domingo, 7 de dezembro de 2008

''É uma luta que não acaba nunca''


AI5, 40 anos depois
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Para Serra, que amargou o exílio, os jovens entendem o significado da ditadura quando a comparam com o regime democrático

O governador José Serra entende que a melhor explicação que alguém pode dar aos jovens sobre o significado da ditadura é mostrar como ela era. "É compará-la com o regime democrático, até para que a juventude possa valorizar melhor a democracia", disse ele. Serra opinou que a busca pelo aperfeiçoamento da democracia "é uma luta que não acaba nunca". Eis a entrevista:

O senhor estava no Chile no dia 13 de dezembro de 1968. Como entendeu a notícia da edição do AI-5, na ocasião?

Pelas informações que recebia do Brasil, eu já estava aguardando um endurecimento do regime. Soube da notícia pela Conceição Tavares, quando estava de cama, com febre tifóide, uma infecção cuja incidência era relativamente alta na região de Santiago. Na época, minha mulher estava grávida, eu tinha acabado o curso de pós-graduação em Economia e havia sido contratado pela universidade. Eu não sou da "geração de 1968". Havia deixado o Brasil em 1964, depois do golpe. Era presidente da UNE e nas semanas que sucederam o golpe fui bastante procurado pelos órgãos de repressão. Sem condições de permanecer em liberdade, passei pela Bolívia e fui para a França, onde contava com uma bolsa para estudar Economia, embora fosse aluno de Engenharia, na Politécnica de São Paulo. Voltei ao Brasil em 1965, clandestino, mas não houve condições de permanecer. Fui então para o Chile, com o propósito de terminar meus estudos. Em 1966, fui condenado pela Justiça Militar, num processo inteiramente inventado. Por isso, havia perdido quase toda as esperanças de regressar ao Brasil, no curto prazo, para uma vida normal, aberta. O AI-5 eliminou esse "quase". Aliás, acabei tendo uma recaída da febre tifóide, o que é raríssimo. A probabilidade, segundo os médicos, era de 1%. Quem sabe foi uma somatização do AI-5.

E como o senhor o vê hoje?

Quarenta anos depois o vejo como o pior episódio da história brasileira do pós-guerra. Senti que iria se abater sobre as forças da esquerda, em todas suas variantes, uma repressão para valer. Seria a ditadura de verdade, sem passeatas nem canções de protesto. Não acreditava na solidez de uma reação armada. Fiquei no Chile até 1974, já com dois filhos. Lá, sofri a repressão que não chegou a me atingir no Brasil, pois fui preso depois do golpe e, creio, por pouco e por muita sorte, não entrei numa lista de "desaparecidos". Aprendi muito, muitíssimo, com dois golpes e dois exílios nas costas. Sobretudo, a nunca subestimar os valores da democracia, a importância de obedecer as regras desse regime e, também, das políticas públicas responsáveis.

A seu ver, que país saiu dessa experiência?

Um país mais complicado, mais difícil. Só nos livramos do AI-5 em 1979, e do regime autoritário, em 1985. O preço foi alto. A Nova República teve de se defrontar com enormes expectativas de liberdade e de solução rápida dos problemas de desigualdade, num Estado relativamente desorganizado. Entre as forças que vinham da esquerda, prevalecia, e isto aconteceu até o PT vencer as eleições presidenciais, a idéia de que mudança gradual é enganação, o que valia era a "ruptura", e que o governo estava sempre do lado errado. A ditadura que começou em 1964 e se materializou completamente em 1968 frustrou também a renovação política da sociedade brasileira. Grande parte do que havia de melhor na minha geração e nas seguintes ou ficou à margem da política ou não aprendeu a fazer a política democrática.

Qual o peso da resistência ao regime na construção de lideranças que hoje ocupam cargos importantes da administração pública do País?

Para algumas lideranças, a resistência contribuiu para firmar convicções mais realistas e solidamente democráticas. Para outras, não.

O senhor foi militante da Ação Popular (AP). Como viu, do exílio, a opção que a AP depois fez pela luta armada?

A AP, como tal, não chegou a entrar na luta armada, a praticar a luta armada. Eu acompanhei o processo a distância, pois não estava no Brasil e tive pouca influência direta nos rumos da AP. Depois de 1964, a AP optou pelo marxismo-leninismo, seja lá o que isso puder significar hoje em dia. Depois se desenvolveu uma vertente forte, maoísta. Mas o partido acabou se dividindo, com os maoístas indo para o PC do B, que efetivamente tentou fazer a luta armada no Araguaia. Os que ficaram com a AP, apesar de não se organizarem militarmente, foram sendo rapidamente dizimados, muitos sob as piores torturas, como Paulo Wright, para quem escrevi mais de uma vez insistindo para que saísse do Brasil, pois acabaria sendo morto. Ele e muitos outros.

O que o senhor pensava da luta armada?

Desde que deixei o Brasil, em 1964, eu era cético sobre as possibilidades de um enfrentamento armado do regime, seja no esquema do foco guerrilheiro, o "foquismo", que procurava replicar a revolução cubana, seja no esquema da guerra popular maoísta, do campo para as cidades. O texto clássico do foquismo foi do Régis Debray, intitulado Le Castrisme, la Longue Marche de l?Amérique Latine, publicado no Les Temps Modernes, revista do Sartre, que eu lia na França, quando lá estava. Não me seduziu nem intelectual nem politicamente. No Brasil, no final dos anos 60, o texto mais influente sobre o foquismo era de um militante da Var-Palmares ou da VPR, com o cognome de Jamil (Ladislau Dowbor).

Como explicaria aquele período aos jovens que não conheceram a ditadura?

Não é fácil explicar, mas basta descrever. A melhor explicação possível sobre o que significou a ditadura é mostrar como eram coisas quando ela prevalecia. É compará-la com o regime democrático, até para que a juventude possa valorizar melhor a democracia. E, tanto quanto isso, se prepare para lutar pela democracia. É uma luta que não acaba nunca.

AI-5, 40 anos depois

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

As principais revelações destes cinco personagens, Jacob Gorender, Fernando Gabeira, Aloysio Nunes Ferreira, Jean Marc von der Weid, Armênio Guedes, estão aqui contidas e, em seu conjunto, formam um rico painel para explicar as visões da esquerda.

Jacob Gorender: Erro da esquerda foi isolamento da massa

O historiador Jacob Gorender, que produziu impactantes relatos sobre a luta da esquerda contra a ditadura militar, lembra que circulava em liberdade antes do AI-5, embora já estivesse vinculado ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), fundado por dissidentes do PCB que queriam a luta armada. Quando o ato veio, ele não mergulhou na clandestinidade nem se exilou, como fez a maioria dos militantes da esquerda radical, nem andava armado. Apenas acrescentou alguma prudência a seus deslocamentos.

Hoje ele é um crítico da luta armada, embora tenha ressalvas amenizadoras. "O poder não viria pacificamente", diz. Reconhece que Che Guevara foi "precipitado e imprudente" ao abrir uma frente guerrilheira quando estava isolado, na Bolívia.

Isso acabou se repetindo aqui, admite: "A luta armada tinha de ser combinada com ações de massa." Ele critica as opções que restaram: "Ficamos isolados, sem condições de dar respostas adequadas às acusações que o regime militar, que nos chamava de terroristas, nos fazia."

Gorender diz que hoje está convencido de que foi errado insistir na guerrilha sem ter meios de falar com as massas que eram objeto da luta política. Mas ele tem uma visão generosa sobre os erros cometidos: "A esquerda errou, mas nós temos de compreender a situação em que os erros foram cometidos." Ao final, desabafa: "O que não poderão dizer é que nós fomos passivos." Fernando Gabeira: Os dois lados não leram os sinais

Em outubro de 1968, quando 920 estudantes foram presos no congresso da UNE, em Ibiúna, a maior preocupação da polícia ao anunciar o seu feito foi dar mais destaque às pílulas anticoncepcionais apreendidas com as moças do que ao "material subversivo" encontrado, lembra o hoje deputado Fernando Gabeira (PV-RJ). O governo militar era, além de autoritário, conservador, diz ele, e isso se revelaria na censura depois do AI-5.

Esse, para Gabeira, foi o primeiro sinal da fronteira entre os comportamentos que muitos anos depois seriam uma grande referência de 1968. "Na época, a extrema direita e a esquerda radical ignoraram esses sinais porque eram igualmente conservadoras", afirma o ex-guerrilheiro do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR), que participou do mais importante seqüestro do regime militar, o do embaixador americano Charles Burke Elbrick.

Ele analisa que a luta armada pregada e sustentada pela esquerda radical trazia um leque de contradições que não se resolveriam até hoje: "A dicotomia entre burguesia e proletariado não tem de acabar com a extinção de um deles", ironiza.

Ele diz que o exílio lhe serviu para fazer observações e uma profunda avaliação crítica. Quando voltou ao Brasil, em 1979, trazia uma nova agenda, recolhida na Europa: a importância das mudanças comportamentais, o apreço pelas liberdades individuais e pela democracia e uma atenção para os problemas do meio ambiente.

Aloysio Nunes Ferreira: Diferença que pode separar vida e morte

"Tínhamos direito de recorrer à força para derrubar o regime", defende o chefe do Gabinete Civil do governo paulista, Aloysio Nunes Ferreira, à época militante da Ação Libertadora Nacional (ALN). Mas ele reconhece o equívoco que a opção pela luta armada representou: "A gente não sabia, mas o Brasil não estava à espera de jovens com armas na mão para libertá-lo."

Até 1968 Aloysio era militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas naquele ano ele se tornou dissidente e derivou para a ALN e para a luta armada. Menos de dois anos depois, já no exílio, retornaria ao PCB. "Eu fui influenciado pela idéia da revolução, como milhares de jovens do meu tempo", explica. Quando voltou ao Brasil, depois de passar anos exilado na França, engajou-se, como a imensa maioria dos militantes do PCB, no MDB e na luta democrática.

Ele diz que os desencontros da luta armada serviram para ensinar-lhe lições. "A esquerda que se armou aprendeu com o tempo", reconhece. Mas o aprendizado maior, ensinado pelas perseguições da ditadura, que apelava para o arbítrio e ignorava a importância da Justiça e da imprensa livre, foi o que ele chama de liberdades formais, que à época eram solenemente ironizadas pelas "vanguardas revolucionárias". Aloysio diz: "Passamos a dar valor a liberdades formais, como o habeas corpus. Em muitos casos, elas, que nós tanto esnobamos, foram a diferença entre a vida e a morte."

Jean Marc von der Weid: Passeata reclamava agenda democrática

"Foi uma surpresa. Não sabíamos o que fazer com aquele mar de gente. Não entendemos que aquela multidão exigia uma agenda democrática e não uma receita revolucionária", observa o ex-líder estudantil Jean Marc von der Weid, sobre a Passeata dos 100 mil, que aconteceu no Rio, no dia 26 de junho de 1968, e assustou o regime militar. "Ali, era hora de progresso democrático, como o que começamos a alcançar dez anos depois", diz. "Naquele momento, acenar com democracia teria tido grande impacto."

Jean Marc, economista, seria eleito presidente da UNE em 1969, batendo José Dirceu, então presidente da União Estadual de Estudantes de São Paulo. Quarenta anos depois, ele afirma que a revolução pretendida pela vanguarda da esquerda não se refletia na realidade: "O que fazíamos não era uma revolução". Para ele, o legado de 1968 foi a afirmação da democracia e a mudança dos comportamentos.

Ele conta que as lideranças estudantis, apesar de radicais, tentavam não irritar os militares. "Nas passeatas, fazíamos um esforço enorme para controlar as provocações." Nem sempre funcionava, porque sobravam dois tipos incontroláveis, diz: os "porra-locas" e os infiltrados pela repressão. No enterro de Edson Luís, por exemplo, um provocador gritou: "Vamos atacar o Palácio Guanabara!" (sede do governo da então Guanabara). "Foi difícil segurar", lembra.

Armênio Guedes: Esquerda tinha de reagrupar forças

A partir de 1964, quando o golpe esfarinhou as facções de esquerda, a luta deveria se centrar no reagrupamento de forças, a ser conquistado com a paciência de uma organização lenta, afirma, com a experiência dos 90 anos, Armênio Guedes, histórico militante do Partido Comunista Brasileiro. O único grupamento de esquerda que atravessou todo o período ditatorial rechaçando a luta armada, o PCB se engajou em sua própria receita, diz.

"Havia muita influência radical em 1968. Não tínhamos força para impor nada aos militares. Nós tínhamos de reagrupar forças, não atacar um adversário que era mais forte e mais organizado que nós", observa. Cabia, naqueles momentos turvos, a "resistência possível", descreve. Ele não tem dúvida em afirmar que a luta armada acabou funcionando, nos anos seguintes, como combustível para alimentar a linha-dura militar.

Já o PCB, lembra, ajudou a organizar o MDB, para combater o regime militar pela via democrática. Em 1970, na primeira eleição com o AI-5 em vigor, o brasileiro negou adesão à luta - os votos brancos e nulos somaram 30,3% (em 2006, foram 10,5%). Mas, com o correr dos anos, confiou em que o voto era a sua arma para derrubar a ditadura. O ataque do regime ao PCB deu-se em 1975, quando os militares perceberam que a estratégia de lenta acumulação de forças pela via democrática começara a dar certo em 1974, quando o MDB elegeu senadores em 16 das 22 disputas estaduais.

Ato Inconstitucional


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Fausto Martin De Sanctis não era nascido quando a Constituição de 1946 começou a perder a validade e o Brasil iniciava, em 1964, um período de autoritarismo cujo fim só seria consolidado 24 anos depois com a promulgação da Carta de 1988.

Tinha três anos quando as prerrogativas constitucionais foram suspensas por completo, no dia 13 de dezembro de 1968, e substituídas pela vontade dos donos do poder mediante da edição do Ato Institucional nº 5.

Era um adolescente de 13 anos quando, em 1978, o regime se viu compelido a revogar seu ato mais arbitrário, data que se convencionou marcar como o fim da ditadura e o início da distensão.

A democracia só voltaria quase inteira em janeiro de 1985, com a eleição ainda indireta de um presidente civil, morto antes da posse, substituído pelo vice, aliado do antigo regime, um exemplar fiador da transição.

Aos cidadãos brasileiros só seriam devolvidos na plenitude seus direitos e garantias em 1988, com a conclusão da Assembléia Nacional Constituinte e o arcabouço legal sob o qual Fausto Martin De Sanctis iniciaria três anos depois, aos 27 de idade, a sua carreira de juiz.

Trajetória impecável, implacável, referida no mais escorreito senso de Justiça. Especializado em crimes de colarinho-branco, condenou gente importante, traficantes, doleiros, empresários, banqueiros, enquadrou aos costumes entre todos os mais notórios.

Tudo dentro dos conformes até o momento em que, acusado de extrapolar os limites da lei, deu expressão ao sentido de seu coração justiceiro e resolveu negar a supremacia dos ditames da Constituição, para ele apenas um conjunto de idéias que não podem restringir as ações necessárias à transformação do Brasil.

Disse o juiz em sua justificativa: "A Constituição não é mais importante que o povo, os sentimentos e as aspirações do Brasil. É um modelo, nada mais que isso, contém um resumo das nossas idéias. Não é possível inverter e transformar o povo em modelo e a Constituição em representado. A Constituição tem o seu valor naquele documento, que não passa de um documento; nós somos os valores e não pode ser interpretado de outra forma: nós somos a Constituição."

