Folha de S. Paulo
Cada operação da PF conta duas histórias: a
da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições
Tensões entre direção da Polícia Federal e o
relator do escândalo do INSS no STF são reveladoras
A profusão de operações policiais no país produz simultaneamente uma crise de confiança e uma demonstração de capacidade institucional. Quanto mais o sistema de controle funciona, mais corrupção se torna visível; quanto mais corrupção se torna visível, mais a sociedade pode concluir que o sistema inteiro está apodrecido.
A sucessão quase diária de operações da PF (Polícia
Federal) e de denúncias envolvendo instituições antes
relativamente preservadas —tribunais superiores, Banco Central, TCU— produz
dois efeitos com sinais opostos. O primeiro é o sinal do mar de lama: a
criminalidade organizada e a corrupção teriam penetrado profundamente o Estado,
alcançando instituições que deveriam justamente controlá-las. Não se trata dos
suspeitos usuais —empresas contratistas de obras públicas (empreiteiras),
parlamentares, membros do Executivo. A degradação também pode ser enxergada
nos numerosos mob
lawyers que assessoram o crime ou dele se beneficiam. Os escândalos
do Master e
do INSS revelam
as entranhas do entrelaçamento entre interesses dentro e fora do Estado. O caso
do Rio de Janeiro é o microcosmo desses desmandos.
Mas há também o sinal oposto, da resistência
institucional: as investigações demonstram que ainda existem setores e
indivíduos dispostos a revelar e enfrentar essa penetração. E não só nas
instituições de Estado —a mídia e até jornalistas individuais também são
baluartes contra a degradação. Pelo protagonismo que assume, a Polícia Federal
adquire grande centralidade nessa resistência. As tensões entre sua direção e o
relator do escândalo do INSS no Supremo são reveladoras. Isso remete a
questões sobre o profissionalismo de seus quadros e a lealdade política de seu
centro de comando em questões eleitoralmente sensíveis.
O paradoxo, portanto, é que o mesmo fato —uma
nova operação da Polícia Federal— pode servir de evidência tanto de degradação
quanto de resiliência institucional. A operação revela o crime, mas também
revela a existência de quem o investiga. E remete a um temor justificado: quem
controlar a Polícia Federal terá poder desmedido. Até quando a instituição se
manterá independente?
Dada a polarização atual, os sinais opostos
são processados com vieses. A oposição enfatiza a
extensão da corrupção, vinculando-a ao governo e à degradação
institucional do país. Os governistas enfatizam a autonomia da PF e apresentam
as operações como prova de que as instituições estão funcionando. O contingente
crescente de eleitores sem identificação partidária pode combinar as duas
avaliações: perceber uma degradação assustadora e, ao mesmo tempo, reconhecer
que ainda existem "ilhas de resistência".
Cada operação da Polícia Federal conta duas
histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das
instituições. A endogeneidade entre os dois fenômenos não é especificidade
nossa; é universal, como mostra a literatura sobre corrupção. Deve-se ao fato
de que a corrupção é em geral corrupção revelada. Mas o mar de lama —a penetração
de grossa corrupção em setores nunca antes atingidos— não é produto apenas de
uma maior capacidade institucional. É uma mudança qualitativa. E é real.

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