domingo, 14 de julho de 2013

O pior inimigo - Eliane Cantanhêde

Políticos e marqueteiros quebram a cabeça para transformar as derrotas da presidente Dilma em vitórias, mirando um prazo específico: o final deste ano, início do próximo. Hoje, a 15 meses da eleição, Dilma até pode despencar nas pesquisas e ficar na berlinda. Mas ela tem de entrar em 2014 demonstrando força e real chance de vencer.

Enquanto o Congresso volta à vidinha de sempre, com o ônus do enterro da constituinte exclusiva, em 24 horas, e do plebiscito, em menos de duas semanas, Dilma tenta ficar com os louros de ter oferecido uma resposta às reivindicações populares.

Enquanto médicos esperneiam contra os vetos ao Ato Médico, o serviço obrigatório dos formandos e a importação de estrangeiros, Dilma contabiliza o apoio da população por ter enfrentado o corporativismo para garantir mais atendimento.

Enquanto as centrais sindicais vão às ruas, divididas entre ser a favor ou contra o governo e cheias de dúvidas sobre sua capacidade de mobilização, Dilma elogia olimpicamente o direito à manifestação, mas condena o bloqueio das estradas. Quem haveria de discordar?

Enquanto o circo pega fogo, não militantes vão às ruas, prefeitos vaiam e as centrais tentam recuperar a força e o tempo perdidos, Dilma vira as baterias para os EUA, por causa da espionagem, e para os europeus, por terem vetado o sobrevoo do avião do presidente da Bolívia, Evo Morales. Pega bem.

Esses contrastes são milimetricamente estudados e se sustentam sobre um dado poderoso: a imagem administrativa de Dilma esfarela, mas a imagem pessoal ainda é a de uma presidente séria, honesta, bem-intencionada. Eis uma boa alavanca para a retomada. E tome exposição!

Tudo muito bom, tudo muito bem, só falta combinar com o maior "adversário": o desempenho do governo. A política vai muito mal, a economia vai pior. E não dá para enxergar nenhuma luz no fim do túnel --nem no final deste ano, início do próximo.

Fonte: Folha de S. Paulo

Tempos incertos - Denise Rothenburg

A semana foi recheada de indícios que nos fazem dar certa razão ao que disse o líder do PMDB, Eduardo Cunha, na entrevista publicada hoje pelo Correio. “Nada é tão ruim que não possa piorar”. Obviamente, ele se referia à condução política do governo. Mas a preocupação geral é de outra ordem. As notícias de que os bancos públicos revisaram as projeções de crescimento econômico deste ano para baixo, e a da “dispensa” que o Paraguai deu ao Mercosul, deixaram muitos congressistas preocupados, em todos os partidos, porque reforçam a ideia de que o Brasil, maior país do bloco, não está mais com essa bola toda.

No plano externo, as atenções no continente estão voltadas para a nova aliança do Pacífico, que engloba Chile, Peru, Colômbia e México. Os três primeiros despontam como celebridades sul-americanas no palco mundial, com economias de dar inveja ao démodé Mercosul, onde as notícias de problemas na área acumulam-se.

A presidente Dilma Rousseff percebeu que Peru, Chile e Colômbia estavam em melhores condições do que o grupo do Mercosul, há quase um ano. Não por acaso, manteve encontros bilaterais com os presidentes desses países, durante sua viagem a Nova York, em uma programação paralela à Assembleia-Geral das Nações Unidas. Mas não pôde avançar tanto porque, afinal, temos o Mercosul, e a avaliação do governo como um todo é a de que ruim com ele, pior sem ele.

Diante desse cenário, resta ao Brasil tratar de melhorar as coisas por aqui e no bloco em geral, buscando, inclusive, acordos com a tal Aliança do Pacífico. Falta saber se o personalismo de líderes que pregam um estado inchado permitirá que o Mercosul tenha jogo de cintura para não perder oportunidades. É o caso da Venezuela, por exemplo, e aqui no Brasil também se está criando uma série de empresas públicas de urgência duvidosa. Afinal, a saída do Paraguai, embora tenha a leitura simplista de que a Venezuela entrou e o governo paraguaio “magoou”, está diretamente relacionada ao fato de os paraguaios começarem a olhar para outros lados, mais precisamente para o que está depois da Cordilheira dos Andes. Até aí aplica-se à velha frase, “é a economia, estúpido!”.

Enquanto isso, no Planalto...

A maior preocupação da presidente Dilma Rousseff continua sendo de ordem econômica. A perspectiva, cada vez mais forte, de baixo crescimento este ano põe mais uma frustração no rol de dissabores do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Embora as avaliações em vários partidos seja a de que chegamos à temporada em que a política começa a atrapalhar ainda mais a economia, a cada dia as pessoas confiam menos nas previsões do ministro.

Na parte política, os erros vêm tanto dos próprios congressistas, estressados com as perspectivas eleitorais difíceis, em função das manifestações que rejeitam quase tudo o que está aí; como também do governo, que não exerce o diálogo constante com os partidos oficialmente na base de apoio. Nesse sentido, o recesso branco virá a partir desta semana como uma janela para evitar novas derrotas ao Poder Executivo, até que o governo possa ajustar sua equipe a essa realidade, leia-se, reforma ministerial.

Quem for olhar com cuidado as construções em direção a 2014, perceberá que os partidos ainda continuam ansiosos para participar de fato do governo Dilma. Até mesmo as críticas mais ácidas, como as do peemedebista Eduardo Cunha, na entrevista de hoje, trazem literalmente nas entrelinhas algo do tipo “me chama, me chama”. Isso é um sinal de que a presença de muitos integrantes da base em conversas com a oposição tradicional, ou com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pode não evoluir para compromissos mais sérios. E que a presidente ainda é vista como uma opção forte para as próximas eleições.

E, na Casa Civil...

O secretário executivo do Ministério do Turismo, Valdir Moysés Simão, vai para a Casa Civil cuidar das emendas parlamentares. Ele estava na pasta desde 2011, quando o ministro Gastão Vieira assumiu o Turismo e a pediu à ministra Gleisi Hoffmann que indicasse um técnico que pudesse ainda cuidar do orçamento. Antes disso, ele havia sido secretário de Fazenda do Distrito Federal. É o começo das mudanças para tentar derrubar a tese de que “nada é tão ruim que não possa piorar”.

A recusa do Paraguai em voltar ao Mercosul tem ingredientes econômicos. É um sinal de que o Brasil não está mais com essa bola toda

Fonte: Correio Braziliense

Uma crise puxa outra - Dora Kramer

Desde o dia 24 de junho, quando a presidente Dilma Rousseff foi à televisão tentar responder aos protestos, raro o dia em que o governo não criou uma crise. A cada tentativa de apagar o fogo acendeu um novo foco no incêndio.

Justiça seja feita, é de se admirar tanta competência na arte de fazer inimigos, não influenciar, afugentar e irritar pessoas. Com a ajuda do PT e dos conselheiros a quem dá voz e ouvidos, a presidente saiu comprando brigas em série. Todas as soluções apresentadas resultaram em problemas maiores.

O de potencial mais danoso para o Executivo é o atrito com o Legislativo. Há provas de sobra na História de quem sai perdendo na briga do mar contra o rochedo: Getúlio Vargas saiu da vida, Jânio Quadros renunciou e Fernando Collor voltou à Casa da Dinda.

O Congresso sofre um processo de desgaste profundo e acelerado e é nisso que Dilma e companhia parecem apostar quando escolhem transferir os prejuízos aos combalidos partidos. Não bastasse a proposta de Constituinte exclusiva sem consulta a ninguém, muito menos ao escrito na Constituição, não fosse suficiente o ardil do plebiscito inexequível, o novo homem forte do governo veio a público oficializar o confronto.

O ministro Aloizio Mercadante disse em espantosa entrevista à Folha de S. Paulo que o Congresso iria "pagar caro" junto à população por ter recusado a proposta do plebiscito para fazer a reforma política. Se o que quis dizer é que muitos parlamentares não terão o mandato renovado, fez provocação desnecessária.

Ainda que nenhum dos atuais congressistas seja reeleito, a Câmara e o Senado continuarão onde estão. Já o PT pode não estar mais no Planalto em 2015, se o governo e o partido continuarem tentando recuperar terreno nessa estratégia de socializar os prejuízos que não produz para si um só benefício.

Dilma comprou briga com os médicos, desagradou aos governadores ao usá-los como coadjuvantes de um prato feito no segundo pronunciamento durante os protestos, foi vaiada em recinto fechado por prefeitos normalmente servis e dependentes do poder central, falou grosso (no sentido de grosseria, não de austeridade) com os aliados políticos, subestimou a capacidade das pessoas de distinguir atuação de embromação.

