sábado, 9 de maio de 2020

A marcha dos camisas pardas – Editorial | O Estado de S. Paulo

Um grupo de brucutus apoiadores do presidente Jair Bolsonaro – chamados “300 do Brasil” – armou acampamento no entorno da Praça dos Três Poderes para organizar uma invasão ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Os camisas pardas do bolsonarismo, que agora vestem verde e amarelo e roupas camufladas, programam uma marcha sobre Brasília neste fim de semana. “Nós temos um comboio organizado para chegar a Brasília até o final desta semana. Pelo menos uns 300 caminhões, muitos militares da reserva, muitos civis, homens e mulheres, talvez até crianças, para virem para cá e darmos cabo dessa patifaria”, ameaçou Paulo Felipe, um dos líderes da milícia acampada, em vídeo divulgado em uma rede social.

A palavra “patifaria” não foi escolhida ao acaso. Resulta de uma irresponsável incitação. No dia 19 de abril, dirigindo-se a apoiares reunidos em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro exortou a súcia que pedia o fechamento das instituições democráticas a “lutar” com ele. “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. Acabou a patifaria!”, bradou Bolsonaro, como se estivesse prestes a descer da Sierra Maestra, e não de uma caminhonete transformada em palanque.

Desafio constante – Editorial |Folha de S. Paulo

Incapaz de aceitar limites, Bolsonaro constrange STF com encenação patética

Ao abrir a sessão plenária do Supremo Tribunal Federal na quarta-feira (6), o ministro Dias Toffoli definiu a corte que preside como última trincheira da sociedade na defesa dos direitos assegurados pela Constituição.

Pregou a harmonia entre os Poderes, condenou as agressões sofridas por jornalistas numa manifestação de apoiadores de Jair Bolsonaro no domingo (3) e cobrou respeito às decisões do tribunal, alvo predileto da turba golpista.

Tratou-se de uma resposta adequada às provocações do presidente, ainda que tardia —como corretas e demoradas, por sinal, têm sido as reações de Toffoli.

Fazia dias que, inconformado com o veto do STF à nomeação de um apaniguado para o comando da Polícia Federal, Bolsonaro ameaçara desafiar a determinação judicial e atacara o ministro Alexandre de Moraes, que assinara a liminar.

Planalto deveria seguir lição de Toffoli – Editorial | O Globo

Há planos de saída ordenada do isolamento, em sentido contrário ao que defende o presidente

Se fez algum balanço da marcha rumo ao Supremo na quinta-feira, à frente de industriais que foram visitá-lo em audiência no Planalto, o presidente Bolsonaro, pelo seu estilo, não deu qualquer importância à sugestão que recebeu do presidente do STF, ministro Dias Toffoli, de se aproximar de governadores e prefeitos para constituir um comitê ou gabinete de crise a fim de juntos coordenarem a saída do país do isolamento social, de forma organizada e em bases técnicas. Não deu importância, mas deveria dar.

Bolsonaro empacou na defesa intransigente do fim do isolamento sem quaisquer planejamento e cuidado, mas a realidade não dá alternativa melhor ao Brasil, como não deu nem está dando a outros países. O presidente demitiu o ministro anterior da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, porque ele não aceitava a proposta voluntarista do chefe, nomeou outro médico, Nelson Teich, cuja posição na essência não é diferente da do antecessor. Ambos têm diplomas e carreiras a preservar.

Merval Pereira - Um governo deteriorado

- O Globo

Presença de seus ministros de origem militar na comitiva mórbida indica que eles pensam igual a Bolsonaro

À medida que os fatos políticos vão ocorrendo sem que as barreiras institucionais sejam eficazes para conter o ímpeto corrosivo do presidente Bolsonaro, preocupa que militares antes considerados capazes de incutir bom-senso ao governo estejam avalizando uma visão paranóica da situação política.

O General Vilas Boas, ex-comandante do Exército e figura icônica entre seus pares, encontrou palavras para elogiar a entrevista à CNN da ainda secretária de cultura Regina Duarte onde ela, em vez da “sensibilidade” que o general vislumbrou, demonstrou uma absurda indiferença diante das mortes pela Covid-19, das torturas e mortes na ditadura militar.

A mesma insensibilidade que o presidente Bolsonaro explicitou ao ir de supetão ao Supremo Tribunal Federal (STF) pressionar pelo fim da quarentena, num momento em que o país claramente entra na fase aguda da pandemia e tem o número de mortes diário aumentando dramaticamente.

A presença de seus ministros de origem militar na comitiva mórbida indica que eles pensam igual a Bolsonaro, ou se submeteram a seu desprezo pelo sofrimento alheio, numa visão utilitarista da vida em sociedade.

Ascânio Seleme - Regina, fria, insensível e debochada

- O Globo

Entrevista que Regina concedeu à CNN mostrou o lado mais obscuro da atriz, a sua frieza e insensibilidade, o caráter tão deformado quanto o do seu antecessor

Quando Regina Duarte foi anunciada como substituta do nazista demitido da Secretaria de Cultura há dois meses, muitos se equivocaram (este colunista inclusive) acreditando que o setor ganharia com sua nomeação. Afinal, era uma atriz com meio século de experiência e que conhecia muito bem a cultura nacional, suas necessidades e precariedades. O fato de ser aliada de primeira hora de Jair Bolsonaro fazia parte do jogo, não se podia esperar que o presidente chamasse Chico Buarque para o posto. Foi um engano terrível.

A entrevista que Regina concedeu aos repórteres Daniel Adjuto, Daniela Lima e Reinaldo Gottino, da CNN, mostrou o lado mais obscuro da atriz, a sua frieza e insensibilidade, o caráter tão deformado quanto o do seu antecessor Roberto Alvim. Debochada, a secretária zombou da morte, da tortura, fazendo uma dancinha patética na cadeira enquanto cantarolava “Pra Frente Brasil”, música-hino da seleção brasileira de 1970 mas que também serviu como propaganda do governo do general Emílio Médici, o mais brutal do ciclo militar que durou 21 anos.

Somente uma pessoa gelada pode tratar de tortura e assassinatos a mando do Estado como coisa natural. “Sempre houve tortura”, disse Regina. “Na humanidade, não para de morrer (gente)”, acrescentou desavergonhadamente. E depois, ridícula, perguntou “por que que as pessoas ficam oh, oh, oh (diante da morte), por que?”. A atriz não difere em nada dos trogloditas que avançam sobre enfermeiras, que agridem jornalistas, que carregam faixas pregando a volta do AI-5, a intervenção militar ou o fechamento de Supremo e Congresso.

