quarta-feira, 19 de agosto de 2026

PT atrela futuro à saudade do passado, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Aposta no culto à personalidade leva à conclusão de que Lula seja o único ativo disponível aos petistas

Trajetória de luta e superação não oferece as respostas necessárias ao enfrentamento dos desafios do país

Luiz Inácio da Silva mais uma vez, e como sempre, cultuou a si no primeiro ato oficial de uma campanha em moto contínuo desde que a anterior oficialmente terminou, em outubro de 2022. Lula, sem dúvida, é o principal ativo do PT; a insistência na exaltação da figura alimenta a suspeita de que seja o único.

O partido se propõe a comandar o país pela sexta vez em 24 anos e o que lhe ocorre fazer para convencer o eleitorado a aderir ao plano é apresentar um muito bem montado e produzido show de sessão nostalgia.

Um espetáculo para lembrar a quem não se lembra ou não viu acontecer a trajetória de superações e lutas do "brasileiro igualzinho a você" —como diz antigo slogan—, que escapou da fome, virou líder sindical, capitaneou a esquerda no país, enfrentou prisões, elegeu-se presidente e agora se propõe a bater o próprio recorde do terceiro para o quarto mandato no comando da República.

Itinerário vitorioso e incomum o bastante para justificar o destaque do personagem na política do Brasil.

Capital insuficiente, contudo, para oferecer as seguintes respostas aos cidadãos e cidadãs, saudosistas ou vanguardistas: 1 - como vai se dar (se é que vai) o crescimento para o país sair do atraso e entrar no primeiro time das nações; 2 - quando e de que modo o Estado será eficiente no fornecimento dos serviços obrigatórios; 3 - qual o compromisso efetivo com a estabilidade econômica e as contas públicas ajustadas; e 4 - até que ponto há disposição de investir no reequilíbrio entre os Poderes.

Nenhum dos demais oponentes toca a fundo nesses temas, além de passarem ao largo da urgência de se retomar territórios e frear o avanço da dominação pelo crime organizado.

Ficam todos devendo, embora o ônus da cobrança caia mais fortemente sobre Lula. Não sem motivo: em quase 12 anos de mandato não usou sua popularidade nem os dotes de excelsa criatura que julga ter para fazer enfrentamentos, implementar reformas necessárias e mexer de fato com as estruturas patrimoniais envelhecidas do Brasil.

 

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