segunda-feira, 7 de julho de 2025

Opinião do dia - Karl Marx* (herança democrática)

“Finalmente, os comunistas trabalham pela união e pelo entendimento dos partidos democráticos de todos os países.”

*Karl Marx (1818-1883), “Manifesto Comunista”, Fevereiro, 1848. Boitempo Editorial, p.69. São Paulo, 2005.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

COP30 corre risco de frustrar expectativas

O Globo

Reuniões preparatórias obtiveram consenso em alguns temas, mas resultados foram tidos como ‘mornos’

São pouco promissoras as perspectivas para a Conferência do Clima da ONU, a COP30, agendada para novembro em Belém. Ainda é possível reagir, mas vai se estreitando o tempo para que a conferência se torne um marco com consequências. É grande o risco de ela frustrar as expectativas.

A comunidade internacional tem seguido um roteiro atribulado desde o Acordo de Paris, que assumiu em 2015 o compromisso de evitar alta de mais de 2°C na temperatura global em relação aos níveis anteriores à Revolução Industrial — e, de preferência, inferior a 1,5°C. Desde então, tem havido mais desencontro do que acordo sobre aspectos cruciais relacionados ao objetivo de conter o aquecimento do planeta, causa de desastres climáticos com consequências negativas nos planos social e econômico.

Há uma luta de classes, e os ricos estão ganhando - Camila Rocha

Folha de S. Paulo

Os tais 10% da faixa proposta aos super-ricos brasileiros corresponde à faixa mais baixa dos contribuintes norte-americanos

Warren Buffett é o quinto homem mais rico do mundo. Sua fortuna é estimada em US$ 166 bilhões, quase R$ 1 trilhão. No dia 26 de novembro de 2006, o escritor e comentarista político Ben Stein escreveu uma coluna para o The New York Times sobre uma conversa que teve com Buffett sobre algo que preocupava o bilionário: o sistema tributário.

Nos Estados Unidos, há um sistema progressivo de taxação. As faixas variam de 10% a 37%. Em 2025, por exemplo, quem ganhar até pouco menos de US$ 12 mil anuais irá pagar 10%. Quem ganhar mais de US$ 626 mil anuais está na faixa mais alta de contribuição, 37%.

A crise atual: instituições constantes, incentivos variáveis - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A questão principal é por que a crise se agudizou agora se não houve mudança nas regras institucionais

Há duas posições rivais na interpretação da atual crise nas relações Executivo-Legislativo. A primeira sustenta que o presidencialismo de coalizão se esgotou e perdeu sua funcionalidade devido ao enfraquecimento do Executivo. O resultado é a fragmentação da coalizão de apoio ao Executivo, incapacitando-o de implementar sua agenda. Esta dinâmica é vista como produto de uma usurpação de poderes do Executivo progressista pelo Legislativo conservador.

Congresso mimado por penduricalhos - Lygia Maria

Folha de S. Paulo

Dada a carência da população brasileira, além do serviço débil prestado pelo Legislativo, nada justifica a montanha de gastos

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi criticada nas redes sociais por contratar maquiadores como assessores parlamentares. Na Justiça, uma juíza federal deu 20 dias para que ela explique a contratação de uma empresa de segurança que possuiria atuação e registro nebulosos.

Hilton se diz perseguida por ser trans, o que não passa de ad hominem. Escrutinar o uso de dinheiro público é função básica da imprensa, e o mau uso desse dinheiro por políticos no Brasil é histórico, independentemente de identidade de gênero ou partido.

Decisão marca inflexão na relação entre STF e Executivo - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Conciliação buscada pelo ministro, na verdade, ainda não apaziguou o embate, e o presidente Lula, no relato de um ministro, teria ficado desagradado com a decisão

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender ambos os decretos, o do Congresso e o do Executivo, na disputa do IOF revelou um ponto de inflexão na relação entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal. A invalidação dos decretos tira a bola de campo de um jogo em que os dois times estão em guerra, mas, na prática, suspende os efeitos da majoração do imposto. A conciliação buscada pelo ministro, na verdade, ainda não apaziguou o embate, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no relato de um ministro, teria ficado desagradado com a decisão.