Fausto Martin De Sanctis foi muito criticado por externar um pensamento atinente ao senso comum, expressão pronta e acabada de um sentido de justiça voluntarioso, concernente às ruas, mas incongruente com o dever dos tribunais: a guarda absoluta do respeito às leis, não obstante suas limitações e imperfeições.

O juiz De Sanctis certamente conhece muito bem o texto do ato mais inconstitucional da história recente do Brasil, salvo-conduto à violência do Estado contra os cidadãos que, ao juízo dos parâmetros da ditadura, eram inimigos do Brasil.

A ausência de vivência daquela época talvez tenha ensejado no juiz e em tantos outros brasileiros de sua geração o sentimento de que o sentido do correto é superior aos entraves da lei. Tudo contra o mal se explica e justifica.

A distância de 40 anos obscurece a visão de que Artur da Costa e Silva e 16 ministros de Estado tinham plena convicção de que defendiam a preservação do modelo institucional mais conveniente ao Brasil.

Ao juiz e a todos os brasileiros que consideram a Constituição insuficiente para o cumprimento da missão indispensável de pôr o País nos eixos, seria recomendável a leitura daqueles 12 tenebrosos artigos.

Não porque em qualquer hipótese queiram se associar às ordens ali escritas, mas para que possam perceber o germe do abuso subjacente a um senso de justiça deturpado.

Ali, a alegação apresentada era a do imperativo de se preservar "a autêntica ordem democrática, baseada na liberdade, no respeito à dignidade da pessoa humana, no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo, na luta contra a corrupção, buscando, desse modo, os meios indispensáveis à obra da reconstrução econômica, financeira, moral e política do Brasil".

Aqui, 40 anos passados, quando o juiz De Sanctis serve apenas como símbolo de uma boa intenção apartada da referência histórica e da força da isonomia dos princípios, o que se tem no Brasil é o risco da opção pelo caminho mais curto e aparentemente mais justo.

Não se deve comparar os propósitos, dirão os que ainda não compreenderam que não há cotejos acusatórios, mas um convite à reflexão. De fato, mas vamos reparar: no AI-5, que deu ao regime o poder de decidir sobre a vida e a morte dos brasileiros, nada autoriza a violência, a tortura.

Ela aparece como conseqüência. Tudo começa como uma proposição de respeito à lei, mas acaba em abuso porque os meios implicam indiferença às normas vigentes, "insuficientes" e, portanto, passíveis de atropelo.

Vale para o bem e para o mal, dependendo do ponto de vista do que seja bom ou mau. Esses 40 anos de AI-5 nos ensinam uma comezinha lição: antes uma Constituição imperfeita que a negação da supremacia do valor constitucional.

O pós-Lula começou, com ele no Planalto

Elio Gaspari
DEU EM O GLOBO


Nosso Guia perdeu seu melhor papel e está preso à bola de ferro dos juros que a ditadura do Copom lhe impõe

O GOVERNO Lula começou a terminar no dia 26 de outubro, no meio da crise econômica mundial, quando o PT perdeu a eleição em São Paulo e José Serra, um dos candidatos da oposição, elegeu Gilberto Kassab.

Naquela noite desmancharam-se o Brasil do pré-sal, a base triunfalista do projeto eleitoral do poste Dilma Rousseff e a funcionalidade do discurso da "marolinha".

Nosso Guia está diante de uma adversidade que lhe nega o papel que melhor desempenha. Não pode mais culpar os outros ("Bush, resolve tua crise") nem propor idéias exóticas (uma reunião de todos os presidentes dos Banco Centrais, inclusive a doutora Siosi Mafi, do reino de Tonga).

Constrangido, Lula carrega a bola de ferro da taxa de juros insana imposta por um ente extra-constitucional chamado Copom.

Ele, que não veste smokings, vê-se metido na casaca de maestro de uma ekipekonômica cuja sabedoria universal quebrou o mundo. Uma enrascada: não pode ser o que gosta de parecer e é obrigado a continuar parecendo-se com o que não gosta de ser.

Em abril passado Lula chegou a pensar (e a agir) para mudar o rumo da política econômica do seu governo. A conquista do "investment grade" pelo Brasil anestesiou-lhe a audácia e, daí em diante, passou a dizer que "o Brasil vive um momento mágico".

A idéia segundo a qual um presidente pode rolar a crise econômica injetando otimismo no mercado demanda uma pré-condição: o discurso não pode agredir a realidade. Os juros altos agravarão os efeitos da crise internacional sobre o Brasil. Quando uma economia paga 13,75% ao ano e perde US$ 7,1 bilhões num só mês, aquilo que poderia ter sido um remédio virou veneno.

Os dois anos de governo que restam serão difíceis e a maneira como Nosso Guia e a nação petista lidarão com a adversidade haverá de marcar a história da sua gestão. Num quadro de dificuldades econômicas e fortalecimento de candidaturas oposicionistas, não se pode prever qual será o grau de ferocidade com que os companheiros irão à campanha, muito menos o nível de desembaraço que oferecerão aos aloprados com suas sacolas de lona. Ressalve-se que se percebe no tucanato um certo encanto pelo adestramento de mastins, bem como uma habilidosa manipulação de aloprados com malas Vuitton velhas.

Pode parecer um exagero a afirmação de que o governo de Lula já começou a terminar, mas o senador Garibaldi Alves (PMDB) e o deputado Arlindo Chinaglia (PT) deram um sinal premonitório: ambos gazetearam uma cerimônia organizada por Lula no Planalto. Isso aconteceu no dia 28 de novembro, uma sexta-feira. Os dois tinham mais o que fazer em seus Estados. Como se diz nos palácios, em fim de governo só quem bate à porta é o vento.

Bota tsunami nisso!


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - A oposição tem como líquido e certo que José Serra será presidente da República, crente que a crise econômica irá explodir empresas e empregos e, com eles, os 70% de popularidade de Lula e o palanque de Dilma Rousseff.

Pode ser? Tudo pode, mas há três fatores para contrariar a certeza.

O primeiro é que, aqui e alhures, considera-se que nenhum país escapa da crise, mas o Brasil tem indicadores macroeconômicos sólidos, bom colchão em dólares (ainda...) e mercado interno robusto.

O segundo é que a popularidade de Lula, faça chuva, faça sol, mensalão ou cuecão, fale ele o palavrão que falar, tem sido uma rocha.

E o terceiro é que o mesmo Datafolha que apurou os 70% de Lula completou a informação: 78% dos brasileiros estão otimistas e achando que a vida vai melhorar em 2009.

Mais: 58% acreditam que serão pouco afetados, e 10%, nada afetados. Crise? Que crise?Os brasileiros, portanto, ainda acreditam em Papai Noel e que a crise é só uma marolinha, enquanto o tsunami devora 1,2 milhão de vagas em três meses e 533 mil num único mês nos EUA. E está vindo.

Isso demonstra má informação e confiança quase mística em Lula.Com motivo. Nos anos de bonança externa, durante seu governo, a renda e o emprego aumentaram, a classe C virou metade da população, o PAC alimentou votos para cima e o Bolsa Família, para baixo.

Lula, portanto, tem que reduzir ao mínimo o efeito da crise no eleitor de carne e osso (baixando juros, por exemplo?) e fazer como no mensalão, no dossiê, na crise aérea, na guerra da Abin e da PF: fingir que não é com ele. O que der certo contra a crise, o mérito é dele; o que der errado, a culpa é do Bush, do mercado, do liberalismo, dos astros.

Para eleger Dilma, Lula tem que calibrar o equilíbrio entre o tamanho da crise e sua popularidade.

Um tsunami, para afetar seu projeto, tem que ser de bom tamanho.

Senão Lula fura 2009 e surge em 2010 na crista da onda.

União dos opostos


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Não há partido com melhor sensibilidade para sentir para que lado os ventos estão soprando do que o PMDB, e os movimentos na aliança governamental mostram que a biruta do partido já está mudando de direção, não tão depressa que faça os diversos grupos que estão dentro do governo perderem os últimos suspiros de poder, nem tão devagar que não permita um realinhamento para a sucessão de 2010 em boas condições políticas. A disputa pela presidência do Senado é um bom indicativo disso. Tudo parece conspirar para que se repita com o PT, e não como farsa, a crise política que quebrou a união do PSDB e do então PFL e ajudou a derrota do PSDB na eleição de 2002.

As sucessões das presidências da Câmara e do Senado já mostram que, mais uma vez, poderão fazer vítimas na aliança governamental. A sucessão da Câmara, que opôs o então PFL ao PSDB, foi o início do fim da aliança política que em 2002 deveria ter apoiado José Serra à sucessão de Fernando Henrique, e acabou com as principais lideranças do PFL nos braços de Lula.

O deputado Inocêncio Oliveira, que era o candidato do PFL para assumir a Câmara num rodízio previamente combinado, foi surpreendido por uma ação de bastidores do tucano Aécio Neves, desestabilizando a aliança. Quando o então presidente Fernando Henrique soube da articulação, ela já estava consumada.

Desta vez, por acordo, o PMDB, que tem o direito de presidir as duas Casas por ter as maiores bancadas, está exigindo o rodízio na Câmara, que o PT dirige por concessão do PMDB.

Mas, para que o rodízio entre os dois principais partidos de apoio ao governo permaneça valendo, havia a presunção de que o PMDB deixaria o PT assumir a presidência do Senado.

O veto de Renan Calheiros ao candidato natural do PT, o senador Tião Viana, está apenas dando início ao processo de disputa intensa que, ao que tudo indica, o PMDB revigorado nas urnas municipais vai desencadear contra o PT.

Pode ser até que a decisão do PMDB de lançar candidatura própria não se viabilize por falta de nomes de consenso dentro do próprio partido, mas apenas a manobra que está acontecendo já demonstra a impossibilidade de manter essa união PT-PMDB até a eleição de 2010 sem um racha tradicional.

O presidente do PMDB, Michel Temer, de amplo acesso nas hostes oposicionistas, já tem garantido o apoio do PT para a presidência da Câmara, mas se o PMDB do Senado não aceitar o rodízio, também a disputa na Câmara ficará sem parâmetros, dando margem a que um novo fenômeno Severino Cavalcanti surja, com o apoio do baixo clero ao candidato autônomo Ciro Nogueira, do PP.

No Senado, para se eleger candidato do governo, o petista Tião Vianna depende mais dos acordos que vem fechando com o PSDB do que do apoio do PMDB, que busca em José Sarney uma alternativa partidária ao desejo do Palácio do Planalto.

Embora as coligações das últimas eleições municipais sugiram um forte alinhamento do PMDB com o PT, alianças entre PSDB e PMDB não são armações políticas banais. Muito embora o PT tenha participado de mais de 40% das vitórias de candidatos do PMDB, o PSDB esteve presente em cerca de 32% delas.

A freqüência de alianças entre os três maiores partidos teve a preponderância de alianças entre o PMDB e o PSDB. Na maioria dos estados do Norte-Nordeste, no entanto, o PMDB está muito mais fortemente aliado ao PT, por conveniências regionais que já estão se desencontrando, como é o caso da Bahia, onde o líder peemedebista Geddel Vieira Lima, embora ministro da Integração Nacional, mantém um desentendimento cordial com o governador petista Jaques Wagner, a quem derrotou na eleição para a prefeitura de Salvador.

Por sua vez, os três partidos de oposição, PSDB, DEM e PPS, que acabam de oficializar uma aliança política para a eleição de 2010, saíram das eleições municipais como a maior força política, com 1.416 prefeituras.

O presidente Lula teve recentemente o exemplo concreto de como sua base parlamentar tão grande quanto heterogênea não funciona quando há indefinição quanto ao futuro político.

Mesmo batendo seu próprio recorde de popularidade, atingindo 70% na última pesquisa do Datafolha, o presidente Lula já não tem a capacidade de ditar o comportamento de seus aliados, como na tentativa de aprovar uma reforma tributária que não agrada a governadores fortes politicamente como o de São Paulo, José Serra, que posa com Lula e defende a reforma tributária, mas mexe seus pauzinhos, inclusive no próprio PT, para inviabilizar sua aprovação.

Os próximos meses serão cruciais para os planos futuros do governo. Agora que já se sabe pelo próprio médico Lula que o paciente Brasil "sifu", é só esperar pelos sinais da crise que chegarão mais explicitamente no primeiro trimestre do próximo ano para vermos a quantas andará o projeto sucessório oficial.

Lula, que também tem olfato de caçador, já sentiu a mudança dos ventos, e trata de se aproximar de José Serra, provável candidato do PSDB e por enquanto líder das pesquisas de opinião, para eventualmente fazer uma transição tão cordial quanto a sua com Fernando Henrique, caso se caracterize inviável uma candidatura oficial.

Serra também trata Lula a pires de leite, tendo até mesmo discordado publicamente de Fernando Henrique para defendê-lo de seus ataques, na certeza de que enquanto a crise econômica não roer sua popularidade - se é que vai mesmo roer -, o presidente será um personagem importante na sucessão presidencial, e não tê-lo como inimigo pode ser fundamental.

Reforma e contra-reforma


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Não há no Brasil dois estados iguais, mesmo assim é possível avaliar a atuação de suas elites. Basta, por exemplo, comparar o Ceará com o Maranhão ou Pernambuco com a Bahia nos últimos 50 anos

Um artigo do secretário de Desenvolvimento do Espírito Santo, Guilherme Dias, ex-ministro do Planejamento do governo FHC, intitulado “A anti-reforma” (Folha de S.Paulo, 04/12), tirou do sério o relator da reforma tributária, deputado Sandro Mabel (PR-GO). Ontem, o parlamentar replicou com outro artigo contra os “anti-reforma”, no qual gasta mais tinta ao acusar o economista de teleguiado do governador paulista José Serra do que esgrimindo argumentos técnicos. Por que esse assunto exalta os ânimos? É por causa da ruptura do pacto federativo.

Desigualdades

A reforma tributária proposta pelo governo Lula mexe num vespeiro ao propor a mudança radical do sistema de arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que passaria a ser unificado, com cinco alíquotas. Até aí, tudo bem. O problema é que muda o sistema de cobrança do imposto, que passaria a ser feito no destino (estados consumidores). Na origem (estados produtores), ficariam apenas 2% do valor arrecadado. Para viabilizar a mudança, Mabel teceu acordos com empresários, secretários estaduais de Fazenda e prefeitos. Objetivo: isolar São Paulo, o estado mais penalizado pelo caráter Robin Hood do projeto. Supostamente, a reforma tiraria dos estados ricos (SP, MG, RJ, ES, RS, DF, GO e MS são contra) para dar aos mais pobres. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende passar à História como o líder político que acabou com relação desigual entre o “Sul Maravilha” e os estados do Norte e Nordeste.

Mas o relatório de Mabel desagrada gregos e baianos. Com a crise mundial, a reforma tributária seria como pular do trampolim sem saber se tem água na piscina. Por exemplo, estima-se em R$ 24 bilhões as perdas da Previdência. O IVA(Imposto Sobre Valor Agregado) federal concentra recursos na União. A mudança abre espaço para milhares de contestações judiciais, anistia fraudes fiscais e favorece lobbies empresariais, principalmente da indústria alimentícia e bancos.

“A quem interessa a desorganização das finanças estaduais e municipais, depois do longo e custoso processo de saneamento das contas, a partir da consolidação e do refinanciamento das dívidas com o Tesouro Nacional e da implantação da Lei de Responsabilidade Fiscal? Será que os defensores dessa proposta de reforma tributária querem ainda mais concentração de recursos e poder no governo central?”, indaga Dias. A primeira pergunta se baseia numa hipótese; a segunda, na certeza.

