Fim de moratória da soja representa retrocesso ambiental
Por O Globo
Decisão do STF validou as leis estaduais que,
na prática, sepultam pacto para reduzir o desmatamento
Foi frustrante a decisão do Supremo Tribunal
Federal (STF)
que julgou válidas leis dos estados de Mato Grosso e Rondônia contrárias à
moratória da soja, o acordo que veta a compra de safras colhidas em áreas
desmatadas da Amazônia a
partir de julho de 2008. A legislação dos dois estados por onde se expande a
fronteira agrícola proíbe a concessão de benefícios fiscais a empresas
participantes de pactos privados que criam restrições à produção agropecuária —
e é apontada como responsável por esvaziar a moratória.
A decisão do STF foi contraditória. De um lado, a Corte afirmou que a moratória da soja, que vinha sendo questionada em diversas ações, é constitucional. Os ministros determinaram que juízes e autoridades de todo o país, inclusive do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), encerrem todas as ações decorrentes da moratória. Mas reconhecer a legitimidade a esta altura significa pouco ou nada, uma vez que o pacto, firmado em 2006, não existe mais. Nenhuma empresa quer mais participar do acordo por temer perder benefícios fiscais nos estados.
Além de Mato Grosso e Rondônia, outros
estados já têm, ou estão em via de implementar, legislações semelhantes. Com
isso, ao longo das duas últimas décadas, as empresas foram saindo aos poucos do
pacto. Em janeiro deste ano, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleo
Vegetal, que representa as principais companhias do setor, também se retirou,
decretando na prática o fim da moratória.
O movimento marca um retrocesso — mais um —
na área ambiental, e as consequências podem ser devastadoras, segundo estudo de
pesquisadores das universidades de Wisconsin, Illinois e DePaul, nos Estados
Unidos, em parceira com Greenpeace e WWF-Brasil, publicado em julho na revista
científica Science. A validação das leis estaduais significa, no entender da
coautora do estudo Cristiane Mazzetti, do Greenpeace Brasil, que as empresas
doravante não serão “encorajadas a assumir compromissos mais ambiciosos em
relação ao Código Florestal”.
O estudo estimou que o fim da moratória da
soja poderá aumentar o desmatamento na Amazônia em 1,4 milhão de hectares até
2035, crescimento de 17% em relação à área destruída nos últimos dez anos. As
emissões associadas à perda de vegetação poderão atingir o equivalente a 745
milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera, volume semelhante ao
emitido pelo Canadá em um ano. As áreas sob ameaça de desmatamento
correspondem, diz o estudo, à superfície de Portugal e Itália.
A moratória parecia um acordo promissor. Nos
dez primeiros anos do pacto, o desmatamento para plantio da soja caiu 35%,
evitando perda florestal estimada em 1,8 milhão de hectares, segundo o estudo.
Lamenta-se que tenha sido esvaziado por leis estaduais que seguem a cartilha
antiambiental tão cultuada nas casas legislativas. Ainda que não sejam
inconstitucionais, como entendeu a maioria do STF, representam uma política
retrógrada, que tem mais a prejudicar que a favorecer o Brasil. Países
importadores restringem cada vez mais a compra de produtos vindos de áreas
desmatadas. Infelizmente, seguimos imprudentemente na contramão do mundo.
Infiltração do crime organizado custa caro à
economia fluminense
Por O Globo
Rio perde 2,3% do PIB por ano em decorrência
de ações criminosas, constatou novo estudo da Firjan
O avanço do crime organizado tem cobrado um
preço alto do Rio: R$ 31,1 bilhões por ano, ou 2,3% do PIB, segundo o relatório
“Custo Rio — O desafio da competitividade fluminense”, da Federação das
Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).
O estudo divide o impacto sobre a economia
estadual em dois blocos. O primeiro reúne custos diretos para as empresas, como
gastos com segurança, seguro, logística ou gestão de risco, além da perda de
produtividade e atratividade para novos investimentos. Esse bloco soma R$ 9,7
bilhões por ano, cerca de 0,7% do PIB estadual. O segundo bloco compreende os
reflexos negativos dos negócios ilícitos sobre produção, circulação e venda das
mercadorias provenientes de empresas que cumprem as leis.
