domingo, 21 de março de 2010

Reflexão do dia – Fernando Mota Lima

Mas que posso eu escrever do Gildo militante político? Deixo isso a cargo de Marco Antonio Coelho, Luiz Sérgio Henriques, Marco Aurélio Nogueira, Carlos Nelson Coutinho e tantos outros que bravamente lutaram em tempos sombrios, novamente evocando Hannah Arendt, ou ainda in dark times, como escreveu no original. A luta destes e tantos outros não consistiu apenas em manter vivo o comunismo sob a ditadura, mas sobretudo em renová-lo democraticamente.

(Fernando Mota Lima, professor da Universidade Federal de Pernambuco, no artigo, “Gildo, memória e perda”, em Gramsci e o Brasil)

Crise no FMI:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

Uma crise diplomática de amplas proporções para o governo da Colombia, e que o governo brasileiro procura reduzir a uma simples questão administrativa, se desenrola nos bastidores do Fundo Monetário Internacional (FMI), acrescentando mais um contencioso nas relações com países da América do Sul governados por políticos conservadores, como o Chile, onde o presidente Lula não foi para a posse de Piñera, ou o Peru de Alan Garcia.

O economista Paulo Nogueira Batista Junior, diretor executivo do FMI em Washington, demitiu recentemente a economista colombiana Maria Inês Agudelo do cargo de Diretora-Substituta.

O Brasil representa diversos países no FMI, como a Colômbia, República Dominicana, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, Suriname e Trindade e Tobago, mas a Colombia alega que a economista, ex-vice ministra das Finanças, ocupava um posto que era de representação do país, e não poderia ser demitida.

Oficialmente, não há uma explicação, e ao ser procurado Paulo Nogueira não quis falar, alegando se tratar de assunto administrativo interno, e por avaliar que, ao falar sobre o tema em público, poderia ser indelicado com pessoas envolvidas.

María Inés Agudelo, também não quis se pronunciar. Mas nos bastidores do FMI, as versões correm soltas, alimentando um clima de crise política entre os governos do Brasil e Colombia.

Os colombianos fizeram protestos formais junto ao governo brasileiro e atribuem informalmente a demissão às posições políticas de Paulo Nogueira, que seria ligado à ala esquerda mais radical do governo Lula, interessada em boicotar o governo conservador de Uribe, tirando-lhe poder nos organismos internacionais.

O fato de que Paulo Nogueira pediu a substituição de Maria Ines Agudelo por outro representante colombiano, alegado pelo governo brasileiro como prova de que se trata apenas de uma questão adminstrativa, é entendido pelo governo colombiano como tentativa de rebaixar sua representação, tornando-a subordinada ao diretor-executivo brasileiro.

O governo brasileiro alega que a Colombia sempre elogiou a atuação do diretor-executivo Paulo Nogueira no FMI, e ressalta que foi com seu apoio que a entidade criou linhas alternativas de crédito mais flexíveis na crise de 2008, que ajudaram a Colômbia.

O governo brasileiro procura retirar do episódio qualquer tom ideológico, mas atribui a politização do caso pelo governo Uribe a uma insatisfação com o fato de o governo brasileiro não querer apoiar a reeleição do Presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o colombiano Luis Alberto Moreno.

Mais uma vez, as críticas de autoridades brasileiras à atuação do BID ganham, na visão da Colombia, cores ideológicas, enquanto da parte brasileira são tidas como posições meramente técnicas.

Há na origem da eleição de Moreno para o BID um fator político importante: ele venceu a eleição em 2005 derrotando o candidato do governo brasileiro João Sayad, que tinha o apoio argentino, mas só recebeu 11 dos 48 votos dos países-membros da instituição.

Moreno foi eleito com o apoio do governo Bush, pois os Estados Unidos têm a maior participação no banco. Hoje, no entanto, a situação é distinta, pois a nova administração Obama também estaria insatisfeita com a atuação do BID durante a crise financeira internacional.

O Ministro da Fazenda, Guido Mantega, é um dos mais ácidos críticos da gestão de Moreno, e recentemente disse claramente que era preciso "uma nova gestão mais eficaz em benefício da região".

Uma das queixas maiores é quanto ao custo dos empréstimos do BID, que não seriam compatíveis com a situação financeira da América Latina.

Seja por questões ideológicas, seja por questões meramente técnicas, o fato é que o governo brasileiro está negociando desde o ano passado a apresentação de uma candidatura alternativa para a sucessão de Moreno, em outubro deste ano.

E procura uma parceria com os Estados Unidos, que a Colombia também busca. Uma das consequências dessa crise atual gerada pela demissão da diretora colombiana é que a Colombia se recusa a ser representada pelo Brasil daqui por diante no FMI, o que provocará uma mudança de procedimentos.

O governo brasileiro acha que a Colombia quer mesmo é ficar sob a representação dos Estados Unidos no FMI, o que aumentaria a já estreita ligação entre os dois países nos organismos internacionais, e dificultaria qualquer ação americana contrária, que setores da administracão Obama já defendem.

O governo colombiano acha que o governo brasileiro o discrimina justamente por essa proximidade com os Estados Unidos.

O governo brasileiro, que já perdeu outras indicações para organismos internacionais como na Unesco, quando apoiou o egipcio Farouk Hosni, acusado de anti-semitismo, que perdeu para a búlgara Irina Bukova; ou quando tentou a indicação de Luís Felipe de Seixas Corrêa na Organização Mundial do Comércio (OMC), tenta agora montar novamente uma candidatura para o BID.

Diversos nomes estão sendo cogitados, todos a nível de ministro de Estado, entre eles o do Planejamento, Paulo Bernardo, e o da Fazenda, Guido Mantega, além do ex-ministro da Fazenda Antonioo Palocci, o que só faz aumentar nos colombianos a sensação de que estão sendo vítimas de uma grande armação política brasileira para esvaziar sua presença nos organismos internacionais.

Bicos calados:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Depois de proclamar com entusiasmo durante os últimos dois anos a invencibilidade da chamada chapa-puro sangue com José Serra como candidato a presidente e Aécio Neves de vice, o PSDB reconhece que errou feio.

Precipitou-se ao comemorar como realidade algo que era apenas uma possibilidade. Real e com muita chance de se concretizar, até pela força da lógica de se unir os dois maiores colégios eleitorais do Brasil, São Paulo e Minas Gerais.

Mas não contava com um dado: a escolha do candidato a vice se sobrepor em importância à candidatura presidencial. E pior, não dando certo ficar a impressão do fracasso, da impossibilidade do cabeça da chapa competir com chance de vitória.

Feita a autocrítica, a ordem geral é bico calado sobre a escolha do vice de Serra. Seja ele Aécio Neves ou qualquer outro. Sim, porque ainda reina na nação tucana a esperança - agora oficial e estrategicamente negada - de retomada do plano original.

Os mais inconformados com a ordem unida ainda falam no assunto. Dizem que a última declaração de Aécio falando que a decisão "depende do Serra e do partido" soa a uma reconsideração da recusa.

Os mais disciplinados - não por coincidência todos residentes nas proximidades do governador já quase candidato oficial - juram por nossa senhora do bandeirantes que vice é assunto fora da agenda.

Serra diz que pensará no assunto em maio.

Os mais normais preferem não contrariar o bom senso. Informam que o partido examina possibilidades enquanto aguarda uma decisão de Aécio que, segundo eles, dependerá da avaliação que ele fizer da conveniência ou não da candidatura a vice para o sucesso da eleição do sucessor em Minas.

O governador sai do cargo dia 2 de abril, participa do lançamento da candidatura de Serra no dia 10 e depois sai em viagem de 30 dias para o exterior. A volta coincide com o mês de maio citado por Serra.

Enquanto isso grassa a especulação. Mediante critérios do que seria um bom vice. Primeiro que não tire votos, não atrapalhe. Segundo, partido que acrescente ou subtraia do adversário. Terceiro que seja de uma região ou estado eleitoralmente significativos.

A premissa é se a solução será interna ou externa. Se for interna, o que se fala hoje como possibilidade é em Beto Richa, do Paraná, que implicaria a troca do candidato a governador por Osmar Dias, do PDT. Talvez Sérgio Guerra, de Pernambuco.

Do mesmo estado, aventa-se a possibilidade de Roberto Freire, do PPS, ou Francisco Dornelles, do PP. Este, mineiro, eleito senador pelo Rio, tio de Aécio, mataria dois coelhos, mas esbarra na dificuldade de pertencer a um partido aliado de Lula.

E o DEM? Pois é, uma dificuldade. O partido quer, mas há os critérios no meio do caminho.

Peso médio. É relativa a importância da multa de R$ 5 mil aplicada ao presidente Lula pela Justiça Eleitoral. Em 2006 ele foi condenado apagar R$ 900 mil por causa da edição de uma cartilha considerada propaganda eleitoral e até hoje a multa é contestada na Justiça.

Referencial. O ministro-chefe da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, considera "fundamental" para a democracia o controle do Estado sobre os meios de comunicação.

"Esse quarto poder tem que entrar na roda do sistema de controles recíprocos", defende. Ressalva o cerceamento de liberdades, como o existente em Cuba.

A reciprocidade a que alude é de mão única, pois a proposta é que se estabeleça um rol do que pode ou não ser divulgado.

Repudia o modelo, mas toma como parâmetro o regime cubano, no lugar de adotar como referência países onde a regra é a liberdade de expressão como conceito absoluto, preservados os direitos garantidos em leis às quais todos estão submetidos, inclusive a imprensa.

Ademais, não parece que as imperfeições da democracia brasileira sejam decorrentes da liberdade. Antes, ao contrário. Fundamental para o aprimoramento do regime nesses 25 anos de retomada democrática foi justamente a possibilidade de escolha do exercício da independência.

Sérgio Sampaio - Eu quero é botar meu bloco na rua

31 de março:: Eliane Cantanhêde

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Ao que tudo indica, teremos um 31 de março da pesada.

Além de já naturalmente tensa, por marcar o golpe militar e abrir a brecha para "recados" de oficiais, a data vem chegando neste ano sob a tensão entre as Forças Armadas e a área de Direitos Humanos por causa do 3º PNDH e da criação da Comissão da Verdade para apurar torturas, desaparecimentos e mortes durante a ditadura.

No dia 31, Dilma Rousseff (chamada de "ex-guerrilheira" por setores fardados) sai do governo para a campanha, e o general de Exército Maynard Marques de Santa Rosa sai da ativa para a reserva.

Ele foi afastado do Departamento Geral de Pessoal do Exército, depois que a Folha publicou trechos de uma carta dele chamando a Comissão da Verdade de "comissão de calúnias", cheia de "fanáticos que, no passado recente, adotaram o terrorismo, o sequestro de inocentes e o assalto a bancos". Adivinha a quem se referia?

Colocado de escanteio pelo ministro Nelson Jobim, ficou calado.

