domingo, 16 de novembro de 2008

Cenários para 2010


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Como os grandes bancos na crise, os grandes partidos não querem apenas fazer alianças, querem engolir os pequenos. Com o poder central em disputa, o resto é conseqüência

A crise mundial é uma “externalidade negativa” na linguagem dos economistas. Ou seja, uma variável fora de controle, para a qual é necessário adotar medidas capazes de neutralizar seus efeitos, já que é impossível evitá-los. A marolinha deixou de ser ameaça, virou agressão ao consumo, ao crédito, à produção e ao emprego no Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pôs as barbas de molho. A equipe econômica já não se entende sobre a taxa de juros. Em outras circunstâncias, a política econômica estaria “blindada” e interditada ao debate político. Mas são os políticos que comandam, neste final de semana, na reunião do G-20 em Washington, a operação de salvamento da economia mundial.

O governo

O presidente Lula edita uma medida provisória atrás da outra para neutralizar os efeitos da crise. Criou linhas de créditos para comprar carteiras de bancos, com imunidade judicial para os operadores dessas aquisições. Outra medida provisória permite ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica salvar instituições financeiras, montadoras e construtoras. O Banco Central opera diariamente no mercado financeiro e na Bolsa para controlar a cotação do dólar e manter os investimentos estrangeiros. O crédito, porém, não chega aos médios e pequenos empresários na velocidade necessária; os consumidores estão retraídos, mais preocupados com a liquidação das dívidas; as empresas puxam o freio de mão dos investimentos e contratações.

Nesse ambiente, os políticos aliados do governo Lula e a oposição fazem planos para a sucessão presidencial em 2010. Há três cenários, todos contingenciados pela tal “externalidade negativa”.

O mais otimista acredita num desfecho positivo das medidas adotadas pelos governos europeus, da China e de outros países asiáticos, mas, sobretudo, por ações do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, após a posse. Nesse cenário, o presidente Lula mataria a bola no peito e faria um gol de placa: a crise seria debelada no Brasil. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, à frente do nosso “New Deal” (o vitorioso programa de investimentos públicos que tirou os Estados Unidos da Grande Depressão na década de 30), no caso o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), chegaria a 2010 como candidata favorita. Esse é o Plano A do governo Lula.

O cenário mais pessimista é imaginado pela turma do “quanto pior melhor”. A crise mundial seria uma nova depressão econômica, com os governos dos países desenvolvidos tentando transferir os prejuízos para a periferia, como sempre aconteceu. A crise chegaria ao Brasil com toda força: deterioração dos fluxos cambiais, com um rombo na conta corrente de comércio exterior devido à redução dos preços e das vendas de commodities; e déficit fiscal galopante, em razão da queda de arrecadação e despesas ascendentes com pessoal sugando os recursos para os investimentos do PAC. Nesse ambiente, Lula terminaria o governo como “pato manco”. Os governos de São Paulo e Minas também seriam engolidos pela crise. Estaria aberto o espaço para um candidato outsider descolado do establishment.

O terceiro cenário, diria o falecido João Saldanha, “é mais ou menos”: recessão controlada nos Estados Unidos, Europa e Ásia, com certo nível de atividade econômica nos países emergentes, alavancados pelo crescimento moderado da China. Nesse contexto, a sucessão de 2010 seria uma disputa aberta, na qual a situação da economia neutralizaria o peso da máquina pública e o prestígio pessoal de Lula. Uma disputa onde os partidos, seus políticos e a política propriamente dita teriam mais autonomia em relação ao governo federal.

Como o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou a cassação dos mandatos dos deputados que trocaram de partido, precipitou-se o reagrupamento de forças políticas para sucessão de 2010.

Fala-se muito em reforma política, mas os grandes partidos estão interessados em duas coisas apenas: o fim das coligações nas eleições proporcionais e novo prazo para a troca de partidos.

Como os grandes bancos na crise, os grandes partidos não querem apenas fazer alianças, querem engolir os pequenos. Com o poder central em disputa, o resto é conseqüência.

Um deputado para ser eleito, com raríssimas exceções, precisa dos votos de legenda para atingir o quociente eleitoral. Caso o Congresso aprove o fim das coligações, muitos ficarão em risco eleitoral. Isso cria um dilema: ou o parlamentar fica no partido, e corre risco de não ser eleito; ou migra para outro partido, onde pode se eleger. Por isso, há dois movimentos: um é dos políticos em risco eleitoral que buscam uma solução individual; o outro, dos partidos ameaçados de esvaziamento, que tentarão encontrar uma saída coletiva por meio de fusões e incorporações.

Sob o rigor da lei de Gérson


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Com toda força adquirida depois de conseguir uma vitória suada para a Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, a capital de maior visibilidade do País, o governador Sérgio Cabral continua sendo voto vencido dentro do próprio partido.

Tenta, já sabendo que não terá a menor chance de sucesso, que o PMDB deixe de lado a “falsa malandragem” da dubiedade como arma de pressão eterna e assuma uma posição de fidelidade explícita e permanente ao governo Luiz Inácio da Silva.

Em todos os aspectos: do respeito ao acordo pelo comando das presidências do Congresso, deixando o Senado para Tião Viana do PT, até a permanência do partido na aliança governista na eleição de 2010.

Mesmo se for para perder?

“Mesmo assim.”


A menos, ressalva, que o PMDB tenha algum “político tarimbado” para se apresentar à disputa marcando uma posição de protagonista. Como, na visão dele, esse personagem não existe no horizonte, não há razão para suspense: “É ficar com o PT”.

A repetição do jogo da divisão pragmática entre as canoas mais bem posicionadas pode manter o PMDB no poder, ganhe quem ganhar. Mas, na opinião do governador, “só vai aprofundar o desgaste do partido”.

Para ele, passou da hora de o PMDB “eliminar esse tipo de postura”. Qual seja, a de levar vantagem em tudo, certo?

Na última reunião em Brasília para tratar das eleições na Câmara e no Senado, Cabral diz que defendeu uma definição nítida e imutável. Em vão.

“Temos as maiores bancadas, o direito de reivindicar o comando das duas Casas, mas, por uma questão de confiança e espírito de aliança, deveríamos apoiar o PT no Senado, ficar com a Câmara e, assim, consolidar a parceria.”

Não haveria por trás dessa enfática defesa da fidelidade a mesma visão pragmática que orientou o discurso do candidato a prefeito Eduardo Paes, a quem Cabral levou a se reconciliar com Lula em nome do trânsito livre de verbas de Brasília para o Rio?

De fato, mas até o pragmatismo requer regras de confiabilidade e reciprocidade. O tratamento que Lula dá ao PMDB como um todo justificaria, na concepção de Sérgio Cabral, o abandono da ambigüidade.

“Nunca fomos tratados com tanta respeitabilidade, com entrada franqueada pela porta da frente; agora seria a hora de retribuir na mesma moeda.”

Inútil especular sobre as chances de acontecer. Sérgio Cabral faz a crítica, mas não atropela os interesses do partido.

Ponta cabeça

Se o ministro da Saúde for abatido pela permissividade do presidente Lula frente a um cada vez mais atrevido PMDB, José Gomes Temporão deixará como legado o melhor serviço prestado nos últimos tempos à transparência das relações entre o Poder Executivo e sua base de apoio no Legislativo.

A reação do partido - dono da “cota” da Saúde - ao desabafo de Temporão sobre a corrupção e a ineficiência existentes na Fundação Nacional de Saúde não deixa dúvida sobre a noção de governabilidade reinante na Esplanada.

“Reconhecemos em Temporão um técnico muito conceituado, mas ministro é também função de liderança política. É preciso saber ouvir, interagir, respeitar e ter a sensibilidade da boa convivência”, diz o líder da bancada na Câmara, deputado Henrique Alves, traduzindo a seu modo as reclamações de que o ministro não dá a devida atenção aos parlamentares nem à liberação dos recursos das emendas ao Orçamento.

Quer dizer, o ministro da Saúde faz tudo direito. Cuida prioritariamente das tarefas afetas à pasta e, quando se vê confrontado com lobbies contra a transferência da política de saúde indígena para a jurisdição de seu gabinete, põe o dedo na ferida exposta da corrupção na Funasa, objeto de reiteradas e públicas denúncias.

Ainda assim, ou por isso mesmo, o PMDB pede sua saída; e o faz pelo motivo errado: a prioridade dada pelo ministro aos assuntos atinentes à saúde do público em detrimento das conveniências do partido.

Este mesmo PMDB, vale lembrar, reivindica a pasta da Justiça sob a qual está a Polícia Federal.

Olha cá

O senador José Sarney registrou seus primeiros desconfortos em relação ao presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, sexta-feira, em seu artigo semanal na Folha de S. Paulo.

Sarney não gostou do excesso de informalidade no discurso da vitória, achou de mau gosto as referências ao cachorrinho das filhas, censurou a retórica “com cheiro de demagogia, comum aos populistas sul-americanos”.

De fato, nada comparado ao discurso de Lula ao ser eleito em 2002: “Quando a gente está apaixonado, que a gente quer casar, a gente senta com a nossa namorada e fica alimentando os nossos sonhos, discutindo o que a gente pode fazer. E a gente casa. E nem sempre o que a gente quis fazer a gente consegue fazer com a rapidez que a gente imaginava fazer”.

Mudança de modelo


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A possibilidade de o presidente eleito Barack Obama vir a criar um ministério especial para cuidar da indústria automobilística pode indicar que o socorro financeiro do setor poderá ficar subordinado a políticas ambientais e à implantação de modelos de uso híbrido de combustíveis. Fugindo à sua teoria de que os Estados Unidos só podem ter um presidente de cada vez, Obama pressionou publicamente o Presidente Bush a aprovar um pacote de salvamento para a indústria, especialmente a GM, Ford e Chrysler, as três grandes de Detroit que estão mais uma vez em dificuldades financeiras.

Como Bush, de saída da Casa Branca não quer tomar a iniciativa, a maioria democrata no Congresso já decidiu, a partir de amanhã, aprovar uma verba de US$50 bilhões na sessão apelidada de "pato manco", referência à situação política precária do presidente que termina o mandato tendo tido seu candidato derrotado na eleição.

Essa fidelidade a uma indústria específica tem sua explicação tanto na cultura americana quanto na base eleitoral democrata. Michigan e Ohio votaram no democrata, sendo que Ohio deixou de ser um estado republicano para apoiar Obama.

Nos subúrbios de Detroit, a classe média de operários brancos da indústria automobilística, que havia se passado para o lado dos republicanos desde 1980 com Ronald Reagan, voltou para o seio dos democratas, que sempre venceram no Estado.

Mas, para ser coerente com sua pregação, o futuro presidente Barack Obama terá que começar a forçar uma mudança de matriz energética que transforme os Estados Unidos de dependente do petróleo importado em consumidor de energias alternativas como os biocombustíveis.

