domingo, 26 de outubro de 2008

Da ficha suja ao jogo sujo: milicianos e panfletos apócrifos

Flávio Tabak
DEU EM O GLOBO

Justiça não puniu propaganda negativa, que se acirrou no segundo turno

O que era para ser exemplo de limpeza começou e terminou com sujeira. A eleição deste ano no Rio teve o debate sobre a candidatura de políticos com ficha suja no início - liberada em agosto pelo Supremo Tribunal Federal -, e, no fim, a enxurrada de panfletos e cartazes apócrifos com acusações de baixo nível.

O tom conciliador do primeiro turno definhou à medida que o dia da votação se aproximava. Eduardo Paes (PMDB) sofreu ataques de representantes do transporte alternativo. No dia 1º de outubro, um protesto contra o candidato espalhava que ele iria "varrer as vans do mapa". No mesmo dia, o candidato derrotado do PRB, Marcelo Crivella, divulgou carta apócrifa na qual criticava o "candidato dos bacanas, dos ricos e da Zona Sul".

O segundo turno trouxe mais sujeira. Num cenário com candidatos a vereador eleitos, mesmo suspeitos de envolvimento com milícias, a polarização entre Paes e Fernando Gabeira (PV) mostrou que a guerra é feita por baixo dos panos. Só para coibir propaganda negativa e apócrifa, a equipe de fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral fez oito operações. Todas contra ataques entre candidaturas. Mesmo assim, nenhuma multa foi aplicada na fase final.

TRE apreendeu 37 toneladas de material ilegal

A burocracia e a legislação eleitoral dão a sensação de impunidade. São cinco passos para aplicar uma multa: ao receber denúncias, fiscais vão ao local apurar; comprovada a irregularidade, enviam um relatório para o juiz de fiscalização; ele decide se há crime e notifica a candidatura para retirar o material em 48 horas; se a propaganda permanecer, cabe ao Ministério Público representar ou não contra o candidato. A partir daí, outro juiz, o da representação, decide se multa a campanha, que pode recorrer da decisão.

- O problema é descobrir a origem dos panfletos e da gráfica - disse o juiz da fiscalização do município, Fábio Uchôa.

O chefe de fiscalização do TRE, Luiz Fernando Santa Brígida, disse que nunca viu tanto jogo sujo em campanhas:

- Apreendemos mais de 37 toneladas de material ilegal, principalmente depois da atuação das tropas do Exército nas favelas. Por causa dos panfletos apócrifos, mudamos do jogo bruto e ostensivo, no primeiro turno, para o jogo da inteligência e discrição, no segundo. Agora usamos fiscais à paisana.

Na primeira semana do segundo turno, Paes se reuniu com militantes e fez discurso agressivo, diferente do tom comedido adotado no primeiro. Partidários de Paes disseram que jogariam ovos em Gabeira, caso ele decidisse visitar a Zona Oeste, e o chamaram de "macaco Tião da classe média".

A ofensiva foi reflexo das declarações de Gabeira na semana anterior, quando disse que a vereadora Lucinha (PSDB) tinha "visão suburbana" sobre a instalação do aterro sanitário de Paciência e era analfabeta política. Dois dias depois, houve uma passeata na Zona Oeste contra Gabeira e um militante do PV foi agredido por cabos eleitorais do PMDB.

Gabeira foi o principal alvo do jogo sujo. Equipes do TRE apreenderam 12 mil panfletos pagos pelo PT com imagens do candidato a de Cesar juntos. Uma kombi com seis mil panfletos contra Gabeira foi encontrada na Av. Brasil. Os envolvidos no transporte do material admitiram ser da campanha de Paes.

Paes disse que um projeto de Gabeira apresentado no Congresso legalizava a profissão de cafetão. Dias antes, havia panfletagem em frente a templos da Igreja Universal. O texto do material afirmava que Gabeira seria contra a criminalização da prostituição infantil. Paes, por sua vez, reclama de jogo sujo pela internet. O candidato insinuou que Gabeira seria o responsável por correntes na web. O peemedebista também apresentou ao TRE panfletos apócrifos contra sua candidatura.

- O jogo sujo aparece no desespero. Isso ocorre desde a República Velha. Cartas falsas eram enviadas a jornais contra políticos - diz Eurico Figueiredo, cientista político da UFF.

Rápidas e rasteiras


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Sejamos francos, aqui bem entre nós: quando aparece um político querendo debater propostas, desprovido de qualquer peculiaridade, sem representação simbólica e armado numa campanha apenas com suas idéias, é logo identificado como um sério aspirante à derrota eleitoral.

Junto com todas as homenagens e reconhecimento à sua beleza interior, recebe também a marca do candidato algo aborrecido, de discurso entediante, não obstante a robustez do conteúdo.

Exemplo? O senador Cristovam Buarque. Apresentou-se na disputa presidencial de 2006 para discutir detalhada e profundamente a educação no Brasil. No oficial foi largamente reverenciado, no paralelo era chamado de "candidato de uma nota só" e, no fim, teve pouco mais de 2% dos votos.

Isso num País em que o setor, além de um desastre, está no topo da lista das preocupações do cidadão consultado por pesquisas de opinião. Em tese, a julgar pelo recorrente clamor por "debate de propostas", Cristovam tinha tudo para dar certo.

Na prática, as coisas não funcionam assim. Simplesmente porque o método do embate e o modelo eleitoral não deixam espaço para outro tipo de agenda que não a destinada a produzir votos, seja de que maneira for.

Naquele segundo turno de 2006 a campanha da reeleição do presidente Luiz Inácio da Silva ressuscitou as privatizações em feitio de assombração, conseguiu renovar o caráter pejorativo do termo neoliberal e, logo depois, quando o reeleito privatizou estradas federais ninguém mais se lembrava de nada.

O embate era falso. Não passava de um bem montado jogo de palavras para induzir o voto especialmente no eleitorado mais bem informado, sempre ávido de justificativas doutrinárias (mesmo ocas) para fundamentar suas escolhas.

Em 2006, em todas as anteriores, na eleição que hoje termina e muito provavelmente na próxima cujo processo entra amanhã mesmo em andamento, a pauta de problemas objetivos a serem resolvidos é o de menos.

Vai se esforçar de forma inútil quem tentar se lembrar de uma só campanha em que a elaboração verbal dos candidatos tenha ultrapassado a profundidade das frases feitas ou ido além da manipulação de conceitos previamente consolidados.

Simplificações são muito bem recebidas, principalmente quando elegantemente denominadas de "idéias-força". Sob esse apelido se vende qualquer coisa. "Mudança", por exemplo, não quer dizer nada em circunstâncias normais, mas numa campanha eleitoral pode significar tudo, principalmente a vitória.

E a eleição de 1994, não seria uma exceção, não se deu em torno do apoio do eleitorado ao plano de estabilidade monetária? Justamente. O eleitor ali se manifestou favorável a um projeto posto em prática no ano anterior. Decidiu diante dos resultados, da queda da inflação e não de uma proposta a ser executada depois da eleição.

Se o processo tivesse sido invertido muito provavelmente o Plano Real não teria resistido à ligeireza dos truques de propaganda, à velocidade crescente dos meios de comunicação, ao raciocínio rasteiro inerente à necessidade de facilitar o entendimento da mensagem pretendida.

A eleição municipal acaba hoje também sem que se possa dizer qual foi a sua agenda, digamos, de vida real. Sabemos quais foram os ensinamentos políticos, podemos presumir as repercussões futuras das vitórias e derrotas, são perfeitamente visíveis os mitos derrubados, qualquer um consegue citar os vexames mais notórios, mas, sobre as tão celebradas "propostas", não sobrou nem sequer o rastro.

Isso não acontece por atributos negativos da democracia brasileira. Ocorre porque eleição não é seminário acadêmico, é momento que passa rápido e requer que concorrentes sejam algo rasteiros em suas ações e pensamentos porque não há tempo para mais nada além de correr atrás da maior quantidade possível de votos.

Trata-se de uma constatação que, uma vez admitida com tranqüilidade, nos livraria de uma boa carga de culpa e da obrigação de buscar conteúdo em ambiente meramente teatral.

Para todos

Na mira de todos os concorrentes a presidente, o PMDB é alvo de 11 entre dez especulações sobre alianças partidárias para 2010. Uns dizem que fica com Lula, outros que caminhará com o PSDB, alguns apostam que o partido espera para ver qual a direção mais segura, de acordo com as pesquisas.

Os mais realistas argumentam com os fatos: da redemocratização em diante, não houve uma eleição em que os pemedebistas marchassem unidos.

Em 1989 deixaram Ulysses Guimarães pelo caminho; em 1994 o abandonado foi Orestes Quércia; em 1998 não deixaram Itamar Franco sair candidato; em 2002 parte ficou com José Serra, parte aderiu ao PT; em 2006, só uns poucos resistiram com Geraldo Alckmin.

Moral da história, a expectativa de governo e oposição é a de que em 2010 haja PMDB suficiente para atender à demanda de todo o mercado.

Me dá um dinheiro aí!


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

A acumulação de dívidas é um tiro no pé. Qualquer dona-de-casa sabe disso. Mas nem sempre os governos e banqueiros levam o assunto a sério. Agem como consumidores compulsivos e perdulários


O governo resolveu meter a mão peluda no mercado financeiro, que segundo o Banco Central parecia ir muito bem, obrigado, mas está com problemas que ninguém sabe aonde vão parar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, às vésperas do segundo turno das eleições municipais, interveio no sistema de crédito para evitar que alguns bancos, montadoras e construtoras fossem à breca. Agiu à inglesa, como o primeiro-ministro britânico Gordon Brown. Decidiu autorizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a comprarem a participação em instituições financeiras públicas ou privadas, com ou sem participação acionária, que estejam em dificuldades. E deixou o BNDES de prontidão para socorrer exportadores, montadoras e construtoras com problemas.