Míriam Leitão - A pequena chance da cartilha Guedes

- O Globo

Bolsonaro seguirá a cartilha de Bolsonaro. Paulo Guedes deveria fixar seus pontos “valeixo”, para demarcar terreno de até onde aceitará ceder

Quando distribui cargos ao centrão, o presidente está voltando ao seu leito natural. Ele foi de nove partidos, todos fisiológicos, antes de chegar à Presidência com o discurso de combate à corrupção. Nenhuma surpresa que ele agora esteja com seu balcão de negócios ativo. O discurso contra a “velha política” sempre foi para inglês ver. A grande dúvida é quais as concessões que serão pedidas ao Ministério da Economia no projeto de blindagem do mandato de Jair Bolsonaro. Terá Paulo Guedes também o seu ponto “valeixo”, ou seja, uma questão que considere inegociável?

O presidente Jair Bolsonaro tem pressionado a Receita Federal para perdoar dívidas tributárias das igrejas evangélicas, chegando inclusive a reunir em seu gabinete o secretário José Tostes, da Receita, com o deputado David Soares (DEM-SP), filho de R.R.Soares, um dos pastores que sustentam o bolsonarismo, e cobrar uma solução, segundo informou o “Estado de S. Paulo”. A igreja dos Soares deve R$ 144 milhões ao fisco. Na equipe econômica o que se diz é que o perdão de dívidas só pode ser concedido através de lei. Não pode ser um acerto entre amigos, como quer o presidente. Os débitos das igrejas são antigos, aliás, nada a ver com a pandemia.

Oscar Vilhena Vieira* - A ocupação do STF

- Folha de S. Paulo

O tribunal não pode se omitir diante de tentativas de intimidação

Tribunais e cortes supremas, quando cumprem devidamente seu papel de guardar as respectivas constituições, têm o dom de enfurecer autocratas das mais variadas afiliações ideológicas. De Chávez a Orbán, a emasculação de tribunais tornou-se uma cena corriqueira no enredo das escaladas autoritárias.

Vargas aposentou compulsoriamente sete ministros do tribunal e restringiu as prerrogativas da corte para controlar seu governo. Nesse período foi escrita uma das páginas mais constrangedoras da história do Supremo, que permitiu, vencidos os ministros Carlos Maximiliano, Carvalho Mourão e Eduardo Espínola, a entrega de Olga Benário aos nazistas.

Em 1969, o general Costa e Silva aposentou compulsoriamente os ministros Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva após a edição do AI-5, que suspendeu as garantias da magistratura e excluiu da apreciação do Judiciário as ações praticadas com fundamento em atos institucionais. A porta se abria para o período mais obscuro da ditadura.

Demétrio Magnoli* - Carta a um não confinado

- Folha de S. Paulo

Consertamos a economia depois, todos juntos, sem individualismo

Não ponho o pé na rua há semanas. Leio, aproveito meu pacote da Netflix, experimento receitas, até comecei a pintar. Exercito-me na esteira da sala. Peço tudo por aplicativo. Faço sacrifícios: sinto falta do Iguatemi, dos meus restaurantes preferidos, de viajar.
Você, não confinado, sabota meus sacrifícios, espalhando o vírus. Devo qualificá-lo como um ser antissocial.

Não há vacina ou remédio confiável. O governo Bolsonaro ignora a pandemia, fechou o Ministério da Saúde, não coordena esforços de testagem. São mais motivos para ficar em casa, nossa única salvação.

O renomado cientista Miguel Nicolelis disse que a quarentena é para "evitar contágios". Itália e Espanha estão flexibilizando a medida com, respectivamente, 1.552 e 2.397 contágios médios diários na última semana. Seus governos irresponsáveis deram as costas à ciência. Você nunca a seguiu.

Julianna Sofia – Jogos e trapaças

- Folha de S. Paulo

Presidente trapaceia com novos e antigos aliados

Neoaliados de Jair Bolsonaro, comandantes do bloco de partidos fisiológicos conhecido como centrão vivem com a Justiça no encalço. O pepista Arthur Lira, líder do grupamento, coleciona ações judiciais desde falcatruas içadas pela Lava Jato a acusações de apropriação de salários de servidores e de recebimento de propina —teve um assessor preso com dinheiro nas meias num aeroporto.

São sujeitos desse naipe que Bolsonaro busca trapacear. Depois de avalizar um acordo alinhavado pelo centrão para garantir aumento para o funcionalismo na votação do projeto de socorro aos estados, o presidente acena na direção oposta e promete à equipe econômica vetar a medida.

Alvaro Costa e Silva - Cinco letras que odeiam

- Folha de S. Paulo

Nas redes sociais, bolsonaristas conseguem se expressar com desprezo ainda maior do que o E daí? Presidencial

O escritor português Mário de Carvalho anotou no Facebook: "Deve ser da palavra escrita. Pouco acostumadas a escrever, as pessoas deixam-se levar pelo embalo. Tenho verificado que criaturas, na vida real (notem: vida real!) razoavelmente delicadas e cordatas, perdem as estribeiras aqui no FB. E é vê-las, para meu espanto, a irritar-se, a cotovelar e, pior, a chamar nomes às outras. E às vezes basta uma trivial e natural diferença de opinião ou de perspectiva".

Autor de mais de 30 livros, alguns publicados no Brasil, como o romance "Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde", Carvalho conclui: "Os profissionais da escrita, 'et pour cause', são mais comedidos e controlados. O que me parece justo sugerir é que pensem duas (ou três) vezes antes de se saírem com uma formulação mais grosseira, ou com um insulto".

Roberto Simon* - A ordem global numa máquina do tempo

- Folha de S. Paulo

Covid-19 acelera tendências mundiais adversas ao Brasil

“Há décadas em que nada acontece, e há semanas em que décadas acontecem”, teria dito Lênin, em meio ao turbilhão da Revolução Russa. No mês passado, completaram-se 150 anos do nascimento do pai-fundador do império soviético, com a frase que lhe é atribuída a ganhar uma estranha atualidade.

Com a Covid-19, décadas aconteceram nas últimas semanas.

Há enorme incerteza sobre a ordem internacional que emergirá ao final da crise que vivemos. Mas vozes distintas –como Dani Rodrik, economista de Harvard, ou Richard Haas, o presidente do Council on Foreign Relations, o mais importante think-tank americano– convergem a um ponto.

Pode-se pensar a pandemia como uma espécie de máquina do tempo. Mais do que criar algo inteiramente novo, a Covid-19 acelerará transformações globais que já estavam em curso.

Um exemplo: a incapacidade dos grandes atores internacionais de agirem conjuntamente diante de problemas comuns –do aquecimento global ao comércio, da paz à própria contenção de pandemias.

Falava-se, desde antes, em “crise do multilateralismo” ou em um mundo “G-Zero”, em oposição ao G-7, G-20 e afins.

Devemos ver, agora, a decadência acelerada da ordem liberal que nasceu no pós-Segunda Guerra, e o que virá depois parece mais turbulento.

Ricardo Noblat - Pandemia que nada! Hoje é dia de churrasco no Palácio da Alvorada

- Blog do Noblat | Veja

Neste fim de semana, as mortes passarão de 10 mil

O Brasil chegou a 9.897 mortes em decorrência do novo coronavírus. Nas últimas 24 horas, 751 novos óbitos foram confirmados, o maior número registrado no período. O que significa um aumento de 22,1% em relação ao recorde anterior, que era de 615. O número de casos da doença alcançou a marca de 145.328.