Nenhum dos grupos recebidos pela presidente da República nos últimos dias saiu satisfeito nem convencido da veracidade da súbita disposição ao diálogo. Em outras palavras, e de forma mais elaborada, os convidados dizem o mesmo que a mocinha do Movimento Passe Livre na avaliação sobre a condição da mandatária para responder ao País: "Despreparada".

Irreverência excessiva, assim como a descortesia da vaia dos prefeitos em hora e local inadequados (sede de governo não é estádio de futebol nem praça de protesto). Em contrapartida, a narrativa sobre os modos de convivência da presidente não é a de respeito por atos e opiniões alheias que contrariem a sua vontade.

De certa forma colhe o que semeou. De igual maneira o PT paga o preço da arrogância junto aos partidos aliados, sempre tratados como meros subalternos. Agora mesmo, no meio da crise, o deputado Paulo Teixeira - que pretende disputar a presidência do PT - convocou a base parlamentar a se manter unida em defesa do "nosso projeto".

Ao que muitos reagiram com a pergunta óbvia: "Nosso de quem, cara pálida?". Se a atitude não mudar, o dano hoje, visto como transitório, consolida-se permanente.

Tempo de estio. O encontro de terça-feira passada entre Dilma e Lula, em Brasília, foi cercado do mais absoluto sigilo a conselho do marqueteiro João Santana. Para não alimentar mais os comentários de que a presidente atua sob orientação e tutela do antecessor.

Consta que Lula pediu a ela que fizesse uma "imersão na política".

Fonte: O Estado de S. Paulo

Vento virado - Tereza Cruvinel

Os protestos iniciados na segunda quinzena de junho estão completando um mês, mas neste curto prazo viraram a conjuntura política de ponta-cabeça, numa guinada que lembra a de 1994, quando o lançamento do Real dissolveu o favoritismo de Lula, fortaleceu o presidente Itamar Franco e catapultou a candidatura de Fernando Henrique. Mas ali as consequências foram basicamente eleitorais. Agora, com o pleito mais distante, o giro da roda afetou outros valores, como a estabilidade política, a governabilidade e a dinâmica da economia. E isso agora não é problema das ruas, mas das elites responsáveis.

Neste momento, a oposição colhe o que não plantou e ganha músculos graças ao vigor dos protestos que ninguém esperava. A presidente da República, num movimento arriscado, claramente tenta flertar com as ruas, permitindo que se amplie a distância entre o governo e o Congresso, e que a base de sustentação se estilhace. O esperado sinal de recuperação da economia chegou invertido, com as notícias de retração em maio.

As ruas, na quinta-feira, 11, foram ocupadas pelas centrais sindicais, o MST e outros movimentos da sociedade organizada. É verdade que os atos foram menos massivos do que o alardeado, mas não são menos legítimos do que os da segunda quinzena de junho, espontâneos, organizados a partir das mídias sociais e desvinculados dos partidos. Foram infiltrados por grupos de direita antipartidários e por legiões que desencadearam o vandalismo e a violência. Nem por isso deixaram de expressar o sentimento popular. A sociedade, que é diversa e plural, comporta todos eles, e a todos a democracia deve garantir o direito de expressão e manifestação. Mas os atos do dia 11 mereceram registros diferentes, com indisfarçado sotaque intolerante.

Oposição vitaminada

Talvez apenas a oposição, além, da própria democracia, tenha lucrado com o redemoinho. As pesquisas dirão. Mas é certo que ela deixou para trás o retraimento de que sofria diante de uma presidente bem avaliada, em franca campanha para a reeleição, à frente de um governo que, apesar dos percalços recentes na economia, não sofria contestações na sociedade. Agora temos uma oposição mais desenvolta e articulada. Não há semana em que o presidente do PSDB e presidenciável tucano Aécio Neves não conceda uma entrevista coletiva em que faz pesados ataques ao governo. No Congresso, especialmente no Senado, os oposicionista agora falam grosso e nem precisam disputar o microfone com os governistas intimidados. Rosnam também os aliados dos tucanos, como o DEM e o PPS. No PSB, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, voltou a vestir-se de presidenciável. José Serra recuperou o gosto pela esgrima verbal, especialmente através de seu mciroblog. Aliás, nesse ritmo, tudo aponta para uma disputa presidencial com muitos candidatos, e não com o quadro restrito dos anos recentes.

E se não bastasse, partidos da base governista agora levam água para o moinho da oposição. Como o PDT, que liderou a rebelião para derrubar o projeto sobre destinação dos royalties, na quarta-feira à noite. Uma oposição vertebrada faz bem à democracia e ao próprio governo, forçando a troca do comodismo pela autoexigência.

Governabilidade em risco

Crise de governabilidade não é apenas um cacoete verbal de políticos e analistas. Ela não leva necessariamente a golpes, renúncias e outras formas de ruptura. Frequentemente, leva à deterioração das condições que permitem o progresso de um país. Ela está de visita. Pode se instalar ou se dissipar. Vai depender do governo. Nos últimos dias, o plenário da Câmara votou como quis, adicionando emendas ou modificando as propostas, quase sempre gerando custos altíssimos para o Estado. As medidas de socorro aos agricultores nordestinos que sofrem com a seca ganharam dezenas de penduricalhos, com efeitos sobre as contas públicas. Daqui a pouco, outras medidas, de fato relevantes, poderão ser rejeitadas. A sessão de votação dos royalties foi quase uma luta campal. PT e PMDB, que, diga-se de passagem, agiu como aliado, tiveram que apelar para a obstrução para evitar o pior. Perde a presidente? Não, perde o país, que conseguiu tantos avanços nos últimos anos.

A proposta de plebiscito para a reforma política entornou o caldo, mas ele já estava azedo. Não há centro sólido de articulação e coordenação política do governo no Congresso. Culpar a ministra Ideli Salvatti é fulanizar um problema maior, de postura e compreensão do funcionamento da democracia. Uma coalizão não é um ajuntamento obediente, como parecem pensar alguns. Chamar os deputados de fisiológicos também é simplificar. Dilma é avessa barganhas, festejam alguns. Mas sem compartilhamento do poder e das decisões, não há coalizão.

Agora virá o recesso. A presidente, que detesta agir sob pressão — e dizem que voltará a viajar pelo país, refeita da vertigem de junho —, talvez resolva recompor seu ministério e cuidar de sua abalada sustentação parlamentar. Mais tarde pode ser tarde.

Crises de governabilidade não levam necessariamente a golpes, renúncias e outras formas de ruptura. Frequentemente levam à deterioração das condições de progresso de um país.

Fonte: Correio Braziliense

O desafio da gestão pública - Amir Khair

As manifestações nas ruas e praças trouxeram, além da revolta com o sistema político, cobrança por melhorias na área sociais. Isso pode envolver mais recursos, obrigando o setor público a trabalhar com maior eficiência e eficácia nas suas despesas. Em artigo anterior, prometi tratar da gestão pública visando a racionalização das despesas, pois há muito a fazer nessa área. Com os mesmos recursos à disposição é possível atender mais e melhor as demandas da população.

Infelizmente, o que se assiste é a pressão dos governantes por mais recursos para atenderá pressão social. Nesses dias, governadores e prefeitos foram a Brasília para pressionar os governo federal por mais transferências de recursos. Em resposta, o governo cede alguma coisa, mas aquém js das reivindicações.

Mas, de onde saem esses recursos adicionais? Saem de mais endividamento do governo federal, pois suas contas são historicamente déficitárias ao ter de pagar despesa monumental de juros. Em 2011, foram gastos 5,7% do PIB com juros, e o País, na comparação internacional, só foi ultrapassado pela Islândia, com 6,2%, pois esse pequeno país faliu e passa por situação delicada.

Ao elevar a dívida, cresce a despesa com juros subtraindo os recursos existentes. Assim, quanto mais passa o tempo, piora a situação do setor público, na ciranda de pressão e resposta que vem ocorrendo.

Se não dá para elevar ainda mais a alta carga tributária, restausarbem os recursos existentes. A primeira providência para isso compete ao governo federal. Pode deixar de desperdiçar recursos com juros, pois é ele que define a taxa de juros que paga ao mercado.

Para ter noção desse desperdício, o setor público gastou no período 2002/2012, em média, 6,33% do PIB com juros, o equivalente hoje a R$ 300 bilhões! Nesse período, manteve a Selic entre as mais altas do mundo. Neste ano, apesar do fraco crescimento, e de nenhum país elevar a taxa básica de juros, o Banco Central continua elevando a Selic. Com isso o governo federal dá tiro no próprio pé e perde argumento de falta de recurso.

