sábado, 2 de outubro de 2021

Ascânio Seleme - As imagens dos mil dias do governo Bolsonaro

O Globo

primeira imagem foi o escatológico golden shower com a qual Jair Bolsonaro brindou os brasileiros logo no início de seu governo. No dia 5 de março de 2019, o presidente compartilhou em suas redes sociais um vídeo em que um homem urina na cabeça de outro. Fez isso para gratuitamente atacar os blocos de carnaval. Visto de hoje, depois de tudo o que temos passado, aquele compartilhamento absurdo vindo da maior autoridade nacional parece até bobagem. Além desta imagem inaugural, há uma coleção de retratos que explica bem o caráter doentio deste governo.

A série de ataques à democracia e aos Poderes instituídos tem três momentos símbolos. O primeiro foi a manifestação do dia 19 de abril de 2020 liderada por Bolsonaro em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília. A foto síntese tem o presidente em primeiro plano discursando para um grupo de pessoas que levavam cartazes pedindo o fechamento do Supremo e do Congresso, a volta do AI-5 e a intervenção militar. Por isso apenas um processo de impeachment deveria ser aberto por Rodrigo Maia, que nada fez. O segundo momento foi o desfile de tanques fumacentos na Esplanada, e o terceiro, a tentativa fracassada de golpe do dia 7 de setembro passado.

No quesito pandemia, há um sem número de imagens que entristeceram o país. As fotos das sepulturas sendo abertas em escala industrial são as mais duras. Mas há as ridículas também, como a da ema fugindo de Bolsonaro, que lhe ofereceu uma caixa de cloroquina. O presidente fez tudo o que esteve ao seu alcance para sabotar o combate ao coronavírus. O resultado da sua ação deletéria será conhecido em toda a sua extensão no relatório da CPI da Covid, mas estudos indicam que pelo menos 200 mil das 600 mil mortes no pais poderiam ter sido evitadas se o governo tivesse agido de modo contrário.

Ligia Bahia* - Almas mortas na Prevent Senior

O Globo

Quem ainda permanece perplexo com a sequência de atrocidades que ocorreram com clientes da empresa Prevent Senior, atravessadas por requintes na negociação de óbitos, só encontrará explicações plausíveis na ficção. Uma interpretação racional sobre a obtenção de retornos financeiros, transmutando vivos em mortos, requer auxílio da imaginação. É preciso adentrar recônditos das transgressões autorizadas, consentidas, pelas instituições que deveriam ter impedido tamanha barbaridade.

A primeira barreira rompida foi a permissão para a entrada no mercado de pré-pagamento de uma empresa para idosos. O caráter mutual, atuarial, essencial para a sustentabilidade de seguros, foi abandonado em função da avidez para captar pessoas expulsas de planos de saúde tradicionais. Havia um mercado a explorar mediante a fixação de metade dos preços para a faixa etária acima de 60 anos. Para escavar um solo perigoso, doenças frequentes e altos custos assistenciais se socorreram de premissas inconsistentes.

Organizaram um modelo de negócio baseado em controle de doenças crônicas (prevalentes entre idosos) e cuidados paliativos realizados em hospitais e num corpo de médicos próprio ou estreitamente vinculado à empresa. Verticalização e controle de custos. Duas pontas de um processo que prometia prolongar a vida com qualidade. Quanto mais anos vividos, mais pagamentos de mensalidades.

Pablo Ortellado – WhatsApp regulamentado

O Globo

Depois de uma longa série de audiências públicas na Câmara, o deputado Orlando Silva, relator do Projeto de Lei 2.630/20, conhecido como PL das Fake News, deverá apresentar seu relatório com eventuais modificações no texto aprovado pelo Senado.

Um dos maiores desafios é a regulação dos serviços de mensageria instantânea, como WhatsApp e Telegram. Ao contrário de outros pontos do projeto, a regulação não dispõe de modelos internacionais consagrados, em parte porque alguns dos problemas com o uso da mensageria instantânea são criação original brasileira.

A mensageria instantânea foi criada para a comunicação interpessoal, mas logo se converteu em ferramenta de comunicação de massa, com a viralização de mensagens chegando a milhões de pessoas. Esse caráter híbrido do serviço (em parte interpessoal, em parte de massa) faz com que as proteções de opacidade e sigilo, virtuosas na comunicação “um a um”, se tornem deletérias quando estendidas à comunicação “um-muitos”.

Alvaro Costa e Silva - Steve Bannon, o comparsa

Folha de S. Paulo

Para quem expõe a população à morte, melar as eleições não será nada de mais

Os bandidos da velha Hollywood que depois de aplicar seus golpes fugiam para o Brasil em busca de praias paradisíacas e água de coco no canudinho tinham mais dignidade. Charme, então, nem se fala. Em "O Mistério da Torre" (1951), Alec Guinness faz o bancário que rouba um carregamento de ouro e voa para o Rio. James Mason, em "Cinco Dedos" (1952), é o funcionário da embaixada britânica que vende segredos de guerra e planeja se esconder aqui. Na vida real, Ronald Biggs assaltou um trem pagador de modo espetacular, como só se vê no cinema. Ao lado da mulher cearense, contando vantagem num boteco de Santa Teresa, Biggs era o típico gringo acariocado.

Como compará-los a Steve Bannon, o comparsa do deputado Eduardo Bolsonaro? Até para um filme noir dos anos 40 a figura dele é desprezível demais.

