Correio Braziliense
E quem são os que decidirão as eleições? O
eleitor urbano do Sudeste e Norte/Centro-Oeste, de renda entre dois e cinco
salários-mínimos e, predominantemente, com ensino médio
Há duas semanas, em Brasília, o movimento
Direito Já organizou uma reunião em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Estavam lá diferentes lideranças da sociedade civil, a esmagadora
maioria já engajada na reeleição de lula, a começar pelo anfitrião, o advogado
Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakai. Não houve nenhuma grande adesão no
encontro, que contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin e do
ministro de Relações Institucionais, José Guimarães.
Alckmin foi absolutamente enfático na sua intervenção quanto à necessidade de disputar os votos do centro, melhor dizendo, dos eleitores que ainda não estão engajados no pleito e que se pautam pela moderação. Foi um discurso no qual fez comparações entre os governos Lula e Bolsonaro e reconheceu que não existe uma percepção de que a economia melhorou na atual administração, apesar de os indicadores dizerem o contrário. Mas foi enfático ao apontar a defesa do Estado Democrático de Direito como um grande divisor de águas para a conquista desses eleitores.
Alckmin sabe das coisas, é um gato escaldado
e já se deu conta de que a reeleição de Lula está escorrendo entre os dedos. A
semana começou com as pesquisas BTG/Nexus e Quaest confirmando que a eleição
está aberta e o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro será uma disputa
por uma fatia estreita de eleitores: os moderados apontados por Alckmin. Na
Nexus, Lula lidera o primeiro turno por 40% a 37% e, numericamente, vence o
segundo por 46% a 45%. Na Quaest, Lula também lidera o primeiro, por 37% a 33%,
mas Flávio aparece numericamente à frente no segundo, por 42% a 41%. Todas
essas diferenças estão dentro das respectivas margens de erro.
Lula e Flávio cresceram no primeiro turno em
relação à rodada anterior, Lula de 36% para 37% e Flávio de 31% para 33%,
enquanto os indecisos caíram de 10% para 8%. Augusto Cury aparece com 6%,
Caiado com 4%, Renan Santos com 3% e Zema com 1%. A redução do número de
indecisos reforça a ideia de que a disputa de corações e mentes dos eleitores
moderados deve ser a principal preocupação dos dois candidatos. A pesquisa
Nexus mostra que Lula e Flávio construíram coalizões eleitorais socialmente
muito diferentes. No primeiro turno, Lula chega a 52% no Nordeste, contra 30%
de Flávio; no Sul, Flávio vence por 43% a 27%. No Sudeste, entretanto, ocorre
empate exato: 39% a 39%. No Norte/Centro-Oeste, Flávio lidera por 42% a 34%.
São dois Brasis, profundamente divididos.
Divisão profunda
No segundo turno, esse mapa se torna ainda
mais dramático: Lula vence no Nordeste por 58% a 35%, enquanto Flávio abre 57%
a 30% no Sul. No Norte/Centro-Oeste, o placar é 49% a 43% para Flávio. E o
Sudeste transforma-se no principal campo de batalha: 46% para Flávio e 45% para
Lula. Em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, pequenas oscilações
representam milhões de votos. A divisão geográfica se encontra com a condição
social dos eleitores: Lula marca 50% entre quem ganha até um salário-mínimo e
48% na faixa de um a dois salários; Flávio tem apenas 29% e 28%,
respectivamente.
A partir de dois salários, porém, a situação
se inverte: Flávio vence por 41% a 36% entre dois e cinco salários, e por 46% a
33% acima de cinco salários.
Essa clivagem se reproduz ainda no nível de
escolaridade: Lula alcança 51% entre os eleitores com ensino fundamental,
contra 26% de Flávio. O candidato do PL assume a dianteira no ensino médio, por
45% a 34%, e no superior, por 41% a 33%. Essa divisão coincide mais ou menos
com os dados recentes da Quaest: na rodada anterior, Lula também dominava o
eleitorado de menor escolaridade e renda, enquanto Flávio liderava nas faixas
intermediárias e superiores.
E quem é o moderado que decidirá as eleições?
O eleitor urbano do Sudeste e Norte/Centro-Oeste, de renda intermediária,
especialmente entre dois e cinco salários-mínimos, e predominantemente com
ensino médio. É, justamente, onde a vantagem estrutural de Lula entre os mais
pobres começa a se desvanecer e a superioridade de Flávio entre os segmentos de
renda mais alta ainda não é absoluta. Trata-se de um eleitor menos dependente
do lulismo e do bolsonarismo e, por isso, potencialmente mais sensível à
economia, ao custo de vida, aos serviços públicos e aos acontecimentos político
da reta final. Entretanto, no contexto geral, é um contingente pequeno, com
pouca margem para disputa. Na Nexus, 84% dos eleitores que escolheram candidato
no primeiro turno dizem que não mudarão mais; entre os eleitores de Flávio, são
92%, e entre os de Lula, 90%. No segundo turno, 91% consideram a escolha
definitiva e somente 7% admitem mudar. A Quaest acrescenta um dado que pode ser
decisivo: Lula tem rejeição de 55% e Flávio, de 56%.
Como os marqueteiros costumam falar, enquanto
o primeiro turno é pautado pelo sim, o segundo é pelo não. A rejeição é um
fator que não pode ser desconsiderado no voto desses eleitores mais moderados:
43% dizem temer mais um novo mandato de Lula, enquanto 42% temem o retorno da
família Bolsonaro ao Planalto. A eleição também é uma disputa de rejeições.
Faltando menos de duas semanas para o primeiro turno, não parece haver uma onda
eleitoral em formação. Há dois grandes blocos praticamente consolidados e um
corredor estreito entre eles. O vencedor será aquele que conquistar alguns
pontos no Brasil dos moderados e, sobretudo, conseguir transformar intenção de
voto em comparecimento efetivo às urnas. Numa eleição de 46% a 45% ou de 42% a
41%, mobilização valerá tanto quanto persuasão.

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