A mensagem no X do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, registra o acolhimento, pelo ministro, da tese da separação dos Poderes contida na ação governista que pediu a suspensão do decreto legislativo do Congresso, mas a declaração do presidente da Câmara de que a decisão de Moraes está em sintonia com a Casa não deixa dúvida de que Hugo Motta (Republicanos-PB) faturou esta decisão como uma vitória, que, de fato, ocorreu.

Este é o pior Congresso da história brasileira? - Bruno Carazza

Valor Econômico

Dados legislativos ajudam a investigar se a profecia de Ulysses Guimarães se cumpriu

“Está achando ruim este Congresso? Então espera o próximo: será pior. E pior, e pior” A frase, atribuída a Ulysses Guimarães (1916-1992), teria sido dita ao final da Assembleia Nacional Constituinte, presidida por ele.

O “Senhor Diretas” tinha visão. Deputado federal por onze mandatos consecutivos e presidente da Câmara em três ocasiões (1956-1958, 1985-1987 e 1987-1989), doutor Ulysses já antevia ao que levaria o sistema eleitoral previsto na nova Constituição.

Nos últimos anos, com a intensificação das crises entre os Poderes, o vaticínio de Ulysses vem sendo repetido.

Em parte, essa sensação pode estar associada a uma mudança geracional e, como decorrência, também a um novo estilo de se fazer política no Brasil.

Os vários riscos da retórica do ‘nós contra eles’ - Sergio Lamucci

Valor Econômico

Estratégia pode dificultar o avanço da agenda da equipe econômica no parlamento, além de piorar a qualidade do debate sobre política fiscal e sobre a agenda para reduzir a injustiça tributária

Nos últimos dias, o governo e o PT entraram pesado na campanha do “nós contra eles”, martelando a ideia de que promovem medidas em defesa dos mais pobres, enquanto sofreriam a oposição do Congresso e dos mais ricos. Esse maniqueísmo acirrou os ânimos com deputados e senadores, o que pode dificultar o avanço da agenda da equipe econômica no parlamento, além de piorar a qualidade do debate sobre política fiscal e sobre a agenda para reduzir a injustiça tributária no país, num momento em que as incertezas sobre as contas públicas continuam elevadas.

A estratégia usa argumentos falaciosos, a começar por incluir o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), derrubado por deputados e senadores, como uma medida que atingiria principalmente os mais ricos. Como a elevação do IOF encarece o crédito, ela pesa mais sobre os mais pobres, mais endividados do que a parcela da população de renda elevada.

Estado brasileiro não é grande nem pequeno, é desigual - Preto Zezé

O Globo

No Brasil, a cada R$ 1 de renúncia fiscal dado aos grandes, não há exigência proporcional de geração de empregos

Há quem defenda um “Estado mínimo” para justificar cortes de serviços e direitos sociais. Curiosamente, essa visão raramente se aplica aos grandes grupos econômicos, que continuam sendo generosamente amparados por isenções, subsídios e desonerações bilionárias. Para os pequenos e médios empresários — especialmente aqueles que empreendem nas favelas e periferias —, sobram burocracia e crédito caro, e falta apoio. É uma contradição que mostra o verdadeiro problema do Estado brasileiro: ele não é grande nem pequeno — é desigual.

No consultório da doutora IA – Fernando Gabeira

O Globo

Se substituímos a força de trabalho humana pela máquina, quem responde pelos eventuais erros que ela possa cometer?

Desde o tempo do Google, costumo consultar a plataforma a qualquer pequena doença, incômodo físico ou ziquizira. Com o advento da inteligência artificial, as consultas se tornaram mais frequentes. As respostas, copiosas, oferecem mais dados, indicam novos exames, novos caminhos de pesquisa. Na aparência, um superconsultório médico.