Blindagem

O que está acontecendo nos bastidores do mercado, a rigor, ninguém sabe. No começo, a versão oficial era de que tudo não passaria de uma “marolinha”, que atingiu apenas algumas empresas exportadoras que haviam apostado na valorização do real. Agora, mais gente não consegue nadar. A decisão de intervir no mercado financeiro foi tomada pelo governo na surdina. Gerou polêmica por causa da falta de transparência e de salvaguardas para que os prejuízos não sejam “socializados”. Pegou muito mal, por exemplo, o fato de o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, terem ocultado a decisão durante audiência pública no Congresso.

Além de despertar as suspeitas da oposição, a decisão surpreendeu e inquietou o mercado financeiro. Por que a criação da Caixa-Banco de Investimentos S. A.? Quais são os bancos que estão quebrados? Que montadoras estão à beira do colapso? Por que o governo socorrerá as construtoras que especularam com terrenos e alavancaram o valor dos imóveis? Não há respostas claras. Resultado: com tantas incertezas, a Bovespa despencou, o dólar subiu e o senso-comum de que a crise chegou para valer à nossa economia real se consolidou. É um nevoeiro.

Créditos

A acumulação de dívidas é um tiro no pé. Qualquer dona-de-casa sabe disso. Mas nem sempre os governos e banqueiros levam o assunto a sério. Agem como consumidores compulsivos e perdulários. Nos períodos de expansão econômica, o endividamento aumenta. Quanto mais alguém se endivida, mais consegue crédito. Desde que a economia cresça, os bancos liberam o dinheiro. Nos Estados Unidos, bastava um emprego para o sujeito conseguir o empréstimo e comprar uma casa nova.

Há empréstimos e empréstimos. Um é aquele que o tomador cobre o risco e quita a dívida com o fluxo de caixa. É o caso do agricultor que compra sementes para o ano seguinte. Ele paga o produto com a colheita. Outro é o empréstimo rolado, em que só se pode pagar os juros da dívida. O subprime norte-americano era isso. O sujeito acreditava que, em caso de necessidade, poderia vender a moradia acima do valor de compra e liquidar o empréstimo, mas quebrou a cara. O pior é aquele no qual não se dispõe de recursos para pagar juros e capital e se aposta nos ganhos com a especulação financeira. É a valorização dos bens adquiridos ao se endividar que financia a dívida. As corretoras americanas compravam pacotes acionários graças às linhas de crédito dos bancos e, toda vez que o valor das ações subia, contraíam novas dívidas para comprar mais. O Lehman Brothers quebrou porque o valor dos empréstimos em carteira entrou em colapso e o banco se viu com uma dívida 22 vezes maior do que o capital social.

A tese oficial de que nossos problemas serão resolvidos garantindo o crédito a qualquer preço é perigosa. Existe dívida boa e dívida ruim. A dívida contraída com investimentos em infra-estrutura, bens de capital e bens duráveis em tese é boa, desde que respeitada a capacidade de pagamento. A dívida decorrente de despesas de custeio, de financiamento do consumo imediato e rolagem de outras dívidas é sempre ruim. Numa situação de retração econômica, é a forca. Por isso, alguém vai pagar a conta das empresas que estão em dificuldades no Brasil. Afinal, como dizia o finado neoliberalismo, não existe almoço grátis. Se for o governo, seremos todos nós.

Em busca do mercado


Merval Pereira
DEU EM O GLBO


NOVA YORK. Tanto no etanol quanto nos produtos agrícolas, o maior interesse para o Brasil deveria ser o acesso aos mercados, e não o fim dos subsídios, é o que mostra um estudo do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro. Em linha com esse pensamento, o empresário e diplomata Jório Dauster, presidente da Brasil Ecodiesel, produtora de mais da metade do biodiesel do país, diz que "embora possa parecer estranho não advogar a imediata cessação de medida tão claramente protecionista", ele acha que uma cota de importação livre de taxas seria melhor para os produtores brasileiros do que o fim dos subsídios para a produção do etanol do milho nos Estados Unidos.

Dauster admite que "o Brasil não tem condições de elevar substancialmente suas vendas de etanol aos Estados Unidos nos próximos anos sem gerar um perigosíssimo desabastecimento do mercado interno".

Por isso, ele acha que ""o ideal é que os Estados Unidos concedam ao Brasil uma cota de importação livre de taxas que, não sendo de início muito grande, cresça automaticamente nos anos seguintes, dando assim tempo e segurança aos fabricantes nacionais para realizarem os vultosos investimentos exigidos pelo aumento do plantio de cana e pela construção de novas usinas".

Um trabalho de Mauro de Rezende Lopes, do Conselho Consultivo do Instituto Brasileiro de Economia, (IBRE) da FGV do Rio, mostra que os ganhos para o Brasil com a eliminação dos subsídios internos e subsídios às exportações "são pífios, próximo de zero".

O interesse do Brasil, a julgar pelos resultados, diz ele, está no acesso a mercados - redução de tarifas para a entrada de nossos produtos em mercados dos países desenvolvidos, que protegem suas agriculturas com tarifas elevadíssimas.

"Se houver uma redução de tarifas, os subsídios caem por si só, como mostra o estudo. A queda de tarifas desarma todo o sistema de proteção - tarifária e com subsídios. Atacar subsídios, sem atacar a proteção tarifária, vai facilitar a vida dos países desenvolvidos nas negociações de Doha".

O embaixador Jório Dauster lembra que o projeto de cooperação com os Estados Unidos tem como objetivo básico definir padrões técnicos comuns para o etanol, "providência essencial para que o produto se torne efetivamente uma commodity capaz de ocupar um espaço relevante no mercado internacional".

Embora na época de seu lançamento tenha servido também para amenizar as queixas do presidente Lula contra o protecionismo norte-americano, esse acordo, lembra Dauster, "só indiretamente poderá conduzir à abertura de mercado que almejamos a médio prazo".

Tanto McCain quanto Obama, que tem um programa de investir US$150 bilhões para nos próximos dez anos tornar os Estados Unidos independentes com energias alternativas, citaram os árabes ou a Venezuela como países que deveriam ser evitados no fornecimento de energia no futuro.

Não é à toa, portanto, que no acordo entre Brasil e os Estados Unidos está dito que a América Central e o Caribe são as regiões-chave escolhidas para um trabalho conjunto para levar os benefícios dos biocombustíveis, regiões de influência geopolítica claramente norte-americana.

O que os produtores americanos temem é que este acordo permita que produtores brasileiros se utilizem dos acordos de livre comércio entre os estados Unidos e a América Central e o Caribe, para usá-los como plataforma de exportação sem pagar tarifas.

No memorando de entendimentos, está definido que a expansão do mercado de biocombustíveis será feita por meio da cooperação para o estabelecimento de padrões uniformes e normas.

O Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial ( Inmetro) e o Instituto Norte-Americano de Padrões e Tecnologia (Nist) serão os órgãos responsáveis pela definição dos padrões e eles já têm um programa de cooperação em Metrologia e Padrões para Biocombustíveis, para ampliar o conhecimento científico e tecnológico dos biocombustíveis, especialmente sobre seu conteúdo energético, efeitos sobre meio ambiente e a saúde.

A troca de informações facilitará também a adoção de padrões e normas comuns, e a redução de barreiras técnicas relacionadas a medições, padrões e normas. À medida que esses padrões ganharem credibilidade internacional, novos mercados potenciais, como o asiático, poderão ser alcançados.

O economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, acha que o Brasil poderia tirar vantagem de uma decisão de Barack Obama de, eleito presidente, colocar em prática uma política energética realmente baseada em garantir uma maior segurança energética, preocupada com as emissões de CO2 e com soluções energéticas globalizadas.

"Ou seja, diversificar a compra de energia, privilegiando as mais limpas e ao mesmo tempo evitar soluções internas mais caras. Isso ajudaria a assinatura de acordos de cooperação e a uma maior penetração do etanol brasileiro no mercado americano".

Ele ressalta que o nosso etanol é competitivo com petróleo a US$40/barril.

Moral da crise


Rubens Ricupero
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Como no New Deal, só uma nova correlação de forças salvará o modelo americano de recaídas periódicas

AS ANÁLISES da crise financeira falam de tudo, menos de moral e de política. Dão a impressão de que o problema se limita a aspectos técnicos, sem vinculação com os valores éticos e independentes das relações de poder.

Joseph Stiglitz foi o único a observar que a crise teria sobre o fundamentalismo de mercado o mesmo efeito que teve a queda do Muro de Berlim sobre o comunismo. Poderia ter acrescentado que a ligação dos dois eventos não é só comparativa. O fim do socialismo foi um maremoto político. O vácuo ideológico e o desequilíbrio de forças conseqüentes tornaram possível aquilo que era antes inconcebível: a absoluta hegemonia dos mercados financeiros e os excessos responsáveis pelo colapso atual.

Nos Estados Unidos, o setor financeiro saltou de 10% do total dos lucros corporativos em 1980 para 40% em 2006, apesar de gerar apenas 5% dos empregos! Não se avança sobre quase metade dos lucros da economia sem contar com a cumplicidade do sistema político. A mudança de poder que abriu o caminho à hegemonia financeira foi, nesse período, a "revolução" neoconservadora de Reagan e de Thatcher, consolidada por Clinton e pela "terceira via" de Blair.Sua ideologia era a mistura de globalização com liberalização. Globalização entendida como unificação em escala planetária dos mercados, sobretudo para as finanças. Liberalização no sentido de eliminar tudo que pudesse limitar as oportunidades de negócios. A fiscalização ficaria por conta da suposta capacidade auto-regulatória dos mercados.

Nesse clima, poucos ganharam muito, mas a desigualdade explodiu, o emprego se tornou precário, o salário real estagnou, multiplicaram-se as fusões com cortes de milhares de vagas, os melhores empregos industriais foram terceirizados para países de baixos salários.O apodrecimento moral desse fim de reino era já perceptível em 2002, durante os escândalos da Enron, da WorldCom e de outras empresas que ocasionaram ao índice Nasdaq a perda de três quartos do seu valor, cerca de US$ 5 trilhões!