Está havendo uma reação muito grande da opinião pública contra uma ajuda às montadoras aqui nos Estados Unidos sem que se mude o perfil da indústria automobilística, que teria que se adaptar às novas condições do mercado internacional, que será fortemente influenciado pela crise econômica que se desenha prolongada.

O Brasil, como pioneiro na tecnologia de fabricação do etanol a partir da cana-de-açúcar, e de outros biocombustíveis, está se preparando de várias maneiras para o que pode vir a ser uma mudança fundamental no mercado internacional.

A partir de amanhã, será realizada em São Paulo a "Conferência Internacional sobre Biocombustíveis: os biocombustíveis como vetor do desenvolvimento sustentável", discutindo temas como segurança energética, produção e uso sustentáveis, agricultura, processamento industrial, além de questões ligadas a especificações e padrões técnicos, comércio internacional, mudança do clima.

O anúncio de que no campeonato de Fórmula Indy do próximo ano, uma competição tipicamente americana, será utilizado etanol brasileiro faz parte de um esforço de marketing para contrabalançar o poder dos produtores de etanol americanos, que contam com um forte subsídio governamental.

Em recente palestra na Universidade Columbia, o brasileiro Sérgio Trindade, especialista em combustíveis alternativos, ressaltou a necessidade de os biocombustíveis virarem commodities para competir no mercado internacional.

Trindade destacou que os países importadores como Estados Unidos e União Européia podem combinar a produção local com a importação, sendo necessário para que esse mercado internacional funcione um programa de certificação que seja reconhecido e adotado por todos.

O mercado ainda é incerto, atuando de maneira precária em Chicago, Nova York e São Paulo, com pouca liquidez e poucos contratos. As barreiras tarifárias e sanitárias são questões ainda não resolvidas, além das condições de trabalho nas lavouras. A mecanização da lavoura de cana-de-açúcar, por exemplo, está reduzindo as queimadas e melhorando os salários no Brasil.

O Programa Brasileiro de Certificação de Biocombustíveis, que está sendo desenvolvido pelo Inmetro, vai dar atenção especial aos aspectos sociais e ambientais da produção dos biocombustíveis.

A parceria com o instituto nacional de metrologia dos EUA, prevista no memorando de entendimentos assinado entre os governos dos dois países, fará com que essas normas venham a ser incorporadas aos aspectos técnicos do produto, para que tenha uma uniformidade capaz de transformá-lo em commodity.

Os primeiros padrões de medição de alta qualidade para bioetanol e biodiesel já foram produzidos, e já existem cerca de 10.000 ampolas de materiais de referência certificados que serão em breve comercializados internacionalmente.

Paralelamente, estão sendo desenvolvidos novos métodos de análise para determinação da composição de biocombustíveis, bem como sua origem geográfica.

Foi criada também uma força-tarefa para harmonização das especificações de biocombustíveis, base para normas internacionais que estão sendo criadas.

O Inmetro está participando do Projeto Biorema, da Comunidade Européia, que objetiva realizar uma ampla capacitação dos laboratórios nacionais europeus para análises de biocombustíveis, através de um grande exercício de intercomparações de medições de padrões de alta confiabilidade, definidos pelo Inmetro e pelo NIST americano.

Também está sendo iniciada uma cooperação com o instituto metrológico alemão (PTB) para produção de padrões e técnicas analíticas especiais para biocombustíveis.

Todas essas medidas, no entanto, só terão consequência prática se o mercado internacional realmente for aberto, e para tanto os subsídios aos agricultores teriam que ser revistos tanto pelos Estados Unidos quanto pela Comunidade Européia.

A crise econômica internacional, no entanto, não sugere um momento propício para a abertura do mercado internacional.

Pacificação e projeto político


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Por despeito pessoal, tática política ou ambos, algumas lideranças latino-americanas começaram a colocar-se na contramão da opinião pública mundial e iniciaram um sutilíssimo movimento para minimizar o impacto da vitória de Barack Obama. Um dos seus argumentos: afinal a vitória de um negro nos EUA aconteceu quase oito anos depois da eleição de um metalúrgico nordestino para a presidência do Brasil e quase três anos depois da escolha de um índio cocalero para presidir a Bolívia.

O clube não chega a constituir-se formalmente como anti-obamista, por ora está interessado em arrefecer a admiração pelo futuro presidente dos EUA que afinal continuam encarnando o papel de País-Satanás. O grupo esqueceu de incluir no elenco de minimizações a eleição do eletricista Lech Walesa como presidente da Polônia há 18 anos e, há 14, do advogado Nelson Mandela, militante do movimento anti-apartheid, na África do Sul.

São vitórias igualmente extraordinárias, sem exceção, sobretudo porque resultaram de eleições democráticas. Representam o inexorável movimento republicano-democrático que não-obstante as sangrentas interrupções e periódicos retrocessos, vem sendo construído há quase 300 anos como o mais justo modelo para a escolha de governantes.

O que diferencia Barack Hussein Obama dos demais líderes que ascenderam da marginalidade para o poder é o conteúdo da sua postulação, seu compromisso em superar os ressentimentos que tornaram tão expressiva sua vitória. O primeiro negro a ser escolhido para presidir os EUA projetou-se através de uma plataforma claramente pós-racial e através da firme disposição de enterrar a odiosa diferença étnica entre os seus concidadãos.

Seus primeiros movimentos políticos como presidente-eleito foram no sentido de apressar a cicatrização das feridas eleitorais. O confronto entre os liberais e conservadores (para usar a designação anglo-saxônica) e agravado ultimamente pela exacerbação dos fundamentalismos religiosos será difícil de superar, mas alguns dos gestos de Obama – inclusive o anunciado encontro com o ex-adversário John McCain – sinalizam para um aggiornamento (atualização, no sentido de distensão) nas relações entre republicanos e democratas.

Evo Morales não se esforçou, ao contrário, manteve a divisão étnica-social herdada dos tempos coloniais e apenas mudou a sua direção: trocou a secular e impiedosa hegemonia da minoria branca pelo hegemonismo demográfico dos nativos e ainda acrescentou condimentos político-administrativos que levaram a Bolívia à beira de uma secessão efetiva.

Muito mais hábil, o presidente Lula candidatou-se e foi eleito com base num compromisso de continuidade no âmbito econômico. Soube mantê-lo e servir-se dele. Só não conseguiu preservar o clima de civilidade que dominou o processo de transição (um dos mais civilizados da nossa história). O "aparelhamento" do governo pelo principal partido da situação criou uma penosa discriminação dentro da sociedade brasileira onde o princípio "aos amigos tudo" cria discriminações inconcebíveis numa sociedade teoricamente isonômica.

Mas o presidente Lula falhou de forma ostensiva como chefe de um Estado secular e que, apesar disso, convive com uma perigosa disputa entre evangélicos e católicos, verdadeira "guerra santa" pelo controle dos corações e mentes dos brasileiros no âmbito da mídia eletrônica.

Para atender aos partidos aliados que militam em diferentes denominações evangélicas, o governo é condescendente na distribuição de concessões de rádio-difusão e mantém a aberrante figura do congressista-concessionário.

E para aliviar as suas culpas, o governo anunciou em Roma nesta quinta feira, uma autêntica "Concordata" com a Santa Sé que além de ter sido preparada na clandestinidade, sem qualquer aviso ou debate, confronta o espírito da Carta Magna e os fundamentos de um Estado secular.

Esquecido do exemplo pacificador do seu colega Barack Obama, o teólogo Lula da Silva deveria lembrar-se que uma nação na qual as contendas religiosas são apenas disfarçadas jamais terá ânimo para eliminar as diferenças. Jamais caminhará unida.

» Alberto Dines é jornalista

A infame tradição


José Arthur Giannotti

DEU NA FOLHA DE S. PAULO / MAIS!

Vícios políticos ainda permeiam direita e esquerda no Brasil e põem em risco o processo democrático


As fraquezas do sistema político brasileiro não estão nos procedimentos eleitorais. Estes são menos complicados do que os norte-americanos, como provam as últimas eleições lá e aqui. Residem no modo pelo qual as regras -sejam elas meros acordos ou leis promulgadas- são cumpridas.

O vício é nacional. Sabemos que existem leis que não pegam. O combate ao alcoolismo é o exemplo mais recente. Foi proibida a venda de álcool na beira das estradas, a última "lei seca" impôs limite praticamente zero ao consumo de bebida pelos motoristas.

Ambas foram escandalosamente anunciadas, cumpridas a ferro e fogo por algumas semanas e, depois, como o Estado, felizmente, não tem condições de vigiar, controlar e punir os pormenores do comportamento dos cidadãos, as coisas, infelizmente, resvalam para a situação anterior.

A lei espetaculosa não logra os resultados desejados, mas cria ambiente favorável ao dedo-duro, ao gavião puritano que acredita ser possível mudar a sociedade mediante golpes de legislação e de terror. Essa tradição brasileira cada vez mais permeia o jogo político brasileiro. Parece-me que uma das causas foi o empolamento do centro, particularmente quando passou a abrigar o PT e o lulismo.

Estou convencido de que isso era inevitável, dadas as novas circunstâncias políticas internacionais e as novas formas assumidas pelo capitalismo. De um lado, o inevitável multilateralismo criado depois do fim de Guerra Fria; de outro, a reestruturação do capitalismo, que, graças a um tratamento inovador e surpreendente da informação, leva aos limites sua velha tendência à globalização.

Desaparecem do horizonte o ideal de uma economia sem mercado e a ilusão da política regida racionalmente pelo comitê central.

Se a esquerda consiste em criar alternativas reais às misérias promovidas pelo capital, agora sua tarefa se consolida na luta pelo aprofundamento da democracia, na demanda de instituições transparentes, que sejam capazes de controlar as loucuras do mercado, as lutas de classes desvairadas, o jogo sujo na política.

Democracia interna

A atual crise financeira e econômica comprova que os Estados nacionais somente se tornam atores eficazes em suas práticas anticrise se agirem coordenadamente, o que levanta desde logo a questão política do controle popular das instituições internacionais encarregadas de sanar os desregramentos dos mercados. Ora, esse controle implica aprofundar ainda mais a democracia interna. Em primeiro lugar, criar um espaço em que os interesses e as ideologias possam se configurar publicamente, de sorte que a luta política se exerça como jogo de opções particulares diante de alternativas claramente desenhadas. Sob esse aspecto, toda política que dilua essas particularizações se torna extremamente reacionária.

Para que haja maioria consistente, também é preciso minoria consistente, que as duas partes não se constituam ao sabor de acordos do momento ou de interesses articulados para saquear os fundos públicos; muito menos para satisfazer a vaidade de condottiere.

Esse vício é comum a todos os partidos atuais. Mas, estando no poder nacional, o governo articulado pelo presidente Lula é o maior responsável por essa anomia da política brasileira. O exercício do poder possui dimensão normativa insubstituível, exemplifica parâmetros do que pode ser dito e do que pode ser feito.