Em contato com a médica Adrienne Moreno, que me atende já há alguns anos, comentei o desempenho da inteligência artificial e ouvi o que, de certa forma, desconfiava: as coisas não são tão positivas quanto parecem. Na opinião dela, o uso dessas consultas sem treinamento especial traz vários perigos, mesmo para os médicos.

O fardo dos juízes de preto - Demétrio Magnoli

O Globo

Ao declarar a inconstitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, o STF conferiu poderes censórios ilimitados às plataformas de redes sociais. De agora em diante, elas terão a obrigação de excluir postagens que poderiam, hipoteticamente, ser definidas como ilegais por um juiz. Os juízes de capa preta imaginam-se regulando a liberdade de expressão de milhões de brasileiros. De fato, terceirizam a robôs decisões delicadas sobre crimes de palavra.

Um trecho do voto de Cármen Lúcia esclarece o argumento dos oito juízes que formaram a maioria:

— A censura é proibida constitucionalmente, mas não se pode permitir que nós estejamos numa ágora em que haja 213 milhões de pequenos tiranos soberanos. Soberano é o Brasil, soberano é o direito brasileiro.

Os cidadãos são, então, “pequenos tiranos” — bárbaros ou crianças irresponsáveis. Cabe ao “direito brasileiro” — ao soberano STF — conter a massa ignara, restaurando o primado da civilização.

Justiça tributária ou populismo? - Carlos Pereira*

O Estado de S. Paulo

Guinada populista de Lula mira menos 2026 e mais a manutenção da hegemonia do PT sobre a esquerda

É uma máxima do jogo eleitoral: diante da perspectiva de derrota, radicaliza-se o discurso para fidelizar a base – mirando a próxima rodada.

A guinada à esquerda de Lula, reeditando a narrativa “ricos contra pobres”, sinaliza que o PT já considera difícil vencer em 2026. Mais que estratégia para vencer, parece tentativa de manter o PT como protagonista da esquerda. Para vencer, Lula teria que repetir a tática de 2022: moderar o discurso e buscar votos no centro. Mas isso colocaria em risco o domínio do PT sobre o campo progressista no caso de derrota.

O lema é claro: entrega-se o Planalto para salvar a hegemonia do PT.

Meio ambiente sem ideologia - Michel Temer*

O Estado de S. Paulo

O objetivo deste escrito é revelar que o diálogo, sem radicalismos, pode unir o País em defesa do meio ambiente. Aliás, como tudo

Meio ambiente físico é vida. Sua preservação é para as atuais e as novas gerações. É obrigação de todos os brasileiros, sem exceção.

Anoto, contudo, algumas realidades. A primeira delas é que o tema foi ideologizado. Alardeia-se que a chamada “esquerda” é a favor da preservação e a chamada “direita”, em particular, agricultura e agronegócio, são pela sua destruição. É falso.

Agricultores e ambientalistas devem trabalhar em conjunto. Sem divergências. Foi, aliás, o que fiz nos meus 963 dias de governo. Os ministros da Agricultura e do Meio Ambiente conversavam permanentemente para que não houvesse nenhum mal-estar entre essas áreas. E não houve. Muitas dessas reuniões eram feitas na minha sala para que não houvesse nenhuma faísca entre esses setores. Não se permitiu a ideologização da matéria. Tanto isso é verdade que o agronegócio prosperou ao mesmo tempo em que avançaram as reservas ambientais. Basta relembrar que ampliamos a Chapada dos Veadeiros no Centro-Oeste, de 60.000 para 240.000 hectares. Um aumento de quatro vezes da área ambiental.

Rosa de Hiroshima, de Vinicius de Moraes

 

Música | Martinho da Vila - Feitiço da Vila (Noel Rosa)

 

domingo, 6 de julho de 2025

Opinião do dia – Karl Marx*

“Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que levam a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis.”