Na época, o banqueiro Felix Rohatyn escreveu que o dano causado ao capitalismo norte-americano era de tal gravidade que nem Lênin teria feito melhor!

Exagero, pois tudo se esqueceu: o papel dos bancos de investimento como o Goldman Sachs e o Merrill Lynch, a desmoralização das agências de avaliação de risco e de auditoria, todos novamente co-autores do desastre de agora. A lei Sarbanes-Oxley, as normas mais rigorosas de transparência contábil, nada foi capaz de evitar a repetição da catástrofe em dimensão maior. Alegava-se que o sacrifício dos seres humanos e da moral era o preço a pagar pela eficiência e pela racionalidade impostas pela globalização.

Contudo, longe de ganhar vigor e competitividade, o setor produtivo norte-americano parece um campo de ruínas.

A autodestruição econômica a que assistimos foi prevista por Emmanuel Mounier, meio século atrás: "Por mais racional que seja, uma estrutura econômica baseada no desprezo das exigências das pessoas contém os germes de sua própria condenação".

Da mesma forma que no New Deal dos anos 1930, só uma nova correlação de forças políticas que devolva sentido moral à economia e a recoloque a serviço do interesse do maior número salvará o modelo norte-americano de recaídas periódicas e de inelutável declínio em competitividade produtiva e adesão dos cidadãos.

RUBENS RICUPERO , 71, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

Giannotti teme uma crise da democracia

Elio Gaspari
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Está aberto o espetáculo para o aparecimento de demagogos e salvacionismos autoritários

O PROFESSOR JOSÉ Arthur Giannotti está preocupado. Talvez seja a única pessoa preocupada que não acompanha o movimento das Bolsas. Sua ansiedade relaciona-se com a democracia. Ele acredita que o Brasil experimenta uma prática democrática "na casca", enquanto o núcleo das instituições nacionais vive um surto de autoritarismo que pode não acabar em boa coisa. A desmoralização dos costumes políticos, a impunidade das malfeitorias praticadas pelo aparelho do Palácio do Planalto, bem como a marginalização do Congresso, levam água para propostas salvacionistas e demagogos. Se fosse necessário algum sinal de que os temores do professor são justificados, bastaria o exemplo da concepção e do cenário da edição da medida provisória do ProTudo.

Os feiticeiros da Fazenda, do Banco Central e do Planalto redigiam a MP num prédio da praça dos Três Poderes enquanto os doutores Guido Mantega e Henrique Meirelles estavam na Câmara, relatando aos parlamentares as providências que o governo tomava para proteger a economia nacional. Não disseram uma só palavra sobre o ProTudo. Levando-se em conta que a MP seria remetida ao Congresso, alguém fez papel de paspalho. Talvez os parlamentares, talvez todos.

O grande antecedente remoto da atual crise justifica os receios de Giannotti. Diante da Depressão dos anos 30, o presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt montou um sistema que foi a um só tempo redentor para o futuro da sociedade americana e um exercício de autoritarismo federal. Cavalgando a opinião pública e o Congresso, Roosevelt só foi barrado pela Corte Suprema e, ainda assim, tentou empacotá-la, criando um sistema pelo qual acrescentaria seis novos ministros aos nove existentes.

Roosevelt, um aristocrata, perseguiu empresários e amargurou o fim da vida do banqueiro Andrew Mellon, secretário do Tesouro de seus três antecessores. Mesmo assim, teve perigosos demagogos mordendo-lhe os dedos. O maior deles foi Huey Long, o adorado larápio que governara a Louisiana e pretendia disputar a Presidência na eleição de 1936. Foi contido por uma bala na barriga. (A história de Long está no filme "A Grande Ilusão", com Sean Penn.)Felizmente, a sucessão americana desembocou numa disputa entre dois políticos moderados (noves fora as suspeitas de que Barack Obama flerte com medidas protecionistas). Se a bolha tivesse estourado em janeiro, o candidato republicano poderia teria sido Mike Huckabee, que propusera o confinamento dos aidéticos e defendia o emparedamento da fronteira com o México. Com Sarah Palin na vice, formariam a dupla do Deus-Me-Livre.

A crise econômica pode colocar o Brasil no trilho que leva ao aparecimento de excentricidades, como se deu com Fernando Collor. Ou ainda, à radicalização do governo a partir de propostas autoritárias que estão nas gavetas do PT. Coisas como "matriz ideológica" controlando a imprensa, a necessidade de se criar uma poderosa máquina de centrais sindicais e a transformação do Banco do Brasil e da Caixa num comi$$ariado de primeira e última instâncias.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1130&portal=

sábado, 25 de outubro de 2008

Luiz Werneck Vianna: 'Vai depender de uma fagulha'


DEU EM O GLOBO


O debate reproduziu muito o programa dos candidatos na TV e não creio que tenha representado o momento da decisão para o eleitor.

Para quem está indeciso, a escolha vai depender muito mais de uma fagulha qualquer a acontecer nas ruas ou de um sentimento.

O debate não deu elementos para alterar o estado de coisas entre eles, embora tenha ficado muito sublinhado que o candidato da tradição convencional é o Paes, com as máquinas articuladas ao estado até as máquinas periféricas das milícias, ligadas a Jorge Babu.

Já Gabeira se reforçou como a candidatura que aposta no movimento das ruas, imprevisível, porque depende da convicção.

Um representa uma política já estabelecida enquanto o outro tenta violar essa regra de ouro.

Vitoriosa ou não, a candidatura do Gabeira já mudou a política do Rio.

Não haverá outra eleição em que o discurso dele não seja consultado.


Com ele, a política está passando por fora das máquinas.


Se é com muita força, nós vamos ver, mas está passando.


Luiz Werneck Vianna é cientista político do Iuperj.

Eleições no Rio: namoro explicito entre Vladimir e Gabeira


Lucia Hippolito
DEU NO BLOG DE LUCIA HIPPOLITO


O último debate entre Fernando Gabeira e Eduardo Paes explicitou com toda a clareza o difícil dilema em que se encontra o eleitor carioca.


Não se trata de escolher entre dois candidatos, dois projetos, duas propostas.


Trata-se e escolher entre dois mundos diferentes.

De um lado, um competente candidato a gerente de uma grande loja de departamentos. Superintendente, talvez. Conhece profundamente o estoque, o preço da grosa de alfinetes, a utilidade de uma boa chave de fenda.

Do outro, alguém que é, em si mesmo um projeto. Uma proposta andante. Um Quixote da boa causa: a honestidade, a correção, o futuro, o sonho, uma nova forma de fazer política, novas práticas, novos métodos.

Um velho-moço contra um moço-velho. Velhíssimo.

No debate ao vivo, Eduardo Paes destilou números, competência, pegadinhas ridículas.

Declarou, depois do debate, que prefere o apoio de Jorge Babu ao apoio de César Maia.

(Jorge Babu, vereador pelo PT, foi preso pela PF junto com Duda Mendonça, coisa de dois anos atrás, em uma briga de galos no Rio. Hoje é acusado de comandar milícias na Zona Oeste.)

Gabeira foi bafejado pela sorte: por sorteio, iniciou e encerrou o debate. Ambos em tom maior, de grandeza. No miolo, foi mediano.

No final, teve seu dó de peito. Foi Gabeira por inteiro. Diferente, ousado, original. Chamou até os adversários para a grande conversação em favor do Rio. Bonito.

Mas o melhor do debate, assistido ao vivo no Rio, foram dois momentos-ternura.

Primeiro momento-ternura: ver Vladimir Palmeira (PT) e Francisco Dornelles (PP) juntinhos no cercadinho dos apoiadores de Eduardo Paes, trocando tapinhas nas costas, é feito a propaganda do Mastercard: não tem preço.

Segundo momento-ternura: Vladimir Palmeira rindo abertamente quando seu velho companheiro de militância, Fernando Gabeira, dava uma estocada em Eduardo Paes, seu recente aliado político.

Vladimir é um soldado do PT. José Dirceu já tentou esmagá-lo várias vezes com seu tacão (embora tenham sido também companheiros de militância estudantil).

Mas com Gabeira, o “namoro” era explícito. Vladimir ria abertamente a cada “saia justa” de Eduardo Paes.

A sopa da vingança, dizia minha avó, toma-se gelada.

O eleitor carioca está diante de uma escolha difícil.

Mas Gabeira mostrou que certos valores não morrem.

A cidade e seu futuro


Marco Aurélio Nogueira
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O prefeito de São Paulo a ser eleito amanhã estará chamado, como o foram todos os seus antecessores, a governar uma cidade que é um enigma a ser decifrado e uma potência a ser controlada. Se desejar inscrever seu nome na história, terá de ir além de rotinas e procedimentos-padrão, ser mais que administrador, coordenar mais que comandar.

Trata-se de algo universal. Estima-se que mais de 50% da população mundial vivam em cidades. Elas crescem por toda parte, transbordam seus centros e se espalham pelas periferias, desafiadoras. Impõem-se como arranjos implacáveis, que “civilizam” sem piedade, redefinem perfis e padrões, sufocam outros modos de ser. Todas as grandes decisões políticas e culturais são tomadas em cidades e estão nelas os principais núcleos geradores de vida moderna.

Vivemos sempre mais em cidades, mas elas são cada vez menos polis. Continuam a nos seduzir, mas não mais nos concedem um estilo de vida desejável. As cidades do nosso tempo estão se convertendo em amontoados de pessoas e não conseguem fornecer a seus moradores condições de usufruírem as vantagens da aglomeração: o encontro, a diversidade, o aprendizado da diferença e do respeito pelo outro, a luta coletiva. Em muitos momentos, assemelham-se a praças de guerra, teatro de batalhas inglórias, de um corpo-a-corpo travado com armas que vão da faca e do revólver à agressão verbal, à chantagem emocional, à ausência de cortesia e delicadeza, à indiferença. Massas de excluídos, sem-teto e desempregados perambulam quase a esmo, em meio a “incluídos” fechados em si e carentes de uma idéia de futuro. São Paulo não é exceção.

