronto entre policiais civis e policiais militares em praça pública, envolvendo viaturas oficiais e bombas de gás lacrimogêneo? Imagens de guerra na TV.
A crise financeira chegou às Bolsas, ao real, às empresas, à confiança. A eleição municipal descamba para golpes baixos. Bancários parados. Policiais civis e militares se estranhando em praça pública. E novas greves devem vir por aí. O clima é tenso. Convém aos que tenham responsabilidade pública parar de dar versões cor-de-rosa e a todos os lados que adiem, "sine die", a disputa sangrenta de 2010.
A solução da crise está longe

Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
Somente com o tempo as intervenções do setor público levarão a uma situação de maior tranqüilidade
A CRISE financeira continua a piorar. Em junho do ano passado -início cronológico dos distúrbios que vivemos hoje- a crise parecia localizada no segmento dos empréstimos hipotecários a pessoas de baixa renda nos Estados Unidos. Nada que realmente pudesse ameaçar o sistema bancário norte-americano e, muito menos, se transformar em uma crise financeira mundial.
Mas, sabemos hoje, a questão do chamado "subprime" era apenas a ponta de um monstruoso iceberg gerado ao longo dos anos de bonança que o mundo vivia então.
Esse iceberg foi revelando lentamente toda a sua dimensão. Na medida em que ele crescia, o mercado foi voltando no tempo e buscando na história exemplos que pudessem servir como guia para seu enfrentamento. Mas esse exercício analítico simples, quase simplório, mostrou-se insuficiente para estabelecer um padrão de correção dos preços dos ativos financeiros. A realidade era sempre pior do que os mercados imaginavam, principalmente depois que o crescimento econômico mundial começou a enfraquecer na virada do semestre.
A partir daí o iceberg começou a parecer cada vez mais com o que provocou a catástrofe de 1929 e a recessão dos anos seguintes. Apesar das ações pontuais do Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) e do governo norte-americano, a crise atingiu segmentos do mercado considerados como os mais seguros e funcionais. Percebeu-se, então, que não se tratava mais de uma crise de confiança em algumas instituições ou ativos financeiros de maior risco, mas de uma crise sistêmica e de dimensão mundial. O mês de setembro passado pode ser identificado como o momento em que essa mudança de percepção chegou aos mercados e aos governos. Basta olhar para o comportamento dos mais variados mercados para chegar a essa conclusão.
Hoje, os terríveis contornos desse monstro financeiro são visíveis e suas conseqüências no mundo real podem ser sentidas por todos, inclusive no Brasil. Finalmente as ações dos governos chegaram a um nível de coordenação e coragem em linha com a dimensão dos problemas que vamos enfrentar em 2009. Mas não havia de forma clara um roteiro consistente para enfrentá-los. Além disso, faltava uma percepção política da verdadeira dimensão da crise que se aproximava e que exigiria uma coordenação internacional na busca de instrumentos para sua solução. Por isso, as decisões foram sendo tomadas com atraso e sempre no âmbito de cada país e, portanto, com reduzida eficácia.
Esse caminhar sem consistência está evidente nas várias formas de intervenção do setor público para que se tente devolver um mínimo de racionalidade aos mercados. O modelo norte-americano foi substituído pela forma inglesa e, agora, a Suíça se utiliza de outro desenho para lidar com os problemas de seus dois grandes bancos. Certamente ao longo das próximas semanas veremos outras decisões que nascerão a partir da reação dos mercados aos pacotes já em andamento. Mas o fim dessa crise está ainda longe de ser alcançado e somente com o tempo as intervenções do setor público levarão a uma situação de maior tranqüilidade. Não tenho dúvidas de que apenas após a eleição do novo presidente norte-americano entraremos no último estágio dessa crise.
E aqui temos um fator externo que certamente vai ajudar muito. Na crise de 1929, o presidente republicano que exercia o poder só foi substituído por Roosevelt três anos depois do colapso de Wall Street; agora, faltam apenas três semanas...
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).
DEU NA FOLHA DE S. PAULO
Somente com o tempo as intervenções do setor público levarão a uma situação de maior tranqüilidade
A CRISE financeira continua a piorar. Em junho do ano passado -início cronológico dos distúrbios que vivemos hoje- a crise parecia localizada no segmento dos empréstimos hipotecários a pessoas de baixa renda nos Estados Unidos. Nada que realmente pudesse ameaçar o sistema bancário norte-americano e, muito menos, se transformar em uma crise financeira mundial.