Passando para a reserva, vai abrir a boca? A resposta virá no dia 31, que neste ano será embrulhado no tema dos direitos humanos. Há reações tanto à nova versão do PNDH quanto ao desdém de Lula pelos dissidentes em Cuba. É como se ele escrevesse uma coisa aqui e fizesse outra lá, ao sabor das conveniências políticas e ideológicas.

Justiça seja feita: depois do cerco da Igreja, dos ruralistas, dos militares, do setor de comunicação e dos ministérios da Defesa e da Agricultura, o ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, que não é nenhum xiita, vem lapidando cuidadosamente o 3º PNDH para que o diamante bruto, que visava o futuro, possa caber no presente.

Se Lula orientou Vannuchi para ouvir e rever, que os comandantes militares também controlem seus subordinados, como convém. Vale hoje o mesmo equilíbrio proposto na distensão: "Você segura os seus radicais que eu seguro os meus".

Serra aponta seu problema:: Clóvis Rossi

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

PARIS - Ao assumir sua candidatura à Presidência com aquele jeito José Serra de ser, o governador paulista disse o seguinte: "O Lula fez dois mandatos, está terminando bem o governo. O que nós queremos para o Brasil? Que continue bem e até melhore".

Em três frases, Serra conseguiu, ao mesmo tempo, ser honesto na avaliação do governo do adversário, ser também óbvio e, por fim, definiu a imensa dificuldade que terá para vencer a disputa.

De fato, é muito difícil encontrar quem ache que Lula está terminando mal o governo.

Mas uma das principais características do mundo político é a oposição negar-se sempre a reconhecer os fatos quando os fatos são favoráveis ao governo. Serra não caiu nessa tentação.

O problema é o item seguinte, a torcida para que o Brasil "continue bem e até melhore".

É o óbvio. Salvo um ou outro tarado, não há nunca quem não queira que o país melhore. O problema para Serra será provar que ele é a pessoa indicada para fazer o Brasil melhorar.

Imagino que a massa de eleitores se fará a seguinte pergunta: se está bem com Lula, como admite até o candidato a candidato da oposição, para que mudar?

A resposta de Serra será (ou foi) esta: "Pesam as ideias, as propostas e o passado, o que cada um fez, como foi provado na vida pública".

Pode até ser que tais fatores pesem. Mas pouco. Vamos ser sinceros: ideias e propostas servem para debate entre especialistas. A massa é guiada pela emoção e/ou pelo sentimento pessoal de cada qual. E o sentimento predominante, repito, é o tal "feel good factor", o sentir-se bem que predomina na população/eleitorado.

Passado conta? Talvez. Mas pode contar contra também. Afinal, todas as pesquisas mostram que a maioria do eleitorado está hoje mais contente do que quando Serra fazia parte do governo.

País tem 16 milhões de eleitores ''duas caras''

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Declaração de voto não condiz com posicionamento em relação ao presidente

Daniel Bramatti

A mais recente pesquisa do Ibope sobre a sucessão presidencial revela que cerca de 12,5% dos eleitores se apresentam com "duas caras" ao manifestar a intenção de voto. Eles são os que querem eleger a pessoa apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas citam José Serra como seu candidato favorito. Ou os que preferem alguém da oposição, mas se dizem inclinados a votar na petista Dilma Rousseff.

Essas declarações de voto paradoxais e incoerentes revelam um alto nível de desinformação e de desinteresse na eleição, segundo Márcia Cavallari, diretora executiva do Ibope.

O levantamento do instituto, divulgado na última quarta-feira, mostra que a maioria absoluta dos eleitores (53%) quer votar no candidato apoiado por Lula. Mas apenas metade desse contingente aponta Dilma como sua candidata preferida, e um quarto - ou 12% do eleitorado total - cita Serra, ignorando o fato de que ele será o principal nome da oposição na disputa.

São quase 16 milhões de eleitores que, até a eleição, terão de se posicionar de maneira coerente: ou abandonarão o barco governista ou votarão na candidata efetivamente apoiada pelo presidente, conforme sua intenção declarada.

Oposicionistas. No outro extremo, os eleitores que querem um candidato de oposição abrangem 10% do total. Nesse grupo, o nível de desinformação é bem menor: apenas 3% - cerca de 400 mil pessoas -afirmam votar em Dilma e sete em cada dez apontam Serra como seu candidato preferido.

No geral, a pesquisa mostrou o tucano na liderança, com 35% das intenções de voto, e Dilma em segundo, com 30%. Os cruzamentos de dados mostram que a petista é, neste momento, a mais prejudicada pela desinformação dos eleitores, e a que mais tem a ganhar à medida que sua associação com Lula ficar clara para a totalidade da população, afirmou Márcia Cavallari.

"A eleição não está na ordem do dia para grande parte dos brasileiros", disse a diretora do Ibope. "Isso tende a mudar após a Copa do Mundo e, principalmente, com o início do horário eleitoral gratuito." Em pesquisa feita pelo instituto em fevereiro, 47% disseram acompanhar as eleições com "pouco interesse" ou "nenhum interesse".

A maior evidência do nível de desinformação é a pesquisa espontânea, na qual os entrevistados manifestam sua preferência antes de consultar o cartão que traz a lista de candidatos. No início de março, apenas um terço do eleitorado foi capaz de citar um presidenciável que, de fato, está no páreo em 2010. Nada menos que 42% não souberam responder à pergunta sobre seu candidato preferido. E 20% optaram por Lula, que nãopode concorrer a um terceiro mandato.

Continuísmo. Bem informados ou não sobre a sucessão, os eleitores não vacilam ao manifestar o que esperam do futuro. Na pesquisa de fevereiro, o Ibope perguntou aos entrevistados se o próximo presidente deve promover muitas ou poucas mudanças no governo. A manifestação por “total continuidade" em relação ao governo atual ficou em primeiro lugar, com 34% das respostas. Outros 29% pediram "poucas mudanças e continuidade para muita coisa". Os que optaram por "muitas mudanças" ou “mudança total no governo" chegaram a 35% dos entrevistados.

Entre os nordestinos, 77% se manifestaram por "total" ou "muita” continuidade. O Nordeste, onde o governo Lula tem seus maiores índices de aprovação, é a única região em que Dilma lidera a corrida presidencial de forma isolada.

A última pesquisa Ibope ouviu 2002 eleitores entre os dias 6 e 10 de março de 2010. O levantamento, encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo 5429/2010.

Polarização perde espaço nos Estados

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

PT e PSDB abrem mão de candidaturas próprias em busca do apoio de aliados para fortalecer palanque de Dilma e Serra

Luciana Nunes Leal
RIO - Na contramão da polarização nacional entre PSDB e PT, em pelo menos cinco Estados nenhum dos dois partidos será protagonista na eleição para governador. Na maioria dos casos, petistas e tucanos estão fora da disputa local para facilitar acordos em torno das candidaturas da ministra Dilma Rousseff (PT) e do governador José Serra (PSDB) à Presidência da República.

PT e PSDB não terão candidatos aos governos do Rio de Janeiro, de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, do Maranhão e do Amazonas. Nesses Estados, os partidos mais competitivos são PMDB, DEM, PV, PSB, PC do B, PDT e PMN. Na Paraíba, o PSDB está dividido entre a coligação com o PSB e a candidatura própria. O senador tucano Cícero Lucena lançou-se candidato contra socialistas e peemedebistas, mas sofre pressão de parte da legenda para desistir.

Reportagem do Estado publicada no início do mês mostrou que o confronto direto entre petistas e tucanos deverá acontecer em apenas dez dos 26 Estados. Em São Paulo, a candidatura petista ao governo só avançou nos últimos dias, depois que o deputado Ciro Gomes (PSB), que pretende disputar a Presidência, mas era uma opção ao governo paulista, criticou o PT estadual e acabou dando força à pré-candidatura do senador Aloizio Mercadante.

"PT e PSDB nasceram em São Paulo e lá essa oposição tem se reproduzido muito. São fortes em São Paulo, mas já não têm essa importância em outros Estados, que têm características próprias. O modelo de São Paulo não se reproduz no resto do País", diz o pré-candidato do PV ao governo do Rio, deputado Fernando Gabeira. O parlamentar, que apoia a senadora Marina Silva para a Presidência, vai disputar aliado ao PSDB, ao DEM e ao PPS. Enfrentará o governador Sérgio Cabral (PMDB), candidato à reeleição.

Aliado. No Rio, o PT só abandonou a possibilidade de lançar candidatura própria depois que a ala contrária à ideia venceu a eleição para o comando estadual do partido. Antes disso, o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, insistia na disputa com Cabral. Agora, é aliado do governador. Um terceiro candidato ao governo fluminense é o ex-governador Anthony Garotinho (PR).

No Maranhão, o PT também não terá candidato próprio, mas ainda nãoformalizou o apoio à reeleição da governadora Roseana Sarney (PMDB), defendido pela direção nacional do partido como parte da estratégia para fortalecer a aliança entre petistas e peemedebistas na sucessão presidencial. Já o PSDB negocia o apoio ao PDT do ex-governador Jackson Lago, apesar de, no plano nacional, os pedetistas apoiarem a ministra Dilma. Em troca, Lago ofereceria seu palanque ao tucano José Serra.

Outro pré-candidato na eleição maranhense é o deputado Flávio Dino (PC do B). "Até pelo tamanho do País, o jogo é multifacetado. As forças dominantes fazem concessões para formar a aliança nacional. É muito complicado PT e PSDB transferirem a disputa (presidencial) para os Estados. Só se houvesse verticalização", afirma Dino, referindo-se à regra que obrigava os Estados a reproduzirem as alianças nacionais, masque teve vida curta.

Em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, Estados governados pelo PSB, o PT manterá o apoio aos socialistas, apesar de alguns grupos petistas terem tentado o lançamento de candidatura própria, em retaliação à insistência de Ciro Gomes em disputar a Presidência da República. "O PT só tem um lado nesse Estado", disse, na semana passada, o presidente do partido no Rio Grande do Norte, Eraldo Paiva. Lá, os petistas estarão com o vice-governador Iberê Ferreira de Souza (PSB), que enfrentará o DEM da senadora Rosalba Ciarlini e o PDT do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves.

Em Pernambuco, a aliança do PT é com o governador Eduardo Campos (PSB) e a oposição trabalha para lançar o ex-governador Jarbas Vasconcelos (PMDB), em aliança com o PSDB e o DEM.

O pequeno PMN disputa, com chance de vitória, o governo do Amazonas, com o vice-governador Omar Aziz. Os outros partidos na disputa deverão ser o PR do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, e o PSB do ex-prefeito Serafim Corrêa. O PT ainda não definiu a aliança no Estado e o PSDB deverá se aliar aos socialistas.