São assombrosas as dificuldades para que se reformem as cidades. A política só se ocupa delas como objeto de gestão, não de convívio, mais como espaço de mercados e automóveis que de pessoas. O planejamento urbano já não dispõe de força persuasiva e legitimidade. Está sendo subvertido pela dinâmica do capitalismo global e boicotado pelos mercados. Os interesses digladiam sem projetos e consensos. As cidades parecem à deriva, como se não conseguissem ser alcançadas pela razão política democrática e republicana. Tornam-se alvo fácil da razão técnica exacerbada, de administradores focados em controle e na construção compulsiva de obras e factóides.

É verdade que novas modalidades de gestão despontam no horizonte, anunciando articulações de novo tipo entre técnica e política, decisão e participação, gestão e cidadania. É verdade, também, que a rotatividade política propicia a chegada de novas pessoas e idéias ao governo das cidades. Os próprios moradores se movimentam sempre, ativando a reinvenção urbana. E as tecnologias da informação ajudam a impulsionar redes de comunicação e cooperação que se colam às utopias em gestação.

Não é suficiente. Como tornar sustentáveis nossas cidades e impedir que suas toxinas prejudiquem seus habitantes? Que fazer para livrá-las da racionalidade instrumental do poder e da técnica e abri-las à sensibilidade política, ao prazer estético, ao calor humano da democracia? Neste mundo de mercados escancarados, interessa pouco a cidade competitiva e funcional, produtivista e repressiva. Para vivermos e convivermos com dignidade precisamos de cidades agradáveis, capazes de expressar seus encantos, proteger e promover seus habitantes. Cidades seguras - não a cidade policiada, que veta a vida noturna ou o andar distraído, mas a cidade aberta, dialógica, de todos e para todos, que se auto-organiza.

São Paulo cresceu desordenadamente, com pressa errática. Foi sendo arrumada meio ao acaso, “planejada” a partir de óticas imperfeitas. Tornou-se uma cidade de bairros inventados, de avenidas para automóveis, de poucas praças, em que as antigas edificações são destruídas como coisas velhas, descaracterizadas ou largadas à especulação. Uma cidade de máquinas e negócios, mais que de pessoas, onde se circula e caminha com dificuldade, respirando mal e sem tempo de olhar a paisagem ou os outros.

Mas é absurdo combater as cidades, desprezá-las ou fugir delas. São Paulo nos perturba e incomoda, mas também nos fornece condições para imaginar formas superiores de convivência e luta pela vida. Não deveríamos temê-la, e sim aproveitá-la melhor. É insensato cogitar do recuo a comunidades ideais que negariam os males da modernização e realizariam o desejo de que se estabelecessem relações pessoais intensas, repletas de solidariedade, paz e harmonia.

A idéia de uma cidade sem problemas, conflitos e ruído social é uma ficção descolada da vida contemporânea. Paralisa, em vez de libertar. Cidades não são arranjos abstratos. Nascem do dia-a-dia coletivo, da história e da cultura enraizada, da surpresa e do inesperado, não do planejamento rígido, desejoso de substituir a face naturalmente tensa da cidade por uma harmonia de prancheta. Seu melhor motor é a democracia participativa organizada, impregnada de vida pública e diferenciação.

Quando olhamos São Paulo com atenção, descobrimos que por sob a feiúra se ocultam muitas belezas, por sob o caos há ordem, por sob a desorientação geral pulsam projetos de destino. Quando vamos além das aparências, vemos uma cidade de pessoas que constroem variadas formas de convivência e cultura, que lutam por uma vida melhor e querem governos melhores, capazes de escutá-las.

São Paulo é apenas aquilo que precisamos redescobrir a cada dia: uma cidade de carne e osso, verde e cimento, máquinas e pessoas, ordem e caos. E é nela como construção coletiva, com suas virtudes e contradições, que devemos pensar para agir. Se descobrirmos como politizá-la, organizá-la democraticamente, enchê-la de cidadania e cultura, se soubermos, em suma, urbanizá-la de modo pleno, teremos o futuro.

Que os eleitores amanhã e o próximo prefeito, ou prefeita, procurem assimilar essas expectativas.

Marco Aurélio Nogueira, professor de Teoria Política da Unesp, é autor dos livros Em Defesa da Política (Senac, 2001) e Um Estado para a Sociedade Civil (Cortez, 2004).

Crimes e castigos


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, foi rápido e rigoroso: na quarta-feira leu errado o nome do presidente do Senado numa cerimônia no Palácio do Planalto e, no dia seguinte, a funcionária responsável pelo discurso estava devidamente afastada de suas funções no cerimonial da Casa.

O crime da moça: acrescentou um inexistente “José” antes de Garibaldi Alves, que aproveitou a deixa para uma piada e fez a platéia rir da presumida gafe.

Chinaglia achou gravíssimo: “Não posso minimizar (o erro) na medida em que o próprio presidente do Senado se incomodou, eu nem tinha percebido, mas devo explicações a ele”.

Para ventura do bom senso, Garibaldi preferiu não comentar a menção honrosa.

Talvez porque tivesse se sentido mais honrado se o presidente da Câmara não o deixasse apanhar sozinho por causa da resistência do Senado em cumprir a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre nepotismo.

Por imposição constitucional, há dois meses o STF mandou que os Poderes da República demitissem os parentes de agentes públicos contratados em cargos de confiança, até a terceira geração.

Arlindo Chinaglia disse que a Câmara há muito proíbe a prática e que se parentes houvesse de forma irregular nos gabinetes, os próprios deputados deveriam tomar a iniciativa de demitir seus familiares.

Empenhou sua palavra na lisura dos parlamentares, mas não tomou a causa a pulso, não exibiu levantamentos, deixou as coisas correrem por si.

Enquanto isso, Garibaldi sentado na berlinda pagava o preço de uma decisão estúpida da Mesa Diretora - presidida por ele, diga-se - de abrir uma exceção à decisão judicial para os parentes contratados antes do início do mandato do senador ao qual são ligados.

Passou-se a discutir a “brecha”, em detrimento da cobrança sobre o todo. O Senado desde o anúncio da decisão vem tratando do tema. Lá houve prazo para as demissões e, bem ou mal, empurrado e na pressão, apresentou a exoneração de 86 parentes de senadores.

Quantos são os demitidos na Câmara? Se poucos, muitos ou nenhum, ninguém ficou sabendo. E na administração federal saíram quantos? As assembléias legislativas, as câmaras municipais, os governos dos Estados, o Judiciário, estão todos devendo a apresentação do balanço das providências.

Se foram tomadas, merecem divulgação. Se não foram, o poder público, na ilegalidade, está à mercê do Ministério Público.

Não foi apenas Chinaglia quem tratou a proibição do nepotismo como assunto sem maior importância. Mas só ele deu de público um exemplo perfeito sobre proporção entre crimes e castigos, ao afastar a servidora cujo único delito talvez tenha sido pensar em Giuseppe Garibaldi na hora de escrever o nome do Garibaldi sem José.

Torcida organizada

O alto comando do tucanato está em clima de fervorosa reza pela vitória de Fernando Gabeira no Rio. Se ganhar, terá os governos de São Paulo e Minas à disposição.
José Serra avisa que se “muda” um mês para o Rio se for preciso e Aécio Neves oferece toda a equipe para, se eleito, Gabeira usar como quiser.

E por que tanto mimo? Porque seria o primeiro resultado importante do PSDB em muitos anos no Rio, onde o partido entrou em acelerada decadência e hoje é presidido por Zito, um político da Baixada Fluminense cheio de votos e processos.

Na avaliação da cúpula do partido, entrar assim na batalha da sucessão seria um risco. Principalmente porque ali o desempenho do PSDB nas duas últimas eleições presidenciais foi pífio e Lula investiu pesado na aliança com o governador Sérgio Cabral.

Mesmo saco

Saiu de graça a penalidade em forma de multa aplicada pela Justiça Eleitoral à campanha do prefeito Gilberto Kassab, tão óbvio foi o uso da máquina no episódio da transferência do cheque de R$ 198 milhões ao governo do Estado, para obras do Metrô.

Ficou tudo ainda mais barato (em todos os sentidos) em virtude da perda de autoridade moral do PT para acusar alguém de usar a administração pública para fins eleitorais.

A luta continua

Se Marta Suplicy tiver cumprido a ameaça de partir com tudo para cima de Gilberto Kassab no debate de ontem à noite na TV Globo, não terá sido na esperança de virar o jogo na última hora.

A agressividade do segundo turno antecipa o tom da oposição em território paulista, amostra grátis do que enfrentará o próximo presidente da República se o eleito for adversário do PT.

Amarga ilusão

Para que o apoio deste ou daquele partido ou governante influenciasse no voto, seria preciso que os políticos estivessem em alta junto ao eleitorado.

Como não estão, mas se acham todos verdadeiros guias geniais dos povos, dão à regra o caráter de exceção e seguem acreditando no poder da transferência de votos.

Pré-sal e etanol, vítimas da crise


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A crise econômica internacional não atingiu apenas o Brasil com a maior queda mundial das Bolsas de Valores - já chegou a 50% este ano - ou com as perdas das empresas, especialmente as exportadoras, que tentaram especular contra o dólar na crença do real forte. Graves danos colaterais atravessaram o Atlântico e vieram pegar desprevenidos dois dos maiores emblemas da gestão lulista: o petróleo do pré-sal tornou-se da noite para o dia inviável economicamente, e o etanol perdeu sua atratividade, tudo por conta da queda do preço internacional do barril de petróleo, cotado hoje abaixo dos US$70, preço, aliás, previsto para todo o próximo ano.


No quesito pré-sal, que o presidente Lula pretendia transformar em seu carro-chefe na campanha presidencial de 2010, não bastasse o preço do petróleo, só a dificuldade de conseguir financiamento para a caríssima operação de perfuração já tornaria o empreendimento de difícil execução a curto prazo, como planejava o governo.