Os R$ 300 bilhões desperdiçados a cada ano dariam para ter saúde, educação, habitação, assistência social, transporte e segurança em patamares muito superiores de atendimento e qualidade. Os investimentos em infraestrutura teriam permitido reduzir os gargalos da situação existente, que é importante trava ao desenvolvimento.

Em segundo lugar em importância, após os juros, para contribuir a uma gestão superior é a transparência dos gastos. Apesar de ter melhorado a legislação sobre a transparência, é quase impossível avaliar como se dão os gastos nos Estados, municípios e nos poderes Legislativo e Judiciário. Os dados oficiais da Secretaria do Tesouro Nacional sobre as contas de Estados e de municípios está parada em 2011! Com o avanço da transparência, será possível avaliar se a despesa com determinada finalidade está dentro de um padrão considerado satisfatório, dificultando o superfaturamento nas compras, nos serviços e nas obras contratados.

Chama a atenção serem raras as avaliações sobre as despesas de Estados e municípios, aparecendo apenas as do governo federal. Vale destacar que os Estados e municípios foram responsáveis, em 2011, por 64% da despesa não financeira do setor público. Isso pode dar a impressão que as análises possam ter mais motivações políticas do que técnicas. E isso independentemente de quem ocupa o poder federal.

Trato, por razões de espaço, sinteticamente apenas as duas maiores despesas de Estados e municípios: pessoal e serviço de terceiros, que representaram, em 2011, 59,5% da despesa total nos Estados e 69,7% nos municípios.

Pessoal. A despesa com pessoal é a maior no setor público. Em 2011, representou 45,4% da despesa total nos municípios, 47,7% nos Estados e 19,8% no governo federal. Normalmente, pouca atenção é dada à mesma pelos governantes, a não ser nos momentos em que o funcionalismo reivindica reajuste salarial. Quem arca com as despesas de pessoal, como todas as demais, é a população, com os tributos que paga. Assim, é necessária transparência dos salários e benefícios que recebem os servidores como pré-requisito para qualquer decisão de alteração desses itens. A seguir, algumas sugestões.

O absenteísmo é normalmente elevado no serviço público, especialmente pela concessão de licenças médicas imotivadas. Os servidores que se afastam do serviço sobrecarregam os que trabalham e elevam o número de servidores. Para a redução do absenteísmo, é necessário ter um sistema que o apure periodicamente para cada órgão do governo, tornando pública a informação, e deve ser estabelecido um índice máximo de absenteismo, e nenhum órgão pode ser atendido, caso queira contratar mais servidores estando acima do índice máximo.

Outra despesa se dá na relação quantitativa entre chefias e subordinados de cada sessão. É comum encontrar relações de um chefe para um ou dois subordinados. Isso ocorre pela política de conceder vantagens ao servidor por gratificações de funções de chefia. A reorganização administrativa poderá permitir estruturas hierarquicamente mais enxutas, com menor número de diretorias, departamentos e seções, com serviços afins integrados e com o nível adequado de servidor por chefia.

A confiabilidade da folha de pagamento deve ser periodicamente avaliada para evitar: a) funcionários fantasmas e; b) erros na aplicação das metodologias de cálculo dos diversos componentes dos vencimentos e descontos de cada servidor. Algumas consultorias revelam que isso pode proporcionar economias superiores a 10% na folha de pagamento.

Para a gestão de pessoal ser eficaz, é necessário que o quadro de servidores de qualquer órgão esteja ocupado com pessoas que trabalham efetivamente no mesmo. É comum a cessão de servidores entre órgãos dentro de um mesmo Poder, entre poderes e entre níveis de governo. Isso impede a apuração de custos e a gestão de pessoal. Estimo que a adoção dessa providências pode proporcionar uma economia de 20% nas despesas com pessoal.

Serviço de terceiros. Constitui a segunda despesa em importância nos Estados e municípios. Representou, em 2011, 11,8% da despesa nos Estados e 24,3% nos municípios.

Nos municípios, o maior custo é com a limpeza pública (coleta de lixo evarrição de vias e logradouros públicos). É um setor de baixa concorrência, sujeito a formação de cartéis por região e importantes financiadores de campanhas eleitorais municipais.

Pode-se encontrar contratos que superdimensionam o valor dos serviços e as faturas dos serviços realizados podem estar superdimensiona-das, sendo necessária auditoria para a apuração do custo real e fiscalização rigorosa da execução. Infelizmente, isso não ocorre na maioria dos casos. Caso haja gestão competente nos principais contratos, com controles de execução e auditorias periódicas de custos, é possível economias da ordem de 20% nos serviços de terceiros. A gestão bem feita pode liberar e aproveitar melhor o recurso extraído da população em prol dela e muito se pode fazer para avançar nessa questão.

Mestre em Finanças Públicas pela FGV e Consultor

Fonte: O Estado de S. Paulo

Panorama Carioca: A má fase do governador - Gilberto Scofield Jr.

Passei o dia ontem recebendo relatos de cariocas assustados com a resposta de Polícia Militar/Batalhão de Choque a atos de vandalismo durante os protestos. Em todo o mundo, manifestações encontram resistência policial, algumas exageradas. Mas as forças de segurança no Rio parecem confundir cidadão com vândalo e fazer exibições de poder em áreas sem protestos que pedem ações cirúrgicas e bem pensadas.

O governador Sérgio Cabral insiste em não entender que PM e BPChoque precisam de estratégia e inteligência para lidar com situações de multidão em áreas/tempos de paz. Quando essas ações ocorriam em áreas de favela ou periferia, eram um horror somente para uma população que na verdade nunca recebeu a devida atenção dos demais cariocas. Quando ela começa a ocorrer em locais como Largo do Machado, Av. Delfim Moreira, Praça São Salvador, Lapa e até no Hospital Souza Aguiar, ela horroriza a própria classe média que colocou Sérgio Cabral no lugar que ele ocupa hoje por dois mandatos.

Acumulo comigo histórias escabrosas de gente acuada no Bar Brasil, crianças assustadas em pizzarias em Laranjeiras, idosos sufocados com gás em seus próprios apartamentos, gente baleada em bares da Lapa, jovens encurralados no Circo Voador. O sociólogo, cientista político e professor da UFRJ Paulo Baía vem participando das manifestações para estudar mais de perto o fenômeno.

— Uma multidão é uma entidade que hospeda vários grupos. No meio de manifestantes bem intencionados, detectei vândalos, gente ligada ao crime organizado, gente de vans ligada a milícias, e eu não descartaria a presença de pessoas ligadas à oposição ao governo, dispostas a causar tumulto para criar fatos políticos. Mas a reação policial é desproporcional aos atos de violência, porque a polícia não está acostumada a usar estratégia e inteligência para lidar com situações extremas. E o que acontece é um arrastão policial — diz.

Segundo Baía, todos os governadores estão perdendo cacife político por conta disso, e o fenômeno não é exclusivo do Rio. Mas, aqui, a perda de apoio da classe média encantada com o processo de pacificação orquestrado pelo secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, está corroendo rapidamente o capital político de Cabral e do próprio Beltrame. E de quebra, encolhendo as chances de o governador fazer seu sucessor — o vice, Luiz Fernando Pezão — nas eleições de 2014. Os resultados de pesquisas do Datafolha sobre a queda de popularidade de Cabral e os tímidos percentuais de Pezão na corrida de 2014 são evidência disso.

E há outros desafios. O legado da Copa do Mundo e das Olimpíadas, também alardeado pelo governador, acabou corroído pelo superfaturamento na reforma do Maracanã e a falta de transparência na privatização de sua gestão, o que incomodou parte da população que mantém com o estádio uma relação quase amorosa. O Maracanã reformado virou uma espécie de templo da exclusão, apesar da — e por conta da — qualidade. Some-se a isso o estado precário da rede estadual de saúde e educação, o racha entre PT e PMDB no estado e a arrogância da frota de sete helicópteros, e temos a crise de Sérgio Cabral explicitada nas ruas.

Para mudar isso, é preciso bem mais do que discurso prometendo “coibir excessos de ambos os lados”.

Fonte: O Globo, 13/7/2013

O que pensa a mídia - editoriais de hoje nos jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Música: Gal Costa - Minha voz, minha vida

Poesia: Prometeu - Goethe

Encobre, ó Zeus!
o céu com suas nuvens.
E como o jovem
que gosta de colher
cardos no campo, em teu poder conserva
o robusto carvalho e o alto cume
da espaçosa montanha.
Mas consente que eu use
essa terra que é minha,
esse abrigo que eu fiz,
e esta forja que quando faço arder,
tu, no Olimpo, me invejas.