Demétrio Magnoli - Corpos numa exposição

Folha de S. Paulo

'Corda do pluralismo' baseia-se na concorrência de visões de mundo diferentes

 “Mãe, Filha e Boneca”, da iemenita Boushra Almutawakel, é uma sequência de nove fotografias que retratam o progressivo “desaparecimento” dos corpos femininos sob camadas cada vez mais espessas de tecidos.

A obra, uma crítica sem véu do fundamentalismo islâmico, está na exposição “A Identidade Humana”, no CaixaForum de Madri. Mas o texto explicativo que a acompanha, escrito pela curadoria, distorce seu sentido, apresentando-a como uma reflexão sobre os “enfoques antagônicos” acerca da exibição do corpo das mulheres nas sociedades muçulmanas.

Os curadores não temem a ira de regimes fundamentalistas, com escassa influência nos meios intelectuais europeus. Não querem é atrair a fúria santa dos arautos do multiculturalismo que poderiam acusá-los de desrespeito à “cultura muçulmana”. Sabem que o esporte da moda é exigir a supressão do discurso público destoante dos artigos de fé dos pregadores da nova religião hegemônica.

Num passado ainda recente, pedir a cabeça de colunistas de opinião era uma prática restrita a políticos sem noção, amplamente ridicularizada no ambiente da imprensa.

Everardo Maciel* - A contrarreforma

Folha de S. Paulo

Projeto promove descapitalização e aumento do endividamento das empresas

A legislação do Imposto de Renda no Brasil tem, sem lugar a dúvidas, imperfeições, da mesma forma que a legislação de todos os países. A despeito disso, é reconhecidamente uma das mais simples e eficientes do mundo, inclusive em termos arrecadatórios, como bem demonstra hoje o excepcional desempenho das receitas federais.

Contra esse exitoso modelo propôs-se uma reforma do IR, que não foi demandada por nenhum contribuinte e atropelou o processo legislativo na Câmara, sendo votada sem debates públicos e sem a apresentação de estimativas confiáveis quanto às suas repercussões sobre contribuintes e entes federativos.

Vou concentrar-me nos seguintes pontos do projeto: elevação do limite de isenção da pessoa física, tributação dos dividendos e extinção dos juros do capital próprio.

Reajustar o limite mensal de isenção do IR das pessoas físicas de R$ 1.903,98 para R$ 2.500 é uma boa iniciativa, mas é preciso sublinhar que, ao menos entre os contribuintes que se encontram entre essas duas faixas de renda, o ganho máximo será de R$ 7,20 mensais, insuficiente portanto para comprar um quilo de pão.

Adriana Fernandes - Auxílio temporário e vale-gás

O Estado de S. Paulo

A aprovação pela Câmara do “desconto-gás”, um subsídio mensal pago pelo governo e destinado às famílias de baixa renda para a compra de gás de cozinha, colocou mais uma peça no difícil xadrez orçamentário para 2022.

Com a alta dos combustíveis pesando na renda dos mais pobres e tirando apoio popular dos políticos na véspera de ano eleitoral, os parlamentares já deixaram claro que não abrem mão desse benefício, com custo ainda não calculado, mas na casa de bilhões.

O subsídio do “desconto-gás” não é o mesmo do programa da Petrobras.

A estatal petrolífera liberou R$ 300 milhões, em 15 meses, para custear o acesso ao produto por uma faixa da população de baixa renda, medida considerada paliativa.

Já o “desconto-gás”, que vem sendo chamado de vale-gás, é um crédito que será dado às famílias inscritas no Cadastro Único, com renda familiar mensal per capita menor ou igual a meio salário mínimo. O dinheiro só poderá ser usado na aquisição de gás. O Senado ainda precisa aprovar o projeto.

João Gabriel de Lima* - A vitória do almirante e a palavra do chanceler

O Estado de S. Paulo

Civilidade e eficiência: eis as lições da vacinação em Portugal e das eleições na Alemanha

A marca registrada do vice-almirante Henrique de Gouveia e Melo, em suas entrevistas à TV portuguesa, era o traje militar de camuflagem. Quando questionado sobre a indumentária, Gouveia e Melo respondia: “Se isso não é um combate, então o que é um combate?” Ele se referia à pandemia: foi o coordenador da força-tarefa da vacinação em Portugal. Deixou o cargo nesta semana coberto de glórias. Portugal é o país com melhor média de vacinação no mundo, 84% da população com duas doses. Em seu discurso de despedida, em vez da camuflagem, usou um traje de gala de almirante, todo branco.

“Portugal conseguiu esse resultado por causa de muitos fatores: a cultura de campanhas de vacinação, a competência de autoridades como Gouveia e Melo e também a atuação da imprensa, que enfatizou o tempo todo a importância da vacina”, diz Ricardo Alexandre, diretor adjunto da rádio portuguesa TSF. Professor universitário e um dos principais jornalistas do país, ele é o entrevistado do minipodcast da semana.

Miguel Reale Júnior* - O ‘direito’ à mentira

O Estado de S. Paulo

Jair Bolsonaro e família sabem do relevo eleitoral da viabilidade deste direito

Bolsonaro, 15 dias atrás, na solenidade de entrega do Prêmio Marechal Rondon de Comunicações, verbalizou a maior de todas as mentiras ao dizer: “Fake news faz parte da nossa vida. Quem nunca contou uma mentirinha para a namorada?” E completou: “Não precisamos regular isso aí, deixemos o povo à vontade”.