Candidato confesso

DEU NA REVISTA VEJA

Apertado em um programa de TV, o governador de São Paulo, José Serra, admite que será o candidato do PSDB a presidente da República

Felipe Patury e Fábio Portela

Em entrevista, José Luiz Datena parabeniza Serra e o tucano fala sobre sua candidatura ao Planalto


Na última sexta-feira, o governador de São Paulo, José Serra, admitiu em público pela primeira vez que será candidato à Presidência da República pelo PSDB. O anúncio não ocorreu com a pompa e a solenidade que seus aliados e adversários esperavam, mas em uma simples entrevista concedida ao apresentador José Luiz Datena, da Band. Serra pretendia falar sobre um projeto na área de saúde.

A conversa tomou outro rumo. Ele recebeu parabéns por seu aniversário e, ao ser questionado sobre a data em que deveria lançar seu nome, respondeu: "No início de abril". O jornalista ainda conferiu: "Está definido, então?". O tucano confirmou: "Está". A candidatura de Serra era um segredo de polichinelo. Ainda assim, a revelação surpreendeu até seus colaboradores mais próximos.

Eles esperavam que Serra emitisse declarações cada vez mais claras sobre sua intenção de concorrer ao Palácio do Planalto. A senha nesse sentido foi dada no início do mês, durante as comemorações do aniversário de 100 anos do presidente Tancredo Neves.

Na oportunidade, Serra garantiu à cúpula do partido que disputará a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. A partir daí, deveria fazer afirmações semelhantes para círculos cada vez menos restritos. Deveria, no entanto, evitar manifestações públicas, que poderiam esvaziar o lançamento formal de sua campanha, em 10 de abril.

Tão convencido estava da decisão de disputar a Presidência e da correção de sua estratégia que Serra acabou se traindo. "Não disse nada de novo", ponderou o governador, declarando-se surpreso com a repercussão da entrevista. "Ele guardou isso por tanto tempo que acabou saindo", avaliou um de seus amigos. O deslize verbal não deverá, porém, alterar o calendário tucano. Na semana passada, Serra tomou novas decisões sobre a cerimônia.

Aprovou, por exemplo, o horário (de manhã) e o local (Brasil 21 Centro de Eventos e Convenções, em Brasília) em que ela ocorrerá. Também incumbiu o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, e seu secretário executivo, Sérgio Silva, de contratar as empresas que vão organizá-la. Empenhou-se em eliminar possíveis focos de conflito em sua equipe de campanha. Uma das preocupações atuais de Serra é convencer a agremiação de que o mais indicado para chefiar sua área de comunicação é o marqueteiro Luiz González, que o ajudou a conquistar a prefeitura de São Paulo, em 2004, e o governo do estado, em 2006. Alguns dos líderes do PSDB têm restrições a González porque, também em 2006, ele coordenou a campanha fracassada a presidente da República do tucano Geraldo Alckmin. Mas Serra não só gosta do marqueteiro como confia nele e está certo de que não há ninguém melhor para a tarefa.

A principal preocupação do tucano é outra. O governador paulista quer chegar ao dia do lançamento oficial de sua candidatura com o maior número de apoios possível. Por isso, orienta e acompanha passo a passo as negociações que Sérgio Guerra conduz com partidos que poderão integrar a sua coalizão. Já tem garantido o apoio do DEM e do PPS. Gostaria de concluir ainda neste mês os entendimentos com o PTB e o PSC. Tenta também seduzir o PP e angariar mais apoio com o PMDB e o PDT, que já prometeram se perfilar com a petista Dilma Rousseff. O grupo de Serra crê que a conquista desses apoios seria não apenas uma demonstração de força, mas também poderia ter impacto nas próximas pesquisas eleitorais.

No levantamento do Ibope divulgado na semana passada, Serra aparece com 35 pontos porcen-tuais, enquanto Dilma fica em 30 pontos. Para os analistas tucanos, um lançamento eficiente da campanha, com bom aproveitamento dos veículos de comunicação, poderia elevar essa diferença de 5 para 8 pontos porcentuais. Resta saber se a declaração fora de lugar e de hora feita na sexta-feira pode atrapalhar a repercussão do evento marcado para o dia 10 de abril, que disputará espaço nos veículos de comunicação com uma agenda de obras e lançamentos programados pelo governo para promover Dilma. Ainda neste mês, ela deve lançar uma versão recauchutada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2) e outra do plano habitacional Minha Casa, Minha Vida. Teleguiada pela equipe de marketing, Dilma certamente não fará isso em um programa policial.

O degelo das ideologias:: Yoshiaki Nakano

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Pelo resultado da última reunião, o BC parece começar a se libertar da cegueira imposta pela ortodoxia

O colapso do bloco soviético escancarou o fracasso do planejamento central e acabou com o seu mito. A queda do Muro de Berlim, em 1989, marcou o fim da ideologia do socialismo autoritário abraçado pelas esquerdas e, desde então, passou a prevalecer o outro extremo conservador com o mito do mercado livre, eficiente e que se autorregula. A grande crise e o colapso do sistema financeiro nos EUA e na Europa, em 2008, tornaram a intervenção maciça do Estado uma necessidade absoluta, marcando o fim dessa ideologia neoliberal.

Com o degelo das duas ideologias e a destruição de dois mitos poderosos, o planejamento central e o mercado livre e eficiente, abre-se neste início de década um período que deverá ser muito fértil para a revisão de todo o pensamento econômico com grande liberdade de pensar e abrindo espaço para posições mais pragmáticas e livres dos grilhões das ideologias e dos mitos.

As consequências desse degelo das grandes ideologias terão enorme repercussão. No Brasil, sabidamente a partir da década de 90, a opinião pública foi dominada pelo pensamento neoliberal. As políticas públicas passaram a ser formuladas com base na perspectiva de que, quanto menos Estado, melhor.

Mas os setores que abraçaram o neoliberalismo no Brasil, aliando-se politicamente aos conservadores, não levaram até as últimas consequências a destruição do Estado. Retirou-se da função-objetivo do Estado a promoção do desenvolvimento econômico e mesmo a geração de emprego. Destruiu-se a capacitação técnica de pensar e planejar a longo prazo e, estrategicamente, o futuro do país, supostamente um segmento dominado pelas esquerdas intervencionistas, e manteve-se intacto dentro do Estado o atraso: o segmento patrimonialista, clientelista e burocrático. Paradoxalmente, o neoliberalismo brasileiro impõe uma carga tributária e um imenso custo Brasil que sufocam o mercado.

Agora, abre-se um período de reflexão sem os mitos e dogmas do livre mercado que cerceavam o livre pensar, estabeleciam os limites do que pessoas sérias e respeitáveis poderiam falar. Falar em desenvolvimento econômico deixou de ser assunto de economista desocupado, como censurava um ministro do governo anterior. A política macroeconômica está incorporando o crescimento e a geração de emprego como seus principais objetivos. Controlar o fluxo de capitais e administrar a taxa de câmbio está deixando de ser uma obscenidade. Deficit público para fazer política anticíclica tem o apoio de todos. O Banco Central, pelo resultado da última reunião do Copom, parece começar a se libertar da cegueira imposta pelo pensamento ortodoxo. Com isso, abre-se a possibilidade de nos livrarmos da taxa de juros mais alta do mundo e da taxa de câmbio apreciada que está desindustrializando e transferindo empregos para o exterior.

Em suma, o Brasil está se libertando dos grilhões e da cegueira imposta pelo pensamento dominante no último quarto de século. Com isso, caminhamos para maior pragmatismo e convergência de pensamento, com perspectivas de retomarmos o projeto nacional de desenvolvimento, interrompido em 1980.

Yoshiaki Nakano, 65, diretor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV (Fundação Getulio Vargas), foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Mario Covas (1995-2001).

A pouca realidade 2:: Ferreira Gullar

ILUSTRADA/ FOLHA DE S. PAULO

A arte contemporânea caracteriza-se não por reinventar a realidade e, sim, mostrá-la

Na crônica aqui publicada no dia 7 deste mês, disse que a próxima Bienal de São Paulo teria o propósito de nos mostrar aspectos da realidade política e social, por meio de filmes, vídeos e fotografias, conforme li na imprensa. Pareceu-me que, com isso, a Bienal se inseria na tendência chamada arte contemporânea de nos mostrar a realidade em lugar de recriá-la ou transfigurá-la. A curadoria da mostra contestou minha afirmação, alegando que, pelo contrário, pretende "destacar a singularidade da arte em relação ao campo da cultura e se propõe mostrar a relação entre arte e política".

Acrescenta, ainda, concordar com minha tese de que a arte existe porque a realidade não nos basta. Se é assim, tanto melhor. Mas por que fazê-lo por meio do cinema se a Bienal é de artes plásticas?

Quem leu a referida crônica terá percebido que me vali da futura Bienal como pretexto para expor meu ponto de vista, segundo o qual a chamada arte contemporânea caracteriza-se não por reinventar a realidade e, sim, simplesmente, mostrá-la. Esses artistas -se ainda cabe chamá-los assim- têm as chamadas linguagens da pintura, da gravura, da escultura etc., por superadas.

Vou me valer de uma metáfora bem simples. Ao nascermos, porque ainda não aprendemos a falar, somos quase que apenas nosso corpo -um bichinho que apenas gesticula. Depois que aprendemos a falar, tudo muda, já podemos traduzir em palavras o que sentimos e desejamos, e, por meio da poesia, nos inventamos e inventamos a realidade imaginária que amplia nossa existência. Assim também, se me torno pintor, de posse de uma nova linguagem, reinvento a realidade e a transfiguro.

Mas o que sucederia se, por alguma razão, essa linguagem pictórica se desfizesse?

Restaria eu, pintor sem linguagem, diante da realidade, agora inalcançável. Cézanne, ao pintar a maçã, não a copia, simplesmente; muda-a em pintura. As garrafas e púcaros dos quadros de Morandi são entes pictóricos, que ele acrescentou ao mundo, o que só se tornou possível pelo domínio técnico e poético da linguagem da pintura. Sem ela, o que faria Morandi, fascinado como era, pelo mistério daqueles objetos? Nos chamaria a sua casa para mostrá-los? Certamente, não o faria por saber que a função do artista não é mostrar a realidade, mas mudá-la. Tanto o sabia que, tendo vivido até 1964, não aderiu às vanguardas que negaram a linguagem da arte.

O que é o "ready-made", se não a apropriação do que já está feito? O "ready-made" dispensa a linguagem da arte, ou seja, dispensa a arte que, sem linguagem, não existe. Mas Marcel Duchamp, que era artista, dedicou oito anos a fazer o "Grande Vidro" e 12 a fazer o "Étant Donné", que, aliás, de realidade não tem nada: é puro sonho.

O "ready-made" duchampiano expressa a contradição entre a arte artesanal e a sociedade industrial. É como se Duchamp dissesse: "Nesta época, a arte já era". E, com isso, o pintor saiu do espaço fictício do quadro para o espaço real do mundo.