Como essa normatividade pode ser mantida quando toda alteridade é absorvida pelas alianças mais díspares? Como manter paradigmas se o presidente, com sua fabulosa capacidade de formular o desejo imediato de seu auditório do momento, se permite ser irresponsável quando se lhe pede uma análise correta de uma situação difícil? "Qual é a profundidade da crise? Perguntem ao Bush!"

Como se desenha uma crítica de esquerda a essa anomia? Não basta possuir o voto mais popular; Mussolini gozava desse privilégio. Deve-se, antes de tudo, defender e aprofundar a democracia.

É o que a direita proclamava quando se acreditava no centralismo democrático, mas sempre vale menos o que se diz e mais o que se faz, e não adianta, ao sair em defesa da democracia, procurar ajuda nos quartéis. Nem bem terminaram as eleições municipais deste ano e já os partidos e os grupos políticos se embolam pela conquista da Presidência.

Embora os resultados dessas eleições tenham sido melhores do que o esperado, pois não se configurou a onda vermelha unificadora do nada, o jogo político não respeitou as regras mínimas do respeito pelo adversário.

Em São Paulo o desrespeito foi desvairado, muito mais surpreendente porque veio sobretudo da coligação liderada pelo PT. Onde está a renovação dos costumes políticos que esse partido prometeu, no ato de sua fundação, naquela memorável reunião no colégio Sion [em SP, em 1980], onde muitos de nós lá estávamos para refundar a política brasileira?

Oposição responsável

Também a oposição não deixa de ter culpa no cartório. A tarefa de se configurar como alternativa ao lulismo cabe ao PSDB. É consenso que José Serra foi o maior beneficiário do último processo eleitoral, mas é preciso que ele não permita a seus aliados levarem de roldão seus adversários -circunstanciais ou não.

Do mesmo modo, já que Aécio Neves, apoiado por seu excelente governo de Minas Gerais, legitimamente aspira à Presidência, que ele tenha a cautela de refrear seus aliados, impedindo-os de vir a público fazer denúncias irresponsáveis.

Se ambas as partes se lançarem num jogo descomprometido com procedimentos democráticos, o desastre será enorme. Espero de nossas lideranças críticas que sejam capazes de articular um movimento de oposição combatendo essa anomia dos costumes políticos brasileiros, essa irresponsabilidade diante das normas que ameaça o nosso futuro democrático. Antes de tudo é preciso saber que país queremos.

Dadas, porém, a abrangência da questão e a profundidade da crise nacional e internacional, espreita o perigo de uma solução totalizante e totalitária, liderada por gaviões que busquem o apoio popular sem os meandros das instituições democráticas. Há lugar para novos conselheiros. Desconfio de projetos e programas abrangentes, que encobrem as vicissitudes da implementação; mais ainda de alianças descaracterizadas.

Cabe organizar um governo que se segure política e praticamente, capaz de formular problemas e implementar soluções, sempre tendo no horizonte, entretanto, o respeito às leis constituídas e o compromisso com a prestação pública de seus atos.

Desse ponto de vista, é inteiramente falso o dilema de uma aliança do centro com a esquerda ou com a direita. Votos dos grotões teve o antigo PFL e agora tem o PT. Se as forças políticas reais estão todas empoladas no centro, este só pode ser movido democraticamente se contar com o apoio de democratas.

É melhor evitar tanto o gavião direitista como o periquito predador representante do comissariado central. Tenho medo dos gaviões, mas receio ainda mais o periquito predador -na política ou na imprensa-, que come o milho e deixa o papagaio ficar com a fama.

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI é professor emérito da USP e coordenador da área de filosofia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção "Autores", do Mais! .

A crise econômica e o G-20


Rubens Ricupero*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO/ALIÁS


É ilusão esperar que os ricos transfiram o poder regulatório a órgãos fora de seu controle

A crise econômica é como o incêndio que destruiu o Teatro Cultura Artística: o fogo deixou a casa de máquinas e começa a propagar-se pelo palco e o auditório. Não sabemos se vai sobrar o painel da fachada, nem quando se apagarão as chamas. Só depois disso é que se poderá principiar a reconstruir o prédio à prova de incêndio.

Neste momento a prioridade absoluta é impedir que a crise se instale como depressão profunda e prolongada. Em setembro e outubro desapareceram nos EUA 524 mil empregos e mais 844 mil foram reduzidos a tempo parcial involuntário. A taxa de desemprego (6,5%) cresce 0,3% ao mês e logo ultrapassará 7%. A falência dos gigantes automobilísticos, a GM ou a Ford, afetaria 2,5 milhões de empregos diretos e 1,4 milhão de indiretos. Suspenderiam o pagamento de dívidas 7,3 milhões de famílias entre 2008 e 2010 e 4,3 milhões se veriam ameaçadas de perder a casa.

É a vida de milhões de pessoas que está em jogo, não as perdas de papel dos financistas culpados pelo colapso. Apenas agora, pouco antes da eleição e posse do presidente, a crise alcançou a economia real da produção e do emprego. A situação de Obama é a mesma de Franklin Roosevelt em 1932: precisa ter pronto pacote de impacto para evitar a depressão e apressar a recuperação da economia. Se não der certo, será o presidente fracassado de um só mandato.

Fala-se em estímulo fiscal de 2% a 3% do PIB, entre US$ 300 bilhões e US$ 450 bilhões, parte para encorajar o consumo, parte para investir numa infra-estrutura envelhecida. Será preciso salvar as vítimas do desastre das hipotecas. Ademais, socorrer a indústria de automóvel, as linhas aéreas, reforçar a rede de segurança social: prolongar o seguro-desemprego para além de 26 semanas, aumentar os cupons de alimentação, recuperar os devastados fundos de aposentadoria. Levando em conta os US$ 700 bilhões aprovados, o gasto total pode chegar a 10% do PIB (US$ 1,5 trilhão). Há espaço para o aumento do déficit, pois o país tem dívida pública ainda três vezes menor que a do Japão.

É inevitável a aproximação entre o “Big Bang” de Obama e o New Deal de Roosevelt devido à coincidência de uma crise avassaladora com a eleição e posse. Até a enervante espera sem poder fazer nada é semelhante. Durante os cinco meses em que tudo parecia ruir, Roosevelt rejeitou o “abraço de afogado” do presidente Herbert Hoover, recusando-se a endossar as medidas do governo moribundo. Emendou-se a Constituição para cortar a espera pela metade, mas o problema permanece. O que fará Obama?

Até que ponto se comprometerá com o mais impopular governo da história? O secretário do Tesouro é responsabilizado pelo erro fatídico de deixar falir o Lehman Brothers. Depois de aprovar a duras penas o pacote de aquisição de ativos tóxicos, acaba de mudar de idéia, resolvendo usar o dinheiro para comprar ações e capitalizar os bancos. Não é com esse ziguezague que vai conseguir reconquistar a confiança da população.

É por isso que idéias ambiciosas como a de Bretton Woods II, de uma nova arquitetura, ordem financeira ou governança global, caras aos europeus e aos emergentes, terão de esperar pelo novo governo dos EUA. O que essas propostas têm em comum é visarem à mudança radical na distribuição do poder decisório em organismos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

Os americanos, principais beneficiários e guardiães da ordem que criaram no apogeu de sua influência, sabem que, em hora de redução do poder relativo dos EUA, uma redistribuição para valer teria de ser feita às expensas deles. Não há registro na história de potência hegemônica que tenha aceito tal coisa.

Os europeus falam bonito, mas suas cotas de voto no sistema de Bretton Woods - acima de 30% comparadas a menos de 20% dos EUA - não se justificam no caso da Alemanha, França, Itália, Holanda e Bélgica, países de moeda única e com um só banco central. Nenhum deles, contudo, cogita de abrir mão de parcela da cota para permitir, digamos, o aumento da representação da África. O poder continua a realidade determinante da ordem política e econômica mundial. Não será uma crise financeira que vai mudar essa realidade.

O discurso do presidente Bush em Nova York em 13 de novembro indica a linha que os EUA seguirão na reunião do G-20 em Washington: não há nada de errado com os mercados do ponto de vista sistêmico. Alguns ajustes e aperfeiçoamentos técnicos bastarão para que tudo volte ao normal. Daí a Bretton Woods II, a distância se mede por anos-luz.

O mais provável é que os presidentes do G-20 solicitem aos ministros que preparem as melhorias técnicas, criando talvez um grupo de trabalho para acompanhar a execução. Emergentes como a China, com excesso de poupança e saldos em conta corrente, serão instados a estimular a demanda global. Não é o caso do Brasil, cuja precária situação está longe da gabolice de autoridades que só se distinguem pela gastança improdutiva.

A fim de avançar na regulamentação, terá de se ampliar o Fórum de Estabilização Financeira mediante a inclusão de alguns países emergentes, sem alimentar grandes ilusões. Como a de que os governos das maiores praças financeiras do mundo, Nova York e Londres, aceitem transferir o poder regulatório a qualquer órgão internacional não controlado por eles. Difícil também será os mercados admitirem eliminar as brechas de intermediação não-bancária (hedge funds, entre outros) e a regulamentação rigorosa das transações responsáveis pelo derretimento atual: as securitizações e os derivativos. Sem esquecer a abertura e transparência dos mercados, limitando a possibilidade das operações over-the-counter (acima do balcão).

De qualquer forma, essa é agenda que só vai avançar depois de apagado o incêndio. Antes, a prioridade para os governos, a começar pelo chefiado por Obama, é coordenar um vigoroso esforço para abreviar a crise, permitindo o início da recuperação em fins de 2009, devolvendo a confiança aos consumidores e a esperança aos que precisam de emprego.

*Rubens Ricupero, diplomata e ex-ministro da Fazenda, foi secretário-geral da Unctad - Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. É diretor da Faculdade de Economia da Faap

A escola do avesso


José de Souza Martins*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Depredação de estabelecimento estadual de ensino em São Paulo expõe crise de autoridades

Na polêmica sobre o sentido das palavras que entreteve com o ovo Humpty Dumpty, Alice questionou-o em relação à tese de que podemos dar às palavras o sentido que bem entendermos. Para ela a questão é que as palavras têm o sentido que têm. Humpty Dumpty não se deu por achado e tachou: “A questão é quem deve ser o mestre”, isto é, quem deve mandar e decidir o que as palavras significam. Alice do outro Lado do Espelho, de Lewis Carroll, é a melhor fabulação sobre a sociedade do absurdo e as grandes inversões de sentido da sociedade contemporânea. Uma sociedade que atravessou o espelho da realidade e tudo passa a existir ao contrário e a significar o oposto do que deveria significar. Tanto que, quanto mais se caminha, mais longe se fica do lugar ao qual se quer chegar. Essa obra de Carroll veio-me à cabeça quando li o noticiário sobre a depredação da Escola Estadual Amadeu Amaral, no bairro do Belenzinho, em São Paulo.