O preço do barril de petróleo caindo aos níveis em que estão tornaram o petróleo do pré-sal uma radiosa promessa para tempos mais propícios.

O próprio governo, através de seu ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, já havia anunciado que o barril do petróleo abaixo de US$80 não justificaria economicamente o empreendimento.

Os testes em 2010 em dois poços do pré-sal no campo de Cachalote, em plena campanha eleitoral, mantidas as condições econômicas, servirão apenas para a foto do presidente Lula com o macacão amarelo e a mão suja de petróleo, da mesma maneira que quando comemorou a auto-suficiência brasileira do petróleo, que só existe na teoria.

Na prática, continuamos tendo que importar óleo leve e desde 2006, o ano do anúncio oficial da auto-suficiência, continuamos tendo déficit. Em agosto deste ano, por exemplo, o país importou nada menos do que US$818 milhões em petróleo.

Com relação ao etanol, para nosso desconforto, quem está mais empenhado em rever os subsídios dos produtores americanos é o candidato republicano John McCain, que, tudo indica, não vai ganhar.
No último debate presidencial, McCain se referiu ao etanol produzido no Brasil com base na cana-de-açúcar, e prometeu que cortaria a tarifa imposta à importação do produto brasileiro "porque distorce o mercado".

De fato, o custo subsidiado da produção do litro de etanol de milho é de US$0,30 nos Estados Unidos, enquanto o de cana, sem subsídios, no Brasil, é de US$0,22. Brasil e Estados Unidos detêm cerca de 70% da produção mundial de álcool, e outros produtores são Índia, China, África do Sul e União Européia.

Tanto os Estados Unidos quanto a França, o quinto maior produtor mundial de etanol, fazem seu combustível com outros produtos que não a cana-de-açúcar - os EUA do trigo e milho, e a França da beterraba -, mas ambos os países têm que dar fortes subsídios para tornar o produto economicamente viável.

O forte lobby dos produtores americanos foi enfrentado por McCain durante a campanha, e ele não teve receio de defender o fim do subsídio até mesmo em Iowa, onde a produção americana tem seu centro. A ponto de um senador do estado, o republicano Charles Grassley, ter enviado uma carta ao presidente George W. Bush, na ocasião em que foi assinado um protocolo de cooperação entre Brasil e Estados Unidos, dizendo que não compreende por que o país usa o dinheiro do contribuinte americano "para encorajar a produção de etanol em outro país".

McCain afirmou também que cortaria os subsídios à agricultura, outra demanda dos países emergentes nas discussões da Rodada de Doha para abertura comercial internacional.

O economista Adriano Pires, consultor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, considera que uma das principais conseqüências da crise, a queda no preço do petróleo, representará em países como os Estados Unidos queda no preço da gasolina e dos demais derivados de petróleo, e comprometerá mais uma vez o mercado das energias alternativas ao petróleo.

"A não ser que o novo presidente americano se convença de que não se deve permitir que a crise retroceda todo aquele processo que já estava acontecendo no mercado americano de venda de automóveis com menor consumo de combustível, preocupação com o meio ambiente (CO) e com a segurança energética", ressalva ele, mas sem muita esperança.

"As empresas produtoras de etanol de milho nos Estados Unidos estão dando gigantescos prejuízos. O Bill Gates é um dos investidores que mais perderam. Tudo isso me leva a crer que, além de um maior protecionismo, característica de todo governo democrático, o grande problema do etanol brasileiro no mercado americano é o de como o novo governo americano vai elaborar a política energética num cenário de preços declinantes do petróleo", diz Pires.

Também o empresário e diplomata Jório Dauster, presidente da Brasil Ecodiesel, produtora de mais da metade do biodiesel do país, lembra que, "embora McCain mereça crédito por defender o acesso livre do etanol brasileiro ao mercado americano, não creio que, se chegasse à Presidência, poderia impor a um Congresso ainda mais fortemente dominado pelos democratas o fim imediato das taxas exorbitantes aplicadas ao produto brasileiro".

Infelizmente, analisa Dauster, "as práticas protecionistas tendem a ser exacerbadas não tanto devido à crise financeira como tal, mas por conta da recessão que está chegando em seu bojo".

Mantido esse quadro, Dauster não crê que possamos "esperar gestos generosos do Congresso para com o Brasil, tanto no etanol quanto em qualquer outra área, seja quem for o novo presidente".(Continua amanhã)

A crise e a casa tomada


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


MADRI - Coube a um escritor a melhor descrição da crise, noves fora a catarata de números e de expressões esotéricas como "swaps reversos".

Trata-se do mexicano Jordi Soler, radicado em Barcelona, da qual emigraram seus pais. Em artigo para "El País", Soler recupera o conto "Casa Tomada", do argentino Julio Cortázar, para explicar tudo. É a história de dois irmãos quarentões que vivem em uma casona herdada, têm um cotidiano banal, "uma vida quase perfeita".

Até que um dia, do fundão da casa, ao qual nunca iam, vem "um ruído impreciso e surdo, como o de uma cadeira caindo sobre o tapete ou um sussurro de conversa". O irmão avisa a irmã: "Tomaram a parte dos fundos". Aos poucos, vão tomando o resto até encurralá-los na garagem.

Pois é, a crise é assim. Sujeito oculto, sem rosto, mas invasivo. No começo, tomou a parte dos fundos (a crise das hipotecas subprime).

Foi avançando, avançando e já sufoca agora a parte da casa -os países ditos emergentes- que todos, governantes e palpiteiros, diziam estar absolutamente blindada.

O mundo parece encurralado. Alguns países na garagem, outros no porão, terceiros em cantos ainda confortáveis (China e seus 8% de crescimento, por exemplo), um completamente exangue (a Islândia). O pior é que ninguém sabe até onde irá o sujeito sem rosto, mesmo porque todos os sábios que faziam previsões desistiram de fazê-las -o que é, aliás, o único ganho com a crise. Não li o conto de Cortázar para poder saber como é o final e se a crise tende a ter desfecho idêntico.

Mas li o texto de Soler, que termina assim: "Damas e cavalheiros, a casa está oficialmente tomada. Mas por quem?"

Será que pelo menos isso os sábios poderiam se dignar a responder -ou se sentem cúmplices?

As restrições mentais do governo


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Brasília não tem nenhuma culpa pela crise moral e ética que assola os três poderes. Uma cidade, um país é responsável pelos erros e falcatruas dos governos, sejam os que conservam a máscara democrática ou os que chafurdam nos pântanos das ditaduras.

O único caso que eu conheço de um país ser apontado como desequilibrado mental está no fundo do baú da memória dos velhos tempos do Congresso funcionando no Rio, ainda capital, e que o saudoso deputado Hermes Lima gostava de contar nas rodas de conversa na sala do café. Em reunião de uma Comissão para emitir parecer sobre uma proposta de reforma agrária, o venerando senador Clodomir Cardoso aparteou, sustentando que nenhum país realizaria um projeto como aquele. Hermes rebateu: "Este é o modelo do México". E Clodomir em cima da bucha: "Ora, o México! O México é maluco!".

Já não se pode dizer o mesmo das restrições mentais, expressão cunhada pelo talento do jornalista, escritor, acadêmico e autor das melhores prosas da crônica deste país, o mineiro Otto Lara Resende. Ao redigir o texto da entrevista do marechal Teixeira Lott, logo depois do golpe militar de 9 de novembro de 1955 – que derrubou o presidente João Café Filho, acusado de conspirar contra a posse do sucessor eleito, Juscelino Kubitschek – Otto hesitou diante da rudez da confissão do ministro da Guerra demitido pelo presidente em exercício, deputado Carlos Luz, de que mentira ao negar o fato ao general Fiuza de Castro, já nomeado para substituí-lo, quando perguntou, pelo telefone, se havia algum movimento de tropa. Otto buscou o sinônimo de mentira e não achou nenhum na longa lista de qualquer dicionário. E criou as restrições mentais, de longo consumo nas conversas políticas, com as mais variadas aplicações.

Retomamos o fio da meada. Brasília nasceu perfeita, em parto prematuro, antes de estar pronta para atender à justa urgência da volta do JK-65 da sua perdição. Riscada numa folha de papel pela genialidade de Lúcio Costa, com o traçado revolucionário da Praça dos Poderes reunindo as sedes do Executivo, de Legislativo e do Judiciário e onde começam as lar gás avenidas da Esplanada dos Ministérios, do setor bancário e as vias de toda uma cidade. E com o gênio de Oscar Niemeyer solto na criação de prédios e palácios, que são jóias da humanidade.

Posso depor, pois testemunhei os debates acalorados na Câmara dos Deputados, no Palácio Tiradentes. E mantenho duas convicções de mais de meio século. A primeira é que a oposição udenista, com a sua brilhante bancada de oradores, como nunca mais se viu outra igual ou parecida, só não obstruiu até o último fôlego a aprovação da mudança para Brasília porque não acreditou que JK realizasse as obras a tempo de inaugurá-la. E a segunda, por medo do deputado udenista de Goiás, Emival Caiado, com físico de levantador de peso e fanático da transferência da capital para terras vizinhas ao seu Estado. Para o deputado Emival Caiado, a mudança da capital era um dogma, que não admitia dúvida ou discussão. Mas, se Brasília não mentiu, muitos apelaram para as restrições mentais para derrubar, uma a uma, muitas das apregoadas vantagens de mudança, que esvaziou o Rio e negou o sonho dos seus fundadores.

Nos debates parlamentares, os benefícios da mudança para o serrado, além das obviedades do estímulo ao desenvolvimento da região, da interiorização do progresso, os sinos bimbalhavam o sossego, a tranqüilidade de uma capital prevista e construída para acolher uma população de, no máximo, 500 mil habitantes, com previsão para o estouro de 600 mil.