A Light estima que 30% de sua base de
clientes vive em áreas sem acesso para cobrança. A Enel atribui às áreas de
risco sob o controle de milícias e facções 62% das perdas. Adversidades desse
tipo causam prejuízos de R$ 21,4 bilhões. “Mesmo o empresário que nunca teve
uma carga roubada é afetado pelo aumento do custo do frete, pelo encarecimento
dos seguros ou pela necessidade de contratar escolta armada para transportar
mercadorias”, diz Isaque Ouverney, gerente de Infraestrutura da Firjan. A
pesquisa constatou que dois em cada três empresários fluminenses consideram a
segurança fator essencial na decisão de investir.
O avanço do crime organizado sobre mercados
formais prejudica o crescimento, a geração de empregos, de renda e, em
consequência, reduz o recolhimento de impostos, pressionando as despesas com
segurança, educação e saúde. A degradação econômica e social cria terreno
propício ao fortalecimento da criminalidade, fechando um círculo vicioso em
espiral ascendente.
O Rio já vive aquilo que o promotor de
Justiça Fabio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em
Segurança Pública, chama de “terceira onda” do crime organizado. Na primeira,
as organizações criminosas exploravam drogas. Na segunda, passaram a fornecer
produtos e serviços de forma ilegal, como TV por assinatura, internet,
transporte ou gás. Agora, na terceira, operam como cartel territorial, buscando
monopólio em atividades da economia formal, sem abrir mão das práticas
criminosas. Os conglomerados do crime operam na fronteira entre o submundo e a
legalidade.
No Complexo da Maré, já foram encontrados uma mineradora de criptoativos, um condomínio em construção pelo tráfico com 40 prédios e uma fábrica de falsificação de dinheiro. Milícias faturam R$ 4 milhões com gás e R$ 3 milhões com internet em Rio das Pedras, diz a polícia. Na região, uma plataforma de imóveis ilegais informou ter negociado R$ 10 milhões em um ano. “O criminoso mudou, e nem sempre o recurso usado para abrir uma empresa vem de fonte ilícita”, diz o secretário de Segurança, Victor Santos. “A Polícia Civil precisa mudar a forma de investigar: deixar de olhar apenas para o criminoso e passar a olhar o negócio dele.” O Rio não pode continuar a perder a corrida contra o crime.
Pragmatismo é melhor resposta ao tarifaço de Trump
Por Folha de S. Paulo
Governo Lula ameaça retaliação com Lei de
Reciprocidade Econômica, que no limite pode prejudicar o país
Brasil, que representa fatia pequena das
exportações americanas, precisa diversificar mercados e aumentar capacidade
exportadora
No final de julho, o governo Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC) para
contestar a decisão da Casa Branca de aumentar as tarifas americanas de
importação sobre produtos brasileiros.
Caso a OMC estivesse em pleno funcionamento,
a conclusão de um processo dessa espécie levaria mais de meia década. Como na
prática está paralisada, o protesto brasileiro é protocolo simbólico que
expressa a adesão do país a um fragilizado sistema de normas multilaterais.
Tal atitude do Planalto não causa prejuízos
ao país. O risco político da confrontação é, nesse caso, quase nenhum. Mas pode
não ser assim com a ameaça de retaliação baseada
na Lei de Reciprocidade Econômica, anunciada na última quinta-feira
(13).
A norma regula aumentos de tarifas, suspensão
de acordos internacionais e cancelamento de direitos de propriedade
intelectual. Por ora, o recurso está na fase de consulta diplomática.
É possível que seja somente um gesto com o
objetivo de incentivar empresas americanas ameaçadas a pressionar o governo
de Donald Trump.
Trata-se, contudo, de atitude de efetividade duvidosa e mais arriscada do que
continuar a fazer pressão nos bastidores da diplomacia.
Ademais, é uma manifestação
político-eleitoral, pois soberania se tornou um mote de Lula.
Levada ao extremo, a medida prejudicará
empresas brasileiras que importam insumos essenciais e talvez encareça produtos.