Mas, sabemos hoje, a questão do chamado "subprime" era apenas a ponta de um monstruoso iceberg gerado ao longo dos anos de bonança que o mundo vivia então.
Esse iceberg foi revelando lentamente toda a sua dimensão. Na medida em que ele crescia, o mercado foi voltando no tempo e buscando na história exemplos que pudessem servir como guia para seu enfrentamento. Mas esse exercício analítico simples, quase simplório, mostrou-se insuficiente para estabelecer um padrão de correção dos preços dos ativos financeiros. A realidade era sempre pior do que os mercados imaginavam, principalmente depois que o crescimento econômico mundial começou a enfraquecer na virada do semestre.
A partir daí o iceberg começou a parecer cada vez mais com o que provocou a catástrofe de 1929 e a recessão dos anos seguintes. Apesar das ações pontuais do Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) e do governo norte-americano, a crise atingiu segmentos do mercado considerados como os mais seguros e funcionais. Percebeu-se, então, que não se tratava mais de uma crise de confiança em algumas instituições ou ativos financeiros de maior risco, mas de uma crise sistêmica e de dimensão mundial. O mês de setembro passado pode ser identificado como o momento em que essa mudança de percepção chegou aos mercados e aos governos. Basta olhar para o comportamento dos mais variados mercados para chegar a essa conclusão.
Hoje, os terríveis contornos desse monstro financeiro são visíveis e suas conseqüências no mundo real podem ser sentidas por todos, inclusive no Brasil. Finalmente as ações dos governos chegaram a um nível de coordenação e coragem em linha com a dimensão dos problemas que vamos enfrentar em 2009. Mas não havia de forma clara um roteiro consistente para enfrentá-los. Além disso, faltava uma percepção política da verdadeira dimensão da crise que se aproximava e que exigiria uma coordenação internacional na busca de instrumentos para sua solução. Por isso, as decisões foram sendo tomadas com atraso e sempre no âmbito de cada país e, portanto, com reduzida eficácia.
Esse caminhar sem consistência está evidente nas várias formas de intervenção do setor público para que se tente devolver um mínimo de racionalidade aos mercados. O modelo norte-americano foi substituído pela forma inglesa e, agora, a Suíça se utiliza de outro desenho para lidar com os problemas de seus dois grandes bancos. Certamente ao longo das próximas semanas veremos outras decisões que nascerão a partir da reação dos mercados aos pacotes já em andamento. Mas o fim dessa crise está ainda longe de ser alcançado e somente com o tempo as intervenções do setor público levarão a uma situação de maior tranqüilidade. Não tenho dúvidas de que apenas após a eleição do novo presidente norte-americano entraremos no último estágio dessa crise.
E aqui temos um fator externo que certamente vai ajudar muito. Na crise de 1929, o presidente republicano que exercia o poder só foi substituído por Roosevelt três anos depois do colapso de Wall Street; agora, faltam apenas três semanas...
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).
O QUE PENSA A MÍDIA
Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1120&portal=
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1120&portal=
Truques da numerologia eleitoral

Wanderley Guilherme dos Santos
DEU NO VALOR ECONÔMICO
A redução da taxa de ansiedade do eleitorado e dos candidatos já vencedores deve muito à eficiência do Tribunal Superior Eleitoral na totalização e divulgação do resultado praticamente final das eleições municipais. Sobrou a angústia partidária de eleitores e candidatos de pouco mais de 20 cidades com população acima de 200 mil habitantes. A nota triste, como sempre, é o desapontamento dos perdedores, cuja explicação para o fracasso varia tanto quanto os motivos que levaram os eleitores a recusá-los.
Como de costume, os números brutos dão lugar a agregações e cálculos de porcentagem muito interessantes. Todas as descrições em termos proporcionais são, na maioria, tecnicamente legítimas. Por exemplo, agregar o número de prefeituras ganhas por partido em nível estadual, ou mesmo regional; outra forma seria somar os votos nominais dos partidos, por Estado ou região, e verificar a quanto correspondem do total de votos válidos do Estado ou região. Não é surpreendente que os resultados da segunda operação ordenem os partidos vencedores de modo diferente da ordenação obtida com o primeiro cálculo. E são inúmeras as formas válidas de agregar dados brutos e dispô-los em números proporcionais.