Assim, o país já ultrapassou o dobro do número de mortes da China (4.633), onde o primeiro caso de coronavírus aconteceu entre novembro e dezembro do ano passado. Na próxima segunda-feira, o número de mortos deverá passar dos 10 mil. Somente em São Paulo, antes do final de junho, estima-se que morrerão 11 mil pessoas.

Convenhamos: este não seria o melhor momento para que o presidente da República oferecesse um churrasco em sua residência oficial com direito a festejos que costumam pontilhar ocasiões como essa. Mas é o que Jair Bolsonaro fará. O “evento” contraria as recomendações de saúde para que se evite aglomerações. E daí?

Luiz Carlos Azedo - A volta ao “normal”

- Correio Braziliense (08/05/2020)

“O impacto da pandemia na divisão internacional do trabalho, nas atividades da indústria, do comércio e dos serviços e nas relações de trabalho ainda não é mensurável”

O presidente Jair Bolsonaro atravessou a Praça dos Três Poderes para pôr uma saia justa no presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli. Acompanhado de ministros e um grupo de empresários com os quais havia se reunido, fez-lhe uma visita surpresa, na qual apelou para que as medidas restritivas motivadas pela crise do coronavírus sejam amenizadas nos estados e municípios. A iniciativa coincidiu com a sua decisão de autorizar o funcionamento da construção civil e das indústrias, que o governo federal passou a considerar atividades essenciais, ou seja, fora do regime de isolamento social.

Toffoli justificou as decisões da Corte em favor dos entes federados: estados e municípios têm prerrogativas constitucionais reconhecidas pelo Supremo para adotar o distanciamento social, conforme orientação das autoridades sanitárias, entre as quais a Organização Mundial de Saúde (OMS). Toffoli também sugeriu que essas ações sejam coordenadas entre União, estados e municípios. A assessoria de comunicaçao do Supremo confirmou que o encontro foi marcado de última hora e não estava na agenda. Bolsonaro decidira fazer a visita durante a reunião que teve com representantes da indústria, no Palácio do Planalto.

A travessia a pé da Praça dos Três Poderes lembrou, com sinal trocado, a ida do senador Antônio Carlos Magahães (PFL, hoje DEM-BA), então presidente do Senado, ao Palácio do Planalto, para tomar satisfações com o presidente Fernando Henrique Cardoso por causa da intervenção no Banco Econômico, por ocasião do PROER, programa de reestruturação do sistema financeiro adotado em razão do Plano Real. Imaginem uma situação inversa: os ministros do Supremo atravessando a Praça dos Três Poderes de toga, para cobrar a entrega do vídeo da reunião ministerial na qual Bolsonaro teria tentado interferir na atuação da Polícia Federal (PF), conforme acusa o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro.

Adriana Fernandes - Impasse do congelamento

- O Estado de S. Paulo

Paulo Guedes colocou sua cabeça a prêmio ao insistir na medida do congelamento

O embaraço político e econômico que marcou a votação do congelamento de salários dos servidores públicos pelo Congresso mostra que a pressão pelo gasto não tem limites no País.

Muitos senadores e deputados defenderam a exclusão de várias categorias do congelamento de salários com a justificativa de que a medida é inócua porque não haverá dinheiro para os aumentos por conta do impacto da covid-19 na economia e nos cofres públicos.

É má-fé dos parlamentares ou mesmo ignorância sobre o que tem acontecido nas últimas décadas no Brasil. Faltou também sensibilidade dos parlamentares para a opinião pública. Sim, o outro lado: trabalhadores da iniciativa privada, que tiveram cortes de salários ou perderam o emprego para a pandemia da covid-19. Esse lado também pode fazer a diferença.

Mesmo com o Estado quebrado em todas as esferas de governo (União, Estados e municípios), podemos ver que a opção que tem prevalecido é pelo mau uso do dinheiro público.

Sérgio Augusto - Os morlocks

- O Estado de S. Paulo

De que trevas afinal vieram essas criaturas destilando ódio e ostentando ferocidade homicida?

Muita gente se fez essa pergunta às primeiras irrupções dos black blocs nas manifestações de rua de alguns anos atrás, embora sem aquele tom prazenteiro com que há mais tempo os turistas estrangeiros indagam aos cariocas onde é que aquelas mulatas esculturais das escolas de samba se escondem antes e depois do carnaval.

Muita gente agora repete a pergunta quando os militantes bolsominions saem às ruas, fantasiados de verde e amarelo, para mais uma marcha da insensatez e do orgulho nazi-fascista.

Os black blocs nada tinham ou têm a ver com os squadistri do duce brasiliense, esses belicosos gigolôs do patriotismo e do farisaísmo evangélico que nos fins de semana pressionam pelo fim da democracia e prometem deflagrar uma guerra civil, uns até já metidos em uniformes de campanha, como se viu num vídeo grotesco e criminoso veiculado nas redes sociais quarta-feira à noite.

Os black blocs – inesperados, incontroláveis e apenas visíveis no breve momento da baderna – vandalizavam símbolos materiais do capitalismo selvagem, atacavam vitrines de butiques, caixas eletrônicos, carros de luxo, jogavam pedras e outros objetos à mão; mas não agrediam pessoas física ou verbalmente; não faziam ameaças nem incitavam a intervenção de outras forças além das suas próprias, que nunca botaram para quebrar exigindo o fechamento do Congresso e do STJ, a reedição do AI-5 e o que mais pudesse resultar de um putsch militar.

Marcus Pestana - Constituição, a âncora da democracia

Existe atualmente no ambiente do nosso país um visível mal estar. É inacreditável. Em meio a uma violenta pandemia e tendo pela frente uma das maiores recessões de nossa história, ver nas ruas e nas redes sociais pessoas agressivamente pedindo um novo AI-5, o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal - guardião da Constituição, em outros termos, o fim da democracia. Percebo em conversas com amigos, familiares, conhecidos, um sentimento misto de temor, apreensão, incredulidade, indignação e surpresa com os rumos políticos de nosso Brasil. Eu, que como vereador coordenei a campanha das diretas na minha cidade, em 1984, jamais imaginei que parcela significava da população viesse a se mobilizar algum dia defendendo um retrocesso catastrófico. Afinal até o samba enredo da Imperatriz Leopoldinense clamava: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.

Minha geração, que na metade dos anos setenta, tentou reencontrar o fio da meada histórico da geração de 1968, abraçou com vigor, determinação e coragem a agenda democrática – anistia ampla e geral, eleições diretas para Presidente e todos os demais cargos e Constituinte livre e soberana. A utopia que movia nossa generosa militância era ver um país mais justo e democrático.