Conjugada ou não a sanções de direito de propriedade intelectual, pode suscitar
novas restrições a empresas e às finanças do país.
"Nós entramos com a lei da reciprocidade
para mostrar que a gente também não é pouca coisa. Nós nos respeitamos",
disse o mandatário petista na sexta (14). A reação é justificada, mas seu
mérito dependerá dos resultados. Eficácia é a questão.
O Brasil representa fatia pequena das
exportações americanas, cerca de 2,3% do valor total. Só México (16,6%)
e Canadá (14,4%)
se destacam como destinos de vendas dos EUA e, mesmo assim, são atacados por
Trump.
Além disso, não exportamos bens essenciais para
a economia americana,
como a China.
Produtos nacionais de maior interesse, que podem afetar a inflação percebida
pelo consumidor, foram poupados. O jogo de forças é, assim, pouco favorável.
No curto prazo, o protesto político
necessário deve ser limitado à obtenção de isenções tarifárias. É tarefa
difícil, pois a guerra comercial de Trump é um meio para alcançar seu objetivo
de submeter nações e interferir em governos e disputas eleitorais, em
especial na América Latina.
No longo prazo, o país precisa expandir
alianças políticas e comerciais, diversificar seus mercados e criar condições
para que empresas tenham maior capacidade exportadora, o que depende de
extensas reformas econômicas. Pragmatismo deve ser o único mote da reação
brasileira.
Mineração sem lei em terras indígenas
Por Folha de S. Paulo
Supremo cria regime provisório para
cintas-largas e dá 24 meses para que Congresso aprove legislação
Tema complexo exige que prazo seja bem
aproveitado; garimpo ilegal avança sobre territórios no país, em particular na
amazônia
O Supremo Tribunal Federal deu sinal verde
para a atividade minerária em terras indígenas.
Na quinta-feira (13), a corte entendeu que povos
indígenas podem exercer a atividade, após a liberação do governo e
do Congresso
Nacional.
Com apenas um voto contrário, do ministro e
presidente Edson Fachin, o STF deu
prazo de 24 meses para que se defina a regulamentação do tema —pondo fim a uma
longa omissão legislativa. A decisão referenda o voto do ministro relator Flávio Dino proferido
em fevereiro deste ano.
A Constituição de
1988 permite a mineração em terras indígenas, mas sob condições especiais:
autorização do Congresso Nacional, consulta às comunidades afetadas e
participação delas nos resultados da lavra. Até hoje não se chegou a um
consenso mínimo sobre como cumprir tais regras.
Enquanto isso, o garimpo ilegal avança
sobre territórios no país, em particular na amazônia.
Dados da rede MapBiomas mostram que isso ocorre em estados com menor
fiscalização, como Mato Grosso, Amapá e Rondônia.
O Supremo estabeleceu um regime provisório
para os povos cintas-largas, de Mato Grosso e Rondônia, autores das ações.
Fixou-se o máximo de 1% do território para a atividade exploratória, que os
povos sejam ouvidos e que o ganho financie projetos de saúde, educação, infraestrutura
e segurança que os beneficiem.
Se é verdade que a ausência de regulação
fragiliza as comunidades, deve-se reconhecer que a tarefa é complexa —nem mesmo
entre os povos indígenas há consenso em torno do assunto.
Em 2020, o governo Jair
Bolsonaro (PL) chegou a apresentar
projeto para facilitar a exploração, que não prosperou —o próprio setor
empresarial temeu pela má repercussão em razão de impactos sociais e
ambientais.
À época da decisão liminar do relator Dino,
em fevereiro, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil listou uma série de
riscos da medida do Supremo, incluindo a imprecisão do limite de 1% da área, a
transferência da responsabilidade por políticas públicas, a possível ausência
de consulta adequada aos povos e eventual preferência pela mineração como fonte
de renda.
Estudo de 2018 revelou que um quarto de todas as terras indígenas na Amazônia Legal já havia sido objeto de pedidos de pesquisa e exploração por parte de mineradoras. Dados os efeitos diretos e colaterais do garimpo, inclusive com o acirramento das tensões nesses territórios, é necessário que o tempo concedido para aprovar uma legislação seja bem aproveitado.