Patrimonialismo

São várias as causas do desenvolvimento desigual no Brasil. Algumas são naturais, como o preço cobrado pelo cristalino da Serra da Borborema ao desviar os ventos alísios do Nordeste, que levam as chuvas para longe do semi-árido. Ou as bençãos dos olhos d’água na Chapada da Ibiapaba, das cheias do Pantanal e do Amazonas, da larva vulcânica que rompeu o cristalino da Serra do Mar e deu origem às “terras roxas.” Outras, são econômicas, como os ciclos da cana-de-açúcar, do cacau, da borracha, do algodão, do café, do ouro e diamantes, com seus esplendores e decadências, congelando no tempo a iniquidade social herdada da escravidão nas atividades ainda hoje remanescentes. Há, ainda, as conseqüências históricas das insurreições das províncias no Império, sufocadas a ferro e fogo, como a Confederação do Equador, que transformou Pernambuco num estado periférico, e a Cabanagem, no qual dois terços da população masculina do Pará foram dizimados, dentre outros episódios sangrentos.

A principal causa das nossas desigualdades, porém, é o patrimonialismo. Ainda hoje as oligarquias são as que mais se beneficiam dos investimentos públicos nos estados, graças ao apoio que emprestam à União para que esta imponha sua centralidade (normatizar, coagir e arrecadar) aos estados mais populosos e dinâmicos. Um exercício de motivação comum nas empresas é a simulação de uma guerra mundial, na qual as nações envolvidas dispõem de recursos financeiros, alimentos, minerais e armas em condições desiguais. Ao final da guerra, a relação se inverte completamente. No jogo, sempre há duas nações com recursos exatamente iguais e que acabam em situações muito diferentes, por causada atuação de seus governantes.

Não há no Brasil dois estados iguais. Assim mesmo, é possível avaliar historicamente a atuação de suas elites. Basta, por exemplo, comparar as trajetórias do Ceará com o Maranhão ou de Pernambuco com a Bahia nos últimos 50 anos.

Senso trágico e senso de galhofa


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO(PE)

Tragédias e tormentas não se anunciam, preferem surpreender, mais devastadoras do que fatos previsíveis. Fados, deuses e autores, igualmente pérfidos, divertem-se emitindo sinais enganosos para desarmar prevenções e cautelas nos personagens. Quanto mais alta a animação, maior é a queda.

O pior que poderia acontecer ao presidente Lula nesta sombria virada de ano seria um retumbante triunfo pessoal como o inimaginável recorde de aprovação (70%) verificado pelo Instituto Datafolha.

Desconhece-se a hora em que o presidente foi informado na quinta-feira a respeito dos resultados da nova sondagem que seria anunciada na manhã seguinte, tudo leva a crer que haja uma relação de causa e efeito entre o recorde de popularidade e uma certa exaltação na oratória presidencial durante uma cerimônia no Rio com a inclusão de uma metáfora chula, logo deletada na versão oficial do discurso.

Não chegam a ser alarmantes os efeitos de uma eventual euforia sobre a linguagem dos pronunciamentos presidenciais, o que deve preocupar é um eventual desmando nos conteúdos contrastando com a necessária prudência. O rolo compressor de um otimismo local pode ter efeitos deletérios diante de um cenário mundial tão deprimente.

A visível pressão para obter índices econômicos positivos no último trimestre de 2008 e no primeiro de 2009 pode substituir uma discussão imperiosamente técnica por outra, surfista, em torno do tsunami global e das marolas que aqui chegarão. O "olho gordo" de vizinhos encalacrados - caso do Equador - só tenderá a aumentar se o marketing político for acionado para valorizar a gestão da economia.

A obsessão em garantir um crescimento de 4% no PIB de um ano pré-eleitoral pode alimentar a conhecida vocação para aventuras característica de regimes políticos insuficientemente consolidados. Estes 70% de popularidade na metade do segundo mandato - quando os efeitos da fadiga de material já deveriam estar visíveis - não ajudam o programa infra-estrutural do PAC nem as políticas públicas em áreas como a saúde e a educação onde os resultados são mais demorados. Ao contrário, favorecem o carnaval demagógico e a folia assistencialista.

Os problemas de caixa enfrentados recentemente pela gigantesca Petrobras foram contornados mas não devem ser ignorados. O processo engasgou uma vez e nada impede que engasgue novamente caso não sejam tomadas providências mais drásticas. O pré-sal inebriou certas esferas que deveriam estar infensas a libações deste tipo.

A crise mundial é na realidade um conjunto de crises concêntricas (estrutural, sistêmica, conceitual, ambiental, alimentar, política), difíceis de driblar no seu conjunto. As sucessivas convocações palacianas para consumir e gastar dão um ar festeiro e falso ao processo econômico. A quermesse que se pretende reeditar neste final de ano reclama um cardápio mais consistente, responsável. Compatível com uma conjuntura onde impera a sisudez e a circunspecção.

Tragédias e tormentas são potencializadas pela despreocupação, pelo descaso e pela desatenção. Os grandes estadistas e os grandes generais jamais dispensaram boas doses de inquietação. O catastrofismo tem utilidade, pode ser salutar - estimula as defesas, testa a capacidade preventiva.

Exercita o senso trágico. Sempre mais digno, mais atento, mais compenetrado e mais produtivo do que o senso da galhofa.

» Alberto Dines é jornalista

A Crise e o Governo

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

Submetido diariamente a um noticiário cada vez mais lúgubre, o cidadão ouve as manifestações do presidente como se viessem de alguém incapaz de enxergar o que está acontecendo. Se tudo piora e só Lula não vê, o problema está nele

A cada dia que passa, aumenta a certeza de que o Brasil já está sendo fortemente atingido pela crise internacional. Também aumenta a convicção de que o pior está, infelizmente, longe e que seus efeitos serão mais graves nos próximos anos.

O presidente e o governo insistem em uma atitude que faz pouco sentido. Talvez se justifique manter uma postura moderadamente otimista para evitar o pânico e inibir comportamentos que podem ampliar os problemas que nossa economia enfrenta. Afinal, ninguém quer que a população comece a guardar sua poupança debaixo do colchão.

Mas há o risco oposto. Não de que as pessoas acreditem que tudo vai bem, pois, nisso, elas não acreditam mesmo. Foram publicadas nas últimas semanas algumas pesquisas sobre as reações à crise no Brasil e todas mostraram quão disseminada é a preocupação da população com suas repercussões no país. Poucos são os que crêem no mantra de que “o Brasil é maior que qualquer crise”.

O problema do panglossianismo oficial é que ele provoca uma crescente desconfiança da opinião pública a respeito do que o governo diz. Submetido diariamente a um noticiário cada vez mais lúgubre, o cidadão ouve as manifestações do presidente como se viessem de alguém incapaz de enxergar o que está acontecendo. Se tudo piora e só Lula não vê, o problema está nele.

É sempre perigoso quando governo e sociedade pensam de maneira claramente diferente. Abre-se uma distância entre suas percepções que pode aumentar e se transformar em um fosso. Desde a redemocratização, não foram poucos os episódios desse tipo. O próprio Lula passou por um, à época do mensalão, que quase engole seu governo.

Assim, insistir na tecla de que as coisas “não vão tão mal” é uma opção que o governo precisa saber quando descartar. Para isso, tem que se manter alerta, sem levar a sério o que ele mesmo repete diariamente. O que não é fácil. De tanto fazer do otimismo irreal sua bandeira, fica complicado voltar a ser, apenas, realista.

O saudoso ministro Mário Henrique Simonsen dizia que bons governos são como bons trapezistas. Têm que fazer com que todos acreditem que conseguem voar, mas se eles próprios acreditarem nisso, se esborracham. Será que Lula sabe que não consegue ou está embalado pelas histórias que conta?

Das muitas razões que explicam sua popularidade e as altas taxas de aprovação de seu governo, a boa fase que a economia brasileira viveu nos últimos anos é uma das mais importantes. Foi o aumento do consumo e a melhoria do emprego que permitiram a ele honrar seu compromisso básico com o eleitor: mostrar que um presidente vindo do povo faria um governo que o beneficiasse.

Cumprir essa promessa foi possível no quadro internacional em que governou até agora sem menosprezar as ações que empreendeu para que as oportunidades geradas por ele fossem aproveitadas. Mais que isso: foi com a crescente arrecadação propiciada por uma economia em expansão que se tornou viável financiar amplas políticas distributivas. A marca popular mais imediata do governo Lula, o Bolsa Família, só pôde existir nesse cenário.

Qual vai ser o discurso de Lula nos novos tempos? Será ele capaz de reciclar seu estilo de comunicação com o povo, ancorado na noção de “proximidade” (“sou como você, faço o que você precisa”)? Lula conseguirá ser o presidente da contenção, depois de se acostumar a ser o da bonança?

E seu governo? Na sua conformação atual, é o governo mais adequado ao momento de dificuldades que vivemos? Seu ministério, onde as figuras notáveis são raras exceções, é tão bom hoje quanto parecia quando o que ele desejava era que ninguém “aparecesse demais”?

Muita coisa vai mudar com a economia brasileira e com o Brasil nos próximos dois anos. Tomara que Lula saiba se adaptar e adaptar seu governo ao que vem por aí. Só assim atravessaremos esse período com custo menor.

As pesquisas atuais sobre sua popularidade são como os números do crescimento do PIB até o terceiro trimestre: mostram o que foi o passado e pouco dizem sobre o que o aguarda (e a nós).

Prefiro o Lula


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Não são nada razoáveis as críticas de analistas ouvidos por esta Folha a propósito do otimismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Primeiro, porque faz parte do instinto básico de Lula. Quando ele ainda era oposicionista, queixou-se mais de uma vez a amigo comum do que ele considerava pessimismo meu (não é pessimismo, é realismo, mas não interessa).

Se lamentava o pessimismo quando estava na oposição e não ganhava eleição, agora que ganha e bate recordes de popularidade, só pode ser superotimista.

Em segundo lugar, se o presidente diz "nosfu", o país infarta, claro. Discutir se "sifu" é expressão adequada ou não à "majestade do cargo" é irrelevante. Em terceiro lugar, governantes -e não apenas o do Brasil- têm hoje mais a função de animadores de auditório do que de administradores, quando resolvem seguir o modelo quase único pró-mercado.Tanto é assim que a ministra Dilma Rousseff teve o seu momento-verdade anteontem ao dizer:

"O governo não pode legislar sobre empregos. Não podemos baixar uma medida provisória dizendo: "Fique o emprego como está"".

Pois é, se não pode manter o emprego, tampouco pode manter o poder aquisitivo dos salários, que é afinal o que de fato conta. Resta, pois, animar o público, no que está tendo o mais absoluto êxito, a ponto de 78% dos brasileiros acreditarem que sua vida vai melhorar no ano que vem, o que contraria as previsões de 11 de cada 10 economistas.

Vai ver que esses 78% sabem de uma frase cáustica do também economista Roberto Campos (1917-2001), que me foi enviada pelo leitor Arnaldo Risemberg: "Há três maneiras de o homem conhecer a ruína: a mais rápida é pelo jogo; a mais agradável é com as mulheres; a mais segura é seguindo os conselhos de um economista".

Recessão ou depressão


Fernando Henrique Cardoso
DEU EM O GLOBO


A história da presente crise financeira é a história de uma morte anunciada. São incontáveis as referências feitas nos últimos anos aos déficits gêmeos da economia americana: na balança comercial e nas contas públicas. Os críticos do governo Bush, com Paul Krugman à frente, cansaram de clamar contra os gastos excessivos nas guerras, combinados com cortes de impostos para as camadas mais ricas da população e com uma política monetária complacente. O que não se conhecia a fundo era o mau uso que bancos e instituições assemelhadas faziam dessa situação de dinheiro farto, acompanhada de desregulamentação financeira. Daí emergiu o monstro da crise, muito mais feio do que se podia imaginar.

Havia sinais antecedentes. Em maio de 2007, assisti a uma conferência no Citigroup em Nova York. Ali, pela primeira vez, escutei falar em “subprime mortgage”, da boca de Bob Rubin, ex-secretário do Tesouro de Clinton, à época conselheiro sênior do Citi. Disse ele que, por sorte, os bancos não carregavam o risco dessas hipotecas, que haviam sido “empacotadas”, junto com outros títulos, e revendidas a terceiros e quartos compradores por intermédio de “veículos especiais estruturados”, que recebiam o aval das agências de avaliação de riscos, apesar de misturarem títulos bons com hipotecas altamente arriscadas. Parecia certo o que Rubin dizia: a farra dos papéis tóxicos se fazia à margem da contabilidade dos bancos. Mas quando veio a quebradeira, eles tiveram que reconhecer a responsabilidade por tais operações e incorporar os prejuízos aos seus balanços. Caso contrário, o Tesouro e o Fed, restritos por lei a injetar recursos apenas nos bancos, estariam de mãos atadas e o colapso do sistema financeiro seria inevitável.

Daí por diante foi o corre-corre conhecido: os bancos de investimento estavam atolados em papéis podres, e não só hipotecários. A falência de um deles desencadeou o fechamento de vários outros, atingiu algumas seguradoras e as agências semi-oficiais de garantia de hipotecas populares.

Na mesma época, Bill Rhodes, vice-presidente sênior do Citi, escreveu um artigo dizendo com todas as letras que em algum momento nos próximos dois anos haveria uma crise. Em agosto de 2007 as primeiras explosões foram escutadas pelos mercados, embora muitos governos permanecessem surdos a elas. As bolsas começaram a registrar o desfazimento do sonho dourado do crescimento econômico contínuo, do fim dos ciclos. Quando em setembro/outubro daquele ano os bancos começaram a cobrar taxas significativamente mais altas do que as oficiais nos empréstimos entre eles e, finalmente, pararam de emprestar uns aos outros, estava instalada a bruxa: a desconfiança.

A reação dos bancos centrais e dos Tesouros tem sido gigantesca. Em pouco tempo, as contas passaram a ser feitas na casa das centenas de bilhões de dólares. O total “enxugamento da liquidez” deu lugar ao “empoçamento” do dinheiro: os bancos retêm os recursos recebidos, com medo de emprestar e não receber depois ou por temerem ter de cobrir novos prejuízos que venham a surgir, como a cada dia surgem.

Incerteza, medo, falta de confiança, paralisia dos créditos. Nesta hora, todos gritam: mais ajuda! Mais governo! Só o governo restabelece a confiança. Não por acaso, Gordon Brown, de lame duck (pato manco) do governo inglês passou a herói do capitalismo financeiro. Nada de conceder empréstimo aos bancos a juros baratos, como queriam fazer os americanos. É preciso injetar dinheiro do Tesouro diretamente nas veias dos bancos, comprando-lhes ações, consolidando os capitais. E depressa, antes que quebrem e a economia real sofra mais ainda com a falta de crédito e de suas conseqüências, a principal das quais será o aumento do desemprego. Ou seja, socializemos as perdas, antes que venha o caos!

Provavelmente não virá o caos, mas a recessão bate às portas do mundo. Até a China, que seria a esperança contra a crise, está retraindo fortemente o crescimento. O risco agora é outro: o de depressão. Para comparar, na crise de 1929 as bolsas subiram fortemente até agosto. Despencaram em outubro. Como os bancos centrais fizeram o oposto do que agora estão fazendo, a paralisia de crédito foi fatal. Mas a economia real só caiu mesmo entre 1930 e 1932.