Descobrimos e experimentamos o autoritarismo nos livros e na vida real. Quantos foram os encontros visando à reconstrução da UNE e das UEEs reprimidos? Comecei a acordar para a longa e tenebrosa noite do autoritarismo vivida pelo país aos 16 anos, em 1976. Estudava na Academia de Comércio de Juiz de Fora e liderei um dia de greve e uma passeata no recreio do turno da manhã. As razões eram afetivas e administrativas, nada de conteúdo político e ideológico. No dia seguinte, fui informado que seria enquadrado no Decreto-Lei 477, de 26 de Fevereiro de 1969, que definia infrações disciplinares praticadas por professores, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino público ou particulares, e dava outras providências. Aí descobri que havia fortes restrições à liberdade de opinião, organização e mobilização e que poderia ser expulso do colégio e sofrer outras penalizações. Foi aí que despertei para a imperiosa e inescapável participação no movimento pela redemocratização do país.

Jeffrey Sachs* - Como evitar um desastre financeiro global

- Valor Econômico

Os credores parecem não entender que, se a taxa do cupom da Argentina for reduzida para perto da dos EUA, um calote não será necessário. A taxa altíssima de 7% é profecia autorrealizável: ela torna a inadimplência inevitável, enquanto uma taxa de juro mais baixa a tornaria desnecessária

Quando um único carro derrapa em uma estrada coberta de gelo, o resultado pode ser um acidente que envolva 50 carros. O mesmo acontece com os mercados financeiros internacionais: a moratória do México em 1982 levou a um “engavetamento” de dezenas de países.

A desvalorização da moeda da Tailândia em julho de 1997 desencadeou a crise financeira asiática. A falência do Lehman Brothers em setembro de 2008 deflagrou a Grande Recessão em todo o mundo.

Os financistas internacionais já têm experiência suficiente para saber que não devem iniciar a crise da covid-19 em 2020. Seu bom senso será testado em breve.

Mesmo antes que a covid-19 jogasse a economia mundial na pior crise desde a Grande Depressão, a Argentina estava sobre-endividada, de novo. Como já aconteceu tantas vezes na história cheia de calotes da Argentina, um acordo insuficiente com credores recalcitrantes em 2016, seguido de um rápido retorno ao mercado de bônus, revelou-se apenas uma esperança ilusória, tanto para o então presidente da Argentina quanto para os credores do país.

Os déficits fiscais abalaram sua estabilidade. Um programa de resgate do Fundo Monetário Internacional (FMI) em 2018 não funcionou. E as dívidas da Argentina, com taxas de cupons muito altas, se provaram insustentáveis.

Mas a Argentina dificilmente está sozinha. À medida que normas relaxadas de concessão de empréstimos pelos mercados financeiros e a ampla liquidez produzida pelo Fed e outros bancos centrais levaram muitos países em desenvolvimento a tomarem crédito pesadamente nos últimos anos, o super-endividamento da dívida soberana passou a ser reconhecido cada vez mais como um grande risco sistêmico. Uma sessão das Reuniões da Primavera do FMI em 2019 foi intitulada “Enfrentando a Próxima Onda de Crises da Dívida Soberana”.

A reconstrução da política externa brasileira*

Valor Econômico

A diplomacia atual contraria princípios constitucionais na letra e no espírito

Por Fernando Henrique, Rubens Ricupero, Celso Amorim e Outros

É preciso que Congresso e o Judiciário cumpram seu papel de controle da constitucionalidade das ações diplomáticas

Apesar de nossas distintas trajetórias e opiniões políticas, nós, que exercemos altas responsabilidades na esfera das relações internacionais em diversos governos da Nova República, manifestamos nossa preocupação com a sistemática violação pela atual política externa dos princípios orientadores das relações internacionais do Brasil definidos no Artigo 4º da Constituição de 1988.

Inovadora nesse sentido, a Constituição determina que o Brasil “rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: I- independência nacional; II- prevalência dos direitos humanos; III- autodeterminação dos povos; IV- não-intervenção; V- igualdade entre os Estados; VI- defesa da paz; VII- solução pacífica dos conflitos; VIII- repúdio ao terrorismo e ao racismo; IX- cooperação entre os povos para o progresso da humanidade; X- concessão de asilo político”.

“Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

É suficiente cotejar os ditames da Constituição com as ações da política externa para verificar que a diplomacia atual contraria esses princípios na letra e no espírito. Não se pode conciliar independência nacional com a subordinação a um governo estrangeiro cujo confessado programa político é a promoção do seu interesse acima de qualquer outra consideração. Aliena a independência governo que se declara aliado desse país, assumindo como própria uma agenda que ameaça arrastar o Brasil a conflitos com nações com as quais mantemos relações de amizade e mútuo interesse. Afasta-se, ademais, da vocação universalista da política externa brasileira e de sua capacidade de dialogar e estender pontes com diferentes países, desenvolvidos e em desenvolvimento, em benefício de nossos interesses.

Outros exemplos de contradição com os dispositivos da Constituição consistem no apoio a medidas coercitivas em países vizinhos, violando os princípios de autodeterminação e não-intervenção; o voto na ONU pela aplicação de embargo unilateral em desrespeito às normas do direito internacional, à igualdade dos Estados e à solução pacífica dos conflitos; o endosso ao uso da força contra Estados soberanos sem autorização do Conselho de Segurança da ONU; a aprovação oficial de assassinato político e o voto contra resoluções no Conselho de Direitos Humanos em Genebra de condenação de violação desses direitos; a defesa da política de negação aos povos autóctones dos direitos que lhes são garantidos na Constituição, o desapreço por questões como a discriminação por motivo de raça e de gênero.

Além de transgredir a Constituição Federal, a atual orientação impõe ao país custos de difícil reparação como o desmoronamento da credibilidade externa, perdas de mercados e fuga de investimentos.

Sergey Akopov* Dia da Vitória – uma alegria com lágrimas nos olhos

- O Globo

Embaixador da Rússia no Brasil escreve sobre os 75 anos da rendição da Alemanha nazista e o legado da guerra para o povo russo

Neste dia 9 de maio, a Rússia e os outros países da antiga União Soviética comemoram o Dia da Vitória na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945. É assim que em todo o espaço pós-soviético se chama o período da Segunda Guerra Mundial, quando nosso país travou uma luta sem igual pela sua sobrevivência contra a Alemanha nazista na Frente Oriental europeia.

Para o nosso povo, e para mim, a vitória, sem dúvida, representa um grande sucesso do todo o mundo civilizado na defesa da sua liberdade. Mas não só isso. Como diz a famosa canção russa, é uma “alegria com lágrimas nos olhos”. Naquela guerra o mundo perdeu mais de 70 milhões de pessoas, entre as quais 27 milhões eram cidadãos soviéticos. Estes números gelam-nos o sangue nas veias. Os países que participaram da guerra sacrificaram uma parte significativa de uma geração inteira, as pessoas mais corajosas e ativas, muitas das quais poderiam se tornar cientistas, artistas, escritores e contribuir no desenvolvimento do mundo pós-guerra. Mas nunca voltaram. E a alegria da vitória, para mim, não consegue se sobrepor a esta trágica perda.