A pretensão de banalizar a mentira, normalizando a desinformação, constitui desonestidade intelectual, pois bem sabe que o falsear a verdade foi o principal expediente para a vitória eleitoral em 2018. Por isso, visa a proteger o “direito” à inverdade, proibindo por medida provisória a exclusão de falsidades pelas próprias plataformas: “Não regula, deixa à vontade”.

O peso da mentira na política é imenso: a publicação, em 1905, do Protocolo dos Sábios do Sião, produzido por sequazes do czar, reunia pretensos relatórios de chefes judaicos para dominação do mundo pela via das finanças, do comércio, da comunicação. Deste forjado documento valeu-se Hitler para justificar perseguição ao povo hebraico que desaguou na solução final. Entre nós, documento também forjado, o Plano Cohen, revelava estratégia de tomada do poder pela Internacional Comunista, a justificar a instalação da ditadura getuliana, em 1937, “como medida necessária”.

Hoje a rapidez e a dimensão da disseminação da mentira deformam o processo de escolha do eleitor, induzido a erro pelo disparo em massa de desinformações nas redes sociais, cujos conteúdos são assimilados sem filtro crítico, num excesso de mensagens com escassez de reflexão.

Dora Kramer - Atração mortal

Revista Veja

A dinâmica do “não” deixa como legado de cada eleição um contingente enorme de insatisfeitos

As posições extremadas na política animam o ambiente eleitoral, quanto a isso não há dúvida. A polarização “dá onda”, ativa a adrenalina geral, como mostra o destaque obtido por personagens adeptos desse tipo de estilo. Usuários da excitação conquistam as melhores posições nas pesquisas sobre intenções de voto.

A forte emoção é um atrativo, mas no caso da eleição de alguém para ocupar a liderança da República por quatro ou oito anos o resultado de tal atração pode ser mortal. O menor dos malefícios é a produção de hordas de arrependidos. O maior são os prejuízos causados ao país por escolhas baseadas em sentimentos exacerbados que interditam os pensamentos.

Gosto de exemplos da história recente. São didáticos e facilitam a compreensão das coisas. Volto à primeira eleição direta pós-ditadura, quando havia 22 candidatos à Presidência à direita e à esquerda, vários com trajetória e reputação sólidas.

A despeito do bom cardápio à disposição — cito apenas dois, Ulysses Guimarães e Mário Covas, para não fazer juízo de valor sobre os vivos —, a maioria optou por um arrivista que soube capitalizar a raiva do brasileiro em relação ao então presidente José Sarney. Bom condutor da transição democrática, ficou marcado pela explosão inflacionária.

Ricardo Rangel - Os traidores da pátria

Revista Veja

Qualquer um que esteja no governo é cúmplice na destruição do país

Jair Bolsonaro nunca escondeu quem era: um deputado rastaquera, que passou a vida a oscilar entre o extremismo e o desequilíbrio, e que se destacava somente por sua agressividade, vulgaridade e excentricidade.

Mas em 2018, por motivos diversos, milhões de pessoas, que em condições normais jamais votariam em Bolsonaro, o elegeram. Nessa temerária decisão, pesou o cálculo de que, na Presidência, Bolsonaro não conseguiria ser o que sempre foi: os adultos na sala o manteriam sob controle. O governo seria ruim, possivelmente muito ruim, mas não a devastação que é.

A linha de frente para manter Bolsonaro dentro do tolerável seriam os militares, vistos como sérios, profissionais, competentes, honestos. Mas Heleno, Ramos e Braga Netto jogaram a seriedade e o profissionalismo no lixo e aderiram com entusiasmo ao golpismo e ao desmonte do Estado. Pazuello e o almirante Bento demonstraram que farda não garante competência. E meia dúzia (ou dúzia inteira) de coronéis no Ministério da Saúde esclareceu que não é preciso ser civil para ser corrupto.

Matheus Leitão - Como Bolsonaro está usando o seu, o meu, o nosso dinheiro

Revista Veja 

O Presidente usa recursos financeiros, humanos e físicos do governo para viabilizar sua reeleição. TSE e TCU estão com a palavra 

Defensor de ditaduras, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tenta há alguns anos se confundir com o Estado brasileiro. A última moda dele é gastar (muito) dinheiro público para autopromoção, numa campanha eleitoral ilegal que se vale também da estrutura física e de recursos humanos do governo federal.

A repórter Ana Luiza Albuquerque, da Folha de S.Paulo, levantou que o contribuinte já gastou, pelo menos, R$ 2,8 milhões com as motociatas organizadas pelo presidente pelo país ao lado de seus apoiadores mais extremistas –aqueles que negam a existência da pandemia e defendem a generalização da posse e porte de armas, por exemplo.

A repórter Mariana Carneiro, de O Globo, revelou um documento em posse do Tribunal de Contas da União (TCU) que calculou em R$ 1,062 milhão o custo para o erário de apenas três motociatas (ocorridas no Rio, São Paulo e Chapecó).

O gasto público é muito maior porque Bolsonaro também envolve nos eventos de sua campanha eleitoral fora de época recursos do governo federal, como aeronaves, e também os próprios servidores públicos, como ministros e assessores, que são remunerados com o seu e o meu dinheiro, caro leitor, querida leitora.

Além disso, os eventos eleitorais do presidente demandam esforços e horas de trabalho de policiais militares e outros servidores públicos dos governos estaduais.