O New Deal criou uma rede de proteção social e deu impulso a obras de infra-estrutura, mas não conteve a crise, que se prolongou até 1937/38. Foi a preparação para a guerra, com os déficits justificados por ela, junto com imensos empréstimos aos países aliados, com prazos de carência até o fim da guerra e com taxas de juros irrelevantes, que reanimaram a economia americana e, mais tarde, a do mundo.

Seria insensato pregar a guerra entre os países como modo de evitar a depressão. Busquemos outros tipos de “guerra”: a guerra à pobreza e ao aquecimento global, por exemplo. Barack Obama vem apontando nessa direção. Não basta falar das redes de proteção social, por mais imperativas que sejam, como são, para evitar a tragédia social. É preciso investir produtivamente e há como fazê-lo; a busca de energias alternativas, a manutenção das infra-estruturas existentes (sociais e físicas) e a abertura de novas, sobretudo apelando à inovação tecnológica, talvez seja a receita para evitar que a recessão se transforme em depressão. Tomara a isso se acrescente uma mudança cultural que refreie a civilização do consumo e do desperdício e volte a injetar no sistema econômico um mínimo de ética e na sociedade uma preocupação maior com a equidade.


*Ex-presidente da República

O gasto de hoje prejudicará a economia de amanhã?


Paul Krugman
DEU NO ZERO HORA (RS)

Neste momento, há um intenso debate sobre quão agressivo deve ser o governo dos Estados Unidos na tentativa de recuperar a economia. Muitos economistas, inclusive eu, estão clamando por uma grande expansão fiscal para evitar que a economia siga em queda livre. Outros, no entanto, preocupam-se com o fardo que o enorme déficit orçamentário irá colocar sobre as futuras gerações.

Mas as preocupações com o déficit estão totalmente equivocadas. Sob as condições atuais, não há conflito entre o que é bom no curto prazo e o que é bom no longo prazo; uma forte expansão fiscal pode, na verdade, melhorar as perspectivas de longo prazo da economia.

A alegação de que os déficits orçamentários enfraquecem a economia a longo prazo é baseada na crença de que o financiamento governamental desloca o investimento privado – o governo, ao emitir muita dívida, eleva rapidamente a taxa de juro, deixando as empresas pouco dispostas a investir em novas plantas e equipamentos, e isso, por sua vez, reduz a taxa de crescimento da economia a longo prazo. Sob circunstâncias normais, esse argumento faz muito sentido.

Mas as atuais circunstâncias estão muito além da normalidade. Imagine o que poderia ocorrer no próximo ano se a administração Obama capitulasse frente aos falcões do déficit e encolhesse seus planos fiscais. Isso levaria a taxas de juro mais baixas? Certamente, não conduziria à redução das taxas de juro de curto prazo, que são mais ou menos controladas pelo Federal Reserve. O Fed já está mantendo essas taxas o mais baixas possível – virtualmente, em zero – e não mudará essa política a menos que veja sinais de que a economia está ameaçada de superaquecimento. E essa não parece ser uma perspectiva realista em breve.

E sobre o juro de longo prazo? Essas taxas, já no nível mais baixo em meio século, refletem principalmente taxas futuras de curto prazo. Austeridade fiscal pode empurrá-las ainda mais para baixo – mas somente criando expectativas de que a economia poderia se manter profundamente deprimida por um longo tempo, o que iria reduzir, não elevar, o investimento privado.

A idéia de que apertar a política fiscal quando a economia está deprimida na verdade leva à redução do investimento privado não é apenas um argumento hipotético: é exatamente o que ocorreu em dois importantes episódios da história. O primeiro ocorreu em 1937, quando Franklin Roosevelt equivocadamente deu ouvidos aos preocupados com déficit de sua própria era. Ele reduziu de forma acentuada o gasto do governo, entre outras coisas cortando o Works Progress Administration (agência criada em 1935 para gerar empregos e sair da Grande Depressão) pela metade, e ainda elevando impostos. O resultado foi uma severa recessão, e uma queda abrupta no investimento privado. O segundo episódio teve lugar 60 anos depois, no Japão. Em 1996-97, o governo japonês tentou equilibrar seu orçamento cortando gastos e elevando impostos. E outra vez a recessão que se seguiu conduziu a uma queda drástica no investimento privado.

Apenas para ser claro, não estou afirmando que a tentativa de reduzir déficits orçamentários sempre é ruim para o investimento privado. Você pode se basear no caso da restrição fiscal de Bill Clinton nos anos 90, que ajudou a abastecer o maior boom de investimentos dos EUA da década, o que por sua vez ajudou a provocar uma recuperação no crescimento da produtividade.

O que torna a austeridade fiscal tão má idéia, tanto nos EUA de Rooselvet quanto no Japão dos anos 90, foram circunstâncias especiais: nos dois casos, o governo recuou frente a uma armadilha de liquidez, uma situação na qual a autoridade monetária cortou taxas de juro tão rápido como possível, e a economia ainda continuou a funcionar bem abaixo de sua capacidade. E nós estamos no mesmo tipo de armadilha hoje – motivo pelo qual preocupações com déficit estão deslocadas.

Mais uma coisa: expansão fiscal será ainda melhor para o futuro dos EUA se uma grande parte dessa expansão tomar a forma de investimento público – construção de estradas, reforma de pontes e desenvolvimento de novas tecnologias, iniciativas que tornam a nação mais rica no longo prazo.

O governo deve ter uma política permanente de grandes déficits orçamentários? Claro que não. Embora a dívida pública não seja tão ruim como a maioria das pessoas acredita – é basicamente dinheiro que nós devemos a nós mesmos –, no longo prazo o governo, como os indivíduos, tem de equilibrar o gasto e a receita.

Mas neste momento temos um rombo no gasto privado: os consumidores estão redescobrindo as virtudes de poupar no mesmo momento em que as empresas, escaldadas por excessos passados e limitadas pelos problemas no sistema financeiro, estão cortando investimento. Com o tempo, essa lacuna poderá fechar, mas até que isso ocorra o gasto do governo terá de ser feito da forma mais eficiente possível. Caso contrário, o investimento privado e a economia como um todo irão despencar ainda mais.

A questão essencial, então, é que as pessoas que consideram a expansão fiscal de hoje ruim para as futuras gerações entenderam tudo errado. O melhor plano de ação, tanto para os trabalhadores de hoje quanto para seus filhos, é fazer o que for necessário para conduzir a economia no rumo da recuperação.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sábado, 6 de dezembro de 2008

Um certo comunismo do Ocidente


Giuseppe Vacca
Tradução: A. Veiga Fialho
Fonte: Gramsci e o Brasil


Togliatti percebeu tempestivamente a crise do centrismo [governos exclusivamente democrata-cristãos] e favoreceu a política de movimento de Pietro Nenni [secretário-geral do PSI], tendo em vista a “abertura à esquerda”. Ao contrário, não se pode dizer que tenha percebido o que acontecia na economia italiana e desembocaria no “segundo milagre econômico” de 1958-1962. O PCI teve de atualizar apressadamente sua análise do capitalismo italiano e daí extrair suas conclusões no período inicial do centro-esquerda. A mudança fora grande, e, ao intervir na conferência operária de 5-7 de maio de 1961, Togliatti reconheceu que estavam se transformando algumas características originais da economia italiana.

Era a primeira vez na história do nosso país, em toda a história da burguesia italiana, que ela conseguia alcançar níveis de competitividade internacional e podia, assim, apresentar-se na arena internacional em posição, se não sempre vantajosa, pelo menos de igualdade com as outras burguesias de estrutura econômica mais forte.

Partindo disso, o PCI procedeu a uma renovação programática, cujo eixo era — tal como em 1945-1946 — uma economia de altos salários e alto consumo. Mas, diferentemente de quinze anos antes, o objetivo parecia mais fácil de ser alcançado. A Itália encaminhava-se para o “pleno emprego”. A “programação democrática”, a industrialização do Sul, a reforma dos pactos agrários, a reforma urbanística, fiscal, da escola e da universidade, a realização do ordenamento regional e de um Welfare moderno constituíam os pontos de um programa compartilhado por um arco de forças muito amplo.

Tal arco compreendia todo o movimento sindical, os comunistas, os socialistas, os socialdemocratas, os republicanos e a esquerda católica. Com os dois encontros de Sanpellegrino e o Congresso de Nápoles [1962, secretário Aldo Moro], aquele programa foi também aceito pela DC e posto na base da “experiência de centro-esquerda”. Nascendo do pressuposto da “demarcação da maioria à esquerda”, segundo Togliatti a nova fórmula política podia redundar numa “manobra transformista” ou, então, “ser o início de uma renovação” destinada a desembocar “numa virada à esquerda da política nacional”: muita coisa dependia da iniciativa do PCI e, mais ainda, da ação das massas populares que compartilhavam aquele programa.

No plano parlamentar, o PCI, pois, decidiu exercer uma oposição “de tipo particular”: a nacionalização da energia elétrica foi aprovada com seu voto determinante. No plano da mobilização de massas, apoiava-se nas reivindicações operárias, que já iam além do salário e se estendiam à organização do trabalho, ao poder sindical na fábrica e às reformas sociais. Na iniciativa política, Togliatti esforçou-se por reforçar a unidade entre as forças que compartilhavam o programa reformador, enunciando com clareza seus objetivos: antes de mais nada — afirmava —, aquele conjunto de forças era o mesmo que, com sua unidade, permitira elaborar a parte mais avançada da Constituição relativa à programação econômica e aos direitos sociais; em segundo lugar, podia-se fazer referência ao precedente histórico significativo de que tal unidade não desaparecera, mas continuara a operar mesmo depois que as esquerdas haviam sido expulsas do governo, até 1948.

De todo modo, agora o PCI não visava mais à formação de governos de unidade antifascista, uma vez que não se tratava de “destruir as raízes do fascismo”, mas de realizar reformas de estrutura num capitalismo já avançado, maduro para a introdução de “elementos de socialismo”. Não era imaginável, pois, realizar aquele programa sem corroer “o monopólio político da DC”: vale dizer, sem provocar uma mudança de equilíbrios políticos e sociais tão amplo e profundo que colocasse em crise a unidade política dos católicos.

Esta perspectiva se baseava numa visão dos primeiros dois decênios da Itália republicana, segundo a qual, em 1947-1948, o movimento reformador desencadeado pela Resistência, pela vitória na guerra de libertação e pelos governos de unidade antifascista fora interrompido, mas não derrotado, graças sobretudo ao PCI, que, nos quinze anos seguintes, havia dirigido a ação das “classes populares” de um modo que não perdessem de vista a função nacional e a capacidade de iniciativa quanto aos temas essenciais do desenvolvimento democrático do país, conquistadas na Resistência e na fase constituinte da República.

Togliatti escreve no editorial do primeiro número de Rinascita semanal:

Há vinte anos que se combate na Itália. Há vinte anos que duas forças adversárias, uma de progresso e revolução, outra de conservação e reação, se enfrentam e se medem num conflito que teve as fases mais diferentes, nenhuma das quais, no entanto, se concluiu de um modo que pudesse significar o predomínio definitivo de um contendor ou do outro [...]. O gigante da energia popular não pôde ser derrubado, [porque as massas populares] se tornaram, num momento decisivo da história nacional e da vida do Estado italiano, protagonistas desta vida e desta história.


Foram as classes populares que fundaram o Estado italiano moderno. Elas, e não a velha camada dirigente e privilegiada, é que organizaram e dirigiram a Resistência, a guerra de libertação, a conquista de um regime de democracia e de progresso. Deste dado de fato parte e nele se baseia toda a situação do nosso país. E é um dado que não muda, que conserva todo o seu valor, não obstante as transformações profundas que a situação apresenta.

Retrospectivamente, estas avaliações pressupunham um confronto entre a Resistência e o Risorgimento, ao qual Togliatti aplicava a categoria gramsciana de “revolução passiva”. A ocasião lhe aparecera por ocasião de um seminário feito em Turim, num ciclo de palestras intitulado “O Risorgimento e nós”. Sua palestra fora dedicada ao tema “As classes populares no Risorgimento”, e então Togliatti desenvolveu uma ampla argumentação contra a tese historiográfica de Rosario Romeo, que atribuía a Gramsci a interpretação do Risorgimento como “reforma agrária frustrada”.

O argumento de Togliatti se encerrava acolhendo o paralelo entre o Risorgimento e a Resistência, mas, a propósito da definição desta como “segundo Risorgimento”, afirmava que, mais do que uma reiteração, a Resistência representara uma “correção” do Risorgimento, já que, com ela, pela primeira vez na história da Itália, as classes populares haviam assumido um papel predominante na fundação e na vida do novo Estado.

As questões enfrentadas pelo centro-esquerda diziam respeito a todas as forças políticas representativas do movimento operário e deviam ver a participação solidária de tais forças no governo do país. Por isso, no IX e no X Congresso do partido [1960 e 1962], Togliatti retoma, ainda que com muita cautela, o tema do “partido único” entre comunistas e socialistas, que constituíra o objeto de um relatório específico de Luigi Longo durante o V Congresso [1946].

Além disso, repropõe a comparação entre comunismo e reformismo, insistindo, como em 1945-1946, que o ponto central da discussão não se referia ao gradualismo ou à via parlamentar, método e perspectiva compartilhado por ambos, mas sim à concatenação das reformas “parciais” num único projeto e num único processo de reformas da sociedade e do Estado. Em seguida, avançando mais ainda na comparação, explicita os pressupostos reformistas da “via italiana ao socialismo”; e, no relatório apresentado ao X Congresso, esclarece que a perspectiva escolhida pelo PCI era a do socialismo–processo.

É evidente que, ao aceitar esta perspectiva, que é a do avanço para o socialismo na democracia e na paz, nós introduzimos o conceito de um desenvolvimento gradual, no qual é bastante difícil dizer quando, precisamente, se dá a mudança de qualidade.

Obviamente, uma evolução reformista do quadro político e econômico italiano não dependia só do PCI, mas sobretudo da disponibilidade por parte das classes dirigentes de reconhecer a legitimidade do movimento operário como força de governo, e esta possibilidade, que jamais ocorrera na história da Itália, nem mesmo naquele momento era tomada em consideração.


Como se sabe, tomando como pretexto uma inversão não muito grave do ciclo econômico internacional, no início de 1964 o Tesouro e o Banco da Itália interromperam o programa reformador do centro-esquerda, condenando esta fórmula política ao fracasso. O modo de desenvolvimento baseado em baixos salários e baixo consumo devia ser preservado; as características originais do capitalismo italiano não admitiam “reformas de estrutura”. Assim, no editorial de Rinascita Togliatti conclui sua reflexão sobre a história da Itália precisamente com esta questão, deixando em aberto perguntas fundamentais e extremamente dilemáticas:

Em que medida os grupos dirigentes da grande burguesia italiana, industrial e agrária estão dispostos a admitir até mesmo um conjunto de modestas medidas de reformismo burguês? Ou seja, em que medida é possível, na Itália, um reformismo burguês? Convidamos os estudiosos de história e de economia a aprofundar esta questão, que é de decisiva importância não tanto para julgar o passado quanto para traçar as linhas de uma perspectiva. A questão está estreitamente ligada à sorte de um partido socialdemocrata, que na Itália jamais conseguiu ter o mesmo papel desempenhado em outros países europeus, e dos outros partidos operários. [Ver também: A esquerda italiana e o reformismo no século XX]

Giuseppe Vacca é o presidente da Fundação Instituto Gramsci, em Roma. Este texto é parte de uma intervenção no seminário internacional Togliatti no seu tempo, realizado em dezembro de 2004, naquela cidade.