*Karl Marx (1818-1883), Teses sobre Feuerbach (1845)

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Cúpula consolida Brics como veículo do poder da China

O Globo

Expansão do bloco tem se dado em direção à Ásia, ampliando esfera de influência chinesa

A cúpula do Brics, que ocorre hoje e amanhã no Rio, tende a consagrar o viés antiocidental que acompanha o bloco desde a criação por Brasil, Rússia, Índia e China, em 2009. A ausência de Xi Jinping em nada muda o uso que os chineses têm feito dele como veículo e plataforma para exercer liderança sobre outros países, em contraponto a americanos e europeus. Sinal disso tem sido a contínua expansão do Brics na Ásia, ampliando a esfera de influência chinesa. Xi — representado pelo primeiro-ministro Li Qiang — não precisa estar no Rio para que o Brics continue a ser útil a Pequim.

Depois do acréscimo do “s”, com a entrada da África do Sul em 2011, o Brics foi ampliado em 2024, com a chegada de Irã, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, afastando-se das pretensões de defender as liberdades e valores democráticos. Em janeiro, a Indonésia também aderiu ao bloco. Malásia, Tailândia e Vietnã acabam de decidir tornar-se associados, primeiro passo para ser membros titulares. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) é fator de atração no Sudeste Asiático, assim como o mecanismo que oferece a bancos centrais do bloco acesso a fundos de emergência.

País a reiventar - Merval Pereira

O Globo

Estamos chegando a um ponto de saturação em que provavelmente o próximo presidente encontrará condições propícias para enfrentar uma reforma administrativa de verdade, que coloque as finanças públicas nos trilhos

Ir para a cadeia é o maior temor de Bolsonaro. Fará tudo para negociar uma prisão domiciliar, e mesmo sabedor de que um indulto presidencial não o tornará elegível, quer ser livre para poder continuar fazendo política. Do ponto de vista jurídico, o futuro presidente da República, a ser eleito ano que vem, não perderá nada indultando-o, pois não poderá se candidatar tão cedo. Como, para ser indultado, o candidato que apoiar precisa vencer a eleição, é provável que Bolsonaro já tenha se convencido de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é o melhor candidato da direita que se pode encontrar.

Quem é radical e onde mora o perigo - Míriam Leitão

O Globo

Na visão da oposição, o governo ir ao STF sobre o IOF é um ato radical. Já a ameaça golpista contra o Supremo não provoca reação alguma

Há quase dois meses, o senador Flávio Bolsonaro avisou ao país que o bolsonarismo ainda pensa em golpe de Estado. Ele foi enfático ao dizer que o grupo só dará apoio ao candidato que se comprometer a impor ao STF a aceitação do indulto ao seu pai. Quando as repórteres que fizeram a entrevista perguntaram como seria essa imposição ao Supremo, o senador não deixou dúvidas: “a gente está falando do uso da força”. Passaram-se as semanas, desde o domingo 15 de junho, e não houve repúdio de qualquer político da direita a essa fala. O mais cotado dos pré-candidatos conservadores, o governador Tarcísio de Freitas, não apenas silenciou como apareceu em palanques com o ex-presidente depois disso. Dos outros também, o mesmo silêncio.

Motta encurralou Lula, porém, sofreu desgaste irreversível de imagem - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O presidente da Câmara foi demonizado, não teve musculatura para enfrentar um adversário carismático e cascudo como Lula, que já disputou sete campanhas presidenciais

Nos meios sindicais, a expressão “chumbo trocado não dói” é um jargão que sinaliza a disposição de diálogo depois de uma acirrada disputa entre as partes. No Congresso, onde não existe o interesse comum classista, não é bem assim que coisa funciona: dói e deixa ressentimentos que vão comprometer os entendimentos entre as partes e gerar desconfianças insuperáveis.

É mais ou menos o que aconteceu entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que derrubou o decreto que aumentava as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e submeteu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma derrota acachapante no Congresso.

Pastor de palanque - Bernardo Mello Franco

O Globo

Silas Malafaia não gostou de “Apocalipse nos trópicos”, o novo documentário de Petra Costa. Convidado para uma sessão especial na quinta-feira, o pastor saiu aos berros da sala de cinema. Deve ter se irritado com a própria performance diante das câmeras.