Na Escola Amadeu Amaral uma parte dos alunos falou a linguagem da desordem, outra parte falou a da ordem, os docentes e a direção perderam-se na linguagem do medo e da omissão, a polícia extraviou-se na estranha repressão de motim no que motim não era, falta de recursos pedagógicos para interromper a bagunça. Várias linguagens desencontradas entre si, cada qual incompreensível no código da outra. Nessa anormal sociedade dos avessos, faltou ali levar em conta a tese de Humpty Dumpty: cadê o mestre?

Os alunos dessa escola não sabem quem ele é. Um pequeno grupo de alunos se intitula Primeiro Comando da Escola, o que já indica o modelo colhido na pedagogia da criminalidade, amplamente difundida pela cultura do espetáculo. Em reiterados atos de violência faltou autoridade ao corpo docente intimidado. As chamadas devidas providências não foram tomadas, o medo dos docentes indultou os alunos e a indisciplina cresceu. Em diferentes pesquisas, centenas de escolas do Estado têm relatado episódios de violência, que incluem violência verbal, vandalismo, assalto à mão armada, violência sexual e até assassinatos. Não só alunos ameaçam e atacam professores, mas há também casos de pais agredindo professores. Já não se trata de espontâneos episódios de violência, mas de uma cultura da violência, com padrões e regras. Uma violência padronizada mobiliza nas respostas ocorrências fora da compreensão dos envolvidos, cada vez mais freqüentes, o que é fatal numa instituição com marcas evidentes de obsolescência.

O histórico esvaziamento da autoridade do professor e a demissão da família como co-responsável pela educação contribui para a perda de legitimidade da escola como instituição auxiliar na socialização das novas gerações. Além disso, a difusão de uma cultura de direitos individuais acima das obrigações sociais contribui para confundir os jovens, e mesmo seus pais, em relação à civilidade própria do direito como contrapartida do dever.

O magistério não tem o menor sentido senão baseado numa relação de autoridade que une o destino de quem sabe e ensina ao destino de quem não sabe e aprende. A relação professor-aluno não é nem pode ser uma relação de dominação, mas é uma relação desigual. Se os valores em que se funda essa criativa desigualdade pedagógica não são reconhecidos por uma das partes, o sistema inteiro desaba. O magistério só frutifica se alunos e professores, funcionários e famílias de alunos formarem o que Ecléa Bosi, em relação a outro tema, chamou de comunidade de destino. Quase tudo que se faz em relação à educação hoje em dia, sobretudo na escola, está no geral longe disso. A escola se burocratizou, os salários afetaram a própria auto-estima dos professores, uma mentalidade proletária ocupou na vida do professor o lugar da idéia do ensino como missão civilizadora. Alunos e professores deixaram de ser sujeitos e se tornaram simples e passivos objetos de relações e concepções coisificadas, num jogo que compreendem cada vez menos.

Os acontecimentos da Escola Amadeu Amaral alertam para o conjunto de problemáticos desencontros de que resultaram e dos pretextos por meio dos quais se expressaram. Uma aluna de 18 anos, do socialmente estável bairro do Belenzinho, insurgiu-se contra o exibicionismo sexual de uma aluna de 15 anos, recém-chegada, moradora em outro bairro, no Brás, um bairro que nas últimas décadas passou por grandes mudanças e de certo modo se enquadra no que Lewis Mumford define como áreas de deterioração social. A mais velha passou a atuar como agente de vigilantismo em relação à mais nova, usurpando a autoridade dos docentes e da diretora da escola. Não confiou neles para apresentar suas inquietações morais. Um problema no caso é justamente decifrar as causas e o sentido dessa quebra de confiança.

Do outro lado, a aluna mais jovem, temendo a agressão de suas colegas, trancou-se numa sala desativada do prédio e lá passou a noite. Sua mãe protestou dizendo que a filha tinha brigado e apanhado na escola e a direção não a avisara. No entanto, essa mãe aparentemente não estranhou que a filha menor de idade não tenha voltado para casa e tenha passado a noite fora nem tomou as providências policiais que se espera num caso assim para que a moça fosse localizada. Portanto, uma crise de autoridade que não se limita à escola. No comportamento da aluna mais velha, agindo por conta própria, mas também na relutância dos docentes e da direção da escola em tomar as providências cabíveis em relação a agressões, sem dúvida crise de autoridade no interior da escola. No comportamento da aluna e na complacência de sua mãe, crise de autoridade fora da escola.

Um grande número de escolas brasileiras precisa de uma pedagogia de emergência baseada no pressuposto de que esta sociedade se tornou uma paradigmática sociedade dos avessos. Nela os ritos e procedimentos dos tempos da ordem e do progresso nem sempre funcionam, lidos e interpretados na significação contrária do sentido declarado. Isso vai da escola do bairro do Belenzinho ao poder em Brasília.

*José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

Devaneios republicanos

Renato Lessa*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO /ALIÁS

Na trilha das suspeições, esconde-se a utopia da ‘prisão generalizada’ que tudo vai depurar

Corria o ano de 1996 e dois professores de direito norte-americanos - Frank Anechiarico (então no Hamilton College) e James Jacobs (idem na New York University) - publicaram um livro notável. Trata-se de The Pursuit of Absolute Integrity: How Corruption Control Makes Government Ineffective, editado pela Universidade de Chicago. No livro, os dois autores chamam a atenção para o fato de que durante o século 20 a cabeça dos reformadores institucionais esteve tomada pela visão de um corruption-free government, uma espécie de governo ISO 9000 e não sei quanto em matéria de eliminação de qualquer indício de corrupção. Um dos efeitos dessa obsessão teria sido uma reorientação de foco pela qual leis e prioridades de governo concentram-se mais no controle dos ocupantes de cargos do que naquilo que governos ordinária e supostamente devem fazer: governar.

O livro segue uma deliciosa inclinação cética e sustenta, para ir ao ponto, o seguinte argumento: o projeto contemporâneo de uma república corruption-free implica a adesão a formas de controle disciplinar que acabam por alimentar e exacerbar patologias burocráticas e inviabilizar reformas fundamentais na administração pública. O espírito de investigação suplanta a criatividade e disposição para a inovação. Adeptos de crenças utilitaristas podem bem dizer: é mais vantajoso, para fins de recompensa pública, perseguir malfeitores supostos ou reais e denunciá-los com ímpeto e estardalhaço do que propor inovações legislativas e administrativas.

Anechiarico e Jacobs exumam em seu texto um belo ensaio do jurista Bayess Manning, publicado em 1964 no Federal Bar Journal, publicação oficial do equivalente da OAB naquelas plagas. No ensaio, Manning - então deão da Stanford Law School - falou da presença de um “potlatch da pureza” em operação naquele país, uma obsessão por assepsia nos costumes e nas almas que teria feito com que o vocabulário da política se adaptasse estilisticamente à semântica de um drama moral.

Sounds familiar, certo? Em parte. Na verdade, há, pelo menos, uma importante diferença. Os juristas mencionados tiveram como campo de observação uma experiência cultural fundada na crença na presunção de inocência. Por mais que os “pais fundadores” norte-americanos - James Madison à frente de todos - sustentassem que os homens não são anjos e, portanto, o governo é necessário, havia neles uma crença básica de que a natureza humana, mesmo falível, merece o benefício da dúvida. É isso que constitui a rationale da presunção de inocência. Para voltar aos dois autores, com um pouco mais de ênfase: eles indicam exageros, absurdos e patologias presentes em políticas de controle dos gestores da coisa pública, nos limites de uma cultura de presunção de inocência que, procedimentos legais cumpridos à risca, acaba por constituir um limite à fúria punitiva e investigativa.

Agora, o que dizer de ânimos puristas semelhantes, ou ainda mais dilatados, em contextos nos quais as ficções nacionais mais fundamentais estão assentadas na desconfiança? Uma das características mais salientes da vida brasileira pós-ditadura tem sido a presença asfixiante de narrativas sobre a experiência do País nas quais metáforas do direito penal e uma perspectiva de suspeita têm papel preponderante. Baseados na observação sagaz de que os liberticidas que nos governaram até 1985 não podem ser excluídos do rol dos suspeitos usuais de danos à coisa pública, alguns otimistas julgam que a centralidade adquirida pelo denuncismo a partir de fins dos anos 80 resultou da liberdade de imprensa. Com efeito, isso parece constituir parte da resposta. Mas não elimina o fato de que a atmosfera da república exala desconfiança e a sensação de que, por vezes, estamos metidos em um mistifório de sicários.

O imenso e recente sarilho que envolve o STF, a Abin, a Polícia Federal, em torno da chamada Operação Satiagraha - há poesia e humanismo místico na coisa, então não? - reencena e dá vida a essa tradição. O suspeito original é preso por um delegado federal, tido como suspeito, a pedido de um juiz, também ele suspeito e desqualificado pelo presidente do STF. Há quem diga que o ânimo punitivo da chefia da Polícia Federal sobre o delegado suspeito de ter exagerado no tratamento do suspeito original é muito... suspeito. Não quero ser tomado por blasfemo, mas há até quem estranhe a presteza do presidente do STF na concessão de dois habeas-corpus ao suspeito original. Suspeita-se, ainda, que os advogados do primeiro suspeito estejam entupindo a vara do juiz suspeito com dezenas de petições, para que este enlouqueça ou pare de tomar atitudes suspeitas. (Antes de terminar o parágrafo, o releio e vejo que omiti a menção ao comportamento suspeito dos agentes da Abin e de seus chefes no imbróglio.)

Uma república de paranóicos? Nem tanto, pois é forçoso reconhecer que há imensa plausibilidade nas histórias que sustentam as suspeitas. Este é o ponto: cada uma dessas suspeitas constitui um fragmento de uma interpretação a respeito do que é o País, um experimento suspeito a ser investigado.

Em outros termos, trata-se de uma imagem do País como entidade opaca a si mesma. Como um depositório de enigmas que só podem ser elucidados pela lógica da investigação policial e da desconfiança promovida à política pública. Como não ver aí a produtividade de uma crença de que o País só terá de si uma imagem esclarecida a respeito do que é e poderá ser, se os “culpados” forem encontrados e presos? É claro, essa utopia da prisão final e generalizada de todos os malfeitores não poderá interromper a tara investigativa: há que investigar os juízes que os condenaram, os carcereiros, os advogados de defesa e, se calhar, os que se calam e não estão nem aí para isso, pois disso tudo, quem sabe, pode germinar uma nova geração de inimigos da coisa pública.