Fernando Schüler* - Elogio aos moderados

Revista Veja

O que precisamos são líderes pautados por ideias e um senso de responsabilidade republicana, não por uma eterna guerra de posições

Dias atrás tivemos o caso da Tabata Amaral. “Se encontro na rua, soco até ser preso”, diz um desses fanáticos digitais. Em seguida ela publicou um artigo listando frases de ódio de que tem sido vítima nos últimos tempos. Madeleine Lacsko fez isso também, e mais gente devia fazer, de preferência dando nome aos agressores. Há quem diga que tudo isso é um lixo irrelevante. O.k., é verdade. Mas é também um sintoma do mal-estar da cultura política atual. A ponta de um imenso iceberg que joga sombra sobre nossas democracias.

O ódio político vem de longe. Robert Darnton escreveu um livro sedutor, O Diabo da Água Benta, mostrando como funcionava a indústria dos libelos de difamação na Europa do século XVIII. Eles vinham da Grub Street, em Londres, e seguiam para atormentar a vida de padres e marqueses na França absolutista. O fenômeno é muito mais antigo. No século XVI, o sátiro Pietro Aretino fazia uso da estátua de Pasquino, que ainda se pode ver, em Roma, “difamando a cada dia um dos cardeais candidatos a papa”. Nosso “Pasquino”, hoje, é a internet inteira, para ver a enrascada em que nos encontramos.

Ódio político não tem ideologia. Ninguém até agora inventou um “odiômetro” para medir de que lado vem o maior volume de lixo retórico. Ele também não atende a essa ou aquela categoria, sejam grupos de raça, gênero ou religião. Seu foco frequente são os “poderosos”, e sua maior motivação é política. Seu alvo em essência é um só: o divergente. De todos, o pior é o “ódio do bem”. O ódio de O’Brien, do 1984, que torturava Winston Smith para lhe abrir os olhos. O mal que se faz por razões estranhamente virtuosas, dessas que o inferno está cheio.

Marcus Pestana* - Angela Merkel, a Alemanha e o Brasil

Fecharam-se as urnas na Alemanha. Revelou-se a esperada pulverização da representação no parlamento alemão. Angela Merkel se despede da vida pública. Será que nós brasileiros temos algo a aprender com ela e com o processo político alemão?

Merkel assumiu o posto de chanceler alemã em 2005, após ter sido Ministra do Meio Ambiente do governo Helmut Kohl e líder da oposição no governo da socialdemocracia alemã subsequente. Sendo química quântica, logo revelou seu talento para decifrar a “química da política”.  Foi a mais destacada estadista global dos últimos anos, ao lado de Barack Obama, e a mais longeva.

Foi a grande responsável pela consolidação da União Europeia e da Zona do Euro, com destacado papel no Tratado de Lisboa e na Declaração de Berlim.

Embora seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU), seja classificado como de centro-direita conservadora, tomou posições extremamente progressistas na crise financeira global de 2008; na reforma do sistema de saúde alemão; nas discussões sobre a matriz energética, fontes renováveis e aquecimento global; e, na crise migratória, se diferenciado dos líderes mundiais de extrema-direita como Trump. Ao invés de muros, construiu pontes humanitárias.

Merkel teve papel destacado no G7 e na manutenção de uma posição de equilíbrio no mundo globalizado. Tinha fobia de cães, traço adquirido na infância, e enfrentou a incivilidade de Putin, numa coletiva conjunta, quando o líder russo, para a intimida-la, apareceu com seu Labrador Retriever. Sua personalidade marcante e seu caráter ficaram claros em declaração posterior: “Eu entendo que ele tem que fazer isso – para provar que ele é homem – ele tem medo da própria fraqueza”. Sua austeridade pessoal sempre encantou os alemães.

Nas eleições de 2021, há uma semana, mais uma vez esboçou-se a complexa pulverização da representação partidária no Bundestag. A socialdemocracia fez 25,7% dos votos e 206 cadeiras. A aliança CDU/CSU fez 24,1% e 196 deputados. O Partido Verde roubou da extrema-direita a posição de terceiro maior partido, com 14,8% dos votos e 118 cadeiras. O Partido Democrático Liberal (FDP) totalizou 11,5% dos votos e conquistou 92 postos no parlamento. A extrema direita representada pela AFD caiu para 10,3% dos votos e terá 83 deputados. A Esquerda foi salva pelo gongo. Fez 4,9% dos votos, mas mesmo não cumprindo a cláusula de barreira de 5%, elegeu 3 deputados distritais, carregando 39 representantes para o parlamento.

Tudo indica que o candidato da SPD, Olaf Scholz, será o novo chanceler, mas terá que organizar maioria estável com Verdes e Liberais, deixando a CDU na oposição. Scholz, apesar de oposição a Merkel, era seu Ministro das Finanças. Coisas do parlamentarismo para embaralhar a cabeça dos brasileiros entretidos como a polarização radical e estéril. Aliás, três dos quatro mandatos de Merkel foram baseados em acordos programáticos entre a CDU e a Socialdemocracia alemã.

O que temos a aprender?   Primeiro, que um verdadeiro estadista tem que ter convicções, posições claras, firmeza e liderança. Segundo, a superioridade do parlamentarismo e do voto distrital misto, que sempre defendi no Congresso brasileiro, para a estabilidade institucional e a construção do futuro. Terceiro, que o diálogo, a negociação e o respeito aos diferentes é a matéria prima essencial da política.

