quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O conservadorismo empático da classe C, por Renato Meirelles

O Globo

A tia que é contra o aborto e acolheu a sobrinha; não é uma teoria política nem uma plataforma de campanha: é algo que está diante de nós há muito tempo

Vou chamá-la de dona Neusa. Não é uma pessoa. É a soma de muitas mulheres que conheci em 25 anos tentando aprender com o Brasil da maioria.

Ela tem 54 anos, trabalha como auxiliar de cozinha na Zona Leste de São Paulo e frequenta a mesma Assembleia de Deus há décadas. É contra o aborto. Fala isso sem levantar a voz, como quem está dizendo uma coisa sobre a qual nunca teve muita dúvida.

Há dois anos, uma sobrinha de 19 anos apareceu na casa dela depois de ter feito um aborto. Dona Neusa não perguntou muito. Fez chá, emprestou uma calça de moletom, ficou acordada até tarde. A menina chorou. Talvez de medo, culpa, alívio, cansaço. Talvez de tudo isso junto. Dona Neusa não tentou dar nome ao choro. E não contou a ninguém. Nem à irmã. Nem ao pastor.

As duas coisas continuaram verdadeiras: ela permaneceu contra o aborto e permaneceu ao lado da sobrinha.

Tenho chamado isso de conservadorismo empático. Não é uma teoria política nem uma plataforma de campanha. É algo que está diante de nós há muito tempo, mas que a planilha costuma enxergar mal.

Várias pesquisas mostram bem essa aparente contradição: uma grande maioria era contra legalizar o aborto e uma maioria ainda maior era contra prender a mulher que abortasse. Não fecha na lógica binária. Fecha perfeitamente na cozinha de dona Neusa.

Talvez porque, quando a vida ganha nome e rosto, a pergunta mude. Uma coisa é responder “o que você acha do aborto?”. Outra é descobrir o que fazer quando sua sobrinha bate à porta assustada.

A igreja popular ajuda a entender parte disso. O testemunho, tão central no universo evangélico, quase sempre fala de queda e recomeço: eu errei, eu caí, eu voltei. O que aconteceu importa, mas não precisa definir uma pessoa para sempre. Há regra, há pecado, há consequência. E há também a possibilidade da segunda chance.

A outra parte nasce da própria vida comunitária. Na periferia, família, vizinhos e irmãos de fé formam uma rede de proteção que o dinheiro muitas vezes não compra. O vizinho é um pouco seguro, um pouco pronto-socorro, um pouco banco, um pouco família. Ajuda porque amanhã pode precisar. Mas seria pobre explicar isso apenas como cálculo. Existe sobrevivência, claro. Existe também afeto, obrigação, lealdade.

É aí que muita análise erra. Dona Neusa não é uma progressista escondida. Continua achando que a sobrinha fez algo errado. Só não acredita que um erro transforme alguém em descartável.

O Índice de Conservadorismo Brasileiro, do Ipsos-Ipec, recuou nos últimos anos justamente entre mulheres, pessoas mais velhas, mais pobres e menos escolarizadas, enquanto avançou em alguns grupos de maior renda e escolaridade. É um dado que deveria deixar desconfortável quem ainda associa automaticamente periferia a intolerância e diploma a abertura de espírito.

Talvez a diferença seja mais simples. Há quem julgue de longe e há quem precise continuar convivendo depois do julgamento.

Durante muito tempo achei que dona Neusa tivesse guardado segredo por medo. Hoje penso que pode ter sido também respeito: aquela história não era dela para contar.

Ela preservou as duas coisas que importavam. A regra ficou inteira lá fora. A menina ficou inteira dentro de casa.

Ser contra o pecado e a favor da pecadora, no Brasil, não é necessariamente contradição. Às vezes é apenas amor sem concordância. Ou se entende isso, ou não se entende a razão de um país conservador ter deixado tantas vezes a direita em segundo lugar.

 

Um comentário:

Mais um amador disse...

Excelente !

( A " conta " pode nem sempre fechar em relação à direita ficar em segundo lugar. Pode ser quanto à percepção que parcela significativa tem sobre o Executivo federal, mas o mesmo não ocorre em grande parte dos Estados e nos Legislativos. )