O que Lula diz, o que Lula faz


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tomado de aparente ira santa, em cerimônia-comício no Rio de Janeiro: "O que aconteceu com o famoso mercado onipotente?

Quando o mercado tem uma diarréia, quem eles chamaram para salvá-lo? O Estado que eles negaram durante 20 anos".

De texto assinado pelo mesmíssimo Lula, após a cúpula do G20 no mês passado em Washington:

"Nosso trabalho [dos líderes do grupo] será guiado por uma crença compartilhada de que os princípios de mercado, de livre comércio e regimes de investimento abertos, e mercados financeiros efetivamente regulados, estimulam o dinamismo, a inovação e o empreendedorismo que são essenciais para o crescimento econômico, o emprego e a redução da pobreza".

Não há, pois, o menor parentesco entre o que diz o presidente em público e o que assina no escurinho do cinema, bem ao lado do "eles", o sujeito oculto de sua primeira frase -no caso, os líderes mundiais que transformaram em religião a crença no livre mercado.

O comício do Rio é, pois, retórica vazia, engana-trouxa.

No comício do Rio, Lula deu a entender que está havendo uma recuperação do Estado, "negado durante 20 anos". Engano. O que está havendo é o de sempre: a privatização do dinheiro público e a estatização do risco. Nada que não tenha acontecido desde que os mercados se tornaram "onipotentes".

O Estado dá dinheiro, mas não tem o comando do que fazem com ele. Tanto que o próprio Lula se sentiu compelido a reclamar, também publicamente, de que os bancos não estavam soltando o dinheiro liberado pelo governo. Foi desmentido no dia seguinte por Fabio Barbosa, presidente da Febraban, e enfiou a viola no saco.

Enfim, nada de novo na retórica de Lula; apenas o retorno às bravatas do passado. Inócuas.

Soneto piorado


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A emenda constitucional que altera o rito de tramitação das medidas provisórias, recentemente aprovada na Câmara em primeiro turno, ainda precisa passar por outra votação antes de voltar ao Senado, de onde se originou a proposta.

Mantido o texto na segunda rodada, porém, a emenda não encontrará ambiente favorável à aprovação entre os senadores. Um parecer elaborado pela consultoria legislativa da Casa em resumo considera que a Câmara piorou o conteúdo da proposta apresentada com o objetivo de conter os excessos do Executivo e amenizar as carências do Legislativo.

De acordo com o parecer, o texto aprovado pelos deputados não faz uma coisa nem outra. Além de manter inalterado o poder do Executivo de obstruir a pauta de votações dos plenários da Câmara e do Senado, reduz o prazo de "trancamento", cria novos obstáculos aos trabalhos das comissões de Constituição e Justiça das duas Casas e acaba com a prerrogativa do Parlamento de impedir a tramitação de medidas provisórias que não sejam relevantes e/ou urgentes.

Esse trabalho vai servir de orientação aos senadores, que preferem deixar os deputados concluírem a votação antes de manifestar suas posições.

Pela regra de hoje, a MP chega ao Congresso e, em tese, passa por uma comissão especial para exame de relevância e urgência. Como na prática a comissão nunca se reúne, a Câmara resolveu que as medidas provisórias seguem para a CCJ, que teria 10 dias para se pronunciar. No sétimo dia, a MP tranca a pauta da comissão, cujo voto não tem caráter terminativo, o que permite à medida seguir direto para o plenário.

Diz a consultoria do Senado: "Os dois resultados imediatos dessa sistemática são a extinção da possibilidade do exame do mérito antes da votação em plenário e o ?trancamento? das pautas das CCJs, habitualmente já assoberbadas de trabalho".

Todas as propostas entram no Legislativo pelas comissões de Constituição e Justiça, que, instituída a nova norma das MPs, teriam raros momentos de pauta liberada para o exame de outros assuntos.

Quanto à pauta dos plenários, o "trancamento" não ocorreria mais depois de 45 dias de editada a medida, mas depois de 15 dias, com a possibilidade de a maioria absoluta aprovar a inversão de prioridade.

Na prática isso pode favorecer o governo, que terá a chance de mobilizar a maioria para assegurar a votação de temas de seu interesse, sem precisar revogar medidas provisórias para liberar a pauta e permitir a votação de propostas consideradas prioritárias, como ocorreu com a CPMF.

No entendimento da consultoria legislativa do Senado, "há outras críticas a serem feitas à técnica ou à redação da proposta, mas o fundamental é a percepção de que, novamente, a emenda pode sair pior que o soneto".

Senso comum

O presidente Lula é ao mesmo tempo o melhor tradutor e porta-voz do princípio ufanista segundo o qual "com o brasileiro não há quem possa".

A pesquisa Datafolha que registra 70% de aprovação mostra também que 42% das pessoas acham que a crise internacional arrasa quarteirões no "estrangeiro", mas no Brasil será apenas "uma marolinha".

Um produto de legítima fabricação nacional, resultado do complexo de vira-lata travestido de arrogância leviana.

Relações

Às turras com o partido por causa das acusações de corrupção e ineficiência na Fundação Nacional de Saúde, o ministro José Gomes Temporão ainda assim chegou a confirmar presença no jantar do PMDB quarta-feira, na residência oficial da presidência do Senado.

A assessoria do ministro da Saúde mandou perguntar se haveria discursos. Não necessariamente, informou o cerimonial.

Como Temporão não apareceu, seus companheiros de partido não entenderam se ele queria fazer ou ouvir discurso; na dúvida, acreditam que pretendia mesmo se livrar de ambas as hipóteses.

Espectador

No mesmo jantar, o senador José Sarney manifestou seu grau de confiança na chance de prosperarem as reformas política e tributária: "Em 50 anos de Congresso, nunca vi nenhuma das duas prosperar".

Guerra na floresta

O senador Renan Calheiros leva a fama, mas o maior combatente da candidatura do petista Tião Viana é o senador acreano Geraldo Mesquita.

Aparentemente um homem de maneiras amenas, quando o assunto é seu adversário regional, Mesquita vira uma fera ferida.

Já Calheiros tem dito que seu problema não é com Viana, mas com a bancada do PT toda.

Ou é um ingrato, já que o PT se expôs durante o processo de julgamento do então presidente do Senado no Conselho de Ética - em particular o senador Aloizio Mercadante ao defender abertamente a abstenção -, ou o PT na época quebrou alguma regra do combinado.

Lula nas alturas e o auto-engano


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Lula é o presidente mais bem avaliado da história recente. Bateu seu próprio recorde. Em setembro, 64% aprovavam sua administração. Hoje, 70% o consideram bom ou ótimo. É um patrimônio gigantesco para um ocupante do Palácio do Planalto em tempos de democracia e às vésperas de uma grande crise na economia.

Gráficos do Datafolha compararam ontem Lula a outros presidentes pós-ditadura militar (1964-1985). José Sarney (1985-90) nunca passou de pífios 11% de aprovação.

Fernando Collor (1990-92) foi a 36%. Itamar Franco (1992-94) avançou a 41%. FHC no primeiro mandato (1995-98) bateu em 47%.

No segundo período, o tucano foi uma decepção -sua taxa máxima caiu a 31%. Tudo somado, ninguém chegou nem perto do petista.

Mas as curvas das pesquisas do Datafolha contêm mais detalhes do passado democrático do Brasil. Em março de 1990, antes de Collor tomar posse (naquela época os eleitos assumiam nesse mês), 71% esperavam que ele fizesse um governo bom ou ótimo. Três meses depois, a aprovação da administração collorida era de apenas 36%.

Nos seus três primeiros meses de governo, Collor fez uma das mais catastróficas gestões políticas e econômicas da história do país. O dinheiro dos brasileiros ficou congelado nos bancos. A crise econômica foi brutal. O PIB (soma das riquezas do país) caiu 4,4%. A inflação de 1990 atingiu 1.639%.

Nada indica um ano de 2009 semelhante ao de 1990, embora seja certa alguma desaceleração da economia brasileira. O tamanho da queda determinará a extensão do recuo na popularidade estratosférica de Lula. O presidente sabe o que se passa e prefere recomendar um pouco de auto-engano. Nas suas finas palavras, ninguém fala "sifu" para um doente. Pode ser. Mas fingir não enxergar a crise não ajuda em nada na sua solução.

Lula perdeu o rumo na reta final


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Vá lá que a sentença pessimista peque pelo exagero. Mas não tanto que invalide a especulação sobre as possíveis saídas do presidente para encontrar o caminho limpo e o apoio popular nos altos índices ascendentes das pesquisas, dos sucessos da política econômica com mais R$ 300 bilhões de dólares nas arcas do Tesouro, sob a sovina vigilância do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Na contramão, a bagunça na casa das mordomias, das mutretas do pior Congresso desde a queda do Estado Novo, viciado em levar vantagem na negociação do voto e que não dá segurança e tranqüilidade ao governo, mesmo com o alto preço da barganha de ministérios, autarquias, cargos de confiança, controle de obras de milhões de reais, desperdiçados na angústia da necessidade para adquirir o apoio e o voto das legendas que ornamentam o leviano bloco majoritário.

Por falta de experiência, de apreço pelo jogo parlamentar, Lula cometeu erros que passaram despercebidos no período de bonança e hoje mais atrapalham do que ajudam. Certamente, o presidente não precisaria espichar o atrito com o presidente do Senado, Garibaldi Alves, no final do mandato, com a teimosia de abusar das medidas provisórias para trancar a pauta das votações e disputar com o Supremo Tribunal Federal (STF) o controle dos votos e o direito de legislar atropelando o Legislativo. E era tal a segurança do presidente de que talvez não elegesse um poste, mas faria seu sucessor com uma candidatura feita em casa, que lançou numa seqüência de discursos, entrevistas e conversas com jornalistas a candidatura da chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, com 8% na pesquisa divulgada no blog do prefeito Cesar Maia. Os resmungos dos frustrados do PT, que são muitos e com cacife, que sequer sustentam as pretensões a uma vereança municipal.

A ministra-candidata conquistou espaço no Palácio do Planalto e anexos. Um tanto sem jeito, procurou domar o seu temperamento, clarear com sorriso o rosto sempre sério e com a habilidade no manejo do esquema de publicidade oficial operou a mágica de, até agora, espaçar as pesquisas e manter o nome da candidata do presidente fora das listas de aspirantes. Alguns percentuais que furaram o cerco mereceram duas linhas de registros em colunas, e os sinos não bimbalharam. Um dígito não enche o bojo de um candidato a mandato majoritário, de prefeito a presidente.

Mas, sem concorrente em casa, com a oposição a brincar de pique entre as candidaturas do favorito, o governador José Serra, de São Paulo, e o obstinado Aécio Neves, governador de Minas, Lula decidiu apresentar a candidata ao eleitorado, incluindo-a em todas as suas viagens de um campeão de milhagens aéreas no Brasil e no exterior. Com o crachá de responsável pelo Projeto de Aceleração do Crescimento, o PAC de verbas milionárias e obras nas áreas carentes, alem de planos mais ambiciosos de recuperar a malha rodoviária em pandarecos, os portos abandonados nos seis anos dos dois mandatos.

Ora, tanto esforço, empenho, discursos, entrevistas, viagens pelo mundo foi de ladeira abaixo nas enxurradas que castigaram Santa Catarina, Espírito Santo e estado do Rio, com o horror de uma das maiores, senão a maior tragédia da nossa crônica de desleixo com a natureza, de omissão dos governos diante da ocupação de áreas de risco, com casas e favelas equilibradas em morros ou na beira dos rios que costumam inundar amplas áreas nos temporais de anos de enchentes, com mortos, desabrigados, casas destruídas e os milhares de famintos que tudo perderam, menos a vida e não sabem por onde recomeçar.

Lula não se omitiu, demorou a avaliar a dimensão da calamidade. De lá para cá, a corrente da solidariedade da população lota centenas de caminhões com a doação de roupa, calçado, cobertores e sacos de alimento, e complementa a gigantesca mobilização oficial de todo tipo de socorro. A sucessão saiu da primeira página dos jornais, da capa das revistas, do destaque dos noticiários das redes de TV. A ministra-candidata espera a hora de voltar ao palco. Seu lugar continua inabalável na cotação palaciana.

Mas, até que a água escoe, comece o mutirão para a construção de milhares de residências, se normalize o tráfego nas rodovias e na malha ferroviária e os portos retomem parte da rotina, a ministra-candidata terá que esperar.

Governo de união


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Com a situação econômica se deteriorando a cada dia que passa, e faltando ainda intermináveis 45 dias para a posse, o presidente eleito Barack Obama está se desdobrando para ocupar os espaços políticos que revelem uma tendência do que será o seu governo sem se envolver diretamente com a solução da crise, para não receber culpas indevidas nem atrapalhar o que resta de governabilidade na Casa Branca. Mas, justamente pela gravidade da situação, ele procura demonstrar que está em ação durante a transição, enquanto o presidente George Bush continua a cada dia mais se enterrando nas derradeiras declarações políticas.

Ontem, depois dos números trágicos das demissões em novembro, que chegaram a 6,7% dos trabalhadores e podem ir a 9% até o final do ano - perda de 533 mil empregos, o pior número desde dezembro de 1974 -, ele admitiu pela primeira vez que o país está mesmo em recessão, o que acontece há um ano e foi oficialmente anunciado esta semana pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica, um instituto de economia dos EUA responsável por definir quando o país está oficialmente em recessão, e quando esta chegou ao fim.

Obama é o presidente que está definindo mais rápido seus principais assessores, já escolheu 13 dos 24 cargos de primeiro escalão. Antes dele, apenas Bush pai montara seu governo de maneira rápida - escolhera oito de seus ministros até esta data -, mas vinha de suceder um correligionário, o ex-presidente Ronald Regan, de quem fora vice por oito anos, e tinha uma equipe em atuação para sua escolha.

E a população está gostando da hiperatividade do futuro presidente. Uma pesquisa de opinião divulgada ontem pela CNN mostra que 75% dos cidadãos aprovam as escolhas feitas até agora para o primeiro escalão do governo, sendo que a escolha mais polêmica, a da senadora Hillary Clinton para a Secretaria de Estado, tem a aprovação de 70% dos pesquisados.

A preocupação, e até mesmo o desencanto de muita gente com as escolhas centristas do presidente eleito Barack Obama, não refletem a opinião da maioria da sociedade, que está aprovando essa postura mais equilibrada na nomeação de seu ministério.

A revista inglesa "The Economist" diz que as escolhas de Obama estão aliviando os grupos que temiam que o futuro governo fosse muito para a esquerda, mas muitos eleitores deles podem estar decepcionados.

Os que esperavam mudanças radicais, inclusive de nomes, estão frustrados, mas o próprio Barack Obama se encarregou de responder a esses, dizendo que a mudança de atitude do governo depende de suas orientações, e ela acontecerá com essa equipe de experientes servidores públicos.

A presença da senadora Hillary Clinton na Secretaria de Estado certamente não é uma mudança política, mas a maneira como a política externa americana será conduzida certamente representará uma mudança em relação à visão de mundo dos neoconservadores que dominavam a política externa dos Estados Unidos no governo Bush.

Com a montagem de um governo centrista e bipartidário, Barack Obama está conseguindo até se aproximar do Partido Republicano, que, mais que simplesmente aliviado com seu comportamento político, já tem uma parte se dizendo disposto a ajudá-lo no Congresso.