No começo, o propósito era criar, nesse espaço, objetos que, de algum modo, aludissem à subjetividade, do artista e do espectador, mas, em seguida, até essa significação estética (isto é, formal) se desvaneceu e ao artista, sem linguagem, só restou a realidade inalcançável.

A performance resulta dessa perda da linguagem: sem ela, sou apenas meu corpo material: lambuzo-me de tinta, me masturbo em público, me corto, fico nu no museu; sim, no museu, porque ficar nu na rua ou em casa não é arte. Tenho que me masturbar na galeria de arte para que a masturbação vire expressão estética. Sem linguagem artística, reduzido a meu próprio corpo, é a instituição -o museu, a galeria de arte- que dá sentido às minhas atitudes e ações.

Por coincidência, naquele mesmo domingo em que abordei aqui este assunto, um jornal do Rio publicou uma entrevista com Marina Abramovic, artista performática que está se exibindo no MoMa. Um dos principais elementos de sua exibição são mulheres e homens nus. Ela fez questão de explicar que não se trata de teatro, "onde tudo é mentira, pois os atores fingem que são personagens e o sangue é tinta vermelha". Já na performance, é tudo verdade, tudo é real: se houver sangue, é sangue mesmo. E assim ela confirma o que afirmei sobre a arte contemporânea que, ao contrário do que a arte sempre fez, não cria nada: mostra o real. Ou seja, o que já conhecemos e não nos basta.

Em matéria de nus mostrados em museus, prefiro o Davi, de Michelangelo, ou a Vênus de Cnido, que, em vez de me constrangerem, me deslumbram.

Francisco Montalvo (Mozart 3mov)

Francisco Montalvo, com 12 aanos, interpreta o concerto nº3 de Mozart para violino e orquesta. Orquesta Sinfonica de Cordoba com maestro Manuel Hernandez-Silva Francisco

Lula deixa para sucessor conta de R$ 35 bi do PAC

DEU EM O GLOBO

Programa acumula restos a pagar e obras atrasadas pelo país

O governo Lula deixará para o sucessor uma conta de R$ 35,2 bilhõesreferente a obras do PAC, contratadas entre 2007 e 2010, mas que nãoserão executadas nem pagas na atual gestão. Na primeira semana destemês, os restos a pagar do PAC somavam R$ 25 bilhões e crescerão 40% atéo fim do ano, se for mantido o ritmo atual de execução do programa. Emvários estados há problemas de atraso nas obras do PAC. No Ceará, umconjunto habitacional lançado há um ano não passou das fundações. EmAlagoas, casas inauguradas há dois meses racharam ou inundam a cadachuva.


Uma pendura de R$ 35 bilhões

Lula deixará para seu sucessor uma conta alta por causa de atrasos no PAC

Regina Alvarez
BRASÍLIA - O governo atual deixará para o próximo uma conta estimada em R$35,2bilhões, referente a obras do Programa de Aceleração doCrescimento(PAC) contratadas entre 2007 e 2010 e que não serãoexecutadas nempagas na atual gestão. Usado pelo governo Lula paraturbinar acandidatura da ministra Dilma Rousseff (PT), o PAC temproblemas degestão que se refletem na execução das obras. Como nãoconsegue cumprirprazos de execução, o governo acumula uma contabilionária que osucessor de Lula terá de assumir. Os chamados restos apagar do PACjá somavam R$ 25 bilhões na primeira semana de março, masdevem crescerainda mais até o fim do mandato.

Focado no PAC-2 umpacote deobras para o período 2011-2105 que será anunciado dia 29, àsvésperasda saída da ministra do governo e do início, de fato, desuapré-campanha à Presidência o governo tem procurado minimizarosatrasos na execução do PAC-1. O balanço de três anos divulgadoemfevereiro está cheio de malabarismos e maquiagens que escondem o queaexecução do Orçamento da União mostra com clareza.

Em 2010, oPAC tem disponíveis no Orçamento R$ 30,3 bilhões, valor que devesubirpara R$ 33,5 bilhões com créditos extraordinários, mas a execuçãoaté aprimeira semana de março era de 5,5%. Apenas R$ 1,66 bilhão tinhasidoexecutado, incluindo despesas do ano e restos a pagar deanosanteriores. A dificuldade para a execução do Orçamento é maior emanoseleitorais, por conta das restrições que a lei impõe entre julhoeoutubro para a assinatura de novos convênios.

Atrasos no Arco Rodoviário do Rio

Aconta para o próximo governo foi calculada pelo GLOBO a partir dedoisdados: o estoque atual de restos a pagar (R$ 25 bilhões) e umaprevisãode execução de empenhos em 2010 equivalente à média de 2008 e2009. De2007 a 2009, o governo empenhou (contratou) despesas de R$60,3 bilhõese executou R$ 33,2 bi (55,2%), incluídos restos a pagar.Nos últimosdois anos, o ritmo de execução foi acelerado, ficando, namédia, em 65%dos valores contratados. Se conseguir manter em 2010 aexecução de 65%do valor empenhado, já incluindo os restos mesmo comrestrições do anoeleitoral o governo chegará ao fim do ano comdespesas executadas novalor de R$ 18,7 bilhões, restando um estoque dedespesas contratadas enão pagas de R$ 35,2 bilhões.

Mesmo nahipótese de o governoacelerar a execução das obras este ano, superandoa média de anosanteriores, o que é improvável, as receitas disponíveisno Orçamento de2010 não seriam suficientes para fazer frente àsdespesas de anosanteriores (que ficaram pendentes) e ao montanteprevisto para este ano.Somadas, as despesas chegam a R$ 55,4 bilhões R$ 30,3 bilhões doorçamento do ano e R$ 25 bilhões dos restos a pagar.

Os atrasos ficam evidentes no acompanhamento da execução do Orçamento.

Nocasodo Arco Rodoviário do Rio, a execução corresponde a 33% dovalordisponível no Orçamento entre 2007 e 2010. De R$ 407,4 milhões,foramgastos R$ 134 milhões, já incluindo os restos a pagar. Secomparados osvalores executados com o montante empenhado até 2009, opercentual é de46%.

A execução do Orçamento do PAC mostra que ogoverno nãoconsegue executar na proporção dos recursos disponíveisobras demanutenção das rodovias, cruciais para o escoamento da produçãoe paraas exportações. A média de execução dessas obras entre 2007 e2010 é de48%, em relação aos valores contratados, ficando abaixo damédia geralde três anos (55%).

O QUE PENSA A MÍDIA

EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
Clique o link abaixo

No Ceará, só um contrato em andamento

DEU EM O GLOBO

Atraso na execução do programa Minha Casa, Minha Vida no estado perde apenas para o do Amapá

Isabela Martin

FORTALEZA. A poucos dias do anúncio da segunda edição do Minha Casa,Minha Vida, o único contrato em andamento no Ceará, para a populaçãocom renda de até três salários mínimos, representa 0,23% das 51 milunidades previstas para o estado quando o programa foi lançado, há umano.

No bairro Vila Velha, periferia de Fortaleza, o residencialTurmalina terá 120 apartamentos previstos para dezembro, um ano após aassinatura do contrato, o primeiro do estado. Nenhum imóvel está de pé.É o único canteiro de obras do Minha Casa, Minha Vida no Ceará, queperde apenas para o Amapá em atraso na execução do programa. EmFortaleza, são 80 mil inscrições, e foi prevista a construção de 15 milunidades.

Concluído o serviço de terraplanagem, os 60funcionários trabalham nas fundações. É possível ver dois palmos dealvenaria brotando do chão. Segundo o engenheiro da obra, José TadeuAugusto Júnior, em dois meses o número de funcionários terá dobrado eos blocos de alvenaria estarão de pé e fechados.

A Fundação deDesenvolvimento Habitacional de Fortaleza (Habitafor), ligada àprefeitura e responsável pela inscrição das famílias, não para dereceber pedidos de explicação sobre a demora.

O atraso frustra apopulação e adia o sonho da casa própria. É o caso do carpinteiroEsmeraldo Jorge Batista, de 41 anos, pai de três filhos. Ele trabalhana construção do conjunto e se inscreveu no Minha Casa, Minha Vida.Pagando mensalmente R$ 150 de aluguel num bairro distante, ficoumotivado ao começar a trabalhar na obra.

A esperança é a última que morre diz.

Umano após o lançamento, apenas dois contratos para a população entrezero e três salários mínimos foram fechados no Ceará com a CaixaEconômica Federal, agente financeiro do programa.

O último,assinado há dez dias, é dos residenciais Virgílio Távora I, II e III,que serão construídos em Maracanaú, região metropolitana de Fortaleza.

Serão672 apartamentos. Mas a única movimentação no local, por enquanto, épara a instalação do canteiro de obras. O investimento do governofederal é de R$ 27,1 milhões.

Cerca de dez mil unidadeshabitacionais estariam sendo analisadas pelo banco, ainda muito aquémdos 51 mil projetados para o estado. Procurada, a Caixa não deuinformações. O imbróglio é maior em Fortaleza, município comaproximadamente 62% de área saneada. Como a grande parte dos terrenosindicados pelas construtoras para a construção dos residenciais fica emáreas sem saneamento, a Caixa veta o negócio.

Segundo opresidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Ceará,Roberto Sérgio Ferreira, as empresas estariam buscando alternativa emterrenos cujas áreas deverão ser beneficiadas pelo plano de expansão daCompanhia de Água e Esgoto do Ceará nos próximos dois anos.

Oprograma só está dando certo em quatro estados: Maranhão, Goiás, MatoGrosso e Bahia, que ultrapassou a meta em pelo menos 12 mil unidadeshabitacionais disse Ferreira.

Em Pernambuco, só 9% das 725 obras prometidas no PAC estão concluídas

DEU EM O GLOBO

Projetos grandiosos, como a Refinaria Abreu e Lima, esbarram no TCU

Letícia Lins

RECIFE. O Programa de Aceleração do Crescimento tem presença maciça em Pernambuco, com 725 obras das quais, porém, apenas 9,2% estão concluídas, somando-se as exclusivas (tocadas pelo governo local) e as regionais (empreendidas pela administração federal). Quando a análise é feita em separado, o percentual de obras terminadas no setor regional praticamente não aparece nos gráficos, embora 86,5% estejam em execução, de acordo com dados oficiais.

Algumas enfrentam problemas no Tribunal de Contas da União (TCU), caso da Refinaria Abreu e Lima, por suspeita de superfaturamento. Outras tiveram problemas burocráticos, como a morosidade em desapropriações, como na BR 101.

Incluída no PAC e prevista para ser inaugurada em abril de 2010, a duplicação de um trecho de 40 quilômetros da rodovia, ao norte do estado, só deve ocorrer em outubro; até agora, só 65% da obra estão concluídos.

Dnit justifica os atrasos

Segundo o superintendente regional do Dnit, Marcos Crispim, os atrasos ocorreram devido a problemas nas desapropriações de terras e por conta da existência de solo móvel na região, o que exigiu obras complementares.