Ocorre algo semelhante quando as comparações entre partidos se fazem por consulta a resultados de eleições anteriores, em busca de tendências. Implico com a denominação de "tendência" aplicada somente a quatro resultados, as eleições de 1996, 2000, 2004 e 2008. Exceto em casos absolutamente consistentes, e ainda assim cautelosamente, é ilegítimo, ou, pelo menos, bastante ousado, afirmar que a série de quatro resultados revele tendências. Darei um exemplo.
Unânime é a apreciação de que o PMDB saiu largamente vencedor na conquista por prefeituras, o que é correto, e, diz-se, renasceu. Bem, conforme os melhores dados que me são disponíveis (11/10) sobre número de vereadores eleitos a história é outra. Em 2008, o PMDB elegeu cerca de 8.492 vereadores, número não muito diferente das eleições de 2004, quando elegeu 8.310 candidatos municipais. Se o desempenho de 2008 for comparado com o de 1996, porém, que resultou em 13.091 vereadores eleitos, o feito deste ano não significa, em qualquer interpretação sóbria, um renascer.
A bem da verdade, dos quatro maiores partidos aqui considerados, PMDB, PSDB, PT e DEM, todos, à exceção do PT, obtiveram um sucesso bem mais modesto do que em 1996. Mas todos, igualmente, exceto dois, alcançaram resultados oscilantes. Houve eleição em que o resultado foi superior ao da eleição anterior. As exceções foram o PT, cujo número de vereadores eleitos é crescente, e o DEM, cujos resultados são sistematicamente inferiores à eleição anterior. Vale esclarecer que o total de vereadores eleitos pelo PT (4.173), em 2008, ainda foi inferior ao total conquistado pelo DEM (4.821). Na verdade, extraordinários foram os resultados, já nas eleições para prefeitos, do PC do B e do PSB. Ainda assim, eu hesitaria em diagnosticar tendências com base nesses resultados.
Existe uma medida, que chamo de "taxa de produtividade relativa", de aplicação muito simples. Verifica-se o número de candidatos vitoriosos e o tomamos como proporção do número de candidatos com que o partido concorreu. Assim, se um partido apresentou dez candidatos e elegeu cinco, obteve uma razoável produtividade relativa de 50%. Se outro partido elegeu igualmente cinco candidatos, mas havia concorrido com apenas sete, sua produtividade relativa foi de 71%, bem mais elevada do que a do outro partido.
É claro que há limites para a interpretação dessa taxa, pois um partido que elege um candidato, tendo concorrido com dois, obterá uma taxa de produtividade relativa igual a 50%, o que, obviamente, não o coloca no mesmo escalão do partido lá de cima.
A correção para essa dificuldade consiste em medir a "produtividade bruta" dos partidos, revelada pelo número de candidatos eleitos dividido pelo total de cadeiras em disputa. Claro, no exemplo acima, a posição do partido que elegeu apenas um candidato não terá a mesma produtividade bruta daqueles que elegeram cinco. Mas os dois que elegeram cinco candidatos, cada um, terão o mesmo peso, medido pela "produtividade bruta" de ambos.
Tenho essas taxas calculadas para a Câmara dos Deputados e Assembléias Legislativas, por Estado e incluindo todos os partidos, desde as eleições gerais de 1986. Por esses cálculos se descobre que o PC do B, por exemplo, seguia a mesma estratégia do ex-PFL: apresentar poucos candidatos e concentrando neles seus votos.
Durante algum tempo, a produtividade relativa do DEM não ficou muito atrás de sua produtividade bruta, enquanto dispôs de um eleitorado relativamente fiel. À medida que seu eleitorado diminui, a estratégia deixa de operar e, embora obtendo uma produtividade relativa razoável, seu peso bruto na Câmara dos Deputados começa a decrescer. O PC do B, sempre com uma produtividade relativa elevadíssima, mantinha um perfil de pequeno partido, embora, por sua disciplina, com freqüência desempenhava papéis muito importantes nas coalizões parlamentares.
Os exercícios de estatística descritiva e a aplicação de algumas medidas aos resultados eleitorais são úteis ao organizar, para o eleitorado, a enorme quantidade de dados que as urnas produzem. E cada eleitor tem a medida de sua preferência, da vitória do candidato em que votou às esperanças que aumentam ou diminuem com o resultado agregado que lhe chega.