 *Presidente do Conselho Curador ITV – Instituto Teotônio Vilela (PSDB)

O Que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

 

EDITORIAIS

As pedaladas de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Em manobra vergonhosa, Congresso autorizou uso de “propostas legislativas em tramitação” como fonte de compensação para criação ou aumento de despesas

Com as pedaladas fiscais, Dilma Rousseff descumpriu a lei orçamentária e, em conformidade com as disposições da Constituição e da Lei 1.079/50, foi condenada por crime de responsabilidade, o que lhe acarretou a perda do mandato. O processo de impeachment de Dilma Rousseff foi uma vigorosa recordação da relevância, para um Estado Democrático de Direito, do cumprimento das leis relativas ao uso do dinheiro público. Diante da burla petista das leis fiscais, as instituições reagiram, com destaque para a atuação responsável do Congresso.

O atual governo prometia ser radicalmente antipetista. No entanto, observa-se agora o mesmo desleixo com a responsabilidade fiscal que se viu nos tempos do PT no Palácio do Planalto, com a agravante de que Jair Bolsonaro vem cooptando as instituições, em especial, o Congresso, para o desmonte das leis fiscais. O presidente Bolsonaro tenta assegurar a impunidade de seus atos, mas os efeitos da irresponsabilidade fiscal continuam recaindo sobre a população: inflação, desemprego e retração dos investimentos, entre outros.

Poesia | Ferreira Gullar -Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Música | Samba da Portela 2022

 

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

José de Souza Martins* - Paulo Freire, educador

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Seu sistema era libertador, ao criar condições de que o alfabetizado compreendesse o mundo em sua própria perspectiva, e não como objeto

Neste centenário do educador Paulo Freire, um marco de sua biografia é o acontecimento que ficou conhecido como “As 40 horas de Angicos”, no sertão do Rio Grande do Norte, em 1963. Ali começava uma revolução educacional que se expandiria pelo país, pelo continente e pela África: ensinar adultos iletrados a ler e a escrever em 40 horas. O ensino se baseava no método criado por ele, que alterava profundamente a concepção de alfabetização de adultos.

O modo tradicional de fazê-lo pressupunha que todo analfabeto, independentemente da idade, era infantil. Usava-se com ele ou cartilhas para crianças ou cartilhas infantilizadas, com frases de referência, sem sentido, do tipo “Eva viu a uva”.

Em se tratando de adultos, o método pressupunha que são eles donos de um saber provado na sua experiência de vida. Portanto, a questão era tratar esse saber como um bem social.

A alfabetização começava com a pesquisa da língua e da linguagem das pessoas dos lugares em que ela seria realizada. Em vez de o aluno falar a língua do educador, o educador é que aprendia a língua de quem seria alfabetizado. Na prática, o professor é aluno de seus alunos. Nesse diálogo ele aprende para ensinar, para ser um agente de mediação da universalidade contida no vocabulário, na linguagem e no pensamento de que as palavras são instrumentos.

Fernando Luiz Abrucio* - Não ter “virtù” é a marca de Bolsonaro

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Mais do que os mil dias de governo, teríamos que estar discutindo as fontes do atraso que alimentam a visão bolsonarista  de mundo

Ao completar os mil dias de seu governo, Bolsonaro mais reclamou do que comemorou. Para o presidente, se não fosse a pandemia e seus efeitos sociais e econômicos, tudo teria dado certo. Com essa postura, em vez de listar seus feitos e prometer um futuro ainda melhor, seu discurso terminou com uma pérola do anticlímax ao comentar a inflação galopante: “Nada está tão ruim que não possa piorar”. Culpar os outros e o mundo, além de amedrontar o eleitorado com a possibilidade de alguém pior ganhar em 2022, é uma forma de esconder as responsabilidades da Presidência atual pelo buraco em que o país se meteu, o mais profundo desde o fim do regime militar.

O Brasil regrediu em todos os sentidos nos últimos três anos. Primeiro, com pioras econômicas marcantes agora em termos de inflação, desemprego e crescimento. Segundo, com aumento da desigualdade e da pobreza, com o retorno de uma fome que não se via desde antes do Plano Real, há 27 anos. Terceiro, pela destruição das principais políticas públicas brasileiras, como a educação, saúde e meio ambiente, algo que facilitou a morte de quase 600 mil pessoas por covid-19, levou à perda da oportunidade educacional para milhões de crianças e jovens pobres, além de ter ampliado gigantescamente o desmatamento e outros desastres ambientais. Quarto, por meio do fortalecimento de um segmento populacional abertamente autoritário e sectário em termos políticos e culturais, gerando uma verdadeira “Idade Média” no debate, polarizado entre fiéis e infiéis. Por fim, relegando o país a uma situação de pária internacional, que terá impactos geopolíticos e nos investimentos produtivos, processo que atrasa a recuperação do desenvolvimento nacional.

César Felício - Os sócios

Valor Econômico

Bolsonaro fraco dá ao Congresso liberdade para tudo

A fraqueza política do presidente Jair Bolsonaro conta com sócios fora da base do governo. Quem se beneficia ou recebe dividendos sabe que a reeleição no próximo ano parece improvável, o que é um estímulo a buscarem extrair agora tudo que é possível. Um novo presidente, em 2023, seja quem for, irá rediscutir em outras bases a relação do Executivo com o Congresso.

Nesta sociedade, não entram apenas Câmara e Senado, mas também Estados e municípios. Muito se fala das emendas de relator, as famosas RP-9, mas outro mecanismo que ilustra essa debilidade foi instituído em 2019. São as RP-6, as chamadas transferências especiais.