O filme mostra como o crescimento dos evangélicos e a ascensão de pastores fundamentalistas influenciaram a política brasileira na última década. Personagem desses tempos estranhos, Malafaia não se constrange em usar o nome de Deus para direcionar o voto dos fiéis.

O pastor pulou de galho em galho em sua peregrinação palanqueira. Apoiou Lula, José Serra e Aécio Neves até firmar aliança com Jair Bolsonaro às vésperas da eleição de 2018. Dois dias depois da vitória, o capitão marchou até a igreja de Malafaia, onde foi recebido com o coro de “Mito!”.

Prouni revela mais uma estatística do atraso - Elio Gaspari

 Globo

O Ministério da Educação divulgou a lista de ofertas de 211 mil bolsas de estudo do Prouni em faculdades particulares. Encabeçam a relação os cursos de Administração (13,8 mil vagas), Direito (13,2 mil), Pedagogia (11,3 mil) e Educação Física (9 mil).

Atrás vêm 8,2 mil bolsas para estudantes de Análise e Desenvolvimento de Sistemas e Engenharia Civil (8,6 mil). Disso resulta que algum dia o ProUni terá produzido 22 mil advogados ou professores de Educação Física e 16,8 mil engenheiros civis e desenvolvedores de sistemas. Tudo bem para quem sonha com um país de gente litigante e musculosa.

O Censo de 2022 mostrou que o Brasil tinha 2,5 milhões de advogados para 518 mil engenheiros. A China tem 6,7 milhões de estudantes de Engenharia, número superior aos quatro milhões de brasileiros matriculados em toda a sua rede de ensino superior, pública e privada.

O esporte sem grandeza de Trump – Dorrit Harazim

O Globo

O presidente prefere a pancadaria crua de uma luta de MMA, é incapaz de compreender essência do esporte olímpico

Se há um espécime humano incapaz de compreender a essência do esporte olímpico, ou ver grandeza no esporte em geral, esse espécime se chama Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos prefere a pancadaria crua de uma luta de MMA, a que assiste presencialmente na boca do octógono. Fora isso, só mesmo a prática do golfe — e, mesmo assim, apenas num dos 15 clubes e resorts de sua propriedade (11 nos Estados Unidos, dois na Escócia, um na Irlanda, um nos Emirados Árabes — e algum dia, quem sabe, sonhe com um em Gaza?), onde é de bom-tom dos convidados deixá-lo ganhar. A ideia de competir sem vencer lhe é existencialmente indigesta. A ponto de, em 2018, ainda no primeiro mandato, referir-se aos soldados americanos tombados na Primeira Guerra e enterrados no cemitério francês de Aisne-Marne como “otários e perdedores”. Dificilmente teria tido empatia pelo maratonista John Stephen Akhwari, da Tanzânia, que na Olimpíada de 1968, no México, celebrou cruzar a linha de chegada em último lugar, mais de uma hora depois do vencedor. Questionado por que não desistira da prova quando sofreu uma queda e deslocou o joelho, Akhwari respondeu com naturalidade:

O lento avanço da razão sobre as tribos - Claudio de Moura Castro

O Estado de S. Paulo

Qualquer imbecilidade pode virar uma crença grupal, como eram as superstições na Idade Média. E como naquela época, não se sabe lidar com o contraditório

Nos anos mais sombrios da Idade Média, a conformidade era imposta. A Igreja pontificava e todos seguiam. Pensava-se igual, porque apenas isso era admitido. A individualidade era asfixiada. A tribo unida era forçada a pensar unida.

O Renascimento começa a romper essa masmorra intelectual. Os descobrimentos abrem horizontes. O indivíduo floresce. Apesar de acidentes de percurso, podia-se pensar e agir com a própria cabeça.

No Iluminismo, proclama-se o Império da Razão. Chegaríamos mais longe, pensando certo e com rigor. Sob a tutela da razão, as nossas concepções seriam ordenadas e o progresso viria. Que se enxotem os preconceitos e superstições. As emoções e valores tinham que achar os seus lugares, mais modestos.