Programa bom, candidato ruim
Por O Estado de S. Paulo
O plano eleitoral apresentado por Flávio
Bolsonaro é para um presidente reformista e capaz de enfrentar resistências no
Congresso. Definitivamente, esse presidente não é ele
O plano de governo apresentado pelo candidato
do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, embora genérico, toca em temas
relevantes, como redução da dívida pública, revisão de subsídios, transparência
das emendas parlamentares e reforma do Judiciário. O grande problema do tal
programa, portanto, não é sua qualidade, que com boa vontade pode ser chamado
de razoável. O grande problema é quem se dispõe a implementá-lo.
Herdeiro dinástico do bolsonarismo, Flávio
passou sete anos no Senado sem se destacar pela articulação política ou pela
liderança – nem sequer em temas que lhe são caros, como a segurança pública.
Conseguiu aprovar apenas dois projetos de sua autoria, nenhum convertido em
lei.
O candidato que o plano apresenta em nada se
parece com o senador que o País conhece. Ele é reformista, ao contrário de
Flávio, que nunca liderou reformas relevantes. É um articulador político,
diferentemente do senador, que não conseguiu fazer avançar nem suas próprias
bandeiras. E se dispõe a enfrentar interesses e conduzir mudanças de grande
porte, algo difícil de conciliar com a atuação de quem pouco fez para conter
subsídios, exceções tributárias e outras distorções que agora promete combater.
O candidato que promete punir maiores de 14 anos
que cometerem crimes graves é o mesmo que, em 2019, apresentou uma proposta de
emenda à Constituição (PEC) nessa direção e foi incapaz de garantir que o texto
sequer saísse da Comissão de Constituição e Justiça. Nem o fato de seu pai
ocupar a Presidência à época foi suficiente para transformar uma bandeira
política em avanço legislativo.
Na economia, o programa promete uma nova
regra fiscal voltada à redução da dívida, superávits primários e controle dos
gastos discricionários dos Três Poderes. Mas Flávio não explica como pretende
tirar essas iniciativas do papel. O documento não diz qual regra substituirá o
atual arcabouço nem estabelece prazo para atingir o equilíbrio que promete. É
fácil prometer responsabilidade fiscal numa plataforma eleitoral; mais difícil
é dizer onde a tesoura vai cortar. E o histórico familiar tampouco ajuda: o
governo Jair Bolsonaro patrocinou sucessivas exceções ao teto de gastos,
inclusive para ampliar benefícios às vésperas da eleição de 2022.
Flávio promete ainda “corrigir” a reforma
tributária. Depois de décadas de impasse, o País finalmente aprovou uma mudança
capaz de simplificar um dos sistemas tributários mais disfuncionais do mundo e
agora precisa implementá-la, não começar tudo de novo. O PL participou dessa
construção e tinha força para combater suas exceções, se quisesse. Flávio,
porém, reserva sua valentia para depois da batalha: promete reabrir no Planalto
uma discussão que não liderou no Senado.
Há contradições incômodas, como a promessa de
dar “mais transparência, controle e rastreabilidade às emendas parlamentares”.
Seria uma ótima ideia se não viesse do herdeiro político de um governo sob o
qual o orçamento secreto prosperou como instrumento de negociação. O plano
parece uma tentativa de corrigir problemas que o próprio bolsonarismo ajudou a
criar.
É na política externa, porém, que a distância
entre discurso e realidade chega perto da provocação. O plano promete a
recuperação da relação com os Estados Unidos e afirma que soberania se
conquista com “seriedade, não por bravata”. A família Bolsonaro esteve no
centro da escalada política com Washington que desembocou no tarifaço contra
produtos brasileiros. Agora, Flávio se apresenta como capaz de oferecer aos
produtores a previsibilidade que o próprio bolsonarismo ajudou a destruir.
Antes de vender pragmatismo diplomático, seria recomendável demonstrá-lo dentro
de casa.