Com autoria da petista Gleisi Hoffmann e relatoria de Aécio Neves, o Congresso aprovou a PEC 105, permitindo que emendas parlamentares de caráter impositivo possam determinar a transferência de verba a Estados e municípios de maneira direta e praticamente sem amarras. Elas não são vinculadas a nenhum programa específico. O prefeito ou governador recebe o montante e está livre para gastar como quiser, desde que deste total 70% vá para investimento e 30% para custeio. Mas nem mesmo essa demonstração foi feita pelos beneficiários.

Claudia Safatle - Bolsa Família pode ser prorrogado

Valor Econômico

O governo ainda não desistiu da aprovação, pelo Senado, do Projeto de Lei nº 2.335, de 2021, que reforma o Imposto de Renda e tributa os juros e dividendos, e negocia com os senadores um pacote de emendas parlamentares. Para não comprometer novos recursos, a área econômica tenta fazer uma redistribuição das emendas do relator.

Como casa dos Estados, o Senado também espera obter alguma medida que atenue a oposição dos governadores ao projeto de lei que, segundo argumentam, continua produzindo prejuízo aos Estados.

A Medida Provisória nº 1.061 extingue o Bolsa Família no início de novembro, para dar lugar ao programa Auxílio Brasil, de maior valor e amplitude (a proposta aumenta de 14 milhões para 17 milhões o numero de famílias beneficiadas), que seria financiado pelo imposto sobre juros e dividendos. Caso o Senado não aprove a tempo o pacote do Imposto de Renda, deixando para o ano que vem sua votação, o governo deverá prorrogar a existência do Bolsa Família.

Bolsonaro tem reprovação de 55%, diz Ipespe

Cristiane Agostine - Valor Econômico

A avaliação negativa do governo Jair Bolsonaro chegou ao pior índice desde o início do mandato

A avaliação negativa do governo Jair Bolsonaro chegou ao pior índice desde o início do mandato e 55% consideram a gestão como ruim ou péssima, segundo pesquisa Ipespe, encomendada pela XP e divulgada ontem.

O governo Bolsonaro é visto como bom ou ótimo por 23% dos entrevistados e regular por 18%.

A desaprovação ao governo também bateu novo recorde, de 64%. Na pesquisa anterior, de agosto, era de 63%. A aprovação, que era de 29%, oscilou para 30% e 6% não responderam.

O levantamento do Ipespe mostra um quadro semelhante ao registrado pelo Datafolha entre os dias 13 e 15, com a reprovação recorde de Bolsonaro, de 53%.

Na pesquisa divulgada ontem, a maioria da população apoia o impeachment do presidente neste momento: 51% são a favor e 45% contra. Dos entrevistados, 4% não responderam.

A população tem uma confiança maior nas Forças Armadas (58%), na Igreja Católica (57%) e na imprensa (38%) do que no presidente da República (33%). A instituição com melhor avaliação é a ONU, com a confiança de 59%. Em último lugar na escala estão os partidos políticos, com apenas 9% da população declarando confiança.

Vinicius Torres Freire - Lula e Meirelles contra a Petrobras

Folha d S. Paulo

Ex-presidente e líder liberal culpam lucro de acionistas pela carestia dos combustíveis

Lula da Silva (PT) quer tirar dinheiro da Petrobras para dar a quem consome combustíveis. Henrique Meirelles também. Meirelles é secretário da Fazenda de João Doria (PSDB), foi ministro da Fazenda de Michel Temer e presidente do Banco Central de Lula. Jair Bolsonaro prometeu tirar dinheiro da Petrobras, mas levou uma tunda no mercado e não fez nada. Desde então, promete tirar dinheiro dos estados a fim de aliviar o preço de gás, diesel e gasolina, entre outras patranhas. Meirelles não gostou.

A base do argumento de Lula e Meirelles é a mesma.

Lula: “O que a Petrobras está fazendo é acúmulo de dinheiro para pagar os acionistas... Quem está ganhando com isso são os investidores nas ações...” (foi o que disse à rádio Capital FM, de Cuiabá, na quarta-feira).

Meirelles: “Se queremos controlar o preço da gasolina ou do óleo diesel, é muito simples. É preciso diminuir a margem de lucro da Petrobras. Já está com margem extraordinária e precisa diminuir um pouco a remuneração da Petrobras e dos acionistas”, disse a jornalistas, também na quarta.

Ruy Castro - Tempo de validade expirando

Folha de S. Paulo

Ameaçar, ofender e agredir em turma é fácil, e ainda mais com o chefe sentado no trono

Nesta segunda-feira (27), em Manaus, o ecologista americano Philip M. Fearnside, 74 anos, foi interpelado por um ativista bolsonarista ao denunciar, numa audiência pública, que o licenciamento ambiental para a pavimentação da rodovia Manaus-Porto Velho (BR-319) viabilizará a grilagem e o desmatamento de uma imensa área intocada da floresta. Segundo o repórter Fabiano Maisonnave, o ativista tumultuou a cena aos gritos de “Como é que pode vir um cara lá dos Estados Unidos dizer o que eu vou fazer na minha casa? Essa casa é nossa! Se a gente quiser derrubar todas as árvores, a gente derruba! É nossa!”.

