sábado, 21 de dezembro de 2024

Feliz Natal!





O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso é sócio do Executivo na piora da economia

O Globo

Ao aliviar pacote de controle de gastos, parlamentares ignoram a gravidade da crise e ampliam seu custo no futuro

Para estabilizar a dívida pública, o Brasil precisaria de um ajuste fiscal da ordem de R$ 300 bilhões no Orçamento. No primeiro ano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o valor ficou em R$ 30 bilhões e, no segundo, em R$ 40 bilhões. O pacote fiscal enviado ao Congresso em novembro, se tivesse sido aprovado sem modificações, promoveria um corte médio anual da ordem de R$ 35 bilhões. Depois de votações na Câmara e no Senado, o que já era ruim ficou pior. Demonstrando tibieza, os congressistas desidrataram várias medidas propostas. Tiraram força do corte de despesas sem aprovar alternativas. Fingiram desconhecer a gravidade do momento e só adiaram para 2025 o enfrentamento da grave crise fiscal. Se até agora o descaso com as contas públicas poderia ser atribuído sobretudo ao Executivo, ele passa a ter um sócio de peso: o Congresso Nacional.

É certo que ajustes fiscais costumam ser feitos em etapas, mas o gradualismo imposto pelo Parlamento é irreal. No texto enviado ao Congresso, o governo solicitava poder para bloquear ou contingenciar até 15% das emendas parlamentares em caso de necessidade. Nada mais lógico. Por que manter o Parlamento fora do esforço para buscar o equilíbrio? Sem apresentar nenhum argumento convincente, os congressistas enfraqueceram a proposta: somente as emendas de comissão poderão ser bloqueadas.

Da contracultura à nova direita - Pablo Ortellado

O Globo

Um dos desenvolvimentos mais surpreendentes da política americana nos últimos meses foi a inesperada aliança entre o movimento de bem-estar e o trumpismo. Esse alinhamento se evidenciou com o apoio de Robert Kennedy Jr., candidato independente e crítico das vacinas, a Donald Trump, culminando com sua nomeação como secretário de Saúde do novo governo.

Bem-estar (wellness) é um termo coringa para identificar um conjunto de práticas e preocupações com a saúde e o bem-estar que podem incluir a medicina alternativa, a alimentação natural, práticas espirituais e o uso terapêutico de psicotrópicos. No passado, esse tipo de atividade era um componente importante da contracultura de esquerda, mas as reviravoltas da política têm empurrado essa subcultura para a direita.

Lula já superou uma crise fiscal – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quadro atual é parecido com o de 2002. A diferença é a falta de vontade do presidente de aceitar e topar um ajuste mais forte

Em setembro de 2002, quando estava claro que Lula venceria as eleições, o dólar foi a R$ 4 — o equivalente a mais de R$ 8,50 de hoje. Os títulos da dívida do governo brasileiro eram negociados a 40% do valor de face. Estavam no cardápio dos títulos podres. Mesmo pagando caro, o Tesouro não conseguia colocar papéis novos no mercado em quantidade suficiente para rolar a dívida.

Era o governo FH, mas havia medo do futuro governo Lula. A retórica de campanha havia sido explosiva. Falava em moratória da dívida pública externa e interna. Com os tradicionais ataques ao Banco Central e aos especuladores da Avenida Paulista, a Faria Lima da época.

Lula já havia lançado a Carta ao Povo Brasileiro, em junho, documento em que prometia não romper contratos e assegurava que faria um governo responsável. Mas o documento era visto com desconfiança, como uma espécie de truque para enganar os eleitores do centro e, claro, o mercado.

É a lucidez, desatino – Eduardo Affonso

O Globo

Que o presidente abandone a ideia de empurrar com a barriga o ajuste e abjure a crença de que uma inflaçãozinha não dói

A melhor notícia do ano, até agora, veio num boletim médico do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, em 14/12. Nele, dois diretores garantiam que o presidente Lula estava “lúcido e orientado, alimentando-se e caminhando”, depois de passar por uma cirurgia de emergência.

Se Lula estava lúcido, acabariam os ataques ao Banco Central — algo como quebrar o termômetro para baixar a febre. Mas, no dia seguinte, em entrevista ao Fantástico, o presidente declarou que “a única coisa errada neste país é a taxa de juros”. Era uma recaída — a gente sabe que a lucidez não vem assim, de chofre, e podem sobrevir pequenos desatinos.