Tocada pelo Exército, a duplicação do trecho estava orçada em R$ 234 milhões, mas deverá chegar a R$ 250 milhões.

A obra já foi visitada pelo presidente Lula. Segundo Crispim, os demais lotes da rodovia ao sul do estado, somando-se 84 quilômetros encontram-se quase concluídos: 90%.

A Refinaria Abreu e Lima já teve o cronograma revisto várias vezes, depois de ser questionada pelo TCU.

O governo Lula não conseguiu concluir uma só obra estruturante nestes sete anos em Pernambuco. E as principais não serão entregues, porque todas estão fora do cronograma diz o deputado Raul Jungmman (PPS-PE).

Estudo dos professores José Maria Nóbrega e Bruno Menelau, com base em números do sistema de acompanhamento do governo federal, dá conta de 759 obras do PAC em Pernambuco.O trabalho, encomendado pelo Instituto Teotônio Vilela (do PSDB), concluiu que 4,5% das intervenções do PAC estão concluídas em Pernambuco, 22,2% estão em andamento, 15% em licitação, 41,6% em ação preparatória e 16,6% em processo de licitação.

Pelo acompanhamento do governo estadual, não há obra concluída entre as chamadas obras regionais. Mas 86,5% se encontram em execução, 12,1% em ação preparatória e 1,4% em licitação. Das exclusivas do governo federal, 71,6% estão em execução, 11,8% concluídas, 10,4% em licitação, 2,8% em ação preparatória e 10,4% em licitação. O PSDB contratou professores universitários para avaliar o andamento do programa no estado.

Os outros inauguravam obras acabadas. Lula segue a tradição ao contrário. Inaugura pedras fundamentais. E isso está mostrando ter um efeito político tão grande quanto à obra concluída afirma André Régis, presidente do Instituto Teotônio Vilela, que acrescenta: Na realidade, Lula está fazendo uma antecipação do futuro. As pessoas acreditam que a vida delas vai mudar, e a população fica simpática a ele. Ninguém tem expectativa de uma obra ficar pronta em poucos meses, mas ficam esperando os seus resultados, não perdem a esperança. Ao meu ver, essa é uma grande sacada.

Levantamento feito por uma comissão extraoficial da Assembleia Legislativa do Ceará formada por deputados do PSDB para acompanhar o andamento do programa, aponta que em 2009 apenas 28,94% das despesas foram pagas, o que representa cerca de R$ 240,8 milhões do total previsto.

O ritmo desacelerado mantém-se em 2010, com apenas 0,21% do orçamento do PAC liquidado nos dois primeiros meses do ano. A informação foi dada com base em dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal(Siafi), atualizado até 5 de março.

No Amazonas, 80% atrasadas.

DEU EM O GLOBO

Só oito de 24 terminais hidroviários inaugurados

Paula Litaiff

Levantamento junto ao Sistema Integrado de Administração Financeira do governo federal (Siafi) mostrou que 80% das obras do PAC no Amazonas estão atrasadas. Dos 24 terminais hidroviários previstos para serem entregues este ano, só oito foram inaugurados, entre o ano passado e este ano, apesar de as obras terem começado em 2007. Em 12 portos as obras ainda nem começaram.

Dos 400 quilômetros de pavimentação projetados para a BR-319 (Manaus-Porto Velho) para 2009, somente 208quilômetros de estrada foram entregues, semana passada. O orçamento para o serviço de pavimentação da BR319, construída entre 1972 e 1973 e intransitável desde 1988, é de R$ 697 milhões.

Outros dois projetos do PAC no Amazonas estão com menos de 30% das dois projetos: a ampliação do terminal de passageiros do Aeroporto Eduardo Gomes e o Programa Luz Para Todos. O Luz Para Todos do PAC visava a levar energia elétrica a pelo menos 50% dos moradores de 61 municípios do interior do Amazonas, que somam quase dois milhões de habitantes. Semana passada, o ministro Alfredo Nascimento informou que o atraso do porto não é culpa dele e sim do governo do estado, que ficou de executar os serviços: O ministério repassa o dinheiro, mas cabe ao governo do estado realizar as obras.

O governador do Amazonas, Eduardo Braga (PMDB), reconheceu o atraso e pôs a culpa nas empresas responsáveis pelos serviços.

Lula inaugura obras que voltam a ser canteiros

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

De 22 inaugurações, 13 foram de construções que hoje não funcionam

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT ao Planalto, viajam pelo país para inaugurações, que, após a desmontagem do palanque oficial, voltam a ser canteiros de obras, relatam Simone Iglesias e Eduardo Scolese. Levantamento em 22obras entregues pelo presidente e pela ministra desde outubro mostra que 13 delas (60%) não funcionam efetivamente. Em um dos casos, barragem inaugurada pelos dois em Jenipapo de Minas (MG) não tem licença ambiental nem prazo para entrar em operação. A Presidência alega quedados imprecisos enviados pelos Estados, insistência de Lula em participar de alguns eventos e falhas do gabinete do Planalto explicam a inauguração de obras não concluídas.

Governo diz receber dado impreciso de obras

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Agenda lotada, informações imprecisas transmitidas pelos governos estaduais, insistência do presidente em participar de determinadas cerimônias e, eventualmente, um escorregão do gabinete do Planalto são os argumentos da Presidência para os casos de inaugurações de obras ainda nãoconcluídas.

Lula recebe centenas de convites de governos, prefeituras e empresas. Eles passam pela triagem de Cézar Alvarez, responsável pela agenda, e por Gilberto Carvalho, chefe de gabinete. No caso de inaugurações de obras federais, cabe à Casa Civil sugerir o trajeto a Lula.

Ainda assim, a palavra final é sempre do presidente. Segundo um auxiliar direto de Lula, se ele quiser visitar determinada obra ou participar de alguma inauguração, não há quem o convença a mudar de ideia.

Há situações em que, mesmo informado de que a obra não está concluída, Lula pede para comparecer, sob a alegação de um suposto caráter simbólico.

Segundo esse mesmo auxiliar do presidente, é preciso considerar que nem sempre há disponibilidade de a viagem ocorrer na data prevista da inauguração, o que provoca antecipação ou adiamento na agenda de Lula.

Em algumas situações, porém, na ânsia de aparecer em eventos ao lado do presidente, governadores enviariam dados imprecisos ao Planalto para acelerar a confirmação da agenda oficial no Estado.

Responsáveis por obras que foram inauguradas de outubro do ano passado até este mês disseram à Folha que depois da cerimônia com a presença de Lula, os trabalhos começam a funcionar, mesmo que ainda falte concluir integralmente.

A assessoria da CTBE (Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol) disse que os dois prédios prontos permitem que os estudos sejam feitos e que a obra que segue em andamento com previsão de término em dezembro é um galpão para abrigar uma máquina também em fabricação. Tanto o galpão quanto o equipamento não seriam fundamentais para o funcionamento do laboratório.

A assessoria do Serviço Municipal de Água e Esgotos de São Leopoldo (RS) afirmou que a obra física da estação de tratamento foi concluída, mas são necessários 90dias para testes e treinamento de operadores.

No caso do Ceitec(Centro de Excelência em Tecnologia Eletrônica Avançada), que produz semicondutores, a assessoria afirmou que para o processo de produção dos chips são necessários dois ciclos de 90 dias e que não teria sentido esperar que o material desenvolvido ficasse pronto para inaugurar a fábrica.

sábado, 20 de março de 2010

Reflexão do dia – Fernando Henrique Cardoso

"Nabuco até aprecia a monarquia na Inglaterra, mas seu lado de pensador político está colocando ênfase no direito dos cidadãos, na liberdade e na possibilidade de acesso à Justiça para todos".


(Fernando Henrique Cardoso, em palestra, 5ª feira, na Academia Brasileira de Letras)

O preço político:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

O deputado federal Ibsen Pinheiro tem dito muitas coisas absurdas nos últimos dias, e parece inebriado pela súbita popularidade de que desfruta desde que apresentou um projeto de lei alterando a distribuição dos royalties do petróleo, provocando com isso uma desagregação federativa que está difícil de resolver.

Como aquele juiz de futebol que adorava ser xingado pela multidão,Ibsen a cada dia consegue dizer mais barbaridades do que no dia anterior, e parece especialmente satisfeito em afrontar o Rio de Janeiro e seus cidadãos.

Deve ter razões especiais, ou, como disse o senador Francisco Dornelles, está perdendo a sanidade mental e precisa da compaixão dos fluminenses. Mas ele tem razão quando insinua que seu projeto não teria a aprovação esmagadora que obteve na Câmara se o governo não quisesse, ou se pelo menos tivesse interesse em não aprová-lo.

O presidente Lula se colocou como o garantidor de um acordo que mantinha a distribuição dos royalties do petróleo como estavam até o momento nas áreas já licitadas, inclusive em 30% do pré-sal.

Pelo acordo, feito no relatório do deputado Henrique Alves, os estados produtores ficariam com 25% das receitas obtidas coma cobrança de royalties do pré-sal, em vez dos 18% anteriormente propostos.

Os municípios produtores teriam direito a 6% dos royalties; os municípios afetados pelas operações de embarque e desembarque de petróleo ficariam com 3%, e todos os demais estados e municípios da federação passariam a receber 44% dos royalties.

Em contrapartida, os royalties da União seriam reduzidos de 30% para 22%.

A emenda de Ibsen Pinheiro colocou abaixo o acordo com a oposição e abriu o apetite dos estados e municípios contra os estados produtores.

Esse acordo original foi alcançado graças ao trabalho conjunto dos três governadores de estados produtores, Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro,Paulo Hartung, do Espírito Santo, e José Serra, de São Paulo, e saiu de uma reunião no Palácio da Alvorada, onde os ministros das Minas e Energia, Edison Lobão, e a chefe do Gabinete Civil, Dilma Rousseff,defenderam propostas semelhantes à do deputado Ibsen Pinheiro sobre a distribuição dos royalties do pré-sal.

Foi o governador José Serra quem sugeriu, obtendo o apoio dos governadores e do próprio presidente Lula, que não se mexesse na distribuição dos royalties num ano eleitoral.

O presidente Lula, aliás, disse em entrevista na sua viagem ao Oriente Médio que já antevia que em ano eleitoral muita gente ia querer fazer gracinha com o assunto.

O ministro Nelson Jobim, da Defesa, que também participou da reunião, redigiu pessoalmente uma mudança no projeto do governo, que garantia que nada seria alterado.

Mas sabia-se naquela reunião que o Congresso poderia fazer alterações. E mais que isso, que setores fortes do governo tinham entendimento distinto sobre a distribuição dos royalties.

O ministro Edison Lobão, por exemplo, chegou a ter uma discussão ríspida com o governador Sérgio Cabral, já relatada aqui na coluna, em que garantiu que havia conversado com ele sobre as alterações.