Como a malta ignara percebe tudo isto? Suspeito que ela esteja desenvolvendo uma atitude cognitiva e existencial de forte complexidade, uma espécie de mescla de confusão e credulidade absoluta, temperada com uma descrença dotada de tinturas cínicas e fatalistas. Confusão, pelos pormenores sombrios e sofisticados dos enredos e pelo abismo investigativo sem fundo, posto que incapaz do esclarecimento final: afinal, quem são os bons, nessa história toda? Credulidade, posto que à desorientação original sobrevém a certeza de que tudo que está sendo dito é verdadeiro, mesmo quando os fragmentos do drama se contradizem. Em outros termos, trata-se de um fideísmo da desconfiança: não entendo o que se passa, só sei - i. e., tenho a certeza de - que todos são, no mínimo, uns aldrabões. Por fim, a mescla entre cinismo e fatalidade e, por vezes, uma revolta ressentida por não desfrutar dos benefícios dos suspeitos.

Ainda assim, há otimistas. Boas almas crêem na existência de um processo de depuração de hábitos predatórios e republicidas. Conheço algumas que já se dispuseram à imolação pelo advento da sociedade sem classes e, hoje, não contém sua admiração pela Polícia Federal. Torço, mais uma vez, para que estejam certas, mas o travo cético acaba por escapar: afinal, qual o estado da arte de uma república na qual a polícia é tida como a principal guardiã do interesse público e responsável pelo esclarecimento de nossos mais fundos enigmas?

*Professor-titular de Filosofia Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Universidade Candido Mendes) e da Universidade Federal Fluminense e presidente do Instituto Ciência Hoje

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sábado, 15 de novembro de 2008

O fator Clinton


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Para o Brasil, seria muito bom que a senadora Hillary Clinton fosse mesmo nomeada secretária de Estado do futuro governo de Barack Obama. É, dentro do Partido Democrata, quem mais conhece o Brasil, país em que tem uma rede de contatos grande a partir do relacionamento que seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, fez com o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, cujos mandatos se cruzaram nada menos que durante seis anos, de 1995 a 2000. Antes de ser primeira-dama, Hillary era muito envolvida em políticas sociais no Children Defense Funds, e por isso conhece bem as políticas sociais no Brasil. Ela acompanhou também o trabalho do Comunidade Solidária com Ruth Cardoso e dizia que o Brasil era muito inovador em políticas sociais, tendo repetido isso na campanha presidencial que perdeu para Obama.

Suas ligações com os tucanos brasileiros fizeram com que o governo Lula temesse sua escolha como candidata dos democratas americanos. Lula torceu discretamente primeiro pela vitória de Obama sobre a senadora, e depois por uma vitória de McCain, no pressuposto de que os republicanos são menos protecionistas que os democratas.

De fato, apenas McCain falou favoravelmente ao programa de etanol do Brasil e no fim do subsídio aos produtores americanos. Com a aproximação do final da campanha, Lula se declarou abertamente a favor da eleição de Obama, a quem se considera ligado pela origem social modesta.

A escolha de Hillary Clinton para a Secretaria de Estado seria também uma confirmação do que a cada dia fica mais explícito: a influência do ex-presidente Clinton na formação da equipe de governo de Obama, que até agora tem 31 dos 47 membros da equipe de transição saídos do último governo democrata exitoso.

Os primeiros escolhidos para o futuro governo Obama saíram também do grupo de políticos que já trabalhou com o presidente Clinton, como o chefe do gabinete de transição, John Podesta, que foi chefe de gabinete do presidente. Para a mesma função, o presidente eleito já escolheu o deputado Rahm Emanuel, que foi conselheiro de Clinton na Casa Branca de 1993 a 1998.

Ele trabalhou próximo à então primeira-dama Hillary Clinton na tentativa de implantar um sistema de saúde universal no país e, devido aos seus laços com Israel, teve papel importante na assinatura do acordo entre a Organização para Libertação da Palestina e Israel em 1993.

É de sua inspiração a cena em que Clinton faz a aproximação para o famoso aperto de mãos entre o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e Yasser Arafat nos jardins da Casa Branca.

A proximidade com Israel já causou a Emanuel um constrangimento. Ele teve que pedir desculpas por uma declaração de seu pai a um jornal israelense, onde afirmava que seu filho, trabalhando na Casa Branca, influenciaria o governo a ser pró- israelense.

Outro da equipe da Casa Branca de Clinton é Ron Klain, que será chefe de gabinete do vice-presidente Joe Biden. Em 1992, Klain entrou na campanha presidencial Clinton-Gore, e foi o chefe da equipe de recontagem de votos na polêmica eleição de 2000, em que Al Gore perdeu para George W. Bush.

Na Casa Branca, ele foi um conselheiro presidencial para questões jurídicas e depois trabalhou como chefe de gabinete do vice-presidente Al Gore.

Um outro astro da equipe de Clinton que está sendo cotado para o governo Obama é o antigo secretário de Tesouro Larry Summers, que faz parte do grupo que assessora Obama na parte econômica desde a campanha.

A pressão de grupos feministas, ainda relacionada com comentários de Summers quando reitor da Universidade Harvard sobre uma suposta incapacidade feminina para trabalhar com matemática, pode impedir sua nomeação, assim como o obrigou a deixar o cargo em Harvard.

O fato é que Obama está se mostrando disposto a usar a experiência do mais recente e bem sucedido governo democrata, coisa que Bill Clinton não pôde fazer quando chegou à Casa Branca, pois o governo democrata anterior, de Jimmy Carter, terminou mal visto.

Hillary Clinton estaria ainda analisando o convite, que já teria sido feito na reunião que teve com o presidente eleito ontem em Chicago.

Segundo assessores, ela estaria pesando as vantagens de uma exposição internacional, contra o abandono das questões internas que a preocupam tanto, como o serviço de saúde universal, uma das promessas que ela fez seu adversário na disputa das primárias assumir como meta caso chegasse à Presidência.

Um detalhe que está sendo levado em conta é que, por mais prestigioso que seja o cargo, ela poderia ser demitida a qualquer momento pelo presidente Barack Obama, o que não aconteceria se tivesse sido escolhida vice-presidente, por exemplo.

Em relação a isso, há uma história na política americana que ontem foi relembrada pelo marqueteiro republicano Dick Morris.

Em 1944, Jimmy Byrnes, conhecido como "o sub-presidente" no terceiro mandato de Franklin Roosevelt, era o mais falado para ser o vice de Roosevelt na campanha pelo quarto mandato, em lugar de Henry Wallace. No último momento, Roosevelt preferiu Truman, considerando que Byrnes era muito conservador.

A cúpula do partido não apoiou a troca, a tal ponto que Truman, ao assumir a Presidência em 1945 com a morte de Roosevelt, viu-se constrangido a convidar Jimmy Byrnes para ser seu secretário de Estado.

Byrnes, que pensava que deveria ser ele o presidente, não dava satisfações a Truman e fazia a sua própria política externa. Não demorou um ano para que fosse demitido.

Segundo Morris, a mesma situação está acontecendo agora, com a senadora Hillary Clinton sendo a preferida da cúpula do Partido Democrata e considerando que ela é que deveria ter sido eleita presidente dos Estados Unidos.

A favorita


Mirian Leitão
DEU EM O GLOBO


A única mulher que governou o Brasil foi a Princesa Isabel, em interinidades, três anos ao todo, no século XIX. O século XX foi masculino e o atual será o da diversidade. Que a nossa não seja, como na Argentina, uma mulher à sombra do patrocinador. O presidente Lula a indicou e, agora, Dilma Rousseff vai ser exposta ao sol e ao sereno. Suas idéias fiscais e ambientais precisam de atualização.

Os políticos já viviam no ano de 2010 e, com a declaração de Lula na Itália, não voltarão ao tempo presente. Muitas dúvidas cercam a chefe da Casa Civil. Não se sabe se ela sobreviverá à guerra campal no PT; se agüenta uma campanha; se terá o carisma para arrebatar a maioria do eleitorado; quanto de votos o presidente Lula vai transferir. Já se sabe que, lançada, entra na linha de tiro dos rivais internos.

A eleição municipal de 2008 deixou informações curiosas, que embaralham as explicações convencionais sobre a política brasileira. O PT perdeu a eleição e o PSDB também. Nas principais capitais eles não ganharam a prefeitura. O debate sobre quem é mais vitorioso no mundo tucano, se José Serra, se Aécio Neves, é ocioso. Seus candidatos venceram, mas nenhum dos dois prefeitos eleitos é do PSDB. Serra ganhou a guerra interna e fez uma ponte para uma aliança com um partido de direita, que está cadente. O DEM ficou menor e sem São Paulo teria tido uma derrota feia.

Serra participou pouco da campanha; Aécio e o petista Fernando Pimentel quase sufocaram o candidato de tanto patrociná-lo. Precisaram se afastar, no segundo turno, para que ele consolidasse sua dianteira. É como se o eleitor de Belo Horizonte estivesse dizendo aos seus líderes, em castiço mineirês, idioma que domino de berço: "Já sei que "ocês" são "bão", uai, mas quero "conhecê mió" esse candidato "docês, sô!"

O eleitorado brasileiro disse a Lula que gostava dele, mas não votava em quem ele indicava. No auge da popularidade, com frutos do melhor momento econômico dos seus dois mandatos, Lula não teve o que mandou os jornalistas escreverem: "Escrevam aí, Marta vai ganhar a eleição." Acumulou outros fiascos como o de Natal. Dilma subiu no palanque de Maria do Rosário, em Porto Alegre, onde tem título eleitoral, e iniciou sua carreira pública. Perdeu.

A vitória do PMDB também é cheia de significados. Para quem olha a política de fora, como eu, é intrigante o fato de que o partido que mais bancadas faz no Congresso, e mais prefeitos elege, nunca conseguiu ter um candidato viável para a eleição presidencial, aceitando o papel de coadjuvante - guloso, é verdade - em todos os governos. Sempre no poder; nunca na Presidência. Especialistas dizem que o PMDB, nesta eleição, firmou-se como um condomínio de máquinas locais, confirmou sua natureza municipalista e que, controlando mais cidades, tem chance de fazer grandes bancadas na próxima eleição. Seus problemas: não tem um projeto nacional e, sim, uma colcha de retalhos de interesses fisiológicos regionais e nunca uniu o partido em torno de um candidato presidencial.

O cenário político brasileiro é esquisito. A mais nacional das máquinas partidárias não disputa a Presidência e está sempre no poder; os dois partidos que governaram o país nos últimos 14 anos lideram coalizões, mas não administram as principais cidades e não têm as maiores bancadas na Câmara e no Senado. O PT abandonou seu plano econômico - câmaras setoriais, controle de preço, controle de câmbio, protecionismo, não pagamento da dívida externa e auditoria na dívida interna - e adotou o do partido adversário - metas de inflação, câmbio flutuante, Lei de Responsabilidade Fiscal e abertura comercial. Isso pasteurizou as propostas.

Vários partidos menores cresceram nesta eleição e serão disputados na formação das chapas, mas 2010 pode ser parecido com 1989, eleição muito disputada no primeiro turno, com vários candidatos competitivos e muita dispersão de votos. Há duas grandes incógnitas não respondidas: Dilma passará pelo PT? O PSDB vai resolver a eterna guerra Serra-Aécio? Há cenários, não há certezas.