Nada mais pobre eu conheci, ó deuses
do que vós próprios.
Apenas vos nutris
de sacrifícios
e de preces,
dedicados a vossa majestade.
Morreríeis de fome se não fossem
as crianças, os loucos, os mendigos
que vivem de ilusões.

Quando eu era menino
e nada conhecia,
ao sol se erguiam meus sentidos olhos
como se lá houvessem
ouvidos que escutassem meus lamentos,
e um coração tivesse igual ao meu
capaz de consolar a minha angústia.

E quem contra insolência
da turba dos titãs me auxiliou?
Quem me salvou da morte
e me impediu a escravidão?
Não foste tu meu coração somente
ardendo numa chama inextinguível?
Jovem e ingênuo eu tudo agradecia
àquele que no céu
dorme na ociosidade.

Como prestar-te honra? Mas por que?
Deste jamais alívio
aos oprimidos?
Já enxugaste as lágrimas
dos que são infelizes?

Formei um homem,
mas um homem afinal que só se curva
perante o Tempo e o Fado
que são tão meus senhores como teus.

Pensaste tu talvez
que poderia desprezar a vida
e ao deserto fugir
porque nem todos
os meus sonhos floriram?

Aqui estou.
Homens faço segundo a minha imagem,
Homens que serão logo iguais a mim.
Divertem-se e padecem,
gozam e choram
mas não se renderão aos poderosos
como também eu nunca me rendi

sábado, 13 de julho de 2013

OPINIÃO DO DIA – Marina Silva: simbolismo, civilizatório

Tenho a esperança de que, no Brasil, consigamos viver a transição civilizatória --que já se iniciou-- com alternativas menos conflituosas que levem mais à renovação do que à ruptura, embora saiba que uma combinação de ambas é inevitável e necessária.

Marina Silva, ex-senadora, foi ministra do meio ambiente. In “Os sem-gesto”, Folha De S. Paulo, 12/7/2013.

A mudez das ruas

Quando foram engolidos pelos protestos de junho, governo e PT sonharam com uma reação que também viesse das ruas. Ainda no auge das manifestações, anunciaram que poriam os que os apoiam para marchar e lotar praças e avenidas. Este dia chegou, mas o que se viu ontem nas principais cidades do país aproximou-se muito mais de um retumbante fiasco.

O "Dia Nacional de Lutas” foi convocado pelas centrais sindicais, as mesmas que, ao longo destes últimos dez anos, vêm sendo acolhidas no seio do poder. As lideranças petistas viram nas manifestações agendadas pelos sindicalistas uma forma de também mostrar seu suposto poderio e capacidade de mobilização. Queriam lotar as ruas de bandeiras e estrelas vermelhas.

Gente como o ex-presidente Lula e José Dirceu se movimentou para mostrar as garras e pôr a militância para marchar. Queriam demonstrar que ainda têm as rédeas da situação. A aproximação e a adesão à jornada de manifestações chegaram a ser formalizadas, na semana passada, pela própria Executiva Nacional do PT.

Em nota oficial, o comando petista conclamou os militantes "a que assumam decididamente a participação nas manifestações de rua em todo o país, em particular no Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações convocada por ampla coalizão de centrais sindicais e movimentos populares para o próximo dia 11 de julho, em defesa da pauta da classe trabalhadora para o país e da Reforma Política com Participação Popular”.

Os petistas talvez tenham imaginado que conseguiriam produzir o que Fernando Collor tentou em 1992 e não teve sucesso. O então presidente pediu que os brasileiros saíssem de casa trajando verde e amarelo, mas ganhou em resposta ruas tomadas de cidadãos vestidos de preto. A expectativa dos atuais governistas talvez fosse ver o vermelho predominando ontem. Mas o que se viu foi cor alguma.

É possível que agora os petistas tentem se desvencilhar do fiasco de ontem. Mas a verdade é que até ex-ministro do governo Lula estava nas manifestações. A página do partido na internet também está repleta de notícias dando vivas ao movimento. Centrais como a CUT e movimentos alinhados ao governo, como o MST e a UNE, até foram para as ruas, como prometeram, mas não encontraram eco no resto da população.

"Os brados de guerra dos líderes não encontravam repercussão na plateia. A maioria das pessoas não prestava atenção, não aplaudia, não vaiava, não puxava refrões. A exceção eram pequenas claques, que erguiam bandeiras quando seu presidente falava”, resumiu O Estado de S.Paulo, na mais completa tradução das manifestações de ontem.

No "dia de lutas”, ficou mais uma vez patente a distância entre o que os petistas pretendem e o que realmente os brasileiros clamam. Entre as bandeiras empunhadas pelos governistas ontem estavam o plebiscito para a reforma política e a aprovação de um marco regulatório da mídia, temas que o PT não se cansa de defender e que só servem mesmo ao seu projeto de poder.

Desde os protestos de junho, também o governo de Dilma Rousseff vem tentando tomar as rédeas da situação. Ativou sua máquina de criar fatos para pôr a presidente da República dia sim, dia também na televisão anunciando medidas, marteladas em seguida por inserções publicitárias pagas a peso de ouro. De concreto, porém, seus "pactos” não produziram mais que fracassos.

O que tem se visto nestas últimas semanas – e que ontem ficou definitivamente evidenciado – é que o governo Dilma, o PT e os seus satélites respondem de maneira envelhecida a uma situação nova. É o arcaico tentando se contrapor ao contemporâneo. Movimentos que passaram mais de uma década entorpecidos pelo poder e grupos devotados apenas a se manter no comando do país têm pouca chance de seduzir quem está farto do que aí está.

Carta de Formulação e Mobilização Política # 734 - Sexta-feira, 12 de julho de 2013

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

Fracasso de novo partido faz Serra buscar opções para disputar eleição

Daniela Lima

SÃO PAULO - Com o fracasso da operação para criar uma nova legenda de oposição a partir da fusão do PPS com o PMN, o ex-governador José Serra, hoje no PSDB, estuda outras alternativas para sair candidato à Presidência em 2014.

Até então, o partido que nasceria da união do PPS com o PMN, a natimorta MD, seria o destino mais provável para uma candidatura de Serra. O ex-governador está sem espaço no PSDB, já que os tucanos estão praticamente fechados em torno do senador Aécio Neves (PSDB-MG).

Como o PMN desistiu da fusão, o ex-governador passou a estudar uma série de cenários, que incluem desde permanecer em seu partido e, à frente, aguardar a chance de disputar internamente a candidatura com Aécio, até trocar o PSDB pelo PPS, presidido por seu amigo, o deputado federal Roberto Freire.

"O PPS já havia convidado o Serra antes de anunciar qualquer fusão. Portanto, o convite a ele está mantido. Nada mudou", afirma Freire.

Fora do país, o ex-governador conversou ontem com Freire pelo telefone. "Ele demonstrou preocupação com o problema da MD, assim como todos os que torcem para fortalecer a oposição", disse.

Na prática, para Serra, o principal problema causado pelo naufrágio da fusão é que, se decidir sair, terá de deixar o PSDB sozinho.

A criação de uma nova legenda abriria uma janela na lei da fidelidade partidária que permitiria aos deputados e vereadores aliados de Serra deixarem o PSDB sem risco de perda do mandato. Sem a criação da MD, essa possibilidade não existe.

O ex-governador, no entanto, poderia migrar sozinho para o PPS e fazer uma aliança com o PSDB de São Paulo, para a eleição de Geraldo Alckmin ao governo, dividindo o palanque de Aécio no maior Estado do país.
Aliados de Serra já apontam, inclusive, o argumento que o tucano usará, se decidir sair. Dirá que, lançando candidatura, não divide, mas fortalece a oposição. Nessa lógica, quanto mais candidatos forem contra a presidente Dilma Rousseff, mais chances de um segundo turno.

Entre os serristas há ainda quem pregue uma reaproximação com o ex-prefeito Gilberto Kassab, presidente do PSD. O problema é que, hoje, Kassab está com Dilma.

Protestos

Foi a onda de insatisfação popular que ganhou as ruas do país com centenas de protestos em junho que reacendeu a esperança de Serra.

Logo no início dos protestos, ele se reuniu com um de seus colaboradores, o marqueteiro Luiz González, e pediu análises sobre uma candidatura presidencial.

González lhe disse que, até ali, não via chance de sucesso para Serra, dado o desgaste das últimas derrotas eleitorais. Fez, no entanto, uma ressalva: disse que, se o país mergulhasse em uma "grande crise", com frustração econômica e insatisfação social, haveria uma chance de o eleitor buscar "um porto seguro".