Plano de governo não é lista de desejos, e o
próprio documento reconhece isso: “Um plano de governo não vale pelo que
promete, mas pelo que consegue sustentar”. Flávio apresentou um programa para
um presidente reformista, articulador e capaz de enfrentar interesses
poderosos. Definitivamente, não é ele.
Trump diz que é dono da América Latina
Por O Estado de S. Paulo
EUA anunciam que são potência imperial com
domínio incontestável sobre a região, cobiçada pela China. Com isso, tratam a
América Latina não como parceira, mas como vassala
O Departamento de Estado dos EUA acaba de
prestar um serviço involuntário à franqueza. Em um vídeo sobre a Doutrina
Monroe, descreve como aquela advertência contra a recolonização das Américas
teria evoluído até se tornar uma “estrutura de domínio regional”. A peça
celebra os EUA no palco global como “potência imperial”, alude à sua pretensão
de soberania hemisférica e culmina na captura do ditador venezuelano Nicolás
Maduro. O presidente Donald Trump aparece como campeão dessa retórica,
proclamando que o domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será
questionado”.
A honestidade é valiosa; a genealogia,
fraudulenta. A doutrina lançada em 1823 pelo então presidente James Monroe
(1817-1825), segundo a qual “a América” era “para os americanos”, buscava
dissuadir impérios europeus de recolonizar as novas nações e ameaçar uma
república ainda frágil. Dizia o que a Europa não deveria fazer. Não conferia a
Washington o direito de administrar os vizinhos. O sucessor de Monroe, John
Quincy Adams, defendeu a exclusão das potências externas, mas rejeitou que os EUA
ocupassem seu lugar. O mandato para as intervenções americanas na região foi
reivindicado só posteriormente, sobretudo por Richard Olney, secretário de
Estado do governo de Grover Cleveland (1893-1897), e Theodore Roosevelt,
presidente de 1901 a 1909. O vídeo do governo Trump, como lhe é habitual,
distorce informações para sustentar que seu ponto de vista estaria inscrito na
Doutrina Monroe original, o que não é verdade.
A manipulação histórica encobre uma
oportunidade contemporânea. Depois de anos em que Washington tratou a América
Latina como apêndice de crises migratórias e do narcotráfico, muitos governos
latino-americanos desejam maior presença americana. A região guinou à direita e
a cooperação pode oferecer inteligência e capacidade operacional a países
acossados por facções criminosas. Nenhum desses sinais, porém, autoriza Trump a
concluir que a região aceita tutela. A América Latina quer cooperar com os EUA,
não pertencer a eles.
Parceiros podem ser pressionados e
convencidos, mas conservam interesses próprios e espaço para divergir. Na
relação de vassalagem projetada por Trump, Washington define quais governos,
contratos e vínculos externos considera admissíveis, e a discordância vira
insubordinação. Os EUA ainda dispõem de força excepcional para impor essa
hierarquia. Capturaram Maduro, arrancaram concessões comerciais de vários
países e afastaram empresas chinesas de ativos sensíveis. A coerção funciona
sobretudo contra países muito dependentes. Mas os resultados imediatos dizem
pouco sobre a solidez desses alinhamentos. Um governo pode ceder hoje e
procurar amanhã outra fonte de crédito, outro mercado ou um seguro contra a
próxima extorsão americana.
A China torna essa limitação visível. Pequim
se enraizou na América do Sul comprando soja, carne, cobre e lítio, enquanto
financiava obras que Washington não quis ou não conseguiu bancar. Mais de 30%
das exportações brasileiras destinam-se hoje à China, relação que se aprofundou
até sob Jair Bolsonaro, aliado ideológico de Trump. Governos conservadores –
como o de Javier Milei, na Argentina – podem compartilhar as preocupações
americanas e ainda se recusar a abandonar o mercado que sustenta seus
produtores. O Brasil, por sua escala e recursos, pode negociar com ambas as
potências sem aceitar alinhamento com nenhuma.
Isso não torna inofensiva toda presença
chinesa. Controle de portos, redes de dados, telecomunicações ou instalações de
uso dual criam riscos legítimos. Os EUA têm razões para disputar esses ativos e
devem oferecer alternativas. O financiamento americano ao projeto de terras
raras da Serra Verde, em Goiás, mostra como capital, tecnologia e segurança
podem convergir em benefício recíproco. Ordens para que os vizinhos fechem a porta
à China pouco valem sem opções capazes de competir com as ofertas chinesas.