O Executivo, o Legislativo e o Judiciário, nos amplos palácios, com largos espaços para jardins, garantiriam o sossego, a tranqüilidade do interior brasileiro para o exercício da atividade de cada um, com a independência e a harmonia facilitadas pelas condições ideais. Mentiriam em nome de Brasília. A capital, que o meu compadre e saudoso amigo José Aparecido de Oliveira, quando governador, conseguiu incluir entre os patrimônios da Humanidade, bate recordes vergonhosos do estouro populacional e pode enrubescer de vergonha com os seus 2 milhões, cinqüenta e um mil, cento e quarenta e seis habitantes do último censo. Nada funciona na cidade cercada por favelas, pela violência, pelos traficantes e com todos os vícios do progresso.

A conversa não acaba aqui.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Gabeira: caminhada hoje e amanhã


24/10


- Oficina de criação de camisas, 14h, leve sua camisa, seu pano e sua criatividade. Buraco do Lume, Rua S. José esquina com Av. Rio Branco (próximo a estação Carioca do Metrô).

- Caminhada pelo centro, 16h30. Saída do buraco do Lume.


25/10


- Caminhada silenciosa de apoio, saída do Leme (em frente a Av. Princesa Isabel), às 10h.

Gabeira: 'Domingo vamos surpreender de novo'


DEU EM O GLOBO


RIO - Num discurso inflamado para uma platéia de quase 500 pessoas, o candidato a prefeito do Rio Fernando Gabeira (PV/PSDB/PPS) participou na noite desta quinta-feira de um dos maiores atos de sua campanha. Ao lado do vereador Alexandre Cerruti, da tropa de choque do prefeito Cesar Maia (DEM), Gabeira falou por cerca de meia hora num clube de Guadalupe, na Zona Norte. Ele afirmou que "problema de saúde não se resolve com propaganda" e pediu que a campanha pelo voto consciente do Tribunal Eleitoral Superior (TSE) seja lembrada no domingo.

Durante o encontro, Gabeira disse ainda que houve uma tentativa de apresentá-lo como um "candidato grã-fino da Zona Sul". Disse também que a vereadora Lucinha (PSDB) está empolgada com a sua campanha. Ele e Lucinha se envolveram numa polêmica, no início do segundo turno, depois que que Gabeira disse que ela "estava de salto alto" e tinha uma "visão suburbana", referindo-se à polêmica construção do aterro sanitário de Paciência. Lucinha já desculpou Gabeira e o apóia.

" Hoje estamos empatados na Zona Oeste e vamos ganhar. Também estamos na frente na Zona Norte e vamos dar uma surra "

- Hoje estamos empatados na Zona Oeste e vamos ganhar. Também estamos na frente na Zona Norte e vamos dar uma surra - disse Gabeira, que comentou o resultado das últimas pesquisas. - Falei de pesquisas que fizemos e da sensação que temos nas ruas, mas já surpreendemos uma vez e vamos surpreender de novo no domingo.

A questão da saúde pública também foi citada por Gabeira durante o encontro organizado pelo vereador do DEM:


- O problema de saúde não se resolve com propaganda - disse Gabeira, referindo-se às Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), uma das principais promessas de campanha do seu adversário, Eduardo Paes (PMDB/PP/PTB/PSL).

Cerruti também discursou. Ele pediu aos convidados do encontro que fizessem uma corrente por celular pedindo votos para Gabeira.

- O Gabeira está fazendo uma campanha limpa. O outro (Paes) é um ingrato. Cuspiu no prato que comeu negando as suas origens. Está fazendo qualquer tipo de acordo para ter o poder - criticou Cerruti, que também já foi administrador regional de Cesar Maia.

À tarde, Gabeira fez corpo-a-corpo em Bonsucesso. Ele estava acompanhado dos vereadores do DEM Índio da Costa e João Cabral. No meio do corpo-corpo, próximo à Praça das Nações, militantes do PMDB seguiram cabos eleitorais de Gabeira, fazendo provocações. Eles acompanharam toda a agenda do candidato do PV no local.

À noite, Gabeira recebeu o apoio do prefeito eleito de São João do Meriti, Sandro Mattos, um dissidente do PR, partido que oficialmente apóia Paes.

Gabeira ainda cita Obama ao rebater críticas de Paes

Gabeira respondeu ainda às críticas de Paes, que o acusa de não ter experiência administrativa.


Gabeira citou o presidente Luiz Ina´cio Lula da Silva, o governador Sérgio Cabral e o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama, como exemplos de pessoas que também não tinham experiência anterior.


- Posso mencionar o caso de Lula e Sérgio Cabral, que não tinham essa experiência e hoje estão aí. Outro exemplo é a história dos EUA, onde a grande crítica é feita a um candidato que está à frente das pesquisas e não tem experiência administrativa. Os candidatos da oposição que ainda não chegaram ao governo sempre sofrem esse tipo de crítica - disse.

Gabeira disse que não estava comparando a sua campanha com a de Obama.

- Se eu disser isso, todos amanhã vão dizer que sou pretensioso. Minha trajetória é diferente. O que conquistei no Rio foi com o mínimo de recursos. Já Obama teve uma arrecadação milionária e recorde - afirmou o candidato.

Rebeldes do PDT dão apoio ao candidato verde

O espaço da Cinelândia conhecido por Brizolândia, palco de grandes manifestações políticas dos anos 80, foi o ponto de encontro desta quinta entre Gabeira e dissidentes do PDT - o partido apóia o adversário Eduardo Paes. Estavam presentes a deputada estadual Sheila Gama e do ex-deputado por cinco mandatos José Maurício Linhares do diretório nacional do partido.

No encontro, Gabeira falou dos militantes do PDT, que costumavam ir às ruas na época que Leonel Brizola era líder do partido, e lembrou da mobilização em torno de sua campanha para a prefeitura.

- Hoje temos nove mil voluntários na campanha. São pessoas que trabalham sem receber nada. Esse fenômeno só existe, neste momento, nos Estados Unidos, onde há um candidato se mobilizando da mesma maneira - comentou Gabeira.

O prefeito eleito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, foi o primeiro a se manifestar a favor de Fernando Gabeira, contrariando a decisão do partido. Ele foi seguido pelo deputado federal Miro Teixeira, também do PDT.

Destino, vocação e estilo


Nelson Motta
DEU EM O GLOBO


A primeira morte simbólica do Rio de Janeiro foi em 1960, com a mudança da capital para Brasília. A segunda, em 1976, na fusão, forçada pelo governo militar, da metrópole cosmopolita com o Estado do Rio atrasado e dominado pelo coronelismo. A terceira, em 1998, quando Lula, Zé Dirceu e Genoino intervieram no diretório carioca do PT, destituíram a candidatura de Vladimir Palmeira e se aliaram ao brizolista Garotinho, entregando o estado e a cidade para oito anos de atraso e populismo provinciano.

Brizola era gauchíssimo, nunca entendeu o Rio de Janeiro e o espírito carioca. Costeava o alambrado e passava mais tempo em sua fazenda no Uruguai do que na cidade. Se sentia melhor no interior, mais próximo de suas raízes e metáforas rurais, terreno fértil para o crescimento do populismo trabalhista, que se apoderou do espólio do clientelismo chaguista.

O populismo provinciano de Garotinho uniu as bases brizolistas e petistas e conquistou o governo do Estado, com a massa dos votos do interior, porque na cidade do Rio de Janeiro o marido de Rosinha jamais ganhou eleição. Pior: no Rio sempre foi ridicularizado, como na sua famigerada greve de fome. Castigou a cidade com rancor e ressentimento, além de entrar em guerra com a prefeitura e o governo federal. No meio do tiroteio, o Rio pagou o pato.

Que metrópole resistiria a dois governos Brizola e dois Garotinho/Rosinha, com um Moreira Franco no meio? Eles teriam quebrado Tóquio, Madri ou São Paulo. O Rio de Janeiro conseguiu não só sobreviver como continuar lindo.

Não por acaso o seu nome completo é Mui Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, e seu padroeiro um santo crivado de flechas. É destino, vocação e estilo.

Porque, depois das três mortes, o destino do Rio é renascer, se reinventar como metrópole, viver sua vocação para a natureza, as artes, a convivência e a inovação. A cidade precisa desesperadamente de um novo estilo de fazer política, de tentar uma nova forma de governar democraticamente, com independência e transparência, criatividade e eficiência. Quem sabe o renascimento começa domingo?

NELSON MOTTA é jornalista.

Quadrilátero da saia-justa


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

De cada ângulo que se olhe, essa eleição municipal revela fatos e consolida evidências que derrubam teorias eleitorais recentemente elaboradas a partir de um único dado: a popularidade do presidente Luiz Inácio da Silva.

A campanha do segundo turno revogou a crença inabalável de políticos e marqueteiros na doutrina “paz e amor” e, no caso das disputas mais excitadas, vai levando ao chão também a tese de que o contraditório é coisa do passado - quando não de gente golpista - e o consenso, sinal de evolução cívica, uma meta a ser perseguida pelos adeptos da “nova política”.

No primeiro turno as urnas já haviam derrubado o mito do “poste”, desmentido assertivas sobre a transferência automática de votos e arquivado a idéia do Palácio do Planalto de transformar o resultado da eleição de prefeitos numa interpretação plebiscitária sobre o governo Lula, com o objetivo de estabelecer desde já as balizas para a armação do jogo da sucessão presidencial em 2010.

Nas capitais dos quatro maiores colégios eleitorais do País, a eleição produziu surpresas e muitas divergências às quais o eleitorado aderiu com tanto entusiasmo que, à exceção de São Paulo onde o quadro é praticamente de definição, a final de domingo será disputada voto a voto.

São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador desenham um legítimo quadrilátero da saia-justa para o governo federal. Sejam quais forem os resultados, o Planalto não colherá amenidades. As derrotas serão estrondosas e as vitórias vão requerer uma administração de prejuízos.

Salvador é o caso típico. O governador petista Jaques Wagner trava embate direto com o ministro pemedebista Geddel Vieira Lima em clima de acirramento tal que, ganhe o PT ou o PMDB, o dia seguinte será de lamentações na base governista.