Bruno Boghossian - Bolsonaro errou mais uma

Folha de S. Paulo

Presidente leva arsenal de mentiras a palanques para renovar suspeitas sobre imunizantes

Jair Bolsonaro errou mais uma. No início do ano, o presidente investia contra a vacinação e alegava que "menos da metade" da população estava disposta a se imunizar contra a Covid-19. "É esta a pesquisa que eu faço na praia, faço na rua, faço em tudo quanto é lugar", especulou.

Nesta semana, o país ultrapassou a marca de 50% de adultos e adolescentes vacinados com duas doses ou dose única. Cerca de 85% da população com 12 anos ou mais já recebeu pelo menos uma injeção. Derrotado, Bolsonaro decidiu procurar novas formas de sabotagem na reta final da imunização.

Reinaldo Azevedo - Moro é erro velho do 'Feitiço do Tempo'

Folha de S. Paulo

Na origem da postulação do ex-juiz, está a ideia já testada, com resultados desastrosos, do 'outsider' redentor

Como é? Sergio Moro, em passagem pelo Brasil, vindo dos EUA, onde mora, para decidir se vai se candidatar à Presidência ou ao Senado por São Paulo? Ele sabe onde ficam Dois Córregos ou Botucatu? E se percebe, quase sem exceções, uma imprensa lhana, mansa, condescendente com as suas pretensões. Alguns avançam no terreno do entusiasmo.

“Ah, lá vai o Reinaldo Azevedo pegar no pé de Moro de novo!!!” Conheço essa e outras tentativas de desqualificação desde que, já no fim de 2014, percebi que se preparava, ainda que não houvesse um núcleo organizado para isto, o berço do herói. Como jamais confundi juiz com justiceiro, penso ter feito o meu trabalho e realizado o desiderato de minha profissão. O papel de um juiz é aplicar a lei, não produzir bugigangas ideológicas.

É claro que já foi mais difícil criticar a atuação de Moro. Depois das revelações da Vaza Jato, no notável trabalho jornalístico do The Intercept Brasil, com dados adicionais da Operação Spoofing, as pessoas minimamente comprometidas com o Estado de Direto e com o devido processo legal se deram conta: não era possível coonestar aquelas práticas, a menos que o vale-tudo, em nome de noções solipsistas de justiça, tomasse o Judiciário, e as togas se convertessem em uniformes de milicianos judiciais.

Luiz Carlos Azedo - A desagregação do centro

Correio Braziliense

É cada vez mais difícil o surgimento da chamada terceira via, uma candidatura que unifique o centro político. A fragmentação é muito grande.

Todas as pesquisas confirmam o cenário de polarização para as eleições presidenciais de 2022, entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), favorito na disputa, em torno de 40% de intenções de votos, e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), cuja reeleição está cada vez mais difícil, com teto nos 30% dos votos. O governador de São Paulo, João Doria, não sai da faixa dos 3% de intenções de votos, como candidato do PSDB. Se o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, fosse o candidato do PSDB, também não haveria grande modificação.

O candidato de oposição que aparece com melhor pontuação é o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), que se mantém em terceiro lugar, variando de 5% a 11%, dependendo da pesquisa. Entretanto, o pedetista não consegue ampliar suas alianças ao centro. A estagnação nas pesquisas eleitorais dificulta a vida de Doria, na medida em que o gaúcho Eduardo Leite corre na mesma faixa, o que aumenta o isolamento interno do governador paulista nas prévias do PSDB.

Eliane Cantanhêde - Corrida aos 51%

O Estado de S. Paulo

Lula une Paes e Molon e faz do Rio laboratório de sua estratégia para 2022

Acorrida eleitoral de 2022 dispara em outubro, com o presidente Jair Bolsonaro investindo no contato direto com a população, o ex-presidente Lula focando nas articulações políticas com governadores e cúpulas partidárias e as forças de centro ainda incapazes de dar cara e corpo ao tão desejado e tão distante candidato de centro.

Bolsonaro passa mais tempo em aviões e palanques do que governando em seu gabinete e pode ser mais visto, fotografado e filmado do extremo norte ao extremo sul do que em Brasília. Inaugura qualquer coisa, em qualquer lugar. O que importa é repetir 2018 e cair nos braços do “povo” – o seu “povo”, diga-se.

Já Lula usa a lábia, o carisma e a experiência para definir um leque de apoios muito além do PT e das esquerdas e que, na prática, não deixa franjas para uma terceira via. Para ele, não basta inviabilizar um nome ao centro; é preciso garantir que o centro e a centro-direita não pulem no colo de Bolsonaro.

Em sua última visita ao Rio, Lula brindou o PT e a esquerda com duas pérolas de pragmatismo. A primeira: “Se há uma coisa que aprendi na política é que você só ganha se tiver 51%, senão perde. Com o que temos aqui nesta sala, não temos 51% e não vamos ganhar”. Tradução: ou a esquerda faz alianças com centro e centro-direita, ou ninguém vai a lugar nenhum, especialmente na principal base eleitoral de Bolsonaro.

Fernando Gabeira - Mil dias rumo ao isolamento

O Estado de S. Paulo

Dias que restam devem confirmar marcha de Bolsonaro para sua real estatura política

No momento em que o governo comemora mil dias e nós lamentamos a morte de 600 mil pessoas na pandemia, creio que a expressão isolamento define a trajetória de Bolsonaro.