Washington possui vantagens que Pequim
dificilmente reproduzirá: proximidade, lastro financeiro, instituições
democráticas, vínculos humanos e valores comuns construídos por gerações. Trump
as dilapidará se medir influência pelo número de governos que obedecem sob
ameaça.
Partido político é negócio da China
Por O Estado de S. Paulo
Escândalo não é o PCO desviar Fundo
Eleitoral; escândalo é partido sem voto ter Fundo Eleitoral
O sistema político-partidário brasileiro
produz situações difíceis de explicar ao contribuinte. Por exemplo, ficamos
sabendo há poucos dias que uma legenda sem representação no Congresso, sem
prefeitos e governadores e que faz apenas figuração em disputas eleitorais
recebe R$ 3,3 milhões de dinheiro público para financiar suas atividades
irrelevantes. E só ficamos sabendo porque Rui Costa Pimenta, o dono da tal
legenda, o Partido da Causa Operária (PCO), virou alvo de investigação da
Polícia Federal sob suspeita de desvio dos recursos públicos que o partido
recebe – o dinheiro teria circulado entre integrantes da própria sigla e seus
familiares.
Fundado em 1995, o PCO, apesar de ter lançado
centenas de candidatos ao longo das últimas três décadas, teve apenas uma
vitória nas urnas, ao eleger um vereador, em 2004, no interior do Amazonas.
Insistente, o sr. Rui Costa Pimenta disputa a Presidência da República pela
quarta vez – e em todas as anteriores terminou na última colocação. Na mais
recente, em 2014, obteve 0,01% dos votos válidos.
No entanto, nada disso impede o PCO de
receber dinheiro do Fundo Eleitoral. Pela lei, 2% de toda a verba é dividida
igualmente entre os partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral,
independentemente do tamanho de suas bancadas. Como nos últimos anos esse bolo
cresceu vertiginosamente, inflado pelo Congresso, até mesmo uma legenda sem
representação parlamentar fica com alguns milhões de reais.
Esse financiamento público das campanhas foi
criado em 2017, depois que o Supremo Tribunal Federal proibiu as doações
empresariais. A intenção foi colocar um fim à captura do processo político pelo
poder econômico. Desde então, porém, políticos transformaram o fundo em uma
conta cada vez mais salgada para o contribuinte e com menos regras de controle.
Do R$ 1,7 bilhão distribuído em 2018, chegamos a R$ 5 bilhões em 2026.
Tudo isso sob o argumento de que “a
democracia custa caro”, na definição do deputado Vicente Cândido (PT-SP) ao
apresentar seu relatório sobre a emenda constitucional que criou o
financiamento público de campanhas. Ora, nada disso justifica que o
contribuinte seja obrigado a bancar partidos com os quais não têm nenhuma
afinidade, mas é exatamente o que acontece hoje. E é nesse festim que entram
partidos como o PCO, uma empresa privada criada para sustentar seu dono. O
pretexto de “defender um programa revolucionário e socialista”, que se lê no
manifesto do partido, serve apenas como diversão. Na prática, o partido existe
só para receber dinheiro público, rigidamente controlado pelo centralismo
democrático do sr. Pimenta.
Quem abre uma firma precisa investir, pagar impostos, contratar funcionários e disputar mercado com a concorrência – e mesmo assim não sabe se terá algum lucro. Já quem abre um partido político – seja ele comunista revolucionário ou capitalista selvagem – não precisa nem ganhar eleição para garantir sua prosperidade. É um negócio da China.