Por mais que o eleitorado faça sua opção entre dois candidatos obviamente aliados ao presidente Lula, o placar de 40% (PT) a 50% (PMDB) nas intenções de voto exibe um eleitor capaz de distinguir entre um e outro. Escolhe pelas diferenças evidentes na vida real, não pelas semelhanças existentes só no jogo da política congressual e palaciana.

Belo Horizonte, na teoria fadada à tranqüilidade da homologação do escolhido pela união entre o governador tucano Aécio Neves e o prefeito petista Fernando Pimentel, na prática ocorreu na base do supetão.

No início, Márcio Lacerda subiu de 6% para mais de 30% em uma semana, foi atropelado nos últimos cinco dias pelo adversário Leonardo Quintão que começou o segundo turno com 18 pontos porcentuais na frente e, em 10 dias, a vantagem virou desvantagem.

Não houve mágica: governador e prefeito desceram do pedestal, deixaram o candidato aparecer, expuseram o perfil do adversário e explicaram o sentido das escolhas.

O mocinho bonito do PMDB significa a volta das velhas estruturas simbolizadas na figura de Newton Cardoso e o senhor circunspecto patrocinado por eles representa uma aliança administrativa construída ao longo de seis anos com a aprovação de 80% da população.

Caso consigam mesmo consolidar a dianteira, como parece, Aécio e Pimentel só fazem maiores os equívocos do primeiro turno, pois teriam ganhado bonito com um pouco de empenho e atenção ao fato de que ninguém está dispensado de combinar com os russos as regras do jogo.

Em São Paulo, os 17% pontos porcentuais de vantagem de Gilberto Kassab são os mesmos de dez dias atrás, antes de o PT pôr em prática a estratégia mediante a qual seria desconstruída a imagem do prefeito, conquistada a classe média e desmontado o alegado preconceito dos conservadores contra Marta Suplicy.

Não aconteceu nada. As pesquisas não registraram nem sequer o efeito do notório questionário a respeito da ausência de mulher e prole dentro da casa de Kassab. Para a biografia de Marta ficou péssimo e para o ato do voto tanto faz como tanto fez.

Se as pesquisas conferirem com as urnas, a tão falada “baixaria” terá passado ao largo da sensibilidade do eleitor e valido uma equação muito mais simples: a divisão dos tucanos no primeiro turno virou soma no segundo.

Só uma vez o PT conseguiu os votos dos não-petistas: quando Marta - na ocasião uma novidade sem o ranço da antipatia que viria a acompanhá-la - concorreu contra um Paulo Maluf já descendente em 2000.

No Rio acontece o confronto mais interessante. Ali, a força bruta deu resultado. O candidato do PMDB, Eduardo Paes, abriu mão de qualquer delicadeza de caráter e assim conseguiu sustentar um empate, com ligeira vantagem, na base da manipulação de preconceitos, subserviência política e até uma mal ajambrada luta de classes.

Se ganhar, será ao preço do conceito: sai menor do que entrou, enquanto Fernando Gabeira, no caso de ser o perdedor, fica com a marca da grandeza para futuros investimentos.

A longa espera de três dias


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


De hoje até a noite de domingo, com os resultados oficiais das eleições para prefeitos e vereadores, quem tiver um pingo de juízo fecha ou fiscaliza a boca para não cair no atoleiro das cobranças.

Se o presidente Lula nem sempre é bom exemplo de sabedoria e bom senso e andou perdido nas contradições e erros táticos grosseiros na reta final da campanha antes de recolher-se à clausura do seu gabinete no Palácio do Planalto, esta semana caiu na realidade – que é dos tombos mais perigosos com os riscos de escoriações e fraturas – fechou a torneira dos palpites e seguiu a receita de "trabalhar, trabalhar e trabalhar".

Deve estar exausto, mas de alguma maneira aliviado, pois a campanha parece empenhada em desmentir ou enlouquecer os institutos de pesquisa com as cambalhotas dos índices em pelo menos três das grandes capitais.

A começar pelo Rio – a nossa abandonada ex-Cidade Maravilhosa, que passa pela mais grave crise de inchaço caótico, com a superpopulação que transborda para as favelas dominadas pelas gangues do tráfico, trânsito infernal, o centro invadido pelos trombadinhas e, à noite, pelos catadores de papel e pela mendicância, e que chega às vésperas do voto mais atordoada do que ao longo da enganosa coerência do favoritismo do candidato Fernando Gabeira, do anêmico Partido Verde.

E com o Eduardo Paes, o candidato duplamente oficial, o único a merecer a entronização solene no gabinete presidencial, com a presença de Lula, do governador Sérgio Cabral e do ungido, com a cobertura da sua equipe, para levar ao eleitorado, nos horários de propaganda eleitoral gratuito, pagos com o nosso dinheiro, a louvação das vantagens da sintonia dos três níveis de governo, com o presidente, o governador e o prefeito juntos no mutirão para salvar o Rio da decadência.

Fernando Gabeira foi a novidade que encantou o Rio e liderou as pesquisas com o favoritismo consensual até anteontem, quando o Ibope e o Datafolha, em números quase iguais, o que sugere a cautela de uma prévia troca de informações, registram a queda de Gabeira de três pontos percentuais e a subida de um ponto e a ascensão de Eduardo Paes de três e quatro pontos.

Como o que mais importa é a tendência do eleitorado, mais do que os voláteis índices percentuais, uma análise isenta acolchoada pelas cautelas da prudência, aponta para o favoritismo do candidato do presidente Lula e do governador Sérgio Cabral. O que, se confirmado pelas urnas, será uma das grandes surpresas da campanha.

O mesmo não se pode dizer do infortúnio eleitoral da candidata do PT, Marta Suplicy, à prefeitura de São Paulo. Nem os socorros de Lula, comparecendo a comícios para os improvisos da vigorosa eloqüência, taparam os buracos abertos na rota pelos escorregões dos sapatos altos da elegante candidata petista. O prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição, alvejado pela ironia da candidata e dos seus batedores pela torpeza de insinuações sobre seu estado civil de solteirão, disparou a chega à véspera das urnas com 17 pontos de vantagem sobre a sexóloga dissidente.

Mas é em Minas que a mais surpreendente reviravolta desafia a análise dos especialistas. O candidato a prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, do PSB, apoiado pelo governador tucano Aécio Neves e pelo atual prefeito, Fernando Pimentel, um petista das arábias, virou o jogo nas três últimas semanas e chega à reta final com um ponto à frente de Leonardo Quintão, candidato do PMDB.

A diferença é insignificante, mas a inversão da tendência do voto não pode ser desprezada. Candidato à sucessão de Lula, o governador Aécio Neves apostou o seu cacife no candidato Márcio Miranda e espera a hora de soltar o suspiro de alívio.

Ora, com tais dúvidas e sinais de possíveis surpresas, até a última palavra dos números, a cautela recomenda evitar exageros do fanatismo, pois os números não mentem jamais...

Rumo a 2010 com o freio de mão puxado


Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O adversário número 1 do candidato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à sua sucessão, em 2010, é governador de Estado. O número 2 também. Numa crise financeira que leve o país a pôr o pé no freio, brecam todos. Se a retração econômica for forte o suficiente para gerar um eleitor insatisfeito, não é em direção a governantes que soprarão os ventos da mudança em 2010.

Num cenário de tantas condicionalidades, o cerco dos policiais civis ao Palácio dos Bandeirantes ofereceu uma conjuntura de rara concretude. Ainda não se sabe o tamanho da crise, mas é líquido e certo que, para enfrentá-la, será preciso conter gasto com pessoal e investimento. A manifestação dos policiais grevistas em São Paulo é apenas uma amostra da avalanche de reivindicações que podem vir a eclodir. Num Estado em que os salários são mantidos congelados numa conjuntura de crescimento, é de se imaginar que se mantenham no gelo em tempos de retração.

No governo federal, a generosidade das medidas provisórias que concederam reajustes escalonados ao funcionalismo até 2010, tinham tudo para dar uma trégua às ameaças de greve. Para ficar numa única carreira, o de advogado-geral da União, o salário inicial em dezembro de 2002 era de R$ 4 mil. Seis anos de governo Lula depois, o piso da categoria passou a R$ 14 mil, um aumento nominal de 250%, a partir da MP 441 que já está em vigor.

Em um grande número de carreiras, as gratificações por desempenho, que não eram incorporadas ao benefício dos inativos, passaram a sê-lo. O impacto fiscal dos reajustes concedidos a ativos e inativos até 2010 pode chegar a R$ 100 bilhões.

A certeza de que não seria difícil absorver esse aumento de folha num país que bate recordes sucessivos de arrecadação foi atenuada pelo discurso do contingenciamento que já arrebatou até o incorrigível otimismo do presidente da República.

As medidas provisórias do funcionalismo que ainda tramitam no Congresso abrigam dispositivos que permitem ao governo adiar os reajustes previstos para os próximos anos. Se optar por esta saída, Lula comprará uma briga sem fim com a burocracia estatal sem a qual não se governa.

Além do setor público, o presidente também jogou, nesses seis anos de governo, para acumular cacife no movimento sindical do setor privado, com iniciativas como a lei do salário mínimo. Pelo crédito que também dispõe junto ao setor financeiro, pode se gabar de sua equação singular de poder que o leva a circular com galhardia entre metalúrgicos e banqueiros.

Poucos dias antes da passeata que levou dois mil policiais às colinas do Morumbi, onde o PSDB ganhou a tradução de Pior Salário Do Brasil, o governador de São Paulo, José Serra, havia deixado seus aliados em Brasília de cabelo em pé com suas críticas ao Banco Central pela condução da política monetária.

A crise é grande mas não a ponto de se imaginar que o governador paulista pretenda equilibrar-se numa equação às avessas. A hipótese de que esteja em curso uma campanha para desmoralizá-lo em pleno curso de uma vitória eleitoral quase assegurada em São Paulo, é tão provável quanto uma chapa presidencial com Henrique Meirelles na cabeça e Paulo Pereira da Silva na vice.