Cegueira deliberada - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Câmaras corporais de PMs deveriam ser do tipo que faz gravação ininterrupta, mas STF avança o sinal ao criar obrigação não prevista em lei

Não é preciso mais do que dois neurônios operacionais para perceber que as câmeras corporais da polícia devem ser do tipo que faz a gravação contínua.

Aparelhos que só filmam após acionamento pelo agente da lei talvez funcionem bem em países com boas polícias, mas este não é o nosso caso. Por aqui, precisamos é de mecanismos que evitem que maus PMs se valham de estratagemas, como deixar acabar a bateria, para impedir gravações que poderiam complicá-los.

A política de segurança pública de Tarcísio de Freitas é nada menos do que desastrosa. Sob comando do coronel Guilherme "a Rota é Muito Mole" Derrite, a secretaria da Segurança Pública parece ter emitido uma licença para matar, que parte dos PMs utiliza com alegria.

Nuvens turvas no horizonte – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Se Lula não mudar, 2025 será um ano difícil para seus planos eleitorais de 2026

Duas pesquisas divulgadas nos últimos dias, Datafolha e Ipec, trouxeram para o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) a péssima notícia de que há um empate entre as avaliações positiva e negativa do governo: 35% a 34% em uma, 34% a 34% na outra.

Isso significa a metade do índice de 70% de popularidade medido em meados do segundo mandato, há 16 anos.

Para piorar, os índices são semelhantes aos marcados para Jair Bolsonaro (PL) na altura do mesmo período, em plena pandemia cheia de desacertos.

A réplica imaginária de Roberto Campos Neto - Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

'Escrevo-lhe para externar a esperança que um dia o PT afaste-se do seu dogma econômico'

Prezada Gleisi Hoffmann,

Recebi sua carta com surpresa e alegria (shorturl.at/YEAQ1). Escrevo-lhe, também em caráter privado, para externar uma esperança e uma confissão.

A esperança: que um dia, finalmente, o PT afaste-se do seu dogma econômico. Nunca duvidei de sua inteligência, nem na de Lula ou dos demais dirigentes petistas. Não sou político, mas imagino que seja muito difícil rever artigos de fé. Contudo, o Brasil precisa disso.

Há tempos, o PT não é socialista –quanto mais comunista! De fato, talvez jamais tenha sido. Sou um conservador, mas reconheço no teu partido uma das mais relevantes correntes políticas nacionais. Já passa da hora de vocês atualizarem seu pensamento econômico, sem renunciar à alma de esquerda.

Do mau humor - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O governo comunica que é condescendente com a inflação. Mais: que a inflação faz parte dos planos. É o que informa Lula ao declarar que “a inflação está totalmente controlada”. Não se trata de delírio; antes de projeto. Projeto político eleitoral. Repetido.

O presidente informa que essa inflação que ganha corpo, estoura o limite máximo de tolerância da meta e mostra os dentes é aceitável, se a contrapartida for bancar até 2026 o voo de galinha do PIB.

Insegurança pública e suas consequências letais - Antonio Cláudio Mariz de Oliveira

O Estado de S. Paulo

A Polícia Militar de São Paulo não pode ter sua gloriosa trajetória maculada pelo estigma de ser uma corporação que mata inocentes

As forças que seriam de proteção social estão provocando eventos letais. São crianças, jovens, negros e pardos em sua maioria, velhos, trabalhadores, mulheres mães e avós que perdem a vida mesmo estando distantes do crime e sem terem participado de confrontos policiais. As mortes de uma criança em Santos e de um estudante desarmado em São Paulo, de um homem morto pelas costas e o abominável lançamento de alguém de uma ponte são as mais recentes tragédias. Segundo noticiou O Estado de S. Paulo, a Polícia Militar (PM) vitimou 496 pessoas no corrente ano.

Por que as forças de segurança, em nome do combate ao crime, estão matando? Os defensores das ações violentas dirão que são contingências inevitáveis desse combate. Será? Claro que não.