Foi só o presidente ir ao Papa e dizer o que pensa para a guerra em torno de Dilma começar. Ricardo Berzoini lembrou que há um processo interno no partido, a ser respeitado. O capixaba Renato Casagrande (PSB) disse que ela precisa ir para o sereno; Garibaldi Alves disse que ela precisa ir para o sol. No Espírito Santo, quem vai para o sereno e pega vento sul, adoece; no Nordeste, o sol faz carne-seca.

Dilma terá ainda que superar sua inabilidade no debate público e atualizar suas idéias. Na área fiscal, fulminou com o adjetivo "rudimentar" a melhor idéia defendida por seus companheiros, a do déficit zero na época da fartura. Isso permitiria política contracíclica agora. Na área ambiental, nunca demonstrou entender de que matéria o futuro será feito. A questão ambiental-climática estará em todas as equações econômicas daqui para a frente. Seu modelo energético resultou em mais estatismo e mais emissão de carbono. Os últimos leilões aprovaram projetos que sujam a matriz energética, quando a faxina já começou em outros países. Mas o pior para qualquer candidato que depende da bênção presidencial é que, antes de 2010, haverá 2009: um ano econômico difícil, desafiador, decisivo.

A "política subprime"


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Cínicos, alguns deputados têm razão parcial ao argumentar que a fidelidade partidária não pode ser absoluta. Ninguém está obrigado a sustentar as mesmas idéias a vida inteira. A coerência não é um valor intrinsecamente positivo. Menos pessoas teriam morrido na Segunda Guerra se Hitler tivesse mudado de opinião.

Mas o ponto não é esse. Os deputados e os vereadores no Brasil não são eleitos individualmente nem mudam de partido para salvar vidas. A "política subprime" de pular de galho em galho obedece apenas aos interesses pessoais de cada um. Ganha um passeio guiado pelo Congresso quem apontar um deputado cuja troca de legenda se deu por clamor de suas bases.

Uma discussão possível seria sobre a qualidade do sistema partidário-eleitoral. Por que não se pode no Brasil eleger um deputado individualmente? Por que as legendas se transformaram em sesmarias de alguns poucos caciques com poder de indicar quem serão os candidatos a cada pleito? Esse debate não interessa aos deputados.

A mania no Congresso agora é aprovar uma jabuticaba -nativa do solo brasileiro- chamada "janela de infidelidade". Uma vez a cada quatro anos, por um mês, valerá tudo. Para o eleitor, será um "contrato futuro de derivativo ideológico": vota-se no deputado sem saber onde o político estará em três anos. Essa bisonha "janela" é proposta de um deputado comunista cujo partido até recentemente admirava a Albânia. Se aprovada, adicionará uma modalidade extra de lei no país. Hoje, há as leis que pegam e as que não pegam. Passaremos a ter também as que podem ser transgredidas por apenas 30 dias.

O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, tem como barrar a "janela". Seu legado ficará marcado pela decisão. Poderá patrocinar o interesse dos eleitores ou incentivar a "política subprime".

Ayres Britto rebate Chinaglia e diz que ele não chefia Legislativo


Mariângela Gallucci
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Presidente do Tribunal Superior Eleitoral volta a cobrar cassação de mandato de deputado que trocou de partido

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, enfrentou ontem o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e voltou a cobrar o cumprimento da resolução da corte que cassa o mandato de parlamentares por troca de partido sem justificativa, os “infiéis”. Anteontem, Chinaglia demonstrou resistência em aplicar a punição a Walter Brito Neto (PRB-PB) e disse que Ayres Britto não preside o Judiciário - por isso, frisou, não poderia dar ordens ao Legislativo. “Ele também não é presidente de Poder”, disse o ministro.

“A decisão era para ser executada”, insistiu Ayres Britto. “Quando me referi à decisão tomada pelo TSE sobre perda de mandato, falei publicamente sobre um processo público.” Ele observou que a corte ordenou em 27 de março a cassação do mandato de Brito, eleito pelo DEM. Depois disso, destacou o ministro, recursos foram julgados, mas a decisão foi mantida.

Na quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a cassação dos infiéis. “Já saiu a decisão. Já comuniquei três vezes que é para dar posse ao suplente porque o devido processo legal foi exaurido”, cobrou Britto, na ocasião. Chinaglia rebateu: “Se eu quiser cobrar publicamente do ministro Ayres Britto processos em que sua excelência ficou determinado tempo sem deliberar, posso fazê-lo publicamente também.”

Ayres Britto admitiu ontem que Chinaglia não foi comunicado da decisão em 27 de março, mas insistiu: “Já me dirigi ao presidente da Câmara sobre esse caso por três vezes.”

IMBRÓGLIO

O embate entre o TSE e a Câmara aumenta na medida em que os dias passam e Brito, que teve decretada a perda do mandato por infidelidade partidária, continua com sua cadeira. A determinação para que a Câmara cassasse seu mandato e empossasse o suplente deveria ter sido cumprida até meados de setembro. Nada foi feito. Pelo contrário, Chinaglia criticou o presidente do TSE.

“Eu não falei por todo o Judiciário porque não sou presidente do Judiciário. Nem citei o nome do presidente da Câmara. Eu impessoalizei. Eu, como presidente de uma casa do Judiciário, me referi ao presidente de uma casa legislativa. O presidente do Congresso é o presidente do Senado”, afirmou Ayres Britto ontem.

“Não vejo nisso uma crise entre Poderes, até porque não sou presidente do Judiciário e não estou lidando com o presidente do Congresso”, acrescentou.

O ministro declarou ter ficado surpreso com o “tom áspero e agressivo” das declarações feitas pelo presidente da Câmara, mas afirmou estar disposto a “virar a página”. “Desde que possamos administrar esse impasse nos marcos da institucionalidade, tenho toda a predisposição para virar a página. Até porque, no plano pessoal, o meu baú de guardar mágoas tem um fundo aberto”, afirmou.

COBRANÇAS

Apesar da resistência, o presidente do TSE espera que a Câmara cumpra a determinação. Ayres Britto observou que o prazo previsto para isso ocorresse era de 10 dias após o tribunal ter enviado à Câmara um ofício comunicando que Brito tinha perdido o mandato. Esse documento foi mandado em 4 de setembro. Ou seja, o prazo terminou em 14 de setembro.

Ayres Britto informou que leu e releu as declarações dadas na quinta-feira por Chinaglia e as afirmações feitas por ele próprio na quarta-feira, após o STF ter decidido que é válida a resolução do TSE que determina a perda dos mandatos. “Confesso que me preocupei não com ele, mas comigo mesmo. Eu me lembrei da música do Djavan, Flor de Liz, que diz ‘Onde foi que eu errei?’.”

A conclusão de Ayres Britto é de que houve um mal-entendido. “Minhas declarações não tiveram um tom desrespeitoso”, afirmou. O ministro disse ainda que costuma usar metáforas em suas declarações, mas elas não são ofensivas: “Não posso deixar de ser poeta.”

O presidente do TSE comentou, por fim, que a Justiça já tomou centenas de decisões sobre o mesmo tema e nenhuma foi descumprida pelas Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais. Existem hoje na corte cerca de 2 mil ações envolvendo políticos infiéis.

Dilma na cabeça


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


A medida da dificuldade do governo na eleição presidencial de 2010 é dada pelo presidente Luiz Inácio da Silva, quando dobra a aposta na candidatura da ministra Dilma Rousseff.

A despeito de ter sido sempre um adepto do sigilo até o início do jogo propriamente dito - assim fez nas quatro primeiras vezes em que foi candidato a presidente -, agora Lula resolveu fazer diferente: pôs Dilma na roda de forma oblíqua há dez meses e na última quinta-feira, de Roma, avisou diretamente que está com ela “na cabeça” para concorrer à sucessão.

Com isso, o presidente pode obter o desejado efeito de pôr um freio na discussão e ainda manter a chama acesa da perspectiva de poder frente à ofensiva dos pré-candidatos da oposição.

Deu certo no princípio do ano ao fazer de Dilma a “mãe do PAC”. Abafou ambições presidenciais no PT e enterrou as especulações sobre o terceiro mandato assim que constatou em definitivo a inviabilidade prática da proposta.

O clima na época era outro. Bem mais propício à obediência. Ainda se vivia a ilusão do “poste”, o PT não havia passado pelo teste da convivência com seus aliados em disputas eleitorais e a oposição ainda não havia dado a largada para a corrida sucessória.

Agora Lula repete o gesto, diz que está com o nome de Dilma “na cabeça”, mas corre o sério risco de terminar levando na cabeça por puro erro de cálculo. O quadro mudou, os aliados estão bem menos propensos à submissão e já examinam novas possibilidades para além das fronteiras atualmente governistas.

Podem ou não aceitar Dilma, dependendo das circunstâncias. Hoje, com dois anos de mandato ainda pela frente, a palavra do presidente ainda merece reverência, mas já não carrega o peso de palavra final.

Se os partidos vierem a se revelar contra a escolha de Dilma e a partir daí se dispersarem, Lula terá contratado desnecessariamente uma derrota. Do papel de magistrado, cabo eleitoral privilegiado, passará à condição de votante vencido.

Nem o PT esconde a divisão em torno do assunto. Na reunião do Diretório Nacional do partido logo após as eleições municipais, um grupo defendeu a antecipação da escolha oficial de Dilma Rousseff como candidata, mas outro defendeu a busca de alternativas mais competitivas.

As legendas de menor peso na aliança aguardam a definição do PMDB, onde a situação da predileta do presidente não é confortável.

A maioria do partido defende a neutralidade de resultados e a minoria defensora da manutenção da aliança com o PT em qualquer hipótese não esconde a opinião de que Dilma seria a menos alentadora delas.

Não sendo crível a possibilidade de os partidos aceitarem a imposição de um presidente popular, mas que no dia seguinte à eleição será ex-presidente, só por constrangimento de discordar. Aceitam Dilma se ela até lá demonstrar boas condições de competir. Se ficar no dígito único nas pesquisas, dão adeus e vão embora.Batendo o pé em Dilma desde já, Lula interdita o debate na base, provoca uma natural reação a imposições e mostra não ter aproveitado direito as lições que a última eleição municipal deu sobre o excesso de confiança de alguns governantes.

AutoriaO governo já reconheceu a necessidade de alterar a MP que permite a renovação automática dos registros de entidades filantrópicas no Conselho Nacional de Assistência Social e, portanto, admite que houve má-fé na concessão de anistia a todas elas, várias envolvidas em esquemas fraudulentos.Falta agora tornar pública a autoria do contrabando. Assim como jabuti não sobe em árvore, a “pilantropia” não apareceu por geração espontânea no texto da medida provisória.

Pactóide

Das quatro grandes favelas do Rio de Janeiro onde o governo federal materializou sua parceria com a administração local na instalação de canteiros de obras do PAC para conter a ação da criminalidade, três já foram, depois disso, cenário de batalhas entre polícia e bandidos.