Antes que a preferida de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, venha a demonstrar dotes de negociadora tão reconhecidos quanto os de José Serra, o agravamento da crise obrigará Lula a testar seu cacife no movimento sindical. E também emparedará governadores que, a exemplo de Serra, não têm gordura para queimar em sua relação com o funcionalismo e suas entidades.

Nos Estados, não bastasse o agravante de um grau de liberdade orçamentária menor do que o da União, há a pressão por novos gastos como o decorrente do piso nacional dos professores, outra categoria com forte poder de mobilização que também já andou atanazando o governo paulista.

Ainda é desconhecido o impacto da crise sobre a arrecadação, mas o que se sabe é que dois dos setores que mais têm contribuído para os recordes da Receita - bancos e montadoras - também deverão estar entre os mais afetados.

O Ministério da Fazenda tem em mãos estudo encomendado ao FMI e não divulgado com projeções muito pessimistas para a arrecadação numa conjuntura em que a economia nacional cresça menos que 4%.

É na escassez que cresce a necessidade de negociação. Os governantes que serão obrigados a lidar com receitas decrescentes, também terão a chance de identificar as lacunas de setores do sindicalismo acomodados tanto pela bonança econômica quanto da cooptação desmobilizante exercida pelo governo federal.

Enquanto a Esplanada dos Ministérios está apinhada de sindicalistas, a única pasta do governo de São Paulo que, pela lei da gravidade, deveria ser ocupada por um deles, a Secretaria de Emprego e Relações de Trabalho, é comandada por um ex-dirigente de associações patronais. Guilherme Afif Domingos tem tudo para, depois de domingo, rumar para uma bem-sucedida candidatura ao governo paulista, mas não parece talhado para segurar a batata quente dos trabalhadores paulistas em tempos de crise.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

A ditadura não morreu


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - Nicolas Sarkozy, o presidente francês, é difícil de ser enquadrado nas casinhas que tradicionalmente usamos para definir os políticos, tipo "direita", "esquerda", "populista", "liberal" e por aí.

A única que definitivamente se aplica a ele é hiperativo.

A sua mais recente frase de efeito é de ontem -e é daquelas que faz a alegria de qualquer editor de jornal incumbido de produzir títulos. "A ditadura do mercado sobre os poderes públicos está morta, com a crise", decretou.

Até gostaria que fosse verdade, não por amor ao Estado ou por ódio ao mercado, mas porque ditadura é ruim em qualquer circunstância, qualquer que seja ela. E Sarkozy tem razão ao dizer que os mercados se impuseram de forma absoluta sobre os poderes públicos nos últimos muitos anos. Mas, se o diagnóstico está correto, não quer dizer que a situação vá evoluir no rumo imaginado por Sarkozy. Pode até ser que, no susto, os poderes públicos recuperem capacidade de ação e tratem de promover uma melhor distribuição de poderes.

Mas o que se está vendo, até agora, continua sendo a ditadura dos mercados. Os governos estão, sim, agindo, estão, sim, intervindo (mais até do que gostariam), mas o fazem sob pressão dos mercados, para salvá-los.

Se você duvida, anote aí o que disse ontem um dos comissários europeus, Günther Verheugen: "Não será fácil para os políticos explicar aos trabalhadores porque centenas de bilhões de euros estão disponíveis para o sistema bancário, mas não estão quando uma indústria inteira está com problemas" (refere-se à indústria de autos).

Não é preciso ser especialmente esperto para aumentar a lista de setores com problemas. E seria demagógico dizer que os trabalhadores de todos esses setores têm problemas ainda maiores -e nenhum pacote à vista?

ESTE É O LULA

Que crise? Pergunta para o Bush
(16/9/2008)

Até agora, graças a Deus, a crise não atravessou o Atlântico
(22/9/2008)

Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar
(4/10/2008)

Não posso assumir o compromisso de que, se houver uma crise econômica que abale o Brasil, a gente vá manter todo o dinheiro dos ministérios
(21/10/2008)

Nós não estamos dando dinheiro para qualquer empresa e qualquer banco. E não vamos dar dinheiro. É importante saber que quem errou pagará pelo seu erro
(23/10/2008)

Da marola ao tsunami


Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


A cortina de fumaça não paralisou o BC, que tomou medidas para lidar com a liquidez dos bancos menores

A CRISE financeira mundial chegou ao Brasil com todo o seu impacto destrutivo. Em setembro, os primeiros ventos dessa tempestade já podiam ser sentidos no âmbito mais restrito do mercado financeiro. A volatilidade dos ativos brasileiros, negociados aqui e no exterior, começou a aumentar de forma desordenada. Mas esses sentimentos não chegavam ao lado real da economia, que vivia ainda as doces brisas de um longo verão de crescimento.

A posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ajudou muito para preservar esse entusiasmo. Qualificando a crise financeira como uma questão dos países do Primeiro Mundo, ele reforçava a impressão de que as dificuldades enfrentadas eram coisa de ricos. Mas essa cortina de fumaça rósea desapareceu agora em outubro.

Primeiro, a questão pontual das empresas que especularam com o real tornou-se um problema bancário sério. Depois, a consolidação do cenário de recessão global trouxe a crise financeira às economias emergentes. Com a velocidade e a força de um tsunami, foram atingidos nos últimos dias os papéis da dívida externa (privada e pública) de vários países, trazendo de volta os fantasmas das crises asiática em 1997 e da Rússia/Brasil em 1998.

A flutuação irracional dos preços tem causado prejuízos imensos em todos os segmentos do mercado financeiro. Em razão desse estado de coisas, os bancos brasileiros reduziram de forma agressiva a concessão de crédito. Os números deste mês mostram claramente um fenômeno de descontinuidade no mercado de crédito, no momento em que a atividade produtiva da economia e a febre de consumo de milhões de brasileiros atingiam seu ponto mais alto.Os ventos externos -agora gelados e fortes- chocaram-se com o ar quente do otimismo de todos. Podem estar certos os leitores da Folha que o impacto sobre as empresas e os consumidores vai ser muito duro e duradouro.

Felizmente para todos nós, a cortina de fumaça não paralisou o Banco Central. Enquanto o ministro da Fazenda seguia o tortuoso e perigoso caminho de negar os problemas reais, o Banco Central agiu.

Tomou medidas agressivas para lidar com a questão da liquidez dos bancos de médio porte, reduzindo o compulsório e criando incentivos para a venda de carteiras de crédito dos bancos em dificuldades. Disponibilizou dólares de sua reserva para destravar as operações de financiamento ao comércio exterior. Injetou liquidez nos mercados de câmbio, agindo nos mercados "spot" e de derivativos.

Por fim, criou mecanismos legais no caso de ser necessária uma infusão de capital nas instituições com problemas de solvência. Apesar da grita contra uma possível estatização de prejuízos, não existe no momento uma alternativa para evitar a quebra de bancos e o aprofundamento da crise. Enfrentamos hoje os mesmos resmungos ouvidos nos Estados Unidos e na Europa há poucos meses. Sugiro a leitura da revista inglesa "The Economist" desta semana para que se possa digerir com menos dificuldades a medida provisória nº 443, assinada na terça-feira.

Aqui, como no exterior, vamos ter de usar o Estado para evitar o mal maior de uma recessão profunda. O que a sociedade deve exigir é que esse movimento, se necessário, seja feito com transparência e fiscalização externa. Como nos Estados Unidos, o Congresso Nacional deve criar uma comissão para acompanhar a utilização desse mecanismo extraordinário.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Crise: PPS e PSDB rebatem Lula e afirmam em nota que quem torcia pelo pior era PT na oposição


DEU NO PORTAL DO PPS

O PPS e o PSDB emitiram nota conjunta repudiando as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que atribuiu à oposição uma torcida para que as medidas relativas à crise financeira não funcionem. “Nunca torcemos por crises”, afirma o documento, assinado pelos presidentes dos dois partidos, Roberto Freire, e Sérgio Guerra. A nota lembra que quando militava na oposição, Lula e o PT “apostaram várias vezes no quanto pior melhor”.

Os dois partidos, afirma o texto, querem que o governo trabalhe com seriedade. A nota condena ainda “abordagens equivocadas sobre a extensão da crise, assim como as afirmações demagógicas sobre problemas graves e concretos”. A afirmação refere-se às várias negativas do presidente Lula sobre os efeitos da crise no Brasil. (Leia a íntegra da nota abaixo).

“Nota à Imprensa

O PSDB e o PPS repudiam a declaração do presidente Lula em relaçâo à responsabilidade da oposição diante da crise.

Trata-se de uma declaração que não se coaduna com a responsabilidade de um presidente da República. Nunca torcemos por crises, muito menos crises profundas.

No passado, quando era oposição, o presidente Lula e seu partido apostaram várias vezes no quanto pior, melhor. Não é o nosso caso.

Desejamos que o presidente e seu governo trabalhem sério e condenamos, sim, abordagens equivocadas sobre a extensão da crise, assim como afirmações demagógicas sobre problemas graves e complexos.

Medidas estruturantes serão apoiadas sempre que fizerem sentido para o interesse nacional.

O presidente deve parar de escamotear suas responsabilidades e tratar com seriedade os problemas que se apresentam, uma vez que a crise internacional ainda pode trazer sérias consequências para a economia brasileira - no presente e nos próximos anos."

Roberto Freire – presidente do PPS

Sérgio Guerra – presidente do PSDB

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1127&portal=

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

GABEIRA NA ZONA OESTE


Gabeira e Luiz Paulo tiveram uma extensa agenda na Zona Oeste na terça e quarta-feira.

Começaram pela comunidade de Antares, na terça, e dormiram em Bangu, seguindo na quarta para o Jabour, Rebu, Miguel Gustavo e Vila Vintém.

Por onde passavam, a alegria das crianças encantava e estimulava o trabalho do corpo-a-corpo.

É a cidade unida que aplaude seus candidatos!