A permanência de Robert Gates à frente do Pentágono também ajudou a acalmar os republicanos, que vêem nessa escolha uma garantia de que a segurança nacional não será negligenciada.

Com a vitória do senador Saxby Chambliss na Geórgia, no segundo turno da disputa, os republicanos conseguiram barrar a possibilidade de os democratas atingirem 60% das cadeiras do Senado, o que lhes proporcionaria a rara oportunidade de impedir que a minoria fizesse qualquer tipo de obstrução, garantindo assim a aprovação das medidas econômicas com rapidez.

Mas é previsível que senadores do Partido Republicano se prontifiquem a votar com os democratas em determinados assuntos urgentes, como o futuro plano de estímulo da economia, que deve ser apresentado ao Congresso logo depois da posse, em 20 de janeiro.

A maneira como Obama está montando sua equipe também demonstra claramente que ele está pacificando internamente o Partido Democrata, a começar pela parte que tem a liderança da senadora Hillary Clinton. Barack Obama, aliás, está adotando a mesma estratégia para dentro de seu partido que o ex-presidente Bill Clinton, e os dois têm a mesma razão para isso: nem Clinton nem Obama eram as escolhas da cúpula partidária nas eleições que venceram.

Bill Clinton foi eleito presidente em novembro de 1992, acabando com 12 anos de gestão republicana na Presidência. Mas foi escolhido candidato depois que as principais lideranças democratas desistiram, especialmente o governador de Nova York, George Cuomo, por não acreditarem na possibilidade de derrotar Bush pai devido à sua popularidade após a Guerra do Golfo.

Desta vez também a preferida da direção partidária era a senadora Hillary Clinton, e as primárias eram consideradas apenas uma etapa para referendar sua candidatura.

Tendo vencido sem o apoio inicial do partido, Obama tratou de uni-lo, trazendo para dentro de seu governo todos os principais competidores: Joe Biden foi escolhido vice-presidente, Hillary Clinton será a secretária de Estado, o governador do Novo México, Bill Richardson, será o ministro do Comércio.

Unindo o partido, o presidente eleito tem o controle do Congresso, já que, assim como no primeiro governo Clinton, os democratas têm a maioria tanto na Câmara quanto no Senado.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A esquerda italiana e o reformismo no século XX

Giuseppe Vacca
Tradução: Luiz Sérgio Henriques
Fonte: Gramsci e o Brasil

Na segunda metade dos anos 1990, uma singular sincronia eleitoral fez com que, em treze dos quinzes países da União Européia, partidos socialistas ou coalizões de centro-esquerda se encontrassem pela primeira vez no governo ao mesmo tempo. O acontecimento era de alcance extraordinário: nos anos oitenta, em todos os países europeus o reformismo socialista havia registrado uma crise de consenso e, em 1989, fora desafiado pela orgia em torno da “morte do comunismo”, de que a opinião pública mundial parecia ter se convencido. Para compreender como teve origem tal acontecimento, pode ser útil fazer uma comparação entre o “velho” reformismo, que travou suas batalhas no horizonte da política nacional, e o “novo” reformismo, que enfrenta os desafios da supranacionalidade. A comparação terá uma inflexão particular, uma vez que o foco do discurso recai sobre a Itália, que, como se sabe, não conheceu e ainda não conhece a existência de um partido reformista de nível europeu.

1. A crise dos anos trinta e as primeiras experiências de governos reformistas

Os sujeitos políticos se definem através dos desafios a que tentam responder com base nos valores, nas visões e nos interesses que os caracterizam. Em outras palavras, definem-se reciprocamente com base nos diferentes modos pelos quais se referem aos processos históricos gerais. Portanto, devemos estabelecer preliminarmente qual é o termo de comparação do reformismo e o gênero próximo a que se refere. O tema não é banal, antes de mais nada porque nos anos mais recentes o termo “reformismo” sofreu uma dilatação semântica despropositada, de modo que, especialmente na linguagem jornalística, ele é empregado para indicar qualquer tipo de governo — de esquerda, de centro ou de direita — que implemente reformas. No entanto, em sentido próprio a “questão do reformismo” diz respeito à história do socialismo. Mas, para focalizar o problema, esta delimitação do campo não basta. Ainda se deve ajustar contas com a idéia muito difundida de que os movimentos políticos distinguem-se com base na sua identidade, definida de uma vez por todas; de tal sorte, é opinião corrente que o socialismo encarne a idéia de igualdade, de conteúdos variáveis, mas sempre igual a si mesma como valor. Na “eterna” contraposição entre direita e esquerda, ela identificaria a esquerda e, portanto, o reformismo, que é uma parte essencial desta esquerda [1]. Na realidade, as coisas não são assim: direita e esquerda redefinem-se reciprocamente no tempo e no espaço com base na mudança de critérios de realinhamento das forças sociais e políticas determinados pelas vicissitudes nacionais e mundiais. Mas, mesmo depois desta especificação, o conceito ainda não está inteiramente esclarecido. Com efeito, na Itália ainda prevalece a idéia de que reformismo seja sinônimo de “gradualismo”: os reformistas representariam aquela parte da esquerda que aceita subordinar seus fins aos ritmos e compatibilidades do “jogo democrático”: seu oposto seriam os “revolucionários”, que, ao contrário, não aceitariam tais condições [2]. Esta definição é patentemente anacrônica: está presa ao grande debate do final do século XIX, no qual o socialismo europeu se dividiu entre “reformistas” e “revolucionários” com base em dois modos diferentes de conceber o fim último (a “superação do capitalismo”) [3]. Como se sabe, a divisão se tornou dilaceradora com o nascimento do movimento comunista e o abandono do “fim último” por parte dos reformistas. Mas, de um ponto de vista histórico, já no curso dos anos vinte o movimento comunista pôs de lado a perspectiva da “revolução mundial”, e não se pode negar que desde então, na Europa, também tenha sido “gradualista”. A divisão, pois, ficou limitada aos meios.
Apesar disso, permaneceu uma contraposição radical, uma vez que passava pelo reconhecimento ou pelo desconhecimento da democracia como regra absoluta do jogo. Sua aceitação por parte da socialdemocracia não era só uma “escolha de valor”, mas também decorria de uma visão da “estabilização capitalista”: ela a percebia não só como a hipótese mais provável (depois da catástrofe da guerra), mas também a mais desejável, e a punha como base de uma “estratégia de compromisso”, destinada a favorecer a estabilidade, em troca da democracia e do Welfare [4]. Ao contrário, para o movimento comunista, a estabilização capitalista não interrompia a “crise geral do capitalismo” e tornava inteiramente transitórias (além de circunscritas aos países capitalistas mais desenvolvidos) as “situações democráticas” [5]. De todo modo, desde os anos trinta do século XX, a distinção entre “reformistas” e “revolucionários” torna-se anacrônica. Por outro lado, a disputa sobre o “fim último” baseava-se num equívoco. A idéia da “superação do capitalismo” nascia da contraposição entre capitalismo e socialismo, que é histórica e conceitualmente infundada. Capitalismo e socialismo referem-se a dois planos diversos da realidade e não são comparáveis: o capitalismo é um modo de produção, o socialismo é um critério de regulação do desenvolvimento econômico, que, portanto, não se contrapõe ao primeiro, mas propõe-se orientá-lo. Para superar este falso dilema, foi necessário elaborar o conceito de regulação, e, naturalmente, não estamos falando de elaboração puramente intelectual, mas de experiência histórica concreta. Aproximamo-nos, assim, do ato de nascimento do reformismo: a crise dos anos trinta e a invenção de um “modo de regulação” do desenvolvimento alternativo ao do velho liberalismo, que entra em colapso [6].

Portanto, o termo de comparação do reformismo foi e ainda é o maximalismo. O reformismo é programa e ação de governo; o maximalismo, diferentemente daquilo que geralmente se considera, não é tanto radicalismo social ou antagonismo “de classe” (até Turati era “classista”), quanto, sobretudo, indiferença em relação à responsabilidade de governo. Mas, para um partido, desenvolver capacidade de governo não é só questão de vontade. Seu ponto de amadurecimento é o alcance da capacidade de interpretar o interesse nacional, que, por natureza, está em disputa. De reformismo socialista só podemos falar, de modo circunstanciado, a partir de quando, elaborando programas representativos do “interesse nacional”, alguns partidos socialistas chegaram ao governo nos seus países. Isto aconteceu pela primeira vez na Grã-Bretanha, na Suécia e na Bélgica, entre o fim dos anos vinte e o início dos anos trinta, numa passagem crucial da história do século XX. Diante dos efeitos explosivos da crise de 1929-1932, foram aqueles partidos operários que elaboraram soluções mais válidas do que as propostas pelos partidos liberais ou conservadores para os problemas do próprio país e conquistaram seu governo. Na verdade, não foi a primeira experiência de governo em termos absolutos: tinha havido a República de Weimar; mas os socialistas que governaram a Alemanha nos anos vinte fracassaram precisamente na capacidade de enfrentar a Grande Depressão, abrindo assim caminho para a vitória de Hitler [7]. Ao contrário, nos três casos que lembrei, os socialistas venceram o desafio porque ocorreu uma mudança fundamental da sua cultura política: uma mudança de paradigma, que constitui o verdadeiro ato de nascimento do reformismo.

O salto de qualidade consistia no fato de que aqueles partidos mostravam-se capazes de agir pela primeira vez não só em nome da classe, mas também em nome da nação. Foram assim lançadas as bases do reformismo nacional. Em outras palavras, de uma cultura de governo dos socialistas que, ao evoluir ainda mais, seria capaz de promover, depois da Segunda Guerra Mundial, um consenso reformista majoritário num número crescente de países europeus [8].
Entre os elementos que deram origem a esta evolução, deve-se salientar, antes de mais nada, a nova capacidade de análise do capitalismo, emancipada da visão catastrófica das suas crises. Nos anos trinta, as três socialdemocracias que recordei mostram consciência de que as crises são o processo natural do desenvolvimento capitalista e, portanto, trata-se de aprender a governá-las. No caso específico, elas interpretaram a Grande Depressão como uma crise de subconsumo e elaboraram respostas eficazes que a cultura liberal então refutava: políticas de sustentação da demanda efetiva, desenvolvimento da economia mista, compromisso entre as organizações sindicais dos trabalhadores e das empresas, reconhecendo a legitimidade do comando capitalista na fábrica mas contratando suas modalidades, acordo sobre a relação entre salários e produtividade, forte impulso às políticas sociais. São os elementos básicos daquilo que muitos anos depois se chamaria de “compromisso keynesiano” [9] ou “regulação fordista” [10].


2. As frentes populares. Os Cadernos do cárcere

A importância histórica daquelas experiências também residia na demonstração de que, diante da dissolução da civilização liberal [11], a alternativa entre bolchevismo e fascismo não era inexorável. Depois da vitória de Hitler na Alemanha, este parecia ser o destino da Europa. No entanto, aquelas experiências começaram a alimentar o antifascismo com propostas positivas e concretas. Este foi o quadro em que, também no movimento comunista, abriu-se um espaço para a conciliação entre classe e nação. Para tanto, foi decisiva a experiência da Frente Popular na França, nascida da colaboração entre comunistas e socialistas [12]. Na Itália, deve-se recordar o pacto de unidade e ação de 1934, que também nascia da revisão de análises e programas que animaram a investigação socialista depois da derrota de 1919-1922 [13], bem como da elaboração do PCI sobre o fascismo [14]. Ainda que de modo limitado à necessidade de combater o fascismo, também os comunistas resolviam o problema da participação em governos de coalizão para enfrentar os perigos da guerra, defender a democracia e renovar seus conteúdos através da realização de reformas econômicas e sociais. A “virada” foi aprovada no VII Congresso da Internacional, que retificou a equação entre socialdemocracia e fascismo. Restava o limite insuperável da subordinação dos partidos comunistas à política da URSS, de modo que o que deveria ter sido uma virada estratégica foi só uma virada tática, logo sepultada pelo desencadeamento do Grande Terror e pelo pacto Molotov–Ribbentrop [15]. Mas era de grande importância o fato de que, através da elaboração de um programa concreto de luta contra o fascismo, também os comunistas enfrentassem o nó das relações entre classe e nação, e isso contribuiria de modo significativo para valorizar seu papel na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial.

Na Itália, o problema de conciliar classe e nação fora formulado por Antonio Gramsci desde 1924. A solução do problema, pois, inscrevia-se numa perspectiva revolucionária e não na reformista. Mas deve-se chamar a atenção para a revisão dos fundamentos teóricos do bolchevismo que Gramsci elaborou nos Cadernos do cárcere [16]. Partindo da análise da crise de 1929, ele chegava a uma verdadeira teoria geral das crises, que continha também a explicação das origens da Grande Guerra. A partir das últimas décadas do século XIX, com a formação de uma “economia mundial”, crises e guerras tinham origem no contraste cada vez mais gritante entre o “cosmopolitismo” da economia e o “nacionalismo” da política. O primeiro não podia difundir seus influxos benéficos porque se via obstaculizado pela existência de uma ordem internacional baseada nos Estados-nação, que, com suas prerrogativas (o princípio de soberania, a decisão exclusiva sobre a guerra e a paz), monopolizavam a política. Mas o princípio de soberania fora definitivamente abalado pelos eventos da Primeira Guerra Mundial, que deflagrou uma crise irreversível do Estado-nação. A virada isolacionista da política soviética (a opção de “construir o socialismo num só país”) pôs fora de jogo o movimento comunista, uma vez que ele identificava o socialismo com o destino da URSS. Mas nos Estados Unidos se estava desenvolvendo um novo tipo de industrialismo, destinado a expandir-se em nível mundial e a mudar os espaços da política. Neste processo Gramsci entrevia a possibilidade de encaminhar a solução daquela antinomia, orientando nacionalmente a aliança entre operários e camponeses para um “novo cosmopolitismo”, voltado para a “reconstrução da economia segundo um plano mundial”. Etapa intermediária da nova ordem mundial, a criação de “agrupamentos” econômicos supranacionais.

Gramsci escrevia num cárcere fascista, mas não há quem não veja como sua elaboração atinja em cheio os fundamentos do bolchevismo: a teoria da “crise geral do capitalismo”, a consideração do imperialismo como “fase suprema do capitalismo” e, portanto, a idéia da inevitabilidade da guerra. Depois da queda do fascismo, sua investigação influenciaria de modo determinante a política do PCI, inspirada na perspectiva do antifascismo.

3. A guerra antifascista e a redefinição do reformismo

As primeiras três décadas do segundo pós-guerra registraram a ascensão do “reformismo nacional” e, na Itália, único país da Europa Ocidental, o crescimento constante do peso eleitoral e do papel do PCI. Para analisar esta “anomalia”, é necessário que nos detenhamos brevemente nas características da Segunda Guerra Mundial a partir de 1941, isto é, a partir de quando, com a intervenção dos Estados Unidos e o surgimento da Grande Aliança, ela se tornou a guerra antifascista. Devemos, pois, considerar as mudanças por ela produzidas.