A interpretação dessas simples estatísticas é que são elas. O que os números, brutos ou porcentuais, têm de inteligibilidade, as interpretações, em alguns casos, só são convincentes aos iniciados em lógicas tortuosas. Minha opção é pelo bom senso, porque, antes de tudo e todos, quem entende de eleição é o eleitor. Segundo, porque só o eleitor sabe por que votou como votou. Terceiro, porque eleitor não tem dogmático compromisso com sua biografia eleitoral. Tanto pode manter a mesma escolha da eleição anterior (mesmo quando se trata de dois turnos) como pode mudá-la sem aviso e sem prestar satisfação a ninguém.
Em geral, o que melhor prevê o resultado de uma eleição são os resultados da eleição imediatamente anterior. Grandes mudanças não são o padrão normal de eleições. Em segundo lugar, existe o desempenho de quem ocupa o cargo em disputa: se o eleitor está satisfeito, tende a segui-lo, se não, votará adversariamente. Esses padrões não são inflexíveis, mas são um bom ponto de referência para o futuro próximo. Finalmente, a capacidade de persuasão do candidato independe de suas propostas de governo. Ponto final. É o resultado dessa alquimia do eleitor que os institutos de pesquisas buscam captar, nem sempre com sucesso. Não se trata, em geral, de deficiência ou má-fé dos institutos. É porque, como disse, quem entende de eleição é o eleitor.
Aqui não foram considerados os fatores econômicos e os intermediários de votos, a posição dos meios de comunicação e algumas outras variáveis que interferem muito nas campanhas eleitorais. Mas sobre essas os eleitores não têm o menor controle.
Wanderley Guilherme dos Santos, membro da Academia Brasileira de Ciências, escreve quinzenalmente neste espaço.
DEU NO VALOR ECONÔMICO
A redução da taxa de ansiedade do eleitorado e dos candidatos já vencedores deve muito à eficiência do Tribunal Superior Eleitoral na totalização e divulgação do resultado praticamente final das eleições municipais. Sobrou a angústia partidária de eleitores e candidatos de pouco mais de 20 cidades com população acima de 200 mil habitantes. A nota triste, como sempre, é o desapontamento dos perdedores, cuja explicação para o fracasso varia tanto quanto os motivos que levaram os eleitores a recusá-los.
Como de costume, os números brutos dão lugar a agregações e cálculos de porcentagem muito interessantes. Todas as descrições em termos proporcionais são, na maioria, tecnicamente legítimas. Por exemplo, agregar o número de prefeituras ganhas por partido em nível estadual, ou mesmo regional; outra forma seria somar os votos nominais dos partidos, por Estado ou região, e verificar a quanto correspondem do total de votos válidos do Estado ou região. Não é surpreendente que os resultados da segunda operação ordenem os partidos vencedores de modo diferente da ordenação obtida com o primeiro cálculo. E são inúmeras as formas válidas de agregar dados brutos e dispô-los em números proporcionais.
Ocorre algo semelhante quando as comparações entre partidos se fazem por consulta a resultados de eleições anteriores, em busca de tendências. Implico com a denominação de "tendência" aplicada somente a quatro resultados, as eleições de 1996, 2000, 2004 e 2008. Exceto em casos absolutamente consistentes, e ainda assim cautelosamente, é ilegítimo, ou, pelo menos, bastante ousado, afirmar que a série de quatro resultados revele tendências. Darei um exemplo.
Unânime é a apreciação de que o PMDB saiu largamente vencedor na conquista por prefeituras, o que é correto, e, diz-se, renasceu. Bem, conforme os melhores dados que me são disponíveis (11/10) sobre número de vereadores eleitos a história é outra. Em 2008, o PMDB elegeu cerca de 8.492 vereadores, número não muito diferente das eleições de 2004, quando elegeu 8.310 candidatos municipais. Se o desempenho de 2008 for comparado com o de 1996, porém, que resultou em 13.091 vereadores eleitos, o feito deste ano não significa, em qualquer interpretação sóbria, um renascer.
A bem da verdade, dos quatro maiores partidos aqui considerados, PMDB, PSDB, PT e DEM, todos, à exceção do PT, obtiveram um sucesso bem mais modesto do que em 1996. Mas todos, igualmente, exceto dois, alcançaram resultados oscilantes. Houve eleição em que o resultado foi superior ao da eleição anterior. As exceções foram o PT, cujo número de vereadores eleitos é crescente, e o DEM, cujos resultados são sistematicamente inferiores à eleição anterior. Vale esclarecer que o total de vereadores eleitos pelo PT (4.173), em 2008, ainda foi inferior ao total conquistado pelo DEM (4.821). Na verdade, extraordinários foram os resultados, já nas eleições para prefeitos, do PC do B e do PSB. Ainda assim, eu hesitaria em diagnosticar tendências com base nesses resultados.