Os moradores continuam a mercê do narcotráfico e a mera presença do Estado não serviu de garantia para nada. Ao contrário: na hora do aperto, prevalece a violência e o poder público recua.

Mostra a face no embalo das bandas de música, cercado de muita segurança e depois se retira deixando no ar uma sensação de puro engodo.

Pé de cabra

Se os parlamentares querem mesmo criar uma gambiarra legal abrindo espaço para o troca-troca de partidos quando houver eleições à vista é melhor que façam as coisas bem feitas.O Legislativo finge não se dar conta de que sua prerrogativa de legislar deve obediência aos limites delineados pela Constituição, extrapola e depois, quando o Judiciário se manifesta, reage como vítima de interferência indevida.

Lula deve reassumir já a Presidência


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Com a alma de católico praticante reconfortada pela bênção do papa Bento XVI, que o recebeu em audiência especial na biblioteca particular do pontífice, no Vaticano, para uma conversa com a solenidade da agenda previamente aprovada e que incluiu tema de evidente interesse, como a paz mundial, direitos humanos, meio ambiente e igualdade de direitos, e depois de aplaudido pelo seu desempenho como líder do grupo de países emergentes, na reunião do G-20, em Washington, o presidente Lula está de volta a Brasília para reassumir seu lugar no Palácio do Planalto e enfrentar o desafio de uma ameaça de crise interna que pipoca por todos os lados.

Não há prioridades num quadro de emergência. Mas, pela sua delicadeza, o desconforto evidente da ministra Dilma Rousseff reclama cuidados imediatos. Se o presidente não obedece à hierarquia e, na ausência, prefere deixar em sossego o vice-presidente José Alencar, desta vez o peso foi demais para a ministra-candidata. A partir da evidência que entra pelos bugalhos e que passará pela prova de fogo nas próximas pesquisas, que se repetirão todas as semanas até as urnas, em 2010, a candidata lançada pelo presidente e que ensaia a campanha nas viagens domésticas para conferir as obras do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC que pouco se vê longe dos canteiros do Norte e Nordeste, ainda não emplacou.

O clima de desconfiança é corrosivo no clima de futricas de ambições que quebram o gelo do constrangimento e se oferecem ao sacrifício de servir ao país. Nada mais sintomático do que a última reunião do Diretório Nacional do PT, em Brasília, com o cínico pretexto de discutir a conveniência da antecipação do lançamento da candidatura de Dilma Rousseff. Ora, a candidatura da chefe da Casa Civil já foi lançada há tempos por quem pode e manda, que é o presidente Lula. Confirmada em vários pronunciamentos públicos. E levada na comitiva presidencial nas viagens pelo país como candidata e a responsável pelas obras do PAC.

Basta enxugar os pingos do chuvisco petista para que se exponha a ansiedade represada dos pretendentes ao lugar da ministra. O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), quebrou a vidraça com a advertência de estudada ambigüidade: "O nome mais óbvio é o da ministra Dilma, que é o nome do presidente Lula". Além de outras qualidades que desfilaram arrastando os pés: tem postura, bom relacionamento com o PT e disponibilidade para o debate. Limpou a garganta, pigarreou para estimular a ousadia: "Ninguém é contra a candidatura da ministra, mas não podemos democraticamente excluir outra candidatura".

Estamos, pois, oficialmente informados de que o PT ainda não tem candidato nem candidata à sucessão de Lula. Ocorre que o presidente não terá vagares para desperdiçar o seu tempo com o ensaio de rebeldia, que não vai além de uma pirraça de menino birrento.

Pois encontrará o país atolado até o gogó na bagunça da mistura da crise da economia mundial, cada vez mais preocupante e com a baderna que envolve os três poderes. O Senado, com a maioria em cacos pela disputa da presidência, aprovou projeto criando um índice de reajuste para aposentadorias e pensões que, se passar na Câmara, escancarará um rombo de R$ 9 bilhões nos cofres da Previdência.

O clima tenso nas relações entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) subiu um tom com a decisão da mais alta corte do Judiciário, que aprovou por unanimidade a norma que assegura aos partidos o direito de pedir a cassação dos mandatos dos políticos infiéis. São flagrantes de uma degringolada que ameaça explodir numa crise do regime. E as contas dos erros chegam em fila: o gigantismo doentio do maior ministério de todos os tempos estoura as verbas orçamentárias; se as obras do PAC não podem parar, sem dúvida o seu ritmo será reduzido; os mais de 100 mil cargos públicos, muitos de livre nomeação, para o rateio político que garanta o apoio da maioria no Congresso, bate de frente com as dificuldades do Tesouro.


E a desordem urbana nas capitais e grandes cidades ocupa as favelas que dominam os morros e áreas sem lei, enfrentam a polícia e mantêm abertos os pontos do tráfico de drogas. Não há como fechar os olhos. A série de erros do governo expôs a agravante da acefalia com as ausências do presidente que mais viajou na nossa História republicana.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1148&portal=

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

PPS desmente notícia sobre fusão do partido com o PSDB


A direção nacional do PPS negou, nesta sexta-feira (14), que esteja mantendo qualquer tipo de conversações com o PSDB visando a fusão entre as duas siglas. O partido esclarece que, ao contrário de notícia veiculada pela coluna Panorama Político do jornal O Globo, a aproximação entre as duas legendas tem como objetivo a construção de um projeto para o país, que será apresentado aos brasileiros pelo candidato da oposição à Presidência da República. Informa ainda que esse candidato, na opinião do partido, poderia ser o governador de São Paulo, José Serra, ou o de Minas Gerais, Aécio Neves.

A direção do PPS ressalta ainda que o diálogo com os tucanos não é nenhuma novidade, já que as duas legendas realizam há muito tempo parcerias não só no Congresso, mas na promoção de seminários temáticos para debater os problemas estruturais do país. Exemplo disso foi o Primeiro Colóquio entre Socialistas e Socialdemocratas, realizado em novembro de 2003, no Rio de Janeiro, e que reuniu políticos, militantes e intelectuais do PPS e PSDB.

Outro ponto que desmente a fusão das duas siglas, foi decisão tomada pelo Diretório Nacional do PPS, em sua última reunião, realizada nos dias 30 e 31 de outubro, em Brasília. No encontro ficou definido que o partido trabalharia, em conjunto com o PSDB, para a elaboração de um projeto para o país.

Adão Cândido
Secretaria Nacional de Comunicação do PPS

Em nota, FAP desmente que organiza seminário para debater fusão entre PPS e PSDB

A direção da Fundação Astrojildo Pereira divulgou nota, nesta sexta-feira (14), negando que esteja mantendo qualquer tipo de conversações com Instituto Teotônio Vilela, ligado ao PSDB, visando a fusão do PPS com o partido tucano, como afirmou nota publicada pela coluna Panorama Político do jornal O Globo. Confira abaixo a íntegra da nota.


Nota de Esclarecimento da Fundação Astrojildo Pereira

Fomos surpreendidos com notícia, estampada na coluna Panorama Político (O Globo, 14/11/2008, pg. 2), sob a responsabilidade do jornalista Ilimar Franco, informando que “estão avançados os entendimentos para o PPS se incorporar ao PSDB”, que “as direções do PSDB e do PPS consideram que já existe entre eles uma convergência programática” “por isso, decidiram construir juntos uma proposta de agenda para o país, que será a base do programa de governo de José Serra”, e que “os presidentes do Instituto Teotônio Vilela, deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB-ES), e da Fundação Astrogildo Pereira, Francisco Almeida, estão organizando um grande seminário para o primeiro semestre do ano que vem”. Quanto ao PPS, nota de sua direção nacional, desmentindo esse processo de incorporação, foi divulgada, em seu portal eletrônico.

No tocante à Fundação Astrojildo Pereira, instituída pelo PPS, e da qual sou apenas diretor administrativo (seu presidente é o ator e vereador Stepan Nercessian, que se encontra atualmente de férias, no exterior), temos a informar que ela vem, há pelo menos cinco anos, realizando seminários em parceria não apenas com o Instituto Teotônio Vilela, do PSDB, mas também com a Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, do PDT. Nossos objetivos – das fundações e do instituto – têm sido o de trocar idéias e propostas, em torno das grandes questões nacionais, além de discutir convergências e divergências existentes entre as correntes socialista, social-democrata e trabalhista (publicações de alguns desses seminários estão lhe sendo encaminhadas, para seu conhecimento).

Quanto ao seminário “E agora, Brasil?”, que começamos a delinear entre o ITV e a FAP, pretende discutir a crise financeira e econômica mundial e suas repercussões aqui, o Brasil pós-Lula e apontar os caminhos para que se materializem as reformas que os brasileiros há muito aguardam.

Francisco Almeida
Diretor administrativo da Fundação Astrojildo Pereira

PSDB + PPS

Panorama Político :: Ilimar Franco
DEU EM O GLOBO

Estão avançados os entendimentos para o PPS se incorporar ao PSDB. O governador José Serra e o ex-deputado Roberto Freire têm conversado bastante. Para os quadros do PPS, a união é uma questão de sobrevivência. Para os tucanos, um reforço para as eleições presidenciais de 2010. Essa negociação leva em conta a aprovação do fim das coligações nas eleições proporcionais e a abertura de uma janela para a troca de partidos.

Os dois partidos farão agenda comum

As direções do PSDB e do PPS consideram que já existe entre eles uma convergência programática. Por isso, decidiram construir juntos uma proposta de agenda para o país, que será a base do programa de governo de José Serra. Os presidentes do Instituto Teotônio Vilela, deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB-ES), e da Fundação Astrogildo Pereira, Francisco Almeida, estão organizando um grande seminário para o primeiro semestre do ano que vem. "Muitos ex-comunistas do PSDB, como eu, estão entusiasmados com a fusão, que praticamente já existe no bloco de oposição ao governo Lula", afirma Vellozo Lucas.

Lula diz que Dilma é a candidata, mas 'não será fácil' ganhar em 2010

Leonencio Nossa, ROMA
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Em entrevista a jornais italianos, ele elogia ‘potencial extraordinário’ da petista, que o acompanha em visita ao papa

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, recebeu a “bênção” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como sua candidata na disputa pelo Palácio do Planalto em 2010. Mas o presidente reconheceu que não será “fácil ganhar”. Em entrevista a cinco diários italianos publicada ontem, Lula deu a largada na sucessão presidencial. “Eu, na verdade, tenho um nome na cabeça, o de Dilma, chefe da Casa Civil do governo. Ainda não falei com ela, mas creio que poderá ser uma boa candidata”, disse, segundo o Corriere della Sera. “Queria que o Brasil, depois de mim, fosse governado por uma mulher, e já existe a pessoa ideal: Dilma Rousseff”, afirmou, no registro do La Repubblica.