Música | Moacyr Luz & Samba do Trabalhador - Estranhou o quê?

Poesia | Paulo Mendes Campos - Sentimento do Tempo

Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.
As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.
Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.
As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.
Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.
Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.
Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.
Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.
Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.
Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.
O tempo é meu disfarce

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Opinião do dia – Roberto Freire*

Guedes e Bolsonaro organizaram uma marcha da estupidez e da morte em direção ao STF, com um séquito de empresários, para coagir a Corte, colocar a crise no colo dos ministros e terceirizar suas responsabilidades. No caminho, pisaram nos 8,5 mil mortos que a Covid-19 já deixou.

O governo entrou no modo encenação. Só existe na forma. Finge preocupação, finge que a economia importa, finge liberar o auxílio emergencial, finge o socorro às empresas. Só não finge o desprezo pela vida e pelos mais pobres. Nisso, são autênticos.

O preço da politicagem rastaquera do ministro e do presidente poderá ser medido em mortes e perda de empregos. Como lembrou o líder Arnaldo Jardim, o dinheiro não está chegando aos micro e pequenos empresários.

O Brasil já tem o 3º maior aumento de casos diários do mundo. É o 6º país em mortes. Faltam leitos e profissionais de saúde. Para a política, a ciência indica que é hora de medidas duras, até mesmo o lock down. Mas o país não tem presidente nem ministro da Saúde. Bolsonaro e Teich são duas nulidades

Roberto Freire é presidente do partido Cidadania23,

Merval Pereira - A marcha da insensatez

- O Globo

Bolsonaro não pode aumentar pressão para fim do isolamento no momento em que o país entra na hora mais crítica da epidemia

A marcha do presidente Bolsonaro, seu ministro da Economia Paulo Guedes, deputados e um grupo de industriais sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) é uma típica ação política de pressão, e ao negar esse intuito o chefe do Gabinete Civil General Braga Neto demonstra que não entende nada do assunto, ou, ao contrário, já deixou de ser um técnico apolítico para se transformar em um político seguidor do presidente.

Comparável a isso apenas na forma, não na gravidade institucional, só a marcha que o então governador Antonio Carlos Magalhães fez sobre o Palácio do Planalto, acompanhado de bancada baiana na Câmara e no Senado, para protestar contra a intervenção no Banco Econômico no governo de Fernando Henrique Cardoso.

O presidente Jair Bolsonaro não pode aumentar a pressão para o fim do isolamento justamente no momento em que o país entra na hora mais crítica da epidemia da Covid-19. Uma pressão indevida em cima do presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, que foi constrangido a recebê-lo e sua trupe sem audiência marcada e, inacreditável, transmitindo a reunião ao vivo em suas redes sociais.

Seus companheiros de toga ficaram irritados, evidentemente, com o ultrajante avanço do chefe do Executivo sobre um outro poder, e gostariam que Toffoli tivesse recebido apenas o presidente, deixando a comitiva na sala de estar. Evidentemente, não foi uma visita de cortesia, como disse Paulo Guedes, mas sim uma pressão para impedir que Estados façam lockdown e apertem as barreiras para evitar o aumento do caso de mortes pela Covid-19, que já está chegando a limites dramáticos.

Míriam Leitão - Despropósito constrangedor

- O Globo

Dentro do STF, a interpretação é que a constrangedora reunião imposta pelo presidente ontem foi uma forma de jogar para a Justiça a culpa pela crise

Seria só insólita se não fosse uma absurda pressão de um poder sobre o outro. A marcha para o Supremo foi uma total quebra de protocolo da relação entre os poderes. E tudo aconteceu num rompante. O presidente decidiu no meio da conversa com empresários, o advogado-geral da União, José Levi, ligou para o presidente do STF dizendo que o presidente queria ir para lá com empresários e alguns ministros. E saíram andando pela Praça dos Três Poderes. Os ministros do Supremo entenderam o gesto como uma tentativa do presidente de responsabilizar a Justiça pela crise.

Alguns ministros que acompanharam Bolsonaro admitiram depois que ficaram constrangidos com a cena da qual tiveram que participar. No Supremo, outros ministros discordaram da reunião. O próprio Dias Toffoli não tinha como recusar. A grande questão é o que Bolsonaro queria com o gesto?

– Há várias leituras possíveis. Pode-se entender que ele quis dizer para os empresários que é o Supremo, a Justiça, que não está deixando a retomada da economia em razão de suas decisões. Na verdade, eu acho que é insegurança. O governo não sabe o que fazer e quer passar a batata para o outro lado da praça. Mas sem protocolo, sem coordenação, sem planejamento e sem segurança sanitária coordenada nacionalmente, não é um juiz que vai decidir isso – resume um dos ministros do STF.

A descabida e frustrada pressão sobre o Supremo – Editorial | O Globo

Caminhada de Bolsonaro com empresários e ministros ao STF expõe equívocos do presidente

Bolsonaro tem se superado em testar e ultrapassar limites legais do seu cargo. Participa de manifestações antidemocráticas, prega a submissão de outros poderes à sua vontade, procura intervir na Polícia Federal. Mas ontem foi mais à frente ao forçar a porta do gabinete do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, para uma audiência não marcada, à frente de um grupo de industriais, depois de teatral caminhada desde o Palácio do Planalto até o outro lado da Praça dos Três Poderes.

O presidente tirou do seu repertório mais uma modalidade de quebra de decoro, de desrespeito a protocolos e de deselegância. Agora com Dias Toffoli, que, dos magistrados da Corte, pelo seu posto, é o que tem procurado algum diálogo com o presidente da República, certamente na tentativa de abrir um canal que possa ser usado em algum momento, para evitar uma crise deflagrada por um desses comportamentos fora de qualquer esquadro de Bolsonaro. Pelo visto, Toffoli se esforça em vão.

Quais as intenções de Jair Bolsonaro? Do ponto de vista institucional, nenhuma. Se os empresários foram ao presidente compartilhar preocupações com o isolamento social e a perspectiva de lockdowns no Rio e em São Paulo, justificados pela aceleração da epidemia, com mais mortes e infectados, encontraram no presidente apenas um apoiador, o que não é novidade, mas deveriam esperar algum aceno de novas medidas para compensar a queda de faturamento.

Flávia Oliveira - O significado do ‘nós por nós’

- O Globo

Organizações da sociedade civil emergiram em diagnóstico, formulação, mobilização

Quando a História deste terrível 2020 for contada, o movimento social terá capítulo de honra. Criminalizadas, desprezadas, desqualificadas, apartadas do debate oficial sobre políticas públicas, foram as organizações da sociedade civil que, desde a primeira hora do primeiro dia da crise, emergiram em diagnóstico, formulação, mobilização e distribuição de ajuda a pessoas, famílias e territórios lançados subitamente na vulnerabilidade. ONGs estruturadas e grupos recém-formados exibem musculatura tão surpreendente quanto bem-vinda em ações, quase sempre sem colaboração do poder público, para reduzir os danos de uma crise que espalha doença, mortes, desemprego e miséria. É a materialização do “nós por nós”, lema de um povo que, historicamente excluído, sempre contou consigo mesmo.

Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS), em março, atrelou o combate ao coronavírus a hábitos rigorosos de higiene, via água corrente, sabão e álcool gel, midiativistas de favelas e periferias começaram a filmar torneiras secas Brasil afora para denunciar a precariedade da distribuição. No país todo, informou o IBGE anteontem, um em cada dez domicílios (11,5%) não tem abastecimento diário de água; no Acre, o fornecimento precário alcança dois terços (63,5%) dos lares. No Estado do Rio, a proporção é de 10,7%. A mobilização da sociedade civil arrancou da Cedae, distribuidora fluminense, o compromisso de reforçar com caminhões pipa a oferta de água nas comunidades.

Nelson Motta - Velhos generais

- O Globo

Figueiredo pareceria um estadista educado ao lado de Bolsonaro

O bagulho está louco. Às vezes parece que a tática bolsonarista é tornar a vida no Brasil tão insuportável que dê saudades da ditadura militar. Mas sem ele. Não dá para compará-lo a Castello Branco ou Ernesto Geisel, que o chamou de “mau militar”, e até Figueiredo, que foi sempre o primeiro da classe nos cursos do Exército, e pareceria um estadista educado ao lado de Bolsonaro. Costa e Silva, que também foi sempre o primeiro da classe, tinha algumas dificuldades de expressão, mas seria um erudito diante do Jair.

O Exército respeitava a meritocracia, o preparo individual, a carreira, embora isso não garantisse um bom governo. Pelo menos na ditadura os filhos dos generais-presidentes não se metiam em política e não mandavam nada. Nesse tempo torturavam e matavam fisicamente, agora assassinam reputações e disseminam fake news com exércitos de robôs. A paranoia comunista volta aos tempos da Guerra Fria. Nenhum ministro da Educação da ditadura foi pior e mais ignorante do que Abraham Weintraub.

Nenhum general-presidente condecorou milicianos ou tentou emplacar um filho sem qualificações para a embaixada em Washington. A censura de financiamentos públicos para filmes e peças,“em defesa da família”, é mais radical que na ditadura.

Bernardo Mello Franco - O pior papel de Regina Duarte

- O Globo

Fritada por Bolsonaro, Regina Duarte afaga o chefe, relativiza a tortura e mostra que está disposta a engolir novas humilhações para se manter no governo

Nos últimos dias, o país perdeu os talentos de Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Moraes Moreira, Flávio Migliaccio e Aldir Blanc. A cada morte, ouviu-se um silêncio ensurdecedor de Regina Duarte. Com medo de irritar o chefe, a secretária da Cultura não emitiu uma única nota de pesar. “Eu imaginei assim: será que eu vou ter que virar um obituário?”, ela disse ontem, numa desastrosa entrevista à CNN Brasil.

Depois de um longo sumiço, Regina protagonizou um espetáculo de insensibilidade e constrangimento. A atriz fingiu não saber que está sendo fritada pelo presidente Jair Bolsonaro. “Tava um clima super bom. Ele tava superanimado”, desconversou, sobre a reunião em que ouviu cobranças e quase foi demitida.

Numa aparente tentativa de amaciar o capitão, a secretária cantarolou a marchinha “Pra frente, Brasil”, associada à Copa de 70 e ao ufanismo do governo Medici. “Não era bom quando a gente cantava isso?”, suspirou. O repórter Daniel Adjuto precisou lembrá-la que a ditadura matou centenas de brasileiros.

Guilherme Amado - O ódio como método

- Revista Época

Podia-se pensar que uma ameaça autoritária não chegaria aonde chegou, mas agora vê-se que ela continuava ali, submersa

A escalada do autoritarismo de Bolsonaro tem sido num ritmo tal que pode fazer parecer, ao menos aos que acreditaram numa equivalência nesse quesito entre ele e o PT, que tudo isso é novo. O ódio sempre foi método para Bolsonaro. Foi por meio dele que se destacou na multidão, indo a programas de TV popularescos. Foi por meio do ódio que conseguiu se diferenciar de Ciro, Alckmin, Amoêdo, Marina e de outros que batiam em Lula, mas não tanto quanto ele, não da maneira como fazia, de forma que transmitisse a quem estava exaurido, espumando como ele, que só Bolsonaro poderia derrotar Fernando Haddad. Tem sido por meio do ódio que o presidente tem trazido o país até aqui. 

Nos 16 meses de governo, não houve uma semana em que o presidente não expressou sua raiva. Um adversário, uma minoria, um antigo aliado, um artista, um jornalista. Odiar é sua profissão de fé. E isso não brota do nada, como se em geração espontânea. O ódio é cultivado. Bolsonaro é consequência de um ódio coletivo, ruminado nos anos do petismo e de seus erros atrozes que fizeram aumentar a ira dos que sempre rejeitaram a esquerda e despertar, entre os que apoiaram Lula, o rancor por terem sido enganados. Mas o presidente também é causa. Ao perceber que algum tema pode dividir mais o país, atiçar o fígado de seus apoiadores, pinça-o e, com sua tropa digital, mobiliza parte do país em torno daquilo — da cloroquina ao golden shower.

Monica de Bolle* - Por que precisamos de bancos?

- Revista Época

O sistema bancário brasileiro já é muito concentrado. Na ausência de um Banco Central atuante em meio a uma crise de magnitude inédita, o risco de concentração aumenta brutalmente

Bancos. Todo mundo tem uma opinião formada sobre os bancos. Geralmente, essa opinião não é das melhores. “Os bancos têm lucros excessivos e não deveriam receber dinheiro do Banco Central.” “Os bancos esfolam as pessoas; por que estamos dando dinheiro para eles?” Muitos bancos têm, sim, lucros excessivos. Muitos bancos praticam, sim, spreads bancários elevados, ou seja, trabalham com uma diferença grande entre a taxa sobre o passivo (depósitos) e os ativos (empréstimos). Essas são distorções existentes no mercado bancário brasileiro, que sofre de elevado grau de concentração. Contudo, elas não justificam afirmar que o Banco Central não deve exercer seu papel de garantidor da estabilidade financeira, sobretudo em momento de crise sem precedentes, como o atual.

Dia desses resolvi dar, em meu canal do YouTube, uma explicação técnica sobre o papel dos bancos. O tema é árido e não há como torná-lo sedutor, aprazível, palatável, ainda que possa dar gosto entendê-lo. É verdade que, ao contrário do papel, o vídeo permite usar recursos visuais para tornar o tema mais atraente. Por exemplo, é possível recorrer a desenhos, em meu caso manuais, para explicar um conteúdo teórico denso. Mas tentarei descrever o cerne do argumento teórico aqui.