Não é verdade, reagiu Cabral, garantindo que já avisara ao ministro que não aceitava a mudança da repartição dos royalties dos estados produtores.

Os três governadores tinham como objetivo central naquela noite garantir que a divisão dos royalties se mantivesse inalterada, o que conseguiram, até que a emenda Ibsen Pinheiro alterasse o acordo.

O governador Sérgio Cabral agiu emocionalmente o tempo todo, inclusive naquela reunião do Alvorada, quando teve que ser acalmado várias vezes por Lula e teve discussão também com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, que defendia a mudança para o sistema de partilha, dando como exemplo de sucesso a Líbia de Kadafi, arrancando uma risada de Cabral.

Depois,quando foi apresentado o projeto, o governador do Rio chegou a dizer que um grupo de parlamentares de vários partidos está com uma postura de como quem quer defender seu estado e quer roubar o Rio de Janeiro. Isso é um absurdo.

Quando, ao final de muitas idas e vindas, o projeto do deputado Ibsen Pinheiro foi aprovado, Cabral chegou a chorarem público, e convocou uma passeata de protesto.

Sua decidida defesa dos interesses do estado pode lhe trazer reconhecimento do eleitorado, mas a confiança que depositou no presidente Lula, sem ser correspondido, pode prejudicar sua imagem.

Até o momento, não tem demonstrado capacidade de negociação dentro do Congresso, se fiando muito no apoio do governo federal.

O governador paulista, José Serra, que se envolveu no primeiro momento da discussão, saiu de cena no decorrer do debate, dando a parecer que a definição da questão não interessava muito a seu estado.

A articulação paulista na Câmara foi pior que a do Rio, e muitos deputados, inclusive do PSDB, votaram a favor da emenda Ibsen.

Serra teve uma primeira reação inteiramente equivocada ao dizer que não sabia detalhes da questão dos royalties, pois só lera pelos jornais, e teve que tentar recuperar a posição no dia seguinte, quando deu uma declaração firme contra a alteração da distribuição, se reincorporando à luta ao lado do Rio e do Espírito Santo.

Já a ministra Dilma Rousseff não ficou em cima do muro, mesmo correndo o risco de ir contra a maioria dos estados.

Diferentemente do presidente Lula, ela antecipou sua posição a favor da manutenção do sistema atual de divisão dos royalties.

Quando o presidente Lula lavou as mãos e disse que cabia ao Congresso resolvera pendenga, ele já sabia que não tem muito a fazer.

Ou, como insinua o deputado Ibsen Pinheiro, não quer ter muito a fazer.

Todos os personagens dessa quase Secessão tupiniquim pagarão um preço político nas próximas eleições.

Para o que der e vier:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Percebido por aliados e adversários como uma incógnita no cenário eleitoral, o deputado Ciro Gomes não vê razão para o mistério: é pretendente a candidato à Presidência da República pelo PSB.

Eventuais variações não serão decorrentes de sua vontade, mas uma imposição das circunstâncias. Se o partido preferir apoiar Dilma Rousseff, seguirá a orientação preservando, porém, a condição de “eleitor crítico”.

Quanto à candidatura ao governo de São Paulo, só existe uma “ínfima” possibilidade: se o presidente Luiz Inácio da Silva avaliar que é a melhor solução para atenuar a vantagem do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, em São Paulo.

Aloizio Mercadante não daria conta desse recado? “Claro, acho que dá perfeitamente”, diz Ciro para acentuar a visão de que São Paulo “não precisa dele” e, ao mesmo tempo, deixar bem claro que não tem a menor identidade com o projeto.

Nada a ver com a reação contrária do PT paulista. Para esta, reserva ironia: “Rugas de preocupação.” Então, por que mudou o domicílio eleitoral do Ceará para São Paulo? Antes da explicação, um parêntese: o domicílio voltará ao Ceará assim que possível.

A mudança ocorreu porque em setembro, antes de vencer o prazo para a transferência do domicílio, foi feita uma avaliação conjunta entre o presidente Lula e a direção do PT. Chegou-se à conclusão de que a hipótese de Ciro ser candidato em São Paulo poderia levar José Serra a desistir da candidatura presidencial para não arriscar a perda do controle do PSDB no estado.

Ademais, como o irmão de Ciro, Cid Gomes, é governador do Ceará, Ciro só poderia concorrer a deputado federal, nunca a deputado estadual, senador ou governador, por razões legais. E da Câmara dos Deputados Ciro quer distância.

Além de se sentir um inútil – “ponho o terno, bato ponto, denuncio milhões de safadezas e a mídia não dá a menor bola” –, está farto de conviver com o ambiente de negociatas que testemunha diariamente e sustentam suas críticas à “moral frouxa”da parceria entre PT e PMDB, extensivas à aliança PSDB-DEM.

Uma das razões pela qual Ciro acha que contribui sendo candidato a presidente é que, ao contrário de Dilma Rousseff, pode levar a discussão sobre a necessidade de se alterar as relações promíscuas e viciadas entre os poderes. “Essas coisas não são feitas em nome da governabilidade coisa nenhuma. São feitas em nome da manutenção do poder puro e simples e acho que há espaço e possibilidade de se construir, com o poder da Presidência e a compreensão da sociedade, uma relação diferente.”

Muito bem, mas esse discurso, na campanha, não acabaria por ser de crítica a Dilma? “De fato. Se me perguntam, digo que tenho mais experiência, projeto, circunstância política e posso dizer coisas que ela não pode.”

Ciro vê Dilma como favorita, mas não enxerga o quadro como definido. Lembra que nas eleições anteriores as pesquisas de fevereiro não representaram os resultados das eleições e estabelece três fatores de definição: o clima, a persona política, a qualificação do candidato.

O clima, segundo ele, é favorável a Dilma. No quesito “persona”, ela e Serra se igualam na carência de empatia, “eu sou o docinho da vez”. No item qualificação do candidato, elogia o preparo dos concorrentes, reconhece a substância do principal oponente, mas quando o assunto é excelência não tem para ninguém: “Eu me basto.”

Pé no chão

O presidente não precisaria ir tão longe, até o Oriente Médio para mediar conflitos. Bastaria ter exercitado suas habilidades aqui mesmo, mediando no Congresso assuntos importantes como as reformas política, trabalhista, sindical e tributária.

Ou patrocinar o entendimento federativo em torno dos royalties do petróleo.

Fora dessa

A assessoria do líder do PMDB na Câmara e relator do projeto de regulamentação da exploração do petróleo, Henrique Eduardo Alves, esclarece que a emenda Ibsen Pinheiro não foi incluída por ele no relatório, mas apresentada direto ao plenário.

O PT e o tempo:: Fernando Rodrigues

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Ninguém duvida que o tempo opere milagres e cicatrize feridas. O PT sabe disso. Sigla lulo-dependente em grau máximo e capacidade de formulação mínima, decidiu seguir o conselho do presidente. Lançará novamente ao governo de São Paulo o nome do senador Aloizio Mercadante.

A ideia de Lula parece lógica: "Lancem sempre o mesmo nome para o governo de São Paulo que um dia o PT ganha". Nunca até hoje um petista disputou duas vezes o Palácio dos Bandeirantes. Mercadante será o primeiro. Com esperança de o tempo se incumbir de envernizar e lustrar sua biografia.

Economista, o senador petista tem como obra mais genial o conselho dado a Lula e ao PT em 1994. Recomendou ao partido atacar o Plano Real. Para ele, seria um fracasso certo. Errou feio. Lula foi derrotado por FHC no primeiro turno. Eleito senador em 2002, Mercadante teve 10,5 milhões de votos.

Quatro anos depois, em 2006, conseguiu a proeza de disputar o Palácio dos Bandeirantes e encolher sua marca para 6,8 milhões de votos -em meio ao escândalo da mala de dinheiro usada por um de seus assessores na tentativa de comprar um dossiê antitucano.

Líder do PT no Senado, Mercadante brilhou pouco. Sem poder, chegou a anunciar no microblog Twitter sua renúncia ao cargo em caráter irrevogável. Não concordava com alguns petistas a favor de salvar José Sarney de uma merecida investigação. A nobreza durou pouco. Enquadrado por Lula, humilhado, revogou o irrevogável.

Como senador, sua ação mais positiva foi um apoio tardio à lei que liberou o uso da internet nas eleições. Nesta semana, tirou proveito disso. Punido por aparecer na TV fazendo propaganda fora de hora, colocou seu comercial na web.

Esse será o candidato do PT ao governo paulista. Pois o tempo opera milagres -e Lula deu a ordem para o nome ser repetido à exaustão.

Verônica Ferriani - Me deixa em paz (Som Brasil Ivan Lins)

O blefe de Lula:: Villas-Bôas Corrêa

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Irritado com a derrota na Câmara, articulada por mansos dissidentes da sua dispendiosa maioria, o presidente Lula aproveitou a viagem a Israel para, como mensageiro da paz, dar um aperto nos seus aliados na Câmara, que embarcaram na canoa furada do deputado Ibsen Pinheiro, outro que subiu à tona depois de anos em que não foi visto nem falado. Mas é de uma evidência que entra pelos olhos que Lula, com baralho na mão, deu as cartas marcadas para o blefe na hora certa.

É só raciocinar sem paixão: depois de uma ousada articulação internacional, em que tantos se destacaram, para trazer para o Brasil a Copa do Mundo de 2014, já no governo do seu sucessor, provavelmente sucessora, e os Jogos Olímpicos de 2016, o presidente não aceitará a jogada eleitoreira da oposição de virtualmente botar tudo a perder. O governador do Rio, Sérgio Cabral, não está tocando fogo na palha para espantar fantasmas quando repete à exaustão que, se com a punga, a verba dos royalties de petróleo for reduzida a uma esmola, ele não terá como realizar as obras para preparar a cidade para receber os dois maiores eventos esportivos do mundo.

E, sem o Rio, nem Copa do Mundo nem Olimpíada. Ora, Lula está em campanha, acaba até de ser multado em R$ 5 mil pelo discurso de comício na visita a obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ao lado da candidata Dilma. As últimas pesquisas de opinião confirmam a ascensão da sua candidata, que se encosta no governador José Serra, de São Paulo, e virtual candidato da oposição.

A estratégia do presidente é transparente. A primeira guerrilha será no Senado, uma maioria que dá e sobra para uma articulação objetiva e direta: se não for derrubada ou negociada a emenda do deputado Ibsen Pinheiro, Lula cumprirá a palavra empenhada com o governador Sérgio Cabral de vetar o monstrengo. É a última porta a ser aberta.