O fantasma de Trump sobre os Brics - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que se espera de Lula nos Brics: pragmatismo, equilíbrio e discurso lido, sem improvisos

Segundo o presidente Lula, ao lado do trumpista Javier Milei, na Cúpula do Mercosul, “a Ásia (não os EUA...) é o centro dinâmico da economia mundial”. Foi uma senha para o que está em jogo numa cúpula muito mais poderosa, a dos Brics, que começa hoje no Rio de Janeiro e reúne oito países asiáticos, a começar da China e da Rússia e, para piorar, o Irã, o que empurra o foco da reunião para o “outro lado”, Estados Unidos e Israel. Com o presidente de Cuba, Miguel Diaz Canel, presente...

Pacote fiscal lança EUA no imprevisível - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Se frustrassem Donald Trump, republicanos poderiam nem sair candidatos em 2026

A aprovação do pacote fiscal de Donald Trump lança os EUA em um experimento econômico de consequências sociais e políticas imprevisíveis. As projeções dos técnicos apontam para o agravamento da situação dos mais pobres e das contas públicas.

A renúncia tributária de US$ 4,5 trilhões introduzida por Trump em 2017, em vigor até o fim deste ano, torna-se permanente. Foram acrescentadas promessas de campanha como isenção de impostos sobre gorjetas e horas extras e dedução de US$ 6 mil para idosos com renda até US$ 75 mil.

É fraude, é roubo, é a falta de segurança - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

As pessoas sentem medo por falta de segurança. É fator que explica a origem do estado, como ensinou Thomas Hobbes. Quando não oferece segurança aos membros da tribo ou aos cidadãos dos seus países, o estado entra em crise.

O mundo mudou, o Brasil mudou. Política de segurança pública não é apenas prender bandido ou impedir a invasão de piratas ou de potências inimigas fronteira adentro, como no passado. São os efeitos dessa transformação que o governo Lula parece não levar em conta.

Nesta primeira semana de julho, o noticiário apontou um ataque hacker que desviou cerca de R$ 800 milhões do sistema que liga bancos ao Pix. Foi o que se soube. E o que acontece e a gente não fica sabendo?

O sequestro da democracia brasileira: o plano Safra - Fernando Horta

Brasil 247

A mudança de posição do governo é sempre bem-vinda. Antes tarde do que mais tarde, entendemos que em sistemas polarizados ganha quem for mais para os extremos

A mudança de posição do governo é sempre bem-vinda. Antes tarde do que mais tarde, entendemos que em sistemas polarizados ganha quem for mais para os extremos. Antagonizar com um parlamento débil é a certeza de retomar o apoio da esquerda e colocar a bola da dúvida na quadra do bolsonarismo: vão execrar este Congresso que eles elegeram (ainda que a contragosto pois são claramente anti-democracia)? Ou os bolsonaristas vão se postar como defensores de Motta e Alcolumbre e destruírem seu discurso “anti sistema”?

A comunicação de guerra é o caminho para a eleição de 2026. A direita faz, o centrão faz e agora a esquerda cansou de ser “boazinha”.

Porém, há que se discutir outras coisas. A sociedade capitalista somente funciona com “incentivos” para ações se queiram repetir. O tal “presidencialismo de coalizão” (que não existe mais) existia quando o executivo premiava o legislativo por ser confiável. Votou com Fernando Henrique Cardoso, leva a “emenda” estabelecida. Isso não existe mais. Desde Cunha, passado por Lyra e com a anuência do fraco Bolsonaro, o Congresso tomou de assalto o orçamento e se desligou completamente das responsabilidades de governar. Como a mídia aceitou e achou que seria um bom momento para colocar todas as culpas no presidente Lula, era o plano perfeito.

Cinismo institucional e a perpetuação da desigualdade no Brasil - Florestan Fernandes Jr,

PensarPiaui

Para Hugo Motta e seus aliados da extrema-direita, o problema não é a desigualdade brutal que marca nosso país, mas sim qualquer tentativa de enfrentá-la?