A sociedade e Rubens Paiva - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

O governo Bolsonaro resgatou a turma dos serviços de inteligência que, na verdade, nunca se dissolveu. Continuou a existir de maneira mais ou menos clandestina dentro das organizações militares

A prisão do general Braga Netto é o mais visível sinal de que os militares no Brasil se envolveram profundamente na política nacional. A profusão de golpes e contragolpes ocorridos ao longo do século 20 no país é um claro indicativo de que a República, criada por militares, não convive bem com civis. Os paisanos terminam sendo atropelados pelas convicções ideológicas dos fardados. Foi assim em 1964, para ficar em apenas um exemplo, e radicalizado em 1968, quando o regime mostrou sua face autoritária com a decretação do Ato Institucional nº 5, que censurou a imprensa, suspendeu o habeas corpus, acabou com o direito de reunião, fechou o Congresso, cassou parlamentares e abriu as portas da repressão política. Centenas de brasileiros foram presos, torturados e mortos pelas forças de segurança.

O otimista é um ingênuo, o pessimista, um amargo - Marcus Pestana

Como diria Ariano Suassuna: “...prefiro ser um realista esperançoso”. Tarefa difícil no Brasil de nossos dias. O período que antecede o Natal gera um ambiente mais desanuviado e desperta nas pessoas esperança e desejo de renovação.  Mas 2024 foi um ano contraditório, repleto de boas e más notícias.

Vejamos o lado bom! Exorcizamos o fantasma do retrocesso político e consolidamos um pouco mais a nossa democracia, com o avanço das investigações sobre a tentativa de um golpe de Estado. As estimativas de crescimento econômico apontavam para uma variação do PIB de 1,5%, vamos fechar 2024 com 3,5%. Não é um ritmo como o da Índia ou Indonésia, mas é um crescimento para lá de bom, acima da estimativa do FMI para o crescimento mundial de 3,2%. Certamente a política fiscal expansionista que injetou renda na economia a partir das transferências governamentais teve um papel, apesar dos efeitos colaterais preocupantes.

Punição simbólica - Aldo Fornazieri

No caso de Braga Netto e outros líderes da tentativa de golpe, as penas precisam superar aquelas aplicadas aos invasores do 8 de Janeiro

Ao longo da história, os atos punitivos de grandes personagens do Estado quase sempre tiveram um caráter mais simbólico do que a simples aplicação da justiça, embora nas punições simbólicas a questão da justiça esteja presente, mas subsumida àquela primeira dimensão.

Na Atenas antiga, Péricles fez aprovar o ostracismo de Címon, herói da batalha de Salamina contra os persas. Foi também o principal dirigente da Liga de Delos, que garantia a hegemonia de Atenas sobre 150 cidades. A punição de ­Címon teve menos o sentido de justiçá-lo – foi acusado de ter traído a cidade em favor de uma aliança com Esparta – e mais o de conter a aristocracia que se opunha às políticas populares e sociais de Péricles. Como exemplo, puniu-se o maior líder da aristocracia. Parte importante das crucificações romanas também tinha objetivos simbólicos, assim como foram as execuções pela guilhotina na Revolução Francesa e a eliminação da família Romanov pelos bolcheviques da Revolução Russa.

Dólar vs. Real - Luiz Gonzaga Belluzzo

O centro do furacão é a estrutura financeira global monetariamente hierarquizada sob o poder do dólar

A continuada desvalorização do real nas últimas semanas deflagrou uma avalanche de opiniões a respeito do fenômeno monetário-financeiro internacional. Peço licença ao eventual leitor para sublinhar monetário-financeiro e internacional.

O pedido ao leitor deita raízes na sobrecarga de opiniões que se derramam em queixas que atribuem à irresponsabilidade fiscal os sucessivos e intensos declínios de valor do nosso real diante do patrono do sistema monetário internacional, Mister Dólar.

Incursões na história:

Poesia | Nada é impossível de mudar, de Bertolt Brecht

 

Nara Leão - Odeon

 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Infiltração do crime na polícia impõe reação coordenada

O Globo

Prisão de policiais em São Paulo demonstra que governos precisam agir unidos contra facções criminosas

O assassinato do corretor de imóveis Antônio Vinícius Gritzbach em novembro, quando desembarcava no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, foi um aviso. Na última semana, uma operação da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público (MP) prendeu quatro policiais civis (entre eles um delegado) que Gritzbach mencionara em delação premiada, por suspeitas de extorsão e envolvimento com o crime organizado. “Caso os elementos colhidos até o momento sejam confirmados na investigação em curso, pode-se afirmar que o Brasil tornou-se um narcoestado”, afirmou o juiz Paulo Fernando Deroma de Mello ao determinar as prisões.