O jornal Il Manifesto publicou outro trecho da declaração do presidente. “Creio que o PT deve construir uma base sólida para levar adiante o projeto que estamos implantando no Brasil”, disse Lula, segundo o diário. “O partido vai discutir sua candidatura e eu, já repeti mais de uma vez, direi que a minha ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, tem potencial extraordinário para ser a candidata. Mas a coisa mais importante para nós é construir antes uma aliança entre diversas partes e um programa sólido”, ressaltou. “Se continuar a onda sobre a qual no movemos, o governo chegará à data das eleições em posição de força.”

Diante da repercussão da entrevista de Lula aos jornais italianos, uma Dilma sorridente, de terninho preto, apareceu na área residencial do Vaticano com o presidente e outros três ministros, para uma audiência com o papa Bento XVI. Minutos antes de ser cumprimentada pelo papa, ela chegou a sorrir para jornalistas.

Horas depois, numa entrevista para jornalistas brasileiros na sede da embaixada em Roma, o presidente tentou amenizar as declarações sobre Dilma, mas acabou reforçando o que havia dito.
“O que eu disse para eles (jornalistas italianos) eu digo para vocês (brasileiros): tenho de construir uma candidatura da base aliada e ligada ao governo”, afirmou. “Quem conhece a ministra sabe que ela tem potencial e poderá ser escolhida pelos partidos da base e pelo PT.”

Aliados reagem à escolha de Lula

Maria Lima
DEU EM O GLOBO

Oposição diz que presidente não poderá culpar partidos por antecipar sucessão

BRASÍLIA. As declarações do presidente Lula à imprensa italiana, de que gostaria de ser sucedido, na Presidência, pela ministra Dilma Rousseff, provocaram mal-estar entre aliados, que se sentiram atropelados, críticas da oposição e desconforto no seu próprio partido. O presidente do PT, Ricardo Berzoini (SP), disse que o presidente manifestou sua preferência, mas que o partido tem um rito de escolha do candidato, ao qual Dilma teria de se submeter. Berzoini disse ainda que ainda é cedo para falar em nomes para 2010:

- Todos sabem que a ministra Dilma é a candidata preferida do presidente. Mas o PT tem seu processo democrático interno de escolha. A preferência do presidente tem peso, mas o rito do PT comporta outras opções. E os aliados vão trabalhar em cima de nomes com possibilidades. É bom ter referência. Mas é cedo para falar em nomes.

Sobre a superexposição de Dilma tanto tempo antes da eleição, Berzoini disse que esse é um risco, já que, antes mesmo de ela ser escolhida já é alvo da oposição. O ministro da Justiça, Tarso Genro, que já teve pretensões de ser candidato, fez um comentário curto sobre as declarações do presidente:

- Sempre que achei que o presidente tinha dito alguma coisa arriscada, eu estava errado e ele estava certo.

Presidente já citou nome de Henrique Meirelles

Segundo líderes, em reunião recente Lula brincou que, diante da crise, o melhor nome para brigar com o tucano José Serra seria o do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

- Foi a última cartada de Lula para ver se Dilma emplaca. Mas, primeiro, ele tem que perguntar o que os aliados acham. Numa crise dessas, só quem pode enfrentar Serra no mesmo nível de debate é Meirelles - diz Luciano Castro (PR-RO).

Já o líder do PSB, senador Renato Casagrande (ES), diz que o partido quer fortalecer o nome de Ciro Gomes (PSB-CE):

- Dilma tem que ir para o sereno em 2009, para ver se agüenta as intempéries da campanha. O PSB vai fortalecer o nome do Ciro. É importante que a gente tenha alternativas.

O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), concorda que, antes de formalizar uma eventual candidatura, Dilma tem de ser testada:

- Os outros pré-candidatos já estão aí expostos. Então, nada melhor que um banho de sol na ministra.

Na oposição, causou estranheza o fato de que o próprio Lula tenha antecipado o debate sobre sua sucessão, com risco para a governabilidade.

- É a primeira vez que vejo um presidente lançar seu sucessor com dois anos de antecedência. Agora não vai mais poder dizer que é a oposição que está antecipando o debate e atrapalhando a governabilidade - disse o líder do DEM, senador Agripino Maia.


Ao anunciar Dilma, Lula se precipita e prejudica governabilidade, diz Coruja


William Passos
DEU NO PORTAL DO PPS

“A oposição, agora, mais do que nunca intensificará a vigilância sobre os atos do governo para afastar os de caráter eleitoral”, garantiu o líder do PPS.


Ao comentar a declaração de Lula que anunciou a ministra Dilma Roussef como a candidata do PT à sua sucessão, o líder do PPS na Câmara, deputado Fernando Coruja (SC) disse que o presidente quer antecipar o “jogo” e que a precipitação prejudicará a governabilidade.

Lula disse na Itália que será a primeira eleição desde 1989 em que ele não será candidato, mas que está empenhado em participar da escolha de seu sucessor dentro do PT.

Ainda de acordo com o líder do PPS, “se Lula quer começar o debate eleitoral, que está previsto para 2010, antes do tempo, a oposição se vê obrigada a fazer o mesmo”.

Coruja diz que a estratégia do Planalto é tornar a ministra mais conhecida, por isso, é possível que o governo tente vincular seus projetos à imagem dela.

Dilma, segundo as pesquisas de intenção de voto, não ultrapassa os 10%. Já governador de São Paulo, José Serra (PSDB), que também deverá disputar o pleito, tem 38% da preferência do eleitorado.

“A oposição, agora, mais do que nunca intensificará a vigilância sobre os atos do governo para afastar os de caráter eleitoral”, garantiu.

O objetivo é denunciar o uso da máquina administrativa para beneficiar o PT e, conseqüentemente, a ministra candidata.

A volta por cima


Merval Pereira
DE EM O GLOBO


NOVA YORK. Enquanto o candidato republicano à Presidência, John McCain, retoma sua característica de fazer brincadeiras autodepreciativas, dizendo que tem dormido como um bebê desde a derrota e acorda chorando a cada duas horas, no interior do Partido Republicano começa a disputa para uma reestruturação partidária, e a figura chave para esse futuro é a polêmica candidata a vice, a governadora do Alaska Sarah Palin. Recente pesquisa do Rasmussen Reports mostra que, ao contrário do que assessores da campanha derrotada andaram espalhando, a base do partido não considera Palin a responsável pela derrota.

Nada menos do que 69% dos eleitores republicanos acham que ela ajudou a chapa, e, quando citam qual seria o candidato ideal para o partido em 2012, 64% citam o nome da governadora do Alaska.

Ridicularizada em programas humorísticos como o "Saturday Night Live", em que a comediante Tina Faye celebrizou-se com sua caricatura, e considerada como "um tiro no pé" do Partido Republicano, pela incapacidade explícita de assumir o governo dos Estados Unidos em caso de necessidade, seus aliados mostram estudos que indicam que, na verdade, a "pitbull de batom" Sarah Palin, como ela se definiu na convenção republicana, fez uma grande diferença a favor de McCain entre o eleitorado feminino.

Enquanto o candidato republicano perdeu 11 pontos entre o eleitorado masculino branco, entre as mulheres brancas sua perda foi de apenas quatro pontos, sempre comparando com a votação de 2004 de George W. Bush.

Para esses analistas conservadores, a presença de Palin na chapa fez com que milhões de mulheres brancas se sentissem representadas como mães e mulheres trabalhadoras.

Ela se transformou na estrela do partido, e líder inconteste da ala tradicionalista, que prega, como defendeu ontem no discurso da reunião dos governadores republicanos, a volta aos valores tradicionais.

Para esses, os republicanos perderam a eleição porque se desviaram do seu credo original, a começar pelo governo de Bush, um governo que ocupou um espaço exagerado na vida nacional, e encerrando com a escolha de um republicano liberal como John McCain.

Em seu discurso de ontem, que foi o ponto alto da reunião dos governadores, Sarah Palin voltou a tocar nos pontos básicos da pregação mais conservadora do partido: corte de impostos, governo pequeno e controle da imigração, juntamente com temas do dia-a-dia das comunidades, como reformas da educação e do sistema de saúde.

Há um outro grupo no partido, chamado de "reformista", que entende que a mudança tem que ser profunda, para adaptar os valores tradicionais à realidade de um novo mundo, assim como fez o Partido Conservador inglês, que passou a dar mais atenção à questão do meio ambiente, por exemplo, em vez de negar os problemas que existem, como faz Palin.

O Partido Republicano não poderia mais ignorar os jovens eleitores e os hispânicos, que se mostraram uma força na eleição de Obama. E também não poderia continuar a se colocar contra regiões inteiras do país, como também fez Sarah Palin, que acusou a elite americana de se posicionar contra os interesses reais do americano médio.

Voltar para o governo do Alaska, que é a opção mais à mão, seria "sair da primeira classe e ir para a classe econômica" na definição dos dirigentes do partido, que já se movimentam para encontrar um atalho que mantenha a exposição nacional que Sarah Palin conseguiu.

Uma das saídas seria ir para o Senado, numa complicada manobra que está sendo abortada pela recontagem de votos. No estado da governadora, o senador Ted Stevens, condenado por sete crimes um dia antes da eleição, está sendo ultrapassado na recontagem de votos pelo candidato democrata Mark Begich, governador de Anchorage.

Se o republicano vencer ao final, ele tentará reverter as condenações, mas a direção do Senado já avisou que ele será expulso. Nesse caso, deverá ser convocada uma nova eleição dentro de 60 a 90 dias, e a governadora Palin poderia se candidatar a uma exposição nacional em Washington.

Um dos papéis mais importantes para consolidar o futuro político de Sarah Palin será comandar uma mobilização das bases eleitorais, especialmente no recrutamento de militantes partidários e o alistamento eleitoral, a exemplo do trabalho de longo prazo que fez a campanha de Obama, dois anos antes da eleição presidencial, surpreendendo até mesmo a direção do Partido Democrata, que perdeu o controle da legenda diante da participação maciça de novos eleitores recrutados por Obama.

Pesquisas indicam que a presença maior de eleitores democratas novos fez a diferença na eleição do dia 4 de novembro. O comparecimento dos democratas às urnas aumentou na mesma proporção que decaiu a presença dos republicanos. Os eleitores registrados aumentaram em 6 milhões, e o comparecimento maciço dos eleitores negros, que geralmente são ausentes em grande número, fez a diferença a favor de Obama.

Os "tradicionalistas" consideram que Sarah Palin tem um papel semelhante ao que teve, nos anos 80 do século passado, o ex-presidente Ronald Reagan: o de trazer para o partido os eleitores jovens e os independentes.

Foi nessa época também que grupos conservadores, como a Associação Nacional do Rifle e a Maioria Moral, aprofundaram suas ações políticas e recrutaram pelo país novos afiliados ao Partido Republicano, como nos últimos dois anos a campanha de Barack Obama fez a favor dos democratas, criando inclusive uma rede independente de apoiadores através da internet que se mostrou de extrema utilidade, não apenas no recolhimento de fundos de campanha como na propagação de mensagens políticas.