É um cinismo institucionalizado afirmar que no Brasil "somos todos iguais", ou que não há um conflito entre classes — o famoso “nós contra eles”. Essa ideia é uma falácia perigosa, repetida por aqueles que se beneficiam da estrutura desigual do país. Embora o Brasil figure entre as 10 maiores economias do mundo, ocupa, ao lado do Congo, o vergonhoso 14º lugar no ranking global de desigualdade social. Na ponta da nossa pirâmide, o 1% mais rico ganha 32,5 vezes mais que a metade mais pobre da população. Isso não é acaso, é projeto.

A recente queda de braço entre o governo e o Congresso em torno da alíquota do IOF escancarou esse cenário. O presidente da Câmara, Hugo Motta, acusou o governo de acionar o Supremo Tribunal Federal para “promover a volta da indesejável polarização social”. Ora, então para Motta e seus aliados da extrema-direita, o problema não é a desigualdade brutal que marca nosso país, mas sim qualquer tentativa de enfrentá-la?

A culpa da crise entre o Planalto e o Congresso é de Lula? - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Presidencialismo de coalizão parou de funcionar sem coalizão com emendas e com crise de identidade do centrão

Em sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo de 2 de julho de 2025, o cientista político Carlos Pereira argumentou que a responsabilidade da crise entre o Planalto e o Congresso é de Lula. Em suas palavras, "quem falha hoje é o Executivo, ao não saber jogar o jogo do presidencialismo de coalizão".

É sempre esclarecedor debater com Carlos, um dos grandes cientistas políticos brasileiros. Mas ele está errado: o presidencialismo brasileiro está em crise. Não está muito claro se o jogo ainda tem regras, ou, ao menos, as mesmas regras.

A política cede lugar ao Supremo – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Fracassam os políticos quando não conseguem resolver suas questões na seara da delegação popular

Situações muito mais complicadas que a agora posta no Supremo Tribunal Federal para decidir sobre a constitucionalidade de ações do Executivo e do Legislativo já foram resolvidas no país pela via da política.

Foi assim na transição democrática, na sucessão de Tancredo Neves após cair doente na véspera da posse, nos embates na Assembleia Constituinte e nos processos de impeachment de dois presidentes. Isso para citar exemplos mais recentes e eloquentes em que os donos de delegação popular souberam vencer obstáculos e resolver seus impasses sem ferir protocolos oficiais.

A negação ativa do horror - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É um mecanismo de defesa, individual ou coletivo, em geral por cinismo ou perturbação mental profunda

Negação ativa é o que ocorre quando diante de um fato claro e simples, uma evidência, o sujeito finge que não vê, para aplacar a consciência. É um mecanismo de defesa, individual ou coletivo, em geral por cinismo ou perturbação mental profunda. Aplica-se bem à indiferença generalizada a uma postagem do famoso produtor de televisão israelense Elad Barashi: "Não consigo entender as pessoas aqui no Estado de Israel que não querem encher Gaza com chuveiros de gás... ou vagões de trem... e acabar com essa história! Que haja um Holocausto em Gaza!" (5/5/2025).

Lugares implacáveis - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro de acadêmico de Chicago esmiúça facetas menos conhecidas da violência por armas de fogo nos EUA

Para a esquerda, o crime é resultado de disparidades econômicas. Para a direita, é uma questão moral. Gente ruim, as famosas maçãs podres, é que se mete em comportamentos antissociais.

Não é que as duas visões estejam totalmente erradas. Determinantes sociais estão na origem de parte da criminalidade e psicopatas são uma realidade. Mas ambas explicam pouco. E explicam particularmente pouco do tipo de crime que mais nos incomoda, que são os assassinatos.

Poesia | Mauro Mota - Circuito da Poesia do Recife

 

Música | Edu Lobo - O Dono do Lugar

 

sábado, 5 de julho de 2025

Opinião do dia - Karl Marx* - (poder das ideias)

“Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transtorna com maior ou menor rapidez. Na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o conduzem até o fim.”

