Valor Econômico
Alckmin recolocou a política industrial na agenda econômica e lançou um programa com foco em inovação, produtividade, descarbonização e agregação de valor, mas terá prosseguimento?
Na coluna de 15 dias atrás, comentamos aqui a questão da industrialização. Há um debate acadêmico sobre melhor maneira de alcançar o desenvolvimento econômico nos países de renda média, como o Brasil. Alguns economistas estão de olho no setor de serviços, que é responsável pelo acelerado crescimento da economia da Índia, por exemplo. E há outros que ainda consideram a indústria de manufaturados como essencial para criar empregos e desenvolver as nações.
Se os debates da campanha eleitoral fossem sérios, candidatos deveriam se manifestar sobre temas como esse e seus desdobramentos em programas de governo. Mas esses assuntos passam longe das campanhas ou são citados genericamente, como é o caso das terras raras - por incrível que pareça, alguns tentam desenterrar enferrujadas propostas de privatização.
A discussão mais comum, infelizmente, gira em
torno de acusações mútuas, que tentam colocar nos adversários a pecha de
corrupto. E uma multidão de candidatos, em todos os cargos eletivos, procura
ganhar votos com a promessa estridente de acabar com “marginais, criminosos e
vagabundos” - só ingênuos acreditam neles, até porque alguns desses tagarelas
se enquadram nessas três categorias.
Claro que temas como corrupção e segurança
são importantes. Combate à corrupção domina campanhas e elege presidentes desde
sempre. Jânio Quadros adotou uma vassoura no início dos anos 1960 - “Varre,
varre, vassourinha/varre, varre a bandalheira/que o povo está cansado/de viver
dessa maneira” era o jingle de então. O golpe de 1964 tinha entre seus
objetivos teóricos combater corrução e subversão. Fernando Collor prometeu
acabar com os marajás do serviço público. Bolsonaro foi filhote da Lava-Jato (e
da ditadura). Todos sabemos como acabaram esses governos.
Seria muito mais importante saber quais são
os projetos estratégicos que os candidatos defendem para o desenvolvimento e
enriquecimento do país e dos brasileiros. Entrar com cara e coragem numa
eleição presidencial e ganhar a disputa é caminho certo para levar o país a
desastres políticos e econômicos, como em governos citados acima.
O economista Paulo Gala, em brilhante artigo
recente, citou o exemplo da Coreia do Sul, que anunciou uma estratégia
tecnológica organizada em torno de sete projetos nas áreas de energia nuclear,
computação quântica, espaço e biotecnologia.
As metas coreanas têm data marcada: pouso na
Lua até 2030; comercialização de reatores modulares de pequeno porte de
desenvolvimento próprio até 2035; produtos de interface cérebro-computador até
2035; um computador quântico nacional de 100 qubits até 2029 e liderança global
na fabricação de chips quânticos até 2035.
Pousar na lua é uma ambição desnecessária?
Talvez não, considerando-se as tecnologias adquiridas em uma caminhada como
essa e que ficam depois de encerradas as missões. Mas a Coreia do Sul tenta dar
continuidade a sua estratégia vencedora dos anos 1960, quando era mais pobre
que o Brasil e praticamente não tinha indústria nem recursos naturais. Apesar
disso, criou uma das maiores siderúrgicas do mundo (Posco), que sustentou o
avanço da produção naval e da indústria automobilística e financiou a Samsung
para enfrentar as rivais japonesas, entre outros programas de sucesso.
E qual é a estratégia atual da Coreia do Sul?
Gala explica: “É manter a mesma máquina funcionando 60 anos depois, com um
Estado que continua fazendo o que sempre fez”. Ou seja, “definir direção,
assumir o risco da fase pré-comercial, coordenar empresas, universidades e
institutos, e sustentar cerca de 5% do PIB em P&D - uma das maiores
intensidades de pesquisa do mundo. É a lógica das missões, no sentido em que [a
economista italiana] Mariana Mazzucato usa o termo: o Estado não escolhe
vencedores, escolhe problemas difíceis e organiza quem vai atacá-los”.
O Brasil tem alguns exemplos de sucesso com
essa estratégia. A gigante Embraer, que foi sustentada pelo Estado durante
décadas; a Petrobras, que domina águas profundas; a Embrapa, que reinventou o
Cerrado; e Butantan e Fiocruz, que produzem vacinas em escala industrial. São
casos isolados, demonstrações da capacidade brasileira.
A 12 dias das eleições, é lamentável que a
maioria dos candidatos não tenha nem a noção de que deveria propor estratégias
de médio e longo prazo para o país. Paulo Gala diz que o Brasil “perdeu o
horizonte”, porque nosso ciclo de política tecnológica dura um mandato, o
orçamento de ciência é sempre a primeira vítima de contingenciamentos e não
temos metas de capacidade com data marcada em torno das quais empresas,
universidades e financiamento público possam se organizar por uma década.
É justo reconhecer o trabalho do vice-presidente Geraldo Alckmin no Mdic. Ele recolocou a política industrial na agenda econômica e lançou um programa (Nova Indústria Brasil) com foco em inovação, produtividade, descarbonização e agregação de valor. Seu mérito foi devolver ao Estado um papel mais ativo na promoção do desenvolvimento industrial. Mas isso é só um começo. Terá continuidade? Ou, como diz Paulo Gala, continuaremos exportando o que a geologia nos deu e importando o que a engenharia dos outros criou?

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