Existe uma medida, que chamo de "taxa de produtividade relativa", de aplicação muito simples. Verifica-se o número de candidatos vitoriosos e o tomamos como proporção do número de candidatos com que o partido concorreu. Assim, se um partido apresentou dez candidatos e elegeu cinco, obteve uma razoável produtividade relativa de 50%. Se outro partido elegeu igualmente cinco candidatos, mas havia concorrido com apenas sete, sua produtividade relativa foi de 71%, bem mais elevada do que a do outro partido.
É claro que há limites para a interpretação dessa taxa, pois um partido que elege um candidato, tendo concorrido com dois, obterá uma taxa de produtividade relativa igual a 50%, o que, obviamente, não o coloca no mesmo escalão do partido lá de cima.
A correção para essa dificuldade consiste em medir a "produtividade bruta" dos partidos, revelada pelo número de candidatos eleitos dividido pelo total de cadeiras em disputa. Claro, no exemplo acima, a posição do partido que elegeu apenas um candidato não terá a mesma produtividade bruta daqueles que elegeram cinco. Mas os dois que elegeram cinco candidatos, cada um, terão o mesmo peso, medido pela "produtividade bruta" de ambos.
Tenho essas taxas calculadas para a Câmara dos Deputados e Assembléias Legislativas, por Estado e incluindo todos os partidos, desde as eleições gerais de 1986. Por esses cálculos se descobre que o PC do B, por exemplo, seguia a mesma estratégia do ex-PFL: apresentar poucos candidatos e concentrando neles seus votos.
Durante algum tempo, a produtividade relativa do DEM não ficou muito atrás de sua produtividade bruta, enquanto dispôs de um eleitorado relativamente fiel. À medida que seu eleitorado diminui, a estratégia deixa de operar e, embora obtendo uma produtividade relativa razoável, seu peso bruto na Câmara dos Deputados começa a decrescer. O PC do B, sempre com uma produtividade relativa elevadíssima, mantinha um perfil de pequeno partido, embora, por sua disciplina, com freqüência desempenhava papéis muito importantes nas coalizões parlamentares.
Os exercícios de estatística descritiva e a aplicação de algumas medidas aos resultados eleitorais são úteis ao organizar, para o eleitorado, a enorme quantidade de dados que as urnas produzem. E cada eleitor tem a medida de sua preferência, da vitória do candidato em que votou às esperanças que aumentam ou diminuem com o resultado agregado que lhe chega.
A interpretação dessas simples estatísticas é que são elas. O que os números, brutos ou porcentuais, têm de inteligibilidade, as interpretações, em alguns casos, só são convincentes aos iniciados em lógicas tortuosas. Minha opção é pelo bom senso, porque, antes de tudo e todos, quem entende de eleição é o eleitor. Segundo, porque só o eleitor sabe por que votou como votou. Terceiro, porque eleitor não tem dogmático compromisso com sua biografia eleitoral. Tanto pode manter a mesma escolha da eleição anterior (mesmo quando se trata de dois turnos) como pode mudá-la sem aviso e sem prestar satisfação a ninguém.
Em geral, o que melhor prevê o resultado de uma eleição são os resultados da eleição imediatamente anterior. Grandes mudanças não são o padrão normal de eleições. Em segundo lugar, existe o desempenho de quem ocupa o cargo em disputa: se o eleitor está satisfeito, tende a segui-lo, se não, votará adversariamente. Esses padrões não são inflexíveis, mas são um bom ponto de referência para o futuro próximo. Finalmente, a capacidade de persuasão do candidato independe de suas propostas de governo. Ponto final. É o resultado dessa alquimia do eleitor que os institutos de pesquisas buscam captar, nem sempre com sucesso. Não se trata, em geral, de deficiência ou má-fé dos institutos. É porque, como disse, quem entende de eleição é o eleitor.
Aqui não foram considerados os fatores econômicos e os intermediários de votos, a posição dos meios de comunicação e algumas outras variáveis que interferem muito nas campanhas eleitorais. Mas sobre essas os eleitores não têm o menor controle.
Wanderley Guilherme dos Santos, membro da Academia Brasileira de Ciências, escreve quinzenalmente neste espaço.
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