*Karl Marx, “Para a crítica da economia política” p. 30, Os pensadores v.1. 4ª edição. Editora Nova Cultura, São Paulo, 1987

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Toffoli tornou a conta da fraude no INSS ainda maior

O Globo

Além de contribuinte arcar com custo da roubalheira, exclusão dos gastos do arcabouço deteriora contas públicas

É justo que os aposentados e pensionistas lesados no escândalo do INSS sejam ressarcidos dos descontos indevidos. Mas foi um erro o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, ter autorizado que a despesa fique fora dos limites do arcabouço fiscal — como se não representasse mais gastos para um governo que se revela incapaz de controlar suas despesas. Na quinta-feira, ele homologou o acordo de ressarcimento proposto pelo governo federal. Embora a decisão tenha efeito imediato, ainda será analisada pelo plenário da Corte.

Por que devemos continuar falando mal do Congresso Nacional - Paulo Baía

Falar mal do Congresso Nacional não é apenas um direito conquistado com suor histórico e cicatrizes democráticas. É, sobretudo, uma necessidade ética e civilizatória. Não se trata de crítica gratuita, ressentida ou panfletária. Trata-se de uma prática crítica que emerge do espanto contínuo diante de um poder que deixou de cumprir sua função representativa e passou a se comportar como se fosse senhor absoluto da República. Um poder que se ergue com arrogância e se desloca acima da Constituição, agindo como se os freios e contrapesos que organizam o Estado Democrático de Direito fossem adereços descartáveis da formalidade jurídica. É preciso falar mal do Congresso enquanto ele persistir na lógica de se fazer superior aos outros poderes, arrogando-se o lugar de poder supremo da nação.

O que vivemos, na atualidade, é a instauração de um parlamentarismo informal, à margem da Constituição Federal. Um parlamentarismo de fato, não de direito, instaurado por práticas que atropelam a soberania popular expressa em dois plebiscitos nacionais que reafirmaram o presidencialismo como regime escolhido pelo povo brasileiro. O que se vê hoje é a tentativa obstinada de forçar a implantação de um regime político sem a devida consulta democrática, um sequestro da vontade coletiva promovido por arranjos de poder, barganhas internas e uma cultura legislativa que tornou o Congresso refém de si mesmo.

Quando o Congresso força os limites – Juliana Diniz*

O Povo (CE)

O governo respondeu às derrotas no Congresso com a inteligência estratégica de um jogador sem alternativas, mas poderoso. Judicializou a questão, pois qualquer omissão nesse sentido exporia de modo irrecuperável sua fragilidade

Sabemos que, em um jogo em que se disputa com um adversário enfraquecido, é sempre um risco fazer um movimento que o deixe sem alternativas. Ameaçado, o antagonista pode ser levado a tomar decisões extremas na intenção de se salvar. Foi Carl von Clausewitz quem afirmou: "quanto mais se empurra o inimigo para a beira do abismo, mais ele se agarra ao combate com o desespero dos que não têm mais nada a perder."

Essa sabedoria militar pode explicar o movimento do governo, depois do golpe hostil do Congresso Nacional ao derrubar o decreto presidencial sobre o IOF. Foi um movimento de autopreservação depois que a derrubada do decreto expressou a mensagem de que o Executivo não pode mais governar.

O papel de Barroso contra os supersalários - Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

O presidente do STF precisa convencer que é contra supersalários liderando combate às resistências

A limitação dos supersalários é a medida que mais sensibiliza a população em geral no debate acalorado sobre corte de gastos em alta no Brasil em meio ao impasse em torno do decreto de IOF.

O trabalhador fica indignado com os excessos e os crescentes penduricalhos que engordam os salários de membros do serviço público, em especial juízes, desembargadores e promotores.

Boa parte desses penduricalhos é protegida pela palavrinha mágica de "indenização", que livra essa renda adicional da incidência do Imposto de Renda. Os extras ficam foram do teto salarial do funcionalismo público, de R$ 46.366,19, e de quebra quem recebeu não paga imposto.