Deve-se chamar a atenção para o universalismo rooseveltiano e a visão que a elite do New Deal tinha da nova ordem internacional a ser construída depois da derrota do nazismo. Ela propugnava uma reorganização do mercado mundial que também incluísse a URSS, um ordenamento das relações internacionais baseado na cooperação entre as potências antifascistas, uma abordagem multilateral dos problemas internacionais, a criação de espaços econômicos supranacionais abertos, a construção de novos organismos internacionais para o governo da economia, o nascimento das Nações Unidas como embrião de um governo mundial [17]. Não foi possível realizar este projeto não só por causa da morte de Roosevelt e da mudança do bloco de poder que o sucede à frente dos Estados Unidos [18], mas também, e talvez sobretudo, por causa da indisponibilidade da URSS a aceitar este desafio. Na elite staliniana, dominava a percepção da insegurança da URSS, e isso fazia com que buscasse novas garantias territoriais [19]. Era a projeção da “política de segurança” que Stalin havia começado na segunda metade dos anos trinta [20] e que, logo depois do parêntese da “guerra patriótica”, induziu-o a restaurar o “Estado de segurança total” [21]. Aquela visão leva a impor aos países da Europa Central e do Leste, libertados pelas forças soviéticas, um regime de ocupação permanente voltado para estender as fronteiras da URSS até as fronteiras desses países e a neles instaurar o sistema político e econômico da própria URSS. Era a criação de uma esfera de influência totalitária baseada em critérios militares e na divisão da Europa, com o erguimento do que Churchill batizou como “cortina de ferro” [22].

Portanto, caminhavam pari passu a ruptura da aliança antifascista e o nascimento da guerra fria. Mas as mudanças originadas da Segunda Guerra Mundial tiveram igualmente uma relevância epocal. Para ficar nas que se referem ao nosso tema, recordo a criação, por parte dos Estados Unidos, de um espaço econômico supranacional que se estendia a todo o Ocidente, o lançamento de “políticas de produtividade” voltadas para estabilizá-lo, favorecendo a reconstrução da Europa Ocidental [23], a divisão do mundo em dois campos contrapostos dominados pelas duas maiores potências, o início da integração européia [24]. Nascia assim uma nova “estrutura do mundo”, na qual interdependência econômica e interdependência política caminhavam paralelamente. Criava-se um sistema de relações internacionais [25], no qual o Estado-nação não era mais o único protagonista. As duas maiores potências alcançaram rapidamente uma capacidade de destruição recíproca que limitava sua própria soberania, uma vez que a decisão da guerra não era mais prerrogativa unilateral de uma ou de outra. Em medida bem maior, este elemento constitutivo da soberania do Estado moderno desaparecia em todos os demais países [26]. No plano econômico, em todo o Ocidente se instaurava uma ordem dúplice, que, para retomar a feliz metáfora de Robert Gilpin, baseava-se num “compromisso entre Smith e Keynes”, isto é, na predominância da regulação de mercado na economia internacional e da regulação política na economia nacional [27]. Isso favorecia o que Alan Milward chama de “renascimento do Estado-nação na Europa” [28], uma vez que os mercados nacionais eram os centros propulsores da difusão internacional do novo industrialismo e da “economia dos consumos”, que constituíam a base da hegemonia americana mas também do desenvolvimento dos países aliados, e a regulação política do mercado interno era a alavanca do “desenvolvimento nacional” [29]. Sua promoção, somada à construção do Welfare State, tornou-se o principal objetivo das esquerdas em todas as democracias ocidentais. Esta combinação virtuosa de fatores políticos nacionais e internacionais iria durar até a crise dos anos setenta [30].

Mas, voltando à Segunda Guerra Mundial e à Itália, a Grande Aliança antifascista permitiu ao Partido Comunista assumir um papel eminente na Resistência e na guerra de Libertação, e tornar-se o principal partido do movimento operário italiano [31]. Tomava forma assim um reformismo nacional comunista, que, caso único na Europa, demonstrou uma capacidade de resistência e de evolução destinada a incidir profundamente na vida política e civil do país até os anos setenta [32]. Baseava-se, precisamente, na conciliação entre classe e nação, a partir da missão que coube à classe operária na Resistência e na guerra de Libertação; graças a ela, o PCI conseguiu ter um papel relevante na fundação da República, na elaboração do pacto constitucional e na construção do sistema político, e, do ponto de vista programático, desempenhou um papel comparável àquele que, nos outros países europeus, tiveram as grandes socialdemocracias [33]. Pode-se dizer que, caso talvez único entre os partidos comunistas europeus, o PCI jamais se afastou do antifascismo como fundamento de uma política nacional reformista. A Constituição republicana tornou-se seu “programa fundamental”. No entanto, tratava-se de um tipo de reformismo nacional incompleto, que, sob a roupagem de um partido comunista, não podia ser levado a cabo.

O “partido novo” de Togliatti era concebido como “partido de governo da classe operária”, e seu programa, resumido na fórmula da “democracia progressiva” (se levarmos em conta as particularidades de um país derrotado, que havia vivido a experiência do fascismo e, com o colapso deste último, também o colapso do Estado; e, além disso, havia experimentado uma guerra civil sangrenta, a divisão entre a República Social e o Reino do Sul, o risco de ruptura da unidade nacional), não estava em nível inferior ao dos programas de reconstrução sustentados pelos partidos socialistas nos outros países da Europa Ocidental [34]. Mas, terminada a Grande Aliança, o pertencimento ao movimento comunista internacional e a fidelidade à URSS privavam o PCI da legitimação para governar. Esta não lhe era vedada pela força, mas pela falta de consenso, uma vez que, enquanto a Democracia Cristã dispunha de um nexo internacional virtuoso no qual inserir o desenvolvimento do país, a “dupla lealdade” do PCI não lhe permitia fazer o mesmo [35]. No mundo do pós-guerra, a política nacional era o resultado de determinadas “combinações” de forças nacionais e de condicionamentos internacionais. Na esfera ocidental, em que a Itália estava solidamente inserida, não estava dada ao PCI a possibilidade de elaborar uma própria “combinação” daqueles fatores que o pusesse em condições de desafiar a DC (e seu sistema de alianças) quanto ao governo do país. Em outros termos, no nexo entre política interna e política internacional, o PCI estava bloqueado por uma contradição insanável, derivada da sua lealdade a uma coalizão internacional contraposta àquela em que estava inserida a Itália, que impedia o desdobramento do núcleo reformista do seu projeto. Isto também bloqueou a evolução da sua cultura política, privando-o de recursos fundamentais na gestão do “compromisso keynesiano” — sobretudo na concepção das “relações industriais” — e atribuindo-lhe um papel inferior ao que, em outros países europeus, tinham as socialdemocracias. Finalmente, a emergência da guerra fria cristalizou as divisões existentes no reformismo italiano, uma parte do qual — os dossettianos, os republicanos e Saragat — se colocava no governo, enquanto a outra — socialistas e comunistas — estava na oposição, reduzindo-lhe drasticamente o papel e a eficácia. No sistema da guerra fria, identificavam-se a “democracia bloqueada” e a impossibilidade de unir num só partido de governo as correntes do reformismo italiano: e isso, na Itália do segundo pós-guerra, iria marcar toda a experiência do “reformismo nacional” [36].

4. O fim do sistema de Bretton Woods e o “conflito econômico mundial”. Surgimento do europeísmo socialista

Os arranjos internacionais originados da Segunda Guerra Mundial entraram em crise no final dos anos sessenta. Para ter um quadro exaustivo dos fatores de mudança e dos processos que tiveram início nos anos setenta, também deveríamos considerar a evolução das relações Norte-Sul. Mas, para os fins do nosso argumento, podemos deixá-las de lado, mesmo porque estavam condicionadas pelas relações Leste-Oeste e pelas dinâmicas da guerra fria. Vamos considerar, pois, em primeiro lugar, a crise do sistema de Bretton Woods. No final dos anos sessenta, a economia americana não era mais capaz de desempenhar um papel hegemônico na economia ocidental. A convertibilidade do dólar e o regime de câmbio fixo tinham garantido a reconstrução européia e a ascensão de duas outras potências econômicas capazes de cooperar, mas também de competir com a economia americana: o Japão e a República Federal da Alemanha. Os Estados Unidos, que no final da guerra representavam 53% da riqueza mundial, por volta de 1970 representavam cerca de um terço desta riqueza. Não podiam mais arcar com o peso das despesas militares decorrentes do papel de “gendarme” internacional do Ocidente e perdiam competitividade também por causa do peso social alcançado pelas classes trabalhadoras. Este aspecto dizia respeito, em modos diferentes, a todas as democracias industriais, que haviam atingido a maturidade do “ciclo fordista” [37]. Os Estados Unidos decidiram pôr fim à convertibilidade do dólar (1971) e ao regime de câmbio fixo (1973), destruindo o sistema de Bretton Woods. O significado desta decisão resume-se ao objetivo de tirar das mãos dos governos o controle dos fluxos financeiros internacionais e entregá-lo a mãos privadas. Assim, da velha ordem econômica internacional passava-se a um regime que só na aparência era de “desordem”: na realidade, ocorria a passagem de um sistema hegemônico, vantajoso também para os aliados dos Estados Unidos, para um conflito econômico mundial regulado pela lei do mais forte [38]. Entre os motivos daquela escolha, deve-se recordar a vontade de valer-se da senhoriagem do dólar para financiar o desenvolvimento da “economia da informação”, apoiando-se no complexo militar-industrial com o objetivo de reconquistar a competitividade perdida em benefício da economia alemã e da japonesa [39]. Objetivo não secundário era o de favorecer, também em nível nacional, o predomínio da regulação de mercado para facilitar a difusão da “economia da informação” [40]. Em síntese, soava a hora final do “compromisso entre Smith e Keynes” e iniciava-se um novo ciclo de globalização assimétrica da economia mundial, entregue à regulação de mercado. Por outra parte, nos anos setenta também entra em crise o bipolarismo, e se a URSS, pensando aproveitar a derrota americana no Vietnã, tentou relançar o próprio papel internacional com uma agressiva política expansionista no Terceiro Mundo, os EUA responderam com o lançamento de uma “nova guerra fria”, voltada para excluir a União Soviética da terceira revolução industrial [41]. A passagem de um bipolarismo baseado na estabilidade das esferas de influência, bem como no domínio de cada superpotência no interior destas esferas, para um bipolarismo antagonista provocou o colapso da URSS, uma vez que ao seu poderio militar não correspondia um igual poderio industrial e tecnológico, que lhe permitisse resistir ao desafio americano.

Mas, voltando aos anos setenta, o fim de Bretton Woods, o início de um “conflito econômico mundial”, o lançamento de uma “nova guerra fria” mudaram radicalmente a natureza do vínculo externo. Antes de mais nada, desaparecia a autonomia relativa das economias nacionais; em segundo lugar, a estas economias se apresentavam problemas agudos de reconversão industrial e de especialização competitiva; em terceiro lugar, a passagem do industrialismo mecânico ao neo-industrialismo informático mudava rapidamente a composição demográfica dos países mais desenvolvidos. Estas mudanças faziam desaparecer as vantagens da regulação política das economias nacionais e reduziam sensivelmente os recursos financeiros necessários para sustentar as redes de proteção social construídas nas décadas precedentes (a “crise fiscal do Estado”) [42]; além disso, diferenciavam cada vez mais as demandas de Welfare e enfraqueciam o parceiro sindical do “compromisso neocorporativo”. Era o início do fim da identificação entre movimento operário e socialismo, e fechava-se o ciclo do “reformismo nacional”. Como recordamos no início, nos anos oitenta se registrou uma crise generalizada do “consenso reformista”.

Mas a Europa Ocidental não sofreu passivamente as conseqüências do unilateralismo econômico americano. Fracassada, por causa da oposição dos Estados Unidos, a primeira tentativa de criar uma moeda única, os governos europeus aceleraram o processo de integração, criando (1979) o Sistema Monetário Europeu (SME) [43]. Por seu turno, os dirigentes mais lúcidos do socialismo europeu (Brandt, Palme, Kreisky) haviam empreendido uma busca destinada a renovar profundamente a cultura política dos respectivos partidos [44]. Protagonistas da construção européia no pós-guerra foram a cultura política católica e a liberal. Os partidos operários, tanto as socialdemocracias quanto os partidos comunistas, restaram por muito tempo vinculados ao nacionalismo econômico. Isto se explica com o fato de que a regulação política do mercado nacional e o “compromisso neocorporativo” eram seus principais recursos políticos. Ao contrário, não é justificável sua dificuldade para compreender o valor progressista do regionalismo econômico e da integração supranacional. Quanto aos comunistas, em particular, deve-se salientar a incapacidade de compreender que a integração européia não era apenas um pilar da guerra fria, mas também um processo que, iniciado neste contexto, tendia a superar a lógica bipolar e a criar um ator político que poderia contribuir para sua superação. Mas já nos anos sessenta os principais partidos operários da Europa Ocidental começaram uma revisão das suas posições em relação ao Mercado Comum Europeu [45]. Nos anos oitenta, a busca de novas respostas à crise do consenso reformista levou ao surgimento de um europeísmo socialista [46]. Entre os partidos comunistas, o mais avançado era o PCI, que, no que se refere a estes temas, seguiu uma parábola análoga à das socialdemocracias, apesar dos limites derivados do caráter contraditório das suas ligações internacionais. E eles foram muito rapidamente evidenciados pelo rápido esgotamento do período do “eurocomunismo” [47].

No curso dos anos oitenta, a resposta européia ao desafio americano aprofundou-se e, com o Ato Único (1986), começou a tomar forma o projeto de uma União política. O tema se tornaria plenamente atual depois de 1989, quando, com o fim da guerra fria, a incorporação da Alemanha Oriental pela Ocidental e o colapso da URSS, surgiram novos problemas acerca da “globalização de mercado” da economia mundial e se apresentou concretamente o problema de unificar o velho continente.

5. Fim da guerra fria e “globalização assimétrica”. O ciclo político dos anos noventa

Voltamos assim ao ponto de partida das nossas reflexões: o ciclo político dos anos noventa, que, depois da vitória de Clinton nas eleições presidenciais de 1992, registrou a vitória das esquerdas não só na maioria dos países europeus, mas também em países importantes da América Latina. Gostaria de tentar dar uma interpretação deste ciclo que, na Europa, teve como protagonista um novo reformismo.

À explosão da globalização dos mercados e ao fim da URSS a Europa Ocidental reagiu com o Tratado de Maastricht (1991) e a decisão de “ampliar” a União aos países da Europa Central e Oriental (e, numa perspectiva a mais longo prazo, também aos Bálcãs, à Turquia e a outros países mediterrâneos). Teve início assim a construção da União política européia e se lançaram as primeiras bases da unificação do velho continente. O objetivo prioritário era criar, com o surgimento de uma moeda única, o espaço econômico indispensável para enfrentar os desafios da “competição global”. Mas a meta da União política é muito mais ambiciosa: com efeito, visa a transformar a Europa num novo ator político global. Nos países europeus, a globalização dos mercados e o processo de Maastricht mudaram o nexo internacional das políticas nacionais e deram origem a novos critérios de agrupamento de forças. O problema que se apresenta às elites nacionais é fazer frente aos novos condicionamentos da economia e da política mundial. A alternativa de fundo refere-se aos modos pelos quais cada país pode participar do processo de integração supranacional e, portanto, à repartição dos custos e dos benefícios entre os diferentes grupos sociais. A visão do interesse nacional torna-se parte integrante da percepção do interesse comum europeu. E tanto um quanto outro são determinados em modos diversos segundo as diferenças de interesses, de culturas e de valores que atravessam a sociedade.