As suspeitas justificam a preocupação. Gritzbach se especializara em lavar dinheiro para a organização criminosa PCC por meio de negócios imobiliários. No acordo de delação premiada assinado em março com os promotores do Grupo de Atuação Especial do Combate ao Crime Organizado (Gaeco), ele se comprometeu, em troca de redução nas penas, a contar o que sabia sobre o PCC e a conivência de autoridades com o crime. Acusou os quatro policiais presos na última semana de envolvimento num esquema para cobrar propina para não prender integrantes do PCC. Mostrou documentos comprovando a apropriação de um sítio de origem criminosa por dois deles. Gritzbach também acusou um quinto policial — ainda foragido — de se apropriar de bens de luxo. Os suspeitos negam as acusações.

Natal com cheiro de fritura - Vera Magalhães

O Globo

Reforma ministerial ganha status de pauta prioritária, mas objetivo e foco podem não melhorar o governo

Com Lula de volta a Brasília e o projeto de corte de gastos passando raspando por um Congresso que não esconde a má vontade, o almoço de fim de ano do governo deve se dar com forte cheiro de fritura no ar. Isso porque o começo de 2025 transformará a reforma ministerial em pauta prioritária em Brasília, com o tempo correndo contra o relógio para contemplar os arranjos feitos para a troca da guarda na Câmara e no Senado e, no mundo ideal, já tentar amarrar os partidos para as eleições de 2026.

Emendas parlamentares, a grande jabuticaba - Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

O Brasil fragmenta o uso de seus recursos orçamentários, reduzindo a eficiência, produzindo redundâncias e estimulando a corrupção

Neste corre-corre de final de ano, deputados podem votar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para turbinar emendas individuais. Hoje, elas têm um limite de 2% da Receita Corrente Líquida. Esse limite já foi de 1,2%. Agora, pode crescer de novo, para 2,9%. Hoje, os parlamentares já dispõem de R$ 49 bilhões do Orçamento.

Isso é uma jabuticaba brasileira, uma anomalia nacional, se comparamos com outras democracias. Nos outros países, o Congresso tem um grande poder sobre o Orçamento, debatendo cada item, como o fazem os comitês orçamentários nos EUA. Na Inglaterra, o Orçamento preparado pelo Tesouro é apresentado pelo primeiro-ministro. Os parlamentares têm o direito de questionar os gastos, mas não de controlar sua aplicação.

Reação do mercado hoje dirá se crise de credibilidade é definitiva - César Felício

Valor Econômico

Empresários influentes veem um governo em disputa entre grupos e pensam que uma guinada é possível

O Banco Central injetou no mercado nessa quinta-feira U$ 8 bilhões, sendo U$ 5 bilhões em um único certame, no que se converteu na maior intervenção da autoridade monetária desde 1999, conforme observou o repórter Arthur Cagliari no Valor PRO.

Para se ter ideia da magnitude da intervenção, 1999 foi o ano em que o governo Fernando Henrique foi obrigado a abandonar a âncora cambial, diante de uma fuga de capitais que colocou o Brasil no rol dos colapsos dos países emergentes que provocou efeitos sistêmicos no mercado financeiro global. Houve nos anos 90 a crise do México, a da Ásia, a da Rússia e a do Brasil.

A receita para o governo sair das cordas - Andrea Jubé

Valor Econômico

É hora de Lula ouvir as vozes certas, e agir com serenidade e sabedoria para acertar mais uma vez

No almoço anual da Febraban, no dia 29 de novembro, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, detalhou o pacote fiscal, tentou desfazer o mal estar com o anúncio atabalhoado da isenção do Imposto de Renda (IR) de quem ganha até R$ 5 mil, relembrou as despesas bilionárias herdadas dos outros governos, e saiu-se bem na empreitada.