Pode parecer inadequado falar de solidão nestes mil dias, sobretudo quando se mobiliza tanta gente como ele. Mas, se consideramos o percurso de um presidente que se elegeu com 57 milhões de votos e hoje é rejeitado pela maioria, vemos como ele perdeu terreno, o que é pior, supondo que estava avançando.

Quando Bolsonaro se elegeu, havia uma visão crítica internacional baseada nas suas declarações sobre violência e suas posições machista e homofóbica. O tempo encarregou de transformar essa desconfiança numa certeza mundial. Em primeiro lugar, as posições negacionistas na pandemia e, logo em seguida, também com grande peso, uma política devastadora no meio ambiente.

Rogério F. Werneck - Affonso Pastore, em grande forma

O Globo / O Estado de S. Paulo

Título do novo livro do economista soa como oportuna conversa de forca em casa de enforcado

Num país infenso às lições da História, sempre pronto a voltar a se fascinar com os mesmos descaminhos desastrosos de sempre, o título do novo livro de Affonso Celso Pastore — publicado pela Portfolio-Penguin, da Editora Schwarcz — soa como indispensável e oportuna conversa de forca em casa de enforcado: “Erros do passado, soluções para o futuro: a herança das políticas econômicas do século XX.”

Com cinco décadas de presença destacada no debate econômico brasileiro, Pastore firmou-se como uma das vozes mais respeitadas do país. O livro cobre amplo e variado leque de questões a que o autor se dedicou com mais afinco, ao longo de sua extensa vida profissional.

Não há aqui espaço para fazer jus ao cuidado analítico revigorado com que Pastore revisita e reexplora cada um desses temas que lhe intrigaram no passado. Não posso mais do que me ater a um sobrevoo seletivo de algumas das questões tratadas, na esperança de que o leitor entreveja, com a nitidez possível, o escopo, a atualidade e a relevância do livro.

Tendo em conta a pujança e as dimensões atuais do agronegócio no Brasil, os mais jovens talvez não saibam que, há não mais que 50 anos, o debate econômico no país ainda estava dominado por grande desalento com as possibilidades de desenvolvimento do setor agropecuário.

Vera Magalhães - Chega de dar palco para maluco

O Globo

A CPI da Covid só foi necessária e se tornou relevante e urgente porque o presidente Jair Bolsonaro promoveu, desde o início da pandemia, uma gestão irresponsável que fez com que o Brasil visse explodir o número de casos e de mortes enquanto atrasava o início da vacinação da população e apostava em tratamentos sabidamente ineficazes.

O rol de revelações da comissão do Senado é estarrecedor, e o saldo de seu trabalho, que só foi possível graças a uma decisão do Supremo Tribunal Federal, é amplamente positivo.

Não fossem as sessões da CPI, o escândalo da negociação da vacina indiana Covaxin por meio de atravessadores e com sobrepreço e irregularidades de toda natureza provavelmente não teria vindo à tona.

Da mesma forma, a cronologia do oferecimento insistente de doses de vacinas ao Brasil pela farmacêutica Pfizer, já em meados de 2020, seguido da total falta de resposta e interesse por parte do governo Bolsonaro, foi revelada graças aos trabalhos da comissão do Senado, bem como as tentativas de boicotar a compra da CoronaVac, desenvolvida em parceria do laboratório chinês Sinovac com o Instituto Butantan.

Flávia Oliveira - A mais degradante das crises

O Globo

Geisa Sfanini, 32 anos, moradora de Osasco (SP), teve 90% do corpo queimado porque, sem gás nem dinheiro, usou etanol para cozinhar. Ela morreu na última segunda-feira, deixou órfão um bebê de 8 meses. Duas vezes por semana, Denise da Silva, 51, viúva, cinco filhos, 12 netos, vai de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, até a Glória, na Zona Sul carioca, para garimpar num caminhão fragmentos de carne bovina em pedaços de ossos e pelanca, mostraram Rafael Nascimento de Souza e Gabriel Sabóia em reportagem no Extra. Os restos descartados por supermercados tinham como destino fábricas de ração e sabão, até a fome levar a população ao desespero e o país ao patamar de miséria do século passado. Dezenove milhões de brasileiros, a maioria negros, estão à míngua, enquanto autoridades dormem, e o presidente da República, impopular como nunca, gasta tempo em campanha antecipada à reeleição.

Ruth de Aquino - Quando os médicos são os monstros

O Globo

Que existem médicos sem ética e desumanos, sabíamos antes da pandemia. Com a Covid-19, ficou claro que alguns não respeitavam a ciência. Mas a CPI sacramentou uma suspeita. A de que médicos, por convicção, ambição, dinheiro ou medo, induziram ao contágio, falsificaram atestados de óbito. E mataram pacientes.

São acusações gravíssimas. Feitas por médicos. Que trabalharam na Prevent Senior, a operadora de saúde especializada em idosos e pacientes com comorbidades. O Brasil hoje sabe, graças ao depoimento corajoso de uma advogada, que a Prevent e Bolsonaro comungavam da mesma estratégia, a de minimizar as mortes na pandemia. 

“Só fracos, doentes e idosos devem se preocupar”, disse Bolsonaro em maio do ano passado. Pouco mais de 24 mil tinham morrido de Covid. “A chuva está aí, vamos nos molhar e alguns vão morrer afogados”. Os mais velhos eram problema da família. “Não pode deixar na conta do Estado. Tem que botar o vovô e a vovó no canto”. Os outros? Fingir normalidade. Sem máscara. Sem isolamento. E com o maldito kit de cloroquina e ivermectina.