Não é tudo: a passeata dos 150 mil do Rio, debaixo de chuva torrencial, aplaudida ao longo do trajeto da Candelária à Cinelândia é como tocar fogo em pólvora. Uma nova derrota no Senado de senhores e senhoras de cabelos grisalhos, e a população voltará às ruas. Muito mais bem informados pela imprensa, televisão, rádio e internet, os “traidores” da Copa e da Olimpíada não terão como fazer um comício em qualquer cidade do Rio. E vamos reviver a época das grandes passeatas. Das suas maiores desde a ditadura militar de 1964: a dos Cem Mil, que também saiu da Candelária e ocupou toda a Avenida Rio Branco até o Monroe, e acabou no AI-5. E a das Diretas Já, com 1 milhão de pessoas espremidas do palanque em frente à Igreja da Candelária até o Ministério da Guerra. As Diretas Já foram derrotadas pelo Congresso humilhado pelas cassações de mandato, no negrume da censura à imprensa e das violências, torturas e mortes nas masmorras dos Doi-Codi.

Assisti às duas. A dos Cem Mil caminhando pela Avenida Rio Branco entre os caras-pintadas do apoio dos estudantes e uma massa humana que era um corte em toda a sociedade, dos ricos aos populares já empanzinados de ditadura. E a do milhão do palanque ao lado dos dois líderes de temperamentos opostos. O visionário deputado Ulysses Guimarães, olhos marejados ao contemplar a multidão, sustentava o seu otimismo na certeza de que o Congresso não resistiria à pressão de 1 milhão que exprimiam toda a população. Do outro lado do palanque, a sabedoria mineira do senador Tancredo Neves racionava pelo avesso de Ulysses: o que eles teriam para dizer ao povo com a derrota inevitável das Diretas Já por um Congresso submisso à ditadura?

Acertou na mosca.

O que não é o caso. A crise política do Brasil está agora em Brasília. E o escândalo da distribuição de pacotes de notas pelo ex-governador José Arruda, hoje preso, aguardando julgamento é a mais clara advertência de que a população da capital, construída por Juscelino Kubitschek e reconhecida como Patrimônio da Humanidade, graças ao gênio de Oscar Niemeyer e à dança das suas curvas, tem uma dívida com o país.

Quando Brasília fará a passeata que está devendo ao Brasil? Pacífica, sem violência, conforme o modelo da do Rio de Janeiro, que não registra um único incidente. E não há tempo a perder. O presidente Lula e a candidata Dilma precisam ser cobrados pela população que a Câmara ultrajou.

Serra candidato: adversário não é Lula

DEU EM O GLOBO

Governador tucano admite pela 1ª vez disputar Presidência contra Dilma

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), que há meses vem sendo cobrado por seus aliados para assumir sua pré-candidatura à Presidência, enfim admitiu ontem que disputará a sucessão do presidente Lula. No dia em que completou 68 anos, Serra disse, em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da TV Bandeirantes, que sua candidatura será lançada em abril, e fez questão de frisar que concorrerá contra a ministra Dilma Rousseff, candidata do PT, e não contra Lula. "A população vai julgar não quem já foi presidente ou quem é, mas quem é candidato", afirmou o tucano.

Enfim, o jogo começa

Serra admite que será candidato e diz que disputará contra Dilma, e não contra Lula

Sergio Roxo

SÃO PAULO -No dia em que completou 68 anos, e se livrou de seu suposto inferno astral, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), falou como candidato e admitiu publicamente, pela primeira vez, que disputará a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da TV Bandeirantes, o tucano disse que não teme enfrentar a popularidade do presidente Lula porque ele não será candidato nem vai governar, e que a comparação será, portanto,entre ele e a candidata do PT, a ministra Dilma Rousseff.

O tucano, que vinha resistindo há meses a confirmar que é candidato, disse que o lançamento da candidatura será no mês que vem.

Faltam poucos dias. No começo de abril respondeu.

Sobre o fato de Lula ser forte cabo eleitoral para Dilma, Serra afirmou: A população vai julgar não quem já foi presidente ou quem é, mas quem é candidato. Quem vai governar o Brasil no futuro.

E aí vai fazer o seu juízo melhor. Agora, decidi o seguinte: campanha para mim é só quando ela começar.

Eu não me antecipei. Meu trabalho de governador ficou sendo trabalho de governador. Vou fazer isso até o último momento.

O apresentador perguntou se ele não estaria demorando muito: Não, não estou demorando.

Tem seis meses depois ainda para fazer campanha eleitoral. É muito cedo para começar e aí você prejudica o trabalho que está fazendo, que no meu caso é o trabalho de governador.

Quando o apresentador concluiu que a estratégia da campanha de Serra então será evitar a comparação com Lula e insistir em fazer isso com Dilma,já que é ela quem vai governar, caso seja eleita, o tucano confirmou: É, e tem uma coisa: quando você é eleito, assim como eu fui prefeito e sou governador, quem toma as decisões, inclusive nos momentos difíceis, é o prefeito, o governador e o presidente.


Isso é insubstituível. Não há delegação nesse caso, e você responde ao povo que te deu o voto. Não há ninguém que governe com alguém paralelamente,nem acho que esse seja o caso, nem o Lula pretenderia fazer isso, mas isso não funcionaria no Brasil e em nenhum lugar do mundo.

Sempre falando como candidato, Serra minimizou a influência de Lula em outro momento da entrevista: A população vai escolher em função de como são os candidatos, porque o Brasil está decidindo o seu futuro.

Aconteceu muita coisa boa no Brasil, (mas) ainda tem problemas. (O povo vai escolher) quem é mais capaz de garantir as coisas boas e melhora-las e quem é capaz de enfrentar os problemas. Naturalmente, aí pesam as ideias, as propostas, e pesa o passado, o que cada um fez. Como é que foi provado na vida pública, e isso vai ser mostrado, vai ser julgado pelos diferentes candidatos, e o povão vai resolver.

Resolver bem como sempre fez.

Ao ser perguntado por que vinha negando a candidatura, disse: Não estou negando. Estou dizendo que, neste momento, enquanto estiver no governo,não vou fazer campanha.

O tucano também comentou o crescimento de Dilma nas pesquisas de intenção de voto.

Ela tem tido uma exposição bastante grande. A campanha eleitoral acelera depois da Copa do Mundo, quando a população começa a fazer um juízo mais pessoal dos candidatos.

Aí a gente vai ver o que acontece.

Perguntado por Datena se acha que leva vantagem diante do fato de já ter tido diversos cargos públicos, Serra evitou comparar: Seria meio pretensioso da minha parte dizer que sou melhor.

Sobre a possibilidade de o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), ser vice em sua chapa, disse: Essa coisa de vice é para muito mais adiante. Para o fim de maio, junho, ainda tem tempo pela frente.

Serra assume candidatura ao Planalto

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em entrevista a emissora de TV, governador anuncia que iniciará campanha em abril e diz que alta da ministra Dilma Rousseff nas pesquisas não o assusta

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), assumiu pela primeira vez sua candidatura à Presidência. Em entrevista à TV Bandeirantes, Serra, questionado sobre quando lançaria a candidatura, disse: "No começo de abril". O tucano afirmou que o avanço da pré-candidata petista, Dilma Rousseff, nas pesquisas "não assusta" e que isso já era esperado "pelo grau de exposição dela". A respeito da campanha, Serra disse que seria "pretensioso" comparar-se a Dilma, mas afirmou que o eleitor vai decidir "quem é mais capaz de garantir as coisas boas e melhorá-las e quem é capaz de enfrentar os problemas", razão pela qual o que pesa "é o passado" dos candidatos, "como é que foi provado na vida pública". Sobre o vice em sua chapa, Serra disse que é uma escolha a ser feita "muito mais adiante".

Serra assume candidatura e diz que crescimento de Dilma não assusta

Sucessão. Anúncio sobre a saída do governo paulista no início de abril para se dedicar à campanha presidencial foi feito de maneira cautelosa, sem afirmação explícita, durante entrevista para a TV no diaem que o governador comemorou seu 68º aniversário

Silvia Amorim

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), falou ontem abertamente,pela primeira vez, sua candidatura à Presidência da República e disseque o crescimento da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff,pré-candidata do PT ao Planalto, nas pesquisas de intenção de voto "não assusta".

"São cinco pontos de diferença. Mas não me assusta não, até porque eu estava prevendo", afirmou o tucano em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, do programa SP Acontece, um dos mais populares da TV Bandeirantes. Pesquisa CNI-Ibope divulgada na quarta-feira mostrou Serra com 35% e Dilma com 30%. Em fevereiro, a vantagem do tucano era de 11 pontos porcentuais, segundo o mesmo instituto.

Depois de um silêncio absoluto sobre eleição nos últimos dias, Serra admitiu, no dia em que comemorou 68 anos, que será candidato quando confirmou a data de sua saída do governo estadual. "Faltam poucos dias. No começo de abril", afirmou o governador.

Diante da declaração do apresentador de que o tucano estava ali anunciando sua postulação, ele minimizou - a oficialização será em evento em Brasília no dia 10 -, mas falou como se fosse candidato no restante da entrevista. "Não estou negando. Apenas dizendo que neste momento, enquanto eu estiver no governo, não vou fazer campanha."

O tucano rechaçou críticas de que esteja demorando para iniciar a campanha. "Não estou demorando. Tem seis meses para fazer campanha eleitoral."

Em uma crítica indireta à adversária, o governador afirmou que não antecipará o enfrentamento. "Campanha para mim é depois. Eu não antecipei. Meu trabalho de governador ficou sendo meu trabalho de governador e vou fazer isso até o último momento." A oposição acusa Dilma e Lula usarem compromissos de governo para promover a candidatura petista.

Vice. Sobre a vaga de vice, disse que é uma escolha feita "muito mais adiante". "É assunto para ser resolvido no fim de maio, junho",afirmou. Os tucanos ainda esperam que o governador de Minas, Aécio Neves, aceite o convite de Serra para dividir a chapa tucana ao Planalto.

Repetindo discurso usado à exaustão pelas lideranças do PSDB nos últimos dias, Serra atribuiu a escalada de Dilma nas pesquisas a uma"grande exposição" na mídia. "Pela grande exposição dela e também pelo grau de crescimento que tem o PT. O PT tem sempre no mínimo 30%."

Ele mostrou-se confiante numa arrefecida desse avanço. "Acho que vaiter muito tempo pela frente e esse efeito (Dilma) vai passar."

Antecipando um discurso que deverá ser entoado muito na campanha tucana, o governador tentou descolar Dilma da imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dizendo que um chefe de Estado é"insubstituível". "Você tem que ver quem é que vai ser presidente,dirigir as coisas. Porque o presidente é insubstituível. Não há delegação nesse caso."

Biografias. Também defendeu que a população faça uma comparação de biografias ao escolher o próximo presidente e veja "quem é mais capaz de garantir as coisas boas e melhorá-las e quem é capaz de enfrentar os problemas". "Acho que fica meio pretensioso eu me comparar. Isso é coisa que a população que vai decidir. Eu tenho uma história, o pessoal vai conhecer, vai conhecer a história dela, da Marina, e vai julgar."