Verbas para a prevenção climática fluem
lentamente
Por Valor Econômico
As providências para que a tragédia gaúcha não ocorra novamente e as medidas para enfrentar o El Niño podem criar a rotina do planejamento, cuja falta tanto mal faz à administração pública
Os últimos dados não deixam margem a dúvidas:
o El Niño que se aproxima tem 95% de chances de ser muito forte entre outubro e
dezembro e 90% entre novembro e janeiro, segundo a Administração Oceânica e
Atmosférica dos Estados Unidos (Nooa, na sigla em inglês). A Nooa estimou, com
observações feitas em 10 de agosto, que o El Niño em formação tem 70% de
probabilidade de ser um dos maiores já registrados desde 1950. O fenômeno
ocorre periodicamente com o aquecimento acima de 0,5o C das águas do Pacífico
Equatorial.
Com oceanos e atmosfera mais quentes, devido
ao aquecimento global, o El Niño deste ano parte de uma base de temperatura
mais elevada, adicionando uma “enorme” quantidade de energia ao sistema
climático, afirmou o físico Paulo Artaxo ao Valor (4/8). Isso altera a
circulação atmosférica, modifica fluxos de umidade e favorece secas, chuvas
intensas e outros eventos extremos.
No Brasil, impactos mais conhecidos incluem
secas na Amazônia e no Brasil Central, chuvas intensas no Sul e ondas de calor
no Sudeste. A maioria dos municípios brasileiros (65%) não está preparada para
lidar com a emergência climática que já chegou, segundo dados da plataforma
AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Isso reflete a
histórica falta de prioridade para prevenção na distribuição dos recursos
públicos. Dados do Tribunal de Contas da União mostram que, desde 2012, o
Brasil gastou quase três vezes mais com reconstrução do que com prevenção.
A tragédia das chuvas no Rio Grande do Sul em
abril e maio de 2024, com mais de 180 pessoas mortas e 2 milhões de pessoas
deslocadas por inundações, foi um marco que tornou inadiável aos governos
aumentar os esforços para prevenção e adaptação aos extremos climáticos, que
estão se tornando frequentes com o aquecimento global. Os efeitos do El Niño de
2023-24 foram impactantes: a maior bacia fluvial do mundo, na Amazônia, viu
rios desaparecerem diante de uma seca atroz, enquanto queimadas favorecidas
pela falta de umidade propagavam incêndios de grande proporção. O Pantanal teve
em 2024 uma repetição ampliada da devastação pelo fogo de 2020, que destruiu
mais de 4,5 milhões de hectares de vegetação nativa, ou mais de um quarto dos
16 milhões de hectares do bioma.
A ameaça do El Niño e as enchentes no Rio
Grande do Sul fizeram com que pela primeira vez o governo federal e alguns
estaduais montassem gabinetes de crise para monitorar o clima, preparar ações
contra queimadas na Amazônia e Pantanal e mobilizar recursos para contenção de
encostas, dragagem de rios e córregos e outras obras urbanas importantes para
prevenção de tragédias. No fim de julho, o governo federal anunciou a dotação
de R$ 1,37 bilhão para ações que também incluem segurança alimentar,
abastecimento de alimentos e saúde.
A mobilização de recursos, porém, esbarra em
outras carências crônicas do país e na falta de tradição de planejamento de
longo prazo para eventos que causam danos à vida humana e à infraestrutura,
mesmo que sejam recorrentes. Estudo recente da Confederação Nacional dos
Municípios mostra algumas das razões por que os desastres naturais não
encontram obstáculos. Ao menos 70% dos 5.570 municípios não têm recursos próprios
para realizar fiscalização e licenciamento ambiental. Quase dois terços deles
(64%) se declaram incapazes de enfrentar mudanças climáticas e não realizam
qualquer ação em relação a elas. E 55% das gestões municipais sequer têm
sistemas de alerta à população.
Ter recursos é meio caminho andado, mas a
outra metade dele não está assegurada. Dos R$ 532 milhões do orçamento de 2025
reservados para obras de drenagem urbana e contenção de encostas em todo o
país, somente R$ 136 milhões foram pagos por conclusão total ou parcial dos
empreendimentos (Valor,
ontem). O uso dos recursos esbarra na lenta burocracia estatal em todos os
níveis e na falta de preparo ou especialização que as providências requerem.
Apenas 35% dos municípios têm equipes de meio ambiente.