No fim, perguntou se estavam todos convencidos de seus argumentos, e ouviu que sim, estavam. A dúvida era se ele era capaz de convencer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de tudo aquilo. Ao que Haddad respondeu: “O presidente tem o seu tempo de convencimento”.

De volta à estaca zero - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Lula quer mantê-lo, mas José Múcio pode deflagrar a reforma ministerial no governo

A última reunião ministerial do ano, nesta sexta-feira, terá várias peculiaridades, no Alvorada, com o presidente Lula em recuperação e o País pegando fogo. A principal delas, porém, é que também poderá ser a última para alguns dos presentes, a começar de uma peça-chave do governo, o ministro José Múcio, da Defesa. Não que Lula esteja doido para demiti-lo, pelo contrário, mas porque Múcio acha que já deu sua cota de sacrifício, fez tudo o que podia para acalmar as relações entre civis e militares e, mais do que isso, ele está cansado.

Crise de confiança e efeitos políticos - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Desde que aprovado no Congresso, o pacote fiscal escancara suas insuficiências. O cobertor ficou curto para cobrir o rombo aberto pelas despesas. A expectativa, agora, é de que venham certos remendos para que as contas públicas não fiquem em parte desagasalhadas.

Mas um bom pedaço da incerteza continua. Atrás dela segue a falta de confiança na política econômica tocada pelo ministro Fernando Haddad, notoriamente desautorizado pelo presidente Lula por ocasião da divulgação do pacote.

Em entrevista na última quinta-feira, durante a apresentação do Relatório Trimestral de Inflação, o futuro presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fez questão de dizer que o presidente Lula concorda com a sua interpretação sobre o que se passa com a inflação e com a economia, tal como manifestada – entendase – nos documentos do Banco Central. Mais recentemente afirmou também não acreditar em que a moeda brasileira seja alvo de ataque especulativo.

Pacote fiscal e venda de dólares seguram o câmbio – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O dólar chegou a R$ 6,2955, às 10h11, mesmo após o leilão de US$ 3 bilhões promovido pelo BC. Novo leilão de US$ 5 bilhões fez a moeda americana cair

Depois de uma semana tensa, em que o dólar bateu todos os recordes, a aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) com novas regras para o abono salarial e que prorroga a desvinculação de receitas da União, pela Câmara, e dois leilões extraordinários de dólares no mercado à vista, num total de US$ 8 bilhões, promovidos pelo Banco Central, jogaram a cotação da moeda americana para baixo, domando o mercado.

O BC fez seis intervenções no mercado de câmbio em uma semana. Na abertura desta quinta-feira, o dólar chegou a alcançar o patamar de R$ 6,30. No fim da tarde, graças às decisões do Congresso e à firme intervenção do BC, o dólar à vista fechou a sessão com queda de 2,29%, a R$ 6,1243 na venda. Já o Ibovespa encerrou o pregão com alta 0,34%, a 121.187,91 mil pontos.

Governo reza para 2024 acabar - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Juros e dólar podem estacionar agora em nível alto, mas é preciso haver novidade fiscal

O governo federal ficou rendido depois do revertério causado pelo anúncio do pacote fiscal. Gente do governo ficou surpresa e sem ação diante da péssima repercussão do plano —foi a reação inclusive daqueles que sabiam do estrago que causaria a notícia da isenção do Imposto de Renda.

Os economistas do governo não teriam como inventar medidas adicionais, no curtíssimo prazo, mesmo que tivessem autorização do presidente da República para tanto.

Ficaram atônitos, torcendo para que a degradação financeira venha a ser menor em janeiro. Quer dizer, que dólar e juros fiquem ainda em níveis horríveis de altos, mas estáveis graças ao chá de camomila aguado do pacote que vai ser aprovado no Congresso e ao fim do dezembro de saídas excepcionais de capital. Torcida.

O recado da Justiça Militar - Bernardo Mello Franco

O Globo

STM deu uma contribuição original às ciências jurídicas: inventou o fuzilamento com 257 tiros sem intenção de matar

O Superior Tribunal Militar deu uma contribuição original às ciências jurídicas. Inventou o fuzilamento com 257 tiros sem intenção de matar. A Corte livrou os oito militares que metralharam o músico Evaldo Rosa e o catador Luciano Macedo. Eles destruíram duas famílias e vão passar o Natal em casa, salvos pelo corporativismo fardado.