Depois da entrevista, em visita ao interior paulista, Serra negou que tivesse confirmado sua candidatura presidencial. "Quem disse foi o Datena", afirmou.

Aécio diz que tucanos precisam ter um discurso para norte e nordeste

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, disse ontem que o PSDB precisará ter um discurso para o Nordeste e o Norte para poder conter a popularidade do presidente Lula nas duas regiões:
"É claramente uma região onde encontraremos maior dificuldade, onde o presidente Lula tem maior poder de transferência de votos. Isso é notório".

Segundo ele, "temos que ter um discurso também para essa região que não negue o que foi feito [pelo governo Lula]", disse.

FHC exalta democracia de Nabuco

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Em palestra na ABL anteontem, ex-presidente diz que, embora aristocrata, pensador brasileiro priorizava a igualdade

Fernando Henrique Cardoso abriu ciclo de conferências sobre o centenário de morte de Joaquim Nabuco e o comparou a Tocqueville

Antônio Góis
Da Sucursal do Rio
Ao abrir o ciclo de conferências sobre o centenário de morte de Joaquim Nabuco na Academia Brasileira de Letras anteontem, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comparou o pensamento de Nabuco com o do aristocrata francês Alexis de Tocqueville (1805-1859) para ressaltar que o abolicionista não pode ser considerado um conservador clássico.

Nabuco nasceu em 1849 no Recife. Em sua atuação como parlamentar no império e em seus textos, destacou-se principalmente pela luta abolicionista, mas foi também crítico da república e fiel à monarquia mesmo após sua queda.

Tocqueville é autor de estudos sobre o antigo regime e a Revolução Francesa, mas sua obra mais citada em estudos políticos é "A Democracia na América", em que analisa o sistema político e social dos EUA.

FHC lembrou que, apesar de terem feitos suas análises em períodos diferentes -Tocqueville na primeira metade do século 19 e Nabuco, principalmente na segunda-, os dois escreveram sobre o regime político na Inglaterra e nos EUA.

Para ele, essa comparação evidencia que, apesar de ser também aristocrata, Nabuco tinha um sentimento democrático e igualitário que não se via num conservador clássico como Tocqueville.

O ex-presidente destacou, por exemplo, que os dois se apaixonaram pela Inglaterra, mas por razões distintas. Enquanto Tocqueville ressaltava o papel da aristocracia inglesa, Nabuco se entusiasmava pelo país em função dos seus mecanismos democráticos, em especial o Poder Judiciário.

"Nabuco até aprecia a monarquia na Inglaterra, mas seu lado de pensador político está colocando ênfase no direito dos cidadãos, na liberdade e na possibilidade de acesso à Justiça para todos", afirmou FHC na palestra.

Já em suas análises sobre os EUA, o ex-presidente também destacou o fascínio que o país exerceu nos dois intelectuais.

"Mas Tocqueville não vê o que está acontecendo na América com empatia. Ele sabe que é inevitável a formação de uma sociedade democrática, mas faz duras críticas à igualdade e ao sistema que, como diz, está levando a uma cultura em que a classe média transforma o gozo dos bens materiais em fruição suprema e impede que se veja o interesse público."

Já no caso de Nabuco, FHC destaca que o brasileiro, mesmo se encantando com a ideia de igualdade na sociedade americana, percebeu que ela não era para todos, antevendo já no final do século 19 e no início do 20 um sentimento de superioridade dos norte-americanos sobre outros povos.

"Nabuco destaca que 7 milhões de negros, além de chineses e outros imigrantes, não tinham acesso a essa igualdade. Questiona também se os americanos realmente se sentem iguais aos vizinhos de Cuba ou do México. Mais uma vez, ele expressa um sentimento genuinamente forte de igualdade substantiva, se irmanando com negros, latinos e chineses."

O ex-presidente destacou que Nabuco, talvez influenciado por sua atuação como primeiro embaixador brasileiro em Washington, passou a defender nos últimos anos de vida uma maior aproximação com os EUA como estratégia para que o Brasil exercesse nas Américas papel de moderação.

Para FHC, pode até parecer estranho que Nabuco, que fizera críticas duras aos Estados Unidos, a partir de certa altura achasse que era melhor ter uma relação mais direta entre os dois países.

"Mas ele via nesse movimento uma oportunidade para que o Brasil exercesse nas Américas um papel de moderador", defendeu o ex-presidente.

Ciclo sobre Nabuco segue este mês

DEU NA FOLHA DE S. PAULO
O ciclo de conferências da ABL sobre Nabuco prosseguirá nas próximas semanas. No dia 30, o advogado e economista Roberto Cavalcanti de Albuquerque falará sobre "Nabuco em Recife".

Rubens Ricupero, economista e diplomata, tratará do tema "A diplomacia de Joaquim Nabuco e as questões de fronteiras", no dia 6/4.

A primeira fase do ciclo será encerrada pelo acadêmico Alfredo Bosi, em 13/4, com a palestra "Joaquim Nabuco memorialista".

Na terça, às 17h30, Tancredo Neves, cujo centenário se completou neste mês, é o personagem da palestra do acadêmico Eduardo Portella.

A ''verdade coletiva'' de Lula: Roberto Romano

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

No episódio que abalou a imagem do presidente - o símile entre presos cubanos em greve de fome e bandidos - não sigo os revoltados pelas suas frases. Agradeço por ele usar uma verdade insofismável sobre a sua atitude mental. Desconfio dos que, na tentativa de manter aparências, dizem ter Luiz Inácio da Silva cometido um "escorregão". Se falam de escândalo, talvez acertem. O termo "escândalo" vem do grego "skadzein", cujo significado é "mancar". Ninguém nega que o presidente tenha "mancado" ao perder o freio decoroso na língua. Ele, no entanto, abriu sua alma, exibindo diante do Brasil e do mundo a ideologia que de fato o move.

O público já testemunhou outras distrações do hoje presidente. Em histórica fala a um jornal paulista, ele proclamou que "a liberdade individual está subordinada à liberdade coletiva. Na medida em que você cria parâmetros aceitos pela coletividade, o individualismo desaparece. Ou seja, não há razão para a defesa da liberdade individual. O que você precisa é criar mecanismos para que a grande maioria da comunidade possa participar das decisões" (Lula, 4/1/1986). E acrescentou: "A capacidade de você atender aos desejos individuais sem que isso prejudique os interesses coletivos é uma questão sobre a qual tenho dúvidas. Precisamos promover esta discussão dentro do PT."

Segundo os debates partidários, amigos transformam-se em inimigos do coletivo ideado pelos petistas. "Você pode excluir o grande empresário, a multinacional, mas você precisa discutir se vai excluir o pequeno e médio proprietário do campo e da cidade."

"Eu não quero", disse o sindicalista, "ser o dono da verdade, o senhor da razão". A tolice torna-se ameaçadora no complemento da frase: "Eu tenho uma verdade que está subordinada à verdade coletiva." Treblinka, Auschwitz, o Gulag e Cuba resultam de tais "verdades coletivas". Segundo aquela doutrina, um preso político cubano só pode ser bandido, pois vai contra a verdade, propriedade do Estado.

A exclusão dos inimigos (todos os que não se encontram no partido) se enraíza na cultura petista. Mas após derrotas acachapantes, aconselhado por especialistas em marketing político, Lula maquiou a fala dogmática. Chegaram as alianças eleitorais, a persuasão dirigida aos setores médios e, last but not least, o elo com setores da imprensa. Assustar o grande empresário, a multinacional, além do pequeno e médio proprietário do campo e da cidade, perceberam os petistas, era receita de fracasso. Surgia o esboço do "Lulinha paz e amor" e da Carta ao Povo Brasileiro. Líderes como Antônio Palocci ensaiaram privatizações "neoliberais" em seus domínios. O aço totalitário se cobria com o chantilly propagandístico. Era superada a era das pizzarias e padarias para o PT. Começava o tempo dos bons restaurantes, das garrafas de Romanée Conti. Oligarcas passaram a ser convidados de honra no convescote: Antonio Carlos Magalhães, José Sarney e outros receberam novos títulos, pois garantiam a governabilidade...

A encenação convenceu. Grandes empresas, multinacionais, pequenos e médios proprietários, boa parte da imprensa, todos azeitados pelos dividendos de uma política econômica antes execrada no petismo, aplaudiram o "novo PT". Com as loas ao suposto bom senso, carisma e quejandos de Luiz Inácio da Silva, entoadas no Congresso pela oposição, veio o apoio às iniciativas governamentais na economia e adjacências. Quanto maior o sucesso entre os antigos inimigos, maior o cinismo dos petistas em relação a si mesmos. Discutir a divida externa, romper com o Fundo Monetário Internacional (FMI), controlar o capital estrangeiro? Bravatas. Política radical e socialista? "Nunca fui de esquerda", asseverou o líder, aplaudido em delírio.

Passaram os dias e, arrogantes, seguros de manter o mando, os petistas começaram a soltar os demônios reprimidos. Já no episódio do "mensalão" sobraram raios e trovões contra a "imprensa burguesa", os empresários, os promotores públicos. Mas o presidente foi à TV e pediu desculpas, dizendo não saber a causa de suas escusas. Agora confessa: sabia. Chegaram os aloprados, os projetos de mordaça na mídia, a defesa de Sarney a todo custo (inclusive ao preço da censura, como no caso deste jornal) e as unhas ideológicas apareceram, somadas aos caninos. Lenta e inexorável, ressurge a busca de uma hegemonia ditatorial mantida pelos escravos voluntários, os militantes. Estes tudo fazem para garantir o poder aos donos do partido. Quanto mais seguros de que ficarão no Planalto por mil anos, maior a grosseria dos ataques contra quem não dobra espinha e ouvido às ordens palacianas.

Os cosméticos tombam da face governamental. A lógica de Luiz Inácio da Silva é a mesma, desde 1986. Naquela época importava defender os direitos humanos (nunca incluídos os presos de Cuba) para manter a coesão interna do PT, no qual ombreavam stalinistas e católicos, trotskistas e adeptos da ecologia. Os religiosos defenderam os direitos humanos contra a ditadura, foram adversários das violações em todos os países e sob qualquer ideologia. Quem defende direitos não escolhe ideologia a ser protegida. Mas, com a chegada do PT ao poder, os católicos desembarcam do navio. Ficam os adeptos da razão cabocla de Estado.

A fala do presidente contra os presos cubanos, assimilando-os a bandidos, tem uma gênese mais ampla do que o PT. Ela se enraíza nas purgas nauseantes, como nos Processos de Moscou, em 1936. Ali não existiam dissidentes, mas terroristas. Só possui direito quem se abriga à sombra do partido. O resto é inimigo e... bandido.

Obrigado, Lula, por desvelar o que sempre esteve em seu íntimo. E por nos advertir sobre o que virá nos próximos dias.

Filósofo, professor de ética e filosofia na UNICAMP, é autor, entre outros livros, de "o caldeirão de medeia" (perspectiva)