Apenas nesse cenário, avaliou, Serra poderia representar uma alternativa, dada sua experiência administrativa.

Desde essa conversa, os protestos atingiram seu ápice e a avaliação da presidente Dilma Rousseff desabou. Serra, então, passou a disputar protagonismo como voz de oposição.

Fonte: Folha de S. Paulo

"Está em aberto o espaço de quem será a mudança", diz Campos

Eduardo mantém nome em novo recado político

Pedro Romero

BELO JARDIM (PE) - Em passagem por este município no Agreste pernambucano, o governador Eduardo Campos (PSB) afirmou, ontem, que "o espaço para quem vai representar a esperança de um Brasil melhor" nas próximas eleições presidenciais (2014) está em aberto. Para o socialista, potencial candidato à Presidência da República, as manifestações ocorridas nos últimos 40 dias mudaram a situação política do País e deixaram o processo eleitoral à espera de quem possa dar respostas aos anseios do povo.

"O espaço para quem vai representar a esperança de dias melhores, as mudanças, está em aberto. Quem imaginaria, há 40 dias, que a situação política iria mudar tanto, com as manifestações que aconteceram?", afirmou Eduardo Campos.

Embora enfatizando que o momento é de trabalhar para vencer 2013, o governador aproveitou para alfinetar a presidente Dilma Rousseff (PT), afirmando que a União precisa dar respostas aos anseios da população.

"É hora de cuidar da economia, botar o Brasil para crescer. O governo federal precisa colocar mais dinheiro na saúde. A tabela paga pelo SUS está congelada há dez anos e assim não se pode oferecer um serviço de qualidade à população. Precisamos de respostas objetivas", atacou o governador e presidenciável pelo PSB.

Indagado se não era a hora de ele aproveitar "o cavalo que estaria passando selado", o governador socialista respondeu, bem humorado, que "em 2014 a gente vê como está o cavalo". Ele acrescentou que a resposta - sobre a eleição presidencial - vai depender do que for melhor para Pernambuco e para o Brasil.

O governador lembrou que já alertou a presidente Dilma sobre as insatisfações. "Tínhamos esses sinais (de insatisfações) e eu disse isso a ela. Alertei que a base de sustentação do governo estava ultrapassada. Disse, no programa do PSB (na TV), que o Brasil queria mais. E pouco depois a população mostrou isso nas ruas. Agora, o voto do povo vai exigir essas mudanças", pontuou.

Para Eduardo, não é hora de ficar torcendo contra, mas de cada um fazer sua parte para ajudar a presidente. "Temos que juntar forças. Todos nós temos que ouvir mais o povo. Não só ouvir, mas fazer. Temos uma pauta concreta, a da saúde. Precisamos, por exemplo, melhorar o atendimento na média complexidade".

Ele também considerou natural que o PT insista na questão da aprovação de um plebiscito.

As declarações foram dadas em visita a esta cidade do Agreste, onde o governador assinou ordens de serviços para a realização de várias obras, entre elas a escola técnica estadual Edson Moura. À tarde, Eduardo visitou a fábrica de baterias Moura.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

PF diz que não houve crime em boatos do Bolsa Família

A Policia Federal concluiu que o boato sobre o cancelamento do Bolsa Família, que em maio causou tumulto em agências da Caixa, se espalhou de forma "espontânea". Disse ainda que a antecipação do pagamento do beneficio pela Caixa ajudou a provocar o problema. À época, ministros falaram em "orquestração" e a presidente Dilma Rousseff chamou o episódio de "criminoso".

Comunicado da PF: "Conclui-se, assim, pela inexistência de elementos que possam configurar crime ou contravenção penal".

Boato do Bolsa Família foi ‘espontâneo’

A Polícia Federal concluiu ontem que o boato sobre o cancelamento do Bolsa Família, que em maio causou tumulto em agências da Caixa Econômica Federal e em lotéricas do Nordeste e da Baixada Fluminense, se espalhou de forma “espontânea”, sem uma articulação criminosa. Os agentes afirmam ainda que a antecipação do pagamento do benefício feito pelo banco naquele mês ajudou a causar toda a confusão.

O fim da investigação derruba a interpretação da ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos, que escreveu na sua conta no Twitter que a notícia falsa devia ser da “central de notícias da oposição”. Em tom menos incisivo, o ministro José Eduardo Cardozo, da Justiça, sugeriu que a confusão foi “orquestrada”. A presidente Dilma Rousseff chegou a classificar o episódio como “criminoso”.

“Conclui-se pela inexistência de elementos que possam configurar crime ou contravenção penal”, afirma o comunicado de ontem da Polícia Federal Maria do Rosário, Cardozo e Dilma não haviam comentado o assunto até a conclusão desta edição.

A investigação durou 54 dias. Os agentes da Divisão de Crimes Cibernéticos ouviram 64 gerentes da Caixa e 1S0 pessoas que souberam do boato por telefone e pela internet nos Estados de Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio. Os agentes federais perceberam que o maior número de saques das contas no final de semana de maio que ocorreu a série de tumultos foi registrado nas agências da Caixa em Ipu, no Ceará, e Cajazeiras, na Paraíba.

“Entre os motivos que levaram os demais beneficiários às j agências bancárias, constam a ciência da antecipação do pagamento por motivos diversos, a informação de um possível adicional em virtude do dia das mães e a notícia de um suposto cancelamento do programa, respectivamente”, afirma a nota.

Na sexta-feira do dia 17 de maio, a Caixa antecipou, por questões de ordem técnica, o pagamento de beneficiários que só viriam a receber no decorrer do rosto do mês - o repasse mensal do Bolsa Família é escalonado.

A assessoria de imprensa da Polida Federal ressaltou, no começo da noite, que aos agentes coube avaliar só se houve configuração de crime, e não uma posroá gestão do banco.

Durante a investigação, os agentes identificarei m que uma postagem em uma rede social feita pela filha de uma beneficiária da cidade de Cajazeíras foi a primeira, menção na internet sobre o assunto.

A mensagem informou apenas que a mãe da internauta tinha antecipado o saque. A polícia afirma que, no geral, “a internet e as redes sociais apenas reproduziram notícias veiculadas pela imprensa sobre os tumultos em agências bancárias"".

Os agentes também descartaram a utilização de rádios comunitárias, telemarketing ou empresa contratada para disseminar os boatos. Ao longo da investigação, fontes da polícia e do governo chegaram a propagar que uma empresa de telemarketing do Rio foi a origem do boato de cancelamento. A partir daí agentes suspeitaram de urna estratégia eleitoral de um grupo para atacar o governo, o que não veio a se configurar.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Oposição quer processar ministra que fez acusações

O deputado Ronaldo Casado (DEM-GO) disse ontem que pedirá à Comissão de Ética da Presidência da República ao Conselho de Ética da Câmara a abertura de um processo contra a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos.

Caiado avalia que a ministra, que é deputada licenciada, não poderia fazer acusações contra opositores por causa do episódio de maio, Maria do Rosário não comentou o caso ontem.

Em nota, o senador Álvaro Días-(PSDB-PR) afirmou que o resultado do inquérito mostra que o governo Dilma Roussef "‘caminha de braços dados com a impunidade”, Ele cisse que a investigação terminou em “pizza”.

Outro tucano, o senador Aloysio Ferreira (SP), disse que ficou evidente a culpa do do presidente da Caixa, Jorge Hereda e de sua diretoria. O presidente do PT, Rui Falcão e a ministra Maria do Rosário acusaram a oposição. O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, e Dilma Rousseff gritaram: "É crime" Tudo isso foi lorota para encobrir a irresponsabilidade doidivanas dos hierarcas petistas instalados na cúpula da instituição.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Brasil nas ruas: Anistia alerta sobre PM

A Anistia Internacional chamou de "violenta e excessiva” a reação da PM do Rio aos atos de vandalismo nas manifestações que terminaram com 46 pessoas detidas. Governo diz que investiga grupos de vândalos. Apesar da baixa adesão, sindicatos dizem que atos foram um sucesso

Anistia critica violência da PM e acende discussão sobre o tema

Polícia diz que está investigando grupo de vândalos que age no Rio

A reação da Anistia Internacional às imagens de confrontos que transformaram em praça de guerra as cercanias do Palácio Guanabara, sede do governo do estado, em Laranjeiras, levantou uma discussão sobre a atuação da PM nos protestos ocorridos no Rio. Em nota, o diretor executivo da instituição, Átila Roque, definiu a reação da polícia como "violenta e excessiva". Ele disse ainda que a polícia "atuou, mais uma vez, movida apenas pelo desejo de reprimir os manifestantes, com uso absolutamente abusivo e desproporcional da força".