O crime aconteceu em abril de 2019. Era um domingo de sol, e Evaldo levava mulher, sogro, filho e afilhado para um chá de bebê no subúrbio do Rio. Assim que o carro passou por um veículo do Exército, os agentes abriram fogo. O músico foi atingido e morreu na hora. O catador se aproximou para socorrê-lo e também foi alvejado.

Por justiça, a fé – Flávia Oliveira

O Globo

Superior Tribunal Militar anistiou assassinos de Evaldo Rosa, músico que estava com a família a caminho de um chá de bebê

Os episódios de impunidade em crimes bárbaros se avolumam numa intensidade que, além de desmoralizar o sistema de Justiça, mina a confiança na democracia. Erra quem não enxerga a correlação. Num par de anos, a proporção de brasileiros que creem no regime como melhor forma de governo caiu 10 pontos percentuais, de 79% para 69%, informou o Datafolha após pesquisa com 2.002 eleitores nos últimos dias 12 e 13 de dezembro.

O sistema eleitoral foi testado, e a transição de poder estressada até o golpe tentado em 8 de janeiro de 2023, ainda sob investigação. Mas a confiança na democracia diminuiu. Noves fora o desapontamento de viúvos do ex-presidente que sonhava permanecer no poder mesmo derrotado nas urnas, há motivos para o desencanto. Todo dia sabemos de um. O mais recente veio da anistia, pelo Superior Tribunal Militar, aos assassinos de Evaldo Rosa em 2019. O músico estava com a família a caminho de um chá de bebê, na Zona Norte do Rio, quando seu carro foi alvejado por tiros de fuzil de homens do Exército. Na cena, morreu também o catador de material reciclável Luciano Macedo, que tentou socorrer a vítima.

A última da Justiça Militar - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Quantos tiros um grupo de agentes pode dar em inocentes desarmados sem acabar na cadeia? O STM liberou a marca de 257

Quantos tiros um grupo de militares pode disparar contra uma família de civis desarmados sem cumprir pena na cadeia? O Superior Tribunal Militar liberou a marca de 257. Na noite de quarta (18), a corte reduziu a punição dos agentes que mataram o músico Evaldo Rosa e o catador Luciano Macedo, em 2019. Eles passarão três anos em regime aberto.

O julgamento consagrou a tese de que os oficiais, cabos e soldados que participavam da operação no Rio não tinham a intenção de matar ninguém, com tiros dados num contexto de confronto com bandidos. Analisar as circunstâncias de dolo e culpa de agentes de segurança é dever de qualquer juiz. Os ministros vencedores, porém, preferiram tratar os atiradores como vítimas.

O mercado sabota Lula? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Investidores formam fauna diversa que diverge em objetivos, mas que em momentos de crise tende a caminhar na mesma direção

O mercado quer derrubar Lula? A grande dificuldade na pergunta é conceituar esse tal de mercado. Trata-se de uma categoria vasta, que, além dos caricaturais "faria limers", inclui desde fundos de pensão de trabalhadores até grandes investidores, passando por aposentados que tentam preservar o valor de seus parcos recursos e empresas gerindo seu capital de giro.

Usina de oportunidades para o crime – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A Polícia Federal acaba de desenhar a razão pela qual o Supremo insiste que haja total transparência no uso das emendas

Se alguém ainda não compreendeu por que o destaque dado ao interminável assunto das emendas parlamentares e a insistência para que sejam usadas de maneira límpida, a Polícia Federal recentemente desenhou a razão.

Em operação conjunta com o Ministério PúblicoReceita Federal e Controladoria-Geral da União (CGU), a PF cumpriu mandados de prisões, buscas e apreensões em vários estados onde há indícios de fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro com recursos de emendas.

Coisa de bilhão e meio de reais. Fração pequena ante os R$ 50 bilhões que suas altezas mordem do Orçamento? Para efeito de amostragem, mais que suficiente para demonstrar a existência de um buraco bem mais profundo que apenas um comportamento inadequado por parte do Congresso.