Com isso já há muita dificuldade em
apresentar projetos para as obras, que terão de atender os requisitos formais
da Caixa. A licitação é por vezes um processo demorado, assim como o
licenciamento ambiental ou desapropriações que várias delas requerem. Os dois
tipos de obras terão R$ 34 bilhões disponíveis nos próximos anos, segundo o
Ministério das Cidades, mas a corrida contra os efeitos do aquecimento global
precisa acelerar os procedimentos e sanar deficiências para que o dinheiro
chegue a tempo.
Os municípios carentes, isolados ou agrupados em consórcios, precisam de socorro técnico e ajuda especializada para operarem com eficiência. Um avanço fundamental, porém, ocorreu: União, governadores e prefeitos estão alerta para os efeitos destrutivos das mudanças climáticas, que vieram para ficar, e conscientes de que têm de agir para evitar o pior. As providências para que a tragédia gaúcha não ocorra novamente e as medidas para enfrentar o El Niño podem criar a rotina do planejamento, cuja falta tanto mal faz à administração pública.
Sarampo volta a preocupar
Por O Povo (CE)
O Brasil tem um dos maiores programas de
vacinação do mundo, com os imunizantes oferecidos gratuitamente pelo Sistema
Único de Saúde (SUS)
Atrapalha, e muito, o trabalho em favor da
saúde pública atitudes como a de Eduardo Bolsonaro, que utiliza a sua
popularidade para investir contra as vacinas. Com milhões de seguidores nas
redes sociais, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro divulgou recentemente um
vídeo, dos Estados Unidos, onde mora, afirmando ter pago "10 dólares"
para firmar uma "declaração juramentada" de que ele é o responsável
por sua filha "não tomar vacinas".
O próprio governo americano, cuja política
Eduardo admira, está em guerra contra as vacinas. Donald Trump, presidente dos
EUA, assinou recentemente uma ordem executiva reduzindo de 18 para 11 o número
de imunizantes recomendados no calendário infantil. Esse decreto também
determina que vacinas combinadas sejam separadas, obrigando a mais visitas aos
postos de saúde.
A investida de Eduardo Bolsonaro acontece
justamente quando o sarampo volta a preocupar no Brasil. Somente neste ano
foram registrados 24 casos de sarampo, sendo 23 em São Paulo e um no Rio de
Janeiro. A maioria dos casos está relacionada à entrada do vírus por meio de
pessoas infectadas, vindas do exterior. Questionado sobre o assunto, o
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, disse, em entrevista à CNN, que o
vídeo de Eduardo não atrapalhou a campanha contra o sarampo desenvolvida no
estado.
Por sua vez, o Ministério da Saúde esclarece
que casos isolados ou importados não significam o retorno da doença como
problema de saúde pública. Mas é preciso alertar sobre a necessidade de criar
uma barreira para impedir a disseminação do vírus. O Brasil tem um dos maiores
programas de vacinação do mundo, com os imunizantes oferecidos gratuitamente
pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A lembrar o consenso científico de que a
vacinação é uma forma eficaz e segura de prevenir doenças.
Entre os brasileiros existe uma tradição de
confiança nas vacinas, que não foi abalada nem mesmo nos piores momentos, como
aconteceu durante a pandemia da Covid-19. Na ocasião, o então presidente Jair
Bolsonaro moveu uma campanha contra a vacinação. Mesmo assim, milhões de
pessoas acorreram aos postos de saúde para receber o imunizante.
Por isso não chega a surpreender o resultado
do levantamento da plataforma Torabite, publicado pela BBC Brasil. Segundo o
texto, a nova onda de ataque às vacinas por políticos de direita ampliou o
debate sobre imunização nas redes socais, mas foi contestada por uma reação
majoritariamente favorável às vacinas. A Torabite analisou 93.755 publicações
únicas com o termo "vacina" nas plataformas X, Facebook, Instagram e
Bluesky, de 3 a 10 de agosto.
No período, 54,4% das publicações foram classificadas como pró-vacina ante 28,3% como antivacina. O restante ficou sem classificação ou informativas. Considerando apenas as publicações que assumiram posição, 65,8% eram favoráveis à vacinação e 34,2% contrárias.

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