No texto, o representante da Anistia Internacional no Brasil disse ter visto a polícia perseguir pessoas pelas ruas de Laranjeiras e Flamengo, encurralar grupos, atacar hospitais e bares com balas de borracha e gás lacrimogêneo. "Algo inacreditável".

As ações violentas desencadeadas por pequenos grupos, somadas ao forte revide da polícia, acabam trazendo sempre o mesmo resultado: confronto e depredação do patrimônio público, sem que se faça uma distinção entre os manifestantes.

- Há diferentes grupos violentos, os pré-políticos, que não têm propostas, e os políticos, que realmente defendem um confronto com o Estado. O primeiro é o indivíduo psicologicamente perturbado que age envolvido pela multidão, e isso ocorre em qualquer tipo de aglomeração social. Há os anarquistas, dos quais fariam parte os Black Blocs, que consideram o Estado opressor, e por isso têm a necessidade de marcar um conflito. Esse grupo tem um comportamento mais teatral. Mas são motivos políticos; essas pessoas não são loucas - explica Manuel Sanches, professor do IFCS.

Nos confrontos registrados no Centro na noite de quinta-feira, foram encontrados com um grupo caixas com coquetéis molotov. Manifestantes se dividem sobre o tema da violência em protestos. Para Pablo Mendelbaum, um dos criadores do evento no Facebook "Impeachment Sérgio Cabral, improbidade administrativa e violência policial", o uso da violência por civis é uma reação à truculência policial:

- A partir do momento em que vou a uma manifestação pacífica e recebo violência do Estado, a reação é uma ação de legítima defesa. Quando não há diálogo, não há o que fazer. A gente não tem canal com a polícia, não há retorno, não há investigação sobre abusos. Como cobrar que sejamos pacíficos quando o estado, que tem o monopólio da violência, não investiga?

De acordo com a polícia, no entanto, as ações violentas são sempre desencadeadas por um grupo infiltrado entre os manifestantes pacíficos.

A tradutora Natasha Zadorosny, que participou de grande parte dos protestos em junho, o uso da violência faz com que os manifestantes percam a razão:

- Defendo uma manifestação completamente pacífica, fiquei apavorada no protesto de segunda (17/06) quando picharam o Paço Imperial. Doeu de ver. A grande força é o volume de pessoas nas ruas.

Cabral critica excessos

Ontem, o governador Sérgio Cabral disse que tanto a violência da polícia quanto a dos manifestantes deve ser rejeitada:

- Não é assim que se faz oposição, não é atacando palácios, é debatendo. Essa oposição que veio para cá ontem (quinta-feira) não respeita o jogo democrático, o debate, o diálogo.

De acordo com a Polícia Militar, 46 pessoas foram detidas nos protestos de anteontem. A Polícia Civil informou que o grupo Black Blocs e outras pessoas estão sendo investigadas.

- Sou radicalmente contra a violência. Movimentos pacíficos têm o poder e vigor de pressionar os governos. Essa violência tem aparecido de forma proposital, são grupos organizados. Isso desperta um pavor nas pessoas. Nunca vimos lojas e bancos fecharem, colocarem tapumes. Nem os anarquistas fariam isso, eles sempre mostraram a cara - disse Darby Igayara, presidente da CUT-RJ.

Fonte: O Globo

Centrais negam que estejam defasadas para manifestações

Adesão modesta aos atos de anteontem não é vista como problema, mas líder da CUT admite que é preciso "uma autocrítica".

Ricardo Chapola

Mesmo após a baixa adesão popular ao Dia Nacional de Lutas, líderes das centrais sindicais defenderam ontem a força de mobilização dos sindicatos para promover manifestações de rua, Anteontem, 105 mil pessoas participaram da série de protestos ocorridos pelo País, volume bem menor que os atos espontâneos iniciados no dia 6 de junho e propagados pelas redes sociais. As centrais negam que estejam "defasadas" em seus métodos.

"Não são defasados. E nós usamos também a internet", afirmou o presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah. "O caminhão de som é emblemático. Ele pode significar o passado, mas nós o utilizamos como instrumento. Mas acoplado a toda a tecnologia mais avançada que tem no mundo."

O secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna, afirmou que não se comparam "instituições com instrumentos", mas disse que as centrais sindicais ainda tem poder de mobilização. "Anteontem nós movimentamos o Brasil todo", destacou.

Em um encontro no mês passado, um representante das centrais disse com o microfone aberto da plenária que "a internet não decide quando vai se fazer greve". Era uma crítica ao modelo sem líderes que o Movimento Passe Livre (MPL), por exemplo, usou para divulgar os protestos contra o aumento das tarifas de transporte público em junho - e que chegou a levar 30 mil pessoas para a Avenida Paulista. Na quinta-feira, segundo a Polícia Militar de São Paulo, havia 7 mil pessoas na Paulista 110 pico da manifestação. Os organizadores falaram em 20 mil A Força usou o termo "milhões".

O presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores (CUT-SP), Adi dos Santos Lima, reconheceu falhas de representatividade das centrais e disse que a estrutura atual precisa ser revista.

"É evidente que os sindicatos precisam fazer uma autocrítica em relação à comunicação com a juventude", afirmou.

Em reunião na manhã de ontem, as centrais prometeram fazer um novo protesto no dia 30 de agosto, em Brasília, caso o governo não abra negociações com a categoria sobre a pauta trabalhista que entregue à presidente Dilma Rousseff em março. "Se nos enrolar, já está marcado. Aí sim, um ato com outra dimensão, diferente do de ontem", afirmou Patah.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Empregados, petistas não fazem mais greve

Para o presidente do PT, Rui Falcão, presença de militantes foi tímida porque eles estão empregados

PT diz que militantes não foram às ruas porque agora estão empregados

Mas petistas históricos avaliam que partido se transformou em "máquina eleitoral"

Thiago Herdy

SÃO PAULO - O presidente nacional do PT, Rui Falcão, minimizou ontem a baixa participação de petistas nas manifestações convocadas pelas centrais sindicais em São Paulo, atribuindo a ausência à indisponibilidade de militantes para participar, apesar da convocação feita pelo partido.

- A militância participa no limite da sua disponibilidade. Tem muita gente que, felizmente, está empregada agora depois de 10 anos do governo Lula. (A manifestação) Foi durante a semana, não era feriado, boa parte da nossa militância está empregada - ironizou o dirigente, que admitiu não ter ido ao ato para "não se expor", por sugestão dos próprios sindicalistas.

Ontem, petistas históricos e simpatizantes lamentaram a discreta participação nos atos em São Paulo, berço do partido e espaço de constante participação da sigla no passado.

O sociólogo Chico de Oliveira, fundador do PT, acredita que a ausência mostra como o partido "se burocratizou e se transformou em máquina eleitoral e política, no lugar de partido da transformação".

Preço da "modernização"

Para Chico de Oliveira, o partido paga o preço de sua "modernização" e não tem mais condições de mobilizar as massas para ocupar as ruas, assim como outros partidos.

- Os movimentos de massa foram muito importantes na História do Brasil, no combate à ditadura, em especial, mas não é preciso ficar tentando fazer de novo daquele jeito. É no Congresso que os partidos políticos precisam se revitalizar - diz o sociólogo, para quem o país segue a partir de agora tendência observada nos EUA e na Europa, onde a participação política se dá cada vez menos nas ruas.

Um dos únicos a levar sua bandeira com a estrela do PT na manifestação de quinta-feira, o petista Markus Stokol discorda de Oliveira.

- O PT só tem sentido como partido se corresponder a seu propósito fundador, de subordinar toda sua participação no plano institucional ao movimento de massas popular, com objetivo de transformar o Estado. Ele precisa expressar a identidade da classe trabalhadora. Esse papel não pode ser confinado no Parlamento ou no Executivo - diz Stokol, para quem o partido corre o risco de se dissolver ao perder sua capacidade de se mobilização:

- É preciso mais compromisso com as reivindicações do povo, o governo é um instrumento, não um fim em si mesmo.

Para Frei Chico, irmão do ex-presidente Lula e responsável por sua filiação ao PT, é hora de a esquerda repensar sua atuação:

- Quem militou na esquerda tem que aprender a fazer autocrítica, tem que reconhecer que está errando em alguma coisa. Está todo mundo achando que é dono da verdade, que acabou, e isso não é certo. Só posso falar que estão todos desgastados nessa história.