O melhor filme argentino brasileiro - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Longa reconcilia Brasil com seu cinema, e o sorriso de Eunice Paiva é resistência vital que comove e fortalece

São conhecidos os méritos de "Ainda Estou Aqui", que caiu no gosto do público e vem promovendo uma bem vinda reconciliação do Brasil com seu cinema. É verdade que outros filmes brasileiros recentes têm virtudes e conheceram êxito de audiência e bilheterias, mas o longa de Walter Salles transita por uma faixa de temática e mercado na qual temos às vezes resvalado.

"Ainda Estou Aqui" oferece os clássicos atributos que levam gente aos cinemas: uma história capaz de arrebatar, atuações muito boas de atores, com as estrelas Fernanda Torres e Montenegro em altíssimo nível, boa fotografia, boa trilha musical, roteiro e direção.

Diria, fazendo uma boutade, que é o melhor filme argentino feito no Brasil. Não vai aqui nenhum demérito, pelo contrário. A regularidade do padrão argentino é fato reconhecido por todos, entre os quais, diga-se, o escritor Marcelo Rubens Paiva, autor do livro que inspira a produção, um admirador da cinematografia de nossos vizinhos, a começar pelo esplêndido "O Segredo dos seus Olhos".

Receitas de entrevistas – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Justino Martins sugeria a Clarice Lispector perguntas a fazer aos seus entrevistados para a Manchete

"Clarice Lispector Entrevista" é um livro lançado há pouco pela editora Rocco, organizado pela britânica Claire Williams, perita na escritora. Compõe-se de 83 entrevistas feitas por Clarice publicadas nas revistas Manchete, em 1968-69, e Fatos&Fotos-Gente, em 1976-77, com grandes nomes de então. Clarice era cult, mas sem muito público, e tinha de se virar como tradutora, cronista ou ghost writer de famosos. Nessas entrevistas, aprende-se mais sobre ela do que sobre os entrevistados —o que não tem importância, já que ela é mais interessante do que a maioria deles.

Ninguém se perde no caminho da volta - José Sarney*

Correio Braziliense

Volto a escrever em outro jornal dos Diários Associados, nos meus 94 anos de idade. Espero não me perder neste caminho de volta. Estou feliz

O título deste artigo é uma frase que se tornou célebre na década de 50, do meu antecessor na Cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, que ocupo, José Américo de Almeida, grande romancista do Nordeste, autor de A Bagaceira, livro que foi uma marca no conjunto de escritores da região, um dos "búfalos" que Oswald de Andrade disse que invadiram a Semana de Arte Moderna de 22, abafando-a na importância que passaram a ter na história da literatura brasileira.

José Américo foi também candidato a presidente da República para as eleições de 1938, que não ocorreram devido ao golpe de Getúlio Vargas, em 1937, que resultou no período do Estado Novo.

José de Souza Martins - O Natal que se perdeu

Valor Econômico

Era o tempo litúrgico da tradição e do respeito pelo sagrado. Cada alimento do almoço era um alimento ritual

Sou de uma geração, a do fim da Segunda Guerra Mundial, que ainda conheceu o Natal cristão. Nós não sabíamos, mas era um Natal agônico e residual, que se transfigurava lentamente. Era uma celebração, uma festa de família, que juntava ainda mais o que já estava junto. Era um momento de comunhão no almoço natalino que seguia tradições de família até nos ingredientes à mesa. Cada alimento do almoço de Natal era um alimento ritual.

Mesmo a taça de vinho tinto, feito em casa por meu avô, que se recusava a servir e a tomar vinho comercial. Temia os vinhos “batizados”, os que, dizia, haviam recebido acréscimos indevidos que afetavam a pureza da bebida.

Poesia | Posso escrever os versos mais tristes esta noite, de Pablo Neruda

 

Música | Zeca Pagodinho 40 anos - “Minta meu sonho”/ Part. Jorge Aragão

 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ataques de Lula e do PT ao BC desafiam a lógica

O Globo

Principal culpado da disparada do dólar e dos juros é o desdém dos petistas pela gravidade da crise fiscal

Não há justificativa para o ataque contínuo do PT à política monetária do Banco Central (BC). Pela gravidade do momento, é hora de seriedade. Depois de enfrentar o terraplanismo na saúde durante o governo passado, os brasileiros são agora alvo de teses fantasiosas na economia, vindas de uma gestão que simplesmente se recusa a assumir a responsabilidade pela incerteza que semeou nos mercados ao recusar promover um ajuste fiscal na medida necessária.