Ricardo Noblat - Segue a marcha de Bolsonaro para submeter os demais Poderes

- Blog do Noblat | Veja

Só não enxerga quem não quer

Não é preciso ter sangue frio para saber lidar com um presidente da República que chega de repente, quase sem avisar, ao prédio do Supremo Tribunal Federal acompanhado de uma comitiva não prevista de ministros de Estado e empresários. Basta ter coragem e a exata noção da dignidade do cargo que ocupa.

O primeiro amigo de Bolsonaro foi feito de bobo outra vez. O ex-capitão afastado do Exército por indisciplina e falta de ética usou como fralda a toga do ministro Dias Toffoli, duas vezes reprovado no passado em concurso para juiz. Acabou indicado para o tribunal por ter servido bem ao governo de Lula. É a República dos medíocres!

A expressão “primeiro amigo de Bolsonaro” é usada por colegas de Toffoli quando querem criticá-lo. É quase unânime entre eles a opinião de que Toffoli se comporta como um aliado do presidente da República desde o início do seu governo. Encantou-se com a missão a que se propôs: apaziguar as relações entre os Poderes.

É tudo o que não interessa a Bolsonaro. Ele é um fabricante de crises. Não consegue viver sem uma. E, no momento, está à procura de um sócio para segurar na alça dos caixões enterrados todos os dias com vítimas do coronavírus. Toffoli seria o sócio ideal pela posição que ocupa e pelo medo atávico que tem dos que usam farda.

A Praça dos Três Poderes já assistiu à marcha de políticos, encabeçada, à época, pelo presidente do Senado Antônio Carlos Magalhães em direção ao Palácio do Planalto para protestar contra a intervenção em um banco. Foi no governo de Fernando Henrique Cardoso. O episódio deu em nada. Serviu só para fazer barulho.

Dora Kramer - Falso positivo

- Revista Veja

Jair Bolsonaro testou negativo para o exercício da Presidência

Os testes a que o presidente constantemente submete a República não têm apresentado bons resultados para ele. Jair Bolsonaro vem sendo reprovado numa prova atrás da outra. Obtém notas baixíssimas em matéria de relações institucionais, respeitabilidade, credibilidade, confiabilidade, civilidade e demais quesitos que atinge com suas afrontas, resultando em danos irreparáveis definidores de seu destino.

Para usar expressão da circunstância atual, Bolsonaro testou negativo para o exercício da Presidência da República. Quis o bom senso que repetidas derrotas mostrassem o diagnóstico de falso positivo na expectativa de alguns temerosos, e outros tantos esperançosos, de que a passagem dele pelo cargo levaria o país às trevas do retrocesso.

Do fracasso da chamada pauta conservadora, no começo do governo, à recente condição de alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal, passando pela perda de mais de 20 pontos no porcentual de apoio do eleitorado original, só acumulou passivos sem ganhar nenhum ativo consistente. Concretamente, seus desafios aos limites têm sido limitados pela indisposição das Armadas em fazer uso da força, pelas balizas da Constituição nas mãos do STF, por um frágil respaldo no Congresso e pela carência de sustentação em maioria popular.

Bruno Boghossian – A marcha dos CNPJs

- Folha de S. Paulo

Enquanto CPFs morrem, Bolsonaro serve cafezinho para os CNPJs

Pelo segundo dia seguido, o ministro da Saúde disse que o governo deve recomendar medidas mais rigorosas de isolamento contra o coronavírus em algumas cidades. Nelson Teich afirmou na Câmara que o chamado “lockdown” pode ser implantado para “segurar o número de casos novos” de contaminação.

O doutor está na contramão do chefe. Após receber empresários e fazer um comício no STF contra o distanciamento, Jair Bolsonaro alegou que as restrições são inúteis. “Essa questão de ‘fique em casa’ não está funcionando. Está servindo para matar o comércio”, diagnosticou.

O presidente trocou o ministro responsável pelo combate à pandemia porque Henrique Mandetta não dizia o que ele queria ouvir. Teich assumiu com um discurso errático e completou 20 dias no cargo sem nenhuma ideia de como enfrentar a crise, mas nem ele conseguiu maquiar a realidade para agradar ao patrão.

Bolsonaro insiste numa retomada imediata e milagrosa da economia, embora ninguém no governo seja capaz de apresentar um plano para que isso seja feito de forma segura. Seu propósito é puramente político: uma tentativa de manter a tensão com governadores e se proteger dos danos provocados pela recessão.

Ruy Castro* - A seguir, os omissos e hidrófobos

- Folha de S. Paulo

A qualquer momento, o vírus mostrará que não conhece ideologia

Nós, os amigos de Aldir Blanc, não pudemos nos despedir dele. Quando soubemos que fora para o Miguel Couto, Aldir já estava fora do nosso alcance, como acontece com as vítimas da Covid-19. E, quando o transferiram para a UTI e depois para o Pedro Ernesto, nem mais sua família pôde vê-lo. Ninguém, exceto a equipe médica, foi testemunha da luta que, inconsciente, seu corpo travou contra a morte durante 20 dias. Ninguém, exceto os íntimos, pôde levá-lo ao reduto final, e nem mesmo a eles foi concedido um beijo ou olhar de despedida.

Esse quadro de internações repentinas e despedidas prematuras está se repetindo em todo o país, milhares de vezes por dia. Os números já são massacrantes por si, mas insuficientes para descrever o sofrimento de cada cônjuge, pai, filho ou família. Um dia, muitas dessas histórias individuais serão contadas e só então saberemos o alcance de cada uma. Isto se antes não formos, nós mesmos, testemunhas de casos próximos ou seus protagonistas.

Reinaldo Azevedo - A blitz consentida dos insensatos

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro tentou jogar no colo do STF a culpa pela crise econômica do coronavírus

O que o presidente Jair Bolsonaro e empresários foram fazer no STF? Tentar jogar no colo do tribunal a responsabilidade pela crise econômica provocada pelo coronavírus. Tese de fundo, vocalizada por Paulo Guedes: é o distanciamento social a origem dos males.

A marcha dos insensatos ocorre no momento em que a curva de mortos dá um pinote e em que capitais se veem obrigadas a impor o “lockdown” para tentar ao menos ordenar o caos. Mas por que ir ao Supremo, não ao Congresso? Porque saiu da corte a leitura evidente do texto constitucional: o presidente não pode impor disciplina na base do decreto. E ele exige ser o Napoleão de hospício do coronavírus.

Não se viu nada parecido em nenhuma democracia. A receita que Bolsonaro e Guedes levaram a Dias Toffoli é também inédita. O capitalismo mundial vive a maior crise de sua história porque não seguiu a opinião do nosso ministro da Economia.