Para tornar mais acessível a argumentação, limitar-me-ei à Itália. O primeiro problema que, no início dos anos noventa, se apresentou era honrar ou não os compromissos assumidos com a assinatura do Tratado de Maastricht [48]. Para isto acontecer, a Itália devia mudar o rumo. Nos quinze anos anteriores, ela fora governada com critérios divergentes daqueles seguidos nas outras grandes democracias européias. Dívida pública, déficit orçamentário, altas taxas de juros, diferencial de inflação, política de gastos, protecionismo econômico, modelo televisivo, atraso dos sistemas de rede e “democracia bloqueada” impediam nosso país de desempenhar o papel que dele se esperava. Logo em seguida à assinatura do Tratado de Maastricht, começaram pressões significativas das instituições européias para que a Itália mudasse as orientações de governo. Além disso, na década anterior, tais orientações produziram uma crescente discrepância entre Norte e Sul do país até o ponto de solapar sua unidade [49].

Em 1992, quem quer que vencesse as eleições se veria diante da necessidade de dar início à convergência com os parâmetros de Maastricht e de propor aos cidadãos “grandes sacrifícios” para sanear a economia. O saneamento podia ser buscado mediante escolhas unilaterais, impostas pelo núcleo exportador dos grupos econômicos muito mais amplos que haviam sustentado a coalizão pentapartidária [*], ou então mediante a promoção de políticas de concertação que redistribuíssem seus custos de modo equânime. Nem as forças de governo nem as de oposição percebiam a questão em jogo. Mas a velha aliança de governo chegara ao fim da linha, uma vez que as forças que a sustentaram estavam divididas pelos novos desafios da integração européia. Depois das eleições, o crescimento da Liga Norte, a explosão de Tangentopoli e as vicissitudes dos movimentos referendários propiciaram um rápido processo de deslegitimação da classe política de governo. Ao mesmo tempo, a Itália foi alcançada por uma crise da moeda que impôs uma pesada desvalorização da lira e o abandono do SME. Enquanto o sistema de partidos se desfazia, formava-se uma nova coalizão de forças e de interesses decididos a guiar o país até a “Europa de Maastricht”. Fato de absoluta relevância, tanto com o governo Amato (1992), quanto com o governo Ciampi (1993), aquelas forças buscaram um entendimento com o movimento sindical e com a oposição de esquerda, pondo fim a uma orientação histórica das classes dirigentes italianas, que jamais haviam reconhecido à esquerda a legitimação para governar. Formava-se, pois, uma coalizão europeísta, que pretendia incluir a esquerda no governo do país. Mas ela não era majoritária e se via combatida por um amplo alinhamento anti-Maastricht, cujo denominador comum era o nacionalismo econômico e cujas orientações ideais também se alimentavam de uma difusa aversão aos valores da modernidade. Por causa dos erros da esquerda, entre 1993 e 1994, estas forças coagularam-se rapidamente e, favorecidas pelos humores “antipolíticos” propagados pelos grupos do establishment que manipularam a “revolução” das Mãos Limpas, recolheram-se em torno de Silvio Berlusconi, sob a bandeira do novo partido por ele fundado no início de 1994. Assim, enquanto a esquerda buscava confusamente uma nova identidade, nascia uma nova direita, populista, plebiscitária, xenófoba e antieuropéia. Ela era heterogênea em termos de interesses e programas; mas, fato único na Europa, revelou uma capacidade extraordinária de agregar um amplo consenso majoritário e venceu as eleições de 1994 [50].

6. Interesse nacional e interesse comum europeu

Com esta realidade teve de haver-se o PDS [Partido Democrático de Esquerda], nascido em 1991 a partir da dissolução do PCI. Em 1992-1993, ele representava quase tudo o que restava da esquerda reformista e foi obrigado, antes de mais nada, a ajustar contas consigo mesmo, uma vez que as bases programáticas sobre as quais surgira eram exíguas e a cultura política da qual se nutria era subalterna e ambígua. Não dispunha de uma análise apropriada das mudanças dos últimos vinte anos e estava permeado de humores maximalistas. Ambos os elementos tornavam-no antes o continuador do PCI dos anos oitenta do que uma força do novo reformismo europeu. Todavia, com a “virada” da Bolognina fora dado o passo decisivo: a parte mais consistente do PCI saíra do estado de menoridade a que a ligação com a URSS o havia condenado e, com a entrada na Internacional Socialista, dispunha pela primeira vez de conexões internacionais mais úteis [**]. Além disso, a dissolução do PCI liberalizara o mercado político, e o PDS estava desafiado a completar sua evolução reformista para poder aspirar ao governo. Com a mudança do seu líder, em 1994, produziu-se uma significativa mudança de estratégia.

A primeira inovação foi introduzida no plano da análise. Tratava-se, antes de tudo, de compreender as razões da derrota. Estas foram sintetizadas na incapacidade de propor um novo “pacto social” que substituísse a velha “aliança dos produtores”, na qual se baseara o consenso da esquerda nos anos do ciclo fordista e da construção do Welfare. Apontou-se como conteúdo deste pacto uma articulação entre as reformas do sistema econômico e a reforma do Estado social, tendo em vista a modernização do país e sua reinserção entre os protagonistas da integração européia. Isto significava dar uma perspectiva política à coalizão de forças europeístas que, a partir de 1992, havia dirigido o país abalado pela crise do velho modelo de desenvolvimento e pelo colapso do sistema de partidos, bem como precisar as alianças que permitissem ao PDS assumir um papel de governo. Aos conteúdos econômico-sociais do “novo pacto” correspondia uma aliança da esquerda reformista com o centro católico-democrático. Por outra parte, um capítulo fundamental da europeização do país era constituído pela reforma do sistema político e pela realização de uma democracia da alternância. Diante de uma direita que assumia as características sumariamente descritas, deviam se unir as forças cujas raízes residiam nas culturas políticas que marcaram a história da República. Em terceiro lugar, o panorama das forças políticas que emergiam delineava o cenário de um bipolarismo de coalizões, e o centro-esquerda, em particular, não podia ser concebido como uma aliança eleitoral entre partidos, mas devia assumir os traços de uma coalizão não passageira, protagonista do desafio em torno do governo. Lançavam-se, assim, as premissas de um “novo reformismo”, uma vez que o modo pelo qual se interpretava o interesse nacional estava estreitamente ligado à perspectiva de um papel destacado da Itália na definição do interesse comum europeu. Por motivos históricos que remontam a todas as vicissitudes do século XX, na última década o intérprete deste reformismo não foi um novo partido, mas uma coalizão não ainda bem definida: a Oliveira. Investigar suas origens, seguir seu percurso e tentar perscrutar seu futuro é o tema que pusemos no centro das páginas que se seguem.

Giuseppe Vacca é presidente da Fundação Intituto Gramsci, em Roma. Este texto é o prólogo do livro Il riformismo italiano — dalla fine della guerra fredda alle sfide future (2006). Foi também publicado em La Insignia.


Notas
[1] N. Bobbio. Destra e sinistra. Roma: Donzelli, 1994.

[2] P. Nenni. Intervista sul socialismo italiano. Roma-Bari: Laterza, 1977.

[3] D. Sassoon. Cent’anni di socialismo. Roma: Riuniti, 1997.

[4] C.S. Maier. Alla ricerca della stabilità. Bolonha: Il Mulino, 2003.

[5] P. Togliatti. Sul fascismo. Introdução de G. Vacca. Roma-Bari: Laterza, 2004.

[6] R. Boyer – J. Mistral. “Le temp present: la crise”. Annales, 1983.

[7] G.E. Rusconi. La crisi di Weimar. Turim: Einaudi, 1977.

[8] M. Telò. La socialdemocrazia europea negli anni Trenta. Milão: Franco Angeli, 1985; Leonardo Paggi (Org.). Americanismo e riformismo. La socialdemocrazia nell’economia mondiale aperta. Turim: Einaudi, 1989.

[9] W. Korpi. Il compromesso svedese. Bari: De Donato, 1982.

[10] R. Boyer – J. Mistral. Accumulazione, inflazione, crisi. Bolonha: Il Mulino, 1985.

[11] K. Polanyi. La grande trasformazione. Turim: Einaudi, 1974.

[12] G. Caredda. Il Fronte Popolare in Francia 1934-1938. Turim: Einaudi, 1977; I. Ramone. La socialdemocrazia europea fra le due guerre. Dall’organizzazione della pace alla resistenza al fascismo (1923-1936). Roma: Carocci, 1999.

[13] S. Merli. Fronte antifascista e politica di classe. Socialisti e comunisti in Italia 1923-1939. Roma-Bari: Laterza, 1975.

[14] G. Vacca. “La lezione del fascismo”. Introdução a P. Togliatti. Sul fascismo, cit.

[15] F. De Felice. Fascismo, Democrazia, Fronte Popolare. Bari: De Donato, 1973; S. Pons. Stalin e la guerra inevitabile 1936-1941. Turim: Einaudi, 1995.

[16] G. Vacca. Gramsci e Togliatti. Roma: Riuniti, 1991; Id. Appuntamenti con Gramsci. Roma: Carocci, 1999.

[17] M. Vaudagna (Org.). Il New Deal. Bolonha: Il Mulino, 1981.

[18] J.L. Harper. L’America e la ricostruzione dell’Italia 1945-1948. Bolonha: Il Mulino, 1987.

[19] V. Mastny. Il dittatore insicuro. Milão: Corbaccio, 1998.

[20] S. Pons. Stalin e la guerra inevitabile 1936-1941, cit.

[21] Id. L’impossibile egemonia. L’Urss, il Pci e le origini della guerra fredda (1943-1948). Roma: Carocci, 1999; E. Zubkova. Quando c’era Stalin. Bolonha: Il Mulino, 2003.

[22] F. Gori e S. Pons (Orgs.). The Soviet Union and Europe in the Cold War 1943-1953. Londres: Mc Millan, 1996.

[23] C.S. Maier. Alla ricerca della stabilità, cit.

[24] B. Olivi. L’Europa difficile. Bolonha: Il Mulino, 1993.

[25] M. Telò. L’Europa potenza civile. Roma-Bari: Laterza, 2004.

[26] G. Vacca. Pensare il mondo nuovo. Milão: San Paolo, 1994.

[27] R. Gilpin. Politica ed economia delle relazioni internazionali. Bolonha: Il Mulino, 1990.

[28] A. Milward. The European Rescue of the Nation-State. Londres: Rowtledge, 1993.

[29] H. Van Der Wee. L’economia mondiale tra crisi e benessere (1945-1980). Milão: Hoepli, 1989.

[30] L. Paggi – M. D’Angelillo. I comunisti italiani e il riformismo. Un confronto con le socialdemocrazie europee. Turim: Einaudi, 1986.

[31] P. Spriano. Storia del Pci. Turim: Einaudi, 1975, v. 5; G. Vacca. Gramsci e Togliatti, cit.; R. Gualtieri. Togliatti e la politica estera italiana. Dalla Resistenza al Trattato di pace 1943-1947. Roma: Riuniti, 1995; S. Pons. L’impossibile egemonia, cit.

[32] A. Ventrone. La cittadinanza repubblicana. Forma-partito e identità nazionale alle origini della democrazia italiana (1943-1948). Bolonha: Il Mulino, 1996; G. Gozzini – R. Martinelli. Storia del Pci. Dall’attentato a Togliatti all’VIII Congresso. Turim: Einaudi, 1998; S. Gundle. I comunisti italiani tra Hollywood e Mosca. La sfida della cultura di massa (1943-1991). Firenze: Giunti, 1995; G. Vacca. Vent’anni dopo. La sinistra fra mutamenti e revisioni. Turim: Einaudi, 1993.

[33] R. Gualtieri (Org.). Il Pci nell’Italia repubblicana. Roma: Carocci, 2001.

[34] G. Vacca. Gramsci e Togliatti, cit.

[35] F. De Felice. “Doppia lealtà e doppio Stato”. Studi storici, 1989, n. 3; agora em Id. La questione della nazione repubblicana. Roma-Bari: Laterza, 1999; S. Pons. L’impossibile egemonia, cit.

[36] G. Vacca. Gramsci e Togliatti, cit.; F. Barca (Org.). Storia del capitalismo italiano dal dopoguerra a oggi. Roma: Donzelli, 1997; Y. Voulgaris. L’Italia del centro-sinistra. 1960-1968. Roma: Carocci, 1998; G. Vacca. Riformismo vecchio e nuovo. Turim: Einaudi, 2001.

[37] M. Aglietta. Régulation et crises du capitalisme. L’expérience des État-Unis. Paris: Calman-Lévy, 1976.

[38] R. Parboni. Il conflitto economico mondiale. Milão: Etas Libri, 1985; L. Thurow. Testa a testa. Usa Europa Giappone. La battaglia per la supremazia economica nel mondo. Milão: Mondadori, 1992; P.L. Ciocca. L’economia mondiale nel Novecento. Bolonha: Il Mulino, 1998.

[39] M. Pianta. Stati Uniti: il declino di un impero tecnologico. Roma: Lavoro, 1988.

[40] G. Vacca. L’informazione negli anni Ottanta. Roma: Riuniti, 1983.

[41] R. Parboni. “Il dollaro e l’economia mondiale”. In: A. Graziani (Org.). Il dollaro e l’economia italiana. Bolonha: Il Mulino, 1987; M. De Cecco. “I possibili volti del nuovo ordine economico internazionale”. In: S. Romano (Org.). L’impero riluttante. Gli Stati Uniti nella società internazionale dopo il 1989. Bolonha: Il Mulino, 1992.

[42] J. O’Connor. La crisi fiscale dello Stato. Turim: Einaudi, 1977.

[43] B. Olivi. L’Europa difficile, cit.

[44] M. Telò. Tradizione socialista e progetto europeo. Roma: Riuniti, 1988.

[45] M. Maggiorani. L’Europa degli altri. Roma: Carocci, 1998.

[46] G. Vacca. Vent’anni dopo. La sinistra fra mutamenti e revisioni, cit.

[47] P. Borioni (Org.). Revisionismo socialista e rinnovamento liberale. Il riformismo nell’Europa degli anni Ottanta. Roma: Carocci, 2001; R. Gualtieri (Org.). Il Pci nell’Italia repubblicana, cit.; S. Pons. “Berlinguer e la riforma del comunismo”. Italianieuropei, 2004, n. 3.

[48] G. Carli. Cinquant’anni di vita italiana. Roma-Bari: Laterza, 1996.

[49] G. Bodo – G. Viesti. La grande svolta. Il Mezzogiorno nell’Italia degli anni Novanta. Roma: Donzelli, 1997.

[*] No período final da “Primeira República”, entre 1980 e 1992, os governos italianos compunham-se de uma coalizão de cinco partidos: a DC, o PSI e três agremiações menores, que reuniam socialdemocratas, republicanos e liberais (PSDI, PRI e PLI). O “pentapartido” conclui-se com o conjunto de investigações e procedimentos judiciais conhecido como Operação Mãos Limpas, que desvenda a Tangentopoli, gigantesco sistema de corrupção incrustado no sistema de poder democrata-cristão e socialista. [N. do T.]

[50] G. Vacca. Per una nuova Costituente. Milão: Bompiani, 1996.

[**] Em 12 de novembro de 1989, três dias após a queda do Muro de Berlim, Achille Occhetto, então secretário-geral do PCI, reúne-se com alguns velhos combatentes da Resistência na seção da Bolognina, um bairro popular de Bolonha, e anuncia a intenção de dar início ao debate que levaria à dissolução do PCI e à fundação do PDS dois anos mais tarde. No contexto desta transformação, uma corrente minoritária daria origem à Refundação Comunista. Em 1994, Occhetto seria substituído por Massimo D’Alema à frente do PDS. [N. do T.]