O recrudescimento dos ataques ao BC nos últimos dias começou com o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ao Fantástico, Lula retomou suas críticas à alta dos juros. “A única coisa errada nesse país é a taxa de juros”, disse. “Não há nenhuma explicação. A inflação está quatro e pouco, é uma inflação totalmente controlada. A irresponsabilidade é de quem aumenta a taxa de juros todo dia, não é do governo federal”. A explicação, obviamente, está clara para qualquer um que leia a ata do Comitê de Política Monetária do BC: as expectativas inflacionárias se deterioraram diante das repetidas declarações e atitudes de Lula e de seu governo diante da crise fiscal. O remédio recomendado pela ciência econômica nesses casos é subir os juros.

Economia brasileira está presa em círculo vicioso da quase estagnação - Luiz Carlos Bresser-Pereira*

Folha de S. Paulo

Juros altos e câmbio apreciado desestimulam investimentos, privilegiam rentistas e limitam o desenvolvimento do país

Um dia desses, um dos meus filhos me perguntou por que o governo Lula estava privatizando estradas de rodagem que são monopolistas e, por isso, não devem ser privatizadas. Não seria esse governo neoliberal? Ou neoliberal progressista, acrescentei parafraseando a filósofa americana Nancy Fraser.

Não, o presente governo é social-progressista e desenvolvimentista: defende uma diminuição da desigualdade e a intervenção do Estado na economia para aumentar o investimento público e promover o investimento privado. Não obstante, esse governo não tem alternativa senão privatizar as rodovias que exigem investimentos para os quais não tem recursos. O Brasil está preso no círculo vicioso da quase estagnação.

Entendo por quase estagnação o fato de um país não realizar o "catch-up" —o fato de seu crescimento per capita ser quase sempre inferior aos dos Estados Unidos, de forma que o padrão médio de vida dos brasileiros se afasta cada vez mais do padrão americano. Apesar de um desempenho econômico razoável neste ano e nos dois últimos anos, nada aconteceu de novo na economia brasileira que nos permita afirmar que escapamos da quase estagnação, inclusive porque a taxa de investimento continua muito baixa.

Congresso, o dinheiro acabou! - Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

Até quando o País aguentará que certas saúvas sigam trabalhando para acabar com o crescimento econômico e a normalidade dos mercados? 

A festa acabou, o povo sumiu e anoite esfriou, parafraseando Carlos Drummond de Andrade. Entretanto, o Congresso Nacional continua coma faca no pescoço do ministro da Fazenda, na busca por mais e mais emendas parlamentares e benesses. É preciso aprovar as ações de ajuste fiscal e retomar a responsabilidade com o dinheiro público.

A farra com as emendas parlamentares chegou ao limite de ensejara atuação do próprio Supremo Tribunal Federal( STF ), a partir da correta decisão do ministro Flávio Dino. Ela obriga à transparência e delimita os parâmetros para organizar o coreto. Contudo, em plena votação do pacote de ajuste fiscal, as lideranças do Congresso partilham na penumbra vultosos recursos públicos – antes, vale dizer, bloqueados pela atuação do STF.

Ataque de ilusão e ataque especulativo - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Parece haver exagero em preço de dólar e taxas de juros, mas os motivos são outros

Há quem tente ganhar dinheiro com a perspectiva de desvalorização ainda maior do real. Quem invente operações financeiras engenhosas para tentar faturar com a variação frequente e grande do dólar ("volatilidade"). Há até operações automatizadas ("robôs") que permitem identificar essas oportunidades.

É verdade também que, a julgar pelas condições econômicas do Brasil, dólar a R$ 6,27 parece exagero, assim como Selic a 17% ao ano, como se vê no atacadão do mercado de dinheiro.

Se há exagero, há necessariamente "ataque especulativo"? Não.

A péssima recepção ao plano fiscal do governo agravou uma situação ruim que vinha desde abril. O impacto do fracasso de público do pacote, que elevou dólar e juros, causou acidentes (perdas de dinheiro, reversão de planos de investir etc.). Que isso tenha acontecido no dezembro seco de dólares piorou a situação. Há um dominó em queda, bola de neve, o nome que se dê: problemas que se realimentam.