Fonte: O Globo

PIB aponta para recessão

Queda de 1,4% em maio é o pior resultado desde 2008, quando o mundo entrou em crise. A equipe econômica, no entanto, mantém previsão de 3% de crescimento este ano

Recessão a caminho

Prévia do PIB, calculada pelo Banco Central, cai 1,4% em maio. É o pior resultado desde dezembro de 2008, quando o mundo ruiu

Simone Kafruni

Os indicadores de atividade dão sinais cada vez mais claros de que a economia brasileira se aproxima de uma recessão, ainda que leve e passageira. Ontem, essa hipótese foi reforçada pelo Banco Central, que registrou, em maio, retração de 1,4% no Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB). Foi o maior tombo mensal desde dezembro de 2008, quando o Brasil sentiu o impacto do estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos. Naquele mês, a queda foi de 4,3% e o país mergulhou na recessão, como quase todo o mundo.

Mesmo pessimista, nem o mercado acreditava em um recuo tão grande do IBC-Br em maio. Os analistas apostavam em retração de, no máximo, 1,2%. Com o resultado captado pelo BC, no acumulado de 12 meses, o indicador aponta alta de 1,89%, sinalizando que o Brasil terá de conviver com pibinhos por um bom período. Nas contas dos especialistas, tudo leva a crer que, no segundo trimestre do ano, o PIB oficial, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), avançou entre 0,5% e 0,8%, abaixo, portanto, da estimativa de 1% alardeada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. A se confirmar mais esse resultado fraco — entre janeiro e março, o salto foi de frustrante 0,6% —, o crescimento da economia neste ano será inferior a 2%, mais para 1,5% do que para 1,8%. Mantega, porém, manterá o discurso de que é possível um incremento de 3%.

A queda no IBC-Br ocorreu um mês depois de o BC iniciar o ciclo de alta dos juros, com o objetivo de combater a disparada da inflação, que, em março, havia estourado o teto da meta de 6,5%. Em abril, a taxa básica (Selic) passou de 7,25% para 7,5% ao ano e, em maio, atingiu 8%. Nesta semana, com os juros pulando para 8,5% ao ano, o mercado sacramentou que o governo tinha perdido a guerra para o crescimento do PIB deste ano. O objetivo do arrocho monetário, agora, é tentar salvar 2014, quando a presidente Dilma Rousseff buscará a reeleição. Mas os especialistas veem um ano ainda mais difícil do que 2013, com PIB minguado, inflação na casa dos 6% e desemprego em alta.

Confusão

As mudanças bruscas dos indicadores, sempre para pior, têm assustado os analistas e técnicos do governo. “Nossa aposta era de avanço de 2,2% para o PIB neste ano. Mas esse número, agora, adquiriu viés de baixa. Estou ressabiado em fazer uma análise para o segundo trimestre, porque a confusão é tanta que está difícil entender os indicadores”, disse José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. Na avaliação do economista-chefe do Espírito Santo Investment Bank (BES), Jankiel Santos, independentemente da instabilidade dos números, o certo é que o IBC-Br “jogou um balde de água fria em todo mundo”.

Para os analistas, tudo está pesando contra a economia brasileira. Não bastasse o mercado externo estar ruim, com a Europa ainda em recessão, a China desacelerando rapidamente e os Estados Unidos se recuperando a passos lentos, há uma desconfiança generalizada em relação ao governo, que tem cometido uma sucessão de erros — o mais grave deles, ter sido leniente no combate à inflação que corroeu o poder de compra das famílias já muito endividadas. As empresas suspenderam os investimentos produtivos, o dólar disparou, criando mais pressões sobre o custo de vida, e as contas públicas estão desmoralizadas. “Em meio a tudo isso, a indústria caiu 2% em maio e as vendas do varejo ficaram estagnadas”, disse o economista-chefe do INVX Global, Eduardo Velho.

Fonte: Correio Braziliense

Nó do crescimento: As promessas não cumpridas de Dilma

Baixar juros, não fazer malabarismos fiscais e investir em infraestrutura são promessas não concretizadas na economia

Promessas não cumpridas

Com retomada da alta dos juros, economistas questionam qual será a marca do governo Dilma

Clarice Spitz, Roberta Scrivano

RIO E SÃO PAULO - Na véspera do dia 1º de maio de 2012, a presidente Dilma Rousseff foi à TV para anunciar a batalha contra os juros altos, na época em 9% ao ano. Usou palavras duras para criticar os bancos, e sua determinação foi motivo de elogios entre aliados. Pouco mais de um ano depois, o cenário mudou. A inflação disseminada e resistente - que já superou o teto da meta de 6,5% duas vezes neste ano - levou o Banco Central a iniciar um ciclo de alta dos juros com três aumentos seguidos na Selic. E a maioria do mercado já aposta que a taxa encerrará 2013 a 9,25% ao ano.

Economistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que a bandeira dos juros baixos não foi a única promessa a ficar para trás. Eleita com uma campanha focada no perfil de de gestora eficiente, a presidente se tornou alvo da cobrança por resultados. Os investimentos não deslancharam apesar dos incentivos tributários à indústria. A taxa de investimento considerada ótima pelo próprio governo, de 24% a 25% do PIB (Produto Interno Bruto, soma dos bens e serviços produzidos no país) não foi alcançada. No primeiro trimestre deste ano ficou em 18,4% do PIB. Métodos heterodoxos nas contas públicas - a contabilidade criativa - foram um dos principais fatores que levaram a agência de classificação de risco Standard & Poor"s a ameaçar rebaixar o rating do Brasil, com uma perspectiva negativa. O avanço da inflação, que nos 12 meses encerrados em junho chega a 6,7%, e a acomodação do mercado de trabalho têm feito a renda do trabalhador crescer cada vez menos.

Diagnóstico falho

Mesmo economistas que destacam a importância da queda dos juros promovida nos dois primeiros anos de governo afirmam que Dilma não foi capaz de impulsionar o investimento:

- Ela fez um grande esforço, mas não conseguiu reativar a taxa de investimento no Brasil - afirma o economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES.

Para Felipe Salto, analista da Tendências Consultoria, faltou planejamento:

- O governo quis baixar os juros na marra, mas o problema era de confiança, ou seja, de incluir a iniciativa privada nas discussões de investimento.

O economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, tem avaliação similar e aponta o diagnóstico equivocado do governo quanto ao cenário macroeconômico como um dos principais responsáveis pelo pessimismo na economia. Analistas de mercado esperam que o país cresça apenas 2,34% este ano, e as previsões para o próximo ano já apontam uma expansão inferior a 3%.

- Ela conseguiu baixar os juros e subir com a inflação. Faltou um diagnóstico claro a respeito do cenário macroeconômico, que o limite de crescimento estava no lado da oferta.

Um dos efeitos indesejados da redução dos juros foi a volta da inflação a níveis que ultrapassam o teto da meta. No dia 8 de março deste ano, Dilma voltou à TV para anunciar a desoneração da cesta básica. A medida, de amplo apelo popular, não surtiu o efeito esperado. O governo dava como certo que a inflação de alimentos, que estava no patamar de dois dígitos, cairia imediatamente. Só começou a ceder em maio, depois de subir 13,99% até abril e consagrar o tomate como vilão da alta de preços.

Contabilidade criativa

Os problemas de gestão não se restringem aos índices de preços. Um dos pontos mais sensíveis na avaliação de especialistas é a gestão das contas públicas. Parte dos economistas afirma que o governo só será capaz de cumprir a meta de superávit primário (economia para o pagamento de juros da dívida pública) anunciada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de 2,3% do PIB, com o auxílio de manobras contábeis.

- Com a contabilidade criativa, qualquer superávit primário pode ser alcançado. A imagem que esse governo tem deixado é justamente a da falta de gestão e da desestruturação do sistema tributário - explicou Fernando Zilveti, professor de direito tributário da Fundação Getulio Vargas de São Paulo.

Até mesmo a melhoria da infraestrutura, uma das principais promessas de Dilma, foi alvo de estratégias consideradas equivocadas pelos especialistas. Além de alterar alguns dos principais marcos regulatórios do país - o que tradicionalmente tem efeito negativo sobre os investidores - os projetos contam com atrasos significativos. Entre eles, a concessão de ferrovias, rodovias e energia elétrica.

Especialistas em infraestrutura têm dificuldade em apontar projetos prontos ao longo dos dois anos e meio do governo. Fernando Heil Martins, sócio da consultoria Bain&Company, lembra da concessão dos aeroportos de Viracopos (Campinas), Guarulhos (SP) e Brasília.

- Essas concessões foram feitas em tempo recorde. Isso foi bom, mas ocorreu também por conta de uma pressão de prazos por conta da Copa do Mundo. Vamos ver se as concessões de Galeão (RJ) e Confins (MG) sairão. Aí sim poderemos colocar isso como um feito do governo - pontuou.