Que coisa! O discurso homicida do presidente, do ministro e da patota de mascarados reúne mais adeptos, especialmente entre as elites, do que nosso senso de decência gosta de admitir. Há no ar miasmas de uma República de Salò (pesquisem) continental, não a de Mussolini, mas a revisitada em filme por Pasolini. Assiste-se a uma assombrosa banalização da morte, mormente agora que o vírus chegou a pobres e pretos.

Não é por acaso que mais da metade dos brasileiros, segundo estudo, pode ter de se pendurar no auxílio oficial. Essa condição miserável não foi fabricada pelo distanciamento social. Já existia antes do vírus. A utopia de Guedes já é uma realidade! O ministro não é melhor que Bolsonaro. A perversidade social do presidente é inata, espontânea. A de Guedes é cultivada, fruto da reflexão.

Rodrigo Zeidan* - Visita é nova rodada na briga do contraliberalismo contra democracia

- Folha de S. Paulo

É possível que venhamos a ter conflito aberto entre Executivo e Judiciário

Até onde é possível ir? Em mais um teste para as instituições democráticas brasileiras, o presidente da República se dirigiu para o prédio do Supremo Tribunal Federal, sem agendamento prévio, para pressionar o Judiciário a tomar medidas de acordo com os interesses presidenciais.

É mais uma rodada na batalha do Executivo contra os outros Poderes, que inclui, só nos últimos dias, as recusas do governo em entregar os resultados do exame do presidente para o coronavírus e o vídeo de uma reunião entre o chefe do Executivo e seus ministros, incluindo o ex-ministro Sergio Moro (Justiça).

Outros ministros do Supremo chamaram a visita de inadequada. É muito mais do que isso. É uma nova rodada na briga do contraliberalismo contra as instituições democráticas.

Nesse tipo de batalha, os autocratas têm levado a melhor. No dia 25 de março, Rodrigo Duterte conseguiu poderes especiais para liderar a resposta das Filipinas à pandemia global do coronavírus. Cinco dias depois, Viktor Orbán colocou a democracia húngara em quarentena, ao obter, através da sua maioria no Congresso, poderes especiais sem datas para acabar.

Vinicius Torres Freire - País vê bestificado a passeata da morte

- Folha de S. Paulo

Não há reação às campanhas presidenciais de ruína sanitária, econômica e política

Depois de alguns dias mais dedicado ao golpeamento da democracia e à contenção do surto da ideia de impeachment, Jair Bolsonaro voltou a se empenhar no desgoverno da saúde, da epidemia, e na sabotagem de quem tenta administrar a crise mortífera. Fez uma passeata da morte na praça dos Três Poderes, nesta quinta-feira (7).

Não importa que maioria qualificada da população diga apoiar ou praticar o isolamento (cerca de dois terços, pelo menos). Quase dois meses e meio depois do início oficial da epidemia no Brasil, não há mais esperança de acordo ou coordenação nacionais do enfrentamento da crise.

Mesmo nesta síndrome aguda de degradação institucional, mortes sem fim à vista, ruína econômica e ameaça autoritária, não há protesto organizado. A elite econômica que não é cúmplice contemporiza. Parte do Congresso barganha 30 moedas de cargos pelo corpo e pela alma do país.

O "parlamentarismo branco", a alternativa de governo que vigorou por um ano, entre o começo de 2019 e a chegada do vírus, se desfaz na contraofensiva de Bolsonaro contra a limitação dos seus poderes e as ameaças de impeachment. A articulação nacional de governadores a fim de administrar a epidemia ou sugerir medidas econômica vai de precária e nula (no caso da doença) a desordenada, mal pensada ou mesmo oportunista (no caso da economia).

César Felício* A fatura a ser paga

- Valor Econômico

Construção de base não combina com apoio a Guedes

Em que pese o propósito golpista claro de uma militância de corte neofascista que apoia Bolsonaro, o presidente, no presente momento - que não fornece garantia alguma de se converter em tendência sustentada para o futuro - está mais próximo de Michel Temer do que de Mussolini.

A aliança entre Bolsonaro e o Centrão é altamente conveniente para ambos. O apoio do que outrora se convencionou chamar de baixo clero pode garantir ao governo algum grau de efetividade para aprovar matérias no Congresso, afasta a imagem de governo disfuncional. Constrói uma base mínima para justificar sua existência.

A sensação de ingovernabilidade é, ao lado da impopularidade, da falta de perspectivas econômicas, da existência de um projeto de poder alternativo e da descoberta de um crime de responsabilidade, uma das condições necessárias para que se desencadeie um processo de impeachment. O presidente parece raciocinar que o quadro é mais favorável a um processo de impeachment do que à concretização de um autogolpe que lhe confira poderes ditatoriais. Entre a tutela e a ruptura, flerta com a tutela.

O Centrão foi uma salvaguarda poderosa para Temer concluir o mandato, e pode ser assim com Bolsonaro. Há muito sentido em se pensar assim. “Existe uma confluência de interesses. Bolsonaro quer blindar o próprio mandato e garantir o dos filhos, o senador Flávio e o deputado federal Eduardo. O Centrão quer garantir o caráter impositivo das emendas, o fundo partidário e eleitoral e participar do bilionário Orçamento de Guerra”, comenta um veterano observador da cena política de Brasília, o cientista político Antonio Augusto de Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar.

Claudia Safatle - Como será o amanhã?

- Valor Econômico

Temor da equipe econômica é que o resultado das ações emergenciais do Executivo desemboque em maior participação do Estado na economia

Há uma forte inquietação na área econômica do governo em busca de um horizonte de definições para o pós-pandemia da covid-19. O temor é que o resultado das ações emergenciais do Executivo desemboque em uma maior participação do Estado na economia, exatamente o contrário da proposta que venceu as eleições de 2018, de redução do papel do Estado na atividade econômica, sintetizada no slogan “Mais Brasil, menos Brasília”, adotado como lema pelo ministro Paulo Guedes, da Economia.

Uma das medidas temporárias que podem se tornar permanentes, na avaliação de técnicos oficiais, é a do auxílio emergencial de R$ 600 para os trabalhadores informais. Concebida para durar apenas três meses, será muito difícil extingui-la sem colocar nada no lugar, segundo essa visão. Trata-se de um benefício que tem tudo para se transformar em um amplo programa de renda mínima, em detrimento de gastos indiretos em projetos sociais.

O problema é o tamanho dessa despesa: o seu custo final caminha para a casa dos R$ 150 bilhões, envolvendo uma parcela gigantesca da população - mais de 79 milhões de brasileiros, segundo prognósticos da Instituição Fiscal Independente (IFI). São os trabalhadores informais, autônomos, microempreendedores individuais (MEI).

Mesmo diante de resistências iniciais, o governo sabe que não será simples suspender a ajuda a essa parcela da população até então invisível.

Um programa estratégico de saída da pandemia, em que o Estado não ampliaria a sua presença na economia, deve aprofundar a agenda liberal, na ótica da equipe econômica. Mas é importante notar que essa alternativa tem pouca aderência às demandas que a elite política propaga em nome do povo.