Folha de S. Paulo
Custo do dinheiro sobe nas economias do
centro do mundo e isso deveria nos interessar
Preço do diesel em alta no mercado americano
é mais uma febre que pode nos afetar
Em uma semana, o Brasil deve estar discutindo
ideias brilhantes como castração
química, "prendeu, matou", a lotação de prisões com adolescentes
para alimentar tropas do PCC ou as maneiras pelas quais o governo federal vai
impedir roubo de celular aí na sua calçada.
Vai começar a campanha eleitoral na TV; vai aumentar a torrente de mentiras e burrice nos grupos de zap e outras mídias atrozes. Ou melhor, apenas talvez as pessoas se ocupem disso já na semana que vem. Segundo marqueteiros políticos, está grande o desânimo de "nós, o povo", com a eleição.
Ainda que assim seja, é difícil que assuntos
como altas de taxas de juros nos
mercados do centro do mundo, superendividamento de governos ou
superinvestimento no complexo de inteligência artificial possam concorrer com
castração química ou com o próximo escândalo de corrupção que vai ser
anunciado, vazado ou manipulado.
No entanto, há sinais de febres econômicas e
financeiras, que vão e voltam faz uns cinco anos. São sintomas de doenças que
talvez demorem para aparecer e causar dano maior. Mas convém prestar atenção,
pois essas febres afetam nossa vidinha.
O preço do galão do diesel foi
a US$ 5,47, na média dos Estados
Unidos. A média do mês de abril foi de US$ 5,50, a mais alta desde a guerra
de Donald
Trump contra o Irã. A gente se esqueceu do diesel, até porque no
Brasil o combustível é subsidiado pelo governo. Mas o diesel não se esqueceu de
nós.
O preço aumenta mais rápido do que o do petróleo,
dados estoques baixos e gargalos de refino. O barril do Brent subiu para uns
US$ 90, por causa da guerra malparada ou sem fim pelo estreito de Hormuz.
Diesel mais caro nos EUA é pressão sobre empresas ou preços aqui.
O repique do preço dos combustíveis deve ter
ajudado a elevar as taxas
de juros de financiamento de déficits e dívidas dos governos do mundo
rico por estes dias —essas taxas costumam ser o piso do custo do dinheiro em
uma economia.
Diz-se também que essa alta é facilitada
pelos déficits enormes dos governos, pela dívida que cresce sem controle (como
nos EUA), governos que de resto disputam dinheiros, financiamentos, com
empresas do complexo de IA. E daí?
Para começar pelo problema mais caseirinho,
juros mais altos nos Estados Unidos dificultam a queda das taxas por aqui,
assim como pressionam o câmbio (o
dólar fica mais caro), tudo mais constante. Para continuar, uma alta
contínua de juros nos EUA pode causar acidentes financeiros: derrubar o preço
das ações ora na estratosfera, encarecer ou cortar o financiamento e
refinanciamento dos investimentos brutais em IA ou criar outros meios de
detonar a euforia, que
é o que tem levado adiante o PIB dos EUA.
Ninguém sabe quando os donos do dinheiro vão
começar a cobrar muito mais para emprestar a governos com endividamento
crescente.
Ninguém sabe quando esses ciclos de
superinvestimento (ou,
talvez, bolhas) em novas tecnologias murcham ou explodem. Pode ser em
outubro. Pode levar anos. Depois dos primeiros alertas, a bolha
"ponto.com", de internet, levou
quase meia década para explodir, em 2000.
O que temos visto são ondas curtas de febres,
sintomas de problemas ruins nas economias, no caso sintoma de dívidas enormes,
que aumentaram muito no pós-crise de 2008 e na pandemia e não foram contidas. O
que se vê nessa febrinha de agora é que o fenômeno tem afetado ao mesmo tempo
EUA, Europa e Japão. O Brasil vai junto.
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