As críticas incluem até mesmo o perfil de atuação da presidente, considerada excessivamente centralizadora. Além disso, a comunicação com o mercado também necessita de ajustes, segundo os analistas.

- O governo se comunica muito mal. Há excessos de interlocutores e não há uma mensagem clara. A falta de confiança dos empresários se deve a erros na condução da política fiscal e econômica, como as manobras contábeis para se alcançar o superávit fiscal - afirma Antônio Corrêa de Lacerda, da PUC-SP.

Redução da pobreza

O professor da FEA-USP Paulo Roberto Feldmann considera pouco moderno o modelo de administração do governo Dilma, com seus 39 ministérios:

- Falta nesse governo uma reforma administrativa para agilidade e eficiência. Enxugar os ministérios e as estatais indicaria que o governo está comprometido com a modernidade, com o combate à inflação e com as metas do primário - afirma.

O ministro interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) e presidente do Ipea, Marcelo Néri, defende que o governo Dilma seja lembrado pelos ganhos trabalhistas e pelo aumento de renda. Segundo ele, de 2003 a 2011 a pobreza caiu 57,8%, e a renda dos 10% mais pobres avançou 768% em termos reais per capita . O economista reconhece, no entanto, que a inflação e o pleno emprego têm afetado o ritmo de ganhos em 2013. Enquanto a renda média per capita real subiu 5,1% em 2012, em maio deste ano, avança 3,12%, nos últimos 12 meses.

- Ela mostrou foco e determinação no combate à pobreza. Hoje a economia está com nível próximo ao pleno emprego. Houve um repique da inflação e ela aumentar é um problema, mas os ganhos salariais superam o aumento do custo de vida - disse.

Fonte: O Globo

Guerrilha cibernética - Cristovam Buarque

O Brasil conseguiu realizar sofisticada "modernidade-técnica", mas não fez sua "modernidade-ética". Produzimos milhões de automóveis e temos um péssimo sistema de transporte público, inventamos e usamos urnas eletrônicas, mas não eliminamos a corrupção, nem no comportamento dos políticos nem nas prioridades das políticas; nem incorporamos a participação dos eleitores em tempo real no processo político.

O descontentamento com a construção da "modernidade-técnica" sem fazer a "modernidade-ética" é a principal causa das manifestações que tomaram as ruas, já apontado no livro "A revolução nas prioridades: da modernidade-técnica à modernidade-ética", de 1992, Ed. Paz e Terra.

O futuro imediato é preocupante se não percebermos os riscos e não formos capazes de promover uma inflexão histórica para construir um país com métodos políticos diferentes, capazes de realizar prioridades diferentes.

Por enquanto, as manifestações são dos "desiludidos", aqueles que perderam a esperança no fim da corrupção, na possibilidade de elevar ilimitadamente seu padrão de consumo e de ter um diploma universitário que assegure emprego com renda alta. Não devem demorar a ocorrer manifestações dos "desesperados", aqueles que nunca tiveram esperança de terem boa educação, emprego com alta renda, consumo elevado.

Quando esses dois grupos se encontrarem, mesmo que em momentos e locais separados, "desiludidos" e "desesperados" carregarão a mesma raiva contra o sistema utilizado ao longo de décadas. Isto se agravará com a crise econômica que não consegue mais ser adiada, nem escondida.

Este quadro fica ainda mais arriscado quando percebemos que a luta não precisa de partido, nem de líder, nem de bandeiras ideológicas. Basta descontentamento para que um jovem conectado à internet possa reunir dezenas ou centenas de pessoas capazes de fechar uma estrada, arrombar portas de lojas, invadir condomínios. O resultado é impossível de ser controlado, mesmo se a polícia monitorasse todas as trocas de e-mails na cidade.

Aos fatores anteriores se une o risco da falta de entendimento da gravidade do momento, fazendo com que os dirigentes, no Executivo e Legislativo, estejam optando por enfrentar o esgotamento do modelo usando gestos teatrais de marketing político. O momento exige mais do que reforma, mais até do que revolução. Exige a invenção de uma nova forma de fazer política - que ainda não sabemos como será -, com novos objetivos para um tipo alternativo de economia e sociedade que apenas conseguimos especular.

Infelizmente, estamos viciados nos velhos propósitos da sociedade de consumo e nos velhos métodos da política. Assim fica difícil reorientar o projeto civilizatório do país, em direção a uma "modernidade-ética", sem corrupção no comportamento dos políticos nem nas prioridades da política. Só uma invenção desse tipo de projeto será capaz de acabar com o desespero, o descontentamento e pacificar a "guerrilha cibernética" já em marcha.

Senador (PDT-DF)

Fonte: O Globo

Um gesto americano - Merval Pereira

O governo dos Estados Unidos está disposto a fazer , nos próximos meses, uma revisão de seu sistema de monitoramento de informações no exterior . O gesto é um reconhecimento da dificuldade criada por seu país aos países da Europa e da América Latina que foram alvos de espionagem da Agência de Segurança Nacional dos EUA (National Security Agency — NSA, na sigla em inglês)

O programa de acompanhamento de e-mails e ligações telefônicas foi denunciado pelo GLOBO, com base nas informações do ex-técnico da CIA Edward Snowden, que já havia denunciado o esquema a nível internacional.

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil ,Thomas Shannon, informou às autoridades brasileiras que um grupo de especialistas americanos virá ao Brasil e a outros países, citando diretamente a Alemanha, para iniciar essas conversações . Não houve a especificação sobre a missão americana, mas as autoridades brasileiras consideraram que uma reformulação desse sistema denunciado pelo ex -técnico da CIA Edward Snowden é necessária para que as relações bilaterais não sejam afetadas mais do que já foram no episódio .

Um ministro chegou a comentar que seria desnecessário enviar especialista s para explicar às autoridades brasileiras como funciona o sistema de espionagem dos Estados Unidos , “pois isso a gente já sabe”. O governo americano estaria inclinado a um gesto desse tipo para dar aos países aliados razões para continuar agindo de maneira a não aumentar a crise internacional.

A situação do Brasil, por exemplo, seria delicada devido ao Mercosul, que reúne países da região hostis, na sua maioria, aos Estados Unidos, e a reação negativa, como era esperado, ganhou tom aci-ma do que vinha sendo utilizado pelo próprio governo brasileiro. Foi anotada pela diplomacia dos EUA a não adesão do governo brasileiro a sugestões drásticas feitas no calor da descoberta do esquema de espionagem, como dar asilo a Snowden ou cancelar a viagem de Estado que a presidente Dilma fará aos Estados Unidos brevemente.

O exemplo contrário é o do governo de Nicolás Maduro na Venezuela, que vinha negociando nos bastidores uma reaproximação com os Estados Unidos, mas não resistiu a oferecer asilo a Snowden quando a oportunidade surgiu. O governo americano está ciente de que será necessário dar um tratamento especial ao Brasil nesses gestos de boa vontade justamente para permitir que o governo brasileiro tenha condições políticas de manter uma posição equilibrada na questão.

O caso do presidente da Bolívia, Evo Morales , que, em 2 de julho , na volta de uma viagem oficial à Rússia, teve os espaços aéreos de França, Espanha, Portugal e Itália fechados a seu avião oficial devido à suspeita de que Snowden estivesse a bordo, é emblemático de como essas situações delicadas das relações internacionais têm diversas facetas .

O fato de os governos europeus terem colaborado no cerco ao avião de Morales é ao mesmo tempo uma demonstração de que eles continuam apoiando os EUA, mesmo depois das denúncias de espionagem, mas também é combustível para aprofundar as divergências dos países da América Latina com a política externa americana. Os presidentes do Mercosul assinaram ontem documento em que deixam claro “o repúdio à espionagem por parte dos Estados Unidos nos países da região ”.

Também haverá ação conjunta contra os países europeus exigindo desculpas formais pelo constrangimento a que teriam submetido Evo Morales . É previsível que, depois da revelação desse esquema de monitoramento de dados, a questão da segurança cibernética ganhe relevo na região e em especial no Brasil, que tem informações importantes a proteger , desde o enriquecimento de urânio até a exploração do pré-sal.

O ministro da Defesa, Celso Amorim, admitiu no Senado que o Brasil é vulnerável à ação de outros países e mesmo de hackers , e pretende aproveitar o episódio para transformar o tem a da segurança cibernética em prioridade em sua área. O fato é que o governo brasileiro soube enfrentar as denúncias com uma atitude firme, mas sem transformá-las em uma crise institucional que impedisse a continuidade das relações com os EUA em bom nível, como hoje. O passo seguinte está com os Estados Unidos.

Fonte: O Globo